Poesias, Sonuras, Tristeza, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Sonuras, Tristeza, Existencial Sahra Melihssa

Ao Lacrimar

Perpétuo Lacrimar, a solinura | É páramo de véus na cor marfim; | Ouvindo estás, meu cântico-tristura, | Enquanto a lira tange em silencim?…

Perpétuo Lacrimar, a solinura
É páramo de véus na cor marfim;
Ouvindo estás, meu cântico-tristura,
Enquanto a lira tange em silencim?

Tu qu’inda no sonhar do meu lamento
Perduras tão sombrífero e ardente…
Ó… vasto e quebradiço, ao léu do vento,
Orvalhas-me o contento remanente…

Est’alma é nós — condoída imensidão!
Perene Lacrimar, és meu amásio,
Conduzes desalento em algodão,

Vislumbras por cristais o teu copázio
Que tanto já transborda do manar
Que é nosso, vês, a pérola a brotar?
Pequena, orbicular, gema-calázio.

Conheça o significado de “solinura” ou “silencim” em Dicionário — Sara Melissa de Azevedo



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Cruel Delírio

Que ardor… Cri na mendaz ilusão | Teus olhos negros na escuridão | Fisgados por entre…

Imagem criada por Sahra Melihssa

Que ardor… Cri na mendaz ilusão
Teus olhos negros na escuridão
Fisgados por entre meus vitrais
Sutil luzido sob céus astrais
Enquanto o sopro frio em tua feição
Na aragem de aspectos brumais
Aluíra-me o infeliz coração.

Fui dentre os pinheiros te buscar
Nas sombras tua voz grave a chamar
Meus pés descalços, e eu tão marfim,
Que espinhos emergiram sob mim
Num negro roseiral de agoniar
Deixei um rastro em sangue carmesim
Horrores vis verti em lacrimar.

Que pouco a pouco a morte fatal
Viera à minha solidão cabal
Caíra ao meu ruir, ó, tão silenciado
Que fim; que epílogo consumado!
Roguei fraca por tu’alma abissal
Tal como fiz à tua cova, amado…
Tal como fiz no rito à catedral.

Senti tua presença eterna em tez
Fitei o envolto turvo em frigidez
Havia da noite a treva somente.

Tal como tu eras, intransigente,
Ela urgia muda, um mal imanente
Eu sob seu manto em languidez.

N’aurora, pois, voltei à lucidez
Tu foste a ilusão, ó, tristemente,
E eu só queria amar-te a última vez.



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Incômodo

Perdura ainda o tal do isolamento? | Ou só mantém-se a regra para mim? | Se saio vejo tantos n'um momento | Sorrindo e rindo em goles de festim; | Alguns até que…

 

Jozef Israels (1824 – 1911, Dutch) - Sunday Morning

 

Perdura ainda o tal do isolamento?
Ou só mantém-se a regra para mim?
Se saio vejo tantos n’um momento
Sorrindo e rindo em goles de festim;

Alguns até que vestem certos mantos
No rosto ou n’essa alma decadente
A qual carregam límpidos, sem prantos,
Enquanto vivo em cárcere vigente;

A sorte desse povo só me omina!
Se ouso a pé sair ali na esquina,
Provável qu’eu respire o vírus todo!

Eu devo estar de agrores malferidos,
Pois penso sou querida à ir p’r’o céu
Ou eles é que são os preferidos?

 
 
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Aesir

Uma lânguida tristura penetrou-me o âmago e minhas lágrimas nasceram como orvalho da manhã. Eu estava preenchida pelo vazio de modo que toda a extensão…

 

The Maiden’s Lament - Horace Vernet (1789-1863)

 

Uma lânguida tristura penetrou-me o âmago e minhas lágrimas nasceram como orvalho da manhã. Eu estava preenchida pelo vazio de modo que toda a extensão abíssica que o comporta fazia completo sentido em minha alma. E aquele ser continuava a olhar-me com seu lúrido semblante tumular. Eu soube, pouco antes, das consequências quais se desvelavam naquele atormentador momento, no entanto custei a acreditar até vivenciá-los, pois que qualquer sã criatura hesitaria assim como eu hesitei e, decerto, na mais pura consciência, qualquer um desconfiaria de sua própria sanidade tal como eu desconfiei no prelúdio de todas as coisas. Mas ali, sendo fitada profundamente por aquelas órbitas solitárias, já não cabia em meu peito quaisquer desconfianças, restava tão somente o vínculo ao desalento.

Devo dizer que ainda não manejo as palavras tal como sei que o farei nas próximas décadas; no entanto há sede e vazio, e as palavras possuem a razão elementar que me permite lembrar o sentido etéreo de minha escolha. A minha escolha; aquela que, por Amor, resistiu a todo o sangue e toda a agonia. Fui guiada por minha intuição desde que Aesir pousara em um dos balaústres, na varanda. Era três horas da manhã. O vi majestoso, de soslaio, imediatamente levantei-me para contemplá-lo de perto. Tratava-se de um pássaro corvino cujas penas possuíam tons violáceos, embora, predominantemente, negros. Seus olhos também eram púrpura e detinham uma reluzente constituição símil às chamas de um tipo de fogo obscuro e cósmico. Fitei-o através da porta, pelo vidro. Tive receio, por segundos, diante a magnitude da ave.

Olá” — sussurrei ao abrir a porta, um sopro taciturno adentrou a fresta e invadiu-me o corpo como se fosse uma aura — e de fato era, mas eu não sabia. Senti frio e angústia, abracei meus braços em busca de calidez e mirei os detalhes da criatura à minha frente. O pássaro era mais belo do que previsto, suas penas possuíam ornamentos reluzentes em um tipo de cor metálica-violeta e o bico era negro, de ponta afilada, perigosa e, talvez, fatal. Sentei-me à porta após buscar, devagar, a cadeira da escrivaninha. A porta de vidro permaneceu semiaberta, pois diante os detalhes que apreendi, temi um pouco mais, temi que seu acúleo penetrasse meu órgão vital, deste modo não deixei que o espaço fosse suficientemente vasto para que ele pudesse entrar. Era tão belo, tão estranhamente melancólico, não quis deixar de fitá-lo mesmo temerosa.

De onde é essa ave?” — pensei. “Parece um tipo de criatura dos sonhos, fantástica, irreal”. A ave parecia serena, seus movimentos eram tão venustos quanto sua aparência. “Agora não estou tão só” — proferi à ave. “Aqui, às vezes, é solitário; não é como se a solidão me perturbasse, mas você, como uma ave solitária tal como me parece ser, entende que, às vezes, faz falta…” — eu disse. Não há razões para eu ter começado um diálogo com aquela criatura, tratava-se de um pássaro, um tanto místico, eu sei, mas ainda assim era um pássaro; eu de fato sentia a solidão e a falta, a ausência corria em meus pulmões e, por vezes, devorava minha energia. Eu recebia visitas semanais e mensais de alguns familiares e amigos, nutríamos uma relação amistosa; ainda assim eu apenas não pertencia. Não havia encaixe e conforto ao lado daqueles quais me criaram e me educaram durante tantos anos; muito menos daqueles quais conheci no decorrer de meu amadurecimento. Todos eram estranhos e eu me sentia, a cada anfemeridade, mais alheia e indiferente e todos eles.

Meu adorável pai com seu austero semblante, era fraco; tão fraco. Seus traumas o faziam, tão somente, um homem comum cuja autoestima se imergia na ilusão de unicidade; minha mãe, tão amável, imersa em fantasmas cujos horrores a faziam morrer em si mesma, dia após dia. Ambos viam-me como um espelho, transformavam-me em si mesmos e, cada palavra a meu respeito que eu lhes direcionava, voltava para mim como sendo propriedade deles, acerca deles, nunca de mim. E o que posso falar sobre meus irmãos e tios e tias e avós? Todos são como fiéis carvalhos, enraizados no pântano de seus entraves e quimeras. Não se diferem de meus colegas e amigos, os quais vivem sedentos de compensação da vida adulta medíocre que são obrigados a levar. “Devo escolher um nome para você, não é?” — falei ao pássaro após um mergulho prolongado em meus reclusos pensamentos. “É isso que fazem os humanos, nomeiam os entes do mundo, coisas e criaturas” — expliquei e suspirei pela atmosfera ainda tão consternada. “Aesir…” — revelei. “É um nome com sonoridade interessante, não acha?” — mais um suspiro. “É isso… Aesir… Este será o seu nome agora”. Levantei-me. “Aesir, eu estou triste como nunca estivera, não poderei lhe fazer companhia. Logo amanhecerá.” — Fui à minha cama e me deitei. “Dizem que o amanhecer traz sempre um recomeço”. Antes de adormecer, lembro-me de ter visto Aesir voar.

Não era como avistar uma belíssima Arara azul ou, ainda, Tucanos ou Flamingos; Aesir era um pássaro obscuro, olhá-lo não trazia somente encanto de modo a ser, a primeira reação do observador, fotografá-lo ou, ainda, na pior das hipóteses, prendê-lo numa espécie de gaiola. Aesir trazia o encanto rubro cujas sensações de fascinação, infelicidade e vazio uniam-se através da morte em uma dança íntima e soturna. Fitá-lo era, tão somente, profundo desejo de fitá-lo e nada mais além das sensações deste etéreo contemplar. Apesar da estável veracidade daquele noturno encontro, ao despertar na manhã seguinte deduzi se tratar de um sonho lúcido e que a mística criatura nascera meramente das nódoas mentais de meu inconsciente ressentido.

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Lancinura

sinto mundos febris, | sinto imenso e agudo | dor no peito, amiúdo: | meus plangores ardis… | sentimento-agonia, | sinto tanta torrente | que se verte, cadente, | a ilusão de euforia…

Francesco Hayez (1791–1882) - Mary Magdalene as a hermit (1833) DETALHE

sinto mundos febris,
sinto imenso e agudo
dor no peito, amiúdo:
meus plangores ardis…

sentimento-agonia,
sinto tanta torrente
que se verte, cadente,
a ilusão de euforia…

sinto muito e pressinto:
decadência e martírio
penumbral sentinela;

aqui dentro, distinto…
se me fosse um delírio
não teria sequela.

5 de janeiro de 2021

“Lancinura” é uma palavra criada por mim para representar a sensação que atravessa os metros d’este Soneto. Significa o mesmo que “Lancinante”, contudo o termo ascende-se às profundezas do âmago pela vogal “U” mais grave que se estende por maior tempo. Além disso, “nura” faz referência ao termo “nullus” que em latim significa “nada” ou “coisa alguma”; isso porque sentir muito é olhar para o abismo do ser — o Nada que nos constitui — e que pulsa continuamente.

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