Sonuras e suas Pósteras: Significado e Sentido
Queridos leitores
Estamos em mais um marco para a Poética Morlírica: a Sonura Posterata. Aos meus raros leitores melancólicos e núridos, escrevi este artigo sobre as Pósteras para que possam apreciar e, sobretudo, inspirar-se no deleite poético que elas oferecem. Aproveitei para atualizar a História da Sonura que pode ser lida aqui — junto com a explicação de como escrevê-las. Desejo, com ímpeto, que as Pósteras encontrem lugar no coração sensível de meus leitores, tal como encontrou no meu.
O caminho da Sonura iniciou-se em fevereiro de 2021; tenho o registro d’esta ideia em meus arquivos, disponíveis em meu site também. Cingida por significados profundos, sentidos que me tocavam e me levavam ao desvelamento da poética através do som, do lirismo e da “nura” com sua significação melancólica, esta forma fixa de poema foi se aprimorando ao longo dos quatro anos seguintes.
Nunca dei como completa a constituição da Sonura, pois eu sabia que ela se transformaria tal como eu me transformo, pois é vinculada a mim — sua estrutura é parte da alma que reside no meu corpo. A Sonura deve ser cinesia, metamorfose e, sendo parte indissociável do Morlirismo — que viera depois dela, sim, entretanto, ela já o possuía mesmo desconhecendo seu nome—; a Sonura precisa de espaço para ser. Para manifestar seus modos-de-ser.
Pela expressão da cinesia sonora e silente, do movimento como característica, decidi por criar o que chamo de “Póstera” para Sonuras cujos quinze versos não comportam a totalidade sentimental do autor. Trata-se de um quarteto extra, com suas rimas mais musicais, em elo com os versos 12 e 15 da estrofe anterior e, também, externando rimas únicas. Sonuras com Póstera são chamadas de “Sonura Posterata” — remete à escrita das composições na música clássica, justamente pela importância de seu som.
A minha primeira Sonura Posterata foi a “Saudade”, também nomeada de “Opus: Saudade — Sonura Posterata nº1”. Mais uma homenagem à música clássica; gosto de pensar que Sonuras e Sonuras Posteratas são pequenas músicas aos corações, espíritos e lábios silenciados. A Opus: Saudade — nº1 pode ser lida abaixo, na íntegra.
Somente uma Póstera pode ser adicionada à Sonura — esta é a regra atual; dada a complexidade de análise do som rítmico, pois não a construí de forma neutra, ela está intimamente vinculada à última estrofe da Sonura e, portanto, o que viria a posteriori, não teria espaço para este elo sem que a repetição de rimas se desse — e este repetir poderia ser desagradável, uma vez que a Póstera usa três, das quatro rimas, respectivamente a 1ª, 3ª e 4ª, com a mesma sílaba poética final. Talvez, sobretudo, a 2ª rima da Póstera, sendo igual aos versos 12 e 15 da Sonura, pudesse abrir uma segunda Póstera, porém, vem-me a dúvida: Ser-se-ia eternamente repetida as rimas 12 e 15? Se não, afinal, como soltá-la? Em razão destas dúvidas, reafirmo que, por enquanto, somente uma Póstera pode ser adicionada às Sonuras.
Substanciada, enfim, por quatro versos; a Póstera segue o ritmo 2/6/10 como de costume às Sonuras. Suas rimas, todavia, são HHFH — por que tais letras para representá-las? É simples, abaixo está a estrutura da Sonura. Cada letra representa uma sílaba poética final obrigatória. Se a letra se repete, é porque a sílaba poética deve repetir-se; se, não obstante, a letra se difere, significa que a sílaba poética deve diferir das demais. Em suma, a sílaba poética final em A não pode ser repetida em B, nem em F ou H; ela só pode estar na posição A.
1º Quarteto
Nos la²gos da sauda⁶de há tenro orva¹⁰lho(A: alho)
De lá²grimas nati⁶vas do meu ser¹⁰… (B: er)
Oní²ricas ventu⁶ras são-me ata¹⁰lhos (A: alhos)
P’ra sô²frega distâ⁶ncia combater¹⁰… (B: er)
2º Quarteto
Versí²culo d’ausê⁶ncia na escritu¹⁰ra (C: ura)
Murmu²ra-me as vis má⁶goas da lembran¹⁰ça, (D: ança)
Escul²po a fronte tua⁶ na minh’agru¹⁰ra — (C: ura)
Em már²more de dor⁶ e temperan¹⁰ça… (D: ança)
1º Terceto
Claman²do ao teu revir⁶ — rezo exauri¹⁰da… (E: ida)
A dá²diva que aos as⁶tros eu mendi¹⁰go (F: igo)
Enquan²to calcifi⁶co-te à mi’a vi¹⁰da… (E: ida)
3º Quarteto
Privei²-me à calidez⁶, meu frio jazi¹⁰go (F: igo)
‘rrefe²ce-me as arté⁶rias langoro¹⁰sas, (G: osas)
Que mór²bida fortu⁶na, assim dano¹⁰sa… (G: osas)
Empu²lha da paixão⁶que em ti persi¹⁰go… (F: igo)
5º Quarteto (Póstera)
Contu²do é verossí⁶mil certo fa¹⁰do (H: ado)
De horror², temor — estra⁶nho e tão cala¹⁰do… (H: ado)
Quiçá²me aquerencie a⁶o mor peri¹⁰go: (F: igo)
Perder²-te para o tem⁶po desalma¹⁰do. (H: ado)
Note que há certas sílabas e letras conectadas por sublinhado, isto acontece porque vogais podem se unir formando uma única sílaba poética. Leia os versos em voz alta para notar esta junção, caso não consiga compreender apenas com a explicação. Uma sílaba poética pode conter até três vogais consecutivas, como se pode notar em 5º Quarteto, estrofe 3ª: “aquerencie a⁶o”. Por questão sequencial, a letra “o” não se fundiu ao “iea”.Mas estas são virtudes singelas que pertencem aos poetas, e em cada poeta uma virtude pode nascer de sua própria maneira. Verdades absolutas pertencem aos deuses, não aos humanos. Explico somente por se tratar da minha construção preferida para Sonuras e, agora, para Pósteras. Estudo as sonoridades para que sejam agradáveis, sempre transmitindo sentimentos e emoções.
Dei luz a duas Sonuras Posteratas até o instante d’este artigo; eu as sinto bastante sólidas e, por esta razão, estou compartilhando detalhes. A Póstera emergiu de súbito, confesso; inspirei-me em demasia nos poemas de um caríssimo amigo, Ricardo Zanella — e faço questão de mencioná-lo, pois, quando nos inspiramos em pessoas que temos grande afeto, é honra poder reforçar esta inspiração. Zanella é poeta raro e algumas de suas trovas possuem tornadas, estrofes conseguintes ao poema principal. É bem similar a Póstera, mas com outro ritmo, outra essência. Ao ler seu versificar fascinante, vinha-me o pensamento: “E se a Sonura pudesse ter uma tornada ou algo semelhante que lhe fosse adicionada?” — meu objetivo era que fosse uma cauda poética, um retorno da ideia central, uma conclusão mais sonora ou uma abertura indagativa. O Morlirismo exige uma profundidade que, talvez, uma estrofe a mais pudesse prolongar tal abismo sentimental — se fosse preciso.
Aprecio pensar a Póstera como um elã após o êxtase poético da Sonura. Coloco-a em itálico justamente para dar tal impressão. Ainda preciso construir mais delas, para que suas verdades se manifestem através de minhas palavras; para que eu a compreenda com abertura e esmero. Pois, para mim, tudo o que é criado pelas minhas mãos e pela minha mente, tem vida! E essa vida é morlírica — e eu, como criadora, tenho a obrigação de criar vínculos duradouros com minhas criaturas; vínculos de respeito e admiração.
Dou boas-vindas à Póstera, que ela possa sentir que este é seu lar morlírico. Que tenha vivências fascinantes e terríficas ao lado das Sonuras e que ela possa habitar todo o universo construído ao seu redor. Esta é mais uma parte inestimável do caminho de minha poética, um marco inesquecível. Sinto-me realizada e feliz! Empolgada para escrever mais e sempre mais. Continuo carregando comigo uma fé indestrutível, a qual traduzo n’uma frase simples: “A Poesia vai salvar o mundo”.
O caminho da Sonura iniciou-se em fevereiro de 2021; tenho o registro d’esta ideia em meus arquivos, disponíveis em meu site também. Cingida por significados…