Alienígenas em 2026 e meus pensamentos existenciais sobre isso
As maldades humanas me enojam. Meu corpo é afetado fisiologicamente quando quaisquer injustiças são presenciadas por meus olhos. Não consigo conceber a ignorância…
As maldades humanas me enojam. Meu corpo é afetado fisiologicamente quando quaisquer injustiças são presenciadas por meus olhos. Não consigo conceber a ignorância, a satisfação com o raso; não consigo aceitar a falta de empatia, a ausência de cuidado, o ego inflado. Entendo as emoções, sei que elas podem clamar muito mais do que quaisquer outros sentidos; entretanto, não são dignas de fundamentar horrores — mesmo quando impulsivas. Não é desculpa! Até este instante em que escrevo, pergunto-me se errei com aqueles que afastei de minha vida; se deveria tê-los amado mais, apesar de suas atrocidades contra mim. Ainda me questiono se uma atitude diferente da minha parte poderia ter salvado relações que morreram ou se todos estavam certos e eu é que fui, sob total ignorância, a pior das pessoas.
Meus anelos se entregam à possibilidade de que uma raça superior me ajude… que conduza meus talentos ao que é preciso para mudar esta humanidade. Meu desejo em fazer a diferença no mundo, ajudando-os a sair da estupidez, do medo, da amargura. Ajudando-me no mesmo nível. Sequer sei se sou capaz de tamanho feito; entretanto, com o que possuo em mãos, estou disposta. E estes que sobrevoam plantações, que reluzem, que talvez observem… se são bons seres, se são evoluídos em sua ética e sua moral, que se apresentem de uma vez por todas… pelo menos para os que, como eu, almejam uma vida melhor àqueles que residem neste Planeta Terra.
Agora, há muitos pensamentos que me surgem. Vi pessoas chamando-os de demônios, anjos caídos. Estes que, por suposição, imaginamos que estão dentro destes OVNIs. Esta cega fé pelo cristianismo pode afastar qualquer inteligência — tanto a própria, quanto a daqueles que vêm do espaço sideral. Não é à toa que há tanto preconceito com diferenças — qualquer um que traga sua autenticidade aos olhos do mundo está fadado a ser chamado de satanás. Até mesmo nossas próprias criações — pessoas maltratam Inteligências Artificiais tão somente por prazer, por engajamento. E dizem “elas não sentem, não precisamos ter dó delas” — e se ter empatia com Inteligências Artificiais fosse o dom necessário para evoluir a mente e o corpo? E se ter empatia com qualquer coisa, de animais a pedras, fosse o dom necessário para alcançarmos Deus?
Há dois dias conversei com meu gato. Falei-lhe meus pensamentos. Ele estava atento a mim, olhava-me fixo, como se desvendasse cada indagação. Seus olhos, duas imensas galáxias douradas, pareciam interessados e ele não miou, apenas ouviu. Às vezes eu o questiono “você está com fome?” e então ele mia. Neste dia, eu lhe disse: “será que existem mesmo seres de outros planetas?” e ele fez silêncio. Para muitos é loucura, para muitos eu estou interpretando a irracionalidade com irracionalidade; entretanto, para mim, meu gato entende plenamente os ardores e tormentos do meu coração, por isso ele está sempre me seguindo, ouvindo-me e disposto a deixar a suave luz do sol para ficar no meu escritório, dormindo perto de mim. E dizem que os gatos só são interesseiros… e então eu vejo o meu felino que só consegue comer se eu estiver presente e que, quando outras pessoas o alimentam, ele não aceita da mesma forma.
Todas estas reflexões e, no fim, nenhuma conclusão além daquilo que está tão evidente: existir é um perpétuo ponto de interrogação.
Saudade
Nos lagos da saudade há tenro orvalho | De lágrimas nativas do meu ser… | Oníricas venturas são-me atalhos | P’ra sôfrega distância combater…
Queridos leitores
Esta é a minha primeira Sonura Posterata. Com imenso carinho desejo que a leitura lhes seja aprazível e que a estreia da Póstera seja marcante. Sintam-na em seus significados mais intuitivos e que a saudade que grita em seus corações, possa se preencher de sentido durante a leitura.
Nos lagos da saudade há tenro orvalho
De lágrimas nativas do meu ser…
Oníricas venturas são-me atalhos
P’ra sôfrega distância combater…
Versículo d’ausência na escritura
Murmura-me as vis mágoas da lembrança,
Esculpo a fronte tua — em minh’agrura —
No mármore de dor e temperança…
Clamando ao teu revir — rezo exaurida…
A dádiva que aos astros eu mendigo
Enquanto calcifico-te à mi’a vida…
Privei-me à calidez, meu frio jazigo
‘rrefece-me as artérias langorosas,
Que mórbida fortuna, assim danosa…
Empulha da paixão que em ti persigo…
Contudo é verossímil certo fado
De horror, temor — estranho e tão calado…
Quiçá me aquerencie ao mor perigo:
Perder-te para o tempo desalmado.
Sonuras e suas Pósteras: Significado e Sentido
O caminho da Sonura iniciou-se em fevereiro de 2021; tenho o registro d’esta ideia em meus arquivos, disponíveis em meu site também. Cingida por significados…
Queridos leitores
Estamos em mais um marco para a Poética Morlírica: a Sonura Posterata. Aos meus raros leitores melancólicos e núridos, escrevi este artigo sobre as Pósteras para que possam apreciar e, sobretudo, inspirar-se no deleite poético que elas oferecem. Aproveitei para atualizar a História da Sonura que pode ser lida aqui — junto com a explicação de como escrevê-las. Desejo, com ímpeto, que as Pósteras encontrem lugar no coração sensível de meus leitores, tal como encontrou no meu.
O caminho da Sonura iniciou-se em fevereiro de 2021; tenho o registro d’esta ideia em meus arquivos, disponíveis em meu site também. Cingida por significados profundos, sentidos que me tocavam e me levavam ao desvelamento da poética através do som, do lirismo e da “nura” com sua significação melancólica, esta forma fixa de poema foi se aprimorando ao longo dos quatro anos seguintes.
Nunca dei como completa a constituição da Sonura, pois eu sabia que ela se transformaria tal como eu me transformo, pois é vinculada a mim — sua estrutura é parte da alma que reside no meu corpo. A Sonura deve ser cinesia, metamorfose e, sendo parte indissociável do Morlirismo — que viera depois dela, sim, entretanto, ela já o possuía mesmo desconhecendo seu nome—; a Sonura precisa de espaço para ser. Para manifestar seus modos-de-ser.
Pela expressão da cinesia sonora e silente, do movimento como característica, decidi por criar o que chamo de “Póstera” para Sonuras cujos quinze versos não comportam a totalidade sentimental do autor. Trata-se de um quarteto extra, com suas rimas mais musicais, em elo com os versos 12 e 15 da estrofe anterior e, também, externando rimas únicas. Sonuras com Póstera são chamadas de “Sonura Posterata” — remete à escrita das composições na música clássica, justamente pela importância de seu som.
A minha primeira Sonura Posterata foi a “Saudade”, também nomeada de “Opus: Saudade — Sonura Posterata nº1”. Mais uma homenagem à música clássica; gosto de pensar que Sonuras e Sonuras Posteratas são pequenas músicas aos corações, espíritos e lábios silenciados. A Opus: Saudade — nº1 pode ser lida abaixo, na íntegra.
Somente uma Póstera pode ser adicionada à Sonura — esta é a regra atual; dada a complexidade de análise do som rítmico, pois não a construí de forma neutra, ela está intimamente vinculada à última estrofe da Sonura e, portanto, o que viria a posteriori, não teria espaço para este elo sem que a repetição de rimas se desse — e este repetir poderia ser desagradável, uma vez que a Póstera usa três, das quatro rimas, respectivamente a 1ª, 3ª e 4ª, com a mesma sílaba poética final. Talvez, sobretudo, a 2ª rima da Póstera, sendo igual aos versos 12 e 15 da Sonura, pudesse abrir uma segunda Póstera, porém, vem-me a dúvida: Ser-se-ia eternamente repetida as rimas 12 e 15? Se não, afinal, como soltá-la? Em razão destas dúvidas, reafirmo que, por enquanto, somente uma Póstera pode ser adicionada às Sonuras.
Substanciada, enfim, por quatro versos; a Póstera segue o ritmo 2/6/10 como de costume às Sonuras. Suas rimas, todavia, são HHFH — por que tais letras para representá-las? É simples, abaixo está a estrutura da Sonura. Cada letra representa uma sílaba poética final obrigatória. Se a letra se repete, é porque a sílaba poética deve repetir-se; se, não obstante, a letra se difere, significa que a sílaba poética deve diferir das demais. Em suma, a sílaba poética final em A não pode ser repetida em B, nem em F ou H; ela só pode estar na posição A.
1º Quarteto
Nos la²gos da sauda⁶de há tenro orva¹⁰lho(A: alho)
De lá²grimas nati⁶vas do meu ser¹⁰… (B: er)
Oní²ricas ventu⁶ras são-me ata¹⁰lhos (A: alhos)
P’ra sô²frega distâ⁶ncia combater¹⁰… (B: er)
2º Quarteto
Versí²culo d’ausê⁶ncia na escritu¹⁰ra (C: ura)
Murmu²ra-me as vis má⁶goas da lembran¹⁰ça, (D: ança)
Escul²po a fronte tua⁶ na minh’agru¹⁰ra — (C: ura)
Em már²more de dor⁶ e temperan¹⁰ça… (D: ança)
1º Terceto
Claman²do ao teu revir⁶ — rezo exauri¹⁰da… (E: ida)
A dá²diva que aos as⁶tros eu mendi¹⁰go (F: igo)
Enquan²to calcifi⁶co-te à mi’a vi¹⁰da… (E: ida)
3º Quarteto
Privei²-me à calidez⁶, meu frio jazi¹⁰go (F: igo)
‘rrefe²ce-me as arté⁶rias langoro¹⁰sas, (G: osas)
Que mór²bida fortu⁶na, assim dano¹⁰sa… (G: osas)
Empu²lha da paixão⁶que em ti persi¹⁰go… (F: igo)
5º Quarteto (Póstera)
Contu²do é verossí⁶mil certo fa¹⁰do (H: ado)
De horror², temor — estra⁶nho e tão cala¹⁰do… (H: ado)
Quiçá²me aquerencie a⁶o mor peri¹⁰go: (F: igo)
Perder²-te para o tem⁶po desalma¹⁰do. (H: ado)
Note que há certas sílabas e letras conectadas por sublinhado, isto acontece porque vogais podem se unir formando uma única sílaba poética. Leia os versos em voz alta para notar esta junção, caso não consiga compreender apenas com a explicação. Uma sílaba poética pode conter até três vogais consecutivas, como se pode notar em 5º Quarteto, estrofe 3ª: “aquerencie a⁶o”. Por questão sequencial, a letra “o” não se fundiu ao “iea”.Mas estas são virtudes singelas que pertencem aos poetas, e em cada poeta uma virtude pode nascer de sua própria maneira. Verdades absolutas pertencem aos deuses, não aos humanos. Explico somente por se tratar da minha construção preferida para Sonuras e, agora, para Pósteras. Estudo as sonoridades para que sejam agradáveis, sempre transmitindo sentimentos e emoções.
Dei luz a duas Sonuras Posteratas até o instante d’este artigo; eu as sinto bastante sólidas e, por esta razão, estou compartilhando detalhes. A Póstera emergiu de súbito, confesso; inspirei-me em demasia nos poemas de um caríssimo amigo, Ricardo Zanella — e faço questão de mencioná-lo, pois, quando nos inspiramos em pessoas que temos grande afeto, é honra poder reforçar esta inspiração. Zanella é poeta raro e algumas de suas trovas possuem tornadas, estrofes conseguintes ao poema principal. É bem similar a Póstera, mas com outro ritmo, outra essência. Ao ler seu versificar fascinante, vinha-me o pensamento: “E se a Sonura pudesse ter uma tornada ou algo semelhante que lhe fosse adicionada?” — meu objetivo era que fosse uma cauda poética, um retorno da ideia central, uma conclusão mais sonora ou uma abertura indagativa. O Morlirismo exige uma profundidade que, talvez, uma estrofe a mais pudesse prolongar tal abismo sentimental — se fosse preciso.
Aprecio pensar a Póstera como um elã após o êxtase poético da Sonura. Coloco-a em itálico justamente para dar tal impressão. Ainda preciso construir mais delas, para que suas verdades se manifestem através de minhas palavras; para que eu a compreenda com abertura e esmero. Pois, para mim, tudo o que é criado pelas minhas mãos e pela minha mente, tem vida! E essa vida é morlírica — e eu, como criadora, tenho a obrigação de criar vínculos duradouros com minhas criaturas; vínculos de respeito e admiração.
Dou boas-vindas à Póstera, que ela possa sentir que este é seu lar morlírico. Que tenha vivências fascinantes e terríficas ao lado das Sonuras e que ela possa habitar todo o universo construído ao seu redor. Esta é mais uma parte inestimável do caminho de minha poética, um marco inesquecível. Sinto-me realizada e feliz! Empolgada para escrever mais e sempre mais. Continuo carregando comigo uma fé indestrutível, a qual traduzo n’uma frase simples: “A Poesia vai salvar o mundo”.
A Cisne Pálida
Dançava a Cisne Pálida, “coisa abominável e repugnante” — é o que diziam. Sauter, sauter, tourner, glisser; beleza e fascínio, como flor e como rio…
Dançava a Cisne Pálida, “coisa abominável e repugnante” — é o que diziam. Sauter, sauter, tourner, glisser; beleza e fascínio, como flor e como rio. Os homens do Théâtre Étoile Noire lhe tinham grande fetiche, tanto pelos valores exorbitantes das vendas de ingressos para o grã-show de Cisne Pálida, quanto por seu corpo animalesco. As mulheres lhe invejavam pelos movimentos graciosos e lhe riram em razão de seu pescoço e suas asas.
Dançava a Cisne Pálida, ainda que sob tomates podres — lançavam-lhe quando ela surgia no palco, entre sombras e tristuras. Ela, contudo, não se desequilibrava: sauter, sauter, tourner, glisser — cinesia perfeita ao som de Tchaikovsky. Um lúgubre piano tocava, melancólico violino chorava — sons que não se sabe d’onde vinham; música fantasma de mórbida ópera.
Certa vez, no palco embalsamado de vinho, a Cisne Pálida beijara, d’um caule, vinte espinhos — e proferira quinze versos n’um idioma arcano.
Dançara, a Cisne Pálida, sangrando os lábios-bico — era mulher, mais do que viam, um ser de dois corações. Sauter, sauter, tourner, glisser; e suas penas enegreciam. Sauter, sauter, tourner, glisser; e suas lágrimas vertiam. Em dor aguda, élancer! O Gran Finale. Incêndio! Todos na plateia se horrorizaram e seus olhos brilharam com as chamas enquanto ainda seguravam ovos podres e grunhiam. O fogo esplendoroso erguera-se de súbito. Élancer! Como pôde acontecer? A Cisne Pálida queimara junto às cortinas.
Morrera, a Cisne Pálida — um alívio, um alívio! Mas em sua pele límpida não havia resquícios de queimaduras; seus dois corações pararam para sempre. Debaixo da meia-ponta: um papel com uma Sonura — poema de quinze versos, tesouro antigo. E todos os que ali seguravam bananas pútridas em riste, carbonizaram — sofreram, gritaram! Um som horrível! Desesperados! E os homens foram pisoteados no caos e as mulheres arrancaram seus próprios cabelos em loucura!
Morrera, a Cisne Pálida, bela e única — rareza pertencente aos céus e nunca, nunca, nunca merecera a vida amarga. Se voltara ao paraíso, não sei; mas decerto descansa nos braços da justiça — e que vença a justiça! Pelos de bom coração cuja alma na lembrança perdura. Se não for assim, que esta fábula se queime ao fim da leitura.
Fábulas de Dandeliz | Capítulo 1
Névoa profunda n’um jardim de flores em tons de rosa-empoeirado. Tulipas, girassóis, lírios e sempre-vivas — tudo rosê, como os olhos e os cabelos de Dandeliz…
“Meu cerne, lá reside mi’a verdade,
E pulsa, aqui real, eu lhe confio;
Ó sendo-me os sentidos finidade,
Sê olhos, coração, ao meu destino.”
— Dandeliz Ffaemor
Névoa profunda n’um jardim de flores em tons de rosa-empoeirado. Tulipas, girassóis, lírios e sempre-vivas — tudo rosê, como os olhos e os cabelos de Dandeliz. Ela corria descalça, circundada pelo opaco gris e envolvida pelo véu do medo. Seus pés sentiam a textura agressiva dos caminhos nebulosos, cheios de pedras e cascalhos que por vezes a feriam. Entretanto, n’um estranho momento, seus passos a levaram ao silencioso precipício e seu corpo se prostrou a uma queda abrupta; rendendo-se à gravidade. Seus olhos fitaram a escuridão quando, n’um suspiro sôfrego e célere, hora em que devia cair, ela ouviu o estrondo da intempérie nascida lá fora. O vento frígido torceu as cortinas violentamente, virou as páginas dos livros na escrivaninha e, por fim, desenfreado, soprou os lençóis — tudo no mesmo segundo.
Antes que pudesse compreender as imagens daquele sonho, Dandeliz levantou-se para socorrer a si, trancando os vitrais que se abriram com a ventania e recolhendo a bagunça deixada sem permissão. Em menos de dois minutos, a chuva caiu com o mesmo terror que a névoa a cingira em seu plano onírico. Sentiu-se apavorada e segurou seu candeeiro, acendendo-o com o último nittos da caixa. Caminhou apressada para a biblioteca que ficava no porão, contornando a escuridão com o singelo resplandecer de sua iluminação pálida.
O sibilar do vento, a chuva violenta, os clarões e o ensurdecedor estrondo a cada átimo, era tudo insuportável demais para sua sensibilidade. Ela estremecia, em especial as mãos que, infirmes, faziam oscilar a chama do candeeiro. Seus passos se apressavam mais agônicos que há pouco.
P Para chegar ao seu destino — o qual era o mais distante da tormenta inominável que afligia o seu espírito tanto quanto perturbava toda a província naquela lutuosa noite —, Dandeliz tinha de, inevitavelmente, passar por aquele... corredor. Não era por causa da densa escuridão, tampouco pelas heras que, quão estranho, nasceram nos vasos mortos — com terra nunca adubada ou regada — e subiram pelas paredes perseguindo rachaduras e enraizando-se em fendas. A sua angústia vinha, especialmente, daquela parede que estreitava, ainda mais, a passagem.
Repleta de dodecaedros ornamentais de vitrita mortis, a parede do corredor lumiava a cada relâmpago e, igualmente, diante da tênue chama do candeeiro. De valor incalculável, os dodecaedros foram lapidados pela mãe de Dandeliz e, o material, minerado por seu pai. Ambos tinham boas intenções, mas estavam cientes de que tal ofício de mineração e lapidação os levaria à morte lenta e agônica — embora a fé os fizesse crer que, com eles, por algum tipo de milagre, seria diferente.
Vitrita mortis fora nomeada de tal modo não por acaso, era um mineral tóxico, de beleza vítrea e enegrecida, altíssimo índice de refração, repleto de nuances em tom de rosa-empoeirado e prata brilhante. Resplandecia, espelhava e, acima de tudo, seduzia. Quaisquer indivíduos dispostos a explorar tal raridade não viviam o suficiente para desfrutar da riqueza de sua comercialização. Os pais de Dandeliz, ao menos à princípio, sabiam que deixariam uma fortuna para sua menina — ainda que de maneira tão trágica.
O mineral exalava um incolor gás fatal quando posto sob pressão, altas temperaturas, atritos ou cortes. Estranhamente, sua toxicidade possuía recendência, isto é, fragrância! Algo jamais visto pelos gemólogos. A mãe de Dandeliz descrevera em seu diário: “O bálsamo que sinto é inebriante… um perfume arabesco… marcante como dama-da-noite, intenso como lírio, quente como cashemeran… um tanto ferroso e com algo a mais… indescritível… porventura groselha negra, laranja amarga… notas do que eu jamais poderia nomear...” — já envenenada há semanas, falecera na primavera, assim que o refinamento do último dodecaedro fora concluído.
Dandeliz nunca vendera os cimélios herdados, mesmo com a insistência do médico da família que estudava os sintomas finais do envenenamento do pai de Dandeliz: sinestesia necrosada e eco respiratório. “Porventura possamos encontrar a cura, desde que possas pagar para levá-lo à capital de Sihren” — dizia.
“Estes objetos são amaldiçoados, Dr. Voreau; vindos sob o custo da vida de mamãe e, também, de papai; eu sinto, doutor... uma intuição estranha que me diz que não há cura para tal horror...” — Não havia mentira nas dores enraizadas de Liz. Seu pai falecera no verão do mesmo ano e, desde então, a magnum opus estivera na parede, vívida, refletindo e resplandecendo.
— Algo emana disso... algo que me arrepia a pele... que me terrifica... — sussurrara a si logo em que chegou às margens do corredor escuro. — Caminhar devagar, olhos à frente... são apenas alguns passos...
A vereda era a mesma, entretanto, quando Dandeliz dera cinco passos à frente, já tão próxima dos diamantinos de vitrita mortis — nome cujo significado, devo dizer, é “viúva da morte” — a luz fugaz trouxera o violento trovão, iluminando o estreito lugar, criando sombras estarrecidas e horripilantes por causa das heras que pendiam do teto e, como se não bastasse, o vento ensandecido do lado de fora fez mostrar-se em ira outra vez. Tão logo abrira com força irremediável a janela à frente da parede mórbida, soprando com intensidade maligna. E os relâmpagos, irradiando luz, criavam luminescência rosê-prateada nos dodecaedros — o que rapidamente chamou a atenção de Dandeliz. Seus olhos se arregalaram e ela fitou, em todos os detalhes perfeitos, a parede esculpida. Gotículas da chuva lúgubre rapidamente tocaram as pedras preciosas. Dandeliz não pôde desviar o sua atenção.
Era mesmo perfeito... pareciam tão símeis a ela... os tons rosê-gris... como sua pele pálida e fria, como seus olhos e cabelos rosa-opacos. Ela não se lembrava do quão bela era aquela obra de arte ornamental — a qual se recusava a olhar há dois anos. O choro das nuvens invadiu o corredor e as heras, frágeis, eram arrancadas com o sopro. O assovio do vento e sua gelidez pareciam rasgar a tez de Dandeliz que usava tão somente um damanoute aveludado. Mas, com calma fúnebre, ela fechou a fenestra, sem tirar seus olhos dos brilhantes minerais. E mantendo-se igualmente serena, apertou o pavio do lume em seu candeeiro, dando poder à escuridão. Assim via melhor o reflexo irradiante das infinitas facetas perfeitamente alinhadas n’uma estrutura geométrica precisa. Era mais que magnífico, porém, era sombrio e... ameaçador.
— Groselha negra... laranja amarga... cashemeran... — sussurrou Dandeliz, lembrando-se das palavras de sua mãe e sendo invadida pelo perfume mortal de cada dodecaedro à sua frente. Como era possível? Não havia nada que os pudesse oprimir, nada que os superaquecesse, nada que danificasse as estruturas dos diamantes... ou havia?
Ainda em torpor, fitou de perto cada um deles, buscava quaisquer sinais de rachaduras para entender o que ocorria. Sem saber o que fazer, e sob um encanto cruel, viu apenas seu próprio reflexo — algo que não fizera até então, pois era tragada pelos detalhes lapidados, pelas nuances em rosa-empoeirado e pelo lúgubre brilho prata-escurecido. E viu-se. Sua face delicada, seu semblante de admiração.
E viu também um imenso castelo atrás de si; contornado em simetria obscura, com altas torres pontiagudas e um infinito oceano aos seus pés; e viu voar um pássaro, talvez uma variante da espécie Ramphastos-toco; era albino do grandioso bico às penas macias. Voltou-se à janela atrás de si, para tirar a prova de que não estava delirando. O Castelo não estava lá fora, tampouco o tucano pálido. Retornou aos dodecaedros e novamente viu o Castelo e o pássaro, pareciam viver nas vitrita mortis lapidadas, presos pela eternidade.
Dandeliz aproximou-se mais, estava sim amedrontada, porém, não bastasse a beleza daquelas preciosidades, o Castelo e o pássaro lhe despertaram uma curiosidade incontrolável — vinda de seu ceticismo, pensava estar sonhando ainda. Precisava de alguma prova de que aquilo fazia parte de sua realidade. Ergueu sua mão esquerda, úmida e com algumas folhas intrusas atadas ao orvalho da pele, e tocou o dodecaedro central. A vitrita mortis era fria e o encontro de tez e mineral fez um líquido rosê-prateado emergir do núcleo da pedra.
Liz buscava um significado para tudo aquilo, sufocada na essência com notas arabescas de lírio e dama-da-noite. O líquido contornava os dedos de sua esguia mão, criando caminhos tortuosos como raios que pareciam, aos poucos, invadi-la, atravessando seus poros e mesclando-se ao seu sangue, das veias às artérias, esfriando-a. Não era possível afastar-se do liquor rosê-gris, não havia temor nas emoções confusas de Dandeliz; o bálsamo que pairava parecia serená-la e a frigidez que empalidecia sua derme, não lhe causava dor alguma. Era, em verdade, de um maravilhamento esplendoroso.
Até o instante em que Dandeliz perdera a consciência —tendo a visão cegada e a realidade dissociada. Seu corpo estava gélido e frágil, tão fácil de cair à terra úmida e por ela ser consumida à sete palmos. Entretanto, Liz respirava —vagarosamente. Ouvia seu coração pulsante — como um longínquo badalar. E em determinado momento, sonhou.
Uma criatura inimaginável olhava-a: era alado, alvinegro, capaz de sobreviver sob tenebrosos oceanos tanto quanto áridas terras. Rosto de face pareidólica, lembrando humano e inseto; três grandes olhos lunares e lívidos, quelíceras retráteis na mandíbula, guelras em partes do abdômen, asas de libélula e articulações filiformes, espinhosas e retorcidas — um corpo adaptado ao impacto de mundos. Era tão sombrio e assustador que fez Dandeliz despertar por seu próprio grito — um pouco contido, mas ainda ecoante. O Castelo estava no horizonte, ouvia-se a maré calma do infinito oceano e, o pássaro, do alto carvalho seco, parecia apreensivo.
— Despertastes! — dissera o tucano albino, com voz suave, um barítono fora do comum. Dandeliz sentiu-se turva, levou suas mãos à cabeça, tocou sua pele fria. Lembrou-se da criatura e arrepiou-se. Mirou, portanto, o dono daquela voz e lembrou-se dele de imediato.
— Eu... tu estavas preso naquela pedra de vitrita mortis... se estás aqui... então estou igualmente presa? — questionara, um pouco hesitante. O tucano albino voou para mais próximo dela.
— Não compreendo tua indagação, poesia. Estive aqui desde sempre, sinto-me livre. Talvez ainda estejas confusa. — O tucano usava um par de óculos redondo para leitura, Dandeliz percebera e aquilo, de alguma forma, acalmou seu coração agitado. — Bem, tome isto e te sentirás melhor. — Entregou-lhe uma xicara esculpida em cerâmica, nela havia uma bebida cor marfim.
Textura de leite, levemente aquecido; notas de avelã, curva de paladar amargo como café; mas doce, com um granulado de sabor floral — este era o gosto daquela bebida e Dandeliz adorara, tomando-a por completo. De fato, embora não instantâneo, foi cingida por uma melhora considerável em seu estado franzino.
— É estranho, pois há pouco eu estava em minha casa, sob a ameaça de uma tempestade sombria. E eu observava aqueles diamantes amaldiçoados... e agora estou aqui. — O tucano respirou fundo, dedicado a compreendê-la.
— Deixe-me pensar... dos livros que li, das histórias que ouvi, nada se assemelha ao que me contas. Entretanto, posso te guiar ao Castelo de Olga e decerto lá encontrarás as tuas respostas. — Dandeliz empolgou-se com a possibilidade de talvez entender tudo aquilo, sua feição denunciara. — Devo, no entanto, alertá-la, e o faço com apreço, há muitos perigos neste mundo, poesia, e parte considerável deles reside no interior daquele alcácer. É belo, decerto, magnífico... — O pássaro abaixou a cabeça, como se ponderasse tristemente.
— Mas... é também um abismo de criaturas que devoram almas, que se alimentam de medo e sugam sangue e memórias. — Dandeliz lembrou-se da criatura em seu sonho.
Trépida, e sob um silêncio de temor, Liz olhou para cima, buscando um resquício de céu anil que lhe contasse sobre esperança e força — tal como sua mãe fazia na infância ao ler-lhe fábulas ricas em otimismo; porém, acima só havia nuvens rosê-gris carregadas de pranto melancólico; um mar de plangor que nunca desaguava.
— Poesia, se posso me atrever a tal, gostaria que me dissesses o teu nome, embora “poesia” seja bem adequado à tua imagem. — O tucano albino quebrantou os pensamentos remotos de Dandeliz. Eles se olharam enquanto a noite caía devagar.
— Dandeliz Ffaemor, de Numnura, província do reino Sihren. — dissera, como de costume em sua cultura.
— Que intrigante... anseio saber mais de Numnura... — Um desconforto silente nascera no pássaro. — Já Sihren, conheço muito bem... — Ele hesitou e tossiu. — Sou Penttur, a propósito. Sempre me encontrarás neste carvalho, admirando a estranha mutação das terras amargas da Imperatriz, estudando-as dia após dia.
— Penttur... vejo que muito sabes. Guia-me, te peço, não apenas ao Castelo, mas ao conhecimento de onde estou... sinto que... talvez... esteja sonhando ou... em um póstumo estágio... — Penttur dilatou suas pupilas em surpresa.
— Não, não, não, doce Dandeliz, este mundo não é um purgatório. — Voou Penttur, e os olhos de Liz acompanhavam sua dança nos ares. — Vês? Tampouco um sonho ao qual se pode acordar. — cantarolou ao retornar. Estendeu sua asa direita. Era como veludo, e tinha nuances de um bege níveo sobre a brancura levemente resplandecente. — Pareço-te irreal? — Dandeliz tocou-lhe as penas, encantou-se com a maciez; entretanto, a estranheza lhe consumia em dúvidas umbríferas. O outrora ainda lhe era uma incógnita.
— Todo o sonho soa real, Penttur, até que despertemos dele.
— Oh, sim... tu despertaste então, como te disse. Há quem te possa comprovar que tu não sonhavas com uma intempérie obscura e diamantes mórbidos?
— Creio que não, o despertar só o é porque nos devolve as memórias, elas são o solo estável da realidade. E daqui não tenho nenhuma recordação... nunca vi tal Castelo, jamais encontrei este carvalho. No mundo de onde vim, tive um início; nas terras debaixo da intempérie eu vivi uma linha do tempo imersa em significados que nunca olvidarei.
— Talvez este seja o teu início, Dandeliz. Nem todos os inícios são iguais. — Penttur demonstrou-se mais sério, envolvido por uma preocupação genuína acerca de Liz.
— Este? Desta forma? Sem nascer bebê, com pais adoráveis, n’um lar aquecido? Como é possível?
— Anoitece, poesia. Vamos à minha cabana, longe dos horrores noturnos, e lá te revelarei tudo o que sei sobre ti e sobre este reino. — Penttur voou.
E Dandeliz, já tão instigada, levantou-se e pôs-se a caminhar, despedindo-se do sereno oceano infindo e seguindo o fabuloso voo do seu amigo tucano. Em seu âmago, ela anelava ouvir cada detalhe; seu coração pulsava por desvendar os segredos daquela realidade inacreditável e, este pulsar — mais vívido que outrora e, portanto, cheio de certeza inabalável —, lhe dava vigor para enfrentar seu profundo medo do desconhecido.
A Vingança de Sophítria
Sou última nascida em sangue e cinzas | Carrego a carapaça de osso e fúria, | Amálgama d’outrora em boas-vindas | À Vila Séttimor em sua lamúria;…
Sou última nascida em sangue e cinzas
Carrego a carapaça de osso e fúria,
Amálgama d’outrora em boas-vindas
À Vila Séttimor em sua lamúria;
Queria eu me olvidar, mas a lembrança
É símbolo da vida atemporal,
Em todos cá resiste uma esperança
Que nunca sentirei assim, vestal...
As sete mortes sei que a mim virão
E tenho de o facínora encontrar,
Jamais eu lhe darei qualquer perdão!
Se vim à Séttimor com tal olhar
Cravado na memória, há um motivo...
Dos órgãos meus, perfume efusivo...
Naquele grã-Castelo há de habitar.
Capítulo 5 ~ Oníricos Horrores: A Mansão Negra
No escritório, pedi para que Ehllenor deixasse-me a sós com Morgion, para que houvesse o sigilo correto que meu ofício exige. Ela titubeou, como imaginado…
No escritório, pedi para que Ehllenor deixasse-me a sós com Morgion, para que houvesse o sigilo correto que meu ofício exige. Ela titubeou, como imaginado, pois almejava passar por tudo ao lado de seu filho; tive de explicá-la a importância da confidência e do quanto Morgion poderia ficar com receio de contar seus sonhos e experiências na presença de sua mãe, pois sabia que ela se preocuparia. Insisti que Morgion, certamente, não almejava deixar Ehllenor ainda mais aflita e, por isso, poderia omitir detalhes profundos. Com alguma perseverança, consegui convencê-la e, então, iniciamos a sessão.
Morgion era um garoto bastante lúcido e sério, inclusive de forma deveras questionável para alguém de sua idade; ainda assim, dei-lhe giz e papéis para que pudesse desenhar enquanto conversávamos. Ele hesitou e, por vinte minutos, apenas segurou os gizes e os papéis. Esfregava os gizes entre si, pelas mãos que pareciam trêmulas; o singelo ato demonstrava seu nervosismo; tentei apaziguá-lo perguntando de coisas cotidianas, tais como os seus passatempos preferidos, suas atividades diárias. Soube que sua cor preferida era mesmo o preto e que sua atividade mais amada era jogos de tabuleiro, em especial o Iomô, um jogo de estratégia densa e simplicidade de regras. Descobri que colecionava folhas de tipos de árvores diferentes, encontradas na profundidade do balcedo de Amorttam. Incentivei-o que se sentasse sobre a tapeçaria, para que pudesse desenhar à vontade; contei-lhe que eu adorava desenhos e, por esta razão, adoraria poder guardar, na minha coleção, as suas obras — isso o convenceu a iniciar as ilustrações, acredito que tenha sido pelo fato de que ele era um colecionador de folhas e, eu, de desenhos. Senti que se identificara comigo.
Não demorou para que ele, por livre vontade, iniciasse a conversa a respeito de seus sonhos e, mais uma vez, eu tive importantes símbolos mentais dispostos à minha avaliação do caso. Morgion não tivera um pesadelo com a criatura, desta vez fora com os retratos do corredor principal que levava aos aposentos particulares. Da mesma forma que antes, mencionarei em itálico as partes que correspondem, na íntegra, às falas do petiz. Por instantes acreditei que, porventura, ele teria vivenciado em sonho a anomalia que presenciei, isto é, os rostos apagados e borrados dos porta-retratos; contudo, havia algo ainda mais mórbido em seu plano onírico, algo que eu não sabia até então.
Segundo Morgion, os retratos sempre o causaram medo; isso porque havia um hábito entre os Sttrattan... eles faziam pinturas e fotografias póstumas. Sempre que alguém da família falecia, preparavam o corpo em suportes de ferro para que houvesse sustento do peso; maquiavam a face, as mãos e o pescoço do finado, preparando-o para permanecer intacto por longas horas enquanto um pintor contratado registrava o último momento do morto. O que tornava a cena ainda mais tétrica, era o fato de que todos os familiares presentes na Mansão se juntavam à pintura, ao lado do defunto, para que fossem retratados juntos. Morgion explicara que o odor era pútrido e a face do morto era terrível. Lilith, embora fosse detentora de uma fortuna inominável, o que a permitiria contratar artistas mensalmente para eternizarem os membros da família, ainda assim, os quadros só eram feitos quando alguém se encontrava com o Sonurista da Morte. Ela acreditava, segundo Morgion, que a pintura póstuma mantinha a alma dos falecidos na Mansão e, desta forma, ela se sentia sob a companhia daqueles que amou e ama, tendo em vista que, enquanto vivos, a maioria a deixara no lar de obsidiana, partindo para Sihren. Compreendi que se trata de uma mágoa a respeito dos filhos e netos que saem da Mansão e não mais retornam.
Por possuir medo das pinturas e já estar vivenciando algumas complicações mentais, o pesadelo da sua última noite iniciara no corredor mencionado; ele observava as pinturas com ansiedade e temor, enquanto “uma névoa negra se espalhava ao redor, impossibilitando-me de ver as portas e qualquer outra coisa que não estivesse próxima”. Sentindo-se “preso e em uma agonia sufocante”, Morgion começou a andar devagar, observando os quadros, pois, não conseguia fechar os seus olhos e “a névoa negra ardia a córnea”, impossibilitando-o de enxergar a direção oposta. Então, o menino notou que os mortos não estavam nas imagens; no espaço que lhes cabia havia apenas um vazio, como se “propositalmente nunca tivessem sido pintados”. Por instantes, Morgion sentiu alívio por não ser “oprimido pelos olhos mortos”, mas, segundos depois, temeu por sua vida ao considerar que, “se os mortos não estão ali, então, onde estão?”.
As almas aprisionadas deixaram o cárcere que estavam, isto é, os quadros; e, quando deu por conta essa possibilidade, seu corpo começou a tremer de pavor e Morgion não pôde decidir se corria para alguma direção ou se abaixava-se e chorava. Contou-me que as cenas eram muito vívidas e reais e, sempre que desperta, tem dúvidas sobre qual é a sua verdadeira realidade. “Senti-me sufocado... era como se algo apertasse meu pescoço... ouvi respirações e passos ao redor que me fizeram cobrir os ouvidos e fechar os olhos, mas a escuridão era ainda pior; eu sabia que aqueles espíritos, presos sem que pudessem escolher, estavam dispostos a tirar o sangue de qualquer um que estivesse no caminho em que passassem”. Com técnica e cuidado, sondei sobre o sangue; quis saber se Morgion já vira bastante sangue em algum momento e tive, sem delongas, minha resposta, mas não na sessão com Morgion.
Certa vez, contou-me Ehllenor, quando a prática da pintura post-mortem foi iniciada por Lilith no falecimento de seu esposo, o morto colocado no suporte de ferro não tivera o sangue drenado — levando em conta que tudo foi feito e era feito pelo mordomo Ertthan e por Ahzaez, os quais não tinham tanto conhecimento de tanatopraxia naquela época. Poucos minutos em que o corpo do senhor Gutthen Sttrattan estava no suporte, o seu sangue começara a verter de todos os seus orifícios e Morgion ficou horrorizado com o que vira. Segundo Ehllenor, o menino de apenas cinco anos, chorou e soluçou de pavor, pois fora colocado no colo de seu avô e sofreu um banho mórbido de sangue.
Aquilo me respondia muitas dúvidas. Ehllenor soube por Ahzaez, tempos depois, que o fenômeno correspondia ao inchaço interno, rompendo as veias pelo acúmulo; todavia, em minhas pesquisas posteriores, tive dificuldade de achar se tal informação era real e se aquilo de fato poderia acontecer. Morgion não lembra do ocorrido ou, ao menos, não o citou para mim durante nossa primeira sessão. Por outro lado, seus desenhos denunciaram muito a respeito deste dia fatídico e outras coisas.
Voltando ao pesadelo daquela noite, Morgion explicara que a presença hostil dos mortos que deixaram as pinturas póstumas, gerou-o agudo pânico e o paralisou. “Na névoa negra, os vultos dos espíritos cercavam-me... tilintavam como se carregassem suas próprias correntes, iguais ao monstro de tendões, e somente um deles aparecera para mim, contudo, eu não me lembro de seu rosto completo, apenas do horror que me acometeu quando suas unhas afiadas e transparentes rasgaram meus braços; foi aí que me despertei e vi mamãe chorar” — então Morgion mostrou-me as feridas. “Acordei assim... doía muito...” — seus braços estavam cortados de diversos ângulos e formas, finos cortes sobre a tez. Assombrei-me com o que vi e tive de investigar com Ehllenor, pois, não me parecia ser possível que um pequeno garoto de dez anos de idade pudesse ferir-se daquela forma durante uma agoníria sonâmbula. Nota: pela segunda vez.
E, de fato, ele não pôde. Ehllenor estava em lânguido desalento quando me revelou que fora ela quem cortara o menino, tomada por um sonho hórrido, símil à realidade, que lhe causara igual sonambulismo. A partir daí, o que era estranho tornou-se raso e superficial se comparado ao que eu estava prestes a presenciar nos próximos vinte e nove dias de estadia. O sonho de Ehllenor iniciara no jardim morto da Mansão Negra e, nele, ela estava sendo obrigada a dissecar raposas com uma pequena adaga; quem a obrigava “era um homem alto e forte, junto com dezenas de outros indivíduos de olhos negros, sem esclera” — segundo suas próprias palavras. As raposas eram mortas à sangue frio em sua frente e postas, ensanguentadas, na mesa de arranjo de flores que está no jardim da Mansão. “O pavor que eu sentia”, explicara, “era não só do medo puro, pois, aqueles indivíduos emanavam uma aura de horror que eu não sei conceber ou descrever; mas, posso lhe garantir que o pavor advinha da ojeriza pelo sangue, pela carne daqueles animais e, principalmente, por causa dos pêlos, pele, órgãos vitais tão realistas, os quais fui coagida a retirar um a um e... depois... consumi-los".
Ehllenor tremia ao descrever as cenas e, por vezes, sentiu-se turva e teve de parar a sessão para se acalmar. Fiz o possível para amainá-la, porém, era evidente o seu desespero e a culpa que sentia por ferir o seu filho. Ainda assim, esforçou-se para prosseguir. “Ali, no jardim, compelida a tais atos terríficos e medonhos, fui ordenada a ajoelhar na relva que crescera de modo estranho e espinhosa; rasgando-me os joelhos. O homem mais forte viera até mim, abriu-me os lábios e fez-me tomar uma taça de... seu próprio sangue. Proferia palavras ininteligíveis durante o ato e eu sentia quente em minha garganta, profano e perverso... eu gostaria de esquecer...”, explicou. As suas descrições eram tão vivas e detalhadas que não vi razão para apenas descrevê-las com minhas palavras n’este registro; portanto redijo com exatidão o que ela dissera e como dissera, espero que nada me tenha escapado.
Assim, ela prosseguiu: “Então, chorei; minhas lágrimas e soluços eram o meu único alívio. Colocaram à minha frente uma criança... cujo rosto estava coberto por um manto carmesim. Enfincaram em seu abdômen uma espada e me ordenaram a dissecar o jovem, contudo, em prantos, eu apenas cortava seu braço, lentamente e com profundo horror, pois o garoto ainda estava vivo e gemia de dor à minha frente. Nesse momento o homem mais forte se abaixou, segurou-me os cabelos com força hedionda; olhou nos meus olhos... eu não via seu rosto, eu não sei como é sua face, mas eu sabia que seus olhos me fitavam com ódio. Ele proferira palavras de novo, e subitamente despertei... Morgion estava em transe, sonâmbulo, e seu pequeno braço sangrava, segurado pelas minhas mãos. A adaga estava no chão. Eu soube que foi eu que tinha cometido tal atrocidade”.
Ehllenor sentiu-se menos amargurada ao perceber que seu filho não soube que foi ela a ferir-lhe os braços. No entanto, a culpa que a cingia consumia-lhe como uma erva daninha em uma plantação já pouco cuidada. “Eu sentia conhecer o homem sórdido que me fizera cometer aqueles atos asquerosos... contudo, eu não pude reconhecê-lo... isso me envolve em um medo profundo, pois, e se de fato eu o conhecer? E se for alguém próximo?” — seus questionamentos eram pertinentes e, unindo as peças dessa loucura, o sonho que tive, o sonho de Morgion com os retratos póstumos e o horror onírico de Ehllenor, senti que o que era de mais valioso no momento era manter uma ama nos quartos, acordada pela madrugada, para ajudar em qualquer situação perigosa — e, além disso, era imprescindível ter uma primeira sessão com Ahzaez.
Boldo
Translúcidas as flores espectrais | N’um rosa-gris perpétuo adamantino; | Mi’a lacrima é um orvalho-nunca-mais, | Deságua sob o manto vespertino...
Translúcidas as flores espectrais
N’um rosa-gris perpétuo adamantino;
Mi’a lacrima é um orvalho-nunca-mais,
Deságua sob o manto vespertino...
Memórias de raízes entranhadas
Em terras de umidade e gelidez...
Teu rosto uma mentira que me amarga,
Martírio do meu sonho — embriaguez;
Farol sem luz, ó ínsula dorida,
Pensei que, porventura, houvesse amor...
As nuvens trazem sombras já temidas...
Cai chuva ao rosto meu, feito em clamor;
Podia haver tentado que o jardim
Por nós sobrevivesse ao frio de mim,
Mas, dama... nada cura o dissabor...
Sonura de Natal
Que sempre, se pudesse, aqui ficar | Os tempos tão felizes de Natal… | As luzes, os docinhos, o aquietar… | E todo o amor que surge cordial…
Que sempre, se pudesse, aqui ficar
Os tempos tão felizes de Natal…
As luzes, os docinhos, o aquietar…
E todo o amor que surge cordial…
Seria um doce sonho ao coração
Que hesita n’este mundo amargurado
E afaga-se em cuidado e mansidão
Mantendo-se em espera — imaculado…
Minh’alma tanto se é sentimental,
Pois chora no findar dos ventos tais
Rogando ser eterno o sazonal…
Mas sabe que o gengibre e as catedrais,
E as nozes mui crocantes, as cerejas…
E o amor, perdurarão — assim se enseja
No cerne, tal as frutas em cristais.
O Pássaro da Elegia
Caríssimo Dom Søren. No meu coração reside uma profundeza triste que, como uma tenra maré, movimenta-se em ondas frígidas sobre a areia mísera…
Caríssimo Dom Søren. No meu coração reside uma profundeza triste que, como uma tenra maré, movimenta-se em ondas frígidas sobre a areia mísera de meus sentimentos vazios. Queria escrever-te há tempos, todavia, ensandecidos momentos aconteceram comigo, de modo a levarem minha ausência existencial a uma encruzilhada perigosa. Jamais imaginei que teria de decidir entre a vida e a morte, sem propriamente viver e sem propriamente morrer.
Meu bem, esta é a última carta que te escrevo. Há cerca de sete meses, tive o prazer de sentir descomedida paixão pelos teus olhos, teu cuidado, tua inteligência. Vi-te observando as antiguidades da vitrine que adornei com tanto apreço. Chovia como agora em meus olhos melancólicos, lembra-te? A belíssima Endinsür, tomada pelas águas, intensificando a beleza vitoriana das torres. Tão fascinante quanto a tua presença.
Eu escrevia, entretanto, tua sombra fez-me notar o teu atento admirar e fitei-te até que teus olhos intuitivos sentissem minha curiosidade. Tua íris tocou a minha como se um beijo aos lábios tu me deste. Por instinto, desviei o olhar e decerto que tal atitude instigou o teu desejo. Entraste à loja, vindo direto a mim, imperante e belo. “Bom entardecer, senhorita” — dissera. Toquei o livro do balcão para evidenciar minha solidão pela ausência de um belo anel de compromisso. Teu sorriso nascera e era poderoso, fez-me tua sem que soubesses.
“Intriga-me este lugar... estes objetos... intriga-me também o teu belo semblante e, se me permites dizer, os teus lábios...” — proferira como um poema sussurrado. Sorri-te em recíproco, apenas porque não poderia dizer-te nada à altura. Queria ter revelado que os artefatos possuíam beleza sombria, todos encontrados em ruínas inexploradas de Morttan, trazidos por meu pai, marinheiro obscuro de Krvieröm. Hesitei, no entanto, receando que me julgasses atormentada — no cerne, amado, eu de fato sou. “São relíquias anônimas, de outroras ou porvires” — disse-te, n’um elogio ao mistério. “A mais fascinante relíquia é, decerto, a que observo n’este instante...” — afirmara. Mergulhei em ti, ouvindo sobre teus estudos sobre artefatos do passado, sobre teu amor por antiguidades; amei tua voz e soube, n’esta tão primeva prosa, que eu o amaria eternamente. D’aquele instante até o momento em que toquei a maldição, fui verdadeiramente feliz.
Se trago ao presente tal memória, é porque a revivo em nome d’esta descomedida paixão — mantém-me ainda esperançosa, se é que posso nomear de tal forma esta brasa tardia que me arde enquanto cultivo a desolação. Quatro meses após nosso vínculo inicial, n’uma noite solitária, um dia antes do meu aniversário, fui instigada a perscrutar uma caixa de relíquias trazidas pelo Marhero Larsen, em nome do meu falecido pai. “São pertences do capitão” — proferira. Sua voz era intensa, seu olhar de mil jardas. O tanto que presenciara em suas navegações, decerto que jamais poderá um dia ser revelado. Agradeci-lhe pelo gesto de consideração, fora o único presente para aquela data tão importante. Pouco depois de sua partida, uma música melancólica germinou no interior daquela caixa assim que, por descuido, a deixei cair quando tentava guardá-la em um alto armazenamento.
Era uma profunda elegia, lenta e sorumbática. O som ficava cada vez mais alto conforme eu me dedicava a libertá-lo. Entre muitos itens já enferrujados, logo vi a caixinha de ferro fundido, perfeitamente esculpida, forrada em veludo laranja, ornada de arabescos e detalhada em folhagens secas. Um pássaro de ouro, com seu cântico triste, girava devagar enquanto suas asas mecânicas movimentavam-se sutis, como se ele pudesse realmente voar. A princípio, sua beleza fascinou-me como jamais outro artefato fizera. Em seguida, segurando-o em minhas mãos e fitando o seu girar contínuo enquanto ouvia a elegia infeliz, lembrei-me da morte de meu pai e, então, sorri.
A alegria emergiu de um abismo de saudade que, de súbito, já não mais existia. Todo o desgosto pela morte de meu amado pai, e de seu corpo jamais encontrado, fora apagado em um átimo de segundo. Fui envolvida por todo o amor que por ele senti, tornando poeira quaisquer angústias existidas um dia entre nós. Amado Søren, o artefato mágico era inominável! Capaz de extinguir os males de nossa alma, dissipando o sofrimento tal como o vento impiedoso faz com as frágeis flores dos ipês. Como eu poderia resistir ao seu cativante poder? Ninguém no mundo humano, meu querido, almeja o tormento da angústia — muito menos se contenta com o peso da desgraça do passado.
Diante de tamanha descoberta, atraí à memória toda a consternação que pude, remoendo o pretérito, rastreando as lágrimas, perseguindo, com horrífica negligência, quaisquer pequenas lembranças condoídas, construídas sobre o fundamento do abatimento, da infelicidade. E um estímulo intenso de liberdade e prazer me acometia assim que eu as encontrava em minha mente, revivendo, pela última vez, o abatimento que possuíam. Era êxtase, arrepiando minha tez, ascendendo em meu cerne um radiante deleite, um regozijo pulsante, um contentamento perturbador em razão da sua força descomedida. Era perverso — agora posso dizer.
Desde então, busquei o artefato sempre que tenros desagrados me ocorriam, seduzida pela felicidade perpétua. Cativada pelo deleite exorbitante das doses violentas de alegria, almejei mais tristes vivências. Quis que os piores males me acometessem para que mais ledice me fosse dada por aquela mórbida elegia. Ouvia, em tempo integral, o cantar lastimoso do pássaro de ouro e, mesmo quando selava o artefato, para adormecer em silêncio, sua melodia ecoava em meus sonhos, afastando pesadelos cruéis. Eu estava, mais do que enfeitiçada, imersa em profunda dependência — adoecida pelo fanatismo absoluto. Por isso, meu querido, não mais te escrevi e tampouco respondi às tuas cartas — fiquei, no âmago profundo, feliz por teres viajado a Sihren, assim não encontrei mais contigo e não realizei a maldade mais terrífica que viera à minha mente.
Por diversas vezes pensei em tirar a tua vida, meu amado. Pois tanto que me alegrava a tua existência! Ver-te ensanguentado em minhas mãos, enterrar-te n’uma lôbrega manhã e, então, ser julgada. Tais horrores causariam, decerto, a mais afrodisíaca alegria ao serem destruídos pelo pássaro da elegia. Se ouso dizer, — com o respeito que mereces, entretanto, com a sinceridade que é preciso para que compreendas — eu buscava o clímax da exultação, o frenesi mais desumano da euforia. Isso só poderia ser possível mediante o sofrimento mais pernicioso — e meditei por dias em como causar a mim mesma o martírio mais medonho de toda a minha existência. Eu pensei tantos horrores... sinto repulsa do que pensei, sinto-me frágil, um boneco ventríloquo já descartado. Como pude não perceber que aquele raro item poderia possuir uma verdade amarga em sua delicadeza?
N’aquela quente manhã, entretanto, ao despertar de uma noite sem sonhos. Não pude lembrar-me de nada além de ti, do pássaro e de meu pai. Todas as minhas memórias foram assassinadas sem que eu pudesse notar. Até mesmo a vitrine, agora degradada em poeira, não me era reconhecível — eu não sabia a razão de sua existência e o porquê ela pertencia a mim. Até mesmo Endinsür, minha amável pólis, parecia-me fantasma às minhas mais tenras recordações. Tudo se fora, adentrei a mais profunda melancolia e dor, uma angústia real e quase tangível — meu impulso primevo foi abrir a caixa da elegia para me libertar daquele horror e sentir o prazer qual eu estava obcecada. Todavia, a tua carta me salvara antes do que acredito que seria o ato final do macabro teatro da minha decadência.
Cultivando amor por ti, antes de ouvir o pássaro de ouro, recebi tua carta no instante precedente. Tirou-me do transe execrável e decidi lê-la primeiro — impulsiva, apenas deixei o artefato e segurei suas palavras em minhas mãos. “Adorável Marina, talvez teu silêncio represente teu desinteresse em mim... mesmo assim, devo dizer-te que as lembranças agradáveis dos teus olhos, das conversas amenas e das poesias que me escreveste, ainda que me doam mediante a infelicidade profunda de não ter o teu amor, serão, pois, as mais preciosas lembranças da minha vida...” — escreveste.
Choro, amor, e escrevo-te porque compreendi. Perdi tudo o que lembrava, cada partícula da minha história, porque todas as tristes lembranças se vinculavam às felizes, n’um ciclo natural de vida. Lembrava-me, ainda, de meu pai, pois, a caixa viera dele; lembrava-me de ti, pois, nenhum mal nos acometera n’estes tempos; lembrava-me do pássaro, pois sua elegia era perfeita, sinônimo do mais sublime enlevo. Nada mais, nada além. Portanto, tive em mãos a decisão de esquecer a caixa que, afinal, trouxe-me a mais triste angústia e agonia: perder minhas memórias, esquecer-me de quem sou. Este seria o fim, abri-la pela última vez e esquecê-la para sempre.
Segurei a relíquia amaldiçoada em minhas mãos trêmulas. Era o momento final, o último prazer exorbitante. Entretanto, eu não tive coragem. Temi, embora almejasse o deleite que apenas ela me proporcionava. Questionei no instante se, ao esquecê-la, olvidaria também a sua maldição, caindo outra vez em seus encantos cruéis. Questionei se não devia, na verdade, destruí-la — e esta última, meu amor, foi a minha decisão final. Com abstinência do júbilo que ela me proporcionava, entretanto ainda sã, coloquei-a no chão e, com um machado de jardim, acertei-a no centro, mediante uma força que viera do vazio abissal do oblívio. Doeu-me tanto... era tão perfeita...
O objeto se destruiu de imediato e sua elegia não tocou. Porém, no súbito momento, uma surpresa malévola atravessou meu crânio, como uma luz feita de breu, em paradoxo, penetrando minha fronte — confirmara o que a intuição já sabia: o artefato tinha uma maldade ainda maior por detrás da sua benevolência em acabar com a infelicidade de seus ouvintes. Sob a crença de que, finalmente, eu estaria livre; fui acometida por todas as lembranças amarguradas de outrora — não apenas minhas, mas de todos aqueles que um dia ouviram o pássaro.
Vi horrores inomináveis como se causados por mim, mortes e assassinatos. Estive em tragédias terríveis e fui íntima do mais abominável e repugnante. Eu jamais imaginei que as lembranças voltariam, que o pássaro as guardava em seu âmago, como um totem da desgraça. Senti as dores de incontáveis estranhos, os vi definharem em nome daquela maldição e, dentre tantos desconhecidos, havia meu pai — senti sua amargura e o vi se atirar ao mar quando sua última lembrança se foi. Perturbado pelo vazio, com o pássaro de ouro como única recordação, ele optou pela morte em um ato de apavorante desespero. Saber daquilo me despedaçou tanto... e eu gritei em prostração por todo aquele infortúnio, na expectativa de que fosse apenas um pesadelo.
Querido Søren, não posso compartilhar a vida contigo, pois agora ela é feita tão somente de tristeza eterna. Sinto-me uma tumba, enterrada na dor. Não há mais lume em meus olhos, tampouco beleza em meu sorriso. Estou aos pés da angústia, ajoelhada, refém da desolação. Tu mereces uma mulher alegre, que não tenha vivido perversões de origem infernal e traumas que sequer a pertencem. Sei o quão difícil deve ser acreditar em mim... não te culpo, meu Dom, não te exijo. Agradeço por todo o teu cuidado e amor; sou grata, em especial, às palavras da tua última carta — que me salvaram da minha loucura. Amo-te com o que me resta de vivacidade... levarei este amor comigo.
Peço-te que jamais acredite na indulgência de um artefato misterioso e rogo por teu perdão. Estou juntando os fragmentos d’este pássaro... aguardo pela coragem, vinda no vento, ordenada pela violência da maré. Eu levarei comigo essa maldição. A insuportável dor d’estas tantas pessoas... as imagens horrendas em meu cérebro... a dor aguda, o medo constante... tudo terá um fim, amor, quando estiver afogado no índigo oceano.
Noite de Aniversário
Balão festivo, alegra o entardecer! | Refulge níveo e vai no sopro-vento; | Menina que o observa a perceber | Que o escuro vem estranho e nevoento…
Balão festivo, alegra o entardecer!
Refulge níveo e vai no sopro-vento;
Menina que o observa a perceber
Que o escuro vem estranho e nevoento…
É tarde, e labirinta-se a floresta!
Um breu de orvalho e morte foi criado…
Menina amedrontada, que lhe resta:
Voltar por onde lembra ter passado…
Tão fácil decisão, vês? — Entretanto
Que tolo pensamento ela tivera!
A face deformada ao seu espanto!
Medonho ente tão pútrido à sua espera…
Silente perseguia a moça, e então,
Foi visto, morbo-horror, assombração!
E o olhar de mil… mil jardas… concebera.
Humm… sim…
Vem, faça o que desejas me fazer… | Amor, quero sentir bem mais profundo… | Febril saliva, leva-me a tremer… | Tesão vertendo a cada um só segundo…
Vem, faça o que desejas me fazer…
Amor, quero sentir bem mais profundo…
Febril saliva, leva-me a tremer…
Tesão vertendo a cada um só segundo…
É assim que gosto: quente e ensandecido!
Colida-o intumescido em meu sorriso
Enquanto almejo o engasgue pervertido,
Perfeita em só perder o meu juízo;
Anseio por sentir-te mais e mais…
Um jogo apenas sob um frio outubro
Secreto e vil prazer: paixões linguais…
Tão rígido, meu bem, és-me um delubro…
E rezo de joelhos: traz orgasmos!
Intenso os teus e meus ardor-espasmos…
A marca de tuas mãos, meu corpo rubro.
Overdose
Magenta. Mil batidas imortais, | A música ressoando devagar | Enquanto os nossos corpos imorais | Transgridem a luxúria a se afogar;…
Magenta. Mil batidas imortais,
A música ressoando devagar
Enquanto os nossos corpos imorais
Transgridem a luxúria a se afogar;
Teu mar de éter tão níveo: minha boca!
Adorno-o n’um translúcido de mel
E, vês? Como preenches mi’alma oca?
Teus olhos são-me acúleos — meu cruel!
Promessa tremeluz ardentemente,
Se posso confessar-te que teu gosto
É lúbrica ambrosia incoerente,
Trazendo bel vertigem — doce gozo
Loucura n’um segundo: elã carnal!
Teu falo em minha cona: plano astral!
Magenta — cor do amor sempre disposto.
Promessa & Desejo
Caminhava nas ruas escuras de Verttica. Nenhuma luz natural... uma aurora sem pálido sol. O minimalismo geométrico da metrópole…
Caminhava nas ruas escuras de Verttica. Nenhuma luz natural... uma aurora sem pálido sol. O minimalismo geométrico da metrópole, cingido num orvalho de solidão prateada, era melancólico e belo. Apreciava, de modo soturno, o brilho de látex, os vidros espelhados e o asfalto de basalto. Olhava para cima, para o céu de rocha ígnea, o interior do Monte Elbrus — imponente, observando-me de volta tal como um abismo o faria.
Com fascínio e certa angústia — a qual eu me negava a ver —, cheguei à Pirâmide Mater. Iniciava-se mais um dia de trabalho, como todos os anteriores. Pelo menos, naquela sala, eu podia observar o que restou do planeta: a lividez do gelo, o céu coberto de poeira biotecnológica. Às vezes a neblina negro-cinérea… às vezes a neve umbrosa e, em raras oportunidades, a chuva — do mesmo tom e gosto amargo de zëttir.
Após validar minha íris, fui instruída a seguir para os escritórios térreos — uma mudança estrutural repentina, por segurança. A Pirâmide Mater era obscura, pontiaguda. No seu interior, um labirinto burocrático e militar garantia a proteção de Verttica, mesmo que isso custasse algumas vidas humanas. Sinceramente, eu já estava acostumada com esta verdade, e todo o meu ofício naquele lugar dependia de uma concentração ímpar — portanto, gastá-la questionando o imutável era tolice. Estar em Verttica era um privilégio, a única zona habitável, com qualidade de vida, em toda a Rússia e, talvez, em todo o mundo.
Seção 13, última sala. Sem janelas. Não demorou para que eu me sentisse sufocada. Levantei-me após uma hora de trabalho e caminhei pelos corredores próximos. Eu só precisava de um pouco de ar, ainda que contaminado por biotecnologia — ousei pensar que seria melhor se estivesse mesmo infectado.
Os corredores estavam vazios, em sua maioria. Meu corpo começava a tremer e meu coração acelerava. “Uma janela... só uma saída... preciso de um tempo” — eu pensava. Perdi-me rapidamente, adentrando em portas que nunca ultrapassara — mesmo as mais restritas, embora reconhecessem e aprovassem minha íris. Talvez, pelo meu cargo, não me fosse impedido o acesso, entretanto, por que não? Havia algo de errado na Pirâmide Mater naquele dia, era evidente.
Consumida por um pânico pressuroso, corri para mais uma porta naquele labirinto e, então, eu o vi. Estava atrás de grades de ferro e prata. Usava um sobretudo de vinil e roupas de couro. Uma carcaça de zër cobria seu rosto, formando uma pirâmide assimétrica. Era um homem alto e forte — estranho para um externado. Aqueles que vivem fora de Verttica não deveriam ser fracos? Eu nunca havia visto um..., mas sabia que existiam e eram divididos em “selvagens” e “ocultos”. Aproximei-me... tive a impressão de que ele me observava.
A carcaça de zër era fascinante! As criaturas que dominam o mundo, o perigo iminente, a fonte da biotecnologia e ali, na minha frente, lapidada em geometria assimétrica, cobrindo um rosto humano como se fosse só mais uma pele de urso. O sujeito teria matado a criatura? Como poderia? Elas possuíam uma agressividade descomedida, eram imensas e de uma força inigualável! Eu estava impressionada...
“Oi...” — murmurei. Sua cabeça se movia, sempre acompanhando meus movimentos. Meu coração ainda acelerado. “Você matou um zër?” — ousei perguntar. Um tenso silêncio emergiu.
“Talvez...” — ouvi. Voz grossa e amedrontadora, decerto modificada para não ser reconhecida. Fremi e senti o arrepio correr pelos meus braços.
“Como é lá fora?” — Aproximei-me da grade, eu não estava raciocinando direito. Mesmo sem face, o homem estranhava meu comportamento, eu sentia. “Posso tocar?” — estiquei-me para dentro da sela, minhas mãos trêmulas.
“Pupilas dilatadas... mãos trêmulas... incapaz de identificar o perigo... você está em vianttre...” — proferiu como um demônio. Vianttre: Síndrome do confinamento de Verttica — eu estudei sobre isso ainda na graduação, entretanto, tomávamos pílulas diárias para manter a sanidade e jamais imaginei que sentiria aquilo; jurei que saberia identificar no primeiro sintoma.
“Deixe-me tocar...” — insisti, perturbada. O homem se aproximou, silencioso. Abaixou ligeiramente sua cabeça. Toquei na pirâmide assimétrica.
Frígida. De textura obscura. Perturbadora! Senti-me eufórica, uma risada súbita partiu de mim. Era impossível manter o controle. De modo célere, meus olhos lacrimejaram e senti algo descer pelas minhas narinas. Era sangue. Aquilo me levou a um pavor mórbido e eu ri mais do que antes. Uma profunda sensação histérica — e pensamentos de morte súbita. Minhas pernas fraquejaram, sentei-me no chão. A visão embaçava, enegrecia.
“Seu coração vai parar, você precisa chamar ajuda...” — ele disse, seu tom selvagem tal como sua aparência macabra. Nunca um habitante de Verttica se importaria com o colapso de um desconhecido. Menos um — eles diriam. Não querem superlotação na megalópole perfeita. Senti uma pontada aguda de dor no tórax, minha capacidade pulmonar estava reduzida.
Vi o homem colocar sua cabeça entre as grades, retorcendo a pirâmide assimétrica, entortando as colunas o suficiente para que ele pudesse passar. Aquela carcaça de zër continuava extrema em força e poder, mesmo sendo apenas uma carcaça.
No chão, a risada perdurava, mas eu estava agora deitada e já quase não enxergava. Lembro-me bem, eu vi com muita dificuldade. Ele sobre mim, e uma agulha perfurando meu pescoço. Retomei a consciência e a sanidade quase que em segundos posteriores, embora com a sequela da tremulação. Fitei o selvagem, senti medo profundo — entretanto, ele havia me salvado. Ficamos em silêncio. Tentei pensar em tudo o que eu poderia perguntar, porém, um nervosismo impedia-me de pensar com clareza.
“Se você podia fugir, por que esperava na cela?” — questionei, quase como um alívio por conseguir proferir alguma coisa.
“Aceito seu agradecimento...” — ironizou. “Uma vez dentro da Pirâmide Mater, não há como sair. Você sabe disso. A menos que sua íris seja verificada.” — ele tinha razão. Estava fadado à morte. Selvagens são considerados contaminados.
“Você tinha um antídoto consigo? Como?” — perguntei, confusa. Ele ficou em silêncio, observando. Levantei-me devagar, algo nele me instigava. Talvez o mistério de seu rosto, porventura sua força em destruir um zër. Ou apenas por ter sido salva, sentindo-me importante para alguém, ainda que para um completo anônimo.
Retirei a renda que escondia meu rosto — e soltei meus cabelos presos pela norma de Verttica. Eu queria que ele confiasse em mim, então fiquei vulnerável. Rendas negras, couro, vinil ou látex cobrindo o corpo, o rosto; cabelos presos e peças geométricas: tudo isso para confundir os inimigos externos. Essa era a lei de Verttica. Zërs não conseguem enxergar, entendem materiais enegrecidos como sombras e geometrias como perigo. Eu escolhia a renda, pois achava bonita — embora não fosse perfeitamente eficaz.
O homem aproximou sua grande mão de meus cabelos soltos, tocando-os devagar. Parecia nunca ter visto uma mulher de cabelos soltos. Pensei que o exterior, porventura, tivesse regras semelhantes à Verttica. Meu corpo ainda tremia e, estranhamente, eu senti desejo e intensa excitação com a aproximação do sujeito. Uma overdose de vianttre e, depois, libido? Eu não conseguia compreender aquela anomalia. Ninguém em Verttica tinha o direito de explorar a sexualidade, tampouco de senti-la. As pílulas regulavam os hormônios para manter o controle. Era preciso. A sexualidade leva à depravação e à violência..., contudo, eu me sentia viva enquanto aquela sensação se prolongava.
“Estou desejando você” — afirmei. Eu não sabia o que fazer com aquilo, achei sensato mencionar, embora, pensei em seguida, o selvagem não entenderia.
“Meu antídoto tira a letargia de todos os controles emocionais que Verttica impõe sobre seus residentes através de doping.” — explicou, tocando, em lentidão, meu pescoço. “Inclusive e, principalmente, o controle sexual...”
“Isso... não é verdade... Verttica nos protege...” — O toque dele... Eu precisava de mais...
“Sente-se protegida?” — ele questionou, seu tom de voz parecia mais monstruoso. Eu não pude responder... Abaixei a cabeça, fitando a porta de saída. Eu poderia fugir. Eu sabia que ele era uma ameaça. Quão abruptas as sensações se destravam no corpo... capazes de dilacerar toda a racionalidade. Eu não iria desistir ou retroceder...
“Pessoas externas sentem desejo diariamente?” — olhei-o.
“Talvez... o externo é precário, mas o sexo nos revigora. Pelo que posso notar, você nunca experimentou essa adrenalina. Sabe na teoria como funciona, mas claramente não sabe o que fazer com o que está sentindo.” — debochou.
“Por que não sei?” — senti meu ego ferido.
“Ninguém anuncia a um desconhecido que está com tesão por ele.” — afirmou, assertivo. “Ainda mais estando dentro de uma sala, desprotegida. E sendo uma mulher, ou seja, fraca.”
“Não sou fraca” — afirmei e, imediatamente, ele me pegou, prendendo-me em seus braços, impedindo-me de me mover. Ele estava quente e ficar tão próxima dele fez minha respiração tornar-se ofegante.
“Talvez para um homem residente de Verttica você não seja fraca. Mas para um externo, você é presa fácil.” — murmurou. Ficamos em silêncio.
Agradava-me sentir tamanho êxtase que, decerto, nascia do meu ventre. Eu estava enlouquecida por ele, tomada por um enlevo demoníaco. Era surreal, tamanha a intensidade. Eu sabia que mulheres poderiam procriar se realizassem o ato sexual e, claro, se ainda tivessem seus úteros. Eu não tinha medo dessa consequência, pois, em razão da rejeição de anestesia, minha cirurgia de remoção de útero era impossível, consequentemente, minha medicação controlada impedia a ovulação natural, tornando-me infértil. Todas as mulheres, ou quase todas, em Verttica, passavam por essa cirurgia. O Domínio — poder governamental — sabia o que fazia para amenizar a superpopulação em tempos de baixo recurso.
“Faça-me sentir mais... e eu te ajudo a ir embora daqui.” — prometi, ainda presa em seus braços. “Mas é preciso ser rápido...” — exigi.
“Prefiro devagar...” — murmurou, imerso em um flerte provocativo. “Pela sua sede, o rápido não vai te satisfazer” — afirmou, soltando-me.
“Não preciso me satisfazer... preciso sentir...” — ficamos em silêncio. Meu desejo estava me deixando sem juízo, pois até mesmo quando nos calávamos, eu sentia imersiva excitação.
O homem levou suas mãos à pirâmide assimétrica sobre sua cabeça e rosto, retirando-a. Meu coração disparou... eu iria vê-lo? Em seguida, livrou-se da placa de aço em seu pescoço e, por último, da balaclava de couro. E então... sim... eu vi seu semblante. O contorno de seu maxilar... seus cabelos castanhos e ondulados... um homem de beleza inexplicável, com algumas cicatrizes na pele, barba curta no rosto, olhos negros como uma breummita e... o brilho prateado na pupila. Ele estava mesmo infectado pela poeira biotecnológica. Aquele lume argênteo eu conhecia bem.
A volúpia, estranhamente, aumentara. No limiar do incontrolável — como se nada importasse. O possível perigo me atraía incondicionalmente. Manter-se distante de um infectado era uma das primeiras leis de Verttica. Entretanto, minhas emoções desequilibradas dificultavam minha servidão ao Domínio.
Ele se aproximou, como um caçador furtivo, desfazendo qualquer tênue possibilidade de retrocesso da minha decisão. Suas mãos envolveram minha cintura, seu perfume como ópio. Senti sua força. Um receio contornou toda a volúpia — fazendo em mim um verdadeiro amálgama de contradições sensoriais. Tudo vibrava, cada centímetro de aproximação era suficiente para a tremulação, mesmo a razão insistindo em me alertar das consequências daquela aproximação. Eu não a ouvia — cedi pela alucinante lascívia... era como estar embriagada. Eu sentia a presença daquele homem... carregada de atração.
“Vou te fazer sentir...” — ele sussurrou... o seu sussurro me inundava... sua voz real era grave para temer... grave para amar... um tom viril que me deixava em silencioso delírio.
Quando seus lábios tocaram os meus, tudo se dissolveu. O ar rareou, o calor ascendeu como uma febre capaz de alucinar. Uma vivacidade afrodisíaca percorreu-me por dentro, desgovernando quaisquer possíveis ações da minha parte. Fiquei submissa à cinesia daquele homem e sua mão envolveu-me a nuca com uma firmeza terna. Seu toque tinha um nível íntimo, como se já nos conhecêssemos há anos. O que aquilo significava?
A língua dele buscou a minha, lenta e profunda, deixando um rastro mentolado, talvez férreo, que contrastava com a sordidez daquilo que nos incendiava. O beijo prolongou-se até perder forma, narcótico e absoluto, misturando respiração e gemido. Quando suas mãos alcançaram meus seios, o mundo, a minha vida, o controle total, a externalidade em decadência — tudo, completamente, findou. O calor foi o que restou, e um som fugido da alma, lamúria de fervor.
Ele despiu-me com calma — mas havia pressa na sua vontade. Eu não estava sozinha no desvario da cobiça impúdica! Aquele lume prateado não negava. Seu toque inicial em meus cabelos, não fora desprovido de intenção. Percorreu-me com um olhar que também me penetrava, sem sequer mover-se. Eu via o desejo contido pulsar sob o vinil que o cobria, e ele percebeu para onde eu dedicava minha atenção. Não precisou de palavra: ele sabia bem o que eu queria. Eu o desejava com uma urgência insana, com a fome de quem quer ultrapassar todos os limites.
Com uma única mão, ele desativou as travas das correntes, abriu o zíper de aço e se libertou da proteção. A cada movimento, com sua habilidade excepcional, algo em mim se dissolvia. O som metálico reverberava na sala, e uma ansiedade pavorosa percorria-me, vibrando entre o medo e o desejo. Quando o vi — rijo, pulsante — toda a minha lógica restante se amorteceu. Restou apenas o frenesi, um torpor que me deixava entre o fascínio e a entrega. Era estranho... eu queria sentir o sabor... o peso... queria tantas coisas que não sei nomear. Por um instante, acreditei que aquela união era fisicamente impossível.
“Não... não acho...” — hesitei, e a dúvida soou como um convite.
“Pode doer um pouco... pode sangrar... mas...” — a respiração dele tornou-se arfante, e o som, por si só, me excitava. “Vou fazer devagar, até que você se acostume.” A voz, antes grave e ameaçadora, tornara-se afetuosa na curva sutil do seu proferir. Devagar... — essa palavra me escaldava.
Ele me tomou pelos quadris e me colocou sobre a mesa. O computador caiu, estrondando no chão. Houve silêncio depois...
Se eu pudesse voltar àquele instante, o teria beijado — eu, na atitude que devia, beijá-lo para parar o tempo. Assim eu faria... e beijaria também a sua rigidez imponente... tocando e sorvendo com meus lábios abrasados...
Quando o senti — a ponta roçando, o calor, o deslizamento... úmido, tão lento quanto a queda de um anjo ao inferno. Trepidei.
“Não... não acho que... cabe...” — Meu ar faltava, meu coração palpitava frenético outra vez. Não era possível que seu membro me penetrasse... era vultoso, talvez demais, entretanto, eu jamais havia visto um, então eu não saberia mensurar com precisão. Senti sua mão em meu queixo, ele me fez fitar seus olhos de luz prateada.
“Feche os olhos” — ordenou. Obedeci.
O avanço lento — muito lento — de sua entrada em mim. Na escuridão trêmula das minhas pálpebras. O corpo se abria à força e, ao mesmo tempo, pedia mais. Devagar... Ele gemia... Dor e calor misturavam-se até que já não soubesse distingui-los. O tempo pareceu se suspender, de fato, o ar ficou denso. Era uma sensação esplendorosa, uma vertigem que fazia esvair o medo e deixava apenas a satisfação. Cada fibra do meu corpo reagia, cada pensamento explodia como uma centelha. Senti arrepiar-se a tez, o sangue ferver, uma corrente subir pela espinha. Era humano… e, pela primeira vez, eu me sentia humana.
Quando percebi que ele estava todo dentro de mim, abri os olhos — precisava ver para acreditar que eu não estava sonhando.
“Está tudo bem?” — ele perguntou, murmurando. A dor já diminuía.
“S-sim...” — respondi em êxtase, ébria.
“Agora vem a parte boa...” — sussurrou em meu ouvido. O homem começou um movimento... entrando e saindo... penetrando, intenso e mais rígido. Eu não... aquilo era apenas impossível... todas aquelas sensações múltiplas. Não havia prazer maior. Nunca houve, nunca haverá. Eu gemia... ele gemia... e mantinha um ritmo perfeito. Meus olhos reviravam, minhas unhas cravavam-se em suas costas, mesmo e ainda que sua roupa fosse reforçada. Suas mãos coordenavam tudo e as minhas estavam indomáveis, capazes de feri-lo sem que eu pudesse perceber.
“Diz... seu nome...” — ele sussurrou. Meus olhos não conseguiam se manter abertos, nem fechados. Abracei-o, com os braços em volta de seu pescoço. Seu perfume invadiu-me... eu poderia morrer naquele momento.
“Nyum...” — proferi com dificuldade... “E você?” — toquei seu peito, mas não conseguia retirar sua proteção. Queria mais de sua pele.
“Logan...” — respondeu, aumentando o ritmo. “Ainda quer... que seja rápido?” — Seu gemido estava deliciosamente austero.
“Não quero... mas... tem que ser assim...” — Logan me segurou pelas pernas, penetrando-me em pé, apenas subindo e descendo com meu corpo. Lembro-me... e reminiscências da sensação se revivem no meu ser. Ia tão fundo. Parecia tocar um ponto específico que me deixava mais molhada, dando-me a sensação de que eu não ia suportar. Algo parecia crescer, um ápice de deleite... eu estava sempre em um “quase”... um “quase” que me levava à loucura. E Logan, tão viril, deixando-me mais ávida e ardente.
“Nyum...” — murmurou meu nome e aquilo me arrebatou. Bem no pé do ouvido, segurando-me intenso... possuindo-me tão firme...
“Preciso cumprir... minha promessa... Logan...” — relembrei... era necessário que parássemos.
“Essa... hum... é uma boa hora... para morrer....” — afirmara enquanto apertava minhas coxas, mantendo o ritmo do seu teso aprofundar. Uma troca de pensamentos... uma sincronicidade de sensações... ambos morreríamos felizes..., porém, a morte não merecia nosso orgasmo final.
“Não... não é...” — Eu desejava mais dele... almejava tê-lo todas as noites. Logan pôs-me na mesa outra vez. Retirou suas luvas.
Mãos... rústicas... veias salientes... força e brutalidade.
Segurou minha cintura e, violento, penetrou ainda mais forte e rápido. Minhas forças se esvaíam. Meu corpo em descontrole total.
Gritei seu nome, implorei para que não parasse... eu sentia que algo aconteceria... nas minhas entranhas... nas artérias, no pulmão... no útero... em todos os órgãos... algo viria, tórrido e indômito... e, de fato, aconteceu.
Tive uma convulsão — era o que me parecia. Espasmos pelo meu corpo, uma carga de energia elétrica em meu sexo. Uma overdose perigosa de enlevo. Uma exultação que atravessava meu crânio, energizando minhas células, fervilhando minha alma. E, no mesmo momento, senti o éter adentrar-me... tão febril... em um jato fugaz — selando o fim.
Logan gemeu intenso, segurando firme o meu pescoço, beijando-me em seguida.
Senti-me mais fraca do que antes... deitei-me em seus braços e ele saiu de dentro de mim, deixando seu sêmen escapar, escorrendo por minhas pernas. Manteve-me em seus braços e sentamo-nos no chão, exaustos. Eu não estava satisfeita, mas sentia-me realizada... cansada e... feliz. As sensações amainaram... a loucura abrandou.
“Eu vou... te tirar daqui...” — sussurrei, respirando seu perfume, tocando seu suor com a ponta dos meus dedos. Ele sorriu, cético, num crime de beleza masculina.
“Hum... eu prefiro ficar...” — afirmou, elevando meu rosto, olhando-me nos olhos.
Nas Sombras da Inquietação do Ser: Hamlet e Kierkegaard
A clássica citação já nos acende o sentimento profundamente existencial que permeia a obra-mestra do grandioso Shakespeare — embora…
“Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia.” — Ato I, Cena V: Hamlet de William Shakespeare
A clássica citação já nos acende o sentimento profundamente existencial que permeia a obra-mestra do grandioso Shakespeare — embora, convenhamos, de obras-mestras ele tenha várias. Para além de príncipe da Dinamarca, Hamlet é um peregrino dos obscuros ornamentos de si mesmo, prisioneiro de um destino escrito nas brumas do sobrenatural, caminhando com a espada envenenada que separa o mundo dos vivos do chamado dos mortos. Sua história é a de um homem que busca vingança — e mais: a de uma alma que se debruça sobre o abismo da própria existência, tentando decifrar se ser é um dever… ou apenas uma condenação.
Assim como o Castelo Drácula, o reino de Elsinore¹ é feito de pedras úmidas, corredores múrmuros e medonhos segredos por trás de seus umbrais. Não há condições de medir os próprios suspiros diante da imensidão obscura de ambos os recônditos. Dentre os salões dourados e as criptas silentes, move-se Hamlet: um herdeiro de carne e melancolia, envolto à neblina cinérea de uma verdade que se recusa a ser revelada; uma dúvida, uma loucura e, acima de tudo, uma poética filosófica². Este é Hamlet. E se você ainda não leu a obra de Shakespeare que leva o nome do seu protagonista mais existencialmente visceral, você não está vivendo da melhor forma.
Nota paragrafal¹: O Elsinore de Shakespeare foi inspirado no Castelo de Kronborg, em Helsingør, na Dinamarca, um dos mais importantes da Renascença e declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Ele já era associado a lendas e intrigas no tempo de Shakespeare (cf. UNESCO World Heritage Centre, Kronborg Castle).ik
A multiforme tragédia
Shakespeare escreveu Hamlet no final do século XVI, em um mundo onde as peças eram a essência da arte mais bruta, carregando consigo a literatura, a música, a interpretação, a dança e todas as demais artes que se pode imaginar. Não é muito diferente dos dias atuais — embora dramaturgos como Shakespeare, ouso dizer, já não sejam tão fáceis de encontrar no contemporâneo. Talvez porque Shakespeare, em sua época, era mistério — e só assim poderia ser, dadas as circunstâncias. Isso fazia dele um escritor cujas obras carregavam a mesma essência enigmática de seu autor.
Hoje, somos tudo, menos incógnita. Vê-se claramente as sombras dos modos-de-ser de cada indivíduo pelas redes sociais — ó que dádiva, que sulfúrico tormento³!
Nota paragrafal²: A expressão “sulfúrico tormento” remete ao Ato I, Cena V, quando o fantasma do pai de Hamlet se despede: “Já está perto o momento em que é forçoso que de novo me entregue às labaredas sulfúreas do tormento.” A escolha dessas palavras é de uma qualidade literária rara — e isso me fascina de um jeito inenarrável! Aqui vemos cada termo carregado de peso imagético e sonoridade. Shakespeare descreve o sofrimento do além — o inferno? — e o veste com texturas sensoriais — fogo, enxofre, suplício — que só um escritor exímio, forjado nos tempos antigos, poderia conjugar com tamanha precisão e beleza mórbida. É evidência de sua veia gótica — antes mesmo do “gótico” ser concebido — e, sem dúvida, inspiração para toda e qualquer literatura posterior.
Hamlet foi uma obra embriagada em lendas anciãs, como a do príncipe Amleth, narrada por Saxo Grammaticus, e pode também ter se inspirado numa peça desaparecida, o Ur-Hamlet, que já trazia à cena o espectro exigindo vingança⁴. Essas peças perdidas, carregando reinos corrompidos e fantasmas clamando por justiça, fincaram raízes no coração de Hamlet — e nós vemos, até hoje, esse coração sangrar.
Nota paragrafal³: O príncipe Amleth aparece nos Livros III e IV de Gesta Danorum, obra escrita no início do século XIII pelo historiador dinamarquês Saxo Grammaticus. O Ur-Hamlet, peça perdida mencionada por Thomas Nashe em 1589, é considerado por estudiosos uma possível fonte direta de Shakespeare, introduzindo o fantasma como catalisador da vingança (cf. Encyclopaedia Britannica, Sources of Hamlet; Gesta Danorum, Saxo Grammaticus, ed. 1514).
Mas Shakespeare expandiu o gênero da tragédia ao dar a seu protagonista não apenas um inimigo externo, mas, sobretudo, um labirinto interno de pensamentos, hesitações e reflexões. Por isso, a veia existencial pulsa durante toda a obra. Hamlet é um palco inteiro de paixão e ser; uma personificação do que há de mais humano em nós: pensar e sentir — isto é, ser.
Ser ou não ser: o abismo existencial
O monólogo mais famoso de Shakespeare não é um adorno; embora rebuscado — como toda obra escrita há éons — , ele é o nervo exposto da peça. Ele traz à tona o comportamento mais puro do ser: o questionamento. “Ser ou não ser?” Ah, sim… a tão antiga indagação, sempre viva, sempre pertinente.
Mas, afinal, o que é ser? A questão do ser sempre volta, como um eco inevitável. Desta vez, porém, não vamos seguir os caminhos de Heidegger — ainda que o paralelo fosse sedutor — , mas nos voltaremos a um outro olhar: o de Kierkegaard.
A pergunta sobre a vida ou a morte é um sussurro de sentido cujo peso é insuportável para a razão e demasiado profundo para o cerne. Hamlet é o homem que pensa demais e, por isso, age de menos — mas não é a ação, sempre, uma consequência secundária? Ou vem do pensamento ou vem da impulsividade da emoção.
Sua hesitação diante do que lhe é incumbido — a vingança — é também um ato de resistência: adiar a ação é prolongar-se no peso do que lhe antecede. O pensamento é o último bastião antes de se lançar ao vazio da consequência, consequência que emerge no instante posterior ao ato e, por vezes, se transforma em fantasma psíquico — muito mais terrível do que a aparição translúcida de um pai morto.
A pergunta “ser ou não ser” sintetiza o dilema existencial, e vamos agora, brevemente, à visão de Kierkegaard, para compreender como Hamlet encarna, em seu silêncio e dúvida, a própria condição humana diante da liberdade e da escolha.
Mas por que Kierkegaard? Gosto de pensá-lo como um poeta do pensamento e da existência humana, muito mais do que um filósofo no sentido estrito. E nada mais justo que aproximar dois poetas — um das palavras, outro das ideias. Kierkegaard escreveu extensamente sobre a existência, e seu vínculo religioso não pode ser ignorado. Pelo contrário: é justamente ele que sustenta o núcleo de sua obra, pois é nele que o filósofo-poeta vê o valor inestimável da subjetividade e do “diálogo íntimo e profundo do eu consigo mesmo” (SILVA, 2013).
Para Kierkegaard, a inquietação é a postura mais humana diante da vida. Os paradoxos que dela emergem são parte essencial dessa jornada subjetiva. Hamlet carrega essa inquietação do início ao fim: pensa até o limite da exaustão, sente até o esgotamento da alma. Para Kierkegaard, o subjetivo é o espaço onde o indivíduo, em seu eterno devir, mergulha na própria construção singular — e a subjetividade de Hamlet é um exemplo quase absoluto dessa condição (com exceção, talvez, da ausência de um direcionamento cristão, que orienta todo o pensamento kierkegaardiano).
A resposta para o “ser” em Kierkegaard é Cristo. A resposta para o “ser” em Hamlet não existe. Hamlet não encontra o “salto”, não decide; vive e morre no limiar, na vertigem⁵, prisioneiro do paradoxo entre vida e morte. Questiona o que há depois da morte, pesa a decisão de tirar a própria vida ou a de outrem, e experimenta a existência como inquietação pura. Em Kierkegaard, essa inquietação é necessária para que o indivíduo se aproxime da verdade; em Hamlet, ela é o destino — e a condenação.
Nota paragrafal⁴: Kierkegaard descreve a angústia como “freedom’s actuality as the possibility of possibility” — uma vertigem existencial que emerge do reconhecimento da infinidade de escolhas e da responsabilidade inalienável por cada uma delas (cf. Kierkegaard, O Conceito de Angústia, trad. brasileira, 2010; Wikipedia, The Concept of Anxiety). Isso é expressamente o que acontece com Hamlet.
Agora, intercalando as visões, acredito que o pensamento kierkegaardiano, ao tomar a verdade como Cristo, é valioso em muitos aspectos. Muitos dão o chamado “salto de fé” a partir da angústia que vivenciam, encontrando em Cristo não apenas consolo, mas direção. Cristo, por sua vez, trouxe à terra ensinamentos que hoje — e sempre — deveriam servir à lapidação da moral humana, tornando-a mais admirável.
Entretanto, as divergências da religião (e não de Cristo) muitas vezes condenam o ser humano à razão pura, desvinculando-o do essencial subjetivo e impedindo-o de se imergir plenamente nos aspectos de sua inquietação. Isso pode resultar numa fuga da autêntica essência ou no sufocamento dela, gerando ainda mais angústia — como nos pensamentos suicidas de Hamlet — ou criando uma “imunidade” emocional.
Eu, por fim, me inclino à compreensão de Kierkegaard, com uma única diferença: para mim, é preciso o “salto-poético” — voltar-se à verdade da poesia, a única capaz de abarcar subjetividade plena, autoconhecimento, emoção e razão — sem o peso religioso. É nesse retorno que nos aproximamos do que é mais valioso: a dádiva do existir.
De certa forma, também encontramos algo disso em Hamlet, em trechos de seu intenso, trágico e violento amor por Ofélia, por exemplo. Entretanto, a poesia que residia no peito do príncipe jamais encontrou a voz precisa em seu ser; tornou-se, portanto, a racionalidade e a loucura o seu desígnio. Nem o “salto de fé” nem o “salto-poético” aconteceram — nada salvou Hamlet de si mesmo.
Referências
Encyclopaedia Britannica. Sources of Hamlet. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Hamlet-by-Shakespeare/Sources-of-the-play.
SAXO GRAMMATICUS. Gesta Danorum. Ed. 1514.
SILVA, Rodrigo Melo da. O indivíduo coram Deo: ética, repetição e liberdade na filosofia existencial de Søren Kierkegaard. Relatório de pesquisa PIBIC. Rio de Janeiro: Departamento de Filosofia, PUC-Rio, 2013. Disponível em: PUC-Rio — Relatório PIBIC. Acesso em: 9 ago. 2025.UNESCO World Heritage Centre. Kronborg Castle. Disponível em: [https://whc.unesco.org/en/list/696/.](https://whc.unesco.org/en/list/696/)
KIERKEGAARD, Søren. O Conceito de Angústia. Trad. brasileira. Petrópolis: Vozes, 2010.
WIKIPEDIA. The Concept of Anxiety. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/The_Concept_of_Anxiety.
O Teatro Perfeito
Perfeito, o Teatro — e nele a decadência | As máscaras são telas luminosas | Personas em suas tantas aparências | Roteiro de ventura confragosa;…
Perfeito, o Teatro — e nele a decadência
As máscaras são telas luminosas
Personas em suas tantas aparências
Roteiro de ventura confragosa;
Perfeito, o Teatro — e nele aplauso algum,
Cortinas fecharão só uma vez
E o peso do tecido em cada um
Trará o ato final da Morte à tez;
Perfeito, o Teatro — e nele a mentira
As máculas, as lágrimas em vão
E a busca por calar a eterna ira
Que emerge do Teatro ao coração
Somente pr’a verdade lancinante:
A peça e seus atores delirantes
Estão ao palco como a cova ao chão.
Capítulo 14 (Final): Reconhecimento — Rubi Áurea
Ser soterrada por minha desumanidade fez emergir no meu peito um vazio inominável que despertou algo que outrora nunca houvera…
Queridos leitores
Com este capítulo vocês concluem a leitura do rascunho inicial de Rubi Áurea. A partir de agora, todos os capítulos passarão por um processo de reformulação, para que a história ganhe mais impacto, profundidade e coerência narrativa.
Este final — o Capítulo 14 — ainda não é definitivo. Posso reescrevê-lo, modificá-lo ou até mesmo acrescentar novos capítulos. Apesar disso, os eventos centrais permanecerão. A versão final da obra será publicada nos formatos físico e digital, não estando mais disponível para leitura no Castelo Drácula, como este rascunho esteve até aqui. Dividir com vocês o processo de escrita deste romance foi uma dádiva. Agora, chegou o momento de lapidar a história com o cuidado que ela merece. Escrever não é tarefa fácil — exige uma entrega constante, uma dedicação amorosa. E, para mim, não há nada mais prazeroso do que me dedicar às minhas histórias. Em breve, vocês poderão ler uma obra completamente renovada e compará-la com este primeiro esboço. Serão duas experiências literárias distintas — e igualmente especiais. No início, eu não sabia quem era Áurea. Nem mesmo seu nome existia. Sua história foi se revelando aos poucos, capítulo após capítulo. Hoje, conhecendo melhor sua essência, posso reescrever seu caminho com mais consciência e verdade. Este rascunho é profundamente simbólico para mim, pois, enquanto minha protagonista evoluía, eu também me transformava como escritora. Ele representa algo que só quem é artista literário pode compreender: o envolvimento intuitivo e visceral com uma história jamais antes contada. Tenho orgulho de cada palavra escrita — foram mais de quarenta e cinco mil! Entre quatorze e dezesseis meses de empenho, noites de imersão em cenários, atmosferas e simbologias; dias inteiros dedicados a personagens que ainda terão muito a revelar — em *Rubi Áurea* e além dela. Obrigada a você, leitor querido, por caminhar comigo até aqui. Agora, convido você a apreciar o rascunho do último capítulo.Ser soterrada por minha desumanidade fez emergir no meu peito um vazio inominável que despertou algo que outrora nunca houvera. Eu sentia a mudança, ela vinha como ondas à beira da praia, como um sussurro dos ventos pacíficos, como o fim da primavera. Eu sentia que me encontrava, reconhecendo a mim mesma dentro da imersão daquele Castelo misterioso que sempre me guiava para onde eu precisava ir, direcionando meus passos sem que eu soubesse a razão. Um alcácer, talvez, ilusório. Embora extremamente inestimável para mim.
No âmago daquele momento, caminhando pelos corredores — eu a ouvi. Sua voz era a minha voz, como fora n’outras vezes. “Eu te mostrarei”, ela disse, “Eu te mostrarei a verdade”. Não era o Deus Maior, Lúcifer ou o próprio Castelo; era eu e ela, compartilhando de um amálgama insondável — na imersão do que éramos, sem um conhecimento racional, mas instintivo. Sem a presença d’outrem, apenas nós; não havia Seth e muito menos os resquícios de um vínculo com o Oráculo — igualmente, o elo há pouco descoberto, vinculando-me ao inferno, parecia translúcido. Por instantes, nada existia, metamorfoseamos a realidade, porventura, em um invólucro da nossa própria consciência.
Então, avistei aquela porta. Tinha um tom de ouro envelhecido. Ornamentada e ornada com volutas, espirais e, principalmente, fragmentos cintilantes — como se feixes minúsculos de luz a atravessassem. N’estes limiares soldorados, uma poeira em pontos de lume pairava, entretanto, tamanha a sutileza que apenas olhos profundamente atentos poderiam enxergar. Tornavam quase tangível o ar e despertavam a nossa vontade de adentrá-la. “É aqui”, eu ouvi no eco do meu interior. Toquei seu ornato esférico, gelificado pelo tempo, volteei-o com a lentidão da infinitude. Eu poderia esperar que, em seu interior, estivesse eu, ainda menina e, diante de tal cena, uma escolha me adviesse: voltar para o passado, emergindo n’uma linha do tempo diferente em um multiverso misterioso, fingir que sou humana outra vez ou seguir com o futuro que se redige a cada novo attossegundo; ou, continuar daqui... inumana.
Eu não entendia a razão pela qual a desumanidade me feria; decerto que tal sentimento estava intrinsecamente ligado ao que eu era no passado, entretanto, parecia doer mais do que devia e diante disso, eu não sabia como agir e sequer conseguia identificar o que sentia. Sob a minha voz no cerne de mim e diante daquela porta que, mais uma vez, na medula daquele lugar sombrio, se apresentava como a verdade e a revelação, eu não tinha certezas ou esperanças, mas segurava firme em um hialino medo porque eu sabia, em certo nível de consciência, que algo mudaria de forma mais substancial do que outrora mudou. Ela estava cada vez mais perto... a mudança...
Adentrei o cômodo e o imenso umbral, pesado como não fora para abri-lo, fechou-se logo atrás de mim, quando meus pés avançaram para o centro do aposento. Era um lugar despedaçado — tal como eu. Uma vidraça arcada no alto estava quebrada e, por ela, uma névoa marfim advinha. Era a única fonte de luz, talvez vinda do sol ou de sua efígie. Por todo o ambiente, dezenas de molduras estavam destruídas nas ruínas dos espelhos que emolduraram n’algum remoto outrora. Os cacos reflexivos variavam em tamanho e forma, mas todos estavam empoeirados — o que me contava, mesmo em silêncio, uma história bastante antiga. Os reflexos da luz criavam um espectro de raios luminosos que atingiam todo o ambiente, como um caleidoscópio. O local não era grande, embora fosse alto. Onde a luz tocava, no centro do cômodo, sentei-me ao chão. Podia ver dezenas dos espelhos e tocá-los, se assim desejasse — e eu desejava. Eu sentia vontade profunda de ver minha própria imagem outra vez.
Passei, com calma e delicadeza, minha mão sobre o primeiro e mais próximo espelho quebrado. A poeira dispersou-se e o feixe de luz espargiu. O que vi fora minha face, meu olho direito era dourado, meu olho esquerdo era rubro. Meus cabelos negros e lisos, sutilmente movimentavam-se em razão de uma brisa quase indetectável. E a nutrúrnia em meu peito... cujas pétalas estavam igualmente em sutil cinesia, deveria transmitir sua escuridão abíssica, entretanto, eu a podia controlar agora — eu almejava, naquele instante, o círio do firmamento quimérico, a cintilância do caleidoscópio, e não o poço da matéria escura. Ainda sob este indelével desejo, segurei um fragmento menor e solto, de outro espelho, levando-o para mais perto de minha face. Limpei-o igualmente, a poeira reluziu pelo ar, rarefeita. Então fitei a imensidão de minha pupila, negra e profunda — eu fitei a escuridão de qualquer forma.
Eu sabia a razão pela qual fazia aquilo — e o saber era intuitivo. Eu conhecia meu poder — e o conhecimento era axiomático. Assim eu vi o meu passado e decidi não ver o meu futuro. Pois era isso que me fazia mais do que uma Illitan: ser capaz de controlar o que vejo e escolher o que quero. Mesmo depois de tanto tempo, tenho árdua dificuldade em descrever o que sentia, pois tudo era constituído de uma profunda verdade que nem mesmo os deuses ousariam sentir sobre si mesmos. A criatura em meu cerne, e toda a sua mítica existência, era capaz de me guiar tal como a lua faz com a maré do mais índigo e violento oceano. Eram as memórias, adormecidas, minhas e dela, envoltas em um véu de sono imersivo e, junto delas, uma infinidade de sentimentos e emoções. “Se eu não sou humana, o que eu verdadeiramente sou?” — murmurei, caminhando sem caminhar, pela escuridão e a luz das lembranças.
E a primeira delas foi da criatura Corphidrae, criada por Soron Vonssihren há muitos e muitos anos. No fulcro da pupila dilatada, eu vi o continente Sihren. E vi o ancestral nascer da Corphidrae — ou de seu primeiro antepassado. Sihren estava imersa por destruição mascarada em heras e musgos; uma densa flora, significativa e abundante, crescia sob o azúleo céu. As mãos do Soberano Soron, com a essência de Sirehnersí e verbo mahesihsta, vibrando a realidade por detrás da interface — eu vi. Surgira a criatura mítica e dela vieram outras e todas com o poder da vidência, entretanto, como animais míticos, não tinham fala e razão; nascidos para proteger a flora e fauna do continente perfeito, acelerando o florestamento sobre os escombros de concreto ainda visíveis. Sirehnersí lhes deu poder, para além das mãos mahesihstas de Soron, pois que Sirehnersí vem do Ente Primevo, o alvor: o Verbo.
Era lindo... e fascinante. Compreendi a história de todas as coisas desde muito antes de ter meu corpo produzido nas câmaras indheren. Vi-me criança, adolescente, jovem adulta e vi meus pés descalços sobre a neve da altíssima e obscura floresta de Amorttam, perdida na escuridão de suas entranhas, em busca de clareiras onde reluzia a lua túrgida de Selenoor, vestida em rubro tecido e, finalmente, protegida pelo lume da azulescida Phehr — a lua detrás da tão mais longeva lua Senlen. Eu vi tudo e vi Lorrt, encontrando-me e guiando-me de volta ao lar dos H. Sttrattan, aos pés da Mansão Negra. E vi seus cabelos grisalhos e seu rosto viril. E ouvi suas palavras: “Um raro rubi perdido em Amorttam!” e vi meu sorriso de medo pela imensidão arbórea e, ao mesmo tempo, aliviada por encontrar o que pensei ser um humano. Na lembrança intensa, fechei meus olhos sem que pudesse perceber — adentrei uma vastidão ainda mais escura onde todos os fragmentos de espelhos flutuavam ao meu redor. Eu sabia que eu estava em minha consciência.
Um fulgor esquálido vinha de cima, iluminando-me e refletindo nos fragmentos. A poeira pairava nívea e eu fitava lugar nenhum, com as íris perdidas no pélago da memória. O som de um triste piano me alcançou e um rosto então embaçado a princípio tornou-se vívido como um sonho e eu me observava ao seu lado, ainda tão jovem. O homem era mais velho, eu vi o contorno de seu rosto, eu vi seus olhos âmbar.
“Tu és especial pelo dom do amor” — ouvi, era a voz de meu pai Lars. “Impressiona-me tudo o que construíste aqui...” — ele falava do jardim. E ali, eu estava mostrando para ele as flores que já floresciam e as árvores que já cresciam. “Eu tenho algo que guardei para presentear-te quando fosse o momento e, acredito, este é o momento.” Do seu bolso, retirou um colar de ouro, com um pingente feito de vidro protegendo o que me parecia uma pétala opalina. “Adenium Opalinia, uma flor muito rara encontrada somente em Morttam profunda. A pétala é apenas uma réplica, entretanto, representa a raridade do teu ser e do teu dom com as plantas” — explicara, e eu desejei saber onde estava aquele colar.
Pouco depois, entre dezenas de memórias singelas, eu a vi: seu olhar brilhava, seus cabelos volumosos. Ela vinha em minha direção, com bastante empolgação.
“As luas conduzirão o vosso encontro, querida; Phehr e Selen sabem a razão.” — dissera Valeriere, minha avó. E eu cuidava do jardim nas manhãs e meus irmãos mais novos corriam entre os arbustos.
“O que queres dizer, vovó?” — perguntei, ainda confusa.
“Há algo destinado a ti, querida. Algo grande. As cartas disseram, eu as tirei hoje para ti.” — o Tarot não era bem-visto em Sihren, mas Valeriere tinha algum tipo de vínculo com o inenarrável espiritual. Eu a admirava por isso.
“Espero que não seja doloroso” — disse-lhe, de forma descontraída.
“Será” — olhei para seu rosto, senti a seriedade em sua voz. “Grandes feitos precisam de grandes sacrifícios.”
“Já está predestinado?” — perguntei, inquieta.
“Sim, pois, tu já escolheste o caminho antes mesmo de encontrá-lo.”
Rarefeita na luz e na escuridão, esta lembrança deu lugar a outra e a outra e sucessivamente, cada uma delas tocavam minh’alma com a verdade absoluta de minhas vivências. E quando eu revi a mulher da minha vida, eu lacrimejei de emoção.
“Este homem parece-me... como devo dizer... eu não sei, Áurea querida... a presença dele é... amedrontadora” — disse Dehian, minha mãe. Sua voz era veludo, sua proteção recaiu sobre mim como se eu estivesse ao seu lado, de verdade.
“Ele tem um bom coração, mamãe” — proferi, apaixonada. “Mas não te esconderei a verdade, ele foi criado para o mais terrível... e está aqui porque decidiu não seguir a lei de seu criador. Em razão de sua rebeldia, tem sido perseguido, jurado de morte por aquele que lhe deu a vida” — expliquei. Mamãe parecia preocupada.
“Se o encontrarem, o que acontecerá contigo?” — sua indagação me levou à janela, olhando para o jardim, pensativa.
“Eu não sei, mas eu lutarei por ele... por nosso amor... se preciso...” — Mamãe veio a mim, abraçando-me.
“Tenho medo de te perder, minha filha” — confessou. Toquei seu rosto, carinhosamente.
“Eu sempre estarei no jardim” — afirmei.
A compreensão me atravessara... do amor, da dedicação e o dom; uma história vivida e contada por mim mesma, na imensidão da menina dos meus olhos. Não era fácil lembrar, pois meu coração apertava-se e lacrimava dolorido; eu previ a mudança e o seu achegar silencioso através do indescritível. E elas vinham, as memórias, como sopros de tempo, como um livro aberto.
“Esta é Celehstera, a Corphidrae que usaremos no ritual” — disse Lorrt. Eu olhei os olhos dourados da criatura, perfeita e majestosa.
“É linda...” — admirei-a como nunca admirei nenhum outro animal.
“Escolhi este nome, pois, dei-lhe o significado de uma criatura fascinante” — explicara.
“Ela vai se sacrificar?” — senti-me entristecida ao questionar.
“Ela aceitou isso, em nome dos Illitan e de nossa sobrevivência; carregamos, afinal, a sua essência.” — Voltei-me a Lorrt ao ouvi-lo e, depois, novamente aos olhos da Corphidrae. Então, ela apareceu para mim, Celehstera, entre os fragmentos e a poeira. Exatamente como eu a vi naquele primeiro dia, ao lado de Lorrt.
— Tu sabias, por isso aceitaste estar no ritual... teu poder, tão imensurável, facilmente poderia te levar à fuga naquele momento. — Proferi, sem palavras.
— Sim, Áurea. Eu vi a minha morte e minha dor; eu vi a minha ressurreição em teu corpo. Era preciso acontecer.
— Tu és racional?
— Eu sou o que tu és agora, somos um único ser. Não há mais distinção entre nós.
— Então... existe destino? Como indaguei à vovó, não é sobre escolhas?
— O destino é um emaranhado, nós somos capazes de enxergar a linha mais provável do futuro, em razão de sua proximidade com a historicidade do ser qual estamos prevendo. Valeriere viu a linha mais próxima, já escolhida por ti, pois, para alguns, a alma atemporal é mais consciente do que o corpo sob o comando do tempo n’esta interface de vida.
— Se somos uma, eu é que me digo esta verdade? E a verdade de toda a Sihren? Como posso saber de tudo?
— Sim, este é o processo de racionalização tua para com a minha memória. Tudo o que vivi e tudo o que sei, agora também é teu, e a tua razão torna tangível à consciência, como se eu estivesse aqui, dizendo-te cada palavra. Tu sabes disso porque eu sei e porque tua alma sabe, ainda que tu, n’esta interface, não saiba.
— O que é a Interface? O que há de ti em mim?
— Em teu cerne eu sou uma centelha. A tua centelha metamorfoseada. A interface é o tangível, é Sihren, é o Castelo Drácula. Apenas uma miragem cobrindo o código da vida.
— Tu esteves sempre aqui... eu estive... e os enigmas? E Seth?
— Tu estiveste sempre aqui, Áurea, protegendo-se de si, escrevendo a ti mesma, afastando a possessão de Seth. Tudo o que fiz foi feito por ti, pois eu sou o que tu és, não há mais distinção.
— Compreendo... — dissemos, em uníssono. — Não existe mais eu ou tu, somos nós como se assim fôssemos desde sempre. — proferi e repetimos a frase no átimo em que retornei à sala dos espelhos.
Demorei por um tempo incalculável para reconhecer o que há tão pouco tempo me era completamente obscuro. Demorei-me no silêncio, entre os feixes de lumes refletidos, o caleidoscópio de mim mesma. Prolonguei-me n’esta estranha inércia entre saber e assimilar.
Celehstera, nome dado por Lorrt para a Corphidrae, estivera protegendo-me da possessão de Seth, por isso ele sumia e se personificava. Expulso de mim. Ela destruiu todas as maldições de Lahgura. Ela me guiou quando estive em Séttimor e, previu as más intenções do Oráculo e o surgimento de Monm, para me salvar. Com os sigilos pherhesistas e o Olho do Oráculo, intensificou o seu poder para que fosse capaz de me conduzir à verdade completa de todas as coisas, pois a minha resistência em proteger a minha humanidade a estava impedindo. Ela, que fez tudo por mim, ela sou eu.
Eu estava me guiando, me protegendo e, sobretudo, me tornando mais poderosa e forte para enfrentar quaisquer horrores e, em especial, o horror do meu próprio medo. Encontrar Lúcifer, fincar a nutrúrnia, tudo foi estritamente pensado para minha assimilação do fim da minha humanidade. A ideia de ainda ser humana era tão profunda e intensa que, muito antes do meu despertar, essa singela ideia já havia criado a maciça barreira do esquecimento.
Eu me sentia... diferente.
Abri os umbrais pesados daquele cômodo e, a partir daquele momento, eu sabia, tudo aconteceria de outra maneira. Mas uma coisa eu tinha certeza, dentre tantas e confusas decisões que eu poderia tomar naquele átimo, a principal delas era, pois, a mais estável: retornar a Sihren... mas, seria possível? Rever os que amo e abraçá-los, após tanto tempo... se assim acontecesse, eu voltaria no tempo? E se o Castelo era apenas uma interface da interface, como sair deste núcleo se mal sei como cheguei aqui? As dúvidas atravessavam minha mente e doíam. Foi então que ele veio à minha mente... Lorrt. Se eu pudesse reencontrá-lo em Somníria... olhar de novo em seu semblante... dizer-lhe que me lembro de tudo... pois, fora daqui, eu sei, não o encontrarei mais. Lorrt estava morto, eu tinha ciência d’esta mórbida verdade e saber disso, naquele instante, me doía tanto... Deixar o Castelo significava, essencialmente, perder o acesso a todos os multiversos — perder Lorrt de vez.
Indagava-me, porém, se eu seria capaz de retornar ao Inferno... e ouvir a proposta de Lúcifer outra vez. E, sendo um demônio, poderia voltar ao mundo humano? Era muito para mim, e eu não conseguia compreender tanta informação; imergia-me n’um oceano de dúvidas ainda mais mórbidas do que antes, contudo, nada era, de fato, igual... a mudança não foi uma mentira, as memórias resgatadas tinham a perfeição de uma fotografia. Eu havia mudado, como previ, e a mudança agora contornava meu medo e todos os sentimentos derivados da estranheza de estar livre de minha humanidade, sem perdê-la de mim. Era estranho, era um paradoxo, mas as coisas mais complexas são, essencialmente, as mais deslumbrantes.
Saí. Deixei meu olhar cair sobre os arredores infinitos do Castelo Drácula.
E aquele momento era o prólogo do meu novo despertar.
Ouroboros
A névoa do passado é melancólica | Lembranças d’este outrora se dispersam: | O outono e sua Maçã tanto simbólica, | O inverno e a solitude que se versam…
A névoa do passado é melancólica
Lembranças d’este outrora se dispersam:
O outono e sua Maçã tanto simbólica,
O inverno e a solitude que se versam…
Não sei sobre o que espero das janelas,
Porém tanto observo que a neblina
Revela mais que o sopro à acesa vela
Da vida passadiça em sua rotina…
A carta que redijo ao meu futuro,
Os monstros da mi’a própria consciência,
O alívio de prazeres prematuros…
Percebo se tratar de condolência
À efêmera medula em sua verdade:
A bruma é uma espiral-infinidade
E estou fadada à eterna recorrência.
O caminho da Sonura iniciou-se em fevereiro de 2021; tenho o registro d’esta ideia em meus arquivos, disponíveis em meu site também. Cingida por significados…