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Nas Sombras da Inquietação do Ser: Hamlet e Kierkegaard

A clássica citação já nos acende o sentimento profundamente existencial que permeia a obra-mestra do grandioso Shakespeare — embora…

Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia.” — Ato I, Cena V: Hamlet de William Shakespeare

A clássica citação já nos acende o sentimento profundamente existencial que permeia a obra-mestra do grandioso Shakespeare — embora, convenhamos, de obras-mestras ele tenha várias. Para além de príncipe da Dinamarca, Hamlet é um peregrino dos obscuros ornamentos de si mesmo, prisioneiro de um destino escrito nas brumas do sobrenatural, caminhando com a espada envenenada que separa o mundo dos vivos do chamado dos mortos. Sua história é a de um homem que busca vingança — e mais: a de uma alma que se debruça sobre o abismo da própria existência, tentando decifrar se ser é um dever… ou apenas uma condenação.

Assim como o Castelo Drácula, o reino de Elsinore¹ é feito de pedras úmidas, corredores múrmuros e medonhos segredos por trás de seus umbrais. Não há condições de medir os próprios suspiros diante da imensidão obscura de ambos os recônditos. Dentre os salões dourados e as criptas silentes, move-se Hamlet: um herdeiro de carne e melancolia, envolto à neblina cinérea de uma verdade que se recusa a ser revelada; uma dúvida, uma loucura e, acima de tudo, uma poética filosófica². Este é Hamlet. E se você ainda não leu a obra de Shakespeare que leva o nome do seu protagonista mais existencialmente visceral, você não está vivendo da melhor forma.

Nota paragrafal¹: O Elsinore de Shakespeare foi inspirado no Castelo de Kronborg, em Helsingør, na Dinamarca, um dos mais importantes da Renascença e declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Ele já era associado a lendas e intrigas no tempo de Shakespeare (cf. UNESCO World Heritage Centre, Kronborg Castle).ik

A multiforme tragédia

Shakespeare escreveu Hamlet no final do século XVI, em um mundo onde as peças eram a essência da arte mais bruta, carregando consigo a literatura, a música, a interpretação, a dança e todas as demais artes que se pode imaginar. Não é muito diferente dos dias atuais — embora dramaturgos como Shakespeare, ouso dizer, já não sejam tão fáceis de encontrar no contemporâneo. Talvez porque Shakespeare, em sua época, era mistério — e só assim poderia ser, dadas as circunstâncias. Isso fazia dele um escritor cujas obras carregavam a mesma essência enigmática de seu autor.

Hoje, somos tudo, menos incógnita. Vê-se claramente as sombras dos modos-de-ser de cada indivíduo pelas redes sociais — ó que dádiva, que sulfúrico tormento³!

Nota paragrafal²: A expressão “sulfúrico tormento” remete ao Ato I, Cena V, quando o fantasma do pai de Hamlet se despede: “Já está perto o momento em que é forçoso que de novo me entregue às labaredas sulfúreas do tormento.” A escolha dessas palavras é de uma qualidade literária rara — e isso me fascina de um jeito inenarrável! Aqui vemos cada termo carregado de peso imagético e sonoridade. Shakespeare descreve o sofrimento do além — o inferno? — e o veste com texturas sensoriais — fogo, enxofre, suplício — que só um escritor exímio, forjado nos tempos antigos, poderia conjugar com tamanha precisão e beleza mórbida. É evidência de sua veia gótica — antes mesmo do “gótico” ser concebido — e, sem dúvida, inspiração para toda e qualquer literatura posterior.

Hamlet foi uma obra embriagada em lendas anciãs, como a do príncipe Amleth, narrada por Saxo Grammaticus, e pode também ter se inspirado numa peça desaparecida, o Ur-Hamlet, que já trazia à cena o espectro exigindo vingança⁴. Essas peças perdidas, carregando reinos corrompidos e fantasmas clamando por justiça, fincaram raízes no coração de Hamlet — e nós vemos, até hoje, esse coração sangrar.

Nota paragrafal³: O príncipe Amleth aparece nos Livros III e IV de Gesta Danorum, obra escrita no início do século XIII pelo historiador dinamarquês Saxo Grammaticus. O Ur-Hamlet, peça perdida mencionada por Thomas Nashe em 1589, é considerado por estudiosos uma possível fonte direta de Shakespeare, introduzindo o fantasma como catalisador da vingança (cf. Encyclopaedia Britannica, Sources of HamletGesta Danorum, Saxo Grammaticus, ed. 1514).

Mas Shakespeare expandiu o gênero da tragédia ao dar a seu protagonista não apenas um inimigo externo, mas, sobretudo, um labirinto interno de pensamentos, hesitações e reflexões. Por isso, a veia existencial pulsa durante toda a obra. Hamlet é um palco inteiro de paixão e ser; uma personificação do que há de mais humano em nós: pensar e sentir — isto é, ser.

Ser ou não ser: o abismo existencial

O monólogo mais famoso de Shakespeare não é um adorno; embora rebuscado — como toda obra escrita há éons — , ele é o nervo exposto da peça. Ele traz à tona o comportamento mais puro do ser: o questionamento. “Ser ou não ser?” Ah, sim… a tão antiga indagação, sempre viva, sempre pertinente.

Mas, afinal, o que é ser? A questão do ser sempre volta, como um eco inevitável. Desta vez, porém, não vamos seguir os caminhos de Heidegger — ainda que o paralelo fosse sedutor — , mas nos voltaremos a um outro olhar: o de Kierkegaard.

A pergunta sobre a vida ou a morte é um sussurro de sentido cujo peso é insuportável para a razão e demasiado profundo para o cerne. Hamlet é o homem que pensa demais e, por isso, age de menos — mas não é a ação, sempre, uma consequência secundária? Ou vem do pensamento ou vem da impulsividade da emoção.

Sua hesitação diante do que lhe é incumbido — a vingança — é também um ato de resistência: adiar a ação é prolongar-se no peso do que lhe antecede. O pensamento é o último bastião antes de se lançar ao vazio da consequência, consequência que emerge no instante posterior ao ato e, por vezes, se transforma em fantasma psíquico — muito mais terrível do que a aparição translúcida de um pai morto.

A pergunta “ser ou não ser” sintetiza o dilema existencial, e vamos agora, brevemente, à visão de Kierkegaard, para compreender como Hamlet encarna, em seu silêncio e dúvida, a própria condição humana diante da liberdade e da escolha.

Mas por que Kierkegaard? Gosto de pensá-lo como um poeta do pensamento e da existência humana, muito mais do que um filósofo no sentido estrito. E nada mais justo que aproximar dois poetas — um das palavras, outro das ideias. Kierkegaard escreveu extensamente sobre a existência, e seu vínculo religioso não pode ser ignorado. Pelo contrário: é justamente ele que sustenta o núcleo de sua obra, pois é nele que o filósofo-poeta vê o valor inestimável da subjetividade e do “diálogo íntimo e profundo do eu consigo mesmo” (SILVA, 2013).

Para Kierkegaard, a inquietação é a postura mais humana diante da vida. Os paradoxos que dela emergem são parte essencial dessa jornada subjetiva. Hamlet carrega essa inquietação do início ao fim: pensa até o limite da exaustão, sente até o esgotamento da alma. Para Kierkegaard, o subjetivo é o espaço onde o indivíduo, em seu eterno devir, mergulha na própria construção singular — e a subjetividade de Hamlet é um exemplo quase absoluto dessa condição (com exceção, talvez, da ausência de um direcionamento cristão, que orienta todo o pensamento kierkegaardiano).

A resposta para o “ser” em Kierkegaard é Cristo. A resposta para o “ser” em Hamlet não existe. Hamlet não encontra o “salto”, não decide; vive e morre no limiar, na vertigem⁵, prisioneiro do paradoxo entre vida e morte. Questiona o que há depois da morte, pesa a decisão de tirar a própria vida ou a de outrem, e experimenta a existência como inquietação pura. Em Kierkegaard, essa inquietação é necessária para que o indivíduo se aproxime da verdade; em Hamlet, ela é o destino — e a condenação.

Nota paragrafal⁴: Kierkegaard descreve a angústia como “freedom’s actuality as the possibility of possibility” — uma vertigem existencial que emerge do reconhecimento da infinidade de escolhas e da responsabilidade inalienável por cada uma delas (cf. Kierkegaard, O Conceito de Angústia, trad. brasileira, 2010; Wikipedia, The Concept of Anxiety). Isso é expressamente o que acontece com Hamlet.

Agora, intercalando as visões, acredito que o pensamento kierkegaardiano, ao tomar a verdade como Cristo, é valioso em muitos aspectos. Muitos dão o chamado “salto de fé” a partir da angústia que vivenciam, encontrando em Cristo não apenas consolo, mas direção. Cristo, por sua vez, trouxe à terra ensinamentos que hoje — e sempre — deveriam servir à lapidação da moral humana, tornando-a mais admirável.

Entretanto, as divergências da religião (e não de Cristo) muitas vezes condenam o ser humano à razão pura, desvinculando-o do essencial subjetivo e impedindo-o de se imergir plenamente nos aspectos de sua inquietação. Isso pode resultar numa fuga da autêntica essência ou no sufocamento dela, gerando ainda mais angústia — como nos pensamentos suicidas de Hamlet — ou criando uma “imunidade” emocional.

Eu, por fim, me inclino à compreensão de Kierkegaard, com uma única diferença: para mim, é preciso o “salto-poético” — voltar-se à verdade da poesia, a única capaz de abarcar subjetividade plena, autoconhecimento, emoção e razão — sem o peso religioso. É nesse retorno que nos aproximamos do que é mais valioso: a dádiva do existir.

De certa forma, também encontramos algo disso em Hamlet, em trechos de seu intenso, trágico e violento amor por Ofélia, por exemplo. Entretanto, a poesia que residia no peito do príncipe jamais encontrou a voz precisa em seu ser; tornou-se, portanto, a racionalidade e a loucura o seu desígnio. Nem o “salto de fé” nem o “salto-poético” aconteceram — nada salvou Hamlet de si mesmo.

Referências



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O Teatro Perfeito

Perfeito, o Teatro — e nele a decadência | As máscaras são telas luminosas | Personas em suas tantas aparências | Roteiro de ventura confragosa;…

Perfeito, o Teatro — e nele a decadência
As máscaras são telas luminosas
Personas em suas tantas aparências
Roteiro de ventura confragosa;

Perfeito, o Teatro — e nele aplauso algum,
Cortinas fecharão só uma vez
E o peso do tecido em cada um
Trará o ato final da Morte à tez;

Perfeito, o Teatro — e nele a mentira
As máculas, as lágrimas em vão
E a busca por calar a eterna ira

Que emerge do Teatro ao coração
Somente pr’a verdade lancinante:
A peça e seus atores delirantes
Estão ao palco como a cova ao chão.



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Ouroboros

A névoa do passado é melancólica | Lembranças d’este outrora se dispersam: | O outono e sua Maçã tanto simbólica, | O inverno e a solitude que se versam…

A névoa do passado é melancólica
Lembranças d’este outrora se dispersam:
O outono e sua Maçã tanto simbólica,
O inverno e a solitude que se versam…

Não sei sobre o que espero das janelas,
Porém tanto observo que a neblina
Revela mais que o sopro à acesa vela
Da vida passadiça em sua rotina…

A carta que redijo ao meu futuro,
Os monstros da mi’a própria consciência,
O alívio de prazeres prematuros…

Percebo se tratar de condolência
À efêmera medula em sua verdade:
A bruma é uma espiral-infinidade
E estou fadada à eterna recorrência.



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Vivo por ela

Escrevo. Bem além do que ressinto | Ou sinto ou do que vejo. Muito mais. | Escrevo por questão da alma, do instinto, | Do sonho mais que as sombras factuais!

Escrevo. Bem além do que ressinto
Ou sinto ou do que vejo. Muito mais.
Escrevo por questão da alma, do instinto,
Do sonho mais que as sombras factuais!

Não tenho musa ou fé ou inspiração,
Escrevo em dor, talvez, por coisa alguma…
Preciso, e não há o luxo da omissão!
Escrevo à solidão que me acostuma;

É belo e, sobretudo, passarinho…
Às vezes voa às nuvens soldoradas
E, n’outras, preso em cárcere, sozinho.

Eu escrevo… e quando a morte inconsolada
Bater à porta d’esta alcova minha…
Com vasta calma irei-me à escrivaninha…
“Adeus” — escreverei — “muito obrigada”.



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Limbo

Circunda-me gris noite, estou tão só… | Por vezes dói, minh’alma s’esvazia | E lembro hei de tornar-me reles pó | Da vida cuja bruma é primazia…

Circunda-me gris noite, estou tão só…
Por vezes dói, minh’alma s’esvazia
E lembro hei de tornar-me reles pó
Da vida cuja bruma é primazia…

Pergunto-me se Deus… ou se o demônio…
Indago-me no afogo d’este mar
De pranto sorumbático e adônio…
Em salmos esta lira há de adentrar?

A voz d’onipotente nunca ouvi…
Dos seus rivais, decerto, muito menos!
Que doce fleuma mórbida — eu cri…

E crendo vi nobreza em tal veneno
Dos tantos em imagem-semelhança…
Um mundo tão cruel… desesperança…
Ausento-me em mim… limbo tão pleno…



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Demasiado Humano

Assim fragmentar-me e à tez sentir, | Aroma, calidez, silêncio a sós… | Desvelo uma clareira do existir | Às cordas d’este tempo em rijos nós…

Assim fragmentar-me e à tez sentir,
Aroma, calidez, silêncio a sós…
Desvelo uma clareira do existir
Às cordas d’este tempo em rijos nós…

A própria companhia que me tenho,
A lôbrega saudade sem porquê,
E mais, toda a memória que mantenho
Retida ao peito frágil — à mercê…

Tão íntimo, tão lânguido, tão meu…
As horas d’este outrora não vivido…
A espera, a fé tão núrida, o breu…

Amálgamas soturnos incendidos
Da gênese à tocante finitude;
Qu’estranha coisa, a vida, que amiúde,
Circunda-se em propósitos partidos.



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A Maldade Humana

Cultivada no seu próprio solo, a maldade humana é uma brincadeira de mau-gosto do acaso; uma construção perversa do sistema; uma condição morbígera…

Cultivada no seu próprio solo, a maldade humana é uma brincadeira de mau-gosto do acaso; uma construção perversa do sistema; uma condição morbígera da vida. Ela é o sopro contrário na natureza que, mesmo criadora da bênção da razão, não se vê livre das suas deficiências excepcionais, entretanto, quando a exceção é mais comum que o anfêmero, os papéis de invertem.

Posso ousar em dizer que a maldade humana está essencialmente alojada na ignorância — os véus do desconhecimento do que é ser; o manto da insipiência causado pelo circunstancial. Entretanto, a escolha individual ainda tem um papel fundamental e, por vezes, ela não excede seu apedeutismo. Isso me leva a crer que a ignorância é fruto híbrido de duas espécimes putrefatas: decisão subjetiva e influência do meio.

O ego é outro culpado; necessitar, pois, pertencer a algo além de si, quando não se basta em seu próprio interior. Ser capaz de quaisquer atrocidades para sentir tal dopamina-do-pertencimento — a qual, por sua vez, é sempre uma mentira bem-contada. Ou, ainda pior, ser capaz de horrores por não estar pertencido; buscar vingança e dar sofrimento a outrem por puro ego ferido. O cúmulo da ignorância.

O conhecimento, a informação e a sabedoria se aliam para dissipar essas tendências doentias, porém, não se resolvem em si mesmos. Do conhecimento, espera-se mentes capazes de assimilá-lo; da informação, espera-se mentes capazes de refutá-la e comprová-la; da sabedoria, espera-se mentes capazes de compreendê-la. Se, para evitar que a maldade floresce em seu cerne, é preciso cultivas tais capacidades — as quais não se igualam a uma tarefa simples tal qual respirar — percebemos que, a cada nova geração, a escassez da maldade parece mais utópica.

Ainda lidamos com a tendência humana em achar que conhecimento é saber da verdade e defendê-la — quando, na verdade, conhecimento é eterna busca por infindáveis verdades e a quando se começa a defender uma única ideia “perfeita”, torna-se idealismo. Ainda lidamos com a comum ideia de que a informação é tudo aquilo que nos vem de encontro no mundo — quando, na verdade, informação é base de averiguação de fatos. Continuamos erroneamente crentes de que a sabedoria é um estado sublime, religioso ou pertencente apenas aos idosos que viveram demais e sabem muito— quando, na verdade, ser sábio é ser capaz de compreender toda a forma de existência sem o filtro da sua própria vida — crianças são boas nisso e, portanto, têm mais sabedoria do que idosos, adolescentes ou adultos.

A maldade humana, portanto, floresce onde as certezas adubam a mente; onde os egos são a verdade líquida que rega a terra psíquica. A maldade humana se ascende diante da maldade humana — alimentando-se ad aeternum. Indiferença, inveja e mágoa são o capim d’este jardim imundo e violento. É mais fácil, enfim, deixar que as coisas sigam os caminhos quais já foram trilhados — quão árduo é ser mestre nas três capacidades essenciais contra a maldade humana! Quem está disposto? Quem estaria disposto? Quem ousaria a tal disposição, mesmo sabendo que passará por injustiças, não terá o ego agraciado, sofrerá mais do que os outros e ainda verá a decadência com os olhos bem abertos? Quem resistiria?

É uma escolha e, como tal, tem o ônus e o bônus. É uma escolha e, como tal, se não for conscientemente tomada, há de ser imposta como uma faísca infernal acesa sem consentimento. Das verdades do mundo humano, eis uma das minhas preferidas: Não duvide da sua capacidade de ser influenciado, muito menos de ser convencido — isso acontece a todo o instante. Não acredite. Sempre pense por si mesmo. Faça suas escolhas e esteja consciente das consequências. E, se me permite, que a prudência e a empatia sejam as únicas certezas da sua vida — as únicas que merecem ser defendidas em uma guerra política.



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Sonurista da Morte

Nas grotas d’uma lôbrega passagem, | A balça gris e sôfrega, que à vista, | Ornava em medo fúnebre a viagem | Aos versos d’um plangente sonurista;…

Nas grotas d’uma lôbrega passagem,
 A balça gris e sôfrega, que à vista,
 Ornava em medo fúnebre a viagem
 Aos versos d’um plangente sonurista;

Lagura enegrecida e nau minguada,
 Um’áura tão morbígera envolvia
 Minh’alma dolorida e desgraçada,
 Enquanto ele, em poema, me pre’nchia

Seu canto-recitar… Ó! Que tristura!
 A cada rima, de algo eu me esquecia
 Sumindo, n’aflição de mi’a fissura…

“Bem-vindo ao fim” — ouvi e pertencia
 Ao ser de manto negro na paragem,
 Olhei o sonurista, uma miragem?
 Um mármore, tão só, me conduzia.



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Íntima Tristura

Pressinto as outonais aragens frias | No âmago e às janelas, devagar… | O belo movimento em pradarias | Tão símeis aos meus sonhos — meu lugar;…

Pressinto as outonais aragens frias
No âmago e às janelas, devagar…
O belo movimento em pradarias
Tão símeis aos meus sonhos — meu lugar;

Saudosa alma silente e melancólica,
Efêmeros ocasos: meu langor…
No onírico resido e quão simbólica
A vida é n’esta gênese do alvor…

Quão índigo o pulsar do coração…
Quiçá no sopro frígido eu entenda
Qu’estou fadada a tal introversão…

Protejo-me em exílio e a minha senda
Compr’ende-me a lhaneza tão soturna
E o méleo riso e a tenra fé noturna,
A sós, sob minha lôbrega oferenda…



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Soledade

Kalimba lacrimosa em noite fria: | Sonido de lamúria em languidez, | Se o toque lhe conduz e acaricia | Silêncios mui se prostram — placidez...

 

Foto de Sara Melissa de Azevedo

 

Kalimba lacrimosa em noite fria: 
Sonido de lamúria em languidez, 
Se o toque lhe conduz e acaricia 
Silêncios mui se prostram — placidez... 

Ouvir-te é calmaria e desalento, 
Miúdo regozijo, colo e leito, 
Conforto de pesar, sopro do vento, 
Sonura que assimila a dor do peito... 

Kalimba, quão sensível me percebo... 
Por vezes m’espaireço refletindo 
Que o mundo, porventura, é só placebo... 

 E às vezes tudo está coexistindo, 
Enquanto em minha mente um universo 
É só, pedaço ímpar, submerso, 
N’um tanto que silente vou sentindo... 

Escrito em 22 de setembro de 2024 



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Hermético Bioma

Raríssimos cristais d’olhos chorosos | Regaram-me o jardim do peito e a dor | Nascera envolta n’água, pois ditosos | Langores deram vida à ave Candor*…

Raríssimos cristais d’olhos chorosos 
Regaram-me o jardim do peito e a dor 
Nascera envolta n’água, pois ditosos 
Langores deram vida à ave Candor* 

Que ninho tenro e lírico fizera 
N’este âmago dorido, e o coração 
Pulsar em canto lôbrego viera 
P’ra dar sentido à minha solidão; 

D’orvalho lacrimal à cachoeira: 
Valências p’r’os mais raros desalentos, 
Memórias de amargura n’algibeira 

Que é feita de minh'alma a barlavento 
Propensa à quedabismo* por fortuna 
Do sopro contumaz de tece-dunas, 
Qu’estranha fauna e flora... e que tormento! 

Hermético Bioma, por Sara Melissa de Azevedo (Poesia Lírica; Sonura) - 18 de outubro de 2024 

*Candor é um pássaro negro que reside em meus sonhos, de pequeno porte, longa crista; canto melancólico, longas penas negras com curvas ornamentais nas pontas. Seu nome é em razão de seus olhos profundamente brancos. 

*Quedabismo (substantivo feminino poético): Junção de queda+abismo; representa a queda de forma poética, indicando a sua profundidade e, consequentemente, a dor que ela causa. Essa queda é simbólica, geralmente atrelada às agruras e ou ardores da complexidade humana. 



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Pequenos Sinos

À noite, tilintam... | Entre a breve garoa; | E os brilhos longínquos, | Iguais se tilintam... | No firmamento sereno. | Tradições e esperanças: | Tesouros de vida,…

À noite, tilintam...
Entre a breve garoa;
E os brilhos longínquos,
Iguais se tilintam...
No firmamento sereno.
Tradições e esperanças:
Tesouros de vida,
Que assim fazem soá-la
Perenifólia,
Enquanto, o tempo,
N’ela, manso, tilinta.



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Florescer Melancólico

Silencie seus pensamentos por um instante e, então, ouça o canto do sereno vazio. Talvez eu sinta — na imensidão do único universo que me pertence…

Silencie seus pensamentos por um instante e, então, ouça o canto do sereno vazio. Talvez eu sinta — na imensidão do único universo que me pertence — uma sôfrega sensação de que não há, no interior do mundo humano, alma capaz de enxergar-me como sou.

Não porque estou invisível, mas sim porque ver o Ser é apenas possível àquele que o é. E mesmo nestas condições, vê-se o que se vê na idealização do próprio ser o que se é.

É compreensível todo o inestimável valor desta verdade; no entanto, compreendê-la não me isenta de sentir a profunda dor que ela causa, quando, a esmo, perco-me do rumo e, então, escapam, pelas trêmulas mãos, os sentidos de outrora. Quando as dúvidas permeiam a escuridão da mente inquieta e o “por que há vida?” ergue-se, como uma cordilheira, no horizonte.

Quando lembro que o efêmero condensa a vida, lapidando um medo de que tudo seja esquecido. Porque sou minhas lembranças de ser, ainda que imersas em um achismo ideal, neste terreno pulcro ergo um edifício de saberes aprendidos em momentos de estranheza e de fascínio, lugar que habito, portanto, ao passar do tempo, e que deixo, por fim, caminhando descalça até o horizonte cujo mar da morte aguarda-me: a singela nau, a estátua daquele que levará a minha vida.

Assim, perceberei que o edifício ruirá conforme sou levada pela nau da morte. Isso me inquieta. Eu não quero partir... Talvez eu sinta que, sob o mesmo sol do nunca-ser-alcançada-por-uma-alma-humana, reside um que-assim-seja. A vida ainda é um lírio para mim.



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Sê Éden

Floresça em direção ao vivo sol… | Que o lume da manhã, o gris frescor, | Conduzem quietude ao teu lençol | De cândido conforto e tenro ardor;...

Floresça em direção ao vivo sol… 
Que o lume da manhã, o gris frescor, 
Conduzem quietude ao teu lençol 
De cândido conforto e tenro ardor; 

Floresça sempre douta do qu’é simples 
Se sob a escuridão vir a ficares 
Acalma e regue as raras e absímiles 
Que fazem tu’essência de mil mares; 

Permita-se fanar quando preciso, 
É cedo crer que não renascerás; 
Adube com cautela o paraíso… 

Jardim d’esta tu’alma, então serás 
A lótus e o alvo lírio e a bela rosa, 
E as águas, teu pomar, poema e prosa… 
Silêncio-entardecer vislumbrarás. 

Escrito em 23 de agosto de 2024



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Sonura Aos Mortos

Memórias d’estas mil alcovas lôbregas, | Perlustro os epitáfios, os semblantes, | Há brandos anjos, murchas rosas sôfregas, | À morte: Os meus silêncios lacrimantes…

Memórias d’estas mil alcovas lôbregas, 
Perlustro os epitáfios, os semblantes, 
Há brandos anjos, murchas rosas sôfregas, 
À morte: Os meus silêncios lacrimantes… 

Epígrafes datadas de saudades… 
Soturno violino à sete palmos… 
Pretérito e futuro, ambiguidades… 
Um último versar dos raros salmos… 

Mil sonhos cujo rastro se prostrou… 
O Efêmero é, da vida, a cortesia 
Que dá sabor ao doce que amargou 

Lembrando-nos que houvera poesia, 
E mais um mausoléu longínquo conta: 
No fim aquele alvor sempre desponta”, 
Mas nunca há de brindar-nos c’o ambrosia… 

Escrito em 6 de setembro de 2024 



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Tempus Fugit III

Alguém verá esta noite, que estrelada, | A sós vislumbro em toda a imensidão? | E mesmo que a perceba agraciada | Compreende seu sabor de solidão?…

Alguém verá esta noite, que estrelada, 
A sós vislumbro em toda a imensidão? 
E mesmo que a perceba agraciada 
Compreende seu sabor de solidão? 

Alguém, sentindo a aragem tão sutil, 
Enquanto a escuridão é mui soturna, 
Talvez encontre lá, sentidos mil, 
Os quais estão, p’ra mim, na fé sonurna... 

Ó, quanta vastidão, do firmamento, 
Assombra, pois, infinitesimal, 
Mui faz do meu haver — triste relento; 

Soterro-me em vazio adagial... 
— O sopro d’uma vida passadiça — 
Andar errante à sombra fronteiriça 
Das horas no relógio arterial. 



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Sonura d’Inverno

Cinéreas nuvens, frio —  e a quietude, | A fina chuva, o aroma: há sopa quente | Nos prédios, casas, lares: placitude; | Debaixo, em cobertores — quiescente;

Morning Mist Oil Painting - Eduard Panov

Cinéreas nuvens, frio —  e a quietude,
A fina chuva, o aroma: há sopa quente
Nos prédios, casas, lares: placitude;
Debaixo, em cobertores — quiescente;

A névoa esparge calma — anoitece,
Cidade, outrora célere, amansou,
E a estranha sensação que se alvorece
Da vida, é a nostalgia — que invernou;

É julho… o tempo passa e as horas vão,
E as lágrimas me regam ternamente…
Humanos esplendores, que canção!

O sono pesa as pálpebras e, à mente,
Habita as fantasias das infâncias,
Do sonho ao despertar, equissonância
É o nosso mais hermético presente.



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Requiem aos Idos

Por vezes em meus sonhos turbulentos | Sentires do passado me retornam, | São como frágeis sombras, tenros ventos | Que espargem às paisagens que me ornam;…

 

Por vezes em meus sonhos turbulentos
Sentires do passado me retornam,
São como frágeis sombras, tenros ventos
Que espargem às paisagens que me ornam;

Aspiram, porventura, um libertar
Dos dédalos tão lúgubres da mente,
Meadas opressões, vir respirar,
Na paz da superfície do presente;

Compr’endo-os à medida em que desperto,
É símil ao fitar d’um outro alguém
Qu’em lágrimas, em prece, vê-se incerto

E enseja estar no sonho d’um outrem
De modo a amanhecer n’algum instante
A ter, então, o alívio fulgurante
Do “apenas pesadelo, nada além”.

 


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