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Vinho & Ausência

Do vinho que deixaste na tua ausência | Recordo-me do gole, seco e rubro… | Da amarga nicotina em decadência | Do beijo que me deste em triste outubro… 

Do vinho que deixaste na tua ausência 
Recordo-me do gole, seco e rubro… 
Da amarga nicotina em decadência 
Do beijo que me deste em triste outubro… 

Perverso o teu olhar que a mim dardeja 
Deixaste vinho e ausência e, sobretudo, 
A morte que mui sei, tão ímpia almeja 
Cingir-se em mim na cama e no veludo… 

Por falta do teu toque amargurado, 
Na ausência que deixaste no meu vinho, 
Um gole, que me baste, aromantado 

Do sândalo —  almíscar — sal marinho 
Demais impregnado na saudade, 
Um roubo da mi’a pouca sanidade, 
Torturo-me a saber que estás sozinho… 



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Cruel Delírio

Que ardor… Cri na mendaz ilusão | Teus olhos negros na escuridão | Fisgados por entre…

Imagem criada por Sahra Melihssa

Que ardor… Cri na mendaz ilusão
Teus olhos negros na escuridão
Fisgados por entre meus vitrais
Sutil luzido sob céus astrais
Enquanto o sopro frio em tua feição
Na aragem de aspectos brumais
Aluíra-me o infeliz coração.

Fui dentre os pinheiros te buscar
Nas sombras tua voz grave a chamar
Meus pés descalços, e eu tão marfim,
Que espinhos emergiram sob mim
Num negro roseiral de agoniar
Deixei um rastro em sangue carmesim
Horrores vis verti em lacrimar.

Que pouco a pouco a morte fatal
Viera à minha solidão cabal
Caíra ao meu ruir, ó, tão silenciado
Que fim; que epílogo consumado!
Roguei fraca por tu’alma abissal
Tal como fiz à tua cova, amado…
Tal como fiz no rito à catedral.

Senti tua presença eterna em tez
Fitei o envolto turvo em frigidez
Havia da noite a treva somente.

Tal como tu eras, intransigente,
Ela urgia muda, um mal imanente
Eu sob seu manto em languidez.

N’aurora, pois, voltei à lucidez
Tu foste a ilusão, ó, tristemente,
E eu só queria amar-te a última vez.



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Nunca-estive

Vislumbro na evidência os teus olhos vazios pela infinitude ardente que carregam no silêncio. A beleza da tua máscara negra, os pés de teu eu de morada em meu ideal…

The Mask of Sanity - Ray Donley

Vislumbro na evidência os teus olhos vazios pela infinitude ardente que carregam no silêncio. A beleza da tua máscara negra, os pés de teu eu de morada em meu ideal — caminhando devagar sobre as reticências quais me pertencem. Ouço tua voz noturna e esqueço quem tu és para quebrantar o sopro do sonho ainda tão jovem… e quão bem realizado o sufocar até à morte do sonho impertinente; veste tu a máscara que te veste, de uma vez por todas! E assim adormeço serena à perfeição do adeus célere. Para o plano onírico, o verdadeiro fim; teu beijo enquanto repouso, teu vazio de nunca-estive no abrir de meus olhos cansados.

 
 
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Nihilen

Amor… guardarás algo dos momentos? | Das tenras amarguras que criamos | Às loucas vãs mentiras que contamos | Meu rosto trará amenos fragmentos?…

 

Stephen Mackey - Meniscus

 

Amor… guardarás algo dos momentos?
Das tenras amarguras que criamos
Às loucas vãs mentiras que contamos
Meu rosto trará amenos fragmentos?

Querido… vês o abismo melancólico?
O pranto rarefeito e tão contínuo?
Por quanto fingiremos o imo ingénuo
Temendo um só futuro não bucólico?

Já não sei o que te escrevo n’esta estrofe
E odeio tua falsa e vítrea apóstrofe
Ao meu discurso fraco, inexistente…

Do vinho o sangue cálido te escarra!
Do escarro o vinho cálido se esbarra
No oculto verso, um grito inconsciente.

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Enquanto Dormes

A morada do austero pranto \ é o desaguar que recidivo | indaga-te pravo e ablativo: | “Vais desejá-la se a água-manto | cobri-la o rosto em pálida ternura?…

 

Le Buveur d'absinthe  -   Edouard Manet -  cerca de 1859

 

A morada do austero pranto
é o desaguar que recidivo
indaga-te pravo e ablativo:
“Vais desejá-la se a água-manto
cobri-la o rosto em pálida ternura?
Hás de vestir tua lúbrica bravura
no jazer da flor de teu encanto?”
Sim, que o residir do vil lamento
frente à omissão em pigmento
é a mancha do imo-amianto
que planeias dar à combustão
sepultando, em úmido chão,
um sentimento sacrossanto.

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