Índice
História da Sonura
O caminho da Sonura iniciou-se em fevereiro de 2021; tenho o registro d’esta ideia em meus arquivos, disponíveis em meu site também. Cingida por significados profundos, sentidos que me tocavam e me levavam ao desvelamento da poética através do som, do lirismo e da “nura” com sua significação lânguida, esta forma fixa de poema foi se aprimorando ao longo dos quatro anos seguintes.
Nunca dei como completa a constituição da Sonura, pois eu sabia que ela se transformaria tal como eu me transformo, pois é vinculada a mim — sua estrutura é parte da alma que reside no meu corpo. A Sonura deve ser cinesia, metamorfose e, sendo parte indissociável do Morlirismo — que viera depois dela, sim, entretanto, ela já o possuía mesmo desconhecendo seu nome—; a Sonura precisa de espaço para ser. Para manifestar seus modos-de-ser.
Devo confessar que após a criação da Sonura como um poema de vinte e três versos, esquema rítmico 1-3-6 e toda a estrutura métrica específica; fui deixando de escrever poemas dentro de sua composição, retornando aos quartetos e aos Sonetos desde o poema “Cinzas Feminis” ao “Pensares Nímios”. Havia incômodos que me impediam de continuar esta primeira versão: o poema era demasiado longo, seu ritmo nem sempre me agradava; o monóstico parecia complexo em excesso e as septilhas me levavam à exaustão. Então, em dezoito de fevereiro, um ano depois da criação da Sonura em sua primeira fundamentação, nasceu de mim a obra: “O Lago Sombrio”. Foi a primeira natureza verdadeiramente sonora que capturei em um poema. “O Lago Sombrio” é agradável de ler! Ele te envolve como o tenro curso de um rio, ainda que suas entranhas sejam dignas dos pesadelos mais terríficos. Escrevê-lo foi uma vivência silente, isto é, não o fiz pensando em modificar a Sonura — apenas nasceu do ventre de meu morlírico ser.
Com uma lentidão valiosa, mantive-me nos Sonetos enquanto sentia a Sonura em seu desvelamento íntimo. Levou o tempo que foi necessário, sem pressas, sem ardores martirizantes. Ela teve diversas composições no que se refere às rimas finais, quase sempre no esquema silábico 2-6-10. A partir do poema “Há o Silêncio”, escrito em outubro de 2022, eu não pude mais dar vida a Sonetos, pois a Sonura, em sua nova fase, roubara meu coração, d’este vez era perpétuo. Ainda assim, apenas em 2024 ela foi realmente estruturada, a partir do poema “Ao Lacrimar” — curiosdamente, optei pela estrutura nascida naturalmente em “O Lago Sombrio”, confirmando o fato de que a Sonura viera d’uma intuição. Por fim, em maio de 2024, escrevi “O que é uma Sonura?”.
Chegamos, portanto, ao ano de 2026. A estrutura da Sonura já consolidada. Diversas obras escritas por mim e algumas escritas por amigos poetas que apreciaram minha criação — e sinto imensa honra por isso. Aqui, pela expressão da cinesia sonora, do movimento como característica intrínseca, decidi por criar o que chamo de “Póstera” para Sonuras cujos quinze versos não comportam a totalidade sentimental do autor. Trata-se de um quarteto extra, com suas rimas mais musicais, em elo com os versos 12 e 15 da estrofe anterior da Sonura e, também, externando rimas únicas. Sonuras com Póstera são chamadas de “Sonura Posterata” — remete à escrita das composições na música clássica, justamente pela importância de seu som.
A minha primeira Sonura Posterata foi a “Saudade”, pode ser chamada também de “Opus: Saudade — Sonura Posterata nº1”; outra homenagem às músicas clássicas. Gosto de pensar que Sonuras ou Sonuras Posteratas são pequenas músicas aos corações, espíritos e lábios silenciados.
A Póstera nasceu da intuição e também da influência poética de meu caríssimo amigo Ricardo Zanella. Revelo tudo a respeito dela em “Sonuras e suas Pósteras: Significado e Sentido”. Aqui, temos, portanto, toda a história da Sonura até o momento. E reforço o que escrevi no artigo das Pósteras:
"Continuo carregando comigo uma fé indestrutível, a qual traduzo n’uma frase simples: A Poesia vai salvar o mundo."
Como Escrever Sonuras
Uma Sonura é composta por 4 estrofes. As duas primeiras estrofes são quartetos, isto é, estrofe com quatro versos. A terceira estrofe é um terceto, ou seja, estrofe com três versos. Por fim, a Sonura finaliza-se com mais um quarteto.
Cada estrofe precisa seguir o ritmo silábico 2-6-10. Isso significa que é obrigatório que haja uma sílaba tônica na posição 2, 6 e 10 do verso. Exemplo: “Perpé²tuo Lacrimar⁶, a solinu¹⁰ra”. As sílabas na métrica da poesia são contadas por elas mesmas, pelas tônicas e alguns poetas fazem junções de vogais, criando sílabas maiores que unem palavras. Exemplo: “De horror², temor — estra⁶nho e tão cala¹⁰do” — aquilo que está sublinhado, n’este verso, é compreendido como uma única sílaba poética.
Ao criar o seu verso para a Sonura, certifique-se de que há uma sílaba tônica nas posição 2-6-10. Ao escolher as rimas de sua Sonura, siga a seguinte estrutura:
1ª Estrofe, 1º Quarteto: ABAB
2ª Estrofe, 2º Quarteto: CDCD
3ª Estrofe, 1º Terceto: EFE
4ª Estrofe, 3º Quarteto: FGGF
Cada letra é uma rima e a rima é “eco tônico”, isso significa que não basta o final da palavra ser a mesma; exemplo: “casúlo” e “cálculo” — é preciso que a tônica tenha o mesmo som, tal como em “casúlo” e “chulo”. O Sonurista, entretanto, pode usar sua intuição sonora para, eventualmente, quebrar esta regra.
Se a letra da estrtutura de rima se repete, então a rima se repete. Se a rima “A” escolhia foi “ente”, nenhuma outra letra além da “A” poderá possuir a rima “ente”. Exemplo:
Veja uma Sonura completa: contagem silábica (ritmo), rimas (ecos tônicos finais) e estrutura (corpo):
1ª Estrofe | 1º Quarteto
Perpé²tuo Lacrimar⁶, a solinu¹⁰ra (A: ura)
É pá²ramo de véus⁶ na cor marfim¹⁰; (B: im)
Ouvin²do estás, meu cân⁶tico-tristu¹⁰ra, (A: ura)
Enquan²to a lira tan⁶ge em silencim¹⁰? (B: im)
2ª Estrofe | 2º Quarteto
Tu qu’i²nda no sonhar⁶ do meu lamen¹⁰to (C: ento)
Perdu²ras tão sombrí⁶fero e arden¹⁰te… (D: ente)
Ó… vas²to e quebradi⁶ço, ao léu do ven¹⁰to, (C: ento)
Orva²lhas-me o conten⁶to remanen¹⁰te… (D: ente)
3ª Estrofe | 1º Terceto
Est’a²lma é nós — condoí⁶da imensidão¹⁰! (E: ão)
Pere²ne Lacrimar⁶, és meu amásio¹⁰, (F: ázio)
Condu²zes desalen⁶to em algodão¹⁰, (E: ão)
4ª Estrofe | 3º Quarteto
Vislum²bras por cristais⁶ o teu copázio¹⁰ (F: ázio)
Que tan²to já transbor⁶da do manar¹⁰ (G: ar)
Que é no²sso, vês, a pé⁶rola a brotar¹⁰? (G: ar)
Peque²na, orbicular⁶, gema-calázio¹⁰. (F: ázio)
Como Escrever uma Sonura Posterata?
Uma Sonura Posterata é idêntica às Sonuras comuns, entretanto, é adicionada uma 5ª Estrofe de 4 versos (Quarteto) no final do poema. O ritmo é o mesmo: 2-6-10. Esta Estrofe é chamada Póstera, pois é posterior à Sonura. Geralmente é adicionada à Sonura para:
Uma conclusão posterior.
Um retorno do assunto principal da Sonura, mas com outro viés ou outra percepção.
Uma confissão/acontecimento sobre o assunto da Sonura.
Um pensamento adicional.
Uma sonoridade mais melódica.
As rimas da Póstera são HHFH — note que a rima F também aparece no 3º quarteto da Sonura; esta rima retorna à Póstera para fazer a ligação sonora da Sonura com a Póstera. A Póstera leva três versos com sua rima própria, a rima H não pode ser igual a nenhuma rima dentro da sonura. Leia abaixo o exemplo da estutura completa da Sonura Posterata;
1ª Estrofe | 1º Quarteto
Nos la²gos da sauda⁶de há tenro orva¹⁰lho (A: alho)
De lá²grimas nati⁶vas do meu ser¹⁰… (B: er)
Oní²ricas ventu⁶ras são-me ata¹⁰lhos (A: alhos)
P’ra sô²frega distâ⁶ncia combater¹⁰… (B: er)
2ª Estrofe | 2º Quarteto
Versí²culo d’ausê⁶ncia na escritu¹⁰ra (C: ura)
Murmu²ra-me as vis má⁶goas da lembran¹⁰ça, (D: ança)
Escul²po a fronte tua⁶ na minh’agru¹⁰ra — (C: ura)
Em már²more de dor⁶ e temperan¹⁰ça… (D: ança)
3ª Estrofe | 1º Terceto
Claman²do ao teu revir⁶ — rezo exauri¹⁰da… (E: ida)
A dá²diva que aos as⁶tros eu mendi¹⁰go (F: igo)
Enquan²to calcifi⁶co-te à mi’a vi¹⁰da… (E: ida)
4ª Estrofe | 3º Quarteto
Privei²-me à calidez⁶, meu frio jazi¹⁰go (F: igo)
‘rrefe²ce-me as arté⁶rias langoro¹⁰sas, (G: osas)
Que mór²bida fortu⁶na, assim dano¹⁰sa… (G: osas)
Empu²lha da paixão⁶ que em ti persi¹⁰go… (F: igo)
5º Estrofe | 4º Quarteto | (Póstera)
Contu²do é verossí⁶mil certo fa¹⁰do (H: ado)
De horror², temor — estra⁶nho e tão cala¹⁰do… (H: ado)
Quiçá² me aquerencie a⁶o mor peri¹⁰go: (F: igo)
Perder²-te para o tem⁶po desalma¹⁰do. (H: ado)
Dúvidas frequentes sobre Sonuras e Pósteras
Pode-se colocar mais de uma Póstera na Sonura?
Não recomendo. É preciso estudar melhor como adicionar outras Pósteras à Sonura sem que o ritmo fique excessivo e sem que a Sonura Posterata se transforme n’um poema Póstero.Posso escrever sobre qualquer assunto em uma Sonura?
Sim, mas recomendo seguir os princípios do Morlirismo, pois a Sonura é essencialmente Morlírica.Por que a Sonura se chama Sonura?
“Sonura” vem de “Sonus” que é “som” em latim. Já o “-ura” é um sufixo geralmente vindo de “-itas” que dá qualidade ao substantivo em latim. No entanto, “nura” é uma palavra que tomei para mim. A partir disso, dei-lhe o seguinte significado: “silêncio absorto e melancólico”. Unindo tais significados, temos uma poesia constituída de som e silêncio, que nos deixa absortos e melancólicos — em êxtase poético.