Poesias, Sonuras, Sonuras Posteratas Sahra Melihssa Poesias, Sonuras, Sonuras Posteratas Sahra Melihssa

Saudade

Nos lagos da saudade há tenro orvalho | De lágrimas nativas do meu ser… | Oníricas venturas são-me atalhos | P’ra sôfrega distância combater…

Queridos leitores

Esta é a minha primeira Sonura Posterata. Com imenso carinho desejo que a leitura lhes seja aprazível e que a estreia da Póstera seja marcante. Sintam-na em seus significados mais intuitivos e que a saudade que grita em seus corações, possa se preencher de sentido durante a leitura.

Com ternura, Sahra Melihssa

Nos lagos da saudade há tenro orvalho
De lágrimas nativas do meu ser…
Oníricas venturas são-me atalhos
P’ra sôfrega distância combater…

Versículo d’ausência na escritura
Murmura-me as vis mágoas da lembrança,
Esculpo a fronte tua — em minh’agrura — 
No mármore de dor e temperança…

Clamando ao teu revir — rezo exaurida…
A dádiva que aos astros eu mendigo
Enquanto calcifico-te à mi’a vida…

Privei-me à calidez, meu frio jazigo
‘rrefece-me as artérias langorosas,
Que mórbida fortuna, assim danosa…
Empulha da paixão que em ti persigo…

Contudo é verossímil certo fado
De horror, temor — estranho e tão calado…
Quiçá me aquerencie ao mor perigo:
Perder-te para o tempo desalmado.



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A Vingança de Sophítria

Sou última nascida em sangue e cinzas | Carrego a carapaça de osso e fúria, | Amálgama d’outrora em boas-vindas | À Vila Séttimor em sua lamúria;…

Sou última nascida em sangue e cinzas
Carrego a carapaça de osso e fúria,
Amálgama d’outrora em boas-vindas
À Vila Séttimor em sua lamúria;

Queria eu me olvidar, mas a lembrança
É símbolo da vida atemporal,
Em todos cá resiste uma esperança
Que nunca sentirei assim, vestal...

As sete mortes sei que a mim virão
E tenho de o facínora encontrar,
Jamais eu lhe darei qualquer perdão!

Se vim à Séttimor com tal olhar
Cravado na memória, há um motivo...
Dos órgãos meus, perfume efusivo...
Naquele grã-Castelo há de habitar.



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Boldo

Translúcidas as flores espectrais | N’um rosa-gris perpétuo adamantino; | Mi’a lacrima é um orvalho-nunca-mais, | Deságua sob o manto vespertino...

Translúcidas as flores espectrais
N’um rosa-gris perpétuo adamantino;
Mi’a lacrima é um orvalho-nunca-mais,
Deságua sob o manto vespertino...

Memórias de raízes entranhadas
Em terras de umidade e gelidez...
Teu rosto uma mentira que me amarga,
Martírio do meu sonho — embriaguez;

Farol sem luz, ó ínsula dorida,
Pensei que, porventura, houvesse amor...
As nuvens trazem sombras já temidas...

Cai chuva ao rosto meu, feito em clamor;
Podia haver tentado que o jardim
Por nós sobrevivesse ao frio de mim,
Mas, dama... nada cura o dissabor...



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Sonura de Natal

Que sempre, se pudesse, aqui ficar | Os tempos tão felizes de Natal… | As luzes, os docinhos, o aquietar… | E todo o amor que surge cordial…

Que sempre, se pudesse, aqui ficar
Os tempos tão felizes de Natal…
As luzes, os docinhos, o aquietar…
E todo o amor que surge cordial…

Seria um doce sonho ao coração
Que hesita n’este mundo amargurado
E afaga-se em cuidado e mansidão
Mantendo-se em espera  —  imaculado…

Minh’alma tanto se é sentimental,
Pois chora no findar dos ventos tais
Rogando ser eterno o sazonal…

Mas sabe que o gengibre e as catedrais,
E as nozes mui crocantes, as cerejas…
E o amor, perdurarão — assim se enseja
No cerne, tal as frutas em cristais.



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Noite de Aniversário

Balão festivo, alegra o entardecer! | Refulge níveo e vai no sopro-vento; | Menina que o observa a perceber | Que o escuro vem estranho e nevoento…

Balão festivo, alegra o entardecer!
Refulge níveo e vai no sopro-vento;
Menina que o observa a perceber
Que o escuro vem estranho e nevoento…

É tarde, e labirinta-se a floresta!
Um breu de orvalho e morte foi criado…
Menina amedrontada, que lhe resta:
Voltar por onde lembra ter passado…

Tão fácil decisão, vês? — Entretanto
Que tolo pensamento ela tivera!
A face deformada ao seu espanto!

Medonho ente tão pútrido à sua espera…
Silente perseguia a moça, e então,
Foi visto, morbo-horror, assombração!
E o olhar de mil… mil jardas… concebera.



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O Teatro Perfeito

Perfeito, o Teatro — e nele a decadência | As máscaras são telas luminosas | Personas em suas tantas aparências | Roteiro de ventura confragosa;…

Perfeito, o Teatro — e nele a decadência
As máscaras são telas luminosas
Personas em suas tantas aparências
Roteiro de ventura confragosa;

Perfeito, o Teatro — e nele aplauso algum,
Cortinas fecharão só uma vez
E o peso do tecido em cada um
Trará o ato final da Morte à tez;

Perfeito, o Teatro — e nele a mentira
As máculas, as lágrimas em vão
E a busca por calar a eterna ira

Que emerge do Teatro ao coração
Somente pr’a verdade lancinante:
A peça e seus atores delirantes
Estão ao palco como a cova ao chão.



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Ouroboros

A névoa do passado é melancólica | Lembranças d’este outrora se dispersam: | O outono e sua Maçã tanto simbólica, | O inverno e a solitude que se versam…

A névoa do passado é melancólica
Lembranças d’este outrora se dispersam:
O outono e sua Maçã tanto simbólica,
O inverno e a solitude que se versam…

Não sei sobre o que espero das janelas,
Porém tanto observo que a neblina
Revela mais que o sopro à acesa vela
Da vida passadiça em sua rotina…

A carta que redijo ao meu futuro,
Os monstros da mi’a própria consciência,
O alívio de prazeres prematuros…

Percebo se tratar de condolência
À efêmera medula em sua verdade:
A bruma é uma espiral-infinidade
E estou fadada à eterna recorrência.



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Vivo por ela

Escrevo. Bem além do que ressinto | Ou sinto ou do que vejo. Muito mais. | Escrevo por questão da alma, do instinto, | Do sonho mais que as sombras factuais!

Escrevo. Bem além do que ressinto
Ou sinto ou do que vejo. Muito mais.
Escrevo por questão da alma, do instinto,
Do sonho mais que as sombras factuais!

Não tenho musa ou fé ou inspiração,
Escrevo em dor, talvez, por coisa alguma…
Preciso, e não há o luxo da omissão!
Escrevo à solidão que me acostuma;

É belo e, sobretudo, passarinho…
Às vezes voa às nuvens soldoradas
E, n’outras, preso em cárcere, sozinho.

Eu escrevo… e quando a morte inconsolada
Bater à porta d’esta alcova minha…
Com vasta calma irei-me à escrivaninha…
“Adeus” — escreverei — “muito obrigada”.



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Envolver

Desperta-me e se achega teso e arfante | No leito de paixão que nos pertence… | Atrita-se ao que a ti faz-se abundante, | Arqueio, pois tão fácil me convence…

Desperta-me e se achega teso e arfante
No leito de paixão que nos pertence…
Atrita-se ao que a ti faz-se abundante,
Arqueio, pois tão fácil me convence…

Envolve meu pescoço com tua mão…
Desliza, aperta firme mi’a cintura…
Desvia do caminho co’ambição
A peça fina e rubra em bel costura…

Encaixa… como sabe… devagar…
Sussurra-me a sentir-te bem profundo…
Prazer… mais, mais, assim… movimentar…

Um sopro de tão cálido segundo…
Meus olhos se abrem súbitos… faz frio…
É má tal solidão qual sou servil…
Um sonho que em volúpia é tão fecundo.



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Desvelo

Perfume de tez, tórrido desejo; | Teus olhos na penumbra mui silente… | Assim, tão devagar, bem forte almejo… | Murmuras rijo, amor, em mi’a torrente… 

Perfume de tez, tórrido desejo; 
Teus olhos na penumbra mui silente… 
Assim, tão devagar, bem forte almejo… 
Murmuras rijo, amor, em mi’a torrente… 

As mãos conduzem firmes… teu sadismo… 
Um sopro d’infinita alacridade… 
Sabeis qu’este meu ser, em fanatismo, 
Anseia teu domínio e bestidade… 

Porém, tão só, nos seios meus, amor… 
Tu vens sorver estranho à essência tua, 
Tão plácido em afagos pelo ardor… 

Comum ao teu dispor, eu sempre nua, 
Aguardo tua efígie de agressor… 
Sussurras a paixão, viril fervor… 
E todo o teu desvelo continua! 



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Mágoa

Jamais imaginei te carregar | Na forma e substância d’esta mágoa, | No peito que se assola por lembrar, | Rendido ao desalento e morto em frágua… 

Jamais imaginei te carregar 
Na forma e substância d’esta mágoa, 
No peito que se assola por lembrar, 
Rendido ao desalento e morto em frágua… 

Não mera, a solidão, vai torturando… 
De ti que outrora esteve aqui tão perto… 
Insisto em questionar, mas até quando? 
Os olhos teus na tela assolam certos… 

Tão certos d’esta tua indiferença, 
Afirmam-me teu riso sem saudade… 
Embriago-me da tua malquerença… 

No excesso a overdose que me invade… 
Teu jeito que desprezo, mas amei… 
Mi’a raiva qu’era chama… apaguei… 
Em cinzas fico sob a tua vaidade. 



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Vetiver

Fragrância em tua tez tanto me instiga, | Provoca-me o sorriso, m’entorpece… | Fleumático e febril, viril me intriga… | Estímulo notívago, me aquece… 

Fragrância em tua tez tanto me instiga, 
Provoca-me o sorriso, m’entorpece… 
Fleumático e febril, viril me intriga… 
Estímulo notívago, me aquece… 

Co’as mãos em teus cabelos gris, afago, 
Enlaço-te e ao teu peito, terno e quente, 
Repouso sob o aroma que naufrago 
Entoando amor em juras eloquentes; 

Diz sim, resvalo o toque e, vultuoso, 
 — Olência de avidez que ébria me faz —  
Permites prolongar, afetuoso, 

— Eflúvio de fascínio pertinaz… —  
Mantenho-me centrada à cinesia… 
Aguardo o éter puro d’ambrosia… 
Pupilas dilatadas… tão salaz… 



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A Bruxa e o Cadáver

— Levanta-te morbígero cadáver! | Teus olhos vítreos pálidos reluzem! | Odor de morte antiga que paláver | Sem verbo zumbi horrores que conduzem;…

Bruxa
— Levanta-te morbígero cadáver! 
Teus olhos vítreos pálidos reluzem! 
Odor de morte antiga que paláver 
Sem verbo zumbi horrores que conduzem; 

— Caminhe n’esta terra aromantada 
De lágrimas e sangue, a flor do mal 
Que brota putrefata e delicada 
Disposta a todo crime mais brutal! 

Cadáver
— Devolva-me à morte, bruxa amarga! 
Que vida humana alguma me apetece! 
Jurei beijar meus vermes, cá me larga! 

— Devoto sou ao crânio, pela prece, 
E à úmida madeira do caixão 
E à paz d’este meu hirto coração… 
A vida imunda, sei, não me merece. 



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Onirialgia

Estive no esplendor d’este lugar | N’algures dos meus sonhos mais serenos | Dormi nos girassóis, ouvi cantar | Os pássaros nas nuvens, contra o vento… 

Estive no esplendor d’este lugar 
N’algures dos meus sonhos mais serenos 
Dormi nos girassóis, ouvi cantar 
Os pássaros nas nuvens, contra o vento… 

Senti saudades… mesmo não vivendo… 
Sem nunca, pois, ter visto o entardecer, 
Clamei ao lusco-fusco, mas s’erguendo 
A noite em sua bel forma fez-me ver… 

Que é tudo um sonho lúcido da pena… 
A tinta que conduz toda uma imagem 
Dos tempos que amei, quando pequena, 

Recônditos profundos e miragens, 
E vivo p’ra trazê-los ao presente… 
Tão doces ilusões da minha mente… 
Longínquas e nostálgicas paisagens… 



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Delicaen

Pungentes os mundanos são à seda | Das pétalas do ser, que quebradiço, | Eu sou por ver-me sempre na vereda | D’um mundo belicoso e tão mortiço…

Pungentes os mundanos são à seda
Das pétalas do ser, que quebradiço,
Eu sou por ver-me sempre na vereda
D’um mundo belicoso e tão mortiço…

O orvalho é p’ra mim chuva profunda
Vertida do infinito celestino,
Portanto um bruto dito m’infecunda,
E o mau, qual for, lancina-me assassino…

Hostil é-me tal mundo e mui me sinto
Ser nada além d’um frágil beija-flor
Que voa, então, precípite ao destino

E teme as mãos humanas, pois há dor…
Fisgado pelo açúcar n’água fria…
Tão fácil pode ser, pela apatia,
Um alvo formidável do horror.



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Vehrvorus

Que fosses ente e crer-te eu sempre iria | No alvor rogar-te em puro amor vestal | Que fosses a Verdade, eu saberia…

Que fosses ente e crer-te eu sempre iria
No alvor rogar-te em puro amor vestal
Que fosses a Verdade, eu saberia
Honrar-te os mandamentos contra o mal;

Tivesses santo mármore esculpido
O qual ser tua imagem p'ra adorar
Pingente no meu peito protegido
Discípula em teu nome doutrinar;

Seria à tua palavra dedicada
Embora eu já o seja, equivalente
Seria esta lição me revelada?

A glória de teu Verbo onipresente
Dizendo “E sou, pois, Deus mesmo que só
No âmago que teu me encontro em nó;
Escreva, que este é Gênesis primente!
"



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Limbo

Circunda-me gris noite, estou tão só… | Por vezes dói, minh’alma s’esvazia | E lembro hei de tornar-me reles pó | Da vida cuja bruma é primazia…

Circunda-me gris noite, estou tão só…
Por vezes dói, minh’alma s’esvazia
E lembro hei de tornar-me reles pó
Da vida cuja bruma é primazia…

Pergunto-me se Deus… ou se o demônio…
Indago-me no afogo d’este mar
De pranto sorumbático e adônio…
Em salmos esta lira há de adentrar?

A voz d’onipotente nunca ouvi…
Dos seus rivais, decerto, muito menos!
Que doce fleuma mórbida — eu cri…

E crendo vi nobreza em tal veneno
Dos tantos em imagem-semelhança…
Um mundo tão cruel… desesperança…
Ausento-me em mim… limbo tão pleno…



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Demasiado Humano

Assim fragmentar-me e à tez sentir, | Aroma, calidez, silêncio a sós… | Desvelo uma clareira do existir | Às cordas d’este tempo em rijos nós…

Assim fragmentar-me e à tez sentir,
Aroma, calidez, silêncio a sós…
Desvelo uma clareira do existir
Às cordas d’este tempo em rijos nós…

A própria companhia que me tenho,
A lôbrega saudade sem porquê,
E mais, toda a memória que mantenho
Retida ao peito frágil — à mercê…

Tão íntimo, tão lânguido, tão meu…
As horas d’este outrora não vivido…
A espera, a fé tão núrida, o breu…

Amálgamas soturnos incendidos
Da gênese à tocante finitude;
Qu’estranha coisa, a vida, que amiúde,
Circunda-se em propósitos partidos.



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