Vivo por ela
Escrevo. Bem além do que ressinto | Ou sinto ou do que vejo. Muito mais. | Escrevo por questão da alma, do instinto, | Do sonho mais que as sombras factuais!
Escrevo. Bem além do que ressinto
Ou sinto ou do que vejo. Muito mais.
Escrevo por questão da alma, do instinto,
Do sonho mais que as sombras factuais!
Não tenho musa ou fé ou inspiração,
Escrevo em dor, talvez, por coisa alguma…
Preciso, e não há o luxo da omissão!
Escrevo à solidão que me acostuma;
É belo e, sobretudo, passarinho…
Às vezes voa às nuvens soldoradas
E, n’outras, preso em cárcere, sozinho.
Eu escrevo… e quando a morte inconsolada
Bater à porta d’esta alcova minha…
Com vasta calma irei-me à escrivaninha…
“Adeus” — escreverei — “muito obrigada”.
Vehrvorus
Que fosses ente e crer-te eu sempre iria | No alvor rogar-te em puro amor vestal | Que fosses a Verdade, eu saberia…
Que fosses ente e crer-te eu sempre iria
No alvor rogar-te em puro amor vestal
Que fosses a Verdade, eu saberia
Honrar-te os mandamentos contra o mal;
Tivesses santo mármore esculpido
O qual ser tua imagem p'ra adorar
Pingente no meu peito protegido
Discípula em teu nome doutrinar;
Seria à tua palavra dedicada
Embora eu já o seja, equivalente
Seria esta lição me revelada?
A glória de teu Verbo onipresente
Dizendo “E sou, pois, Deus mesmo que só
No âmago que teu me encontro em nó;
Escreva, que este é Gênesis primente!"
À Escrita
Eterna solidão, noite-mudez | Se tua Olea graciosa não me azeita | À bênção da centelha, a embriaguez | Do elã que lume a letra em mi'a colheita..
Eterna solidão, noite-mudez
Se tua Olea graciosa não me azeita
À bênção da centelha, a embriaguez
Do elã que lume a letra em mi'a colheita..
Amarga perdição, medo-estupor
Se o cântico erudito de tua seiva
É sopro tão fugaz no grã calor
E frígido beijar no frio que m'eiva...
Deitada ao leito Santo de teu lírio
Eu posso ver na vida uma razão
Que amene o caos de todo o meu martírio
Das vezes que velei, pois, teu caixão
E vi-te reencarnar tão de repente
Amálgama de gáudio e aflição
Que eu juro precisar eternamente.
Escrevo
Escrevo, | pois que amanhã | impossível; | Escrevo, | pois que amanhã | não cheguei; | Escrevo, | pois que amanhã | sonho findo;…
Imagem criada por Sahra Melihssa
Escrevo,
pois que amanhã
impossível;
Escrevo,
pois que amanhã
não cheguei;
Escrevo,
pois que amanhã
sonho findo;
Escrevo,
pois que amanhã
já mudei.
Indigo
Sei que estás aí… ouço-te no silêncio que emanas… o único silêncio que alcança as profundezas do meu ser. Eu te vejo. Estás me observando. Há quanto tempo?…
Adélaïde Labille-Guiard, Portrait of a Woman, 1787 (Detail)
Sei que estás aí… ouço-te no silêncio que emanas… o único silêncio que alcança as profundezas do meu ser. Eu te vejo. Estás me observando. Há quanto tempo? Não sei…, mas sinto. Diz-me, por quê? Por que estou como as sombras estão aos templos dilacerados debaixo do poente horizontal? Morrendo e vivendo, distante… por quê? Ah… sim… Tu não falas, tu não revelas… teu significado está aqui… e é a própria escuridão… e a luz… e a minha angústia.
Oh, sim, teu olhar para mim. Não tenho medo, não, eu não temo a tua constituição; teus olhos são prismas, tua verdade é absoluta… tu me olhas porque esperas de mim… a minha missão… por isso estou aqui. Mas… o amor… ah… o amor… distancia-me de ti tal como as cortinas distanciam a plateia do ator. Nenhum aplauso… eu sei… não há drama ou tragédia… não há ator. Quem eu sou sem a emoção? Tragas-me tu as respostas! Pares tu de me encarar!… Qual é o teu significado sem esse poço emocional que me perfura o órgão vital?… Nenhum… não ouses dizer o contrário… nenhum significado.
Vês?… Eu sou a melhor paisagem, o ar que se despeja na mentira da dimensão-comum… eu observo… eu observo como tu… eu sou tu? Não… oh então… eu me observo. O que tu és? O que nós somos? Deve haver alguma resposta, algum… amparo… se tu puderes me contar… eu… estou… aqui… não me deixes. Não vá. Não me deixes ir. Oh… por que não pode ser diferente? O que falta? O que falta em mim? As pequenas coisas… maravilhas ínfimas… são elas? Eu… eu sei… tudo bem… eu compreendo. O vazio sempre… sempre estará… dentro de nós.
As maldades humanas me enojam. Meu corpo é afetado fisiologicamente quando quaisquer injustiças são presenciadas por meus olhos. Não consigo conceber a ignorância…