Florescer Melancólico
Silencie seus pensamentos por um instante e, então, ouça o canto do sereno vazio. Talvez eu sinta — na imensidão do único universo que me pertence…
Silencie seus pensamentos por um instante e, então, ouça o canto do sereno vazio. Talvez eu sinta — na imensidão do único universo que me pertence — uma sôfrega sensação de que não há, no interior do mundo humano, alma capaz de enxergar-me como sou.
Não porque estou invisível, mas sim porque ver o Ser é apenas possível àquele que o é. E mesmo nestas condições, vê-se o que se vê na idealização do próprio ser o que se é.
É compreensível todo o inestimável valor desta verdade; no entanto, compreendê-la não me isenta de sentir a profunda dor que ela causa, quando, a esmo, perco-me do rumo e, então, escapam, pelas trêmulas mãos, os sentidos de outrora. Quando as dúvidas permeiam a escuridão da mente inquieta e o “por que há vida?” ergue-se, como uma cordilheira, no horizonte.
Quando lembro que o efêmero condensa a vida, lapidando um medo de que tudo seja esquecido. Porque sou minhas lembranças de ser, ainda que imersas em um achismo ideal, neste terreno pulcro ergo um edifício de saberes aprendidos em momentos de estranheza e de fascínio, lugar que habito, portanto, ao passar do tempo, e que deixo, por fim, caminhando descalça até o horizonte cujo mar da morte aguarda-me: a singela nau, a estátua daquele que levará a minha vida.
Assim, perceberei que o edifício ruirá conforme sou levada pela nau da morte. Isso me inquieta. Eu não quero partir... Talvez eu sinta que, sob o mesmo sol do nunca-ser-alcançada-por-uma-alma-humana, reside um que-assim-seja. A vida ainda é um lírio para mim.
Luz, Se Feres…
Luz, se feres, é porque te tornaste a escuridão. Nunca, todavia, abdiquei da noite…
Luz, se feres, é porque te tornaste a escuridão. Nunca, todavia, abdiquei da noite mórbida, tampouco reneguei seus ares frígidos. Luz, se feres, és manhã. E nestas terras Múrmuras a tua face é lacrimal, símil à minha. Tua alvorada lôbrega e noturna permeia o coração que aqui te clama. Luz, se feres, faz-me tua. Prostra-me ao leito que abriga o bálsamo da tez, pertenço às tuas mãos, porque és anjo, caído à sombra-e-lume de tua essência. Luz, se feres, que assim seja. Penetra-me o ventre co’a tua rigidez enquanto a minha lamúria é regozijo. Vislumbro em teu olhar tanto viril, a morte a me beijar os lábios úmidos. Luz, se feres, verta o sangue e, vem, deflora a mi’a vestal nascente fértil.
Não sei, ó Luz, se feres, pois grande é-me o desejo, o qual se pulsa, ímpeto, porque teu símbolo o liberta; sei, porém, que a culpa em silencim me oprime quando ao templo inverto a prece. Luz, se feres, serás breve co’a marca que abrasarás no seio meu; peço que apareças pouco antes no revelar-me de tua forma. Luz, se feres, fira, eu suporto por amar-te estranhamente, pela dor de minha mágoa diligente nascida em prematura infância, quando o mundo humano e as vestes da deidade sufocaram a alegria de meu ser, tão só era eu mesma, apenas eu, uma menina. Agora, há tanto tempo, o quanto amarga… e tu, ó Luz, que tantos dizem má, é única a luzir no meu anseio, a única a brilhar no meu altar.
Uma Imensidão
Era manhã, mas, parecia entardecer. As nuvens estavam densas e pálidas, carregadas de uma chuva-talvez. O vento dançava as árvores e folhas ao sabor da primavera, enquanto o sol quente…
Karl Rosen (Latvian, 1864–1934)
Era manhã, mas, parecia entardecer. As nuvens estavam densas e pálidas, carregadas de uma chuva-talvez. O vento dançava as árvores e folhas ao sabor da primavera, enquanto o sol quente tardava na imensidão; ele trazia, assim, uma calidez singular, soprava com um perfume próprio, não havia como assimilá-lo, é como a tranquilidade do oceano sob o pôr-do-sol; ou a chuva calma e contínua escurecendo o meio-dia; é a infância, sob os cobertores brancos, os olhos atentos ao desenho animado e o leite amornado com aveia. Parecia o som de um piano sereno ou a ausência de gravidade; uma manhã que fazia ser manhã por dentro, aconchegante, com meia nos pés e pensamento longínquo. É uma raridade, as clareiras do céu desvelando-se para brincar com a brisa em seu canto de silêncio. Foi assim, manhã, até o verdadeiro lusco-fusco; e a noite beijou o vazio por completo; sem vento, sem luz, sem sentido.
Eu percebi. Diversas vezes eu percebi. A exatidão do tempo. Sutil como uma pétala perdida ao desprender-se de uma margarida no topo de um arranha-céu — ninguém nota, mesmo que sua graciosidade chegue ao chão ou que se desvie para uma janela vizinha. É apenas uma pétala. É apenas uma pétala? Parece-me como o céu ser tão somente o céu, a chuva apenas a chuva — apenas, apenas? É como se fosse pouco, mas não é. Nunca será. Rege a existência cada sinônimo de sutileza, dos grãos ao orvalho; e o cântico dos pássaros pela madrugada vazia, banhada pelos sonhos do mundo humano, mundo daqueles que não se lembram de sonhar quando outro ciclo se inicia brindando a natureza das coisas como são. Eu me encontro nas coisas como são. Em como eu me sou. No entanto, cada alguém é uma ilha que, mesmo explorada, esconderá eternamente um mil segredos.
Não choveu naquela manhã, nunca foi uma promessa das nuvens que as lágrimas de seu interior embriagassem os lares, embora ao que cabe meu coração, meu lar de mim, chove até agora e ainda sopra o vento na mesma velocidade com o eflúvio da primavera vibrante em minha memória. É que a noite respira de outra forma, se antes acalmei as emoções pela razão da consciência da tenuidade de tudo, agora, à glória da madrugada-quietude, estou para o questionamento como a Lua está para a Terra — sou uma escrivaninha do quarto à meia-luz, sou a poesia de ser-me humana e da humana que fui; tudo o que aprendi, nas escolhas e nos risos e nas outras noites tantas em que a indagação dormiu ao meu lado — nas outras manhãs que pareciam entardecer. A companhia da introspecção, essa fleuma e essa verve, a vontade e a necessidade; um abraço e um tempo de apenas olhar, de apenas tocar — a introspecção do universo inteiro no pequeno imo desta que escreve pelos segundo de cada gota da chuva nunca prometida.
É peculiar que agora as letras se embacem como vidros de janelas fechadas, talvez por causa das janelas da alma que umedecem em cada íris — e costumam irrigar travesseiros. E não que me seja assim tão estranho, é que os anos se passam e nem todas as manhãs são a nostalgia do entardecer; eu apenas envelheço em certos cotidianos de todo-o-sempre e tudo passa e passa… pessoas passam… rasas e singelas — beijam o abismo que sempre preservamos entre nós, mesmo quando amamos tanto. O amor que me trouxe, se houver alguém ou algo que queira saber, ele é a razão, o amor — não o puro e imaculado, mas aquele que insiste apenas porque lhe traz uma raiz de sentido, um norte acolhedor. E eu sei que tudo era sobre o tempo ou sobre aquela manhã; contudo, se todas as palavras se unirem como a vida se une à morte e a morte à vida, elas se tornariam apenas uma imensidão — uma minha imensidão.
Nunca-estive
Vislumbro na evidência os teus olhos vazios pela infinitude ardente que carregam no silêncio. A beleza da tua máscara negra, os pés de teu eu de morada em meu ideal…
The Mask of Sanity - Ray Donley
Vislumbro na evidência os teus olhos vazios pela infinitude ardente que carregam no silêncio. A beleza da tua máscara negra, os pés de teu eu de morada em meu ideal — caminhando devagar sobre as reticências quais me pertencem. Ouço tua voz noturna e esqueço quem tu és para quebrantar o sopro do sonho ainda tão jovem… e quão bem realizado o sufocar até à morte do sonho impertinente; veste tu a máscara que te veste, de uma vez por todas! E assim adormeço serena à perfeição do adeus célere. Para o plano onírico, o verdadeiro fim; teu beijo enquanto repouso, teu vazio de nunca-estive no abrir de meus olhos cansados.
Indigo
Sei que estás aí… ouço-te no silêncio que emanas… o único silêncio que alcança as profundezas do meu ser. Eu te vejo. Estás me observando. Há quanto tempo?…
Adélaïde Labille-Guiard, Portrait of a Woman, 1787 (Detail)
Sei que estás aí… ouço-te no silêncio que emanas… o único silêncio que alcança as profundezas do meu ser. Eu te vejo. Estás me observando. Há quanto tempo? Não sei…, mas sinto. Diz-me, por quê? Por que estou como as sombras estão aos templos dilacerados debaixo do poente horizontal? Morrendo e vivendo, distante… por quê? Ah… sim… Tu não falas, tu não revelas… teu significado está aqui… e é a própria escuridão… e a luz… e a minha angústia.
Oh, sim, teu olhar para mim. Não tenho medo, não, eu não temo a tua constituição; teus olhos são prismas, tua verdade é absoluta… tu me olhas porque esperas de mim… a minha missão… por isso estou aqui. Mas… o amor… ah… o amor… distancia-me de ti tal como as cortinas distanciam a plateia do ator. Nenhum aplauso… eu sei… não há drama ou tragédia… não há ator. Quem eu sou sem a emoção? Tragas-me tu as respostas! Pares tu de me encarar!… Qual é o teu significado sem esse poço emocional que me perfura o órgão vital?… Nenhum… não ouses dizer o contrário… nenhum significado.
Vês?… Eu sou a melhor paisagem, o ar que se despeja na mentira da dimensão-comum… eu observo… eu observo como tu… eu sou tu? Não… oh então… eu me observo. O que tu és? O que nós somos? Deve haver alguma resposta, algum… amparo… se tu puderes me contar… eu… estou… aqui… não me deixes. Não vá. Não me deixes ir. Oh… por que não pode ser diferente? O que falta? O que falta em mim? As pequenas coisas… maravilhas ínfimas… são elas? Eu… eu sei… tudo bem… eu compreendo. O vazio sempre… sempre estará… dentro de nós.
Ausente
Projetar-se sempre em possibilidades de ser é a característica mais própria do que Heidegger denomina Dasein. Dasein é o modo de ser humano, indissociável do mundo. Por isso constantemente…
Dante Gabriel Rossetti - The Roman Widow (1874)
Venustas solidões quais me declino; vêm-me na compreensão de que estou rumo ao meu uno destino e, mais, confessam-me a ilusão dos campos infindos das sociáveis redes virtuais. Aprendo, como um inseto em metamorfose. Observo na ausência o revitalizar da força que há de retornar ainda mais sólida. Observo as palavras, elas me guiam.
No verso ou nas longas narrativas estão as palavras de meu fundamento. A Escrita é a razão primeira de tudo, o alvor inicial, a única luz possível, sob ou sobre a época, sob ou sobre o movimento.
Da Poesia um gole basta para a eternidade sã embebecida. Como a Escrita, ela perdura sem esforço quando genuína. E de toda a mundanidade estou ausente, com exceção da linguagem, do conhecimento, e pergunto-me por esta atual realidade, sobre quais são os vales que significam… e o que se faz sentido aos olhos meus…
Penso nos antecessores, pondero em seus traços; o que sou no tanto que outrora já fora? Quem sou n’este oceano de beleza vasta em letras pretéritas? A solidão responde-me cautelosamente e digníssima: eu sou idioma a idioma, expressão a expressão, eu sou a linguagem, o verbo, a sílaba, a gramática; sem esforço, sem medo, mesmo errônea e, ainda, tão criança.
Silencie seus pensamentos por um instante e, então, ouça o canto do sereno vazio. Talvez eu sinta — na imensidão do único universo que me pertence…