A Guirlanda do Artesão
Querida Lilaen, o mundo silente convida-me ao infinito dos teus olhos. Embora eu não possa ouvir tua voz, sei que ela é doce como mel…
de Niehr Veritch para Lilaen Gohs
Querida Lilaen, o mundo silente convida-me ao infinito dos teus olhos. Embora eu não possa ouvir tua voz, sei que ela é doce como mel. Que o presente que te envio seja protegido pelas tuas afáveis mãos até que minha chegada, no Natal, possa aquecê-las suavemente. Escrevo-te por saudades, mais do que isso, escrevo-te por amor. Sabes que se eu pudesse escolher algo para ouvir uma única vez, seria a tua risada que pelo teu semblante já me convida ao perene gáudio. Vi que teus estudos de Libras estão avançados, nunca tamanha dedicação recebi de uma mulher, decerto que tu estavas destinada a viver em meu coração solitário. Guiar-te-ei pelo período em que estiver em Numnura, prometo; para que possas conversar comigo secretamente. Ser-me-á agradável ver o movimento dócil de tuas mãos e o que elas me revelarão no amanhecer.
Note que o que te envio é uma Guirlanda, todavia, não uma qualquer; a comprei n’uma singela cabana cujo artesão, dedicado, recebeu-me em mor alegria e contou-me algumas de suas fascinantes histórias — sim, ele tinha domínio de Libras, isto fora uma surpresa imensurável. Acontece que o senhor tivera um filho surdo, no entanto, diferente de mim, o jovem perdera a audição quando criança por causa de uma infecção auricular bastante problemática — tanto ele quanto o pai são ventrais, devo dizer. Recebiam o tratamento adequado, todavia, houve uma negligência. O menino nadou no lago Vertor de Amorttam, por causa de um desafio de adolescentes irresponsáveis, isso complicou os resultados do tratamento. E mais, não contara sobre suas dores após o mergulho, pois temia que a revelação complicasse o problema no coração de seu pai. Pobre criatura.
O pai, senhor Philiphi, tomou a decisão de ter sua comutação genética após o incidente, passou a odiar a morte. Além disso, entendeu que a medicina de Vonssihren jamais será realmente eficaz nos ventrais que não fazem a comutação. O filho, Domure era seu nome, falecera aos dezoito anos de idade. Que história, não é, minha querida? Não te entristeças, todavia, conto-te para compartilhar, em essência, o dom que Philiphi descobrira a posteriori, quando passou a dedicar-se ao que sempre amou: a arte. Não pôde trabalhar com ela antes, dada sua condição ventral. Meu amor, Philiphi está bem agora, a comutação lhe garantiu um ofício de marceneiro; tem ganhado uma Siremihta por semana! Nas horas vagas, cria essas pequenas maravilhas com flores e folhas desidratadas e aromantadas. Creio que apreciarás o artefato, é de uma delicadeza surreal e ficará belíssimo na porta de teu lar.
Acabei por refletir sobre o assunto na cabana; nascido indheren, incapaz de ouvir mesmo tendo as perfeitas condições para; sem efeitos aos tratamentos biológicos de Vonssihren; parece-me que há mais na terra do que sonha nossas vãs sabedorias. A senhora de Philiphi, dama Naomi, acredita ser obra da “magia oculta” — eu não duvido, pois, soube recentemente de uma possível ancestralidade com uma família de lá. É intrigante. Não tema, contudo, minha querida; se for verossímil, serei nada além de uma vítima dos antepassados; há nada em meu sangue que pulse pelas terras anti-árticas. Sou sirehnian com honra e serei numnurian ao teu lado. Agora, devo ir, anoitece. O frio se aproxima para beijar o Natal, tal como quero beijar-te a fronte, minha pequena uva. Bons sonhos. Espera-me.
Com amor, seu Niehr.
Uma História de Natal
Mariê Aloe despertara na aurora morna daquele verão recém-chegado; sentia-se enjoada e melancólica. Pousou suas mãos em alguns limões…
Mariê Aloe despertara na aurora morna daquele verão recém-chegado; sentia-se enjoada e melancólica. Pousou suas mãos em alguns limões, escolhendo o mais macio para espremer n’um copo d'água. Sentou-se enquanto degustava sua bebida gélida e observava, pela janela, o amanhecer e a brisa que fazia os trigos do jardim dançarem. Mariê sempre fora apaixonada por flores de trigo, em especial por aquelas, tão douradas e vívidas. Destacavam-se na imensidão.
Após uma reflexão silenciosa, e por ter esgotado sua água por completo, levantou-se. Contudo, uma vertigem atingiu suas percepções, e ela temeu que estivesse doente. Aprontou-se e, antes do despertar de seu esposo, foi ao Lar de Dhera Nimare, pois precisava estar disposta para a ceia de Natal do dia seguinte — convidara tantas pessoas queridas e estava empolgada para fazer os seus pães doces com frutas cristalizadas. O futuro, todavia, nunca descansa sobre o leito da certeza. Mariê soube do que nunca esperava saber e retornou à sua casa trazendo no semblante um medo, uma estranheza, uma surpresa enraizada.
Descansara, como orientado no Lar de Dhera Nimare; sua médica, por sorte, estava disponível naquela manhã. Mariê conseguiu fazer os pães, as geleias de mirtilo e cereja; as decorações com pinhas secas e azevinhos. Seu marido, Dom Ithar Aloe, cuidara, como sempre, de sua esposa, especialmente ao saber do pequeno mal-estar natinal. Mariê, porém, não lhe contou a verdade, queria revelar na hora certa, quando estivessem a sós, após a ceia em família, na calma do Natal, ao som do piano pelo arsmusian enquanto dançam lentamente. Era preciso cautela para anunciar uma situação tão delicada.
Quando, por fim, o instante chegou, Mariê hesitou. Os olhos de Ithar eram dois lumes esmeraldinos.
— Querido… — iniciou. Ele a fitava, atento como sempre fora. — És a luz dos meus dias, meu recanto seguro… — Ithar sorriu, amava ouvir as palavras doces de sua mulher. Lágrimas brotaram nos olhos de Mariê. — Há algo que preciso contar a ti, meu bem… — Seu esposo se preocupou. A verdade era só uma, e Ithar a ouviu com o coração apertado e exaltado. — Estou grávida, Ithar… de verdade… há um bebê em meu ventre… — Entre medo e alegria, o esposo de Mariê abraçou-a, acariciando seus cabelos.
Não era fácil conceber um bebê ventral, tampouco cuidar de sua saúde e do seu bem-estar. A vida de um ser humano ventral era curta, mas, sendo Ithar e Mariê nascidos pelo método Indheren, jamais imaginavam ser possível a concepção natural.
— Eu sei que ele será frágil, mas podemos levá-lo a Vonssihren, para a comutação genética em… — Mariê foi interrompida por um beijo.
— Minha perfeição… ouça bem! Esta criança será saudável e feliz. Faremos tudo o que for preciso para que ela tenha uma vida longa e seja forte como nós somos… — Ithar acariciou a barriga de sua esposa. — Consigo entender por que alguns escolhem a vida ventral… sinto a energia da existência em ti, minha perfeição. Notei em teus olhos que algo mudara nos últimos dias… — Mariê sorriu, derramando-se em lágrimas.
— Oh, meu querido… estou com medo… — sussurrou.
— Não te preocupes, perfeição; estou e estarei ao teu lado sempre… Sempre…
De fato, Ithar esteve ao lado de Mariê, nunca a deixou só, e aquele Natal mudou suas vidas, levando-os a ver as flores de trigo com mais sabedoria, entendendo o tempo que o tempo sopra em suas faces e, acima de tudo, o que o amor é capaz de fazer sobre todas as coisas. Mariê deu luz a um menino e uma menina, gêmeos univitelinos. As crianças passaram pela comutação genética aos dezoito anos e, em função disso, viveram cem anos mais do que o esperado para quem nasce de um ventre humano.
Ithar e Mariê viram as crianças envelhecerem, viram-nas morrer naturalmente. Não tiveram outros filhos. Foram profundamente dedicados, por cento e setenta anos, aos gêmeos e, mesmo após a morte natural de Alegra e Felice, não viram razão para uma segunda gravidez e se recusaram a ter filhos pelo método Indheren.
— Eu sentia-os em mim, Ithar… um vínculo inenarrável… não posso amar mais do que os amei... perdoa-me? Queria dar a ti todos os filhos que almejássemos, mas essa concepção ventral mudou algo em mim… — revelou.
— E em mim também, minha perfeição. Estou contigo, concordo contigo. Guardaremos a eterna lembrança de nossas crianças e seguiremos sós, tu e eu, na longa vida que ainda nos resta. — Ithar soube acalmar o coração de Mariê.
Os epitáfios dos gêmeos foram escolhidos por eles, um ano antes de falecerem. A morte natural permite a compreensão plena de sua chegada. Alegra teve dois meninos ventrais, não fez comutação genética em nenhum deles. Felice teve três filhos, duas meninas e um menino; igualmente, recusou-se a fazer a comutação genética. Somente o filho mais velho de Felice, ao atingir a maioridade, quis passar pelo procedimento. Os gêmeos faleceram em seus quartos, adormecidos, no dia de Natal.
Epitáfios
Alegra Aloe Nnae
"Eu não odeio o tempo, eu o amo, pois ele me permitiu viver."
Felice Aloe Mizzior
"Tive de partir, mas deixei no mundo humano a minha verdade; que ela seja útil aos que ficaram."
Escrito em 5 de dezembro de 2024
O Restaurador de Livros
Sorinne, apressada, adentrou a biblioteca pensativa; não queria ter assustado sua adorável…
Sorinne, apressada, adentrou a biblioteca pensativa; não queria ter assustado sua adorável amiga Anne e até tentou retornar ao quarto dela para se desculpar, mas Anne já havia partido. Sorinne temia estar imersa em tristes desesperanças que ressoavam amargamente por cada uma de suas falas. Então, respirou fundo por causa da sensação infeliz e voltou-se ao centro do ambiente, avistou um homem. As costas dele eram largas, vestia-se elegante, parecia atento às escrituras d'algum livro já debilitado. Sorinne não se lembrava de ter avistado aquelas costas, não pareciam familiar, então aproximou-se. Bisbilhotou. Mãos viris e grandes foram distinguidas segurando uma agulha e fios de linha. No rosto do forasteiro um tipo específico de monóculo com três lentes espessas, as quais facilmente se intercalavam por meio de uma mecânica inovadora. De súbito, o homem viu Sorinne que, até então, fora profundamente furtiva; o susto tênue fez com que a agulha furasse seu dedo e Sorinne, prestativa, não conseguia parar de pedir-lhe desculpas enquanto buscava fiapos de tecido para envolver o ferimento.
— Não te preocupas, está tudo bem, veja, um sangue de nada. Há de cicatrizar antes mesmo que voltes com um curativo.
— Perdoe-me, senhor, estava eu tão curiosa para saber o que tu fazias com este exemplar e, por estares concentrado, hesitei em interrompê-lo. — Fitzwilliam sorriu.
— Como uma Dama profundamente instruída, temeste que eu o estivesse ferindo? — As palavras do Dom trouxeram um natural e límpido semblante feliz à Sorinne.
— De certa forma… O que o senhor fazia?
— Estou restaurando-o. Veja, a capa soltou-se e as primeiras páginas estão inseguras. Com esta agulha curva e mais a linha adequada, costuro e fortifico o exemplar. — Sorinne observava com atenção e fascínio. Fitzwilliam demonstrava seus movimentos delicados, ensinando-a cada um dos passos que fazia para criar os minúsculos nós.
— Ó! Tão belo… quão delicado! Um trabalho de grande valor, senhor. — Fitzwilliam deixou suas ferramentas de lado, tirou seu monóculo, limpou suas mãos com um pouco de álcool de seu pequeno frasco ao lado da pilha de livros e estendeu, em cumprimento, sua mão direita.
— Sou Fitzwilliam Learvhen — Sorinne tocou a mão de Fitzwilliam e ele beijou o dorso da mão dela.
— Muito prazer, senhor Learvhen. Eu sou Sorinne von Phennen.
— Por favor, apenas Fitzwilliam. Decerto que o prazer é meu, senhorita Sorinne, se assim posso chamar-te. — Sorinne enrubesceu.
— Claro que podes. Vais restaurar toda esta pilha?
— Aqui não. Levarei alguns para meu ateliê a pedido de Dom Vonssihren.
— Há um exemplar de um romance que tenho grande paixão, ele está tão destruído. Posso mostrar-te?
— Decerto que sim! — Sorinne caminhou lentamente até a mais distante das estantes, Fitzwilliam a seguiu. Olhando ao redor não pôde encontrar a escada para que pudesse subir às prateleiras mais altas.
— Está ali, mas, não alcanço. — Fitzwilliam esticou seu braço, sua estatura era suficiente para alcançar o objeto, mas para isso, dado o espaço em que estavam, teve de inclinar-se mais do que devia sobre o corpo de Sorinne. Os segundos que se sucederam causaram, aos dois, grande calidez; a aproximação permitiu-lhes sentir seus perfumes entrelaçados sobre a atmosfera silenciosa, além disso, o toque, a sutil pressão de Fitzwilliam sobre Sorinne de imediato ruborizou-lhes as faces. Com o exemplar em mãos, o senhor Learvhen afastou-se cauteloso.
— Aqui... está… — ele disse olhando diretamente aos olhos negros de Sorinne. Ela sentiu-se envergonhada, principalmente porque estava atraída pelo restaurador de livros, algo que há tempos não sentia. — Bem… a capa está bem desgastada… — continuou Fitzwilliam na tentativa de desviar-se da admiração constante que dedicava ao rosto da donzela. — Muitas folhas soltas e… que doloroso! Alguns rasgos entre páginas… — Fitzwilliam analisava com zelo e não deixou de perceber que se tratava de um romance clássico.
— Ganhei quando jovem, eu estava com quinze anos. Faz um tempo… — Sorinne abraçou-se num tênue gesto de carinho a si mesma — Era de minha mãe… Já li tantas vezes… contudo há tempos receio de tocá-lo, está tão sensível. Precisa de atenção. Quanto ficaria para consertá-lo, senhor Fitzwilliam? — Ele a olhou atento.
— Será um presente a uma dama tão delicada e gentil. Levarei junto com os demais e trarei assim que possível.
— Não posso aceitar, é o teu trabalho e merece todo o reconhecimento.
— Então dê-me um entardecer de outono, o que achas? Junto com uma conversa agradável nos bosques. De maneira alguma te cobrarei quaisquer quartzos por este serviço, o farei com o coração aberto e… — Fitzwilliam hesitou — Pulsante… — Seu tom de voz diminuiu, como se buscasse confidenciar algo. Sorinne tremeu ao ouvir as palavras que, embora inócuas e desprovidas de quaisquer intensões sombrias, traziam à tona a reciprocidade do desejo. Admiraram-se em silêncio e calor por átimos se segundos infinitos até que o som da grave voz de Dom Vonssihren os retirasse da aprazível aproximação. Ambos caminharam até o centro da biblioteca outra vez.
Para Sorinne as excitações tão inocentes que emergiram vívidas em sua alma muito se assemelhavam às sensações dos livros restaurados que, com esmero, eram manuseados e curados para reviverem e, com isso, oferecerem a um leitor, outra vez, o melhor que possuem em si. Ao despedirem-se, Sorinne não hesitou em reforçar sua admiração: “Todo o apuro que dedicas aos livros é algo de digníssimo valor!” — Fitzwilliam sentiu-se lisongeado e manteve seus olhos atentos aos lábios de Sorinne: “Tenho o mesmo afeto e diligência com tudo o que minhas mãos tocam, senhorita” — Revelou. Sorinne saudou-o enquanto sentia o encanto, o arrepio e a paixão que nascia ávida pela vida, assim como uma flor pelo sol, etérea e orvalhando em perpétuo contentamento.
Rosas
— Por que rosas? — Indagou Lord Mauror. Aruahlis caminhava devagar pelo jardim enquanto tocava com ternura as pétalas…
— Por que rosas? — Indagou Lord Mauror. Aruahlis caminhava devagar pelo jardim enquanto tocava com ternura as pétalas das rosas silvestres. Ela gostaria de explicar ao Lord que aquelas flores lhe traziam um conforto inenarrável, que às noites de setembro, quando maior era o desabrochar daquela espécie, Aruahlis colhia algumas para amolgar até tornarem-se uma pasta pigmentada com óleo natural e, então, ela dispunha tal substância em telas de linho puro formando assim pinturas fascinantes e monocromáticas. No entanto, frente àquele que lhe despertava tanto amor, ela pouco conseguia expressar o que almejava. Mauror, por sua vez, buscava desvelar a essência de sua amada pouco a pouco e se fascinava com o enrubescer do rosto de Aruahlis sempre que se aproximavam.
— Veja, eu trouxe algo. — Aruahlis parou seus curtos passos e fitou as mãos do Lord que estava logo atrás. Nelas havia o que parecia ser sementes. Olharam-se nos olhos em seguida. — Outra espécie que convive muito bem com esta. Plante e descobrirá sua cor. — Explicou ele. Aruahlis sorriu encantada e pegou suavemente as sementes das mãos de Mauror. As mãos tocadas eram como o infinito perfeito.
— Há nenhum presente mais belo que este — sussurrou — e jamais esquecerei de teu gesto, Lord Mauror. — Seguraram as mãos com mais calor.
— Dar-te-ei o jardim mais valioso, com todas as espécies, e tu, como flor mais rara, zelará por todas elas com ternura. A tua ternura que me encanta. — Sussurrou Mauror e, no mesmo instante, ele viu o lacrimar dos olhos de sua amada.
Aconchego
Luzes quentes cintilam dentro de lares cujo amansar de dezembro sorri gentil. Há neve lá fora…
Luzes quentes cintilam dentro de lares cujo amansar de dezembro sorri gentil. Há neve lá fora, flocos lívidos tocam os rostos corados e frígidos. Nôe caminha com sua amada Lillra no entardecer pálido, ela guarda em sua feição uma alegria serena. Estão juntos, isso é o que há de mais valioso em suas vidas naquele instante. Seus passos são marcados na neve até que cheguem, enfim, em sua singela casa de madeira.
A ceia iniciaria em breve, por isso deixaram o aconchego das luzes e do fogo da lareira e seguiram sem pressa até o bosque para colher as cerejas mais perfeitas em frescor. Receberiam, também, familiares íntimos, eram poucos, porém, especiais. Avistaram, por sinal, seus pais a espera deles assim que se aproximaram, os casais carregavam duas candeias cada, pois o sol já se punha.
— Deixe-nos ajudá-los com essas cestas — dissera Ordom, pai de Lillra. Ambos sorriam. Todos sorriam. O sorriso era o cumprimento, as boas-vindas. Amavam-se ainda mais quando o frio congelava os pés e, portanto, tinham de cobri-los com meias de lã. Amavam-se quando o cheiro de bolo de frutas amanteigado pairava no ar e as ameixas cristalizadas cobriam o manjar sobre a mesa. Abraçavam-se o tanto que não o puderam fazer no ano inteiro.
Aynile, mãe de Nôe, tocava com excelência o piano que fora herdado de seus pais e que, agora, foi passado à geração de Lillra — que não sabia tocar tão bem. Ao som suave e natalino, conversavam e cantava, sim, cantavam! Em coro e no balanço sutil da noite, a família libertava suas vozes graves e angelicais em um coral amável de hinos sobre amor e generosidade.
Não eram religiosos. Talvez, todavia, fossem. Mas, o que importava era o vínculo em vida, a vida perene que tinham; importavam as dádivas singelas que cultivavam. Dezembro era o mês que lhes servia como um retorno ao íntimo, reencontrando seus olhares infantis, porque na infância o valor da vida está tão somente no significado puro de viver.
Por isso seus olhos brilhavam. Eram pequenas luzes aquecidas pelo amor.
Sonetos e Amores - Sorinne
Sorinne era, de fato, apaixonada por flores quentes, em especiais as vermelhas, no entanto, ela raramente as via no jardim, pois preferia ficar continuamente dentro do castelo…
The Love Letter (ca 1870) - Petrus van Schendel (Dutch, 1806-1870)
Sorinne era, de fato, apaixonada por flores quentes, em especiais as vermelhas, no entanto, ela raramente as via no jardim, pois preferia ficar continuamente dentro do castelo de Von Sirehn peregrinando nos corredores, sempre com um livro em mãos. Sorinne considerava o mundo hostil, e de fato era; lembrava-se sempre de um antigo amor que durara tão pouco, menos do que todo o verão; ele a prometia cartas de amor, vínculos inefáveis e carinho, mas jamais escreveu, jamais doou-se de coração à reciprocidade. O mais amargo deste romance era o fato de que o rapaz, lembre-se dele como F., adentrou a vida de Sorinne em tempos de felicidade e plenitude, e saiu em tempos de tempestade e solidão. F., na verdade, trouxera toda a languidez e até hoje, cinco anos depois, Sorinne permanece em sua própria companhia e recorda com frequência das palavras de Lord Von Sirehn: “Os homens, minha querida Sorinne, se aproximam das mulheres mais felizes, pois estas são as mais belas. Todo o cuidado é precioso, contudo, pois, eles tendem a destruir a beleza por causa da ausência de tato advinda de suas amarguras viris. Não são todos, é verdade, mas repare bem se F. é mesmo uma exceção”. F. não era uma exceção e Sorinne esperava, de coração, que um dia ele fosse.
— Anne? O que está fazendo? — questionou Sorinne ao passar lentamente pela porta do quarto de Anne e percebê-la, de soslaio, concentrada em redigir sobre alguns papéis. Anne não olhou para Sorinne.
— Escrevendo uma carta para Ewen, adicionando alguns de meus sonetos — ela respondeu, concentrada.
— Para quê perder tempo com isso? Homens não leem sonetos, quero dizer, no início eles leem, mas depois que casar-se contigo, há de perder totalmente o interesse. É um artifício para te conquistar — proferiu Sorinne com profunda amargura, embora seu tom fosse divertido para Anne que sorriu e olhou sua amiga encostada à porta, abraçada a um livro.
— Acho que tu tens razão, mas não me importo muito. Amar um homem requer abrir mão de algumas coisas para poder ter outras — respondeu astuta. Sorinne movimentou seus ombros expressando desdém.
— Pois eu me recuso! Não me contento com pouco!
— É… Sori… Estou vendo… — julgou cuidadosamente.
— “Estou vendo” — Sorinne a imitou e trouxe sorrisos à Anne outra vez — Tu te lembrarás dessa conversa quando notar que teu futuro despe mais teu corpo do que tua alma! — Sorinne voltou à caminhada e Anne adicionou um novo parágrafo à carta que escrevia para Ewen: “Querido Ewen, a alma é mais valiosa que o corpo e, daqui há alguns anos, espero que te lembres disto”.
O Diário de Laurien
Esfriara. Minha pele está mais nívea e meu rosto mais magro. Estou esquálida de espírito e, de tanta imersão na mediocridade, estou desabitada;…
James Jebusa Shannon - Lady Marjorie Manners (1900)
Esfriara. Minha pele está mais nívea e meu rosto mais magro. Estou esquálida de espírito e, de tanta imersão na mediocridade, estou desabitada; minha energia tornou-se vapor cinéreo contornando o nadificante vazio do abismo do mundo humano. Não há quem possa me encontrar no breu imortal de meu ser, tampouco na cálida algidez de minha mente; intriga-me que me vejam e que gerem sobre mim imagéticas compreensões jamais assentadas sobre o fenômeno mesmo — o fenômeno mesmo que eu sou. Eu nada espero do mundo, porque reconheço a sua desordem abundante e a sua fome e sede por olhos, olhos que podem ver como os meus veem, olhos quais ninguém, um dia, foi capaz de realmente fitar.
A melancolia é meu recôndito, e há de sempre ser, pois que o é a cada dia mais e a cada noite ela se desvela outra vez dentro de meu pranto imanente. Noite… A noite é o deus que cultuo e, quando de frente à sua esplendorosa glória sou posta a louvá-lo através da poética mais ingênua que meu peito comporta, reconheço o porque de minha misantropia; é graça que todos se denominem relutantes ao afeto humano, ao vínculo, ao encontro; todavia no cerne da suma maioria o que reside é, tão somente, a saudade; já em mim, nem saudade, nem paixão, nem loucura. À serenidade da solidão, meu próximo gole de sangue; à razoabilidade dos homens, meu próximo escarro negrume. Enquanto os observo sinto a aragem do desabrigo, a natureza não é capaz de julgar, então recorro à sua imensidão, minhas pálpebras se fecham e eu durmo no sorrir tênue do amanhecer.
Aesir
Uma lânguida tristura penetrou-me o âmago e minhas lágrimas nasceram como orvalho da manhã. Eu estava preenchida pelo vazio de modo que toda a extensão…
The Maiden’s Lament - Horace Vernet (1789-1863)
Uma lânguida tristura penetrou-me o âmago e minhas lágrimas nasceram como orvalho da manhã. Eu estava preenchida pelo vazio de modo que toda a extensão abíssica que o comporta fazia completo sentido em minha alma. E aquele ser continuava a olhar-me com seu lúrido semblante tumular. Eu soube, pouco antes, das consequências quais se desvelavam naquele atormentador momento, no entanto custei a acreditar até vivenciá-los, pois que qualquer sã criatura hesitaria assim como eu hesitei e, decerto, na mais pura consciência, qualquer um desconfiaria de sua própria sanidade tal como eu desconfiei no prelúdio de todas as coisas. Mas ali, sendo fitada profundamente por aquelas órbitas solitárias, já não cabia em meu peito quaisquer desconfianças, restava tão somente o vínculo ao desalento.
Devo dizer que ainda não manejo as palavras tal como sei que o farei nas próximas décadas; no entanto há sede e vazio, e as palavras possuem a razão elementar que me permite lembrar o sentido etéreo de minha escolha. A minha escolha; aquela que, por Amor, resistiu a todo o sangue e toda a agonia. Fui guiada por minha intuição desde que Aesir pousara em um dos balaústres, na varanda. Era três horas da manhã. O vi majestoso, de soslaio, imediatamente levantei-me para contemplá-lo de perto. Tratava-se de um pássaro corvino cujas penas possuíam tons violáceos, embora, predominantemente, negros. Seus olhos também eram púrpura e detinham uma reluzente constituição símil às chamas de um tipo de fogo obscuro e cósmico. Fitei-o através da porta, pelo vidro. Tive receio, por segundos, diante a magnitude da ave.
“Olá” — sussurrei ao abrir a porta, um sopro taciturno adentrou a fresta e invadiu-me o corpo como se fosse uma aura — e de fato era, mas eu não sabia. Senti frio e angústia, abracei meus braços em busca de calidez e mirei os detalhes da criatura à minha frente. O pássaro era mais belo do que previsto, suas penas possuíam ornamentos reluzentes em um tipo de cor metálica-violeta e o bico era negro, de ponta afilada, perigosa e, talvez, fatal. Sentei-me à porta após buscar, devagar, a cadeira da escrivaninha. A porta de vidro permaneceu semiaberta, pois diante os detalhes que apreendi, temi um pouco mais, temi que seu acúleo penetrasse meu órgão vital, deste modo não deixei que o espaço fosse suficientemente vasto para que ele pudesse entrar. Era tão belo, tão estranhamente melancólico, não quis deixar de fitá-lo mesmo temerosa.
“De onde é essa ave?” — pensei. “Parece um tipo de criatura dos sonhos, fantástica, irreal”. A ave parecia serena, seus movimentos eram tão venustos quanto sua aparência. “Agora não estou tão só” — proferi à ave. “Aqui, às vezes, é solitário; não é como se a solidão me perturbasse, mas você, como uma ave solitária tal como me parece ser, entende que, às vezes, faz falta…” — eu disse. Não há razões para eu ter começado um diálogo com aquela criatura, tratava-se de um pássaro, um tanto místico, eu sei, mas ainda assim era um pássaro; eu de fato sentia a solidão e a falta, a ausência corria em meus pulmões e, por vezes, devorava minha energia. Eu recebia visitas semanais e mensais de alguns familiares e amigos, nutríamos uma relação amistosa; ainda assim eu apenas não pertencia. Não havia encaixe e conforto ao lado daqueles quais me criaram e me educaram durante tantos anos; muito menos daqueles quais conheci no decorrer de meu amadurecimento. Todos eram estranhos e eu me sentia, a cada anfemeridade, mais alheia e indiferente e todos eles.
Meu adorável pai com seu austero semblante, era fraco; tão fraco. Seus traumas o faziam, tão somente, um homem comum cuja autoestima se imergia na ilusão de unicidade; minha mãe, tão amável, imersa em fantasmas cujos horrores a faziam morrer em si mesma, dia após dia. Ambos viam-me como um espelho, transformavam-me em si mesmos e, cada palavra a meu respeito que eu lhes direcionava, voltava para mim como sendo propriedade deles, acerca deles, nunca de mim. E o que posso falar sobre meus irmãos e tios e tias e avós? Todos são como fiéis carvalhos, enraizados no pântano de seus entraves e quimeras. Não se diferem de meus colegas e amigos, os quais vivem sedentos de compensação da vida adulta medíocre que são obrigados a levar. “Devo escolher um nome para você, não é?” — falei ao pássaro após um mergulho prolongado em meus reclusos pensamentos. “É isso que fazem os humanos, nomeiam os entes do mundo, coisas e criaturas” — expliquei e suspirei pela atmosfera ainda tão consternada. “Aesir…” — revelei. “É um nome com sonoridade interessante, não acha?” — mais um suspiro. “É isso… Aesir… Este será o seu nome agora”. Levantei-me. “Aesir, eu estou triste como nunca estivera, não poderei lhe fazer companhia. Logo amanhecerá.” — Fui à minha cama e me deitei. “Dizem que o amanhecer traz sempre um recomeço”. Antes de adormecer, lembro-me de ter visto Aesir voar.
Não era como avistar uma belíssima Arara azul ou, ainda, Tucanos ou Flamingos; Aesir era um pássaro obscuro, olhá-lo não trazia somente encanto de modo a ser, a primeira reação do observador, fotografá-lo ou, ainda, na pior das hipóteses, prendê-lo numa espécie de gaiola. Aesir trazia o encanto rubro cujas sensações de fascinação, infelicidade e vazio uniam-se através da morte em uma dança íntima e soturna. Fitá-lo era, tão somente, profundo desejo de fitá-lo e nada mais além das sensações deste etéreo contemplar. Apesar da estável veracidade daquele noturno encontro, ao despertar na manhã seguinte deduzi se tratar de um sonho lúcido e que a mística criatura nascera meramente das nódoas mentais de meu inconsciente ressentido.
Instantes 02
— Não terei clemência frente ao espelho que reluz toda a minha nadificante existência, pois este é o sentimento mais medíocre, ou pelo menos um dos mais medíocres…
The Pride of Dijon. (1879) William John Hennessy
— Não terei clemência frente ao espelho que reluz toda a minha nadificante existência, pois este é o sentimento mais medíocre, ou pelo menos um dos mais medíocres.
— Autopiedade não leva a nenhum lugar, tens razão. – Entreolharam-se e Jasmine sorriu.
— O que fazes aqui, Edwarden? O arrebol desfalece o dia e logo haverá névoa, nenhuma flor do jardim estará à vista.
— Ora, pois, que vim por uma flor em específico. – Ele toca suavemente o rosto de Jasmine. — E esta não se ofusca na neblina, ao contrário, aflora assim que nela se ascendem os segredos do anoitecer.
— Desconheço tal espécie... – Jasmine volta-se à paisagem desviando seu vívido olhar do semblante de seu amado. Edwarden se aproxima outra vez.
— Trata-se d’uma rara espécie a qual reside em teu espelho e faz jardim n’este teu ser – ele sussurra.
As maldades humanas me enojam. Meu corpo é afetado fisiologicamente quando quaisquer injustiças são presenciadas por meus olhos. Não consigo conceber a ignorância…