Irreal
Não sei teu nome, mas tu estiveras em meus sonhos esta noite. A escuridão beijava todo o meu quarto e o fervor lânguido incitava minhas lamúrias…
Não sei teu nome, mas tu estiveras em meus sonhos esta noite. A escuridão beijava todo o meu quarto e o fervor lânguido incitava minhas lamúrias. Porventura eu estivesse fragilizada, no entanto, eu bem sei como foi aquilo tudo... tão lúcido. Teu olhar vívido observava-me lascivo, tu estavas do outro lado da rua e, como era um sonho — quão doloroso dizer isso — tudo, com exceção de nós dois, era estranho e vago. Então, caminhei; naquela travessia lenta e silente. Guiada pelos teus olhos como se eu pertencesse às tuas mãos.
Encontramo-nos, frente a frente, e senti o seu toque em minha nuca, conduzindo todas as minhas sensações mais febris. Logo depois, na cintura, puxaste-me contra ti que, rígido, ansiava por mais intimidade. Guiaste-me para o beijo tórrido e úmido, e todo o teu plenitúrgido desejo me estimulava. “Mais...” — eu gemia. Já não estávamos mais ali, de súbito era apenas uma cama, e teu corpo me prensava contra o colchão. Eu implorava... e vi, com a perfeição de uma estátua de marfim, tua penetração profunda e firme, contínua e extasiante. Tu conduzias, com a tua fúria viril, cada vez mais forte. E juro que ouvi o teu gemer, grave em meu ouvido, e despertei quando o prazer já não suportava permanecer no mundo onírico. Acordei trêmula, com o corpo em ápice de luxúria, um orgasmo arrebatador e um desnortear que fez com que eu demorasse alguns minutos para entender o que ocorrera.
Eu desejei que fosse real. No entanto, a solidão sorria para minha alma ofegante. Então decidi escrever-te, mesmo que eu saiba que tua existência é imaterial. Ainda assim, o que senti foi mais do que tangível e se de fato nunca mais o encontrarei vagando pelos meus mais lúcidos sonhos, que assim seja. A eternidade daquele momento nosso já me bastou. Confesso, no entanto, que buscarei teu semblante em todos os rostos que cruzarem meu caminho de agora em diante.
Tempus Fugit III
Alguém verá esta noite, que estrelada, | A sós vislumbro em toda a imensidão? | E mesmo que a perceba agraciada | Compreende seu sabor de solidão?…
Alguém verá esta noite, que estrelada,
A sós vislumbro em toda a imensidão?
E mesmo que a perceba agraciada
Compreende seu sabor de solidão?
Alguém, sentindo a aragem tão sutil,
Enquanto a escuridão é mui soturna,
Talvez encontre lá, sentidos mil,
Os quais estão, p’ra mim, na fé sonurna...
Ó, quanta vastidão, do firmamento,
Assombra, pois, infinitesimal,
Mui faz do meu haver — triste relento;
Soterro-me em vazio adagial...
— O sopro d’uma vida passadiça —
Andar errante à sombra fronteiriça
Das horas no relógio arterial.
Vontade
Lugares em algures insondáveis, | Tuas mãos que manipulam com ardor... |Se, Dono, tenho as dádivas amáveis | De estar sob teu jugo, por amor,…
Michael Zichy
Lugares em algures insondáveis,
Tuas mãos que manipulam com ardor...
Se, Dono, tenho as dádivas amáveis
De estar sob teu jugo, por amor,
Então resido à alcova do deleite,
Infindo, níveo, doce liquor forte,
Divago e me sorris, sorves do azeite
Na vulva minha e a tez que tem a sorte
Ao manto da dantesca autera essência,
A tua violência em meu prazer
Ó, fira-me, penetra-me... dolência...
Murmura... Sim... Sufoca-me p'ra ver
A lágrima que nasce só por ti,
Imploro açoite como não senti,
Assim faça ao limite eu m'envolver.
Promessa de Solstício
Amado, esta invernia quando vem, | Na tua serenidade apaziguante, | Almejo o aconchego que nos tem | Somente em nosso leito lacrimante;…
Amado, esta invernia quando vem,
Na tua serenidade apaziguante,
Almejo o aconchego que nos tem
Somente em nosso leito lacrimante;
No peito teu deitar-me aquecida
E penso: a eternidade fulgurante
Protege nosso amor e faz da vida
Promessa de um só vínculo constante;
Tu me és tenro perfume de memórias
Em tanto formidáveis, por cuidado,
És lume, amor, pr’a toda a nossa história…
Segredas-me que estás propositado
A ouvir-me parolando as minhas juras,
Zelando, assim, sereno a mi’a candura…
Promete sempre estar, pois, ao meu lado?
Seth
Orquídeas negras tecem a ninguém, | Silêncio aveludado no jardim, | Apresso-me temendo vir alguém | Desperto pelo…
Orquídeas negras tecem a ninguém,
Silêncio aveludado no jardim,
Apresso-me temendo vir alguém
Desperto pelo horror do olor carmim;
Perfiz todo o balcedo estéril e vi
A névoa cinerária se achegando,
Tão tácita espargia — eu m’envolvi…
Sua lôbrega humidade circundando;
Desvelo, cinza e triste vilarejo,
Porém, ao meu espanto, flama à vela
E o som d’um tragimorbo realejo…
Vertigem brusca, bagas de Glïzehla
Nas mãos de humana tez, viril demônio,
Semblante tão terrífico em adônio —
“Não temas teu Arcanjo, bel donzela”.
Sonura d’Inverno
Cinéreas nuvens, frio — e a quietude, | A fina chuva, o aroma: há sopa quente | Nos prédios, casas, lares: placitude; | Debaixo, em cobertores — quiescente;
Morning Mist Oil Painting - Eduard Panov
Cinéreas nuvens, frio — e a quietude,
A fina chuva, o aroma: há sopa quente
Nos prédios, casas, lares: placitude;
Debaixo, em cobertores — quiescente;
A névoa esparge calma — anoitece,
Cidade, outrora célere, amansou,
E a estranha sensação que se alvorece
Da vida, é a nostalgia — que invernou;
É julho… o tempo passa e as horas vão,
E as lágrimas me regam ternamente…
Humanos esplendores, que canção!
O sono pesa as pálpebras e, à mente,
Habita as fantasias das infâncias,
Do sonho ao despertar, equissonância
É o nosso mais hermético presente.
Fada
Penugem de mil cântaros de flor, | Pois feitos de suas pétalas o são, | Tesouro de segredo arcano e cor | Carmim enegrecido…
Water Nymph, 1907 - Paul Swan (American, 1884–1972)
Penugem de mil cântaros de flor,
Pois feitos de suas pétalas o são,
Tesouro de segredo arcano e cor
Carmim enegrecido co' o artesão;
Guardei no meu jardim, e a cerejeira
De orvalho fez enchê-lo a transbordar,
Previ que tombaria e à laranjeira
Levei para o perfume se agregar;
Mais tarde adormeci e um lume leve
Fulgores fez às pálpebras tão minhas
E vi lá no jardim voando breve
Singela criatura e suas asinhas
Sorvendo do licor aromantado
Na beira do meu cântaro rachado,
Depois ornou com luz as tristes pinhas.
A Insondável Redenção
Ouvia o sussurrante estridor do rígido inverno e o pálido horizonte nevoado assustava-me em sua imensidão anilada…
Ouvia o sussurrante estridor do rígido inverno e o pálido horizonte nevoado assustava-me em sua imensidão anilada. Estes meus incrédulos olhos nunca estiveram de frente a tal terrífica paisagem; tampouco o fremir das ondas sonoras deste estranho sibilar penetrara meus tímpanos alguma vez. No mais longínquo do que eu podia observar, as cordilheiras negras preenchiam uma infinitude sombria e, detrás das nuvens glaciais, havia o sol remoto— eu sei, pois seu reluzir fantasmagórico manifestava-se pelas céleres clareiras repentinas, como rachaduras no céu, eram raras frestas de lume solar, cada vez mais infinitesimais. Facilmente, debaixo daquela intensa nevasca, nada sobreviveria.
A flama que crepitava na lareira era um vagalume na vastidão azul-grisácea, tomada pelo seu imanente índigo. A madeira da cabana ilusionava-se mais escurecida e úmida, algo deveras insólito; em certo aspecto, parecia envelhecida. Minha percepção era de que a morte, em sua mais bruta manifestação, fomentaria um pavor verossímil à vívida crueldade da natureza climática. Apesar dessa mórbida verdade, a morte era a entidade que espreitava, na sua escuridão, as minhas visões paralelas; como três olhos fundos pelos cantos imersos em um estranho breu, onde a brasa, lânguida, não tateava. Antes do enregelar fúnebre, almejado pelo espectro de Exício que circundava, eu sentia que quando o sopro tétrico do exterior extraísse minha única fonte de aquecimento, o sibilo da insanidade causaria o efeito que narrava em seus decibéis e, então, eu cortaria meu pescoço com a lâmina de tungstênio da minha faca de caça.
No antro de minha existência, jamais cogitei tal medonha blasfêmia. O sibilo do vento antártico insinuava uma influência perversa, tanto quanto o espreitar da escuridão. A vida, em suas quedas mais abismais, tecera cenários terríficos que assombraram meu âmago, sob angústia e medo, no entanto, jamais ao nível daquilo — e não me refiro ao sopro diabólico da nevasca, tampouco às intimidantes trevas da cabana. Quando já não me era possível permanecer sob a frágil luz da última lenha queimada, protegi-me com o traje adequado, reforçado em razão do nível de horror branco no lado de fora; por instinto peguei alguns itens, como a faca de caça, uma corda, um candeeiro e suprimentos. Meu destino era o casebre da lenha, lar de Gahsper, meu irmão. Não ficava muito longe dali, aliás, deveria ser visível da fenestra do meu quarto, se não fosse o mal tempo.
Andejar na árdua neve acumulada, com a frígida e impetuosa aragem, assemelhava-se às veredas dos vales das montanhas mais afastadas, as que se enegreciam no horizonte. Tive de armar os báculos para me locomover com mais segurança, no entanto, o casebre de lenha não se desvelava à frente e, em minha análise, nele eu já deveria ter chegado. Quando fitei a bússola estagnada, completamente inerte, entendi que o pressentimento amargo não advinha de uma fraqueza mental, pois algo estava, sem dúvidas, errado; uma aura perigosa cingia-me de modo que, impossível de voltar à cabana para morrer de frio, segui com rapidez arriscada, à frente. Quando encontrei uma poça de líquido vermelho espargido na pálida neve cerúlea, n’uma cor vívida, como se tivesse sido vertido há segundos, empunhei a faca de caça e segui na direção da poça que permeava um corpo indistinguível. Como previ, sangue. O que... aconteceu aqui? E a pobre criatura estraçalhada, decapitada e devorada, era humana. Era Gahsper. Gahsper...
Nunca senti o tétrico gelar da minha alma, mesmo vivendo há tantos anos em Nehen. Ainda, pelo rosto de meu irmão, assombrado em um pânico indizível, por certo, aquela morte não fora causada por um animal selvagem. Seus olhos estavam arregalados, as pupilas congelaram dilatadas. Nunca esquecerei o seu semblante dantesco, nem o seu sangue vertido — a única cor naquela brancura desoladora. Aquilo era tão obsceno e… pavoroso…que não pude chorar, pois, o temor impedia qualquer alarde emocional e, até hoje, inibe. É verdade que por esta razão, tudo o que escrevo é tão frígido quanto o fenômeno daquele dia; eu não sinto nada além do medo, visceral e íntegro, como uma chama no peito, acesa no perpétuo dos meus pesadelos, incitando-me à lembrança hedionda. A opressão deste pânico silencioso arruinou muito do que havia de contentamento em minha vida, pois me ronda, desde então, aviventando o pavor e a solidão que me residem.
Retirei a corrente de Gahsper, ela repousava no sangue; observei os arredores e guardei o objeto no bolso. Ainda cogitando voltar para a cabana, olhei na direção do meu rastro na neve, prestes a se perder no nevoeiro de gelo. Então, meus olhos viram o que fez meu coração disparar frenético em um macabro assombro. O sussurrante estridor do rígido inverno expandiu-se agônico de modo que meu crânio padeceu, no imediato instante, de uma dor aguda em cada têmpora. Um homem, é o que ele parecia, em uma nudez dismórfica, estava há poucos metros de distância de mim. Sua pele descamava e uma carne enegrecida e pútrida, mesmo longe, podia ser vista por detrás da cútis. Seus braços eram finos, seus olhos enegrecidos eram como dois poços profundos; havia sangue em seu rosto, mãos e torso. Ele fitava meu espírito como somente uma criatura do inferno poderia fazer. Seus dentes eram afiados, ele possuía vários em sua boca oval, e ao contorno da sua silhueta deformada, uma aura de breu, a mesma da cabana, o cingia. No centro de sua face medonha, havia um terceiro olho n’uma metamorfose bizarra na cavidade encarnada de seu nariz. De todos os orifícios de seu corpo absurdo em bestialidade, um escuro líquido espesso gotejava.
Eu desviei meus olhos da morbífica criatura humanoide e me apressei, ofegante, entre o sopro terrífico que se difundia cada vez mais violento e a paisagem que se tornava, em segundos, mais pálida. A caudalosa invernia, pela nevasca mais perturbadora que já vi, não cessaria; se aquela coisa sinistra me seguiria, eu não deduzi; ao guia de meu mais abismal pavor, apenas corri como me era possível, afundando na neve já embriagada de seu próprio poder destrutivo. Mas, reconhecia meus limites; do meu corpo a fremer de frio e horror, enquanto a imagem das vísceras de Gahsper vinham à minha mente ao lado dos dentes afiados e dos três olhos repulsivos e lôbregos; lampejos de um pesadelo no qual não se pode despertar. Assim fui consumida por uma ansiedade, talvez pela certeza de encontrar a morte de fato, da pior maneira; talvez porque eu não desejasse morrer, pois que eu amava, no mais fidedigno da minha essência, o poético viver naquela cidade perdida e consumida pela noite. Amava, também, todo aquele continente, pelos trens aquecidos, os quais eu viajava por longas horas e até mesmo por dias; pelos mistérios de seus habitantes que me ascendiam a um sentimento de vínculo profundo que galgava os entraves climáticos. Talvez porque eu ainda não tinha sido amada, tal como fora a minha mãe, pelo meu pai, por mais de cinquenta anos.
Afundei na neve nívea quando vi no céu as sombras fúnebres perpassarem com a chegada da noite. Ofegante cada vez mais. A escuridão era quase tangível, achegava-se como o vento pujante e se não mente a minha lembrança, a vi distorcer-se em determinados momentos, como se dançasse junto à nevasca, como se fosse sobrenatural. E eu, eu não conseguia correr nem mesmo um metro à frente. Avistei partes de uma torre ao longe, eu decerto estava próxima de um possível abrigo. Era tarde demais, como geralmente é quando encaramos demais o semblante da morte. A visão que antecedera o meu desmaio, fora da plenitude noturna e daquela mesma sensação que tive na cabana… o estranho breu que parecia me encarar com três olhos… ali, no entanto, diferente de antes, eu sabia muito bem que tipo de coisa me encarava daquela forma na escuridão.
O sopro da morte álgida, em frações de tempo, dissipou-se. O silvo se fez rarefeito, um símbolo à lembrança perturbadora. Meus olhos se abriram com uma lentidão difusa e queria eu ter visto a madeira da cabana e ouvido o crepitar na lareira, estalando a lenha; seria, inclusive, aceitável estar debaixo de um monte nevado, sentindo meus membros necrosarem. No entanto, nada disso era factual. Quando fui capaz de distinguir as sombras no verter do fluído de minhas retinas — as quais, cobertas pelas pálpebras, descansaram sabe-se lá por quantas horas — então, avistei paredes de pedra úmida e ouvi sons de correntes coincidentes aos meus movimentos. O que... o que é isso...? Meu corpo frágil desidratava, olhei em direção ao som ferroso e vi uma grossa argola enferrujada a prender meu tornozelo a uma corrente fundida na parede rochosa. Arfei trêmula, puxando a corrente diversas vezes. Foi em vão. E pairava um contínuo ruído por aquele ambiente sanguinolento, eu ouvia minha respiração cada vez mais acelerada, destacando-se no ruído. Esperei a morte, com duas faces: meu corpo decepado sobre a poça vermelha, como Gahsper, e ser necrosada até a morte pelo frio cruel. Todavia, estava encarcerada; nada do que eu poderia prever.
Fica... calma... Um enjoo germinou pútrido no meu estômago, decerto ocasionado pelo odor de plasma, de morte, de umidade. Turva, levei minhas mãos ao rosto, qualquer alívio seria suficiente. Então vislumbrei minha possível e única saída, advinha dela uma luz trêmula e fraca de pontos longínquos de luz por um corredor estreito; um lume que permitia as sombras do gradil se propalarem pela minha cela. Nestas grades arqueadas, contudo, um corpo jazia... contorcido. Discerni algumas coisas ao seu respeito, pois, a visão era limitada. Primeiro, o que me era mais inestimável, um molho de chaves esplendia em sutileza, resvalando do bolso do indivíduo; e seu cadáver vestia um tipo de traje específico, símil a uniformes usados pelos Humanos da Ordem, quando se erguia o inverno no continente acima. Era mais que fundamental alcançar o falecido, mesmo que para isso fosse inevitável uma irreparável perda. Não tenho escolha... Então comecei a esticar meu corpo, apoiando-me no chão enegrecido e sujo. Eu sentia a argola enferrujada rasgar a pele de meu tornozelo, um suor intenso escorria de minha testa e o enjoo se intensificava. Eu... me lembro... me lembro do quanto as emoções foram suprimidas e, meu corpo, distendido; lembro da minha carne sendo penetrada por aquele grilhão oxidado, a dor... a dor inominável... e o grito escravizado pelo medo sob as asas da mais verossímil aflição.
Alcancei as chaves e me libertei das correntes. Mas vi os ossos e tendões de meu calcanhar, tudo esfolado em uma ardência que parecia subir aos nervos de toda a perna esquerda. Aquela cena foi o meu estopim. Regurgitei tudo o que me era possível, à espera de expelir, talvez, minha própria alma. E quando fui capaz de cessar o vômito, percebi o perigo daquela perda excessiva de sangue. Rasguei a roupa do cadáver para envolvê-lo em mim, para extinguir o que vertia contínuo. Retirei do sujeito uma adaga, fincada em seu tórax — algo que vi ao abrir as grades do cárcere. Sim, eu caminhava, lenta e com vívida dor, mancando, decerto e apenas, por causa da adrenalina. O defunto nas grades, usava em sua face uma estranha máscara negra que escondia sua feição, ilusionava estar unificada à pele de seu rosto; de uma estranheza terrífica. Já o corredor, segui cambaleante por sua amplitude, no lado direito cuja luz espargia fraca. Fui buscando uma saída do pesadelo mórbido que preenchia todos os meus debilitados sentidos.
Subi por escadas longas e vi mais celas e corpos mutilados pelo caminho e era... tenebroso... ainda mais pelo contínuo ruído baixo... como se aquele lugar fosse vivo.... cada parede de pedra... cada sangue jorrado... algum tipo de energia. Dentro da última sala, após me esgueirar por escombros, encontrei um candeeiro e mais uma adaga, a qual, todavia, diferente da anterior retirada do torso do homem no gradil, esta era feita de algum tipo de material peculiar, como um quartzo bem rígido. Subi, portanto, mais uma quantia de degraus e entre o ruído aterrorizante, vozes longínquas passei a ouvir enquanto um cômodo se revelava à minha frente; sua amplitude era considerável e tinha um formato encíclico, nele difundia-se uma luz avermelhada que evidenciava altas estantes cheias de livros e mais dezenas de símbolos estranhos pelo chão e paredes, organizados criteriosamente. Pensei que encontraria a origem das vozes, cada vez mais altas em meus ouvidos como sussurros de morte, socorro e gritos abafados entre palavras indescritíveis. Contudo, ao adentrar de vez pela porta semiaberta e fitar cada detalhe daquela ritualística câmara, nada havia lá dentro... ninguém além de mim... enquanto as vozes tornavam-se verdadeiros bramidos.... Alessia... Alessia... aos meus tímpanos... Socorro... Ajuda-nos... Alessia... Socorro... Ajuda-nos... como se dezenas de pessoas estivessem ao meu redor.
Choro morbígero, urros bestiais... as vozes cada vez mais altas entre risos distorcidos... Alessia... Salve nossa alma... Socorro.... Enlouquecida, ajoelhei-me no chão, tapei meus ouvidos em busca de alívio, mas... aquilo estava dentro de minha mente... Alessia... inclusive a voz de Gahsper. Entre tantos clamores bizarros, eu o ouvia... Irmã.... fuja... fuja agora... minha... Alessia... Fechei meus olhos, cerrando minhas pálpebras em busca de um despertar. As lágrimas caíam de meus olhos vedados à força, verdadeiras como na infância, quando não se sabe de onde vem a primeira dor sentida... De súbito, porém, entre as frases e gritos desconexos, logo fitei a sala pelo pavor de sentir a presença de outro ser no ambiente... Ninguém... ninguém que podia ser reconhecido pelos meus olhos amedrontados. Comecei a retroceder, tendo aquela presença invisível cada vez mais próxima... arrastando-se contra mim, fazendo-me de imã à sua atroz consciência inominável. Socorro... Cuidado... Morra! Morra! Ajude-nos! Foi... extremamente difícil sair daquele lugar... o fiz com extensa agrura, fechei a porta da sala carmesim e empunhei a primeira adaga de ferro entre a porta e a parede, impedindo-a de ser aberta por dentro. Não importava saber o que havia naquele lugar, mas, decerto, importava-me trancar, o que quer que fosse, lá dentro.
A insanidade prospera quando o horror irriga o espírito... e nunca sabemos como lidar com tamanho abismo, por isso, somos sorvidos pelo estado catatônico de nosso semblante e pelo instinto à sobrevivência... a qualquer custo... a qualquer preço. Mesmo à parte daquele salão de espectro aterrador, em estado de perturbação, com as vozes já dilatadas, eu corri numa pressa sobre-humana, abrindo todas as portas que via e entrando em todas as salas que eu podia em busca da saída. Corri... sem questionar como... sem sentir nenhuma dor no tornozelo... e encontrei a primeira luz pálida vinda de uma imensa porta meio vertical, em uma cor prata, lisa, com um único símbolo estranho, entalhado no material, algo jamais imaginado por mim ou por qualquer outro ser humano, tenho certeza. Ela estava entreaberta, a fresta de luz também carregava o frio e a nevasca hedionda, a esperança de sair outra vez na densa neve nunca me soou como tamanho alívio e proteção, mas ali me soava.
Uma sombra, entretanto, parou frente à fissura e ouvi uma voz humana masculina, grave e avultada, proferindo a seguinte palavra: “Ttyrttyuor” — deduzo sua grafia. Sob seu som, a porta cujo lume de seu exterior era minha única esperança, abriu-se em completude de modo a exasperar meus olhos. A palavra era a sua chave. Esgueirei-me em escombros próximos e notei serem duas pessoas, uma delas vestia-se como o guarda da minha cela. O outro sujeito, porém... era uma opaca sombra indistinguível na escuridão, uma silhueta de um homem alto com uma face oculta — não busquei olhar sua face vazia, nem mesmo compreender a sua existência... ele era como a energia pesada daquela sala... sua presença assemelhava-se àquela do cômodo escarlate como se fosse, ele próprio, o cômodo em si. Escondi-me como pude, prendi minha respiração.
— Certifique-se de que todos estão mortos, prenda-os se não estiverem. Estarei no anfiteatro sangrento. — Arrepiava-me ouvi-lo, era temível estar em sua presença abissal. Ainda assim, dediquei-me ao silêncio e respirei apenas quando estava prestes a esmaecer mesmo depois de não sentir mais a proximidade deles, no dissipar daquela energia diabólica. Retornei, portanto, à porta fechada, sem nenhuma fissura de luz; e restou-me pronunciar o que ouvi... e o fiz, em sussurro, com os lábios bem rentes ao símbolo esculpido.
— Ttyrttyuor... — Uma intolerável dor cingira-me repentina, pulsando meu organismo como um pêndulo que se abala, dramático e solene, no antro de uma catedral; e vi minha pele rasgar em inúmeros cortes onde o sangue verteu célere e vigoroso e tomou a forma do símbolo entalhado. A porta se abriu em um segundo posterior e, imersa em pungente algia agônica, corri pela neve... desesperada... sem olhar para trás, com o rastro do meu sangue na palidez e o cruel sopro gelado coagulando, aos poucos, as cissuras da pele. Eu jamais pronunciarei aquilo outra vez... muitos daqueles cortes permaneceram em minha pele... mesmo após tantos anos. E, como se ainda fosse vivido, a energia hedionda daquele homem... daquela sala... afluiu-se pelos poros de minha pele, à minha carne, ossos e sangue vertido... senti perder o controle de minha alma, por átimos de um tempo além do tempo... e quando vi a neve, quando corri para minha liberdade, eu estava... instável... desnorteada e... oca...
À beira da morte pelo frio, correndo sem cessar debaixo da eterna nevasca, tive a impressão de ser cercada por escuridão, outra vez, a energia... deduzi que era a morte ou a proximidade dela, todavia, a luz retornou às minhas retinas como se cobertas, tão somente, por uma espessa nuvem passageira, então, quando tive de volta a minha visão, percebi haver casas à frente, era uma vila desconhecida; luzes tremeluziam nas janelas de algumas delas, pinheiros indicavam vida aos arredores e, se posso dizer que sorri, naquela condição desgraçada, não estaria mentindo, pois algum tipo de sorriso construiu-se em meu semblante traumatizado quando observei um homem na janela de uma das primeiras casas avistadas e, com minhas últimas forças, levantei meus braços para sinalizar minha decadência, meu pedido de socorro.
— Como está o chá? — A voz de Samael era suave, embora viril como seu rosto. Abriu a porta de seu lar para mim, sem saber quem eu era. Ao ser acudida por ele, tive os cuidados mais inestimáveis; e deitada entre as cobertas tórridas, frente à lareira mais serena, tomei de seu chá de especiarias. Conversamos um pouco, não o revelei minha terrífica história.
— Perfeito... — murmurei, ainda exausta.
— É impossível sobreviver a tal nevasca... o Criador tem planos para a tua vida... tenho certeza...
— Criador? — Eu não entendia, genuinamente. Samael olhou-me atento.
— Tu não és de Múrmura? — Demonstrei desconhecimento através de meu silêncio angustiado.
— Estranho... Tens a marca de nascença de todos os múrmuros... No seu tornozelo...
Então olhei, pela primeira vez desde a cela, quando me turvei pelo sangue, pelos ossos expostos, pela mórbida dor... eu olhei para meu tornozelo. Nele residia um imenso estigma, uma perfeita cicatriz contornando todo o espaço onde fora corroído pela argola enferrujada quando eu estava naquele inferno. Sobre parte desta cicatriz, um símbolo estranho estava marcado, como se feito à ferro quente em minha pele. Tudo, porém, curado. E jurei ter visto o mesmo emblema naquele quarto escarlate, quando caí no chão, perturbada pelas vozes. Samael mostrou-me o mesmo símbolo em seu braço direito e explicou-me que advinha do batismo sagrado realizado com os recém-nascidos por toda a província em que estávamos.
— Tu estás em Múrmura, estranha-me que sejas de Nehen, pois... não existe este lugar... quero dizer... é uma província denominada “fantasma”, lugar aonde não se chega, a menos que sejas guiado por Lúcifer.
— Lúcifer? — Minha cabeça doía, minhas mãos tremiam a cada fisgada em minhas têmporas.
— Acalma-te, Alessia... — Samael sentou-se ao meu lado, levando à minha fronte um cálido pano banhado outrora em águas fumegantes. — Não te entulharei com indagações ou explicações agora, perdoe-me. Descanse... os próximos dias serão melhores, eu prometo.
Os dias foram, de fato, melhores, no entanto, a lembrança perdurou a cada adormecer; não posso esquecê-la, mesmo sob a benção do Criador que, hoje sei, esteve comigo a todo o momento, embora eu não compreenda como poderia aquele antro horrífico carregar um símbolo sagrado, igualmente desconfio de como pude não ser assassinada enquanto fugia, visto que, não há como negar, aquele homem sombrio e sem face possuía um poder diabólico que, sob uma impiedosa habilidade, me desolaria em segundos. Ainda assim, eu fugi... e desde então, tudo se fez reminiscências de um pesadelo. Mantenho o colar de Gahsper dentro de minha Bíblia e, no baú, a adaga de quartzo negro. Não compreendo, não vejo lógica ou explicação que possa elucidar o horror que vivi, por mais que eu tente pensar — e aqui escrevi com esse intuito —, parece que quanto mais insisto, mais distante de uma resolução eu me encontro. Eu continuo sem compreender... talvez seja, realmente, melhor assim.
Firme Presença
Amor... Quão fascinante a tua firme presença. Vejo em teus olhos um lume sombrio de intensa paixão. Sinto falta e anseio por mais…
Jean-Frédéric Waldeck
Amor... Quão fascinante a tua firme presença. Vejo em teus olhos um lume sombrio de intensa paixão. Sinto falta e anseio por mais. Pouco esperei de nossa noite naquela manhã, é certo que eu compreendia as tuas intenções, todavia, amor, as tuas mãos são maiores do que previ e tua violência mais amável do que ideei. Preferia tê-lo encontrado em LaePasih, mas preferiste me pegar na chegada. Não te questionei e como poderia? Tua voz me obrigava a te obedecer. Senti-me segura contigo, conversávamos naquele carro coisas quais os homens comuns nunca falam. Mas tu, singular, não teme assunto algum.
Não sou capaz de esquecer teu poder viril. Encanta-me ter estado de joelhos aos teus pés e tê-lo beijado longa e profundamente até que me fosse impossível respirar. "Posso facilmente amá-la" — tu disseste enquanto esperávamos no aeroporto. "Isso é algo ruim?" — indaguei-te e tu sorriste com uma seriedade que eu não sei descrever. "Certamente." — respondeste e eu compreendi, amor, que o teu amar é um perigoso dada a abissal intensidade verossímil de teus sentimentos. Naquela cama macia, colocaste-me a sorver de ti, túrgido e imponente. E sorvi. E sorveria toda a noite, como tua mulher, orgulhosa em ter nossa aliança até que a morte nos separe.
O Ardor da Sexualidade Feminina
Esse texto é para maiores de dezoito anos. Contém linguagem sexual explícita e pode conter ilustrações do mesmo teor…
A sexualidade feminina fora uma questão obscura ao longo da evolução humana, em razão das constantes opressões ao gênero e, principalmente, a partir da cristianização dos povos e a demonificação das religiões pagãs. Isto é, crenças levaram as mulheres a servirem aos homens como objetos reprodutores e donas de casa; muitas destas mulheres, inclusive, sequer podiam escolher seus pares, dado que os vínculos relacionais eram decididos pelos pais — e não pelas mães — dessas jovens.
Com o passar dos anos, a evolução natural da ciência e da tecnologia foram a liberdade encontrada para que as mulheres tivessem voz, além do falecimento de antigas ordens, leis e doutrinas violentas que conduziam à opressão e, portanto, eram continuamente colocadas em debate pela população e isso acontecesse às margens dos grandes e poderosos homens da época. Todavia, a partir dos anos oitenta e seguindo de forma crescente, as mulheres passaram a decidir por suas vidas, amores e desejos, embora ainda permaneçam na classe de indivíduos explorados pela sociedade e que encontram dificuldades ímpares para terem uma vida digna.
Os homens confundiram e confundem quem são, tornaram-se os vilões quando deveriam ser os heróis. Mas, para ser um herói é preciso autoconhecimento e altruísmo, coisas construídas a partir da autoconfiança e boa educação dadas desde a infância. Uma sociedade que falha em sua educação infantil, falhará em suas leis e ordens, as quais serão definidas por essas mesmas crianças, no futuro. Os homens possuem, em sua maioria uma fúria que os caracteriza — esta não se exprime sempre pela raiva ou comportamentos violentos, a raiva se expressa também na busca pelos seus objetivos e sonhos com mais gana, ou mesmo na insistência em de dedicar a um trabalho ou relacionamento; até na intolerância e nas lágrimas está a expressão da fúria.
Em meus artigos, raramente o leitor encontrará uma fonte científica que prove o que digo, pois que meu objetivo nestas linhas é invocar o exercício do pensamento e não provar a realidade. Peço que meus leitores avaliem, por si próprios, aquilo que existe no mundo a partir do que eles conhecem e dos novos pontos de vista explorados. Acredito que possuir conhecimento, seja qual for e em especial àquele que se é estudado, pesquisado e comprovado, é de extrema importância, todavia, no meu espaço como escritora e humana pensante, eu proponho outro tipo de compreensão de mundo. Então comecemos com a observação da fúria dos homens, vista inclusive pela capacidade deles de dominarem, por bem ou por mal.
Antes que te venha de encontro o pensamento a respeito do gênero como definição de personalidade, é importante esclarecer que a personalidade é sim definida pelo gênero, mas não só; somos seres plurais e adaptáveis, moldáveis pelo ambiente, amizades, amores, traumas, vivências no geral; não nascemos prontos e somos um conjunto de possibilidades. Nossa biologia é uma parte dela, portanto, ao fazer o seu exercício de pensar, você perceberá que contra os fatos, não há argumentos. Se a biologia individual não tivesse valor, também não teria valor a medicina. O sexo biológico vai influenciar a sua personalidade e existem características que o compõe, você querendo ou não. E assim é com os homens, que possuem essa fúria, seja qual for a manifestação dela. Mas, e as mulheres, nunca possuem fúria? É isso que estou dizendo?
As mulheres não possuem fúria, elas possuem ardor; é um pouco diferente, no entanto, os princípios são bem parecidos. O ardor possui o mesmo ímpeto da fúria, no entanto, carrega consigo uma sensibilidade maior e mais ponderada — e não estou falando da sensibilidade enquanto o ser-se sensível, isto é, frágil; não, estou falando da sensibilidade no sentido de percepção aguçada. As mulheres percebem melhor o seu universo ao redor, detalhes que fazem profundas modificações nos maiores fatos e, mais uma vez, este ardor vai se desenvolver junto com dezenas de outras influências, portanto, ele aparecerá em intensidades variadas a depender da mulher, mas sempre estará em todas. E, justamente, este ardor é que conduz boa parte da sexualidade feminina, a qual se expande pela percepção aguçada dos seus sentidos no aspecto lascivo.
As mulheres possuem desejos sexuais intensos, está em seus hormônios e em suas vivências, as fantasias conduzem suas mentes e estas não coincidem com a imagem sacra postulada pela religiosidade e cravada na consciência dos homens. Então, toda as mulheres são sexuais? E as assexuais? — Você leitor, exercite o seu pensamento com calma e cautela, e responda você mesmo a essa indagação. Ou volte ao início do texto, a resposta está lá quando me refiro a intensidade individual dos aspectos biológicos. Agora, retornamos, esse desejo que as mulheres possuem são, por vezes, reprimidos por elas mesmas desde a infância e por aqueles que estão em sua convivência; e sim, os desejos sexuais afloram mesmo na infância, mas, é evidente que não são como os nossos, nós que já somos adultos; eles possuem uma natureza própria que não nos cabe interferir — é um processo natural e particular da criança, nos cabe apenas ensinar o que é preciso a respeito do funcionamento social e guiar, com uma boa distância, orientando seus passos iniciais pela vida.
Isso, a repressão, altera toda a dinâmica adulta, as mulheres que se oprimem e são oprimidas na infância, terão profundas dificuldade em relação à sua sexualidade. Em razão de seu ardor, muitas acabam por converter seus desejos em ansiedade e vícios. Outras criam sentidos para suas vidas conduzidas por essa opressão. Cada uma lida de uma forma, mas, mesmo sendo uma “boa” forma de lidar, se a repressão e a inconsciência a respeito da sexualidade continuam existindo, nunca será um desfecho suficientemente bom. A escolha consciente é a única que merece confiança; então, se você está sendo “guiado” por uma “força maior” que define o que você faz, o que você gosta e como você lida com a sua sexualidade, desconfie e não deixe isso permanecer assim — mesmo que essa força seja um “instinto”. Nós somos animais racionais e o que nos difere dos outros animais é a racionalidade, então, devemos usufruir dela. O mesmo acontece com mulheres que foram abusadas por adultos na infância, isso destrói a sexualidade, confunde e arruína o ardor pertencente a ela. O abuso é uma forma de opressão.
Percebo, por mim e pelas mulheres que conheço, que a vida sexual delas é oprimida. Elas não se sentem confortáveis em seus próprios desejos, muitas deixam de lado suas vontades por causa de seus parceiros com “mente fechada” ou por causa de seus filhos que “ocupam demais o tempo delas”; sempre há uma razão para que elas deixem de lado o ardor que guia suas entranhas. A energia sexual — sim, a energia sexual — é responsável por nosso sair da cama em uma manhã de segunda-feira. Em minhas autoanálises e, sendo eu mesma uma mulher, noto claramente que em dias férteis, em razão dos hormônios e da energia sexual, eu trabalho melhor, sou mais feliz, tenho mais qualidade de sono e mais clareza mental, no entanto, se a energia sexual não se dissipa, seu acúmulo causa o inverso do que deveria. É isso mesmo que está ao seu entendimento, mulheres que possuem este ardor mais desenvolvido, se não transarem, terão acúmulo de energia e isso resultará em suas dores de cabeça, irritabilidade, intolerância e outros aspectos a depender da individualidade.
Não importa se farão isso com seus parceiros, parceiras, em grupo ou sozinhas. Precisam dissipar esse ardor e não se fala sobre isso, porque a sexualidade feminina ainda é um tabu. As mulheres desejam, desejam muito, almejam experiências novas, vínculos profundos, que possuam valor e que sejam aprazíveis. Eu, como mulher, digo às mulheres: não se vinculam a homens “mente fechada”, fiquem sós, mas não estejam ao lado de alguém que vá te ofender se você confessar querer sentir duas penetrações simultâneas ou se quiser comprar algum brinquedo sexual. Não fique com homens que se acharão menos homens por você ter sua coleção de objetos sexuais e por você querer usá-los em você durante o ato sexual com seu parceiro. Não tolerem homens que tirarão o seu prazer e que atormentarão a sua energia sexual, tampouco percam tempo com homens que não se dedicarão a dar prazer para vocês, não aceitem o pouco e o malfeito. Uma das razões que faz com que as mulheres sejam esmagadas pela masculinidade sombria é a opressão da sexualidade — pois é na sexualidade que encontramos nossa força para reivindicar justiça e defender ideais. Mulheres que possuem o ardor elevado em seus âmagos, têm sede por realizar seus sonhos, portanto, são elas que questionam o sistema, são elas que afrontam as injustiças, são elas que defenderam outras mulheres.
Mas, se o ardor não é dissipado para manter o equilíbrio, ele se torna uma patologia, uma doença, tudo o mais que fará com que você continue sendo uma vítima indefesa. Não deixe que ninguém, nem mesmo você, te mantenha como uma vítima indefesa que não pode fazer nada para lutar por sua própria liberdade. É disso que trato aqui, neste texto. Que as mulheres possam aceitar seus ardores, explorar suas sexualidades e que não fiquem ao lado daqueles que oprimem suas fantasias. Isso permitirá que elas sejam mais realizadas em suas vidas, que tenham mais ânimo. E para os homens que leram este artigo, espero que vocês compreendam que sem o equilibro do ardor das mulheres, vocês terão ao lado de vocês uma mulher que reclama, que está sempre cansada, com dor e impaciência. Então ouça as fantasias e desejos dela e expresse as suas fantasias e desejos, pois, um homem reprimido é tão perigoso quanto uma mulher reprimida.
E, por fim, novamente às mulheres, expressem-se sempre! E se quiserem mergulhar com mais profundidade e ter mais conhecimento sobre sexualidade a partir do exercício do pensamento e da auto-observação, leia meus artigos de sexualidade em Frenesia e vamos conversar pelo meu Instagram. Liberte seu ardor, conheça-o, domine-o e vivencie o melhor que há em si mesma.
Sina
Silêncio teu, flagelas-me centrado, | Imensas mãos à tez, me carminar, | Respiras com'o abismo, acalorado | Penetras-me com teso, a dominar;…
Stanley M. Zuckerberg
Silêncio teu, flagelas-me centrado,
Imensas mãos à tez, me carminar,
Respiras com'o abismo, acalorado
Penetras-me com teso, a dominar;
Arcano enlevo, eu sim, dócil e servil,
Mantém controle de austero poder
Qu'és homem de caráter tão febril
Aos pés, que teus, me prostro sempre a arder;
Exceda-me, amor. Tua violência
Confesso ser fascínio pulcro e são
D'est'alma que revela minha essência
E vês, sucumbo a ti por opção;
A carne faz-se tórrida por mais,
Insisto, seja vil, e ouça-me os ais,
Prazer e dor, pecado-rendição.
Veemência
Sim, sorvo a rigidez com sede intensa! | Repara o quanto sou tão dedicada! | Ordenas toda a noite, e eu já propensa, | Acato salivando e bem calada;…
Sim, sorvo a rigidez com sede intensa!
Repara o quanto sou tão dedicada!
Ordenas toda a noite, e eu já propensa,
Acato salivando e bem calada;
Sim, deito nesta alcova sempre nua
P'ra assim me atares, sádico, tecer
Tua fúria; faz no dorso marca tua,
Rotina lacrimal do meu prazer;
Não, nunca me verás amando outrem,
Anelo que me afogues sob a dor,
Somente tu, meu Dono, mais ninguém...
“Dulcifera e gentil, sinta o sabor...”
— Tu dizes — “Porém quero ruborar
Tua face pulcra" — e fazes, sem parar,
“Sim, chore, frágil, e ame este opressor”.
Tua Fonte
Quão imensurável é a vontade que verte tão suavemente de minha intimidade, sempre à noite quando me deito, oníricas imagens regam meu…
Édouard-Henri Avril
Quão imensurável é a vontade que verte tão suavemente de minha intimidade, sempre à noite quando me deito, oníricas imagens regam meu adormecer e delas faço aumentar minha calidez até que os sonhos, de fato, cheguem; antes deles, no entanto, há tua presença, cujo corpo quente e forte toca-me a cintura fina que se curva em perfeição; tocas-me também os seios e despertas-me ainda mais delirante. Não hesitas, portanto, a pôr teu falo contra mim, eu o sinto enrijecido à fenda cujo anseio ferve para nós dois. Nossos pijamas confortáveis impedem a penetração súbita, esfregas-te em mim e essa excitação que emerge soa como uma tempestade. Curvo-me para o encaixe perfeito e teu gemer rega a loucura que me invade, tão logo sinto vontade de apanhar de tuas mãos, tão logo sinto vontade de sugar o teu sexo cuja espessura sempre convida minha garganta. É intenso como as chuvas de verão, é como a morte e a vida transmutadas.
Estás nesta vívida memória de há poucos dias, meu querido, e já fazes uma falta de tamanha importância; quero mais das tuas mãos que retiram devagar a minha roupa e de teus dedos que buscam cada sulco disponível ao teu prazer. Quão árduo é não o ter neste lugar; enquanto o oceano conversa comigo em suas ondas contínuas, ouço as árvores dançarem nos abismos de si mesmas; percebo que tudo é cinza neste período em que não estou posta à cama, “de quatro”, como dizes, pronta para te sentir — e assim me vem, mais uma vez, uma lembrança, aquela de quando tivemos uma paixão incontrolável no teu carro; sentei-me com a delícia de mil frutos exóticos, sentei-me sobre ti e movimentei-me como nunca… ali eu sentia o perfume de teu suor viril mesclado à feminilidade somente minha. Tua rigidez movimentava-se com uma lucidez promíscua e ficamos prestes a gozar por, no mínimo, uma hora. Tomei todo o teu sémen naquela noite, tomaria de novo agora se assim me fosse possível; posso tomá-lo todos os dias como o café da manhã ou a ceia.
Mas agora, por agora, a tua ausência é meu terror mais sombrio, mesmo que te esforces para me preencher de orgasmos à distância, escrevendo deliciosas mensagens ou ligando-me para permitir que tua voz grave ative mais profundamente o flúmen de meu ventre, continuo à deriva da saudade. Há nada que pensei além de nós, da tua penetração em mim, que começa lenta e se intensifica em um ritmo perfeito; ou mesmo quando dás-me prazer anal, penetrando-me a fenda mais reclusa com a força bruta característica de tua masculinidade. Homens fortes estão morrendo, meu amor, és único e raro, por isso impactas; hoje estão todos os homens debaixo de medos e corrompidos por traumas; tu não és assim, enfrentas teus ardores como um cavaleiro finca a lâmina no inimigo; destróis teus traumas como um impiedoso caçador — e se necessitas de paz e compensação pelo peso que carregas enquanto homem, encontras em mim a tua paz, a fonte do teu alívio.
Não posso continuar a escrever-te, pois estou ardendo. Mande notícias sobre a tua jornada e o teu retorno. Que seja febril a morte da tua falta e abundante o retorno da tua presença; quero tanto receber-te com os lábios abertos, nua, molhada e completamente sedenta tal como estou agora. Quero tanto te receber à noite, quando no ápice do teu anseio, tu me amarras com tuas cordas onde entre teus nós eu me sinto viva e morta. Quero minha carne encarnada, no vermelho do sangue meu, ardendo às custas da tua força, quero queimar a pele enquanto sinto-te tocar em meu ventre. Quero estar no chão, rendida, vendida, prostrada a ti, tua submissa hoje e sempre e a cada dia mais. Volte rápido, volte o mais rápido possível.
Com amor e desejo, sempre sua.
Requiem aos Idos
Por vezes em meus sonhos turbulentos | Sentires do passado me retornam, | São como frágeis sombras, tenros ventos | Que espargem às paisagens que me ornam;…
Por vezes em meus sonhos turbulentos
Sentires do passado me retornam,
São como frágeis sombras, tenros ventos
Que espargem às paisagens que me ornam;
Aspiram, porventura, um libertar
Dos dédalos tão lúgubres da mente,
Meadas opressões, vir respirar,
Na paz da superfície do presente;
Compr’endo-os à medida em que desperto,
É símil ao fitar d’um outro alguém
Qu’em lágrimas, em prece, vê-se incerto
E enseja estar no sonho d’um outrem
De modo a amanhecer n’algum instante
A ter, então, o alívio fulgurante
Do “apenas pesadelo, nada além”.
O que é uma Sonura?
Em algum espectro temporal da poesia em toda a sua existência, houvera uma poética habitante…
Em algum espectro temporal da poesia em toda a sua existência, houvera uma poética habitante do Soneto assim como incontáveis outras poéticas o habitavam — para diferenciá-la, nomeá-la-emos de Poehsia (pronuncia-se po-ê-zia). Poehsia viveu e perdurou por muitos séculos dentro dos quatorze versos, expressando-se em dois quartetos e dois tercetos, todavia, algo lhe soava incompleto. Essa ínfima incompletude que a perturbava, desvelou-se em uma tênue e dolorosa sensação de estranheza — a qual, mesmo que tão pequena, ascendia em Poehsia um amargurado e insuportável sofrimento.
Sempre imersa n’uma profunda e indefinida tristeza que lhe serenava o coração, Poehsia percebeu não pertencer mais ao recôndito do Soneto. Os versos de Poehsia, em perpétua melancolia, não se vinculavam mais com a métrica sonetista — se é que algum dia se vinculou. Não era mais possível para Poehsia prosseguir com esta ausência obscura de sentido, o adeus era necessário.
Por infortúnio ou bonança, Poehsia não teve sucesso em sua busca por um novo lar, vagou por muito tempo em outros formatos fixos e até mesmo se permitiu aventurar-se no voo da forma livre. Nada a completava... Poehsia decidiu, depois de tanta exaustão, criar seu próprio ninho para que nele pudesse descansar. Este ninho tornou-se o lugar em que ela poderia ser a si mesma, completar-se a si mesma e, principalmente, o espaço que comportaria o seu esmorecimento tão próprio. A este lar ela chamou de Sonura.
A Sonura carrega semelhanças e influências do Soneto, no entanto, tem a essência e a forma únicas que pertencem à alma de Poehsia. É uma forma fixa de poesia, no entanto, ainda está em construção, portanto, pode ter modificações no futuro. Até este momento, temos um poema com quinze versos, duas primeiras estrofes são quartetos (quatro versos), logo em seguida temos um terceto (estrofe de três versos) e, para finalizar, mais um quarteto. Eis a forma em sua completude:
Quarteto 1º
Perpé²tuo Lacrimar⁶, a solinu¹⁰ra (A: ura)
É pá²ramo de véus⁶ na cor marfim¹⁰; (B: im)
Ouvin²do estás, meu cân⁶tico-tristu¹⁰ra, (A: ura)
Enquan²to a lira tan⁶ge em silencim¹⁰? (B: im)
Quarteto 2º
Tu qu’i²nda no sonhar⁶ do meu lamen¹⁰to (C: ento)
Perdu²ras tão sombrí⁶fero e arden¹⁰te… (D: ente)
Ó… vas²to e quebradi⁶ço, ao léu do ven¹⁰to, (C: ento)
Orva²lhas-me o conten⁶to remanen¹⁰te… (D: ente)
Terceto único
Est’a²lma é nós — condoí⁶da imensidão¹⁰! (E: ão)
Pere²ne Lacrimar⁶, és meu amásio¹⁰, (F: ázio)
Condu²zes desalen⁶to em algodão¹⁰, (E: ão)
Quarteto 3º
Vislum²bras por cristais⁶ o teu copázio¹⁰ (F: ázio)
Que tan²to já transbor⁶da do manar¹⁰ (G: ar)
Que é no²sso, vês, a pé⁶rola a brotar¹⁰? (G: ar)
Peque²na, orbicular⁶, gema-calázio¹⁰. (F: ázio)
Esquema rítmico: decassílabo heroico, tônicas obrigatórias: 2ª, 6ª e 10ª. Escrever Sonuras requer uma poética bastante triste, lhana, melancólica. Poesias de angústia, aflição e tormento também coincidem com o formato, assim como os versos de amor lânguido ou de horror/terror consternado. A introspecção é inestimável para escrever Sonuras, pois questionamentos existenciais são precisos para construir a imersão que somente uma Sonura proporciona.
O que não combina com a Sonura: Assuntos políticos, triviais ou cotidianos; temas cheios de alegria, comédia, sátiras, ironias, sarcasmos; versos simples — sim, a Sonura pede lapidação intensa; poucos detalhes expressivos, ausência de tristeza. O que mais combina com a Sonura? A fantasia, a idealização, o romantismo, o amor cortês, a espiritualidade, o sobrenatural, o sombrio, o soturno e o oculto. Por que escrever uma Sonura? As Sonuras nos chamam, apenas isso, é preciso senti-la se aproximando e ouvi-la te chamar. É algo bem íntimo para almas cheias de suavinura.
Mormaço
Aflige-me o existir se o outono é febre... | Somente em frigidez eu me apaziguo. | Na toca sou as Cinzas de uma lebre | No tórrido caixão de um lar-jaziguo;…
Aflige-me o existir se o outono é febre...
Somente em frigidez eu me apaziguo.
Na toca sou as Cinzas de uma lebre
No tórrido caixão de um lar-jaziguo;
Escalda este meu ser já condenado
Ao lôbrego lugar abrasador
Que faz na tez o inferno anunciado
Nos últimos versículos do horror...
Privando-me dos ventos nos umbrais,
Parece que este mundo não respira...
Um gole d'água, ou chuva, temporais...
Que o Inverno é una musa que me inspira
Enquanto o fumegar deste planeta
Ebuli a minha vida, uma ampulheta
Revela o fim e a morte que me aspira.
O Lago Sombrio
Nas minhas vis oníricas vivências, Estive em profundezas obscuras, Foi dentre o arvoredo de imanências, Que vi medrar assombros e loucuras, […]
Nas minhas vis oníricas vivências
Estive em profundezas obscuras,
Foi dentre o arvoredo de imanências
Que vi medrar assombros e loucuras
E lembro-me d'um sonho recorrente:
Um lago de nascente em uma gruta
Envolto um arvoredo contundente
Que canta e rega em morte quem escuta;
É nele que perdura algum jazigo
E deste seu negrume exala medo
De outroras, guarda horrores lá consigo…
N’um úmido silêncio, horror-enredo,
Escuro como o abismo, é tão medonho!
Receio, pois pressinto a cada sonho
Que logo externará o seu segredo.
Backrooms — espaços liminares
Eu estive em um labirinto liminar. Compreendo, por experiência própria, as suas obscuras entranhas…
Eu estive em um labirinto liminar. Compreendo, por experiência própria, as suas obscuras entranhas. Eu também conheci pessoas que conseguiram escapar, mas, infelizmente, estes indivíduos não estão lúcidos o suficiente para que eu possa considerar, em completude, as suas narrações. Encontrei-os por meio de um amigo Psiquiatra que comentara a respeito das constantes crises de seus internatos. Imediatamente reconheci do que se tratava, mas nada mencionei; insisti, com a desculpa de estar pensando em escrever um livro a respeito, para ouvir dos próprios sujeitos o que condenava suas almas e mentes. Consegui muito material com isso, mas em determinado ponto percebi que, talvez, todo o bruto relato dessas pessoas estivesse cheio de ilusões criadas pelo trauma e por seus mecanismos mentais de defesa — o que invalidava muitas “verdades” mencionadas.
Não é fácil escapar dos labirintos, não é possível viver com tranquilidade após encontrar uma saída, então eu os compreendo. Acredito que a razão pela qual consegui manter minha sanidade foi por acreditar profundamente que se tratava de um sonho e que, portanto, eu despertaria em breve. Eu compreendia a extensão daquela realidade, mas me recusava a levá-la em consideração. Você deve entender, o local era absurdamente desesperador, não é como se eu pudesse simplesmente lidar com o fato de que caí de súbito numa realidade paralela. Insisti até o fim, insisti mesmo quando eu sangrava, que aquilo tudo era um colapso onírico de um corpo talvez em coma ou em algum tipo de delírio mórbido do sono.
Cair nos labirintos é, literalmente, cair; os portais estão sempre na queda; subitamente você tropeça em alguma coisa ou pisa em falso e, então, a queda parece estranhamente maior do que deveria; na sua visão conturbada você não consegue entender e tampouco tem tempo para quaisquer conjecturas, um segundo é suficiente, você se percebe com o corpo todo dolorido, largado no meio de uma sala vazia com cheiro de carpete úmido. É assim que acontece. Depois de bastante análise entendi que encontramos os labirintos quando caímos porque eles são, essencialmente, um erro, ou melhor, um glitch. É mais do que óbvio que vivemos em um sistema, pode ser um sistema compreendido a partir de termos diferentes das tecnologias que criamos, mas, ainda assim, é um sistema. Coincidentemente o universo é feito de matéria escura, tal como a tela de programação de um computador, tal como o lugar em que estão os códigos por detrás da interface do usuário.
O glitch acontece, nós somos os afetados; a pergunta que fica é: por que alguém criaria um lugar como aquele? Alguém o criou? Qual é o intuito de uma realidade paralela tão similar às construções humanas, mas que aleatoriamente se faz por labirintos tão somente para perturbar as pessoas que, por uma falha no sistema, caem dentro do primeiro nível? Sim, o primeiro nível são os escritórios, infinitas salas de escritórios ligadas por dezenas de corredores e outras salas com a mesma monótona aparência, por isso são labirintos, você não consegue distinguir as salas, todas possuem o mesmo papel de parede amarelado e sujo, as mesmas luzes fluorescentes. Vez ou outra eu encontrava computadores antigos, desligados, escrivaninhas e cadeiras; armários e estantes símeis àqueles de almoxarifado de arquivos. Encontrei até mesmo um ventilador ligado – sim, funcionando – em uma tomada, simplesmente assim, como se alguém o tivesse deixado ali há pouco tempo.
Tento me concentrar neste relato, porém uma fraqueza emerge sempre, é como estar lá novamente, é como sentir aquele silêncio em meio ao zumbido das lâmpadas enquanto me sufoco na angústia de um talvez; ninguém estava lá, compreende? Ao mesmo tempo havia alguém, alguém que fugia, que buscava uma saída, mas não se tratava de mim. A sensação era essa, de estar perto, porque tudo o que estava ali parecia ter sido abandonado há segundos, um átimo de segundo antes de eu chegar. Por isso tamanha é minha dor quando me recordo, tão vívida memória maldita. Lembro-me de estar a cada segundo sob a perspectiva de que a saída se aproximava, eu andava por horas, se é que havia tempo naquele inferno, por isso a exasperação me consumia, era como ter um sapo na garganta, eu não respirava direito, uma aflição inominável escorria no meu corpo junto ao suor. Eu estava chegando perto da saída, mas ela nunca surgia aos meus olhos. Passos e mais passos. Um móvel à mais, um pilar em outra posição, cada detalhe diferente me dava a esperança necessária para continuar.
Estou descrevendo minhas conclusões aqui, estou dizendo que tudo acontece por causa do glitch e que os labirintos são um espelho aleatório da realidade, um espelho criado pelo sistema central que, ao que tudo indica, o fazia de backup da interface do usuário até o momento em que, por um erro grotesco no código, o backup se transformou em uma geração infinita e aleatória dos mesmos cenários da interface; e o erro está num código bem específico, está nas construções humanas e não na natureza; não há um labirinto de florestas ou jardins, são sempre espaços humanos, isto é, casas, shoppings, prédios, estacionamentos... eu sei... eu sei que estou sendo hermética... peço desculpas por usar termos tão técnicos, isso me distrai das sensações persecutórias e ambíguas que fazem minhas mãos tremerem e minha visão turvar... aquele lugar é meu pior pesadelo, talvez seja questão de tempo para que eu me torne louca o suficiente para ser internada no hospício junto com aqueles que considero insanos demais para levar em consideração.
A minha queda foi na escada; eu estava descendo pela saída de emergência de meu prédio quando me acidentei. O ambiente estava um pouco mais penumbral do que deveria, visto que aguava uma intensa tempestade lá fora, a mesma culpada pela queda de energia do prédio – uma sequência de infortúnios tornou inviável o uso dos elevadores, ninguém se arriscava quando o céu desabava daquela forma, mesmo sob a segurança dos geradores do edifício. Eu devia ter identificado que algo não me parecia certo naquela noite, isso porque pouco antes de vestir meus sapatos e aceitar que eu seria obrigada a sair naquele tempo insalubre, uma pequena faísca de intuição soprou um infinitesimal alerta. Isso me faz concluir que os glitches podem ser perceptíveis, porque mesmo que não dominemos o código do sistema da vida, estamos ligados a ele e, portanto, reconhecemos as suas oscilações. Além disso, apreendo que, não só a aleatoriedade dos níveis labirínticos, o lugar em que os glitches ocorrerão também é aleatório; no entanto, posso estar errada, afinal, houve uma intuição e eu não sei se ela sabia apenas da minha queda ou se sabia do glitch em si. Como previsto, não dei atenção aos questionamentos intrínsecos. Foi a terceira vez que eu caía no mesmo lugar, tudo por causa de uma maldita noção arquitetônica péssima que deixou alguns centímetros de diferença entre um degrau e outro.
Depois de cair pela segunda vez, eu prestava excessiva atenção ao usar as escadas de emergência, todavia, o ínfimo alerta da consciência me deixou tão perturbada e desnorteada que não pude me defender, sem contar a chuva que caía e alagava São Paulo inteira fazendo um alarde horroroso. Sinceramente, não tive culpa, aquele glitch ia me pegar de qualquer jeito. Eu tinha certeza, durante o acontecido, que não havia como evitar aquilo, as dúvidas acerca da aleatoriedade dos glitches não são em vão, como dá para notar. Desci as escadas com estranha pressa e tropecei do quinto degrau antes de chegar no térreo; no entanto um violento silêncio nasceu, não havia mais chuva por poucos segundos até o som de objetos caindo em um lugar com eco se disseminar aos meus sentidos. Caí de costas, a primeira coisa que notei foi a lâmpada fluorescente no teto; minha visão estava embaçada e meu corpo doía, mas não o suficiente para me deixar inerte. Levantei-me e lá estava eu em uma sala de um escritório aleatório; o cenário que já descrevi. Comecei a andar porque não havia outra opção.
Eu assobiava, batia nas paredes, fazia todo o tipo de som de alerta; eu já disse que a sensação de estar quase perto de alguém era como um ninho no peito, isto é, uma esperança ou lembrança de encontrar um rosto humano que pudesse me explicar o que estava acontecendo. Tudo era insuficiente. Conforme eu andava, vez ou outra eu ouvia uma porta se fechar; às vezes eram passos... Às vezes eu era tomada por um medo estranho, um arrepio frígido que amargurava meu peito a ponto de me fazer parar e tocar meu tórax como um reflexo de sobrevivência.
Em determinado momento eu percebi que a sensação de estar tão perto de alguém, infelizmente, não era um delírio. Havia mesmo alguém..., ou melhor, havia algo. Algo inumano sabia que eu estava ali desde o princípio e eu soube disso porque eu vi o seu rastro. Não eram passos. Era um rastro de fios negros que, quando observei, percebi haver algo se mexendo em sua composição, como vermes em uma carne pútrida. Os fios eram fétidos e pouco antes de vê-los, comecei a sentir o mesmo medo estranho de outrora, porém, incorporado a um extremo pavor diante uma sensação genuína de perigo; quando de fato vi o rastro, eu suava de temor e meu desespero era profundo como abismo, não sei como descrever, eu estava enlouquecida, olhando para todos os lados, andando com passos de tartaruga para não ser ouvida. Eu sabia que havia perigo naquela coisa.
Minha intuição outra vez gritava na sua infinitesimal manifestação, mas naquele momento eu a ouvi. Aquele negócio, aos poucos, evaporava como água, sumia, não era um rastro eterno. Comecei a me afastar devagar. Era impossível, mas eu não estava descrente o suficiente para seguir o rastro. Numa súbita angústia, corri para o lado oposto; corri o mais rápido que pude e na minha desolação afobada, coberta pelo pânico mais atroz, eu caí outra vez, pelas pernas que vacilaram enquanto meu coração pulsava mais frenético do que poderia suportar. Eu caí. O glitch que me colocou ali, me tirou; mas não me levou de volta ao meu apartamento. É claro que não. Eu estava caída, com o corpo mais dolorido do que a primeira vez e diante dos meus olhos havia um novo nível de labirinto liminar: um infinito aleatório de espaços semelhantes a um bairro, sim, um bairro com casas vazias, ruas eternas, sem nenhum carro ou pessoas. O céu era avermelhado, com nuvens escuras, sem nada, nenhum ponto de luz. Embora houvesse um “campo aberto” por causa daquele céu tenebroso, a sensação claustrofóbica permanecia. Ali a tétrica morte respirava ofegante eu a ouvia e sabia que encontraria com ela a qualquer momento.
Nos lagos da saudade há tenro orvalho | De lágrimas nativas do meu ser… | Oníricas venturas são-me atalhos | P’ra sôfrega distância combater…