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A Bruxa e o Cadáver

— Levanta-te morbígero cadáver! | Teus olhos vítreos pálidos reluzem! | Odor de morte antiga que paláver | Sem verbo zumbi horrores que conduzem;…

Bruxa
— Levanta-te morbígero cadáver! 
Teus olhos vítreos pálidos reluzem! 
Odor de morte antiga que paláver 
Sem verbo zumbi horrores que conduzem; 

— Caminhe n’esta terra aromantada 
De lágrimas e sangue, a flor do mal 
Que brota putrefata e delicada 
Disposta a todo crime mais brutal! 

Cadáver
— Devolva-me à morte, bruxa amarga! 
Que vida humana alguma me apetece! 
Jurei beijar meus vermes, cá me larga! 

— Devoto sou ao crânio, pela prece, 
E à úmida madeira do caixão 
E à paz d’este meu hirto coração… 
A vida imunda, sei, não me merece. 



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Sonurista da Morte

Nas grotas d’uma lôbrega passagem, | A balça gris e sôfrega, que à vista, | Ornava em medo fúnebre a viagem | Aos versos d’um plangente sonurista;…

Nas grotas d’uma lôbrega passagem,
 A balça gris e sôfrega, que à vista,
 Ornava em medo fúnebre a viagem
 Aos versos d’um plangente sonurista;

Lagura enegrecida e nau minguada,
 Um’áura tão morbígera envolvia
 Minh’alma dolorida e desgraçada,
 Enquanto ele, em poema, me pre’nchia

Seu canto-recitar… Ó! Que tristura!
 A cada rima, de algo eu me esquecia
 Sumindo, n’aflição de mi’a fissura…

“Bem-vindo ao fim” — ouvi e pertencia
 Ao ser de manto negro na paragem,
 Olhei o sonurista, uma miragem?
 Um mármore, tão só, me conduzia.



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Sonura Aos Mortos

Memórias d’estas mil alcovas lôbregas, | Perlustro os epitáfios, os semblantes, | Há brandos anjos, murchas rosas sôfregas, | À morte: Os meus silêncios lacrimantes…

Memórias d’estas mil alcovas lôbregas, 
Perlustro os epitáfios, os semblantes, 
Há brandos anjos, murchas rosas sôfregas, 
À morte: Os meus silêncios lacrimantes… 

Epígrafes datadas de saudades… 
Soturno violino à sete palmos… 
Pretérito e futuro, ambiguidades… 
Um último versar dos raros salmos… 

Mil sonhos cujo rastro se prostrou… 
O Efêmero é, da vida, a cortesia 
Que dá sabor ao doce que amargou 

Lembrando-nos que houvera poesia, 
E mais um mausoléu longínquo conta: 
No fim aquele alvor sempre desponta”, 
Mas nunca há de brindar-nos c’o ambrosia… 

Escrito em 6 de setembro de 2024 



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A Fenomenologia da Imortalidade

Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida…

Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida. Na Fenomenologia estuda-se a essência daquilo que se manifesta nos sujeitos a partir deles próprios, isto é, da expressão mais pura de suas singularidades reais, das vivências, compreensões e sentidos. Por meio da Fenomenologia, aplicada na Psicologia e revelada pelas linhas Existenciais da Filosofia, o ser que somos é foco de estudo a partir de seu existir significativo, tendo o objetivo de desvelar sua estrutura essencial, ou seja, para cada indivíduo a morte é experienciada como um fenômeno a partir de suas próprias manifestações enquanto ser individual, embora esta experiência esteja em dinâmico vínculo com o que o mundo em si, a sociedade, expressa em suas compreensões coletivas — a intersubjetividade também traz a subjetividade à luz de sua existência.

Discorrer sobre a Fenomenologia é sempre um ofício árduo, isso porque o seu método é enxergar com transparência genuína o ser que se revela em construção ser-mundo diariamente. Não há como mensurar e categorizar a experiência humana, nossa consciência é fundamentada em vivências reais imediatas, construídas, significadas, expandidas, inexploradas — somos a límpida revelação de nós mesmos; a Fenomenologia quer extrair a essência imutável dessa revelação. Deste modo, podemos afirmar que a Fenomenologia da morte é o estudo da essência imutável que reside em todas as expressões humanas em suas singularidades relatadas e vividas a respeito do morrer.

Sob as perspectivas atuais, notamos uma brusca mudança social onde a busca pela imortalidade é fulgurante e a morte é, cada vez mais, negligenciada — o fechar de olhos para o fim tendo o amanhecer sempre ao alcance das perspectivas. Naturalmente, com o avanço tecnológico, viver mais é uma realidade um pouco menos distante do que vinte e quatro anos atrás; podemos compreender, no entanto, que a temporalidade, ainda que prolongada, não pode ser extinta, pois, em si mesma, ela é o viver da forma que este se manifesta. Alcancemos a morte do morrer, continuaremos a existir no tempo. O tempo é uma vertente da morte e não há como parar o tempo.

Evidente que, como mencionado, a vivência da morte é única para cada humano e não investigo neste artigo relatos específicos sobre o assunto, mas discorro em reflexão sobre o que vem de encontro à minha consciência nos tempos atuais, busco, assim, a partir do que enxergo, extrair uma essência imutável de compreensão. Eis algumas pertinentes questões: Uma sociedade sedenta pela vida, poderia ser capaz de morrer? O tempo poderia ser a nova morte? Ou a finitude, ressignificada à imortalidade, caracterizar-se-ia pelo medo, o tédio e a angústia? Em resposta, a morte em si, como essência do fenômeno humano, constitui-se por todos os aspectos da finitude do ser, isto é, há morte no tédio, na angústia, no medo e no tempo — ser imortal, se podemos imaginar, não é o que fará desaparecer a morte.

Portanto, a escolha individual de negar ou aceitar o que a morte é em toda a sua significação, não poderá deixar de existir enquanto parte essencial do ser; somos para a morte mais do que somos para vida, sua substância integra todos os momentos e, portanto, nos faz — ontologicamente — para-a-morte. Envoltos à uma possível imortalidade, estaremos prostrados a um tempo eterno para a realização manifesta do que somos através de escolhas, mas não haveria a finitude enquanto impulsionadora desta disposição à escolha — o nos leva a deduzir que o tédio e a angústia tomariam esse papel. Teríamos todo o tempo disponível, e o quão angustiante isso poderia ser? Cabe, neste ponto, reforçar o aspecto indissociável do ser humano em relação à totalidade de sua realidade, desde suas manifestações subjetivas, à sua consciência direcionada e construída no mundo e com os outros — o que novamente revela a impossibilidade da morte deixar de ser a essência do ser, dado que sua ausência ainda seria um gatilho para a autenticidade do ser, isto é, para trazer ao ser uma “luz” de compreensão sobre si mesmo, levando-o à ação que corresponde, especificamente, na ação de existir.

Diante disso, a afirmação que traz o resumo de toda a compreensão discorrida é: mesmo na imortalidade, morreremos. A morte não pode ser encurtada ao morrer em si, pois sua significação está atrelada ao sentido de tudo o que o ser experiencia. A escolha singular de cada indivíduo os levara ou não aos sentidos da morte, mas os sentidos da morte, mesmo na imortalidade humana, sempre estarão presentes como estímulos essenciais para a realização do fenômeno do ser em seu mais puro desvelar-se a si.



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Epílogo

Noturno — o silêncio — em sinfonia, | Às notas vagarosas como rios, | Escuto adormecida — a astenia | Do corpo embriagado em mil vazios; | O pêndulo — as horas — sem sentido...

 

Victor Gabriel Gilbert (1847 - 1933) - Resting, c.1890

 

Noturno — o silêncio — em sinfonia,
Às notas vagarosas como rios,
Escuto adormecida — a astenia
Do corpo embriagado em mil vazios;

O pêndulo — as horas — sem sentido...
A morte e a vida — canto de ilusão;
A fé — a lua — o âmago dorido
E a tênue linha desta solidão;

A dúvida — o preço — despertado
Os olhos sobre o teto imaculado,
O vento me assovia — a tempestade...

Terceiro movimento, inquietante...
O Gran Finale então — apaziguante;
Concerto da existência à finidade.

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