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Sonura de Natal

Que sempre, se pudesse, aqui ficar | Os tempos tão felizes de Natal… | As luzes, os docinhos, o aquietar… | E todo o amor que surge cordial…

Que sempre, se pudesse, aqui ficar
Os tempos tão felizes de Natal…
As luzes, os docinhos, o aquietar…
E todo o amor que surge cordial…

Seria um doce sonho ao coração
Que hesita n’este mundo amargurado
E afaga-se em cuidado e mansidão
Mantendo-se em espera  —  imaculado…

Minh’alma tanto se é sentimental,
Pois chora no findar dos ventos tais
Rogando ser eterno o sazonal…

Mas sabe que o gengibre e as catedrais,
E as nozes mui crocantes, as cerejas…
E o amor, perdurarão — assim se enseja
No cerne, tal as frutas em cristais.



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A Guirlanda do Artesão

Querida Lilaen, o mundo silente convida-me ao infinito dos teus olhos. Embora eu não possa ouvir tua voz, sei que ela é doce como mel…

de Niehr Veritch para Lilaen Gohs

Querida Lilaen, o mundo silente convida-me ao infinito dos teus olhos. Embora eu não possa ouvir tua voz, sei que ela é doce como mel. Que o presente que te envio seja protegido pelas tuas afáveis mãos até que minha chegada, no Natal, possa aquecê-las suavemente. Escrevo-te por saudades, mais do que isso, escrevo-te por amor. Sabes que se eu pudesse escolher algo para ouvir uma única vez, seria a tua risada que pelo teu semblante já me convida ao perene gáudio. Vi que teus estudos de Libras estão avançados, nunca tamanha dedicação recebi de uma mulher, decerto que tu estavas destinada a viver em meu coração solitário. Guiar-te-ei pelo período em que estiver em Numnura, prometo; para que possas conversar comigo secretamente. Ser-me-á agradável ver o movimento dócil de tuas mãos e o que elas me revelarão no amanhecer. 

Note que o que te envio é uma Guirlanda, todavia, não uma qualquer; a comprei n’uma singela cabana cujo artesão, dedicado, recebeu-me em mor alegria e contou-me algumas de suas fascinantes histórias — sim, ele tinha domínio de Libras, isto fora uma surpresa imensurável. Acontece que o senhor tivera um filho surdo, no entanto, diferente de mim, o jovem perdera a audição quando criança por causa de uma infecção auricular bastante problemática — tanto ele quanto o pai são ventrais, devo dizer. Recebiam o tratamento adequado, todavia, houve uma negligência. O menino nadou no lago Vertor de Amorttam, por causa de um desafio de adolescentes irresponsáveis, isso complicou os resultados do tratamento. E mais, não contara sobre suas dores após o mergulho, pois temia que a revelação complicasse o problema no coração de seu pai. Pobre criatura. 

O pai, senhor Philiphi, tomou a decisão de ter sua comutação genética após o incidente, passou a odiar a morte. Além disso, entendeu que a medicina de Vonssihren jamais será realmente eficaz nos ventrais que não fazem a comutação. O filho, Domure era seu nome, falecera aos dezoito anos de idade. Que história, não é, minha querida? Não te entristeças, todavia, conto-te para compartilhar, em essência, o dom que Philiphi descobrira a posteriori, quando passou a dedicar-se ao que sempre amou: a arte. Não pôde trabalhar com ela antes, dada sua condição ventral. Meu amor, Philiphi está bem agora, a comutação lhe garantiu um ofício de marceneiro; tem ganhado uma Siremihta por semana! Nas horas vagas, cria essas pequenas maravilhas com flores e folhas desidratadas e aromantadas. Creio que apreciarás o artefato, é de uma delicadeza surreal e ficará belíssimo na porta de teu lar. 

Acabei por refletir sobre o assunto na cabana; nascido indheren, incapaz de ouvir mesmo tendo as perfeitas condições para; sem efeitos aos tratamentos biológicos de Vonssihren; parece-me que há mais na terra do que sonha nossas vãs sabedorias. A senhora de Philiphi, dama Naomi, acredita ser obra da “magia oculta” — eu não duvido, pois, soube recentemente de uma possível ancestralidade com uma família de lá. É intrigante. Não tema, contudo, minha querida; se for verossímil, serei nada além de uma vítima dos antepassados; há nada em meu sangue que pulse pelas terras anti-árticas. Sou sirehnian com honra e serei numnurian ao teu lado. Agora, devo ir, anoitece. O frio se aproxima para beijar o Natal, tal como quero beijar-te a fronte, minha pequena uva. Bons sonhos. Espera-me. 

Com amor, seu Niehr. 



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Uma História de Natal

Mariê Aloe despertara na aurora morna daquele verão recém-chegado; sentia-se enjoada e melancólica. Pousou suas mãos em alguns limões…

Mariê Aloe despertara na aurora morna daquele verão recém-chegado; sentia-se enjoada e melancólica. Pousou suas mãos em alguns limões, escolhendo o mais macio para espremer n’um copo d'água. Sentou-se enquanto degustava sua bebida gélida e observava, pela janela, o amanhecer e a brisa que fazia os trigos do jardim dançarem. Mariê sempre fora apaixonada por flores de trigo, em especial por aquelas, tão douradas e vívidas. Destacavam-se na imensidão. 

Após uma reflexão silenciosa, e por ter esgotado sua água por completo, levantou-se. Contudo, uma vertigem atingiu suas percepções, e ela temeu que estivesse doente. Aprontou-se e, antes do despertar de seu esposo, foi ao Lar de Dhera Nimare, pois precisava estar disposta para a ceia de Natal do dia seguinte — convidara tantas pessoas queridas e estava empolgada para fazer os seus pães doces com frutas cristalizadas. O futuro, todavia, nunca descansa sobre o leito da certeza. Mariê soube do que nunca esperava saber e retornou à sua casa trazendo no semblante um medo, uma estranheza, uma surpresa enraizada. 

Descansara, como orientado no Lar de Dhera Nimare; sua médica, por sorte, estava disponível naquela manhã. Mariê conseguiu fazer os pães, as geleias de mirtilo e cereja; as decorações com pinhas secas e azevinhos. Seu marido, Dom Ithar Aloe, cuidara, como sempre, de sua esposa, especialmente ao saber do pequeno mal-estar natinal. Mariê, porém, não lhe contou a verdade, queria revelar na hora certa, quando estivessem a sós, após a ceia em família, na calma do Natal, ao som do piano pelo arsmusian enquanto dançam lentamente. Era preciso cautela para anunciar uma situação tão delicada. 

Quando, por fim, o instante chegou, Mariê hesitou. Os olhos de Ithar eram dois lumes esmeraldinos. 
— Querido… — iniciou. Ele a fitava, atento como sempre fora. — És a luz dos meus dias, meu recanto seguro… — Ithar sorriu, amava ouvir as palavras doces de sua mulher. Lágrimas brotaram nos olhos de Mariê. — Há algo que preciso contar a ti, meu bem… — Seu esposo se preocupou. A verdade era só uma, e Ithar a ouviu com o coração apertado e exaltado. — Estou grávida, Ithar… de verdade… há um bebê em meu ventre… — Entre medo e alegria, o esposo de Mariê abraçou-a, acariciando seus cabelos. 

Não era fácil conceber um bebê ventral, tampouco cuidar de sua saúde e do seu bem-estar. A vida de um ser humano ventral era curta, mas, sendo Ithar e Mariê nascidos pelo método Indheren, jamais imaginavam ser possível a concepção natural. 
— Eu sei que ele será frágil, mas podemos levá-lo a Vonssihren, para a comutação genética em… — Mariê foi interrompida por um beijo. 
— Minha perfeição… ouça bem! Esta criança será saudável e feliz. Faremos tudo o que for preciso para que ela tenha uma vida longa e seja forte como nós somos… — Ithar acariciou a barriga de sua esposa. — Consigo entender por que alguns escolhem a vida ventral… sinto a energia da existência em ti, minha perfeição. Notei em teus olhos que algo mudara nos últimos dias… — Mariê sorriu, derramando-se em lágrimas. 
— Oh, meu querido… estou com medo… — sussurrou. 
— Não te preocupes, perfeição; estou e estarei ao teu lado sempre… Sempre… 

De fato, Ithar esteve ao lado de Mariê, nunca a deixou só, e aquele Natal mudou suas vidas, levando-os a ver as flores de trigo com mais sabedoria, entendendo o tempo que o tempo sopra em suas faces e, acima de tudo, o que o amor é capaz de fazer sobre todas as coisas. Mariê deu luz a um menino e uma menina, gêmeos univitelinos. As crianças passaram pela comutação genética aos dezoito anos e, em função disso, viveram cem anos mais do que o esperado para quem nasce de um ventre humano. 

Ithar e Mariê viram as crianças envelhecerem, viram-nas morrer naturalmente. Não tiveram outros filhos. Foram profundamente dedicados, por cento e setenta anos, aos gêmeos e, mesmo após a morte natural de Alegra e Felice, não viram razão para uma segunda gravidez e se recusaram a ter filhos pelo método Indheren. 
— Eu sentia-os em mim, Ithar… um vínculo inenarrável… não posso amar mais do que os amei... perdoa-me? Queria dar a ti todos os filhos que almejássemos, mas essa concepção ventral mudou algo em mim… — revelou. 
— E em mim também, minha perfeição. Estou contigo, concordo contigo. Guardaremos a eterna lembrança de nossas crianças e seguiremos sós, tu e eu, na longa vida que ainda nos resta. — Ithar soube acalmar o coração de Mariê. 

Os epitáfios dos gêmeos foram escolhidos por eles, um ano antes de falecerem. A morte natural permite a compreensão plena de sua chegada. Alegra teve dois meninos ventrais, não fez comutação genética em nenhum deles. Felice teve três filhos, duas meninas e um menino; igualmente, recusou-se a fazer a comutação genética. Somente o filho mais velho de Felice, ao atingir a maioridade, quis passar pelo procedimento. Os gêmeos faleceram em seus quartos, adormecidos, no dia de Natal. 

Epitáfios 

Alegra Aloe Nnae 
"Eu não odeio o tempo, eu o amo, pois ele me permitiu viver." 

Felice Aloe Mizzior 
"Tive de partir, mas deixei no mundo humano a minha verdade; que ela seja útil aos que ficaram." 

Escrito em 5 de dezembro de 2024  



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Pequenos Sinos

À noite, tilintam... | Entre a breve garoa; | E os brilhos longínquos, | Iguais se tilintam... | No firmamento sereno. | Tradições e esperanças: | Tesouros de vida,…

À noite, tilintam...
Entre a breve garoa;
E os brilhos longínquos,
Iguais se tilintam...
No firmamento sereno.
Tradições e esperanças:
Tesouros de vida,
Que assim fazem soá-la
Perenifólia,
Enquanto, o tempo,
N’ela, manso, tilinta.



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Nota Sobre a Caridade

A mais valiosa caridade está na abertura para a compreensão. Compreender seus…

A mais valiosa caridade está na abertura para a compreensão. Compreender seus semelhantes é um ato de caridade, poupar-lhes da amargura de não ser entendido, mostrar-lhes que há ouvidos dispostos e atentos para suas dores e amores; esta caridade ameniza a solidão em seus aspectos aflitivos e revigora o espírito.

A caridade da compreensão é sutil e não pode ser filmada, pois sua essência e eficácia só aflora no íntimo contato com sua abertura. Quando nos permitimos compreender o outro em seu ser mais autêntico, somos incapazes de ascender nosso ego acima disso. É o ego que quer mostrar ao mundo suas boas ações. A caridade da compreensão é a única forma de caridade que nos obriga a calar o ego.

Ser caridoso é uma construção intrínseca, enraizada, que dá origem a diversas folhas e flores, até que se torne uma árvore frutífera.



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Laços de Verão

Abraça-me que a chuva cai | Pacífica em gotinhas, vês? | Que a noite quente agora vai | Zelar por nós mais uma vez;…

Abraça-me que a chuva cai
Pacífica em gotinhas, vês?
Que a noite quente agora vai
Zelar por nós mais uma vez;

Presentes n’arvorinha e luzes
Regados por lembranças puras,
Livrando do pesar das cruzes,
Brindando a nós as grandes curas;

Noss’alma lacrimeja tanto
E os olhos vertem grand’encanto.
Aquieta-me na santa prece!

Sossega-te no afago calmo
Que canto, n’esta aurora, o salmo
Que guia e a paz tão mais floresce.



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Aconchego

Luzes quentes cintilam dentro de lares cujo amansar de dezembro sorri gentil. Há neve lá fora…

Luzes quentes cintilam dentro de lares cujo amansar de dezembro sorri gentil. Há neve lá fora, flocos lívidos tocam os rostos corados e frígidos. Nôe caminha com sua amada Lillra no entardecer pálido, ela guarda em sua feição uma alegria serena. Estão juntos, isso é o que há de mais valioso em suas vidas naquele instante. Seus passos são marcados na neve até que cheguem, enfim, em sua singela casa de madeira.

A ceia iniciaria em breve, por isso deixaram o aconchego das luzes e do fogo da lareira e seguiram sem pressa até o bosque para colher as cerejas mais perfeitas em frescor. Receberiam, também, familiares íntimos, eram poucos, porém, especiais. Avistaram, por sinal, seus pais a espera deles assim que se aproximaram, os casais carregavam duas candeias cada, pois o sol já se punha.

 — Deixe-nos ajudá-los com essas cestas — dissera Ordom, pai de Lillra. Ambos sorriam. Todos sorriam. O sorriso era o cumprimento, as boas-vindas. Amavam-se ainda mais quando o frio congelava os pés e, portanto, tinham de cobri-los com meias de lã. Amavam-se quando o cheiro de bolo de frutas amanteigado pairava no ar e as ameixas cristalizadas cobriam o manjar sobre a mesa. Abraçavam-se o tanto que não o puderam fazer no ano inteiro.

Aynile, mãe de Nôe, tocava com excelência o piano que fora herdado de seus pais e que, agora, foi passado à geração de Lillra — que não sabia tocar tão bem. Ao som suave e natalino, conversavam e cantava, sim, cantavam! Em coro e no balanço sutil da noite, a família libertava suas vozes graves e angelicais em um coral amável de hinos sobre amor e generosidade.

Não eram religiosos. Talvez, todavia, fossem. Mas, o que importava era o vínculo em vida, a vida perene que tinham; importavam as dádivas singelas que cultivavam. Dezembro era o mês que lhes servia como um retorno ao íntimo, reencontrando seus olhares infantis, porque na infância o valor da vida está tão somente no significado puro de viver. 

Por isso seus olhos brilhavam. Eram pequenas luzes aquecidas pelo amor.



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