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O Pássaro da Elegia

Caríssimo Dom Søren. No meu coração reside uma profundeza triste que, como uma tenra maré, movimenta-se em ondas frígidas sobre a areia mísera…

Caríssimo Dom Søren. No meu coração reside uma profundeza triste que, como uma tenra maré, movimenta-se em ondas frígidas sobre a areia mísera de meus sentimentos vazios. Queria escrever-te há tempos, todavia, ensandecidos momentos aconteceram comigo, de modo a levarem minha ausência existencial a uma encruzilhada perigosa. Jamais imaginei que teria de decidir entre a vida e a morte, sem propriamente viver e sem propriamente morrer.

Meu bem, esta é a última carta que te escrevo. Há cerca de sete meses, tive o prazer de sentir descomedida paixão pelos teus olhos, teu cuidado, tua inteligência. Vi-te observando as antiguidades da vitrine que adornei com tanto apreço. Chovia como agora em meus olhos melancólicos, lembra-te? A belíssima Endinsür, tomada pelas águas, intensificando a beleza vitoriana das torres. Tão fascinante quanto a tua presença.

Eu escrevia, entretanto, tua sombra fez-me notar o teu atento admirar e fitei-te até que teus olhos intuitivos sentissem minha curiosidade. Tua íris tocou a minha como se um beijo aos lábios tu me deste. Por instinto, desviei o olhar e decerto que tal atitude instigou o teu desejo. Entraste à loja, vindo direto a mim, imperante e belo. “Bom entardecer, senhorita” — dissera. Toquei o livro do balcão para evidenciar minha solidão pela ausência de um belo anel de compromisso. Teu sorriso nascera e era poderoso, fez-me tua sem que soubesses.

“Intriga-me este lugar... estes objetos... intriga-me também o teu belo semblante e, se me permites dizer, os teus lábios...” — proferira como um poema sussurrado. Sorri-te em recíproco, apenas porque não poderia dizer-te nada à altura. Queria ter revelado que os artefatos possuíam beleza sombria, todos encontrados em ruínas inexploradas de Morttan, trazidos por meu pai, marinheiro obscuro de Krvieröm. Hesitei, no entanto, receando que me julgasses atormentada — no cerne, amado, eu de fato sou. “São relíquias anônimas, de outroras ou porvires” — disse-te, n’um elogio ao mistério. “A mais fascinante relíquia é, decerto, a que observo n’este instante...” — afirmara. Mergulhei em ti, ouvindo sobre teus estudos sobre artefatos do passado, sobre teu amor por antiguidades; amei tua voz e soube, n’esta tão primeva prosa, que eu o amaria eternamente. D’aquele instante até o momento em que toquei a maldição, fui verdadeiramente feliz.

Se trago ao presente tal memória, é porque a revivo em nome d’esta descomedida paixão — mantém-me ainda esperançosa, se é que posso nomear de tal forma esta brasa tardia que me arde enquanto cultivo a desolação. Quatro meses após nosso vínculo inicial, n’uma noite solitária, um dia antes do meu aniversário, fui instigada a perscrutar uma caixa de relíquias trazidas pelo Marhero Larsen, em nome do meu falecido pai. “São pertences do capitão” — proferira. Sua voz era intensa, seu olhar de mil jardas. O tanto que presenciara em suas navegações, decerto que jamais poderá um dia ser revelado. Agradeci-lhe pelo gesto de consideração, fora o único presente para aquela data tão importante. Pouco depois de sua partida, uma música melancólica germinou no interior daquela caixa assim que, por descuido, a deixei cair quando tentava guardá-la em um alto armazenamento.

Era uma profunda elegia, lenta e sorumbática. O som ficava cada vez mais alto conforme eu me dedicava a libertá-lo. Entre muitos itens já enferrujados, logo vi a caixinha de ferro fundido, perfeitamente esculpida, forrada em veludo laranja, ornada de arabescos e detalhada em folhagens secas. Um pássaro de ouro, com seu cântico triste, girava devagar enquanto suas asas mecânicas movimentavam-se sutis, como se ele pudesse realmente voar. A princípio, sua beleza fascinou-me como jamais outro artefato fizera. Em seguida, segurando-o em minhas mãos e fitando o seu girar contínuo enquanto ouvia a elegia infeliz, lembrei-me da morte de meu pai e, então, sorri.

A alegria emergiu de um abismo de saudade que, de súbito, já não mais existia. Todo o desgosto pela morte de meu amado pai, e de seu corpo jamais encontrado, fora apagado em um átimo de segundo. Fui envolvida por todo o amor que por ele senti, tornando poeira quaisquer angústias existidas um dia entre nós. Amado Søren, o artefato mágico era inominável! Capaz de extinguir os males de nossa alma, dissipando o sofrimento tal como o vento impiedoso faz com as frágeis flores dos ipês. Como eu poderia resistir ao seu cativante poder? Ninguém no mundo humano, meu querido, almeja o tormento da angústia — muito menos se contenta com o peso da desgraça do passado.

Diante de tamanha descoberta, atraí à memória toda a consternação que pude, remoendo o pretérito, rastreando as lágrimas, perseguindo, com horrífica negligência, quaisquer pequenas lembranças condoídas, construídas sobre o fundamento do abatimento, da infelicidade. E um estímulo intenso de liberdade e prazer me acometia assim que eu as encontrava em minha mente, revivendo, pela última vez, o abatimento que possuíam. Era êxtase, arrepiando minha tez, ascendendo em meu cerne um radiante deleite, um regozijo pulsante, um contentamento perturbador em razão da sua força descomedida. Era perverso — agora posso dizer.

Desde então, busquei o artefato sempre que tenros desagrados me ocorriam, seduzida pela felicidade perpétua. Cativada pelo deleite exorbitante das doses violentas de alegria, almejei mais tristes vivências. Quis que os piores males me acometessem para que mais ledice me fosse dada por aquela mórbida elegia. Ouvia, em tempo integral, o cantar lastimoso do pássaro de ouro e, mesmo quando selava o artefato, para adormecer em silêncio, sua melodia ecoava em meus sonhos, afastando pesadelos cruéis. Eu estava, mais do que enfeitiçada, imersa em profunda dependência — adoecida pelo fanatismo absoluto. Por isso, meu querido, não mais te escrevi e tampouco respondi às tuas cartas — fiquei, no âmago profundo, feliz por teres viajado a Sihren, assim não encontrei mais contigo e não realizei a maldade mais terrífica que viera à minha mente.

Por diversas vezes pensei em tirar a tua vida, meu amado. Pois tanto que me alegrava a tua existência! Ver-te ensanguentado em minhas mãos, enterrar-te n’uma lôbrega manhã e, então, ser julgada. Tais horrores causariam, decerto, a mais afrodisíaca alegria ao serem destruídos pelo pássaro da elegia. Se ouso dizer, — com o respeito que mereces, entretanto, com a sinceridade que é preciso para que compreendas — eu buscava o clímax da exultação, o frenesi mais desumano da euforia. Isso só poderia ser possível mediante o sofrimento mais pernicioso — e meditei por dias em como causar a mim mesma o martírio mais medonho de toda a minha existência. Eu pensei tantos horrores... sinto repulsa do que pensei, sinto-me frágil, um boneco ventríloquo já descartado. Como pude não perceber que aquele raro item poderia possuir uma verdade amarga em sua delicadeza?

N’aquela quente manhã, entretanto, ao despertar de uma noite sem sonhos. Não pude lembrar-me de nada além de ti, do pássaro e de meu pai. Todas as minhas memórias foram assassinadas sem que eu pudesse notar. Até mesmo a vitrine, agora degradada em poeira, não me era reconhecível — eu não sabia a razão de sua existência e o porquê ela pertencia a mim. Até mesmo Endinsür, minha amável pólis, parecia-me fantasma às minhas mais tenras recordações. Tudo se fora, adentrei a mais profunda melancolia e dor, uma angústia real e quase tangível — meu impulso primevo foi abrir a caixa da elegia para me libertar daquele horror e sentir o prazer qual eu estava obcecada. Todavia, a tua carta me salvara antes do que acredito que seria o ato final do macabro teatro da minha decadência.

Cultivando amor por ti, antes de ouvir o pássaro de ouro, recebi tua carta no instante precedente. Tirou-me do transe execrável e decidi lê-la primeiro — impulsiva, apenas deixei o artefato e segurei suas palavras em minhas mãos. “Adorável Marina, talvez teu silêncio represente teu desinteresse em mim... mesmo assim, devo dizer-te que as lembranças agradáveis dos teus olhos, das conversas amenas e das poesias que me escreveste, ainda que me doam mediante a infelicidade profunda de não ter o teu amor, serão, pois, as mais preciosas lembranças da minha vida...” — escreveste.

Choro, amor, e escrevo-te porque compreendi. Perdi tudo o que lembrava, cada partícula da minha história, porque todas as tristes lembranças se vinculavam às felizes, n’um ciclo natural de vida. Lembrava-me, ainda, de meu pai, pois, a caixa viera dele; lembrava-me de ti, pois, nenhum mal nos acometera n’estes tempos; lembrava-me do pássaro, pois sua elegia era perfeita, sinônimo do mais sublime enlevo. Nada mais, nada além. Portanto, tive em mãos a decisão de esquecer a caixa que, afinal, trouxe-me a mais triste angústia e agonia: perder minhas memórias, esquecer-me de quem sou. Este seria o fim, abri-la pela última vez e esquecê-la para sempre.

Segurei a relíquia amaldiçoada em minhas mãos trêmulas. Era o momento final, o último prazer exorbitante. Entretanto, eu não tive coragem. Temi, embora almejasse o deleite que apenas ela me proporcionava. Questionei no instante se, ao esquecê-la, olvidaria também a sua maldição, caindo outra vez em seus encantos cruéis. Questionei se não devia, na verdade, destruí-la — e esta última, meu amor, foi a minha decisão final. Com abstinência do júbilo que ela me proporcionava, entretanto ainda sã, coloquei-a no chão e, com um machado de jardim, acertei-a no centro, mediante uma força que viera do vazio abissal do oblívio. Doeu-me tanto... era tão perfeita...

O objeto se destruiu de imediato e sua elegia não tocou. Porém, no súbito momento, uma surpresa malévola atravessou meu crânio, como uma luz feita de breu, em paradoxo, penetrando minha fronte — confirmara o que a intuição já sabia: o artefato tinha uma maldade ainda maior por detrás da sua benevolência em acabar com a infelicidade de seus ouvintes. Sob a crença de que, finalmente, eu estaria livre; fui acometida por todas as lembranças amarguradas de outrora — não apenas minhas, mas de todos aqueles que um dia ouviram o pássaro.

Vi horrores inomináveis como se causados por mim, mortes e assassinatos. Estive em tragédias terríveis e fui íntima do mais abominável e repugnante. Eu jamais imaginei que as lembranças voltariam, que o pássaro as guardava em seu âmago, como um totem da desgraça. Senti as dores de incontáveis estranhos, os vi definharem em nome daquela maldição e, dentre tantos desconhecidos, havia meu pai — senti sua amargura e o vi se atirar ao mar quando sua última lembrança se foi. Perturbado pelo vazio, com o pássaro de ouro como única recordação, ele optou pela morte em um ato de apavorante desespero. Saber daquilo me despedaçou tanto... e eu gritei em prostração por todo aquele infortúnio, na expectativa de que fosse apenas um pesadelo.

Querido Søren, não posso compartilhar a vida contigo, pois agora ela é feita tão somente de tristeza eterna. Sinto-me uma tumba, enterrada na dor. Não há mais lume em meus olhos, tampouco beleza em meu sorriso. Estou aos pés da angústia, ajoelhada, refém da desolação. Tu mereces uma mulher alegre, que não tenha vivido perversões de origem infernal e traumas que sequer a pertencem. Sei o quão difícil deve ser acreditar em mim... não te culpo, meu Dom, não te exijo. Agradeço por todo o teu cuidado e amor; sou grata, em especial, às palavras da tua última carta — que me salvaram da minha loucura. Amo-te com o que me resta de vivacidade... levarei este amor comigo.

Peço-te que jamais acredite na indulgência de um artefato misterioso e rogo por teu perdão. Estou juntando os fragmentos d’este pássaro... aguardo pela coragem, vinda no vento, ordenada pela violência da maré. Eu levarei comigo essa maldição. A insuportável dor d’estas tantas pessoas... as imagens horrendas em meu cérebro... a dor aguda, o medo constante... tudo terá um fim, amor, quando estiver afogado no índigo oceano.



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Silêncio — Uma Fábula

Escuta-me”, disse o Demônio, pousando sua mão sobre minha cabeça. “A terra de que te falo é uma terra lúgubre na Líbia…” 

“Os pináculos das montanhas entorpecem-se;  
vales, penhascos, e cavernas imergem no silêncio.” — Álcman 

Escuta-me”, disse o Demônio, pousando sua mão sobre minha cabeça. 
“A terra de que te falo é uma terra lúgubre na Líbia, às margens do rio Zaire. E ali, não há quietude… nem silêncio.” 

“As águas do rio possuem uma tonalidade doentia de açafrão; e não fluem rumo ao mar, mas palpitam para sempre — para sempre — sob o olho rubro do sol, em um movimento tumultuoso e convulsivo. Por incontáveis milhas, de cada lado do leito viscoso do rio, estende-se um pálido deserto de nenúfares gigantescos. Eles suspiram uns para os outros naquela solidão; estendem para o alto seus longos e espectrais pescoços; e balançam suas cabeças eternas de um lado para o outro. E há um murmúrio indistinto que emerge do meio deles, como o ímpeto de águas subterrâneas. E eles suspiram uns para os outros. 

“Mas há uma fronteira para o seu domínio — a fronteira da floresta sombria, horrível e elevada. Ali, como as ondas ao redor das Hébridas, os arbustos rasteiros agitam-se incessantemente. Mas vento algum respira nos céus. E as altas árvores primevas balançam-se eternamente de um lado para o outro, com um som estrondoso e poderoso. E de seus altos cumes, um a um, gotejam orvalhos eternos. E junto às raízes, estranhas flores venenosas jazem, contorcendo-se em um sono perturbado. E acima, com um farfalhar áspero e clamoroso, as nuvens cinéreas precipitam-se rumo ao ocidente para sempre, até rolarem, em catarata, sobre a muralha em chamas do horizonte. Mas vento algum respira nos céus. E às margens do rio Zaire não há quietude, nem silêncio. 

“Era noite, e a chuva caía; e, caindo, era chuva — mas, tendo caído, era sangue. E eu permaneci no pântano, entre os altos nenúfares — e a chuva tombava sobre minha cabeça — e os nenúfares suspiravam uns para os outros, na solenidade de sua desolação. 

“E, de repente, a lua surgiu através da névoa fina e espectral, e era de cor escarlate. E meus olhos recaíram sobre uma enorme rocha cinérea que se erguia à beira do rio, resplandecendo sob o luar. E a rocha era cinérea, espectral e alta — e a rocha era cinérea. Em sua fachada havia sinais gravados na pedra; e caminhei por entre os nenúfares até chegar perto da margem, para poder ler os sinais na pedra. Mas não consegui decifrá-los. E eu estava voltando para o palude, quando a lua cintilou com um escarlate ainda mais pungente; e me virei, e olhei novamente para a rocha e para os sinais — e os sinais diziam: DESOLAÇÃO. 

“E ergui meu olhar, e lá estava um homem no alcantil daquela rocha; e escondi-me entre os nenúfares, para poder espreitar as ações do homem. E o homem era alto e imponente, e estava envolto, dos ombros aos pés, na toga da Roma Antiga. E os contornos de sua figura eram indistintos — mas suas feições eram as de uma divindade; pois o manto da noite, da névoa, da lua e do orvalho havia deixado descoberto o semblante de seu rosto. E sua fronte erguia-se, altiva de pensamento, e seu olhar era selvagem de preocupação; e, nos poucos sulcos que lhe marcavam o rosto, li as fábulas da tristeza, do cansaço, do desgosto pela humanidade, e do anseio pela solidão. 

“E o homem sentou-se sobre a rocha, apoiou a cabeça em sua mão, e contemplou a desolação. Olhou para baixo, para a vegetação rasteira e inquieta; olhou para cima, para as altas árvores primevas; olhou mais acima, para o céu farfalhante, e para a lua escarlate. E eu me deitei, abrigado entre os nenúfares, e observei as ações do homem. E o homem estremeceu na solidão; — mas a noite s extinguiu, e ele sentou-se sobre a rocha. 

“E o homem desviou a atenção do céu e contemplou o lúgubre rio Zaire, as águas áureas e espectrais, e as lívidas legiões de nenúfares. E o homem escutou os suspiros dos nenúfares, e o murmúrio que se erguia do meio deles. E eu me deitei dentro do meu refúgio e observei as ações do homem. E o homem estremeceu na solidão; — mas a noite se extinguiu e, ele, lá sentado sobre a rocha. 

“Então desci aos recessos do palude, e caminhei para longe através da vastidão dos nenúfares, e chamei os hipopótamos que viviam entre os pântanos, nos recessos do palude. E os hipopótamos ouviram meu chamado, e vieram, junto com o beemote, até o pé da rocha, e rugiram de maneira hórrida e estridente sob a lua. E eu me deitei dentro do meu refúgio e observei as ações do homem. E o homem estremeceu na solidão; — mas a noite se extinguiu e, ele, lá sentado sobre a rocha. 

“Então amaldiçoei os elementos com a maldição da balbúrdia; e uma tempestade mórbida se formou no céu onde, antes, vento algum soprava. E o céu ficou lívido com a violência da tempestade — e as pancadas de chuva caíram na cabeça do homem — e as águas do rio desceram — e o rio em tormenta espumosa — e os nenúfares na sínfora de seus leitos — e a floresta cedeu diante do vento — e o trovão rompeu — e o relâmpago ruiu — e a rocha oscilou até seus fulcros. E eu me deitei em meu refúgio e observei as ações do homem. E o homem tremeu na solidão; — mas a noite se extinguiu e, ele, lá sentado sobre a rocha. 

“Então me cingi em cólera e amaldiçoei, com a maldição do silêncio, o rio, os nenúfares, o vento, a floresta, o céu, o trovão e os suspiros dos nenúfares. E eles se tornaram amaldiçoados e amansaram-se. E a lua cessou de ascender, vacilante, em seu caminho para o céu — e o trovão arrefeceu — e o relâmpago não mais cintilou — e as nuvens pairaram imóveis — e as águas afundaram até seu nível e repousaram — e as árvores cessaram de balançar — e os nenúfares não suspiraram mais — e o murmúrio não foi mais ouvido entre eles, nem qualquer sombra de som por todo o vasto deserto ilimitado. E olhei para os sinais gravados na rocha, e eles haviam mudado; — e os sinais diziam: SILÊNCIO. 

“E meus olhos recaíram sobre o semblante do homem, e seu semblante estava lívido de horror. E, célere, ele ergueu a cabeça da mão onde se apoiava, pôs-se de pé sobre a rocha e escutou. Mas nenhuma voz ressoou em todo o vasto e ilimitado deserto, e os sinais na rocha eram: SILÊNCIO. E o homem estremeceu, virou o rosto e fugiu para longe, às pressas, de modo que não mais o vi.” 

Ora, há belas histórias nos volumes dos Magos — nos volumes melancólicos e encadernados em ferro dos Magos. Neles, digo, repousam histórias gloriosas do Céu, da Terra e do poderoso mar — e dos Gênios que governavam o mar, a terra e o sublime firmamento. Havia também muita sabedoria nos ditos das Sibilas; e coisas sagradas, sagradas, eram ouvidas outrora pelas folhas sombrias que tremulavam ao redor de Dodona — mas, como Alá vive, aquela fábula que o Demônio me contou enquanto se sentava ao meu lado, à sombra do túmulo, considero-a a mais maravilhosa de todas! E quando o Demônio concluiu sua história, tombou de volta para a cavidade do túmulo e riu. E eu não pude rir com o Demônio, e ele me amaldiçoou porque eu não conseguia rir. E o lince, que habita eternamente no túmulo, saiu de lá, deitou-se aos pés do Demônio e olhou-o fixamente no rosto. 



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Lotus Aqua Obscura

Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente…

Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente, dali eu teria fugido antes mesmo do poente efetivar-se. A verdade é que, até então, eu ignorava o domínio inenarrável dos seres Magistas sobre a realidade humana; mas ali, diante do velho em vestes míseras e ínfima voz, tive de renunciar às minhas ignorâncias, as quais, por anos, governaram-me o ser. O senil peregrinava entre os arvoredos mais úmidos e, quando colidia, por sorte ou azar, com alguma alma vivente, já de imediato iniciava a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Confesso o haver julgado um Mago, mas, revelo que não detenho tal vera; por muito ousaria dizer que se tratava mais de um demônio atormentador originário de intermúndios tétricos; ainda assim a dúvida persistia, pois que suas habilidades fascinavam qualquer deus e, portanto, não poderiam advir dos seus caídos e expulsos — o herói nunca admira o vilão. 

Antes de dar-me conta, seu timbre acre invadiu-me os tímpanos e eu fitei o sujeito franzino. Eis que, então, já não pude deter-lhe; estagnei-me à sua presença e, ao léu, o ouvi do início ao fim, e os seus lábios contavam em penumbra que a noite há de ser, por tempos, única possível; pois que os céus negros não se banharão do sol; o sol em si, negrume, cálido pousará apagado no horizonte. E nas orlas os barcos guiar-se-ão, não pelas estrelas, mas pelas divergentes sombras. O plantio noturno gerará frutos sombrios e os frutos serão ingeridos em silêncio; seus sumos violáceos serão doces, mas turvarão os corpos famintos; e as plantas, e os grãos e tudo o que vem da terra deterá sutilezas nos sabores e eflúvios constituintes. “E até as chuvas ― não duvides ― cairão como gotas de obsidianas ácidas. Por tempos todo fel cobrirá os mares e” ― descrevia — “as herbáceas brotarão dos solos e das águas e elas serão feitas de treva e a treva será insólita”. E, por cada segundo, o ancião trazia à voz etérea os pormenores daquela realidade que não nos pertencia mais, entretanto, conforme o ouvia sentia-me estar inserida nela como pertencente. “Ouça, não só escute! Pois que as árvores secretarão licor viscoso e seus galhos languinhentos soarão fúnebre sibilo que será, pois, apreendido em perfeição pelas orelhas dos ouvidores e dos moucos”. 

Tentei, ávida, retirar-me, em corpo, daquela insanidade; no entanto caíra a noite com o peso das palavras ouvidas e o peso era similar às montanhas laminadas das Cordilheiras do Sul. “Pois que das mais horríficas herbáceas, a Lotus Aqua Obscura, invicta, mui mais apavorará; o manjar de seu caule e suas pétalas em ilusão, o êxtase, provocará; e a água qual se fundamentará será mais umbrosa que o firmamento; e quisera eu não a ter degustado com afinco, pela fome miserável a corromper meu antro”. Com frêmitas mãos, o velho, de seu bolso, retirou uma caixa amadeirada cuja fragrância era de bambu e tão logo abriu-a revelando uma semente. Esticou à minha direção o objeto e gargalhou, orate, aos ventos todos que, inopinos, tornaram-se violentos. “Coma esta semente!” ― ordenou o velho. Olhei aos céus, roguei piedade. “Saberás que cada Lotus Aqua Obscura é, pois, um humano sucumbido, transformado, fadado por fim, e sentirás em tua tez o sabor da língua pegajosa e a saliva cinza dos famintos; e toda a vivência de sê-la! Tu passarás e testemunharás o veneno de suas vísceras. Coma esta semente, coma agora esta semente!” ― e pôs-se a repetir, ininterrupto, o dito final, de modo a desordenar-me a sanidade. Tomei-lhe a semente e a engoli, seca. “Assim renascerás a única planta de espírito e corpo igual aos animais desta classe sapiens sapiens, caso contrário o meu haver não mais firmar-se-á no juramento: Hei de vagar pelo mundo humano fundindo o sórdido ao vil para alertar a infame escuridão que há de vir”. 

Aflita, forcei-me a arrevessar o grão, mas, já era tarde. Presenciei os pinheiros a vergarem-se e a tempestade vir a ser e todo o sombrio a firmar-se e o homem, maldito, esvaiu como saibro em alto-mar deixando, apenas, uma abominável mensagem: a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Segurei-a em minhas mãos e senti a saliva e as línguas, e fui, na pele, a planta coloidal; e do reino Plantae espargi essência de clorofila debaixo da atmosfera fumegante em névoa, a névoa mais rara em gigante e medonho horizonte abominável. E a névoa era densa como meus olhos, os quais eu não possuía; e meus pés, que não eram pés, estavam sucumbidos ao gomoso e frio chão, o qual não era chão e, antes de haver, pois, senso sobre a insânia a difundir-se; senti sede, a inenarrável sede pelo sangue do inimaginável. A treva acima, a neblina e o terror; bem soube que era eu a plantae-animalia, pois que o veneno se açodava em minhas artérias hialinas e a maldição era hedionda e a ela eu me debruçava; assim, tão logo senti uma presença próxima e era no flúmen qual eu me firmava, então roguei pelos deuses de todos os elementos e vi ―  juro aos santos e profanos ―  eu vi o ancião perverso a, de novo, aproximar-se. E quis vociferar pelo socorro de um ser qualquer sob ou sobre a escuridão a cingir, mas eu não tinha boca e minha boca era feita de pétalas e das pétalas escorria elixir de morte e argila. 

Eis que o macróbio sórdido e vil, com violência bruta arrancou-me do pântano e levou meu venusto caule à língua áspera. E a língua áspera era cinza e pegajosa e eu vi, por fim, a névoa mais rara no gigantesco horizonte e eu a vi antes da absurda dor tomar-me o âmago. Moída em fel feneci antes da ausência ser-me única possível, chorei as lágrimas moribundas que me restavam e despertei de súbito como de uma paralisia do sono e olhei para o céu e era dia e o dia luzia tenro e afável. Nada havia além da lembrança vívida dos tempos mais obscuros que virão, onde o sol será negrume e queimará e as algas serão alimentos pútridos aos famintos e as frutas terão sumo violáceo. Retomei à angústia mais etérea, pois que agora eu detinha como cruz ao torso, a pesada revelação perturbadora e, sem ter como dela livrar-me, sendo obrigada a carregá-la comigo; tornei-me andarilha das terras humanas em busca de alguém para devorar minha própria semente.



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A Carta de Íris Cohen

Escrevo esta carta porque devo explicações aos meus familiares e queridos amigos, já que sumi há anos e, decerto, sou dada como morta por…

Escrevo esta carta porque devo explicações aos meus familiares e queridos amigos, já que sumi há anos e, decerto, sou dada como morta por todos aqueles quais amei um dia. Sei que o mundo não é mais como outrora e sei acerca de uma das razões por detrás do horror que acomete o momento; creio que aquilo que vivenciei, e que hei de descrever ― até quando me for possível ―, poderá acrescentar majestosas ― e medonhas ― compreensões a respeito de tudo, inclusive possíveis hipóteses de resolução. 

Até hoje não sei o que de fato aconteceu, não a coisa em si, mas o verossímil sentido que a cinge, contudo o que sei ― e tenho uma certeza inegável ― é que desde então sou perturbada, terrivelmente, por meio da paralisia do sono que faz as imagens daqueles instantes confusos e sinistros retornarem ao meu presente infortúnio e, como se ocorressem no exato agora, eu vejo aquele homem obscuro outra vez, observando-me, parado na janela, olhando-me como o seu retrato antigo. 

Peço desculpas se meu vocabulário se apresentar exageradamente extenso, é que a ninguém revelei este segredo e o guardo como um íntimo calvário; sinto-me, de fato, aplacada em poder segredar tudo o que sofri e não quero poupar meu léxico para tal, porque sei que isso há de aliviar um pouco esta intimidatória lembrança, de algum jeito, apesar de eu já estar velha e perto da morte. 

Tudo aconteceu no ano de dois mil e setenta e três, quando eu já me afastava do convívio social pelo cansaço da existência miserável, pela lassidão solitária que fora, por tantos anos, minha única verdade. Vocês não sabiam e não souberam que me imergi em uma vil consternação e percebi estar curvada à depressão que, tão familiar, se achegava; por esse motivo tomei a decisão de ir embora daquele extenuante e monótono lugar onde passei todos os meus trinta anos de vida e onde a vida era vivida em conjunturas esmigalhadas, ano por ano e, sim, tão assaz frequente era a minha penúria, o meu desalento. 

Dei nome às minhas melancolias e, sequer percebi, que se enraizaram como figueiras. Contudo, a desolação que me acometera nem de perto assemelha-se ao que supus estar prestes a vivenciar com o baixo humor contínuo, a fadiga e o isolamento; o horror que me acometera estava há um adeus de distância, o adeus de meu lar amarescente que era ― e eu não sabia ― suficientemente seguro.  

Contextualizo-vos que era demasiado raro eu ter um momento de prazer, o vazio sufocava meu cerne e eu estava sempre naqueles cárceres cotidianos ― os quais soavam deveras como um hospício ― e no aproximar das confraternizações de dezembro eu me sentia, em grau superior, a um poço de aversão imutável, porque o perfume de hipocrisia irritava-me mais do que as luzes piscando em cada janela de cada maldita residência. Mas eu não odiava vocês, acreditem, o ódio pertencia apenas a mim, por mim e para mim, refletindo no mundo como um espelho. Esta é, enfim, a razão pela qual realizei a fuga para um espaço na terra desprovido, o quanto fosse possível, de pessoas. Eu sentia que para que o ato de meditar alcançasse o seu cume necessário, era crucial o afastamento, eu precisava refletir em como tomar certas atitudes quais, quiçá, poderiam me dar uma última esperança de vida ― e para tal, a mudança era inevitável. 

Em poucas horas, depois de uma lancinante crise existencial, no crepúsculo mundano do dia vinte e três de dezembro, tomei as comuns doses de pessimismo após notar o quão errôneo era imaginar que meus planos seriam dignos de um plausível desfecho de realização plena, tudo isso porque eu estava prestes a ir embora da minha cidade até ser notificada de que o único trem daquela segunda-feira, único e último da semana para lugares distantes da capital, estava indisponível, sequer uma única vaga, por incrível que pareça. 

Fiz o possível para que me permitissem entrar, implorei por um lugar, mínimo que fosse, ainda que no apertado núcleo ruidoso dos vagões menos tersos, pois eu não poderia apenas voltar para casa e esvair na agonia daqueles quartos, era meu último saldo de fé. Contudo não havia condescendência. Vi com meus olhos lacrimejantes a partida desesperadora do último trem e fiquei apenas inerte, observando seu vazio deixado na encantadora linha de cobre, desocupada em seus trilhos envelhecidos. Porém, perto de abandonar a estação, visualizei um novo comboio a se aproximar; de imediato açodei até a bilheteria e indaguei o destino do, aparentemente, verdadeiro último trem, mas não souberam me informar, a verdade é que, para eles, tratava-se de algum tipo de trem particular ― isso existe? Eu duvidei, mas observei que em poucos minutos algumas pessoas adentravam-no, entregando, ao que me parecia ser o condutor, bilhetes em um dourado-escuro deveras brilhante. Não hesitei em perscrutar. 

O homem era velho, seus olhos fundos estavam distantes, no entanto a sua cordialidade ainda vívida apaziguou-me a ansiedade. Com serena voz dissera-me que o Aecqer ― este era o nome da comitiva ― partiria para Nehen, uma cidade muitíssimo afastada, além das cordilheiras de Ahvalanch. Segundo o ancião, tratava-se de uma cidade pouco conhecida, visitada particularmente por sujeitos de alto poder econômico que, com o objetivo de afastarem-se dos dias festivos, iam para Nehen usufruir dos seus belíssimos e caros chalés. Interessei-me, é evidente, mas desde a passagem até a hospedagem era preciso alguns rins de pagamento. Por sorte, ou não, o bom homem quis fazer a caridade natalina de me permitir ingressar sem bilhete ― já que eu estava em prantos incorpóreos, com a fronte franzina, cabisbaixa, demasiado abatida e profundamente símil a um ser moribundo. Além disso, o homem revelara-me que um velho chalé, o mais afastado do mais apartado centro de Nehen, pertencia à sua tia e ele poderia, pois, alugá-lo para mim com condições de pagamento menos sufocantes.  

Apesar da suave alegria que dera, pois, o ar de sua graça nos segundos discorridos após o ato de compaixão, não senti o júbilo qual expectei e, talvez por isso, sequer contestei a revelação posterior do homem ― Jonathan D’orvalho ―, mas fremi em certo grau com ela ― o que agora entendo como um tipo de aviso intuitivo. Jonathan entornava recomendações acerca da hospedagem qual eu seria obrigada a permanecer por uma semana ou mais ― eis a revelação ―, uma vez que, afirmara, não há possibilidade de retorno de Nehen até que a nevasca cesse ― qual nevasca? Eu indagaria, mas o senhor D’orvalho antecipara sua resposta e explicou que há um dia havia iniciado uma grande nevasca em Nehen e, esta, em breve chegaria às cidades centrais de Ahvalanch. 

— Aproveite, minha jovem, que há uma lindíssima biblioteca na vivenda de madeira e tire algumas horas para ler sobre Nehen. ― dissera-me no cortar de seu raciocínio; a tal nevasca estava demasiado intensa e a previsão não estava tão boa para os próximos dias, ela decerto acometeria todo o estado, impossibilitando que os trens galgassem principalmente no cruzamento do leste, a ponte estaiada, e outras linhas próximas das cordilheiras, uma vez que o congelamento da superfície poderia desnivelar os trilhos e comprometer o comboio ― o qual Jonathan não hesitou em enunciar, a cada segundo, sua tradicionalidade, fazendo questão de desvelar o regozijo que sentia por ser maquinista dos trens de Ahvalanch há mais de cinquenta anos. 

Resolvemo-nos e pude acessar o interior de Aecqer. Era mesmo um trem mais luxuoso, verdadeira classe alta, com passageiros que, mesmo sozinhos, reservavam cabines grandes para o conforto egoísta que não hei de objetar, eu também preferiria a solidão. Por infortúnio maldito, minha insistência corroborou ao objetivo primevo, isto é, eu estava de partida. O corredor do comboio era belíssimo, embora eu tenha pouco vislumbrado a sua extensão, pois eu estava apressava em encontrar a minha cabine. Eu precisava de um descanso agradável e taciturno. 

Ao adentrar a pequeníssima sala, avistei um homem sentado no sofá esquerdo, em silêncio; eu não esperava por isso e retrocedi alguns instantes na memória para lembrar das cruciais recomendações de Jonathan, em algum momento ele decerto dissera acerca do compartilhamento da cabine, acredito; eu e minha maldita incapacidade de prestar atenção, não por menos, pois eu estava profundamente sorumbática, como já vos disse, nada era mais digno de concentração do que minha própria soledade. Sorri tímida, seus olhos estupidamente claros fixaram-se em mim como duas joias raras cujo núcleo era dominado por um exíguo abismo nocivo. 

— Íris? ― Indagara-me. Sim, alguma coisa eu perdi no meio do caminho entre a conversa com Jonathan e o encontro com aquele ser estupidamente belo ― não estou, pois, lhes revelando quaisquer sentimentos senão aqueles que permeiam a pura e simples estupefação, aquele homem era belo, belíssimo, demasiado bem-posto, amedrontadoramente venusto, eis a primeira ponta de verossímil desconfiança que fiquei. Nenhum ser humano, mesmo com toda a tecnologia possível, seria capaz de ter aquele aspecto tão esplêndido. 

Meu sorriso emergido continha profundo incômodo e ao homem eu me apresentei, sim, apresentei-me e questionei-me o fato dele já saber o meu nome ― “não tire satisfações”, eu pensei, “isso não importa”, eu pensei. Eu preferia mesmo é que permanecêssemos em silêncio e, na medida do possível, distantes. Sentei-me à sua frente e nada mais lhe dirigi, desviei o olhar, pois, como um quadro, eu poderia olhá-lo pela eternidade ― e não é, pois, que estou a olhá-lo desde então? É o meu anátema, oh sim, a minha maldição. 

Desconfiada e desolada, senti os segundos vastos como eternidades de meu completo desconforto, enquanto insistia em me convencer de que Jonathan havia sim falado sobre aquele homem, embora não houvesse nenhum resquício de lembrança, nem a ínfima reminiscência, a favor desta possível verdade; senti-me indisposta rapidamente, pela veemência que a timidez atravessava minhas entranhas, além do lapso mental e todas as minhas opressões internas. 

A cabine era um cômodo pequeno com dois sofás, um de frente para o outro; a grande janela ao lado mostrava a paisagem noturna que surgia no horizonte abismal. Já do outro lado, à direita, havia apenas a porta de vidro escuro e ornamental, bem intacta, venerando o que acontecia no sepulcro daquele antro. Tentei cessar o pessimismo e o desalento até que fui novamente cingida por aquela voz; falei-vos da voz? Um grave-rouco, perturbador e instigante, de caráter unicamente persuasivo, peculiarmente imponente mesmo possuindo calma e suavidade em seu timbre. Entrevi-o sem desejar olhá-lo, mas fortemente ansiosa para. 

— Edgard Venesthron, é um prazer conhecê-la ― ele disse. Sua mão à minha direção, mirei-a em completa ausência de reação até ser capaz de tocá-la. Era absurdamente álgida. Sorri mais uma vez, constrangida e com grande transtorno inexprimível. Voltei-me à minha mala e retirei dela uma revista qualquer para minha leitura desprovida de raciocínio e conhecimento. Diante daquele embaraço acentuado, tudo o que eu almejava era passar o tempo enquanto sentia a apática friagem invernal vagarosamente se estabelecendo ao redor. Assim como eu estava exausta naquela época, bem, eu continuo, embora um pouco mais. 

Peço que me desculpem, eu não estou bem, enquanto escrevo sinto-me à deriva em um oceano de exaustão, este é o terceiro dia desde que decidi relatar-vos a experiência que tive com a sutileza vil do horrífico aquém, e agora acabo de acordar, estou sob o crepúsculo demoníaco e minhas instáveis visões estão perturbadoras, além do que estive há anos acostumada. Nesta noite aquele sonho retornara para ludibriar e decair todo o meu esforço de esquecimento, lá estava o homem na janela, como seu quadro, observando-me. Por vezes hesito em continuar a escrita desta carta, porque me pego continuamente descrevendo inúteis detalhes que não deveriam estar aqui, que tipo de relato estou fazendo? Isto não é ficção! Logro mais indulgência, quero ser mais concisa, entretanto, conforme adentro o cerne do horror, ele aparenta estar mais claro dentro de mim e não posso apenas destruir o que já foi redigido com tanta alma e que possui um caráter intensamente relevante, pelo menos para mim. Acabo de pedir para ser colocada esta noite na sala acolchoada, sei que estarei segura lá, fisicamente. 

Quarto dia de escrita desta carta e agora eu volto ao dia vinte e três, ao comboio, ao homem na cabine. A minha leitura naquela noite, notei após alguns minutos, residia em assuntos de entretenimento pouco dignos, eis a razão pela qual me dispersei ainda mais, entretanto vi pela visão paralela de minhas retinas que Edgard movimentava-se e observava-me e, antes de ousar fitá-lo em retorno, uma moça batera lentamente à obscura porta cristalina, três vezes; foi Edgard que a atendeu, dissera-lhe para entrar. A moça abriu a porta da cabine e sorriu para o senhor Venesthron, foi um largo, extenso e sombrio sorriso, aquilo me enojou de modo irracional, contudo havia alguma coisa de horrendo naquele feitio, uma face estranha que incomodava tanto quanto a beleza de Edgard que me prendia tão cruel, porém antes do prolongar de minha racionalidade a respeito daquela cena, Edgard interrompeu meus pensamentos indagando-me se eu desejava algo, quem sabe um chá. 

Nada, eu nada pedi, minha resposta esvaiu sem voz enquanto Edgard solicitava um tipo de vinho seco para a moça e lhe tratava com demasiada cortesia, algum clima acontecia ali e eu, ébria demais com a melancolia, fracassei em notar quaisquer atmosferas dissemelhantes à minha própria, que era densa e nebulosa. Isabelle se foi, sim, Isabelle ― vocês verão no futuro, caso investiguem, que ela nunca existiu, mas por hora eu vos posso afirmar que sim, tudo aquilo aconteceu, e ela foi em busca do pedido de Edgard enquanto ele ajustava seu casaco um pouco mais. 

— Uma jovem agradável por sua bela tristeza ― ele expressou, e eu não consegui compreender o teor do que afirmara. Eu estava sã, creiam, e o caráter demoníaco intrínseco daquela situação que se iniciava em espúria inocência foi exatamente da forma que vos relato. Aproveito para expor que minha doença de memória, por infortúnio, não afetou em nada o que aconteceu naquela noite e a razão pela qual verão em minha ficha a condição de “possível suicida” é, pois, que eu tento destruir, com certa frequência, as memórias, sempre me ferindo no crânio para que cada lembrança se dissipe. Vocês fariam o mesmo, eu sei, se estivessem no meu lugar e passassem pelo que passei. Se estou aqui agora, na casa de repouso psiquiátrica, não é porque sou louca, tudo o que descrevo é real, vocês terão a oportunidade de compreender melhor os motivos que me trouxeram até aqui, mas tudo tem o seu devido tempo para ser dissertado. Eu não quis tornar esta carta em algo demasiado emocional, porém, é difícil, trabalho para que ela tenha uma lógica perfeitamente formulada de cada fato e cada tétrica verdade, assim acreditarão em mim, tenho certeza.  

Prossigo, sem descanso, aquieto-me nesta casa, eu e a memória fumegante daquele momento em que olhei para o rosto de Edgard e imergi-me em sua face absurdamente perfeita ― perfeita, como um anjo, quão sinistra em sua agradabilidade, como um demônio. Não tivemos educação religiosa, vocês sabem, mas se tem alguma coisa que sei a respeito dos anjos é que alguns caíram na Terra, pelo menos dentro da mitologia cristã, e eu estou certa de que aquele homem não poderia ser humano, por vezes sei que paro para analisar hipóteses sobre a sua verdadeira origem, jamais chego à nobres conclusões.  

— Está falando de mim? ― perguntei com certo fremir em meu baixo timbre. Edgard, o maldito, sorriu para ascender a sua gloriosa forma. 

— Não, não, estou falando de Isabelle, mas, bem, você também beira as margens da consternação, então, posso afirmar o mesmo de você. ― Sua narrativa embrulhava meu estômago e eu tão rápido passei a sentir uma nascente gélida de suor em minha espinha dorsal. Voltei-me aos meus pertences, sem responder a Venesthron, em busca de uma garrafa de água esquecida para aliviar o que estava engasgado em minha garganta. O homem ainda me olhava, a sua desumana visão era tangível e tocava minha tez como se fosse as suas mãos galgazes. 

O alívio, oh sim, o alívio da sede foi transmutado na agonia mais execrável; vocês pouco imaginariam, mesmo que suas mentes estivessem banhadas do azeite fétido do averno, ainda assim vocês não seriam suficientemente bárbaros de imaginar que aquela garrafa, naquela pequena abertura, na parte frontal da bolsa, estaria ― eu juro por tudo o que há de mais sacrossanto ― abundante no mais rubro e denso sangue, cheirando à ferro; era assim que estava, escoando como se crivada intencionalmente ― quem dera, quem dera fosse uma divagação. 

Assustei-me com um furor tão descomunal que mais célere do que era possível prever, como um reflexo, um feixe de luz frenética, arremessei aquela coisa na janela e a vi espatifar... todo o sangue verteu e terrificou ao jorrar-se em nossos corpos. Fiquei atônita e imóvel; o sangue borbulhava e, como exprimir o inenarrável? Aquilo era... tão impossível..., mas ao mesmo tempo era nítido de modo intimamente infernal. 

Uma eternidade de mudez pela paralisia perdurou até ouvirmos Isabelle novamente à porta, olhei-a na escuridão fugaz de minha visão estendida, provavelmente, pelo pavor. Isabelle adentrou a cabine, entregou ao homem o vinho seco e partiu. Desta vez sua feição era mais horrenda, como se ela estivesse sorumbática e fizesse, eu pressenti, o possível para não se virar para mim, portanto, não pude vê-la completamente, ela se foi mais apressada do que antes e aí está mais um sinal de que sua realidade não era a mesma que a minha e que a sua constituição não era a constituição humana. Ela simplesmente não notou o sangue e sequer questionara o estrondoso som, como pôde? Eu estava tão perturbada, posso sentir na minha língua agora enquanto discorro estas letras de infortúnio; mais do que isso, eu estava intrinsecamente inibida pelo horror, pela face do mais grotesco horror.  

Mas... o sangue... Sangue? Não havia sangue, não havia água, não havia garrafa. Edgard bebia o seu vinho e olhava atentamente para mim com seu ar galanteador enquanto eu não encontrava nenhum vestígio da cena terrífica. Em um átimo... tudo se foi... nada do mórbido ebulir férreo sobre o rubro oxidante que tão há pouco fora apreendido, nada daquilo estava acessível na realidade. Eu... eu me desolei... minha alma pesou na difícil e funérea sensação de insanidade; tudo o que me faltava, pensei, era me tornar uma louca e, no íntimo mais soturno, depressiva; senti que em meus olhos as lamúrias brotariam como erva daninha e que, na relva aparada da angústia, as águas salgadas verteriam para alimentá-las e fazê-las proliferarem-se até cobrirem todo o meu corpo e me estrangular, mas eu as interrompi quando Edgard questionou-me: 

— Está tudo bem? Parece assustada. Foi o que eu lhe contei? Se for, por favor, não tema, isso é tão somente uma coincidência ― alegou Edgard. Eu estava sim aterrada em pânico, no entanto fui capaz de questioná-lo ― de modo um tanto incivil, admito, o que o deixou sutilmente austero, seus ares triunfantes diminuíram, todavia eu simplesmente não sabia do que ele estava falando e a seiva do inferno respirava no meu intestino. A resposta de Edgard foi sensata e em absurda genialidade, não pelas palavras em si, mas porque o que ele dizia era irrefutável e por isso me acometeu ainda mais a sensação ordinária de ambiguidade meândrica. 

“Você indagou sobre o que faço e eu lhe disse que sou escritor e lhe apresentei, em suma, um dos meus livros sobre uma mulher curiosamente chamada Íris” ― explicou. Eu não sei o que houve entre a busca por uma garrafa de água até o sutil instante não vivido de um diálogo tão perfeitamente formulado. A seiva gotejando da janela ao chão frígido ainda reluzia e cintilava como um astro no meu pensar. “Você também disse ser ilustradora” ― acrescentou. Levei minhas mãos à minha testa e tentei compreender o que acontecia, eu só podia não estar atenta aos horrores daquele momento por causa da maldita melancolia ― é isso, meus caros, a tristeza profunda, o vazio.  

Que sirva de lição a todos que lerem este relato, a condição depressiva é o pior de todos os males, é como se o corpo rejeitasse quaisquer informações de caráter perigoso ou duvidoso e, portanto, não se qualificasse na tarefa de ativar seus instintos de proteção e sobrevivência; estar vulnerável ao mundo, sem filtro, sem cuidado, e com disposição contrária, é um erro, o pior de todos os erros inconscientes. Olhei para a janela de novo e pensei no cenário estendido em exagerado breu, nada além da obscura paisagem enquanto o pouco silêncio, que se propagava na cabine e acolhia-me em toda a aflição gélida, foi mais uma vez obstruído pelo meu sentir nauseante, suspirei a dor, quis me controlar, mas as grandes aguilhoadas em minha cabeça, como golpes bestiais, acometeram-me de modo inenarrável, era um tipo de enxaqueca nímia que me fez levantar e sair da cabine em busca de um banheiro que me permitisse a solidão. Levei comigo alguns de meus remédios, cujas receitas estão anexadas a esta carta para garantir-lhes que nenhum deles possuíam efeitos colaterais alucinógenos, sim elas estiveram comigo até hoje porque precisei delas muito mais, uma vez que as dores se estenderam continuamente dia após dia desde então. Não observei bem a reação de Edgard, mas, dentre as confusas e inconstantes visões causadas pelo sucessivo fechar de olhos como reflexo dos árduos espasmos, ele parecia incólume frente à minha reação febril e súbita. 

Foi então que me vi no corredor, aquele corretor que outrora era magnífico e que naquele momento tornara-se análogo a uma dimensão de severo esconjuro insuportável, em certo nível de turvação eu observei as cabines pelas singelas frestas dos vidros das portas ornamentais e me vi mais do que espavorida diante daqueles corpos; as pessoas estavam apáticas, estáticas, secas e todas com um semblante de horrenda agonia; muito semelhante à Isabelle, embora cada indivíduo expressasse um suplício tão próprio. Aquele calvário insólito arrefecera-me, o abalo cerebral ainda pulsava quando me vi apressada em busca de um refúgio do cenário aziago que me vinha de encontro. E a cada passo, um agouro; e o som do trem em contínuo oscilar. Indago outra vez, seriam vocês capazes de conceber a ideia de um espaço subvertido, outrora tão admirável e então, em um átimo, um mofino átimo, integralmente enfermiço? Os rostos, os risos, as consternações mórbidas. Não era magia, não, sequer um tipo de trabalho pagão cuja oferenda era, pois, eu mesma; não, não se tratava disso, eu podia sentir por cada um dos meus cinco sentidos; era algo bem pior do que tudo o que já havia sido visto até então.  

Encontrei um lavabo e fechei-me em seu antro estreito, de imediato coloquei dois comprimidos em minha boca e com a água da torneira tomei-os, mas, em desespero não a vi de imediato, só a vi quando fitei aquele espelho de moldura ornamental à minha frente, a água que eu bebia era imunda e negrume, embora de gosto neutro; ela tinha um aspecto esverdeado e nojento, sim, era como ter um pântano na língua, ó mais um pavor! Assustei-me tanto que abandonei o cubículo com mais pressa do que antes, para tentar despertar a mim mesma daquele pesadelo deletério. Quem dera fosse só um pesadelo de uma noite conturbada, quem me dera. Foi mais um daquele piscar tão singelo, a visão toldada, e eu estava de volta à cabine, não sei exatamente de que modo consegui passar pelo cemitério dos vivos, dos semblantes infelizes prostrados em perturbação e afetados na paralisia imortal de seus introspectivos desgostos, não sei como, todavia, consegui e eu estava na cabine, meu cérebro ainda pungente na agonia, e eu olhava para Edgard enquanto ele admirava um papel à sua frente, fascinado, com sua fronte em límpida formosura, tão diferente dos demais rostos enlutados na desgraça. Quis revelá-lo o meu horror por um segundo, mas esmaeci nas ondas de seu proferir. 

“Está perfeito! Você é uma exímia artista!” ― Sem compreender e completamente espantada, recebi de Edgard um papel e eu o vi. Ali estava uma ilustração em grafite com o rosto de Edgard numa janela de um tipo de quarto numa casa rústica. Era uma ilustração perfeita, bem próxima as que eu fazia quando jovem ― hábito que perdi com escassez mundial de papel. “Sinto-me honrado por esse presente, mas, por favor, assine!” ― pediu. Onde estava todo o sangue e todo o horror da água negra? E os rostos e as intensas dores? Quis dizer-lhe que eu não havia desenhado aquilo, mas, a melancolia, o medo... entreguei-lhe o papel sem assinar, eu apenas queria fugir, mais uma vez fugir, fugir era a minha lei, o meu único possível, e eu pensei que estava salva quando o trem parou, havia se passado duas horas e a viagem chegou ao seu fim, não posso afirmar saber como todo aquele tempo passou, soava-me no máximo meia hora, eu não sabia se estivera mesmo em um sonho ou se tinha sido envenenada ou se algo entre o espaço-tempo trouxera a lacuna mais perturbadora de minha existência, eu não sabia e naquele momento como eu poderia saber? 

“Eu... preciso ir” ― eu disse com dificuldade, Edgard apenas sorriu para mim, de novo, acenou com seu chapéu e viu-me deixar a cabine levando comigo todo aquele martírio. Eu não olhei ao redor, esbarrei naqueles corpos que se retiravam do comboio, mas eu não os fitei; fui o mais rápido que pude para fora daquele poço, mas ali eu já estava completamente submetida ao horror aspecto de Edgard Venesthron, sua imagem não esvaía, sua voz não se esquecia e se eu não estivesse tão assustada, voltaria para questioná-lo e para, estranhamente, só estar com ele. É isso que ele faz.  

Cheguei até Jonathan, vocês podem imaginar o quanto fui rápida, eu queria descansar do caos que se repetia em minha psique ou, ao menos, entender um pouco de seu fundamento, algo me alertava que aquele homem quase inabitado por palavras não deveria ser real e esperei em Jonathan encontrar as respostas quais eu almejava. Lá estava ele, se preparando para deixar o ofício amado, embora provavelmente descansaria em alguns minutos e retornaria para a capital. Tão logo ao me encontrar, Jonathan questionara, solícito, sobre minha viagem e eu ainda mais inocente afirmei-lhe que o homem com o qual dividi a cabine era um tanto excêntrico. O homem qual eu dividi a cabine. Edgard Venesthron. Quem sabe alguma informação pertinente, não é mesmo? Algumas informações sobre a origem de Venesthron, porventura seu contato ou quiçá um reconhecimento singelo que me acalmasse ao afirmar, mesmo com astúcia, meu equilíbrio psíquico, entretanto, tal como eu imaginei, as expectativas caíram por terra. “Ó, não, deve haver algo errado” ― afirmou o senhor D’orvalho. “Eu a direcionei a uma cabine vazia e, pela lista de passageiros, tudo estava perfeitamente correto, era previsto que uma cabine estivesse vaga” ― declarou, eu não insisti... Edgard Venesthron... Edgard Venesthron estava lá, não pode se tratar de um delírio ― pensei ― tampouco de algum outro tipo de deslize mental, seja qual for, as cenas eram vívidas e indiscutíveis ― eu quis me convencer. Não fui capaz de indagá-lo, é verdade, sequer de dizer o nome de Edgard, pois, temi ter minha estabilidade questionada e, consequentemente, não ter mais minha estadia permitida nas vísceras de Nehen. “Minha querida Íris, vamos, venha, eu a levarei para o chalé agora, tenho pouco tempo para voltar à cidade depois disso” ― advertiu Jonathan. 

Meia hora até a moradia mais afastada de Nehen. Pelo caminho aprendi que na historicidade daquele pequeno lugar-nenhum, havia, pois, uma estirpe que por séculos governou a restrita população da cidade lá no centro, onde casas populares se ergueram. Na época os chalés eram poucos, mas bem funcionais para o turismo que abençoou mesmo a população mais simples. A família-governo, aparentemente justa, sempre dividia de modo razoável todos os ganhos conseguidos com os aluguéis em temporada de inverno, de modo que todos os moradores mais simples puderam erguer seus próprios chalés e passaram a alugá-los pouco tempo depois. A população continuou morando no centro, com a fonte de renda principal vinda dos chalés e, claro, do comércio local. Embora essa história me soasse profundamente interessante, eu só conseguia pensar em Edgard, em sua face perfeita e o horror entorno de sua existência, entendo o esforço de Jonathan em entreter-me com aquelas explanações, eu quis dar-lhe atenção, mas fui incapaz. 

Tão logo ao chegarmos no Chalé da família D’orvalho, percebi que havia muitos quadros antigos, pinturas clássicas de rostos e pessoas desconhecidas; segundo Jonathan aqueles eram da estirpe governante de Nehen e aquele chalé pertencera a eles até que o último herdeiro conhecido o doou, ficando apenas com o castelo das montanhas; o indivíduo faleceu ainda lá e dizem, pois, que sua alma vagante permanece nos cômodos obscuros do alcácer ― esta foi a explicação de Jonathan. 

“Quem foi o último herdeiro?” ― perguntei e a sua resposta misteriosa poderia ter me atiçado a curiosidade se não fosse pelo meu estado de espírito tão débil.  

“Você saberá quem é, está no belíssimo quadro fixado à parede frontal da suíte” ― explicara. 

Fui deixada na casa com os quadros e os rostos, a madeira escurecida e o frio. A lareira estava acesa e eu analisei cada espaço dos cômodos de meu atual lar. Para o meu infortúnio havia mesmo uma imensa moldura no quarto e, imaginem, ela carregava o rosto de Edgard pintado em tinta óleo. Eu não dormiria naquele antro ou assassinaria aquela maldita pintura, foi o que pensei, mas aquela beleza chamava-me e observá-la era uma sede imoral que me acometia com furor, ó, e que furor! Acomodei-me na sala por um tempo, mas tão logo retornei ao quarto e por ali permaneci, com o rosto de Edgard observando-me cuidadosamente como uma negra coruja à espreita, acima dos altos galhos de um carvalho seco. Os olhos azuis, a perfeição. 

Eu apenas o fitava, demorando-me a piscar, para contemplar toda a sua graça inenarrável e assim se estendia a noite lúgubre e a cada segundo eu me envolvia mais à sua simetria; foi neste contínuo admirar que um tormento se revelou em assombro perturbador, taciturno e hediondo. Levantei-me da cama com lassidão exacerbada ― com meu corpo tão ártico e minha alma dilacerada na ilusão do encanto ― e aproximei-me do quadro, sem tirar minha visão de sua inquietante sublimidade. Assim ousei tocá-lo e ao fazê-lo uma vaga sombra acomodou-se pelo quarto, sim, de modo indizível, desalumiada atmosfera; como se uma névoa alvacenta viesse devagar pelas frestas, nas janelas e portas, em quaisquer tênues lacunas. Era como se todas as luzes diminuíssem e se tornassem estranhamente rarefeitas. Toquei-lhe toda a extensão do rosto e não me apeguei ao horror de estar, pois, da mesma estatura que eu, sim, o quadro, não estava imenso como estivera se observado em distância considerável; ao me aproximar toda a sua dimensão foi afetada, era como vislumbrar Edgard em sua real constituição, bem à minha frente, separado tão somente por uma camada de óleo, pigmentos e tela. 

Toda a experiência macabra do sangue e das águas negrumes e dos rostos sorumbáticos que estivera até então singularmente inexpressiva em mim ― como forma de privação do que achei ser minha loucura ―, retornou vívida quando meus níveos dedos harpejaram os lábios enrubescidos do quadro, com o cuidado de quem toca um instrumento divino pela primeira vez. Hesitei, levei minhas mãos ao meu rosto suado, a dor de cabeça volveu e eu ouvi, claro que ouvi, era a voz de Edgard vindo da biblioteca já mencionada por Jonathan antes mesmo de minha viagem. Olhei imediatamente para a porta e vislumbrei o corredor, caminhei devagar, ó como era nítida a sua voz clamando meu nome como música fúnebre; eu tive a esperança de vê-lo, uma tétrica esperança de intransigente autenticidade que posso descrever-vos como uma reza ― eu jamais havia rezado antes daquela viagem, entretanto tive de aprender e agora eu sei que me acometia, pois, uma sensação de prece ao mais bondoso de todos os deuses enquanto, no íntimo, eu almejava e esperava com afinco o perturbar do mais feral demônio.  

Cheguei ao recanto, abri suavemente sua porta maciça e barroca que rangia insalubre, e adentrei. As estantes eram altas e perfeitamente arrumadas, embora com bastante poeira, senti-me instigada com o conhecimento que jazia ali, pois os títulos dos exemplares ressoavam a antiguidade de suas histórias rompendo a barreira do tempo, muito mais do que eu poderia prever. Tateei devagar cada um deles nas imensas prateleiras ― muito embora eu estivesse tensa e ainda com aquela enxaqueca dos precipícios de meu averno. Eram obras raras, percebia-se pelos títulos, muitos em latim e outras línguas quase mortas. Observei por minutos longos todos os abandonados papéis na escrivaninha também, documentos perdidos ― indaguei-me sobre quantos anos alguém não inspecionava aquele recôndito, era tão grandioso. A grandiosidade daquele lugar, entretanto, não trazia sentires fleumáticos, sua aura agoniava e minha abominação renascia das covas, reencarnado em estranheza e medo, muito mais quando os dois candeeiros próximos à escrivaninha se acenderam em chamas negras e, ainda, reluzentes, trouxeram a voz de Edgard outra vez. 

 Se não fosse o seu valor, para mim, tão estranhamente fascinante, eu decerto teria fugido daquele lugar no momento seguinte de sua voz ter, pois, espargido pela primeira vez na densa neblina que cobria cômodo a cômodo; ou ainda o teria feito logo ao ver o quadro na parede; contudo Edgard era fascinante, deslumbrava-me, horrorizava-me e seduzia-me. As circunstâncias favoreciam a permanência, além de meu completo abandono aos recursos primitivos de autocuidado, o feitiço daquele ser já morto ― e revivido por algum tipo de patogênica alquimia ― conseguia cativar toda a minha atenção e assim me fazer estar ali. Foi por isso que não fugi ― tal como me era ordinário fazer ― e, por consequência, as escuras chamas, em um paradoxo inconcebível, iluminaram um livro na estante e, neste livro, eu não sabia, o feitiço fúnebre habitava do mesmo modo que a tragédia e a agonia me habitavam. 

A obra estava na segunda prateleira atrás da escrivaninha, era a única de capa cor gaultéria, escrito em dourado rústico. Acerquei o exemplar com todo o desvelo que a mim mesma jamais doei, sem esforço notei que meu nome era proferido bem ali, aquela era a fonte da voz de Edgard e que harmonizava com a ansiedade que me sorvia: “Íris... Íris” ao passo que segurei o livro, finalmente, muito apreensiva, e li seu título cursivo: “Minha Íris” escrito por Edgard Vanesthron, todas as agulhadas em minha fronte esvaíram como chuva de verão assim que li aquele título, e o vazio deixado pela dor ocupou-se de sua lembrança, para me oprimir silenciosamente; junto dela, uma expectativa infesta de encontrar na leitura compulsiva, sob a rédea do extraordinário, algo próximo a um vínculo sentimental, além, claro, da avidez desvelar o que havia nas páginas daquele livro e por que ele me chamava e por que encontrei Edgard ― ou o seu espírito ― em meu caminho. Pelas indagações e pela diabólica atração, decidi lê-lo, inda que debaixo da angústia que advinha da asfixia, do pesar árduo que me consumia e da afronta que me esperava, serena, para o xeque-mate. 

Vislumbrei as primeiras folhas de seu interior, e admirei-me ao ter a consciência de que eu estava mesmo ludibriada, o apego na possibilidade de estar frente uma majestosa, romântica, ― e mais ainda ―, mágica e cálida história, repercutia em meu espírito sigilosamente, por conseguinte comecei a ler cada singela sílaba em voz alta e nítida, ato este que cessara sem que eu percebesse e não poderia ser diferente, toda a formosura exacerbada protege uma verdade dantesca vinda de suas entranhas e eu comecei a notá-la assim que me embrenhei na primeira estrofe. O bálsamo daquela simetria de Edgard, a ambição por seu tom, a ganância por suas retinas, a vasta relevância de seu enigma e, por fim, o meu caos afetivo, chocavam-se com a factualidade coexistencial, tão mundana, discorrida naquelas folhas cor de pólen, arfando-me frente a tal medonha malignidade. 

Edgard escrevera cada coisa ― repito, cada coisa ― acontecida no período da viagem que fiz em Aecqer, acreditem ou não, estava escrito e possuía detalhes meus que nem mesmo eu poderia saber; como se não bastasse, a dissertação incluía os pormenores funestos da mente daquele sujeito ― quem me dera nunca os ter conhecido. A assustadora narração do amaldiçoado romance transtornou-me a um pânico umbrífero, paralisei, a verdade era-me intimamente aterradora, minha sepulcral condição anterior a tudo aquilo jamais seria símil à mediocridade da vulnerabilidade que compreendi estar sujeita sabe-se lá desde quando, pois, se a narração se iniciava no trem, como julgar que tais presságios terríveis não vieram de outras histórias absconsas? Quais eram as magias ocultas invocadas por Edgard? Que tipo de diabólica premonição era aquela? Sua sombra estava sobre mim e como eu me lembro... lembro-me tão bem e posso, e irei, transcrever agora até onde minha mente suportar. 

“Eu estou morto ― onnomapherhesí ― todavia, pelo antro de Pherhesí, veem-me ressurgir como anima, tão consciente, como se vivo; em vida redigi a beleza execrável do que acontece ― onnomapherhesí ― no futuro, no dia vinte e três de dezembro do ano dois mil e setenta e três. Ela, de nome Íris, com agradável aspecto, está digna e pronta  ― onnomapherhesí ― para os horrores que estou cometendo, a começar pela angústia lôbrega que faço jorrar aos seus lábios de sepulcral-escarlate. Eu a escolhi e ela é minha, pertence à fonte primeva de Pherhesí, esta fonte que eu sou, assim,  ― onnomashryos ― por meio da permutação, fazemo-nos uno espectro das sombras de modo a germinar o primogênito do vigésimo segundo século, o século da soberania  ― onnoma ehret ― de Pherhesí. Meus planos são incontáveis, minha sede é a sede de Pherhesí e eu estou em Aecqer, o comboio, e eu espero Íris pacientemente ― Aecqer phrephahen ― tenho o poder de ludibriar estes seres da terceira dimensão, pois já não faço parte dela e, mediante Pherhesí, eu sou imortal, eu ― onnomashryos ― abismo o novo mundo com o meu eterno retorno. Íris alcançara a languidez precisa para o meu desvelar como anima e, por isso, não há dúvidas de que eu a conduzo pelas palavras originárias.” ― escrevera. 

Como eu gostaria de olvidar aquilo tudo. Cada frase daquela primeira estrofe ressoava em meus ouvidos, minha voz não tinha vigor algum para ler, mas o quadro lia, ó sim, mesmo estático, mesmo no quarto, mesmo distante, ele lia ao pé de meu ouvido, tão limítrofe à minha cerviz com sua névoa agora opaca a incensar o ambiente de madeira; o seu vil poder fulgurava e eu, apenas e por demais, lia. Nenhum tipo de oxigênio parecia ser capaz de alcançar meus pulmões, tudo isso no parágrafo exordial; meus olhos, no entanto, transitaram frenéticos na alínea seguinte e eu não pude contê-los. Compreendam que a dificuldade de transcrever a memória tão estável daquelas páginas crescera, pois agora absorvo Edgard se aproximando de mim outra vez, posso assimilar sua presença prestímana como há tempos não apreendia e, por isso, minha dúvida a respeito de conseguir continuar a redigir esta missiva arde bem mais do que outrora, arde tanto que já não durmo porque eu sei, ele estará lá para me aprisionar. Tenho certeza de que as palavras ― as malditas palavras impronunciáveis e repetitivas ― são a razão do que agora me acomete, deste intrínseco desespero, desta medonha sensação de companhia. Sempre que penso naquelas palavras, uma consumição emerge insípida e se demora a esvair; não seria diferente agora em que as escrevo, aliás, talvez por escrevê-las, tenham mais poder sobre mim. 

“Quão bela, minha bela, minha Íris; sinto seu choro, ouço o seu pesar; cada passo seu conta-me um desespero singular que traz cálido conforto ao predomínio de Pherhesí. Quando o corpo de Íris adentra a cabine de Aecqer, eu vislumbro a sua sujeição ― onnomashryos onnomapherhesí ―; profiro seu nome para deixá-la perturbada e ela está perturbada tal como aprecio, possuída de uma soturnidade nímia cujo perfume declina-me ao fogo do inferno profano. Seus pensamentos são estes ― onnomapherhesí ― de angústia e incerteza: “Jonathan dissera-me a respeito deste homem? Que beleza estupidamente fascinante! Estes olhos, parece que posso fitá-lo pela eternidade.”; assim ela se senta e promove cada um de seus questionamentos ao obscuro de sua melancolia, é assim que eu a quero e por isso é assim que acontece, mesmo no furor de sua razão, toda a autopreservação há tempos lhe foi tirada, para ser digna e estar pronta ― onnomashryos onnomapherhesí. 

Apresento-me, embora todo o seu corpo já me reconheça; ela sorri no embaraço de seu incômodo ardiloso. Isabelle surge, tal como previ, para trazer-me um pouco de vinho; nada disso é real, mas sei que envolve Íris de modo a apaziguá-la para o que há de vir, seu desconforto é a minha morada, de fato, e traz as pujanças cruciais para o efetivar da primeira das suaves ilusões que tramei há muitos anos, desde quando sua elementar treva formou-se no cerne da sua desgraça, eu poderia achegar-me na realidade tangível que a cinge sem os jogos quais aprecio, mas sou em demasia admirador da beleza fúnebre, por isso oscilo a serenidade com o pavor, o horror com a angústia, a agonia com a quietude, ó quão aprazível. Aqui está, minha Íris, em busca de alívio, vejo-a e faço a minha seiva viva em suas mãos, a reação de seu rosto tristonho, ó, tão delicada, tão deslumbrante lutuosa constituição, transforma-se em pavor atônito partindo de uma reação súbita. O sangue que ferve tão logo se orvalha sobre nós, admiro-a na repugnância e ascendo o poder de sohmphorhen”. 

Devorei suas palavras como um demônio devora um ser vulnerável, como Edgard devorara-me e devora novamente pelo seu retorno hediondo. Sinto-me nas anuviadas ojerizas, possuída de fraqueza e aversão. Acreditem, o que li perfurou-me tão inerente que, como posso explicar, toda a índole lúbrica, a feição mortífera, o traço indigno comprimiam meus órgãos e impediam-me de sustentar vida. Estava, igualmente, cada vez mais árduo sustentar o corpo; as minhas pernas trepidavam tal como minhas mãos vibravam, todo o meu equilíbrio se desestabilizava e meus sentidos alçavam cumes opostos, de minuto a minuto; eu era capaz de ouvir o crepitar da lenha na sala e a efemeridade das percepções queimavam no meu calvário. Eu gostaria de ainda ter aquele livro e eu o teria em minhas mãos se não fosse pela fúria de queimá-lo, instigada pelo crepitar, na busca pela sanidade e pelo aprumo, apenas queimá-lo e assim vê-lo desfazer-se na magia tétrica das chamas umbrosas. Demorara a, para a minha infelicidade, advir este esforço de coragem, uma ou, quiçá, sete mil eternidades ― assim soava para mim, pois o afã, ah, o afã em ler as palavras daquele ser inumano, o afã era o flúmen das veias minhas, a torrente de minha paixão inconcepta e de minha aversão conjecturável. Se não fosse tal híbrido afã ― não importa, essa é a verdade, sem a avidez ou com ela, o destino seria o mesmo, minha via-crúcis esteve sempre consumada. 

“Íris, ó, minha Íris, tão estática, aproximo-me de seu corpo e perfuro o portal para o seu espírito, delicadamente, seu eflúvio é agradável e quente; introduzo ali, em êxtase, a minha figura pelo fragmento de minha alma; minha infeliz adorável se assusta e está mais pálida, contudo ainda imóvel pelo pavor, porque o poder de sohmphorhen faz ― onnomapherhesí ― conservar-se a condição inerte de minha desventurada e de todos os pobres infelizes que estão sob o controle pérfido e magnífico de Pherhesí. Ssahmqenehr, Ssahmqenehr Pherhesí, seu poder conduz a humanidade através do espelho de mim sobre o corpo de Íris e sobre o ser do primogênito; tudo o que desvelei e desvelo de sua consciência é a chave etérea, ó Ssahmqenehr Pherhesí, crio mundos com o seu poder, destruo dimensões que se negarem a perpassar a sua grandiosidade ― onnoma ehret. Agora em minhas mãos está Íris, sorrio porque isso a amedronta, a noite é obscura, pois esta é a reação universal diante Pherhesí, o fundamento responde ao poder do fundamento quando este é exposto pela fundação; a criatura é maior agora, e está acima do criador. ― Escute, minha Íris, na eternidade de sua subjugação, retirarei o único fragmento de júbilo que descansa em sua alma, retirarei através de seus olhos pulcros ― digo-lhe, suas lágrimas esvaem em pavor; sorvo-a e sua feição se torna fantasmagórica, sorvo-a pois que foi essa a minha atração desde o princípio, a troca de almas, a eternidade em lembrança e melancolia; neste plano eu a destruo devagar para que refulja sempre e tão somente o seu merencório ser, para a efetivação do perfeito devir do primogênito”. 

Porventura haja uma desconfiança, eu sei, estes relatos seriam mesmo reais? Sem o livro de Edgard, provar sua existência é laborioso, mas, tenham certeza de que nada disso viera de uma criatividade bestial, reviver verso por verso, eternizando-os na escrita outra vez tem me destruído, minhas crises pioraram, as paralisias se estendem a pequenos comas obscuros; foram duas paradas respiratórias nos últimos dois dias, está tudo relatado e a tudo isso vocês terão acesso, esteja eu viva ou não. Sabe, reside em minha natureza um imensurável medo de morrer, desde que vi e li Edgard, a morte é o palco de meu drama e, jamais, as cortinas; será que encontrarei ele, o escritor, em algum outro lugar além? Sinto que sim, algum outro lugar além de minha própria alma. Edgard espera-me e eu temo, porém, entrego-me, porque não há circunstâncias suficientemente nobres que signifiquem a vida para mim, ele tirou tudo, toda a ledice, toda a esperança; era mesmo demasiado raro eu ter um momento de prazer, agora é apenas impossível. 

 “Ordeno a vinda de Isabelle, a alma vagante que encontrei ao vagar minha própria alma jamais desvinculada do que foi, em vida, redigido por meio de Pherhesí. Denomino-a Isabelle para fazê-la real, nomear energias perdidas, eis um inquestionável fato, enleia-as àquele qual as nomearam. Portanto posso moldar, e moldo, a face de Isabelle no horror que me convém, seu corpo é também a minha criação desde que proferi: ‘sehsqor phrephahen’, e sua estrutura humana instituiu-se. Ela adentra para quebrantar a híbrida realidade que transmutei, para abrandar a paralisia sublime de sohmphorhen e trazer meu ilusório líquido. Ordeno que se achegue disposta, sempre apaixonada, e assim apreendo as nuances do encanto de Íris por mim. Íris está no êxtase da melancolia, o apagar da chama frágil de sua alacridade demonstra o efeito esperado, além disso, está estarrecida e confusa com a ausência de todos os elementos sanguinolentos que ludibriei para terrificá-la, é assim que deve ser; digo-lhe sobre nosso diálogo jamais existido, pois não é preciso haver, de fato, já que sei tudo sobre Íris e a manipulo devagar, conforme sua abertura natural chama por mim; sinto-a mais intricada, tanto que suas dores floreiam tal como previ ― suas dores indicam o efeito de estar, pois, em elo com o que está do outro lado, isto é, comigo. Ah, o outro lado, a morada de todos no pós-vida, somente eu, contudo, sou capaz de fazer o que almejo neste lugar-nenhum, só eu possuo Pherhesí. Íris guardará um abismo, assim a preparo, este abismo a deixará no futuro para o vir a ser do primogênito, no entanto, ela jamais se esquecerá deste abismo, pois ele sou eu; hoje ouve minha voz e vê minha face e se deleita e se terrifica, amanhã há de odiar e amar a lembrança.” 

 Mas há muito, há muito o que vos segredar ― que naquela noite eu desvaneci na agonia mais pútrida, sim, dentro do silêncio mais violento e sem saber como respirar, ó sim, decerto pela alma de Edgard em meu âmago eu fui afetada; ele sabia tudo o que fiz e deve saber o que faço, ele escreve-me desde então, e talvez guie assim minhas próprias ações. Não sei quantas noites passei imersa naquela atrocidade inenarrável, e a escuridão sombria aos olhos vinha como lapsos de imobilidade e tempo, semelhantes ao que acontecera no trem, cenas de indescritível aflição de minhas próprias mãos contra meu próprio corpo, tudo tão frequente e febril, como se eu tentasse destruir tudo o que Edgard penetrara em meu espírito; assim não vi brilhar dia algum; todo o tempo estive com cada uma de suas frases que li se repetindo como um sempiterno sino de mortuário, em especial aquelas que estruturavam a última estrofe que fui capaz de ler; aquela hediondez que no mais inconsciente de mim, eu sei, compreendi, pois foram elas que me levaram à fúria.   

“Há de beber sempre este meu dissabor ― eu digo ao vê-la de joelhos com suas escleras fulgurantes enquanto me ilustra com seu grafite a cena que há de se repetir para sempre em seus pesadelos ― abri-lhe os lábios trêmulos e dei-lhe o licor do infortúnio, da blasfêmia, do mais horrífico vazio perturbador que eu sou; e ela bebeu, sua ébria mente tornou-se ainda mais sã sobre sua absurda desolação; agora cada noite mais escura ser-lhe-á e sendo mais escura, há de verter-lhe a solidão e o desconsolo, prostrada ao soturno que eu sou, e ela assina seu eviterno elo comigo, porque toma agora minha essência desta fonte primeva, e ergue-nos ao novo gênesis de um nascimento. Toco-lhe o rosto frígido ― Você pertence ao meu aflito pranto agora, às minhas trevas e à minha atra luz, e chamarás, pela eternidade, o nome de meu fundamento, para que eu lhe afogue no mais côncavo de meu oceano elegíaco e guie todos os seus rumos. O primogênito há de tomar o meu reino e abrir as portas dos últimos abismos ― sussurro-lhe e preceituo, ela obedece e diz, para manar-lhe, por fim, toda a nequícia cruciante: Srhyos ― ela diz por que há de sempre dizer ― Srhyos.”  

Não sei bem quando fui encontrada, mas eu estava franzina, violácea e sem forças, em meio à branquidão, e só sei disso porque os médicos me revelaram. Fui levada às pressas para o hospital por um lenhador e permaneci desde então entre o horror da lembrança e a vida que perdi, e como perdi, mais inacreditável do que vocês possam devanear, eu fiquei um ano desaparecida. Do dia que narrei em perfeição de detalhes, vinte e três de dezembro de dois mil e setenta e três, ao dia vinte três de dezembro de dois mil e setenta e quatro. Um ano de fragmentos. A maldição e meu martírio são infinitos; desnutrida, fantasmagórica e sozinha, após ondas bárbaras de demência ― só podia ser loucura, não é?  

A perturbação do mais hediondo, a tortura da não-morte e do não-morrer, tudo era minha insânia, eis a resposta do mundo, insânia, nada além dela, alienação e desatino, mesmo que as cenas ditem o contrário e revelam minha luta para sobreviver naquele lugar. Pouco depois de me ver no hospital, consciente, um escândalo floresceu no meu imo, o caos por uma busca: o bebê. Sim, eu só conseguia vociferar sobre o bebê, eu o resgatei na lembrança das cenas vividas naquele ano extraviado e que me vinham em clarões, como reminiscências de um sonho. Doutora Paole contara-me com uma delicadeza indizível: “Os exames revelam uma gravidez, mas, infelizmente, você estava sozinha quando foi encontrada”. Foi entre os pinheiros densos das cordilheiras de Ahvalanch que sangrei, mas não morri, por uma fuga em busca de salvação e, sim, a morte daquele ser vindo de uma imunda concepção de almas, apenas almas, quão horrífico! Não sei como, dei-lhe à luz na neve esquálida e o perdi para a escuridão. 

Fui encaminhada para o hospício porque as paralisias traziam sempre alucinações e eu, como um explosivo, buscava a morte súbita ― não queiram conceber a ideia de um eterno nascimento maldito em seu útero, dia após dia. Permaneço aqui porque é preciso... eu sei, eu sei que deveria lutar para defender minha sanidade e talvez retornar àquela mansão tétrica e encontrar aquela criança... eu sei. Mas a confusão que me toma é o maior obstáculo e as crises são nefandas, eu não compreendo o porquê de tudo isso e sei que não hei de compreender, talvez se eu tivesse lido o livro até o fim, para saber meu exício e o começo da vida da criança, talvez. Eu nunca fui uma heroína, eu sinto muito, sou o soturno medo, dominada pelas lembranças, refém de palavras impronunciáveis; eu sou o fundo de um abismo sem fim. Quando miro esta minha face apavorada e aponto a mim mesma a possibilidade de eu ser só mais uma pobre sujeita acometida de patologias mentais, logo me lembro, as cenas, os clarões, as sensações, as emoções, a luta, o bebê, os olhos de Edgard, o licor, o sangue. Não é, não, não é uma desordem da minha psique, eu estava lá e eu sei o que eu vivi. 

Eu também sei que sou menos desgraçada por não ter total consciência de cada vivência naquele lugar que não era o chalé, ó não, pois ainda no dia de minha chegada, após a leitura daquele livro ominoso, eu saí transtornada em meu delírio para o meio da nevasca e andei longas horas até encontrar aquele castelo. O Castelo de Venesthron. Seria impossível se o impossível não caísse por terra desde o dia nefando, o dia vinte e três. Ainda tenho minha razão questionada, em qualquer instância, por todos ao redor mesmo depois de tantos anos, eu menti minha identidade para preservar cada pessoa que um dia conheci, pois decerto morreriam de desgosto se soubessem, pois que ouviriam as más línguas que acreditam que eu fui para as cordilheiras para matar aquele pobre recém-nascido e o abandonei no manto do arvoredo; isto não é verdade, não era um pobre ser, era o ser concebido pelo diabo, pelo horrífico, o ser que decerto está por detrás do caos dos nossos dias, da névoa que esparge sempre às dezoito horas e do sol que já não brilha como antes, a ele pertence toda a culpa, que estejam cientes e em alerta, pois se aquela coisa veio a ser de dentro de mim e sumiu naquela escuridão gélida, decerto está viva e abre, desde então, os portais do inferno.



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A Face Encarnada do Medo

Olhos de pútrida esperança; entre o frígido derredor, onde as mãos do insondável inverno conduzem a pequenez de seres irrisórios..

Olhos de pútrida esperança; entre o frígido derredor, onde as mãos do insondável inverno conduzem a pequenez de seres irrisórios. Ela se aproxima, mãos trêmulas; um corvo-albino a rodeia, parece segui-la por vínculo — o que me impressiona, é certo, pois são criaturas ríspidas. Carregando o peso de um grande casaco de pelame de ursos negros, ela caminha devagar; o vento impiedoso ainda arrefece sua lívida tez. Ela busca por humanidade em recônditos aquecidos por uma chama à lareira, mas, não há mais lume; as ruínas que deixei são álgidas e traiçoeiras. 

Medo... é isso que atravessa sua carne no instante em que toca os primeiros escombros mastodônticos. Eu sinto o medo que a penetra violento. Que saudade sinto d’este lôbrego arrepio subindo pela espinha dorsal de meu próximo mártir; ó... sim... fascinante! O corvo-albino pousa no ombro dela, ele sabe do perigo, porém, jamais poderá alertá-la. Este era um reino próspero, cara visitante; sorvi da vida fértil e tive o mórbido prazer de assimilar seu idioma. Tão bela a minha obra de arte... de morte... tão bela que não pude deixá-la e, por isso, aqui estou, há mil e um milhões de anos; observando. Agora, vens tu; doce humana frágil; exígua criatura... 

A densa atmosfera é a cinesia que a cinge; ainda assim, em assombro, ela adentra os escombros do que outrora fora um lar abastado — O que houve aqui? — ela sussurra e, tão logo, um lume é aceso por ela com um tipo raro de artefato. Sou atraído a apagá-lo com um sopro de horror, contudo, por hora, agrada-me ver a vida sob seu brilho, a vida que hei de sorver, gota a gota. Aquecida, serena-se, porém, não o suficiente; a escuridão é o meu domínio, isso a terrifica. Para o meu abíssico gáudio, seu nome se desvela à minha consciência: Anissa... De tudo sei, Anissa; do teu coração em mágoa, do pranto, da dor e, principalmente, do medo. Dá-me o teu pavor, criatura feminil, dá-me o teu olhar de tormento! 

“Algo terrível aconteceu n’este lugar... eu sinto uma inominável aura dos cantos onde o lume não alcança, o breu parece possuir corpos e olhos que perseguem meus movimentos.” — ela escreve. “Ttir acompanha-me e está agitado como outrora não esteve, mesmo quando, ao meu lado, viu-me ser violentada pelo oceano cujo atroz poder revelara ao meu herodes que há forças bem maiores do que a sua crueldade desoladora. Estas mesmas profundas águas, condenaram-me aos escombros gélidos em que me encontro. Que perversa ventura... que hediondo fado! Tenho medo... um temor que toca minha tez, que olha para os meus olhos... nessa imensidão sombria...” — Sou eu, ela não sabe. Eu te vejo, Anissa... Eu sou a raiz do teu temor... sinta-me em teu corpo... nos poros da tez que pertence a ti... nem teu algoz ou o ancestral oceano são capazes de conceber tão genuíno terror. Venha para o abismo da loucura, ouça o murmúrio da tua agonia advir, ressoando em teus ouvidos...  

Escurece. Ela aguarda pelo alvor, escondida em minha destruição. Mal sabe que se amanhecer para seu deleite, é porque permiti. Adormecida, sei que sonhará com a meu rastro: a insânia. Um rosto rígido e feliz, de soslaio, fitando seu tormento. Mas, desta vez, não quero este jogo cruel. O corvo-albino crocita, Anissa acorda de súbito e suas pupilas se contraem. Este sou eu. E agora tu me vês. Teu pavor nasce lento, teu susto te afasta, teu grito me enleva. Queres ouvir a minha voz? Sou capaz de falar como os que eram símeis a ti, humanas criaturas ínferas... 

— Anissa... — Profiro. Caída no canto, ela mal consegue respirar. — Que sublime é o aroma negrume do teu instável temor... Não aprecias o que vês? — Indago, densificando as trevas; tornando seu lume em um risível vagalume. Lacrimeje, menina. Como é frágil... Desapareço para brincar com sua mente, ela grita e fecha seus olhos lacrimosos. Trarei o amanhecer, pequena criança, para que outra noite traga a face rígida à tua espreita, com o riso mórbido e a minha visita. Estou sempre olhando para ti, admirando o medo que escorre em tuas têmporas e guiando as imagens infernais do teu onírico. Ela caminha mais à fundo na vila do sibilo da morte e da loucura. Está exausta, em tormento e dor.  

“Ele tinha uma feição humana...” ela escreve quando encontra uma antiga catedral em ruínas e adentra seu esplendoroso interior; notando se tratar do que fora uma alcova de fé há éons, esgueira-se entre ervas daninhas do ártico. “Entretanto, seus olhos eram umbrosos, com as cavidades expandidas e fundas, tal como a área menos óssea de seu rosto, marcada por uma fundura que lhe dava um aspecto cadavérico e... sua pele era carne pútrida... Nunca senti tamanho medo...” — E nunca alguém fora assim, suficientemente intrépido, para redigir minha aparência, Anissa. “Sinto falta de Sihren... sei que morrerei n’este insosso lugar... consumida por uma diabólica criatura, porventura advinda das agruras pertencentes a mim...” — Sim; sou eu, criado por tua tolice. “Estarei sempre fadada ao horror? In perpehctua?”. 

O corvo-albino voa pelos vitrais estilhaçados; Anissa o observa. Ele deve morrer; sua presença é desgraçada e impede que o meu tétrico expandir alcance o mártir. Então, o avisto; na brancura da densa neve; tu vês, mediano animal, esta turvação? A atmosfera a renegar o teu voo? Não posso controlar o tempo, de fato, mas sinto o medo de tudo o que respira e o medo sempre há de se ampliar sob meu fitar. Por infortúnio, perco-o na imensidão cândida. Um assovio quebranta o horizonte, o corvo retorna à Anissa; ao redor da flama áurea, eles se deliciam com frutas secas. — Resta-nos pouco alimento, Ttir... por favor, voe para Sihren e sobreviva! Não sabes o quanto destruirás meu coração, impedindo minha alma da paz eterna, sob a circunstância de ter sido razão da morte tua, de meu único amigo... — ela diz, o corvo a compreende. 

Contudo, ergue-se a segunda noite lôbrega e, com ela, o meu poder. A face rígida em sorriso diabólico emerge das trevas, Anissa sabe e evita que seus olhos mirem a aparição. É em vão. Seu suor escorre, sua tensão exala. O corvo crocita. “O que é isso...? Eu estou delirando...?” — Sim, está, pequena infeliz. Um sussurro em eco pela catedral, um murmúrio nos tímpanos de Anissa. Chama pelo nome dela. De repente, ela se levanta apontando, ao derredor, o seu lume pulcro. “Quem está aí!?” — Vocifera oscilante. Gosto da tua solidão, criatura humana; enquanto estiveres só, na amargura pertencente às tuas mazelas, eu estarei à espreita — sussurrarei teu nome nas noites mais fúnebres; farei visível o rosto rígido que ri, na tua visão paralela, uma presença pecaminosa; consegues sentir, não é? Bem atrás de ti... enquanto me lês. 

“Isso não é real...” — Lamúrias de insignificância. Anissa se encolhe como um feto exaurido. Seu coração é o púlpito do meu esconjuro. Estou no silêncio, entidade notívaga, apague a luz para me ver. “Está... dentro de mim?” — Ela segreda a si mesma. Sim, estou dentro de ti; arranque-me por sua tez; corte sua carne para me encontrar. Eu sou o teu medo. Ela leva suas mãos ao seu crânio dorido, as têmporas estalam em algia; o corvo que voava em ansiedade mórbida, de súbito, cai; morto; morto de temor. Anissa o acaricia, em lágrimas. “Ttir... não... por favor Ttir!” — agoniza junto ao pássaro cuja expressão é de um pânico hediondo. Acolhe-o em seu casaco. Mas eu quero mais. Tu vês? Tua chama enfraquecendo...? A escuridão ascende... ela pesa... é densa... ramosa... sólida... capaz de sufocar... lentamente... 

Anissa busca pelo sopro hialino da vida; ares de alívio. É em vão. Ela está submergindo. Aflita, rasga a pele de seu pescoço, seus olhos arregalados, semblante pávido. Quem ousou dizer-te que o horror é frígido? Anissa tira seu casaco, pois, está quente; o inferno em suas pernas e braços... “So...corro...” — murmureja. Agora é a minha hora, em minha mais bela e vil aparição. Uma besta horrenda e deformada, humanoide esguia, sempre sorrindo; decomposta, exposta em carne escarlate. Ela não consegue tirar seus olhos dilatados de mim. A escuridão atrai o mártir ao seu horror. Trêmula e sem oxigênio. Agônico pavor. Uma excelsa sínfora para mim que, por infortúnio, se esgota quando ela, a vulnerável, desmaia; púrpura de tanta adrenalina; hirta como uma estátua de mármore. Ela não está morta; há de retomar a consciência e chorar de horror. Tão frágil... Tu és tão frágil... 

E esta é apenas a segunda noite, quantas outras virão? Quantas suportarás sob meu macabro domínio? Desejo que muitas... para o meu vil prazer. 



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A Guirlanda do Artesão

Querida Lilaen, o mundo silente convida-me ao infinito dos teus olhos. Embora eu não possa ouvir tua voz, sei que ela é doce como mel…

de Niehr Veritch para Lilaen Gohs

Querida Lilaen, o mundo silente convida-me ao infinito dos teus olhos. Embora eu não possa ouvir tua voz, sei que ela é doce como mel. Que o presente que te envio seja protegido pelas tuas afáveis mãos até que minha chegada, no Natal, possa aquecê-las suavemente. Escrevo-te por saudades, mais do que isso, escrevo-te por amor. Sabes que se eu pudesse escolher algo para ouvir uma única vez, seria a tua risada que pelo teu semblante já me convida ao perene gáudio. Vi que teus estudos de Libras estão avançados, nunca tamanha dedicação recebi de uma mulher, decerto que tu estavas destinada a viver em meu coração solitário. Guiar-te-ei pelo período em que estiver em Numnura, prometo; para que possas conversar comigo secretamente. Ser-me-á agradável ver o movimento dócil de tuas mãos e o que elas me revelarão no amanhecer. 

Note que o que te envio é uma Guirlanda, todavia, não uma qualquer; a comprei n’uma singela cabana cujo artesão, dedicado, recebeu-me em mor alegria e contou-me algumas de suas fascinantes histórias — sim, ele tinha domínio de Libras, isto fora uma surpresa imensurável. Acontece que o senhor tivera um filho surdo, no entanto, diferente de mim, o jovem perdera a audição quando criança por causa de uma infecção auricular bastante problemática — tanto ele quanto o pai são ventrais, devo dizer. Recebiam o tratamento adequado, todavia, houve uma negligência. O menino nadou no lago Vertor de Amorttam, por causa de um desafio de adolescentes irresponsáveis, isso complicou os resultados do tratamento. E mais, não contara sobre suas dores após o mergulho, pois temia que a revelação complicasse o problema no coração de seu pai. Pobre criatura. 

O pai, senhor Philiphi, tomou a decisão de ter sua comutação genética após o incidente, passou a odiar a morte. Além disso, entendeu que a medicina de Vonssihren jamais será realmente eficaz nos ventrais que não fazem a comutação. O filho, Domure era seu nome, falecera aos dezoito anos de idade. Que história, não é, minha querida? Não te entristeças, todavia, conto-te para compartilhar, em essência, o dom que Philiphi descobrira a posteriori, quando passou a dedicar-se ao que sempre amou: a arte. Não pôde trabalhar com ela antes, dada sua condição ventral. Meu amor, Philiphi está bem agora, a comutação lhe garantiu um ofício de marceneiro; tem ganhado uma Siremihta por semana! Nas horas vagas, cria essas pequenas maravilhas com flores e folhas desidratadas e aromantadas. Creio que apreciarás o artefato, é de uma delicadeza surreal e ficará belíssimo na porta de teu lar. 

Acabei por refletir sobre o assunto na cabana; nascido indheren, incapaz de ouvir mesmo tendo as perfeitas condições para; sem efeitos aos tratamentos biológicos de Vonssihren; parece-me que há mais na terra do que sonha nossas vãs sabedorias. A senhora de Philiphi, dama Naomi, acredita ser obra da “magia oculta” — eu não duvido, pois, soube recentemente de uma possível ancestralidade com uma família de lá. É intrigante. Não tema, contudo, minha querida; se for verossímil, serei nada além de uma vítima dos antepassados; há nada em meu sangue que pulse pelas terras anti-árticas. Sou sirehnian com honra e serei numnurian ao teu lado. Agora, devo ir, anoitece. O frio se aproxima para beijar o Natal, tal como quero beijar-te a fronte, minha pequena uva. Bons sonhos. Espera-me. 

Com amor, seu Niehr. 



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Uma História de Natal

Mariê Aloe despertara na aurora morna daquele verão recém-chegado; sentia-se enjoada e melancólica. Pousou suas mãos em alguns limões…

Mariê Aloe despertara na aurora morna daquele verão recém-chegado; sentia-se enjoada e melancólica. Pousou suas mãos em alguns limões, escolhendo o mais macio para espremer n’um copo d'água. Sentou-se enquanto degustava sua bebida gélida e observava, pela janela, o amanhecer e a brisa que fazia os trigos do jardim dançarem. Mariê sempre fora apaixonada por flores de trigo, em especial por aquelas, tão douradas e vívidas. Destacavam-se na imensidão. 

Após uma reflexão silenciosa, e por ter esgotado sua água por completo, levantou-se. Contudo, uma vertigem atingiu suas percepções, e ela temeu que estivesse doente. Aprontou-se e, antes do despertar de seu esposo, foi ao Lar de Dhera Nimare, pois precisava estar disposta para a ceia de Natal do dia seguinte — convidara tantas pessoas queridas e estava empolgada para fazer os seus pães doces com frutas cristalizadas. O futuro, todavia, nunca descansa sobre o leito da certeza. Mariê soube do que nunca esperava saber e retornou à sua casa trazendo no semblante um medo, uma estranheza, uma surpresa enraizada. 

Descansara, como orientado no Lar de Dhera Nimare; sua médica, por sorte, estava disponível naquela manhã. Mariê conseguiu fazer os pães, as geleias de mirtilo e cereja; as decorações com pinhas secas e azevinhos. Seu marido, Dom Ithar Aloe, cuidara, como sempre, de sua esposa, especialmente ao saber do pequeno mal-estar natinal. Mariê, porém, não lhe contou a verdade, queria revelar na hora certa, quando estivessem a sós, após a ceia em família, na calma do Natal, ao som do piano pelo arsmusian enquanto dançam lentamente. Era preciso cautela para anunciar uma situação tão delicada. 

Quando, por fim, o instante chegou, Mariê hesitou. Os olhos de Ithar eram dois lumes esmeraldinos. 
— Querido… — iniciou. Ele a fitava, atento como sempre fora. — És a luz dos meus dias, meu recanto seguro… — Ithar sorriu, amava ouvir as palavras doces de sua mulher. Lágrimas brotaram nos olhos de Mariê. — Há algo que preciso contar a ti, meu bem… — Seu esposo se preocupou. A verdade era só uma, e Ithar a ouviu com o coração apertado e exaltado. — Estou grávida, Ithar… de verdade… há um bebê em meu ventre… — Entre medo e alegria, o esposo de Mariê abraçou-a, acariciando seus cabelos. 

Não era fácil conceber um bebê ventral, tampouco cuidar de sua saúde e do seu bem-estar. A vida de um ser humano ventral era curta, mas, sendo Ithar e Mariê nascidos pelo método Indheren, jamais imaginavam ser possível a concepção natural. 
— Eu sei que ele será frágil, mas podemos levá-lo a Vonssihren, para a comutação genética em… — Mariê foi interrompida por um beijo. 
— Minha perfeição… ouça bem! Esta criança será saudável e feliz. Faremos tudo o que for preciso para que ela tenha uma vida longa e seja forte como nós somos… — Ithar acariciou a barriga de sua esposa. — Consigo entender por que alguns escolhem a vida ventral… sinto a energia da existência em ti, minha perfeição. Notei em teus olhos que algo mudara nos últimos dias… — Mariê sorriu, derramando-se em lágrimas. 
— Oh, meu querido… estou com medo… — sussurrou. 
— Não te preocupes, perfeição; estou e estarei ao teu lado sempre… Sempre… 

De fato, Ithar esteve ao lado de Mariê, nunca a deixou só, e aquele Natal mudou suas vidas, levando-os a ver as flores de trigo com mais sabedoria, entendendo o tempo que o tempo sopra em suas faces e, acima de tudo, o que o amor é capaz de fazer sobre todas as coisas. Mariê deu luz a um menino e uma menina, gêmeos univitelinos. As crianças passaram pela comutação genética aos dezoito anos e, em função disso, viveram cem anos mais do que o esperado para quem nasce de um ventre humano. 

Ithar e Mariê viram as crianças envelhecerem, viram-nas morrer naturalmente. Não tiveram outros filhos. Foram profundamente dedicados, por cento e setenta anos, aos gêmeos e, mesmo após a morte natural de Alegra e Felice, não viram razão para uma segunda gravidez e se recusaram a ter filhos pelo método Indheren. 
— Eu sentia-os em mim, Ithar… um vínculo inenarrável… não posso amar mais do que os amei... perdoa-me? Queria dar a ti todos os filhos que almejássemos, mas essa concepção ventral mudou algo em mim… — revelou. 
— E em mim também, minha perfeição. Estou contigo, concordo contigo. Guardaremos a eterna lembrança de nossas crianças e seguiremos sós, tu e eu, na longa vida que ainda nos resta. — Ithar soube acalmar o coração de Mariê. 

Os epitáfios dos gêmeos foram escolhidos por eles, um ano antes de falecerem. A morte natural permite a compreensão plena de sua chegada. Alegra teve dois meninos ventrais, não fez comutação genética em nenhum deles. Felice teve três filhos, duas meninas e um menino; igualmente, recusou-se a fazer a comutação genética. Somente o filho mais velho de Felice, ao atingir a maioridade, quis passar pelo procedimento. Os gêmeos faleceram em seus quartos, adormecidos, no dia de Natal. 

Epitáfios 

Alegra Aloe Nnae 
"Eu não odeio o tempo, eu o amo, pois ele me permitiu viver." 

Felice Aloe Mizzior 
"Tive de partir, mas deixei no mundo humano a minha verdade; que ela seja útil aos que ficaram." 

Escrito em 5 de dezembro de 2024  



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A Insondável Redenção

Ouvia o sussurrante estridor do rígido inverno e o pálido horizonte nevoado assustava-me em sua imensidão anilada…

Ouvia o sussurrante estridor do rígido inverno e o pálido horizonte nevoado assustava-me em sua imensidão anilada. Estes meus incrédulos olhos nunca estiveram de frente a tal terrífica paisagem; tampouco o fremir das ondas sonoras deste estranho sibilar penetrara meus tímpanos alguma vez. No mais longínquo do que eu podia observar, as cordilheiras negras preenchiam uma infinitude sombria e, detrás das nuvens glaciais, havia o sol remoto— eu sei, pois seu reluzir fantasmagórico manifestava-se pelas céleres clareiras repentinas, como rachaduras no céu, eram raras frestas de lume solar, cada vez mais infinitesimais. Facilmente, debaixo daquela intensa nevasca, nada sobreviveria. 

A flama que crepitava na lareira era um vagalume na vastidão azul-grisácea, tomada pelo seu imanente índigo. A madeira da cabana ilusionava-se mais escurecida e úmida, algo deveras insólito; em certo aspecto, parecia envelhecida. Minha percepção era de que a morte, em sua mais bruta manifestação, fomentaria um pavor verossímil à vívida crueldade da natureza climática. Apesar dessa mórbida verdade, a morte era a entidade que espreitava, na sua escuridão, as minhas visões paralelas; como três olhos fundos pelos cantos imersos em um estranho breu, onde a brasa, lânguida, não tateava. Antes do enregelar fúnebre, almejado pelo espectro de Exício que circundava, eu sentia que quando o sopro tétrico do exterior extraísse minha única fonte de aquecimento, o sibilo da insanidade causaria o efeito que narrava em seus decibéis e, então, eu cortaria meu pescoço com a lâmina de tungstênio da minha faca de caça. 

No antro de minha existência, jamais cogitei tal medonha blasfêmia. O sibilo do vento antártico insinuava uma influência perversa, tanto quanto o espreitar da escuridão. A vida, em suas quedas mais abismais, tecera cenários terríficos que assombraram meu âmago, sob angústia e medo, no entanto, jamais ao nível daquilo — e não me refiro ao sopro diabólico da nevasca, tampouco às intimidantes trevas da cabana. Quando já não me era possível permanecer sob a frágil luz da última lenha queimada, protegi-me com o traje adequado, reforçado em razão do nível de horror branco no lado de fora; por instinto peguei alguns itens, como a faca de caça, uma corda, um candeeiro e suprimentos. Meu destino era o casebre da lenha, lar de Gahsper, meu irmão. Não ficava muito longe dali, aliás, deveria ser visível da fenestra do meu quarto, se não fosse o mal tempo. 

Andejar na árdua neve acumulada, com a frígida e impetuosa aragem, assemelhava-se às veredas dos vales das montanhas mais afastadas, as que se enegreciam no horizonte. Tive de armar os báculos para me locomover com mais segurança, no entanto, o casebre de lenha não se desvelava à frente e, em minha análise, nele eu já deveria ter chegado. Quando fitei a bússola estagnada, completamente inerte, entendi que o pressentimento amargo não advinha de uma fraqueza mental, pois algo estava, sem dúvidas, errado; uma aura perigosa cingia-me de modo que, impossível de voltar à cabana para morrer de frio, segui com rapidez arriscada, à frente. Quando encontrei uma poça de líquido vermelho espargido na pálida neve cerúlea, n’uma cor vívida, como se tivesse sido vertido há segundos, empunhei a faca de caça e segui na direção da poça que permeava um corpo indistinguível. Como previ, sangue. O que... aconteceu aqui? E a pobre criatura estraçalhada, decapitada e devorada, era humana. Era Gahsper. Gahsper... 

Nunca senti o tétrico gelar da minha alma, mesmo vivendo há tantos anos em Nehen. Ainda, pelo rosto de meu irmão, assombrado em um pânico indizível, por certo, aquela morte não fora causada por um animal selvagem. Seus olhos estavam arregalados, as pupilas congelaram dilatadas. Nunca esquecerei o seu semblante dantesco, nem o seu sangue vertido — a única cor naquela brancura desoladora. Aquilo era tão obsceno e… pavoroso…que não pude chorar, pois, o temor impedia qualquer alarde emocional e, até hoje, inibe. É verdade que por esta razão, tudo o que escrevo é tão frígido quanto o fenômeno daquele dia; eu não sinto nada além do medo, visceral e íntegro, como uma chama no peito, acesa no perpétuo dos meus pesadelos, incitando-me à lembrança hedionda. A opressão deste pânico silencioso arruinou muito do que havia de contentamento em minha vida, pois me ronda, desde então, aviventando o pavor e a solidão que me residem. 

Retirei a corrente de Gahsper, ela repousava no sangue; observei os arredores e guardei o objeto no bolso. Ainda cogitando voltar para a cabana, olhei na direção do meu rastro na neve, prestes a se perder no nevoeiro de gelo. Então, meus olhos viram o que fez meu coração disparar frenético em um macabro assombro. O sussurrante estridor do rígido inverno expandiu-se agônico de modo que meu crânio padeceu, no imediato instante, de uma dor aguda em cada têmpora. Um homem, é o que ele parecia, em uma nudez dismórfica, estava há poucos metros de distância de mim. Sua pele descamava e uma carne enegrecida e pútrida, mesmo longe, podia ser vista por detrás da cútis. Seus braços eram finos, seus olhos enegrecidos eram como dois poços profundos; havia sangue em seu rosto, mãos e torso. Ele fitava meu espírito como somente uma criatura do inferno poderia fazer. Seus dentes eram afiados, ele possuía vários em sua boca oval, e ao contorno da sua silhueta deformada, uma aura de breu, a mesma da cabana, o cingia. No centro de sua face medonha, havia um terceiro olho n’uma metamorfose bizarra na cavidade encarnada de seu nariz. De todos os orifícios de seu corpo absurdo em bestialidade, um escuro líquido espesso gotejava. 

Eu desviei meus olhos da morbífica criatura humanoide e me apressei, ofegante, entre o sopro terrífico que se difundia cada vez mais violento e a paisagem que se tornava, em segundos, mais pálida. A caudalosa invernia, pela nevasca mais perturbadora que já vi, não cessaria; se aquela coisa sinistra me seguiria, eu não deduzi; ao guia de meu mais abismal pavor, apenas corri como me era possível, afundando na neve já embriagada de seu próprio poder destrutivo. Mas, reconhecia meus limites; do meu corpo a fremer de frio e horror, enquanto a imagem das vísceras de Gahsper vinham à minha mente ao lado dos dentes afiados e dos três olhos repulsivos e lôbregos; lampejos de um pesadelo no qual não se pode despertar. Assim fui consumida por uma ansiedade, talvez pela certeza de encontrar a morte de fato, da pior maneira; talvez porque eu não desejasse morrer, pois que eu amava, no mais fidedigno da minha essência, o poético viver naquela cidade perdida e consumida pela noite. Amava, também, todo aquele continente, pelos trens aquecidos, os quais eu viajava por longas horas e até mesmo por dias; pelos mistérios de seus habitantes que me ascendiam a um sentimento de vínculo profundo que galgava os entraves climáticos. Talvez porque eu ainda não tinha sido amada, tal como fora a minha mãe, pelo meu pai, por mais de cinquenta anos. 

Afundei na neve nívea quando vi no céu as sombras fúnebres perpassarem com a chegada da noite. Ofegante cada vez mais. A escuridão era quase tangível, achegava-se como o vento pujante e se não mente a minha lembrança, a vi distorcer-se em determinados momentos, como se dançasse junto à nevasca, como se fosse sobrenatural. E eu, eu não conseguia correr nem mesmo um metro à frente. Avistei partes de uma torre ao longe, eu decerto estava próxima de um possível abrigo. Era tarde demais, como geralmente é quando encaramos demais o semblante da morte. A visão que antecedera o meu desmaio, fora da plenitude noturna e daquela mesma sensação que tive na cabana… o estranho breu que parecia me encarar com três olhos… ali, no entanto, diferente de antes, eu sabia muito bem que tipo de coisa me encarava daquela forma na escuridão. 

O sopro da morte álgida, em frações de tempo, dissipou-se. O silvo se fez rarefeito, um símbolo à lembrança perturbadora. Meus olhos se abriram com uma lentidão difusa e queria eu ter visto a madeira da cabana e ouvido o crepitar na lareira, estalando a lenha; seria, inclusive, aceitável estar debaixo de um monte nevado, sentindo meus membros necrosarem. No entanto, nada disso era factual. Quando fui capaz de distinguir as sombras no verter do fluído de minhas retinas — as quais, cobertas pelas pálpebras, descansaram sabe-se lá por quantas horas — então, avistei paredes de pedra úmida e ouvi sons de correntes coincidentes aos meus movimentos. O que... o que é isso...? Meu corpo frágil desidratava, olhei em direção ao som ferroso e vi uma grossa argola enferrujada a prender meu tornozelo a uma corrente fundida na parede rochosa. Arfei trêmula, puxando a corrente diversas vezes. Foi em vão. E pairava um contínuo ruído por aquele ambiente sanguinolento, eu ouvia minha respiração cada vez mais acelerada, destacando-se no ruído. Esperei a morte, com duas faces: meu corpo decepado sobre a poça vermelha, como Gahsper, e ser necrosada até a morte pelo frio cruel. Todavia, estava encarcerada; nada do que eu poderia prever. 

Fica... calma... Um enjoo germinou pútrido no meu estômago, decerto ocasionado pelo odor de plasma, de morte, de umidade. Turva, levei minhas mãos ao rosto, qualquer alívio seria suficiente. Então vislumbrei minha possível e única saída, advinha dela uma luz trêmula e fraca de pontos longínquos de luz por um corredor estreito; um lume que permitia as sombras do gradil se propalarem pela minha cela. Nestas grades arqueadas, contudo, um corpo jazia... contorcido. Discerni algumas coisas ao seu respeito, pois, a visão era limitada. Primeiro, o que me era mais inestimável, um molho de chaves esplendia em sutileza, resvalando do bolso do indivíduo; e seu cadáver vestia um tipo de traje específico, símil a uniformes usados pelos Humanos da Ordem, quando se erguia o inverno no continente acima. Era mais que fundamental alcançar o falecido, mesmo que para isso fosse inevitável uma irreparável perda. Não tenho escolha... Então comecei a esticar meu corpo, apoiando-me no chão enegrecido e sujo. Eu sentia a argola enferrujada rasgar a pele de meu tornozelo, um suor intenso escorria de minha testa e o enjoo se intensificava. Eu... me lembro... me lembro do quanto as emoções foram suprimidas e, meu corpo, distendido; lembro da minha carne sendo penetrada por aquele grilhão oxidado, a dor... a dor inominável... e o grito escravizado pelo medo sob as asas da mais verossímil aflição. 

Alcancei as chaves e me libertei das correntes. Mas vi os ossos e tendões de meu calcanhar, tudo esfolado em uma ardência que parecia subir aos nervos de toda a perna esquerda. Aquela cena foi o meu estopim. Regurgitei tudo o que me era possível, à espera de expelir, talvez, minha própria alma. E quando fui capaz de cessar o vômito, percebi o perigo daquela perda excessiva de sangue. Rasguei a roupa do cadáver para envolvê-lo em mim, para extinguir o que vertia contínuo. Retirei do sujeito uma adaga, fincada em seu tórax — algo que vi ao abrir as grades do cárcere. Sim, eu caminhava, lenta e com vívida dor, mancando, decerto e apenas, por causa da adrenalina. O defunto nas grades, usava em sua face uma estranha máscara negra que escondia sua feição, ilusionava estar unificada à pele de seu rosto; de uma estranheza terrífica. Já o corredor, segui cambaleante por sua amplitude, no lado direito cuja luz espargia fraca. Fui buscando uma saída do pesadelo mórbido que preenchia todos os meus debilitados sentidos. 

Subi por escadas longas e vi mais celas e corpos mutilados pelo caminho e era... tenebroso... ainda mais pelo contínuo ruído baixo... como se aquele lugar fosse vivo.... cada parede de pedra... cada sangue jorrado... algum tipo de energia. Dentro da última sala, após me esgueirar por escombros, encontrei um candeeiro e mais uma adaga, a qual, todavia, diferente da anterior retirada do torso do homem no gradil, esta era feita de algum tipo de material peculiar, como um quartzo bem rígido. Subi, portanto, mais uma quantia de degraus e entre o ruído aterrorizante, vozes longínquas passei a ouvir enquanto um cômodo se revelava à minha frente; sua amplitude era considerável e tinha um formato encíclico, nele difundia-se uma luz avermelhada que evidenciava altas estantes cheias de livros e mais dezenas de símbolos estranhos pelo chão e paredes, organizados criteriosamente. Pensei que encontraria a origem das vozes, cada vez mais altas em meus ouvidos como sussurros de morte, socorro e gritos abafados entre palavras indescritíveis. Contudo, ao adentrar de vez pela porta semiaberta e fitar cada detalhe daquela ritualística câmara, nada havia lá dentro... ninguém além de mim... enquanto as vozes tornavam-se verdadeiros bramidos.... Alessia... Alessia... aos meus tímpanos... Socorro... Ajuda-nos... Alessia... Socorro... Ajuda-nos... como se dezenas de pessoas estivessem ao meu redor. 

Choro morbígero, urros bestiais... as vozes cada vez mais altas entre risos distorcidos... Alessia... Salve nossa alma... Socorro.... Enlouquecida, ajoelhei-me no chão, tapei meus ouvidos em busca de alívio, mas... aquilo estava dentro de minha mente... Alessia... inclusive a voz de Gahsper. Entre tantos clamores bizarros, eu o ouvia... Irmã.... fuja... fuja agora... minha... Alessia... Fechei meus olhos, cerrando minhas pálpebras em busca de um despertar. As lágrimas caíam de meus olhos vedados à força, verdadeiras como na infância, quando não se sabe de onde vem a primeira dor sentida... De súbito, porém, entre as frases e gritos desconexos, logo fitei a sala pelo pavor de sentir a presença de outro ser no ambiente... Ninguém... ninguém que podia ser reconhecido pelos meus olhos amedrontados. Comecei a retroceder, tendo aquela presença invisível cada vez mais próxima... arrastando-se contra mim, fazendo-me de imã à sua atroz consciência inominável. Socorro... Cuidado... Morra! Morra! Ajude-nos! Foi... extremamente difícil sair daquele lugar... o fiz com extensa agrura, fechei a porta da sala carmesim e empunhei a primeira adaga de ferro entre a porta e a parede, impedindo-a de ser aberta por dentro. Não importava saber o que havia naquele lugar, mas, decerto, importava-me trancar, o que quer que fosse, lá dentro. 

A insanidade prospera quando o horror irriga o espírito... e nunca sabemos como lidar com tamanho abismo, por isso, somos sorvidos pelo estado catatônico de nosso semblante e pelo instinto à sobrevivência... a qualquer custo... a qualquer preço. Mesmo à parte daquele salão de espectro aterrador, em estado de perturbação, com as vozes já dilatadas, eu corri numa pressa sobre-humana, abrindo todas as portas que via e entrando em todas as salas que eu podia em busca da saída. Corri... sem questionar como... sem sentir nenhuma dor no tornozelo... e encontrei a primeira luz pálida vinda de uma imensa porta meio vertical, em uma cor prata, lisa, com um único símbolo estranho, entalhado no material, algo jamais imaginado por mim ou por qualquer outro ser humano, tenho certeza. Ela estava entreaberta, a fresta de luz também carregava o frio e a nevasca hedionda, a esperança de sair outra vez na densa neve nunca me soou como tamanho alívio e proteção, mas ali me soava. 

Uma sombra, entretanto, parou frente à fissura e ouvi uma voz humana masculina, grave e avultada, proferindo a seguinte palavra: “Ttyrttyuor” — deduzo sua grafia. Sob seu som, a porta cujo lume de seu exterior era minha única esperança, abriu-se em completude de modo a exasperar meus olhos. A palavra era a sua chave. Esgueirei-me em escombros próximos e notei serem duas pessoas, uma delas vestia-se como o guarda da minha cela. O outro sujeito, porém... era uma opaca sombra indistinguível na escuridão, uma silhueta de um homem alto com uma face oculta — não busquei olhar sua face vazia, nem mesmo compreender a sua existência... ele era como a energia pesada daquela sala... sua presença assemelhava-se àquela do cômodo escarlate como se fosse, ele próprio, o cômodo em si. Escondi-me como pude, prendi minha respiração. 

Certifique-se de que todos estão mortos, prenda-os se não estiverem. Estarei no anfiteatro sangrento. — Arrepiava-me ouvi-lo, era temível estar em sua presença abissal. Ainda assim, dediquei-me ao silêncio e respirei apenas quando estava prestes a esmaecer mesmo depois de não sentir mais a proximidade deles, no dissipar daquela energia diabólica. Retornei, portanto, à porta fechada, sem nenhuma fissura de luz; e restou-me pronunciar o que ouvi... e o fiz, em sussurro, com os lábios bem rentes ao símbolo esculpido. 

Ttyrttyuor... — Uma intolerável dor cingira-me repentina, pulsando meu organismo como um pêndulo que se abala, dramático e solene, no antro de uma catedral; e vi minha pele rasgar em inúmeros cortes onde o sangue verteu célere e vigoroso e tomou a forma do símbolo entalhado. A porta se abriu em um segundo posterior e, imersa em pungente algia agônica, corri pela neve... desesperada... sem olhar para trás, com o rastro do meu sangue na palidez e o cruel sopro gelado coagulando, aos poucos, as cissuras da pele. Eu jamais pronunciarei aquilo outra vez... muitos daqueles cortes permaneceram em minha pele... mesmo após tantos anos. E, como se ainda fosse vivido, a energia hedionda daquele homem... daquela sala... afluiu-se pelos poros de minha pele, à minha carne, ossos e sangue vertido... senti perder o controle de minha alma, por átimos de um tempo além do tempo... e quando vi a neve, quando corri para minha liberdade, eu estava... instável... desnorteada e... oca... 

À beira da morte pelo frio, correndo sem cessar debaixo da eterna nevasca, tive a impressão de ser cercada por escuridão, outra vez, a energia... deduzi que era a morte ou a proximidade dela, todavia, a luz retornou às minhas retinas como se cobertas, tão somente, por uma espessa nuvem passageira, então, quando tive de volta a minha visão, percebi haver casas à frente, era uma vila desconhecida; luzes tremeluziam nas janelas de algumas delas, pinheiros indicavam vida aos arredores e, se posso dizer que sorri, naquela condição desgraçada, não estaria mentindo, pois algum tipo de sorriso construiu-se em meu semblante traumatizado quando observei um homem na janela de uma das primeiras casas avistadas e, com minhas últimas forças, levantei meus braços para sinalizar minha decadência, meu pedido de socorro. 

Como está o chá? — A voz de Samael era suave, embora viril como seu rosto. Abriu a porta de seu lar para mim, sem saber quem eu era. Ao ser acudida por ele, tive os cuidados mais inestimáveis; e deitada entre as cobertas tórridas, frente à lareira mais serena, tomei de seu chá de especiarias. Conversamos um pouco, não o revelei minha terrífica história. 

Perfeito... — murmurei, ainda exausta. 

É impossível sobreviver a tal nevasca... o Criador tem planos para a tua vida... tenho certeza...  

Criador? — Eu não entendia, genuinamente. Samael olhou-me atento. 

Tu não és de Múrmura? — Demonstrei desconhecimento através de meu silêncio angustiado. 

Estranho... Tens a marca de nascença de todos os múrmuros... No seu tornozelo... 

Então olhei, pela primeira vez desde a cela, quando me turvei pelo sangue, pelos ossos expostos, pela mórbida dor... eu olhei para meu tornozelo. Nele residia um imenso estigma, uma perfeita cicatriz contornando todo o espaço onde fora corroído pela argola enferrujada quando eu estava naquele inferno. Sobre parte desta cicatriz, um símbolo estranho estava marcado, como se feito à ferro quente em minha pele. Tudo, porém, curado. E jurei ter visto o mesmo emblema naquele quarto escarlate, quando caí no chão, perturbada pelas vozes. Samael mostrou-me o mesmo símbolo em seu braço direito e explicou-me que advinha do batismo sagrado realizado com os recém-nascidos por toda a província em que estávamos. 

Tu estás em Múrmura, estranha-me que sejas de Nehen, pois... não existe este lugar... quero dizer... é uma província denominada “fantasma”, lugar aonde não se chega, a menos que sejas guiado por Lúcifer. 

Lúcifer? — Minha cabeça doía, minhas mãos tremiam a cada fisgada em minhas têmporas. 

Acalma-te, Alessia... — Samael sentou-se ao meu lado, levando à minha fronte um cálido pano banhado outrora em águas fumegantes. — Não te entulharei com indagações ou explicações agora, perdoe-me. Descanse... os próximos dias serão melhores, eu prometo. 

Os dias foram, de fato, melhores, no entanto, a lembrança perdurou a cada adormecer; não posso esquecê-la, mesmo sob a benção do Criador que, hoje sei, esteve comigo a todo o momento, embora eu não compreenda como poderia aquele antro horrífico carregar um símbolo sagrado, igualmente desconfio de como pude não ser assassinada enquanto fugia, visto que, não há como negar, aquele homem sombrio e sem face possuía um poder diabólico que, sob uma impiedosa habilidade, me desolaria em segundos. Ainda assim, eu fugi... e desde então, tudo se fez reminiscências de um pesadelo. Mantenho o colar de Gahsper dentro de minha Bíblia e, no baú, a adaga de quartzo negro. Não compreendo, não vejo lógica ou explicação que possa elucidar o horror que vivi, por mais que eu tente pensar — e aqui escrevi com esse intuito —, parece que quanto mais insisto, mais distante de uma resolução eu me encontro. Eu continuo sem compreender... talvez seja, realmente, melhor assim. 



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Backrooms — espaços liminares

Eu estive em um labirinto liminar. Compreendo, por experiência própria, as suas obscuras entranhas…

Eu estive em um labirinto liminar. Compreendo, por experiência própria, as suas obscuras entranhas. Eu também conheci pessoas que conseguiram escapar, mas, infelizmente, estes indivíduos não estão lúcidos o suficiente para que eu possa considerar, em completude, as suas narrações. Encontrei-os por meio de um amigo Psiquiatra que comentara a respeito das constantes crises de seus internatos. Imediatamente reconheci do que se tratava, mas nada mencionei; insisti, com a desculpa de estar pensando em escrever um livro a respeito, para ouvir dos próprios sujeitos o que condenava suas almas e mentes. Consegui muito material com isso, mas em determinado ponto percebi que, talvez, todo o bruto relato dessas pessoas estivesse cheio de ilusões criadas pelo trauma e por seus mecanismos mentais de defesa — o que invalidava muitas “verdades” mencionadas. 

Não é fácil escapar dos labirintos, não é possível viver com tranquilidade após encontrar uma saída, então eu os compreendo. Acredito que a razão pela qual consegui manter minha sanidade foi por acreditar profundamente que se tratava de um sonho e que, portanto, eu despertaria em breve. Eu compreendia a extensão daquela realidade, mas me recusava a levá-la em consideração. Você deve entender, o local era absurdamente desesperador, não é como se eu pudesse simplesmente lidar com o fato de que caí de súbito numa realidade paralela. Insisti até o fim, insisti mesmo quando eu sangrava, que aquilo tudo era um colapso onírico de um corpo talvez em coma ou em algum tipo de delírio mórbido do sono.  

Cair nos labirintos é, literalmente, cair; os portais estão sempre na queda; subitamente você tropeça em alguma coisa ou pisa em falso e, então, a queda parece estranhamente maior do que deveria; na sua visão conturbada você não consegue entender e tampouco tem tempo para quaisquer conjecturas, um segundo é suficiente, você se percebe com o corpo todo dolorido, largado no meio de uma sala vazia com cheiro de carpete úmido. É assim que acontece. Depois de bastante análise entendi que encontramos os labirintos quando caímos porque eles são, essencialmente, um erro, ou melhor, um glitch. É mais do que óbvio que vivemos em um sistema, pode ser um sistema compreendido a partir de termos diferentes das tecnologias que criamos, mas, ainda assim, é um sistema. Coincidentemente o universo é feito de matéria escura, tal como a tela de programação de um computador, tal como o lugar em que estão os códigos por detrás da interface do usuário.  

O glitch acontece, nós somos os afetados; a pergunta que fica é: por que alguém criaria um lugar como aquele? Alguém o criou? Qual é o intuito de uma realidade paralela tão similar às construções humanas, mas que aleatoriamente se faz por labirintos tão somente para perturbar as pessoas que, por uma falha no sistema, caem dentro do primeiro nível? Sim, o primeiro nível são os escritórios, infinitas salas de escritórios ligadas por dezenas de corredores e outras salas com a mesma monótona aparência, por isso são labirintos, você não consegue distinguir as salas, todas possuem o mesmo papel de parede amarelado e sujo, as mesmas luzes fluorescentes. Vez ou outra eu encontrava computadores antigos, desligados, escrivaninhas e cadeiras; armários e estantes símeis àqueles de almoxarifado de arquivos. Encontrei até mesmo um ventilador ligado – sim, funcionando – em uma tomada, simplesmente assim, como se alguém o tivesse deixado ali há pouco tempo.  

Tento me concentrar neste relato, porém uma fraqueza emerge sempre, é como estar lá novamente, é como sentir aquele silêncio em meio ao zumbido das lâmpadas enquanto me sufoco na angústia de um talvez; ninguém estava lá, compreende? Ao mesmo tempo havia alguém, alguém que fugia, que buscava uma saída, mas não se tratava de mim. A sensação era essa, de estar perto, porque tudo o que estava ali parecia ter sido abandonado há segundos, um átimo de segundo antes de eu chegar. Por isso tamanha é minha dor quando me recordo, tão vívida memória maldita. Lembro-me de estar a cada segundo sob a perspectiva de que a saída se aproximava, eu andava por horas, se é que havia tempo naquele inferno, por isso a exasperação me consumia, era como ter um sapo na garganta, eu não respirava direito, uma aflição inominável escorria no meu corpo junto ao suor. Eu estava chegando perto da saída, mas ela nunca surgia aos meus olhos. Passos e mais passos. Um móvel à mais, um pilar em outra posição, cada detalhe diferente me dava a esperança necessária para continuar.  

Estou descrevendo minhas conclusões aqui, estou dizendo que tudo acontece por causa do glitch e que os labirintos são um espelho aleatório da realidade, um espelho criado pelo sistema central que, ao que tudo indica, o fazia de backup da interface do usuário até o momento em que, por um erro grotesco no código, o backup se transformou em uma geração infinita e aleatória dos mesmos cenários da interface; e o erro está num código bem específico, está nas construções humanas e não na natureza; não há um labirinto de florestas ou jardins, são sempre espaços humanos, isto é, casas, shoppings, prédios, estacionamentos... eu sei... eu sei que estou sendo hermética... peço desculpas por usar termos tão técnicos, isso me distrai das sensações persecutórias e ambíguas que fazem minhas mãos tremerem e minha visão turvar... aquele lugar é meu pior pesadelo, talvez seja questão de tempo para que eu me torne louca o suficiente para ser internada no hospício junto com aqueles que considero insanos demais para levar em consideração.  

A minha queda foi na escada; eu estava descendo pela saída de emergência de meu prédio quando me acidentei. O ambiente estava um pouco mais penumbral do que deveria, visto que aguava uma intensa tempestade lá fora, a mesma culpada pela queda de energia do prédio – uma sequência de infortúnios tornou inviável o uso dos elevadores, ninguém se arriscava quando o céu desabava daquela forma, mesmo sob a segurança dos geradores do edifício. Eu devia ter identificado que algo não me parecia certo naquela noite, isso porque pouco antes de vestir meus sapatos e aceitar que eu seria obrigada a sair naquele tempo insalubre, uma pequena faísca de intuição soprou um infinitesimal alerta. Isso me faz concluir que os glitches podem ser perceptíveis, porque mesmo que não dominemos o código do sistema da vida, estamos ligados a ele e, portanto, reconhecemos as suas oscilações. Além disso, apreendo que, não só a aleatoriedade dos níveis labirínticos, o lugar em que os glitches ocorrerão também é aleatório; no entanto, posso estar errada, afinal, houve uma intuição e eu não sei se ela sabia apenas da minha queda ou se sabia do glitch em si. Como previsto, não dei atenção aos questionamentos intrínsecos. Foi a terceira vez que eu caía no mesmo lugar, tudo por causa de uma maldita noção arquitetônica péssima que deixou alguns centímetros de diferença entre um degrau e outro.  

Depois de cair pela segunda vez, eu prestava excessiva atenção ao usar as escadas de emergência, todavia, o ínfimo alerta da consciência me deixou tão perturbada e desnorteada que não pude me defender, sem contar a chuva que caía e alagava São Paulo inteira fazendo um alarde horroroso. Sinceramente, não tive culpa, aquele glitch ia me pegar de qualquer jeito. Eu tinha certeza, durante o acontecido, que não havia como evitar aquilo, as dúvidas acerca da aleatoriedade dos glitches não são em vão, como dá para notar. Desci as escadas com estranha pressa e tropecei do quinto degrau antes de chegar no térreo; no entanto um violento silêncio nasceu, não havia mais chuva por poucos segundos até o som de objetos caindo em um lugar com eco se disseminar aos meus sentidos. Caí de costas, a primeira coisa que notei foi a lâmpada fluorescente no teto; minha visão estava embaçada e meu corpo doía, mas não o suficiente para me deixar inerte. Levantei-me e lá estava eu em uma sala de um escritório aleatório; o cenário que já descrevi. Comecei a andar porque não havia outra opção.  

Eu assobiava, batia nas paredes, fazia todo o tipo de som de alerta; eu já disse que a sensação de estar quase perto de alguém era como um ninho no peito, isto é, uma esperança ou lembrança de encontrar um rosto humano que pudesse me explicar o que estava acontecendo. Tudo era insuficiente. Conforme eu andava, vez ou outra eu ouvia uma porta se fechar; às vezes eram passos... Às vezes eu era tomada por um medo estranho, um arrepio frígido que amargurava meu peito a ponto de me fazer parar e tocar meu tórax como um reflexo de sobrevivência.  

Em determinado momento eu percebi que a sensação de estar tão perto de alguém, infelizmente, não era um delírio. Havia mesmo alguém..., ou melhor, havia algo. Algo inumano sabia que eu estava ali desde o princípio e eu soube disso porque eu vi o seu rastro. Não eram passos. Era um rastro de fios negros que, quando observei, percebi haver algo se mexendo em sua composição, como vermes em uma carne pútrida. Os fios eram fétidos e pouco antes de vê-los, comecei a sentir o mesmo medo estranho de outrora, porém, incorporado a um extremo pavor diante uma sensação genuína de perigo; quando de fato vi o rastro, eu suava de temor e meu desespero era profundo como abismo, não sei como descrever, eu estava enlouquecida, olhando para todos os lados, andando com passos de tartaruga para não ser ouvida. Eu sabia que havia perigo naquela coisa. 

Minha intuição outra vez gritava na sua infinitesimal manifestação, mas naquele momento eu a ouvi. Aquele negócio, aos poucos, evaporava como água, sumia, não era um rastro eterno. Comecei a me afastar devagar. Era impossível, mas eu não estava descrente o suficiente para seguir o rastro. Numa súbita angústia, corri para o lado oposto; corri o mais rápido que pude e na minha desolação afobada, coberta pelo pânico mais atroz, eu caí outra vez, pelas pernas que vacilaram enquanto meu coração pulsava mais frenético do que poderia suportar. Eu caí. O glitch que me colocou ali, me tirou; mas não me levou de volta ao meu apartamento. É claro que não. Eu estava caída, com o corpo mais dolorido do que a primeira vez e diante dos meus olhos havia um novo nível de labirinto liminar: um infinito aleatório de espaços semelhantes a um bairro, sim, um bairro com casas vazias, ruas eternas, sem nenhum carro ou pessoas. O céu era avermelhado, com nuvens escuras, sem nada, nenhum ponto de luz. Embora houvesse um “campo aberto” por causa daquele céu tenebroso, a sensação claustrofóbica permanecia. Ali a tétrica morte respirava ofegante eu a ouvia e sabia que encontraria com ela a qualquer momento. 



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O Restaurador de Livros

Sorinne, apressada, adentrou a biblioteca pensativa; não queria ter assustado sua adorável…

Sorinne, apressada, adentrou a biblioteca pensativa; não queria ter assustado sua adorável amiga Anne e até tentou retornar ao quarto dela para se desculpar, mas Anne já havia partido. Sorinne temia estar imersa em tristes desesperanças que ressoavam amargamente por cada uma de suas falas. Então, respirou fundo por causa da sensação infeliz e voltou-se ao centro do ambiente, avistou um homem. As costas dele eram largas, vestia-se elegante, parecia atento às escrituras d'algum livro já debilitado. Sorinne não se lembrava de ter avistado aquelas costas, não pareciam familiar, então aproximou-se. Bisbilhotou. Mãos viris e grandes foram distinguidas segurando uma agulha e fios de linha. No rosto do forasteiro um tipo específico de monóculo com três lentes espessas, as quais facilmente se intercalavam por meio de uma mecânica inovadora. De súbito, o homem viu Sorinne que, até então, fora profundamente furtiva; o susto tênue fez com que a agulha furasse seu dedo e Sorinne, prestativa, não conseguia parar de pedir-lhe desculpas enquanto buscava fiapos de tecido para envolver o ferimento.

Não te preocupas, está tudo bem, veja, um sangue de nada. Há de cicatrizar antes mesmo que voltes com um curativo.

Perdoe-me, senhor, estava eu tão curiosa para saber o que tu fazias com este exemplar e, por estares concentrado, hesitei em interrompê-lo. — Fitzwilliam sorriu.

Como uma Dama profundamente instruída, temeste que eu o estivesse ferindo? — As palavras do Dom trouxeram um natural e límpido semblante feliz à Sorinne.

De certa forma… O que o senhor fazia?

Estou restaurando-o. Veja, a capa soltou-se e as primeiras páginas estão inseguras. Com esta agulha curva e mais a linha adequada, costuro e fortifico o exemplar. — Sorinne observava com atenção e fascínio. Fitzwilliam demonstrava seus movimentos delicados, ensinando-a cada um dos passos que fazia para criar os minúsculos nós.

Ó! Tão belo… quão delicado! Um trabalho de grande valor, senhor. — Fitzwilliam deixou suas ferramentas de lado, tirou seu monóculo, limpou suas mãos com um pouco de álcool de seu pequeno frasco ao lado da pilha de livros e estendeu, em cumprimento, sua mão direita.

Sou Fitzwilliam Learvhen — Sorinne tocou a mão de Fitzwilliam e ele beijou o dorso da mão dela.

Muito prazer, senhor Learvhen. Eu sou Sorinne von Phennen.

Por favor, apenas Fitzwilliam. Decerto que o prazer é meu, senhorita Sorinne, se assim posso chamar-te. — Sorinne enrubesceu.

Claro que podes. Vais restaurar toda esta pilha?

Aqui não. Levarei alguns para meu ateliê a pedido de Dom Vonssihren.

Há um exemplar de um romance que tenho grande paixão, ele está tão destruído. Posso mostrar-te?

Decerto que sim! — Sorinne caminhou lentamente até a mais distante das estantes, Fitzwilliam a seguiu. Olhando ao redor não pôde encontrar a escada para que pudesse subir às prateleiras mais altas. 

Está ali, mas, não alcanço. — Fitzwilliam esticou seu braço, sua estatura era suficiente para alcançar o objeto, mas para isso, dado o espaço em que estavam, teve de inclinar-se mais do que devia sobre o corpo de Sorinne. Os segundos que se sucederam causaram, aos dois, grande calidez; a aproximação permitiu-lhes sentir seus perfumes entrelaçados sobre a atmosfera silenciosa, além disso, o toque, a sutil pressão de Fitzwilliam sobre Sorinne de imediato ruborizou-lhes as faces. Com o exemplar em mãos, o senhor Learvhen afastou-se cauteloso.

Aqui... está… — ele disse olhando diretamente aos olhos negros de Sorinne. Ela sentiu-se envergonhada, principalmente porque estava atraída pelo restaurador de livros, algo que há tempos não sentia. — Bem… a capa está bem desgastada… — continuou Fitzwilliam na tentativa de desviar-se da admiração constante que dedicava ao rosto da donzela. — Muitas folhas soltas e… que doloroso! Alguns rasgos entre páginas… — Fitzwilliam analisava com zelo e não deixou de perceber que se tratava de um romance clássico.

—  Ganhei quando jovem, eu estava com quinze anos. Faz um tempo… — Sorinne abraçou-se num tênue gesto de carinho a si mesma — Era de minha mãe… Já li tantas vezes… contudo há tempos receio de tocá-lo, está tão sensível. Precisa de atenção. Quanto ficaria para consertá-lo, senhor Fitzwilliam? — Ele a olhou atento.

Será um presente a uma dama tão delicada e gentil. Levarei junto com os demais e trarei assim que possível.

Não posso aceitar, é o teu trabalho e merece todo o reconhecimento.

Então dê-me um entardecer de outono, o que achas? Junto com uma conversa agradável nos bosques. De maneira alguma te cobrarei quaisquer quartzos por este serviço, o farei com o coração aberto e… — Fitzwilliam hesitou — Pulsante… — Seu tom de voz diminuiu, como se buscasse confidenciar algo. Sorinne tremeu ao ouvir as palavras que, embora inócuas e desprovidas de quaisquer intensões sombrias, traziam à tona a reciprocidade do desejo. Admiraram-se em silêncio e calor por átimos se segundos infinitos até que o som da grave voz de Dom Vonssihren os retirasse da aprazível aproximação. Ambos caminharam até o centro da biblioteca outra vez.

Para Sorinne as excitações tão inocentes que emergiram vívidas em sua alma muito se assemelhavam às sensações dos livros restaurados que, com esmero, eram manuseados e curados para reviverem e, com isso, oferecerem a um leitor, outra vez, o melhor que possuem em si. Ao despedirem-se, Sorinne não hesitou em reforçar sua admiração: “Todo o apuro que dedicas aos livros é algo de digníssimo valor!” — Fitzwilliam sentiu-se lisongeado e manteve seus olhos atentos aos lábios de Sorinne: “Tenho o mesmo afeto e diligência com tudo o que minhas mãos tocam, senhorita” — Revelou. Sorinne saudou-o enquanto sentia o encanto, o arrepio e a paixão que nascia ávida pela vida, assim como uma flor pelo sol, etérea e orvalhando em perpétuo contentamento.



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Rosas

— Por que rosas? — Indagou Lord Mauror. Aruahlis caminhava devagar pelo jardim enquanto tocava com ternura as pétalas…

— Por que rosas? — Indagou Lord Mauror. Aruahlis caminhava devagar pelo jardim enquanto tocava com ternura as pétalas das rosas silvestres. Ela gostaria de explicar ao Lord que aquelas flores lhe traziam um conforto inenarrável, que às noites de setembro, quando maior era o desabrochar daquela espécie, Aruahlis colhia algumas para amolgar até tornarem-se uma pasta pigmentada com óleo natural e, então, ela dispunha tal substância em telas de linho puro formando assim pinturas fascinantes e monocromáticas. No entanto, frente àquele que lhe despertava tanto amor, ela pouco conseguia expressar o que almejava. Mauror, por sua vez, buscava desvelar a essência de sua amada pouco a pouco e se fascinava com o enrubescer do rosto de Aruahlis sempre que se aproximavam.

— Veja, eu trouxe algo. — Aruahlis parou seus curtos passos e fitou as mãos do Lord que estava logo atrás. Nelas havia o que parecia ser sementes. Olharam-se nos olhos em seguida. — Outra espécie que convive muito bem com esta. Plante e descobrirá sua cor. — Explicou ele. Aruahlis sorriu encantada e pegou suavemente as sementes das mãos de Mauror. As mãos tocadas eram como o infinito perfeito.

— Há nenhum presente mais belo que este — sussurrou — e jamais esquecerei de teu gesto, Lord Mauror. — Seguraram as mãos com mais calor.

— Dar-te-ei o jardim mais valioso, com todas as espécies, e tu, como flor mais rara, zelará por todas elas com ternura. A tua ternura que me encanta. — Sussurrou Mauror e, no mesmo instante, ele viu o lacrimar dos olhos de sua amada.



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Aconchego

Luzes quentes cintilam dentro de lares cujo amansar de dezembro sorri gentil. Há neve lá fora…

Luzes quentes cintilam dentro de lares cujo amansar de dezembro sorri gentil. Há neve lá fora, flocos lívidos tocam os rostos corados e frígidos. Nôe caminha com sua amada Lillra no entardecer pálido, ela guarda em sua feição uma alegria serena. Estão juntos, isso é o que há de mais valioso em suas vidas naquele instante. Seus passos são marcados na neve até que cheguem, enfim, em sua singela casa de madeira.

A ceia iniciaria em breve, por isso deixaram o aconchego das luzes e do fogo da lareira e seguiram sem pressa até o bosque para colher as cerejas mais perfeitas em frescor. Receberiam, também, familiares íntimos, eram poucos, porém, especiais. Avistaram, por sinal, seus pais a espera deles assim que se aproximaram, os casais carregavam duas candeias cada, pois o sol já se punha.

 — Deixe-nos ajudá-los com essas cestas — dissera Ordom, pai de Lillra. Ambos sorriam. Todos sorriam. O sorriso era o cumprimento, as boas-vindas. Amavam-se ainda mais quando o frio congelava os pés e, portanto, tinham de cobri-los com meias de lã. Amavam-se quando o cheiro de bolo de frutas amanteigado pairava no ar e as ameixas cristalizadas cobriam o manjar sobre a mesa. Abraçavam-se o tanto que não o puderam fazer no ano inteiro.

Aynile, mãe de Nôe, tocava com excelência o piano que fora herdado de seus pais e que, agora, foi passado à geração de Lillra — que não sabia tocar tão bem. Ao som suave e natalino, conversavam e cantava, sim, cantavam! Em coro e no balanço sutil da noite, a família libertava suas vozes graves e angelicais em um coral amável de hinos sobre amor e generosidade.

Não eram religiosos. Talvez, todavia, fossem. Mas, o que importava era o vínculo em vida, a vida perene que tinham; importavam as dádivas singelas que cultivavam. Dezembro era o mês que lhes servia como um retorno ao íntimo, reencontrando seus olhares infantis, porque na infância o valor da vida está tão somente no significado puro de viver. 

Por isso seus olhos brilhavam. Eram pequenas luzes aquecidas pelo amor.



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A Sonância Escarlate

Meu horror não tem rosto, tampouco forma ou, ainda, constituição. As sombras mais negrumes das sextas-feiras mais insólitas conduzem-me…

Zdzisław Beksiński

Meu horror não tem rosto, tampouco forma ou, ainda, constituição. As sombras mais negrumes das sextas-feiras mais insólitas conduzem-me sempre à lembrança, ressuscitando aquele lôbrego som em minha mente atormentada. Estou fadada à loucura perene desde que deixei aquele lugar — o qual não me recordo ao certo os seus pormenores e, confesso, prefiro que tais reminiscências descansem em paz sob a mortalha do esquecimento, pois diante a condição atual qual me definho, todo olvidar é alívio. O que sei é vago sobre todo o âmbito daquele lugar amaldiçoado e mais ainda do ser, o mensageiro do diabo, que trouxera à luz da vida a composição terrífica do antro mais obscuro de todo o cosmo. Desde aquele dia, perdi minha voz… e não há doutor especialista capaz de identificar algum problema. Se ouso falar… tudo o que ouço é a música espargindo de minhas cordas vocais e penetrando meus órgãos como execráveis agulhas imanentes.

Havia um convite sincero, era para ser um dia especial… como pode haver tamanha desgraça no inócuo encontro de pessoas que se amam? Estávamos naquele bar, nosso entusiasmo era genuíno e emergia de nossas mais recentes conquistas, entretanto, por sorte — a sorte que eu não tive — Eric teve de atender a um telefonema urgente que o fizera deixar o bar pelos eternos segundos em que eu, sozinha, encontrei a hediondez da sonância macabra. Foi a última vez que Eric ouviu a minha voz na sutil expressão da paixão etérea; hoje o que me resta é a imortal prostração, embora eu tente, por amor, ainda sorrir. Sei que aos poucos estou sucumbindo, senão pela música que se repete indefinidamente por cada poro de minha pele, então pelos pesadelos diários culpados de minha insônia e das constantes paralisias oníricas — e como me dói ter de escrever a respeito disso… se estou aqui é tão somente pelo meu dever moral, tendo ciência de que devo alertar a todos sobre o que sei, prevenindo-os de sofrerem o que sofri e que sofro, mas que fique claro que eu não voltarei a redigir sobre o este assunto, eu estou cansada de fazer relatórios e mais relatórios sobre o pior momento de toda a minha existência para que, no final, façam da insanidade a única conclusão possível; este será o meu relatório completo e o único a ser entregue à todas as autoridades que precisarem de meu depoimento. Nunca mais trarei à tona este assunto e ainda que no futuro todos os inquéritos sejam retomados, apenas não me procurem! Tudo o que os senhores precisam se encontra aqui, somente aqui.

Tratava-se, portanto, de uma noite de jazz, com a exibição de um músico que, como Eric já vos deve ter dito, não lembramos do nome e tampouco da razão pela qual ele foi especialmente chamado a se apresentar. Tudo naquela sexta-feira foi incerta a partir do momento em que adentramos o insidioso local. Sua atmosfera era incomum, embora tentássemos não pensar a seu respeito, era evidente que algo estava errado… agora é mais que evidente… ah, se eu tivesse dado ouvidos à minha intuição, tudo poderia ter sido diferente. O lugar era potencialmente repulsivo, não pelas instalações, infraestrutura ou atendimento, mas pela aura. As lâmpadas tremeluziam com aspecto espectral sobre as mesas e pessoas de modo a potencializar uma atmosfera inominável; quando fiquei sozinha na mesa, tudo o que eu sentia era frio, mais e mais frio pelo sopro gélido que pairava no ambiente fechado, a cada segundo, conforme o horário da apresentação se aproximava.

O rosto do músico é indefinido, não sou capaz de descrever o homem, ou mulher, eu não sei, eu apenas fui subjugada de súbito por uma nota que se estendeu melancólica em timbres mórbidos inenarráveis. Foi tão célere quanto impactante, e eu lembro, numa perfeição incontestável, que todas as pessoas que apreciavam a noite naquele local horrífico desapareceram como fantasmas logo em que a música se alastrou e, no mesmo instante, a aura supracitada revelou-se integralmente quando uma névoa encarnada, de odor profundamente idêntico à sangue, veio à tona encobrindo meu corpo. O pavor me consumiu, e eu não tive forças para afastá-lo, pois que o momento insondável esconjurou a deplorável sensação de morte, decadência e danação em proporções insuportáveis. Foi nessa hora que minha garganta foi contorcida e a falta de ar culminou meu desespero, foi uma dor intolerável e tão peculiar como a música que prosseguia fúnebre e maldita tal como deve de ser o riso perverso de uma besta do abismo — a mesma besta que decerto fragmentara os ossos de todo o meu aparelho vocal ainda que a ciência insista em dizer que está tudo intacto!

Agora o que vem é o que menos será aceito pelo mundo, todo o horror que vivenciei por causa da cruciante sinfonia não durou mais que um segundo. O músico infernal? Era como se nunca tivesse pisado naquele palco e Eric insiste em dizer que o sujeito sequer se apresentou naquela noite. E as pessoas que vi desaparecem? Continuavam com seus jantares normalmente. E a névoa escarlate fétida como seiva fresca? Apenas inexistente. Tudo acabou — parecia ter acabado — e quando Eric voltou à mesa, me encontrou morrendo de dores lancinantes na cabeça, a dor era símil às mais agônicas enxaquecas e meus globos oculares latejavam, desolados no caos. Senti enjoos e torturas, as náuseas eram tantas que implorei, no sussurro mais confrangedor, para que fôssemos embora enquanto nada, absolutamente nenhuma lembrança da situação sobrenatural, residia em minha mente. A minha confusão mental naquela noite é assentida pelos sete psiquiatras que passei como responsável pelas “alucinações” ou “fantasias oníricas” que tive a posteriori, todavia eu sei muito bem que não se trata disso.

Pelos dias que se seguiram após a situação que eu sequer me lembrava, a bizarra sensação persecutória nasceu prematura, isto é, tão logo em que deixamos o bar; uma impressão impertinente e contínua; sua duração? Eterna. Ainda hoje sinto estar sendo observada quando me deito na cama para dormir, ou se cozinho com Eric pelas manhãs; não importa o dia, nem a hora, à minha visão paralela pertence as sombras encarnadas como a névoa daquela noite; e o cheiro de sangue sempre germina como uma asquerosa erva daninha, embora não seja pior do que a música, a obstinada canção que desde a saída do bar esteve em minha mente. Saibam que se trata de uma composição funesta, só pode ser, pois o que tem de esplendor, tem de dantesco! Ela contorna a minha psique com uma perfeição tétrica que me afoga em severa algia e, antes de perder a voz, eu a cantarolava de modo inconsciente a ponto de me oprimir aos dissabores mais pulsantes vindos de um umbroso confim que jamais saberemos onde é — aliás, é melhor que sequer investiguemos, pois que foi na busca por respostas que eu naufraguei minha alma na ínsula do desolador átimo esquecido.

As devotadas terapias causavam-me amargor, pois eu tinha de repetir sempre a mesma história, reclamar sempre das mesmas dores; e todos os meus psicólogos e psiquiatras pareciam unanimes sobre a necessidade de prosseguir com as consultas semanais; Eric sabia que eu estava exausta, o resultado que eu buscava estava apenas — e cada vez mais — distante. Dos médicos especializados em toda a fisiologia de meu corpo doente, eu já havia desistido, ninguém entendia as dores pungentes na cabeça, tampouco na garganta; para eles era somatização fundamentada em neurose e, com esta hipótese, terapia era o único caminho. Mesmo diante do meu infortúnio e fadiga exorbitante, aceitei ir a um último psiquiatra, o Dr. Frederico, este, por sua vez, se diferia dos demais, pois, trabalhava com hipnose. Graças a ele eu encontrei o que procurava. Meu alerta é contumaz e é evidente que as autoridades me reconhecerão — e reconhecem, convenhamos! — como doente mental, mas decerto que n’algum momento há de vir à tona uma curiosidade peculiar, alguém há de se sentir instigado a entender o que houve comigo. Digo, repito, tomem cuidado para onde vão, mas não insistam em demasia na empolgação da descoberta, pois que eu insisti e bastou uma única sessão para eu me lembrar de tudo, tudo o que já vos descrevi… e mais…

A música cantarolada todo esse tempo, que trazia meu declínio à angústia permanente, estava inacabada; porém na hipnose ela me veio em completude cruel além de todas as cenas daquela sexta-feira maldita. Sonante pelo inferno mais fascinante e horrendo, notas contínuas de um piano medonho causando nada mais além de constante exasperação e fobia. Minha garganta foi outra vez dilacerada ao ouvir a composição completa e meus olhos se cobriram pelo sangue que eu tanto sentira exalar. Dor, dor agonizante, abri meus olhos antes mesmo de sair do transe e de uma forma assustadora eu vi o Dr. Frederico com um espectro rubro, ele era nada além de névoa fantasmagórica, escarlate, com deformidade cadavérica e a sua nitidez, enquanto toda a sinfonia da loucura, o jazz da minha inabalável ruína, clamava, ensurdecedor, aos meus tímpanos; é palpável para mim, cada cena, todas as vezes em que adormeço. Diante do manto medonho que cobriu minhas retinas naquele momento, lembro-me de cair sobre o chão na lentidão mais avassaladora, dominada pela atmosfera de violenta abominação, e que chorei o sangue das notas macabras e que, também, perdi a minha voz para sempre.

Os senhores jamais entenderão o que é perder a voz para sempre, ainda mais quando se sente, dia após dia, noite após noite, que seu pescoço é envolvido pelas mãos malignas de uma criatura translúcida e cetrina que aperta, oprime e esmaga sua traqueia a cada piscar de seus olhos insones… e mais do que isso, até hoje o jazz melancólico me causa crises de pânico e, numa dessas mordazes crises eu tive uma considerável perda de audição — e essa é a única prova palpável que os senhores terão de mim, a prova que traz à tona a veracidade deste relato, por mais que vocês insistam em desconsiderá-lo. Está tudo anexado a este documento e trilhões de cópias já foram criadas e direcionadas a investigadores, policiais e outros tantos profissionais — e todos os laudos das constantes perdas de audição que me vêm ocorrendo desde a sessão de hipnose estão assinadas por diversos doutores especialistas na área que poderão, e hão de sempre o fazer, confirmar cada exame, cada vídeo e cada relatório técnico que afirma, confirma e explica, que meus tímpanos sofrem da mais estranha anomalia, pois vibram, vibram como se estivessem continuamente expostos a algum tipo de ruído excessivamente estrondoso… de caráter alarmante… vinte e quatro horas por dia… Enganam-se, contudo, se tomarem para si a ideia de que o jazz do espectro encarnado está diminuindo também diante a minha perda de audição; não, a música maldita permanece ensurdecedora e ela nunca… nunca termina.

 
 
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Conto “Recorrência” de Sete Abismos - Versão Original em Inglês

I was spending hours there; it was as if I was losing…

Como revelado em meu livro Sete Abismos, o conto Recorrência é uma adaptação e tradução do conto Recurrence que escrevi em inglês. O idioma foi escolhido em razão de seu poder de síntese, portanto cairia muito bem na transmissão do que eu pretendia explorar com o personagem Misthe. Aqui você poderá ler, portanto, o conto original, escrito em inglês, que deu origem ao conto Recorrência que está no livro.

 

 

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa

Recurrence

I was spending hours there; it was as if I was losing all my life in fifty fragile minutes, and those eyes behind round and large glasses, the ticking of the clock. Something was very wrong there. However, I could not say anything; there was a big sign on the white wall in front of me: Do not speak, keep silence. Next to me, a woman wrapped her arms around herself; her clothes were white and she was barefoot. I can hear her breathing. Small noises and I start to sweat. I can hear steps in the distance. I was rubbing my hands over my eyes; my eyes were burning. How else could I bear it? Any type of electronic couldn’t get there; they had even confiscated my keys; I was forced to take off my contact lens! Because of that, my eyes were burning. "Sir Misthe?" - I hear a soft female voice. I get up and look towards the silhouette. "Could you come with me?" - I move my head to show that, yes, I will go with her; after all, there was no other choice.

Through the halls, doors in light gray. My vision was already driving me crazy, I could swear that in one of those doors was a small window, in this window was something strange. It was like an animal, I swear I saw. However, it was also a person, a woman with short and dark hair. I rubbed my eyes. Damn myopia. Suddenly a sound invaded my ears, I put my hands over my ears and my body bent down, I looked up and saw the silhouette walking without me. I tried to tell the woman to wait for me, but my voice was no way out. The fault was of that damned sign that called for silence. "Sir Misthe?" - I heard. I looked at the silhouette. A soft voice before the silence. "Could you come with me?" - She said. - I moved my head to show that, yes, I will go with her; after all, there was no other choice.

I do not know for sure about the things that happened there, but I was there and I felt it in my veins. The fear. Some things do not need detailed explanation. “Sir Misthe? – I heard again. “Are your eyes ready for surgery?” -- I looked at her; in my forehead was the purest expression of horror. – “Surgery? Are you crazy? I don't even know what I’m doing here at all; how can I accept this?” – “Just keep calm, sir, we're all in trouble here. It is a tough choice, I know, you have your time to decide. Call me when you need.” – She left the room. “Abandon all your expectations” – I heard a whisper, but there was no one there but me.

I looked around quickly, desperately; I felt fear. “Who is there?” – I asked the nothingness. No one answered. I do not know for sure about the things that happened there, but I was there and I felt it in my veins. The fear. Some things do not need detailed explanation. I got up and walked towards the exit door; I touched the doorknob, but I was afraid to open the door. I looked back, I looked around, and I looked up. I was, really, alone. I decided to look through the keyhole.

The whisper… I have not looked through the keyhole, the feeling was unique, and I felt uncomfortable. I knelt. My eyes began to water and my heart was tight. What could I do? Life was no longer the same, the meaning had undone. Sometimes we struggle to believe that the possibility is in our favor, but it is not. When the first tear fell at the white floor, I saw the blood. I looked in panic at the door; my vision stained with blood; the door was open. “Why do you do this to yourself?” – There was a woman standing there in front of me. I could not see her perfectly. However, she was beautiful. The whisper that she gave me. The whisper…

"Sir Misthe?" - I heard a soft female voice. "Could you come with me?" – I looked at her and I smiled, the clock was still on the wall and I had no other choice but to go with her.

II

"Sir Misthe, welcome back"

My tongue has become fiery rock and my cries are the silence of my soul. To die would be my only luck. Something is wrong with me. I know you will come again and order silence, just as the damn sign on the wall. I did not forget the lava you made come out of my brain.

"Oh, Misthe, please drink her" you said. Your tongue has always been fiery rock.

I'm fine, before you ask me. I went back to that room and the only truth I had was chaos. The girl was transformed into a living flesh demon. I can’t see the light. You sewed my eyes, you sewed! But I still see that girl. It's like she's inside me... Stop! Stop laughing! I will not go with you anymore, no, I will not.

"It's time to take your medicine, Sir Misthe" she said.

"Damn it! What did you do to me?"

"Sir Misthe, it's all in your mind."

You look at me, I know it even though I cannot see you. I hear your breath. I smile.

"I'm fine" I say before she asks me.

Alone again. First, I still hear the clock. The water tastes like blood. "Drink her" I remember. Something is very wrong here, I slept for five years while you extracted my organs; my lungs exhaled volcanic smoke. The visions are stable, I've never been alone.

"It's all inside you, Misthe."

I've never been alone.

I get out of bed. I spit the narcotic. I'm dizzy, I'm cold. The more I walk towards what I think is a door, the more I feel strange. But how can I know? The curve of the wire glues my eyelids. Suddenly the light. I scream, and the intensity makes me fall to the ground.

"I can see again!"

The first image comes under the door. There is a great hall there and the people ... Oh my god ... People are eating each other like cannibals. I throw up my lunch, even though I have not eaten anything for five years. Then I hear a sound coming from the right side. A mirror reflects my body. Numerous eyes have been implanted in my skin and I can fill ... I can fill with all of them.

"What the fuck did you do to me?"

"Stay with me, I'll give you everything" I hear you whisper.

“Who are you?” – I shout.

I break the mirror, I'm learning to master my new eyes. Behind the broken glass is a door with a small window. "Could you come with me?" I hear the voice behind the door. I approach the small window and there I can see ...

"Could you come with me?"

The tick of the Clock.

"No! Don’t move your head to say you go with her!"

My twenty eyes are burning.

"No, you bastard! Dont’t go with her!” – I scream.

"Sir Misthe?" – I look back. "We will begin the twenty-first surgery."

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O Epílogo Anunciado

Deito-me às páginas, rubras letras cursivas; no âmbito dos sonhos habito tendo à alma o eflúvio de minha própria seiva. Nas sombras oníricas eu o encontro…

Florence Fuller - Inseparables (1867-1946) Detalhe

Deito-me às páginas, rubras letras cursivas; no âmbito dos sonhos habito tendo à alma o eflúvio de minha própria seiva. Nas sombras oníricas eu o encontro, alado ser notívago e esquálido, beleza núrida¹! Traz consigo o semblante da luz sombria e ao redor de seu esplendor há flores mortas. Olhos felinos, besta humana de nume composição; belíssimo! Mórbida beleza para uma única busca inebriante: a minha sujeição. Hesito, ainda que atordoada; ele me chama à sua glória abissal e, no meu observar tão extático — a sentir que me rarefaço a cada instante — , o livro que protege as minhas letras — e o meu espírito — se evidencia no pomo solene da besta que me chama.

Ao fitá-lo, desperto; acordo fulminante e certa de que devo escrever o que vi… o que senti…, no entanto não há mais sangue à pena, nem folhas ao diário que tão súbito revela-me ausente. Roubado! Ó, sim, levado de mim tal como se leva a alma d’um moribundo. A criatura o levou pelos meus pesadelos com a sua dantesca imagem fascinante quando me deixei ludibriada em seu manto de revelação; estava preso ao pomo de seu poder… Meu pobre imo… meu pobre imo em letras e sangue estará na eternidade sobre o altar de condenados n’um templo sombrio n’algures do universo… a menos que eu o reencontre no desvanecer do sono profundo, o sono profundo é a única escolha.

Vozes sibilares do inverno que se esparge — fogo algum crepita, veste alguma protege. Uma única vela — a única luz — se apaga pelo sopro das cordilheiras. Outro espaço… caminho pelo macio gelo enquanto sinto meus pés necrosarem. Preso ao pinheiro, com arames envoltos a carne fresca animal, uma única página do que se perdera de mim, à força, pela atrocidade do apoteótico. “Estou no sétimo sono, à sétima noite, sob sete palmos, ao sétimo cântico do limbo.” — Li-o, era a minha própria letra cursiva, rubra-enferrujada, reli-o, era a minha própria voz no pântano obscuro do sonhar que desfazia. Outra noite sem sucesso; a cada hora meu corpo se desprendia da alma, a cada ínfima hora afastada do centro de meu ser, das palavras quais me guiam nas sombras do novo mundo, o nadificante núcleo da ausência crescia.

Terceiro sono, lua cheia. Luminosidade dos vales onde o pecado é a sombra da inocência. Meu corpo rasteja pelo labirinto negrume criado de altos muros e árvores mortas de estatura gigantesca; sinto minha respiração densa, sufocada pela aura maligna que descansa no âmbito onírico que me cinge. No entanto, no pousar de uma coruja misteriosa em galhos secos do último carvalho fitado pelos meus olhos ardentes, uma folha em seu bico cai como pena sobre meu semblante já tão consternado. Está vazia. A nulidade que compõe suas entranhas vocifera meu horror pálido e posso visualizar com a perfeição de uma águia a destruição iminente de meu diário roubado pela criatura alada. Desperto, terceiro sono, maldita lua cheia.

Sem força alguma, debaixo de minha própria vitalidade que símil ao vapor se esvaía de mim. Esperei pela quarta imersão no pulsar do entardecer e ela, tão atemporal, não tardara; no quarto plano sonial respirava um dia pálido e seco, nenhuma criatura soturna poderia contemplar a desértica fauna e flora enquanto o astro, no firmamento, no seu ápice cuspia fogo e lava. No horizonte, entretanto, destacava-se uma cruz sem réu; uma cruz que sussurrava meu nome na melancolia de uma elegia. Fui levada até ela frente ao meu desejo peculiar de ouvi-la mais de perto, fui levada pelo sopro quente impetuoso que tão cálido tocava-me a ferir cada centímetro de minha cútis. “Aqui jaz O Diário” — eu li sobre o túmulo mórbido. Em desespero cavei com minhas mãos em carne viva e como, como doía! A dor era real e hoje, ainda, persiste. E mais real que minha decadência, à sete palmos: o diário, o meu diário, rachado, rasgado e ferido, repousava morto.

Meus olhos abriram e levantei meu tronco, célere, a janela do quarto aberta trazia o frio das sete horas da noite. Uma hora de sono, uma mísera hora, e minhas mãos cuja areia adentrava pela carne exposta não puderam alcançá-lo na fundura da cova tórrida e seca. Meu pranto em horror faminto, lágrimas de adeus e agrura. “Por quê?” — bradei ao vazio. “Eu que nada fiz contra deus algum, nem à vida pacata reclamei ou ao caos da solidão fui contra em meu abismo… Eu análoga ao ser mais desprezível, ao verme, ao grão, ao escarro do átomo… tudo o que significava para minha ínfima constituição era o livro que me guardava a alma e ainda assim dele fui desprendida…” — lamuriei. Curvei-me, então, à insônia e nela me obriguei a morar enquanto nenhuma resposta atravessava-me os sentidos.

Quinta noite, escleras avermelhadas, pupilas dilatadas. Sonho algum. E assim da quinta à sexta noite, quebrado o silêncio pelo tênue som que vinha, eu sei, cobrir meu corpo com a mortalha que eu intuía, mas, não ainda; pois que do som veio a medonha criatura de beleza tamanha tal como a morbidez; o homem deificado, alado, de essência animal, felino, no plano da existência real, longe dos sonhos, longe dos pesadelos. Aterrorizada, às pressas para o canto do quarto lúgubre, buscando com tanto afinco um esconderijo. Nenhum diário no pomo, desta vez, eu me preparei para o meu fim, sete palmos, sétima noite. A ave-criatura-ser, besta celestial do inferno, revelou, portanto, no cântico do limbo, que o diário perdido fora perdido dele e de mim, ele que vivera pelo diário desde a página primeva quando nela dei vida, em letras conturbadas, a uma entidade protetora de todo e qualquer diário existente em terra humana. A força das palavras que me tinham o trouxeram, enquanto entidade deificada, mórbida e exuberante, atemporal e consciente; soubera da perdição do diário e em sonhos, profundos, tentou resgatá-lo pelo vínculo tão primitivo ainda que dele já não precisasse mais para se manter entidade-criatura.

Oh, mas não, nem mesmo ela e nem mesmo outro deus-demônio é capaz de curvar a linha da morte sem rompê-la e nem os céus, nem o inferno, nem a destrutiva humanidade poderia impedir que a hora chegasse e que o sepulcro tão fúnebre se adiasse para sempre. Ouvi, atenta, a dor da criatura-besta que tão logo ao dizer-me a verdade, desvaneceu-se à minha frente seguindo à imensidão cósmica de sua morada e deixando, como piedade, a vida retomada ao meu coração agora triste, profundamente amargurado em razão da amarga e fatídica verdade que eu não sou capaz de redigir com clareza, pois que meu luto, e minha saudade, ó sim, a minha lânguida solidão e o meu langor, estes sim são os únicos a possuir imortalidade.

¹ Núrido (adjetivo): Que possui profundidade soturna e aspecto sublime. VEJA O DICIONÁRIO

 
 
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Sonetos e Amores - Sorinne

Sorinne era, de fato, apaixonada por flores quentes, em especiais as vermelhas, no entanto, ela raramente as via no jardim, pois preferia ficar continuamente dentro do castelo…

 

The Love Letter (ca 1870) - Petrus van Schendel (Dutch, 1806-1870)

 

Sorinne era, de fato, apaixonada por flores quentes, em especiais as vermelhas, no entanto, ela raramente as via no jardim, pois preferia ficar continuamente dentro do castelo de Von Sirehn peregrinando nos corredores, sempre com um livro em mãos. Sorinne considerava o mundo hostil, e de fato era; lembrava-se sempre de um antigo amor que durara tão pouco, menos do que todo o verão; ele a prometia cartas de amor, vínculos inefáveis e carinho, mas jamais escreveu, jamais doou-se de coração à reciprocidade. O mais amargo deste romance era o fato de que o rapaz, lembre-se dele como F., adentrou a vida de Sorinne em tempos de felicidade e plenitude, e saiu em tempos de tempestade e solidão. F., na verdade, trouxera toda a languidez e até hoje, cinco anos depois, Sorinne permanece em sua própria companhia e recorda com frequência das palavras de Lord Von Sirehn: “Os homens, minha querida Sorinne, se aproximam das mulheres mais felizes, pois estas são as mais belas. Todo o cuidado é precioso, contudo, pois, eles tendem a destruir a beleza por causa da ausência de tato advinda de suas amarguras viris. Não são todos, é verdade, mas repare bem se F. é mesmo uma exceção”. F. não era uma exceção e Sorinne esperava, de coração, que um dia ele fosse.

 —  Anne? O que está fazendo?  —  questionou Sorinne ao passar lentamente pela porta do quarto de Anne e percebê-la, de soslaio, concentrada em redigir sobre alguns papéis. Anne não olhou para Sorinne.
—  Escrevendo uma carta para Ewen, adicionando alguns de meus sonetos  —  ela respondeu, concentrada.
—  Para quê perder tempo com isso? Homens não leem sonetos, quero dizer, no início eles leem, mas depois que casar-se contigo, há de perder totalmente o interesse. É um artifício para te conquistar  —  proferiu Sorinne com profunda amargura, embora seu tom fosse divertido para Anne que sorriu e olhou sua amiga encostada à porta, abraçada a um livro.
—  Acho que tu tens razão, mas não me importo muito. Amar um homem requer abrir mão de algumas coisas para poder ter outras  —  respondeu astuta. Sorinne movimentou seus ombros expressando desdém.
— Pois eu me recuso! Não me contento com pouco! 
—  É… Sori… Estou vendo…  —  julgou cuidadosamente.
—  “Estou vendo” — Sorinne a imitou e trouxe sorrisos à Anne outra vez  —  Tu te lembrarás dessa conversa quando notar que teu futuro despe mais teu corpo do que tua alma!  —  Sorinne voltou à caminhada e Anne adicionou um novo parágrafo à carta que escrevia para Ewen: “Querido Ewen, a alma é mais valiosa que o corpo e, daqui há alguns anos, espero que te lembres disto”.

 
 
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O Prelúdio da Loucura

Havia algo naquela noite, algo cuja fixação no antro do inconsciente é mais poderosa do que quaisquer traumas envolvidos pela…

Nicola Samorì - L’oro galleggia (2011)

Havia algo naquela noite, algo cuja fixação no antro do inconsciente é mais poderosa do que quaisquer traumas envolvidos pela imaginação fértil da infância. Eu não posso esquecer, e por isso escrevo; existe no meu ser uma necessidade incomensurável de escrever as minhas agônicas memórias e, à posterioridade, deixo este relato como uma lembrança de que nem tudo é o que parece ser.

Foi de súbito que o horror nasceu, com o vento soprando em ódio à sua sonância terrífica; trovões ressoaram em átimos subsequentes, com clarões de absurdo fragor no mesmo instante em que a porta da sala-de-estar se abriu impetuosa, possuída de uma fúria ancestral, rangendo e batendo contra a parede. A lufada adentrou, tão semelhante a uma onda de torrentes instáveis, e eu pensei que só podia ser o prelúdio de uma tempestade agressiva — digna de tufões. O medo me tomou num único gole e, apavorada, fixei meu âmago no assobio tétrico que, tão logo, invadiu-me os tímpanos. Meu coração se cercou na arritmia, pois não se tratava de um assobio comum, como qualquer outro vento proporciona ao encontrar uma fresta; não, era o silvo mais horrendo que já ouvi e, embora tenha sido captado pelo sentido da audição, o maldito me penetrou a espinha dorsal e contornou-a, gelando até meu peito. Meus braços e pernas pruriram, e eu hesitei em olhar para a janela.

Quando fitei meu gato, inquieto, saindo do sofá e seguindo para o cômodo ao lado, tive certeza de que algo acontecia; minha intuição, contudo, conturbada pelo alarme, nada me revelava — seu intuito era me proteger, e eu estava anestesiada pela tensão. Caminhei até a porta, oscilando, imaginando que a trancaria após verificar o clima. Assim o fiz, apesar da dificuldade contra o vento continuamente perverso. Olhei para fora, e a rua estava negra como um pântano sombrio, cuja proteção de suas entranhas guarda o segredo de uma gruta úmida e rançosa; as luzes estavam tenras, como a prever a abominação, e eu nunca vi os pinheiros tão enlouquecidos pelas contínuas rajadas, nem os céus naquele negrume tão profundo. Seria mesmo real? Segurei a maçaneta, investi contra o fluxo; o assobio, outra vez. Estremeci como um pobre cão abandonado, ainda na tentativa de fechar a porta, mas parecia impossível, pois mais e mais forte era aquele pulmão inabalável.

— Céus! O que é isso? — proferi na fuga de um alívio; era como se, ao ouvir minha própria voz, estivesse garantido a força da minha sanidade, assim como a realidade tangível e a segurança da vida mediana. Pobre de mim! Mal a indagação retórica se concluía, e o assobio — juro pelos deuses todos que já foram criados nesta humanidade, desde os mais primórdios tempos —, o assobio agudo e perverso vociferara: “Eu sou!”. Delírio? Delírio! Movimentei a minha cabeça, e meu corpo pesou como chumbo; senti tão instável o chão sob meus pés e, atordoada, emergiu-me a necessidade impulsiva, agreste, como uma gana intrincada, de provar a mim mesma que a realidade era ainda digna da significação do termo que lhe designa. Mirei à minha volta; soou-me duas horas de contemplação e busca, mas foram segundos... segundos depois de ouvir o demônio sibilar! Lancei contra a porta de madeira meu corpo pálido e frígido como um cadáver e, decerto, meu espírito, maciço pelo horror, agregara a força precisa para conseguir fechá-la. O maldito portal do inferno estava trancado! Eu, tão ofegante, caminhei à janela, completamente inebriada por uma coragem que nunca mais senti, certa e resoluta sobre fechar, definitivamente, o umbral de assobios execráveis.

Estava lá, a fresta que basta para hipnotizar; ser algum é capaz de tomar ciência das similaridades entre o trivial e o terrífico, tampouco apreender, com clareza, que somente na trivialidade o terrífico se desvela — até que o temor incontrolável lhe penetre como a fina agulha de uma seringa, arauto da vida e da morte. Aquela fresta era trivial, mas eu estava envenenada pela doença do hediondo, na catarse íntima, silenciosa e pungente. Por isso, mesmo quando a fissura se fechou por minhas trépidas mãos, não senti alívio; algo ainda residia na atmosfera. Eu não sabia, entretanto, se advinha do nefasto pronunciar — o silvo do vento cruel — e da sensação de sua magnitude fúnebre, ou se d’outra cousa que meus olhos não podiam enxergar.

Repousei sobre o sofá enquanto morria nas indagações de meu ser. Todavia, meus olhos... ai de mim, meus olhos, que não podiam enxergar o horror que pairava, finalmente puderam me ser úteis. Eu vi o meu amável felino sobre a mesa da sala de jantar — e ele não estava feliz. Na verdade, sua face era de medo, e seus olhos de gato noturno fitavam, arregalados e com finíssimas pupilas, a fresta... a fresta da janela da sala de jantar.

Antes que eu pudesse correr, o assobio bradou suas maldições mais alto do que outrora, e o gato correu para longe, assustado. Minhas forças nitidamente se esvaíram, tamanho era o pânico! E eu não conseguia caminhar enquanto aquele agudo ascendia, e o vento soprava, e a fechadura estalava, deflagrando-se como um arrombamento premeditado de uma criatura monstruosa. A porta da sala-de-estar, o portal do inferno, de novo escancarado, pois que, na rufada maligna, não habita a clemência. Mais temor. Mais vento. Aquilo não podia ser uma simples intempérie! Não podia ser tão somente um vendaval! A coisa que assoprava tinha alma, consciência e voz.

— Deixe-me em paz! — meu urro veio da essência de meu núcleo humano; meus passos já não podiam continuar, e o sibilo, cada vez mais ensurdecedor. — Deixe-me em paz! — cada vez mais estrondoso. Amedrontada, chorei cachoeiras do desespero genuíno. Mas, quando abri meus olhos, vi as lágrimas flutuando ao redor, como se não houvesse, em grau algum, o peso da gravidade. Meu peito tornou-se um cubículo d’onde pouco — ou quase nenhum — oxigênio se abrigava. Que aflição! Inominável aflição! Olhei para o líquido guiado ao vento macabro e notei que nada, nada se movia. Era apenas surreal... nada além de meus cabelos. E tudo o que havia em mim estava no caos daquele místico infortúnio; nada além de minha ínfima existência se afetava em horror. Os livros estavam estáticos, os papéis sequer vibravam, os casacos, pendurados naquele velho cabideiro de eucalipto, estavam inertes... estranhamente inertes; nem as lágrimas tinham noção de seu dever em cair sobre o chão miserável.

Assim, estupefata, me curvei lentamente e, de soslaio, atentei para a sala-de-jantar, buscando o que assombrara o pobre felino — que era, pois, o único além de mim que poderia comprovar aquela — sem dúvida paranormal — extravagância. E estava lá... estava mesmo lá, na frincha ordinária, na trivial fresta, tão símil àquela qual, há poucos segundos, eu fechara. Era um ser diabólico... vívido através do vidro, como uma colossal monstruosidade espiral cuja mente humana sequer pode assimilar. A forma do vento atemorizador, o semblante esguio e atroz do sobre-humano sopro claustrofóbico. Era como uma serpente, com membranas no contorno de seu corpo, possibilitando-o de voar como uma ave amaldiçoada; tinha padrões de orifícios, os quais vibravam — vibravam impetuosos ao som do assovio hediondo! E mais... tanto mais... aquela coisa nunca deixou a minha memória! Pelo contrário, fez de minha memória o seu recôndito infernal — para sempre! Empalideci diante dela, e eu sei que eu estava branca como névoa, pois tamanho era o meu pavor diante daquilo. E eu me arrastei pelo chão até chegar à porta de entrada escancarada, sem conseguir tirar meus olhos daquela coisa. Ela estava parada, e seu único olho negrume parecia me fitar o núcleo de minha constituição. Ela continuava a assobiar e, num único piscar de olhos, após um árduo lacrimejar, a criatura sumiu.

Levantei-me com esforço e corri numa lentidão inimaginável, pois o vento não me permitia sair para fora de casa — ele me afastava à janela, e a coisa, agora invisível, contornava meu desespero. O assobio estava tão perto... era um sussurro em meu cérebro. Jamais serei capaz de descrever a sua composição. Até hoje acreditam que eu estava sob o efeito do ópio — o qual jamais fora encontrado, nem em meu corpo, nem em minha casa! — Céticos condenados! Não sabem com o que estão lidando! A sensação que perdura, desde então, em mim, é de que a criatura inenarrável não era um fenômeno da ufologia moderna, tampouco um acontecimento cuja explicação está no esoterismo; a coisa dominava a natureza terrestre e manipulava a realidade de modo que, quando eu consegui escapar às ruas negras, percebi que, naquela hora, nem os pinheiros se moviam. E tudo o que pude fazer foi gritar — mais alto que o assobio infernal —, tendo ainda meu corpo empurrado pelo mefistofélico vendaval.

Bradei na mais profunda amargura, e meus tios, residentes da casa vizinha, apareceram. Tudo se extinguiu quando eu os vi. Disseram-me, depois, que desmaiei como se estivesse morta; minha pulsação era quase nula e afirmaram-me que tive, a caminho do hospital, lapsos de consciência, onde eu gritava, em grave exasperação, as seguintes palavras desconexas: “retorno” e “devoção”.

 
 
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O Diário de Laurien

Esfriara. Minha pele está mais nívea e meu rosto mais magro. Estou esquálida de espírito e, de tanta imersão na mediocridade, estou desabitada;…

 

James Jebusa Shannon - Lady Marjorie Manners (1900)

 

Esfriara. Minha pele está mais nívea e meu rosto mais magro. Estou esquálida de espírito e, de tanta imersão na mediocridade, estou desabitada; minha energia tornou-se vapor cinéreo contornando o nadificante vazio do abismo do mundo humano. Não há quem possa me encontrar no breu imortal de meu ser, tampouco na cálida algidez de minha mente; intriga-me que me vejam e que gerem sobre mim imagéticas compreensões jamais assentadas sobre o fenômeno mesmo  — o fenômeno mesmo que eu sou. Eu nada espero do mundo, porque reconheço a sua desordem abundante e a sua fome e sede por olhos, olhos que podem ver como os meus veem, olhos quais ninguém, um dia, foi capaz de realmente fitar.

A melancolia é meu recôndito, e há de sempre ser, pois que o é a cada dia mais e a cada noite ela se desvela outra vez dentro de meu pranto imanente. Noite… A noite é o deus que cultuo e, quando de frente à sua esplendorosa glória sou posta a louvá-lo através da poética mais ingênua que meu peito comporta, reconheço o porque de minha misantropia; é graça que todos se denominem relutantes ao afeto humano, ao vínculo, ao encontro; todavia no cerne da suma maioria o que reside é, tão somente, a saudade; já em mim, nem saudade, nem paixão, nem loucura. À serenidade da solidão, meu próximo gole de sangue; à razoabilidade dos homens, meu próximo escarro negrume. Enquanto os observo sinto a aragem do desabrigo, a natureza não é capaz de julgar, então recorro à sua imensidão, minhas pálpebras se fecham e eu durmo no sorrir tênue do amanhecer.

 
 
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