A Cisne Pálida
Dançava a Cisne Pálida, “coisa abominável e repugnante” — é o que diziam. Sauter, sauter, tourner, glisser; beleza e fascínio, como flor e como rio. Os homens do Théâtre Étoile Noire lhe tinham grande fetiche, tanto pelos valores exorbitantes das vendas de ingressos para o grã-show de Cisne Pálida, quanto por seu corpo animalesco. As mulheres lhe invejavam pelos movimentos graciosos e lhe riram em razão de seu pescoço e suas asas.
Dançava a Cisne Pálida, ainda que sob tomates pobres — lançavam-lhe quando emergia no palco, entre sombras e tristuras. Ela, contudo, não se desequilibrava: sauter, sauter, tourner, glisser — cinesia perfeita ao som de Tchaikovsky. Lúgubre piano, melancólico violino — que não se sabe d’onde vinham, música fantasma de mórbida ópera.
Certa vez, no palco embalsamado de vinho, a Cisne Pálida beijara, d’um caule, vinte espinhos — e proferira quinze versos n’um idioma arcano.
Dançara, a Cisne Pálida, sangrando os lábios-bico — era mulher, mais do que viam, um ser de dois corações. Sauter, sauter, tourner, glisser; e as penas enegreciam. Sauter, sauter, tourner, glisser; e suas lágrimas vertiam. Em dor aguda, élancer! O Gran Finale. Todos na plateia se horrorizaram, seus olhos brilharam com as chamas enquanto seguravam ovos podres e grunhiam. O fogo esplendoroso erguera-se de súbito. Élancer! Como pôde acontecer? A Cisne Pálida queimara junto às cortinas.
Morrera, a Cisne Pálida — um alívio, um alívio! Em sua pele límpida não havia resquícios de queimaduras; mas seus corações pararam para sempre. Debaixo da meia-ponta: um papel com uma Sonura — poema de quinze versos, tesouro antigo. E todos os que ali seguravam bananas pútridas em riste, carbonizaram — sofriam, gritavam! Um som horrível! Desesperados! E os homens foram pisoteados no caos e as mulheres arrancaram seus próprios cabelos em loucura!
Morrera, a Cisne Pálida, bela e única — rareza pertencente aos céus e nunca, nunca, nunca merecera a vida amarga. Se voltara ao paraíso, não sei; mas decerto descansa nos braços da justiça — e que vença a justiça! Pelos de bom coração cuja alma na lembrança perdura. Se não for assim, que esta fábula se queime ao fim da leitura.
Caríssimo Dom Søren. No meu coração reside uma profundeza triste que, como uma tenra maré, movimenta-se em ondas frígidas sobre a areia mísera…