Escrito por Sahra Melihssa
Aurollie e o Corvo
Aurollie está morta. Seu corpo esguio e pele seca, com rachaduras infindas que desvelam seu esqueleto putrefato; assim está, sob a luz d’uma noite cuja bioluminescência — reluzente, porém dessaturada — paira no denso e gélido ar. Aurollie está morta...
Escrito por Sahra Melihssa
Vantanúrida: Parte 1
Águas termais acolhiam-me pelo sutil aquecer. Minha cabeça estava apoiada em lanuvenis e aos meus ouvidos vinha o longínquo som de qued’orvalho. Meus olhos se abriram vagarosos e demorei a me acostumar com a luz...
Escrito por Sahra Melihssa
Fraghvora: Parte 2
— Uma fábula... fascinante. Um capítulo de fábula. Muitas contingências podem se desvelar à Dandeliz a partir deste ponto — proferira Daeron. Seus olhos de lua-nova rutilavam, esporadicamente, um lume argênteo sob a oscilante chama das velas no candelabro...
Escrito por Sahra Melihssa
Raro Azul
Anil do teu sorriso cristalino, | Um mar, que azul-mirtilo, me acalenta, | Minh’alma azulescida* em teu destino | É doce, pois te amar me fundamenta; | Cerúlea voz, a tua, cativante, | São índigos os lírios de teu ser…
Escrito por Sahra Melihssa
Suspeita
Estou-me à rede, calma, descansando… | O vento é-se regélido e assoviante | E vem só d'uma fresta se apossando | Da noite no horizonte vigilante; | Mi'as pálpebras pesadas cerram lentas | E abrindo-se parecem relutantes;...
Escrito por Sahra Melihssa
Pálida Seda: Parte 1
Um mórbido crocitar grotesco rompera minha plácida solidão. Meu torso fora tomado por súbita gelidez e espargia-se, no mesmo instante, certo tipo de som em baixa frequência como zumbido contínuo. Segurei minha adaga — foi meu único movimento possível...
Névoa profunda n’um jardim de flores em tons de rosa-empoeirado. Tulipas, girassóis, lírios e sempre-vivas — tudo rosê, como os olhos e os cabelos de Dandeliz…
No escritório, pedi para que Ehllenor deixasse-me a sós com Morgion, para que houvesse o sigilo correto que meu ofício exige. Ela titubeou, como imaginado…
Que sempre, se pudesse, aqui ficar | Os tempos tão felizes de Natal… | As luzes, os docinhos, o aquietar… | E todo o amor que surge cordial…
Caríssimo Dom Søren. No meu coração reside uma profundeza triste que, como uma tenra maré, movimenta-se em ondas frígidas sobre a areia mísera…
Balão festivo, alegra o entardecer! | Refulge níveo e vai no sopro-vento; | Menina que o observa a perceber | Que o escuro vem estranho e nevoento…
Vem, faça o que desejas me fazer… | Amor, quero sentir bem mais profundo… | Febril saliva, leva-me a tremer… | Tesão vertendo a cada um só segundo…
Magenta. Mil batidas imortais, | A música ressoando devagar | Enquanto os nossos corpos imorais | Transgridem a luxúria a se afogar;…
Caminhava nas ruas escuras de Verttica. Nenhuma luz natural... uma aurora sem pálido sol. O minimalismo geométrico da metrópole…
A clássica citação já nos acende o sentimento profundamente existencial que permeia a obra-mestra do grandioso Shakespeare — embora…
Perfeito, o Teatro — e nele a decadência | As máscaras são telas luminosas | Personas em suas tantas aparências | Roteiro de ventura confragosa;…
Ser soterrada por minha desumanidade fez emergir no meu peito um vazio inominável que despertou algo que outrora nunca houvera…
A névoa do passado é melancólica | Lembranças d’este outrora se dispersam: | O outono e sua Maçã tanto simbólica, | O inverno e a solitude que se versam…
Escrevo. Bem além do que ressinto | Ou sinto ou do que vejo. Muito mais. | Escrevo por questão da alma, do instinto, | Do sonho mais que as sombras factuais!
Estive no esplendor d’este lugar | N’algures dos meus sonhos mais serenos | Dormi nos girassóis, ouvi cantar | Os pássaros nas nuvens, contra o vento…
Pungentes os mundanos são à seda | Das pétalas do ser, que quebradiço, | Eu sou por ver-me sempre na vereda | D’um mundo belicoso e tão mortiço…
Que fosses ente e crer-te eu sempre iria | No alvor rogar-te em puro amor vestal | Que fosses a Verdade, eu saberia…
Circunda-me gris noite, estou tão só… | Por vezes dói, minh’alma s’esvazia | E lembro hei de tornar-me reles pó | Da vida cuja bruma é primazia…
Assim fragmentar-me e à tez sentir, | Aroma, calidez, silêncio a sós… | Desvelo uma clareira do existir | Às cordas d’este tempo em rijos nós…
Sussurros de uma antífona elegia percorriam aquelas terras intricadas. E, por trás deles, um som denso, contínuo e tátil arrastava-se como a nota grave…
A cristalina água corrente abluíra as provas de que aquilo não se tratou, tão somente, de uma manifestação…
Despertei assustada, sem razão, exceto por uma sensação de intenso temor. Sentei-me…
Dançava a Cisne Pálida, “coisa abominável e repugnante” — é o que diziam. Sauter, sauter, tourner, glisser; beleza e fascínio, como flor e como rio…