Capítulo 4: Apreensão Familiar — A Mansão Negra
A cristalina água corrente abluíra as provas de que aquilo não se tratou, tão somente, de uma manifestação…
A cristalina água corrente abluíra as provas de que aquilo não se tratou, tão somente, de uma manifestação do inconsciente. Tentei assimilar a loucura da situação, todavia, estava no horário demarcado por Ehllenor para que eu os encontrasse na sala de jantar, para iniciarmos o desjejum. Portanto, sedei meus pensamentos e indagações sombrias, fiz minhas higienes matinais e deixei meu aposento. Assim que visualizei o corredor, notei a porta da alcova de Ahzaez, ela estava entreaberta, tal como em meu sonho. Caminhei à esquerda, obrigatório para chegar ao meu destino; passei, portanto, pela porta e evitei, a todo o custo, fitá-la. Apressada e um tanto dispersa, acabei por colidir com Morgion pelos estranhos ângulos entre um recôndito e outro daquele lugar.
— Morgion! Perdoe-me. — Proferi, abaixando-me para ficar na sua altura. Ele sorriu, educado. Ehllenor estava logo atrás dele. — Como fora tua noite de sono, querido? — Indaguei-o.
— Nada bem... — Ele sussurrou, entristecido.
— Deixemos para falar disso após o desjejum, meu amor. — Orientou Ehllenor. Levantei-me e sorri para ela. Morgion abaixou sua cabeça, unindo suas pequenas mãos; ele não estava bem.
— Bom alvor, senhorita Saeeri. Espero que a primeira noite em nosso lar lhe tenha sido deleitável. — A seriedade de Ehllenor indicava-me que, na Mansão Negra, ninguém adormece em remanso.
— Sim, senhorita. Agradeço a hospitalidade inestimável. — Respondi-a mentindo, embora por razões de grande valor. Seguimos juntos à sala do desjejum.
Era um cômodo imponente. A mesa no centro era grande, para cerca de quinze pessoas. Esculpida em obsidiana, como imaginado para tudo o que existia ali, com castiçais e esguios vasos para orquídeas negras ao longo de seu comprimento. Ertthan nos acomodou e, em silêncio, aguardamos a chegada dos demais. Esperava conhecer toda a família Sttrattan naquela ocasião, contudo, em alguns minutos, Dama Lilith chegara, caminhando com cuidado sendo guiada pelo mordomo. Somente ela. Levantei-me em respeito à Anfitriã e porque assim o fez Ehllenor e Morgion. A mulher era, de fato, mãe de Ehllenor, pois, ambas eram semelhantes em demasia.
— Dama Heigger. — Dissera com a voz rouca e trêmula. Seu cumprimento fora apenas com uma singela reverência. Fiz o mesmo.
— É um prazer conhecê-la, Senhora Sttrattan. — Expressei. Sentamo-nos todos e, em seguida, Erttham iniciou a colocação dos pães, geleias, frutos e outras iguarias de Amorttam sobre a mesa. Isso indicou-me que ninguém mais viria para compartilhar o momento. — Vi muitos quadros de vossa família; indago-me onde todos estarão. — Proferi em curiosidade, no entanto, em busca de informações que esclarecem mais a vida do pequeno Morgion.
— Muitos dos meus filhos estão em Sihren para formarem uma educação completa na Universidade. Soron os acolheu com estima em seu Castelo. Outros rebentos deixaram a Mansão para que pudessem esculpir seus próprios lares; se não fosse Ehllenor e o meu adorável Morgion, estaria aqui apenas eu e Ahzaez.
— Acredito que Ahzaez seja seu filho mais próximo... — Comentei, mas, fui interrompida.
Proferir o seu nome resultou, por coincidência, em sua aparição pelos principais umbrais do cômodo. Pouco antes, Ertthan abrira todas as janelas, fazendo com que a luz e o ar gélido clareassem o local e desse-lhe vida, renovando a atmosfera. Ahzaez chegou aflito, embora conservasse um severo semblante que vi quando por ele fui recepcionada na noite anterior. Direcionou-se, em primeira instância, à Lilith. Reverenciou-a beijando-lhe a mão. Em seguida, beijou a fronte de Ehllenor e acariciou os cabelos de Morgion. Somente após tal cuidado e apreço com seus familiares, permitiu-se olhar em meus olhos; fitou-me e, por instantes inomináveis e céleres, nada fez além de observar meus olhos e meus lábios... seu olhar me desconcertou...
— Senhorita... — Proferiu em um tom diferente do qual o fez com sua família, o que me soara algo esperado e comum. Não se aproximou de mim e logo sentou-se. — Peço-lhes perdão pelo meu atraso. — Dissera.
— Não te preocupes, creio saber as razões. — Respondera Lilith, olhando para Ahzaez. — Aqui, senhorita Heigger, as noites podem ser um tanto perturbadoras. E, sobre sua indagação, creio ter o dever de esclarecer que Ahzaez é meu irmão, não meu filho.
Fiquei embasbacada com aquela informação, evitei, todavia, de expressar o assombro instantâneo. Ahzaez era jovem, decerto possuía pouco mais que eu em estado de vida. Lilith era bem mais velha, notava-se à olho nu.
— Dialogavam sobre mim antes à minha chegada. — Considerou-me culpada através da ímpar maneira com que se atentou a mim ao dizer aquelas palavras.
— Eu... — Hesitei — Eu estava inferindo seres tu o filho mais próximo da senhora Sttrattan, não... não imaginei que serias irmão da anfitriã. — Explicá-lo não deveria ser uma obrigação, todavia, a julgar pelo seu olhar, cri ser necessário. Uma efêmera quietude espargiu.
— Ahzaez fora um bebê indheren, Senhorita Heigger. — A explanação de Lilith confirmara que meu esforço, para não transmitir minha surpresa a respeito do assunto, não fora suficiente; e que, estranhamente, esqueci-me do método indheren de fecundação. Demonstrei minha compreensão e apenas me calei; tive a sensação de estar incomodando-os com minhas tolas palavras, embora fosse parte de meu ofício a indagação contínua.
— Saee... — Ahzaz hesitou — Dama Heigger pareceu-me interessada na arquitetura da mansão, em especiais os umbrais silentes. — Ahzaez dissera, sem olhar para mim ou para qualquer outra pessoa. Quase perdera a formalidade comigo, mais uma vez.
— Ó, sim... as portas... Espero que tenhas sido informada da importância crucial de mantê-las entreabertas. — Ressaltara a matriarca. Ehllenor demonstrou receio e imediatamente olhou para mim e, em seguida, para Ahzaez.
— Eu a orientei, Lilith. — Disse Ahzaez. Ehllenor sentiu alívio e ele olhou para mim.
— Ótimo. Tu sabes que a Mansão Negra pertencera a Krvier... — Lilith oscilou ao proferir o nome do Soberano e, sinceramente, o nome foi o que mais ecoou pelo ambiente e isso foi de uma estranheza pavorosa. — Não sabemos as razões pelas quais ele construíra este lugar, mas após tantos anos vivendo no “envoltório de obsidiana”, percebo que ele não tinha boas intenções ao erguê-lo. Tudo aqui é silencioso e o som pouco se propaga. Tivemos infortúnios que não serão esquecidos, tudo em razão da Mansão Negra. O que possui de extraordinária beleza, possui de segredos e, alguns deles, decerto são perigosos.
— Pensaste em deixar a mansão em algum momento, senhora Sttrattan? — Questionei, retomando meus motivos para estar ali.
— Não o farei. Ainda que me sustente em sua solidão perpétua. Eu pertenço a este lugar.
— Ninguém pertence à Mansão Negra, Lilith;. O “algo” que a pertence deveria sucumbir junto a ela. Mais perverso que aquele que a construiu, é aquele que a mantém erguida. — Interrompeu Ahzaez. Ele demonstrou uma nervosia tênue, algo que parecia guardar em seu âmago, talvez, por ter sua família na Mansão, passando pelo que passam; ou, pelo que ele passa, se o pesadelo de outrora possuir fragmentos da realidade. E lembrei-me do quanto parecera real e do sangue em meus dedos.
— Nunca disseras tamanha afronta frente a outras visitas... parece-me à vontade com Dama Heigger. — Lilith fitou-me, parecia insinuar algo. Ahzaez olhou para Lilith.
— Não é ofício de Dama Heigger o aconselhamento psíquico de Morgion?
— De Morgion sim, Ahzaez, não de ti.
— A menos que Morgion viva sozinho, Lilith, receio que seja ofício de Saeeri investigar toda a família que o circunda. — Havia furor no olhar de Ahzaez e o mesmo no de Lilith. Eles se encaravam.
— A senhorita Heigger realizará o atendimento de todos nós, assim acordamos. — Ehllenor interrompeu-os, pois que a singela conversa se agravava, suficientemente significativa para que eu pudesse entender a dinâmica da família — ou começar a entendê-la. A voz de Ehllenor quebrantou a faísca do ódio, pois os irmãos deixaram de se olhar. Lilith concentrara-se em seu chá e, Ahzaez, em mim.
— Phamen, a principal ama responsável por Morgion, tem sofrido com algia profunda nas têmporas, sintomático de desordem, pois sua fisiologia não apresenta alterações incomuns. — Disse Ahzaez.
— Ora, Phamen! — Exclamou Lilith, em tom menoscabo. — Uma mulher Ventral consumida por infertilidade e que agora sofre por não poder ter mais uma criatura Ventral para morrer cedo. Isso a perturba, por isso sente dores psíquicas. — Lilith foi fulminada pelas íris de Ahzaez.
— Não diga isso, mamãe; Phamen é docílima e somente cabe a ela revelar suas angústias à doutora, quando for o momento adequado. — Ehllenor parecia sentida pelas palavras de sua mãe.
— Estou apenas sendo objetiva; a doutora não deveria perder seu tempo com os Ventrais da casa; eles escolheram a vida que possuem. Que arquem com as consequências! — A frieza, um profundo descaso, advinha da alma daquela mulher; não ousei revelar ser, pois, uma Ventral e, embora fosse profissional o suficiente para separar as coisas, doeu-me ouvi-la dizer o que dissera, pois sei das razões de meus pais e sei que nasci como sou porque foi preciso.
— Mamãe, por favor...
— Reserva tua energia, Ehllenor; Lilith não tem sensibilidade para lidar com a multiformidade da vida.
— E tens tu? Vives sob meu teto, Ahzaez; usufruis de minha fortuna para se ceifar ao bel prazer do láudano. Sejamos sinceros... — O silêncio e os olhares entre irmãos cultivavam uma cólera inominável. — Se não fosse o método indheren, tu estarias morto.
— Ahzaez é a razão pela qual não sucumbi à loucura nesse lugar... — Ehllenor se direcionava à Lilith e, logo em seguida, olhou para mim. — É um homem bom e protetor, tem cuidado de Morgion como um pai. Ele está atento às portas, aos sons, a nós.
— Se há desagrado em ti, por que continuar aqui? Fomentas a dor porque queres, tal como um Ventral o faz. — Lilith desdenhara. Sua filha respirou fundo.
— Tens razão, mamãe; talvez eu devesse ir.
— E vai. — Afirmara Ahzaez. — Assim que o tratamento com a doutora se findar, Ehllenor e Morgion irão para Sihren, já acordei com Soron. — Revelara. Um brilho nos olhos de Ehllenor emergiu, porém, uma preocupação em seu semblante era inequívoca. Lilith, por sua vez, parecia incólume. O silêncio que pairou a posteriori, teve de ser destruído por mim, pois, notei que a dor e a mágoa eram fortes razões para que algo prejudicasse minha estadia e, àquele ponto, comecei a temer pelo menino.
— É importante que minha estadia seja proveitosa a todos que aqui residem, inclusive os funcionários e em especial os membros da família Sttrattan. — Respirei fundo. — E, bem, o café estava de uma amargura aprazível, agradeço senhora Lilith. Agora já estou à disposição para atender o pequeno Morgion. — Olhei para o petiz. — Sei que tens muito a me contar, certo? — Disse de maneira lúdica, tentando agradá-lo. Ele movimentou sua cabeça, confirmando minha questão.
— Vamos, então, estamos prontos. Por aqui, doutora Heigger. — Dissera Ehllenor. Levantei-me, pedimos licença, saímos. Lilith e Ahzaez permaneceram à mesa. Perguntei-me o que conversariam a sós, mas suspeitei que prefeririam o angustiante silêncio.
Capítulo 3: Insanidade do Desejo e a Loucura — A Mansão Negra
Despertei assustada, sem razão, exceto por uma sensação de intenso temor. Sentei-me…
Despertei assustada, sem razão, exceto por uma sensação de intenso temor. Sentei-me sobre a cama, respirando com dificuldade. As velas do castiçal único estavam apagadas e o breu era carregado, pesado. Como orientada, busquei por fósforos na mesa de cabeceira e os encontrei. Acendendo um, à princípio, para localizar o castiçal. A acústica daquele lugar era impressionante; nenhum som saía, nenhum som entrava. Fui à janela para abri-la, de modo a ouvir algo além do meu frenético coração. Era impossível, não me parecia ser feita para se abrir. Acendi as velas no castiçal sobre a cômoda e o que notei me assombrara de modo tétrico e tão repentino quanto meu despertar sôfrego, voltando a acelerar o meu órgão vital. Nenhuma das pessoas, naqueles retratos, possuía rosto. Suas faces estavam borradas. Aturdida, segurei uma das molduras após o fugaz afastamento impulsivo e instintivo; toquei a pintura. Parecia real. Estava seca. Com uma tênue camada de fino pó sobre sua textura. Antes que pudesse assimilar aquela bizarrice — e antes de me questionar se eu sonhava, tal como Morgion, ouvi batidas à porta e, célere, a encarei.
Em uma lentidão espectral, coloquei o retrato sobre a cômoda e caminhei à porta, segurando o castiçal. Ao fitar meus olhos à maçaneta de ouro, ela apenas não existia. Toquei o cedro negro do umbral, busquei o que apenas nunca parecia ter existido. Ouvi mais duas batidas na porta. Um desespero mórbido emergiu no meu âmago; uma sensação claustrofóbica gritante conduzira todos os meus sentidos. A respiração, outrora ofegante, passou a ser a súplica de um horror silencioso e, ao mesmo tempo, gritante. Pus o castiçal em qualquer lugar, o qual nem vi onde, e, em desespero, bati contra a porta pedindo ajuda para sair, ainda que eu sentisse que nenhum som poderia atravessá-la. Meu pânico gerara um suor vívido pelo meu corpo e meus olhos lacrimejavam pela hediondez daquilo que eu me via imersa. Foram os minutos mais bárbaros de minha vida, pior do que tudo o que aquelas poucas horas já haviam me proporcionado. Abruto, a porta se abriu, empurrando com um abalo, meu corpo. Então vi a maçaneta em seu devido lugar e vi os olhos azuis-cinéreos de Ahzaez, segurando a maçaneta da porta, pelo lado de fora. Por um instante, eu apenas não compreendi nenhuma informação disponível à minha consciência.
— O que houve, Saeeri? — Ele questionou, todavia, arfante e exaurida, eu não pude respondê-lo de imediato. Ele se recompôs, parecia ter forçado a abertura da porta e, decerto, ter ficado ansioso em relação ao meu bater pelo outro lado. Notei — a posteriori, quando a lembrança me veio — que fui chamada de Saeeri sem nenhum tipo de formalidade, algo difícil de acontecer com famílias como as de Sttrattan. Ahzaez aproximou-se um pouco mais e pude sentir seu calor. — Tu estás... — Ele fitou-me de cima a baixo. — O que houve? Precisas de algo? Saeeri? — Esforcei-me para respondê-lo, ponderei, n’um lampo de pensamentos, diversas palavras e as únicas que me saíram foram as mais evidentes.
— Fiquei... presa... — Olhei para trás, de soslaio. Nenhum rosto estava apagado nos retratos. Observei a porta. A maçaneta intacta em seu áureo lume próprio. Que tipo de anomalia era aquilo? Sem nenhum histórico de delírio em todos os meus trinta anos de vida, deduzir que se tratava de alguma patologia mental, por quaisquer motivos, era ignorar a verdade.
— Pegarei um copo d’água para que possas te acalmar... — Ahzaez dissera, voltando-se à porta, mas eu o segurei pelo braço, ainda domada pelo medo. Eu não queria ficar sozinha outra vez. Ele me olhou atento. Tocá-lo foi invasivo... e afrodíseo... como não deveria ser. Soltei-o diante de seus olhos, eram tão amedrontadores quanto todo o horror vivenciado.
— Perdão... — Murmurei. Se já não era educado tocar alguém sem permissão, tocar aquele homem sem a devida autorização assemelhava-se ao crime mais cruel de toda a Sihren. — Estou... assustada... — Ahzaez aproximara-se da cômoda com os retratos, em silêncio; da última gaveta retirou uma toalha, estendendo-a a mim em seguida.
— Use isto para... secar... tua tez... — Sua voz baixou a dois tons, fora quase sussurrada... — Mantenha a porta aberta, volto em breve. Com a porta aberta, ouvirei tua voz caso algo aconteça, basta chamar pelo meu nome. — Abraçada à toalha, apenas concordei com sua fala agravada pela densidade daquela Mansão; então o vi deixar o quarto.
Como ordenado, sequei-me a pele úmida pelo temor; respirei profunda e intensamente. Prendi, com cuidado, meus cabelos que se soltaram diante meus bruscos movimentos contra o umbral. Segui ao espelho oval e ornamentado, ao lado direito da cama. Quis ver meu rosto, acalmando-me a sanidade. No entanto, não havia... reflexo... e fui tomada pelo mesmo impacto horrífico; tendo meu coração acelerado em aterrador ritmo. Cobri meu rosto com o a tolha, seu algodão negro soara-me acalentador. “Isso não pode ser real” — sussurrei, afoita, afogada em medo.
— Dama Saeeri? — Ouvi. Seu tom inominável assustara-me, contudo, contive quaisquer impulsos, apenas o olhei com uma rapidez mórbida. Ahzaez segurava um copo d’água. Com sua presença, no entanto, ainda que macabra de sua maneira, senti-me mais segura para fitar o espelho. Lá estava meu rosto assustado, meus olhos abertos, a pupila dilatada, a pele ainda orvalhada pelo pavor. Respirei com a profundidade de um precipício, fui até Ahzaez e aceitei a água, tomando-a lentamente. Assentei-me no baú frente à cama, o qual era, também, um assento. Aguava meus lábios e entranhas enquanto secava minha tez. Ahzaez apenas olhava, em silêncio.
— Peço perdão pelo constrangimento, Dom Sttrattan. — Pronunciei após conseguir me acalmar; não demorou muito, mas sob a presença daquele homem, assemelhou-se a uma eternidade. Sua imponência era pujante, ainda que, fora dela, o horror extravagante possuísse maior magnificência tenebrosa. — Agradeço por teu cuidado em acudir... acredito que estavas passando pelo corredor... — Queria saber o porquê ele batera em minha porta, no entanto, sua fúnebre composição aflorava minha dedicação à comunicação delicada.
— Notei que este umbral pertencente ao teu aposento estava fechado e, portanto, vim alertar-te da importância de mantê-lo aberto em, ao mínimo, uma singela fresta. — Explicara. — Acredito que Ehllenor não tenha te informado a respeito. Como podes notar, todo este lugar foi construído para que o som não se propagasse. E as janelas não abrem à noite, por seu mecanismo próprio. Manter as portas abertas permite que possamos ouvir, caso algo aconteça.
— Compreendo... Muitas coisas singulares acontecem na Mansão? — Questionei sem tato, confesso, àquela altura eu já não estava tão atenta.
— Não, senhorita. Mas há Lilith cuja idade está avançada e Morgion que é apenas uma criança, ambos podem precisar de auxílio no calar da noite; estamos com colaboradores escassos.
— Tu vagas à noite, cuidando deste afazer? — Olhei para seus olhos, à sombra própria do cômodo, eles pareciam escuros.
— Não... — Respondera e silenciara por um momento. — Meu quarto está próximo do teu, neste corredor... há duas portas de distância. Por insônia, levantei-me para caminhar ao belvedere para respirar um ar puro e úmido. Sabendo que serias colocada neste aposento por Ehllenor, olhei em direção para certificar que a porta estaria entreaberta. — Elucidara.
Não me parecia agradável adormecer sob o olhar de quaisquer pessoas daquele lugar; tendo a porta em fresta, refém da ausência de privacidade. E se, orientada devidamente, mantivesse os umbrais à disposição dos olhos azuis-gris daquele homem? Por quanto me observaria? “Vagante da noite lânguida” quiçá fosse o significado do nome “Ahzaez”. Esses pensamentos usurparam minha mente sem que eu os pudesse comedir, mesmo tendo sido salva por ele, a austeridade vívida de seus olhos mortos e de seu semblante obscuro não me permitiam confiar, com plenitude, em suas ações e intenções, principalmente.
— É imprescindível minha partida agora, Dama. Devo dormir e creio que a senhorita também. — Suas palavras desafiaram o silêncio antecessor a elas.
— Gostaria de conhecer o belvedere; é distante daqui? — Sondar o homem sobre um possível abrigo para a claustrofobia do local, soava-se pertinente. Ahzaez caminhou à porta.
— Ordenarei que uma ama lhe guie até lá pela manhã, senhorita. — Proferira em tom soberbo. — Boa noite... — Com uma pequena saudação silente, Ahzaez deixou o cômodo, seguindo em direção ao seu quarto.
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Eu tinha diversas indagações a esse ponto. Por que não travam as portas entreabertas? Ou as trocam por outras? Por que apenas não retiram as trancas? Por que não adicionam algum tipo de circuito interno de comunicação, tal como já vi na universidade de Sihren? Qual seria a razão para que as janelas fossem travadas no calar da noite? E como alguém pôde criar esse mecanismo? Os Sttrattan pareciam defender a Mansão Negra acima de tudo, acostumando-se ao que ela oferecia sem impor nenhuma condição. Além disso, o que vivenciei diante as anomalias do quarto, o sumir da maçaneta, as pinturas sem rostos, a ausência do meu reflexo. Tudo ali era um enigma exótico e amedrontador. Senti ser significativo conhecer com mais profundez os Sttrattan, pois que não poderia haver tamanho horror nos sonhos de uma criança que não estivesse, de alguma forma, manifestando-se em seu derredor, em sua família. Duvidei que um petiz como Morgion pudesse produzir um lago de sangue em seu inconsciente sem antes já ter visto muito sangue na obscuridade de seus vínculos reais. Levando em conta o odor emergido às minhas narinas horas antes, eu não poderia duvidar dessa hipótese.
Como se não bastasse o atordoar tétrico que me cingia, adormecer naquele átimo resultou em pesadelos conturbados, dentre tais, lembro-me perfeitamente de um. Antes, todavia, de revelá-lo, é importante esclarecer que a cinesia do meu inconsciente é um tanto pusilânime, ou seja, pouco alcança a lembrança no despertar e, se o faz, é sempre confuso e irrelevante. Além disso, compreendemos os sonhos como manifestações do esquecimento — vivencias que foram abraçadas pelo oblívio, mas que nunca se perderam de nossas psiques. Quando nos lembramos delas, no entanto, a memória-de-oblívio já está refiltrada, isto é, mascarada para que seja possível alcançar a psique. Em outras palavras, o que sonhamos é um filtro da verdade de nossas lembranças ocultas. Então, com meus olhos selados pela modorra, posso jurar que aquilo que tomou conta de meu plano onírico não foi uma singela manifestação inconsciente e, do tanto que me recordo, a revelação sonial — pois que de “sonho” me recuso a chamar — parecera-me muito mais um pedaço de uma realidade multiforme e paralela àquela em que eu estava.
Iniciou-se com a cena do meu aposento, na Mansão Negra. Eu via Ahzaez deixar o quarto tal como já descrito; com a porta aberta, seus passos foram se distanciando pelo corredor. Todavia, ao contrário do que de fato fiz, — creio eu ter feito, mas, durante o sonho, a lucidez das imagens era tão vívida que jurei ter voltado ao passado e refeito tudo o que ocorrera a partir dali — na agoníria levantei-me em quietude, olhei pelo corredor e vi Ahzaez adentrar seu aposento. A fresta de sua porta reluzia um trêmulo e quente lume vindo das velas quais ele, eu assimilei, acendera no cômodo. Caminhei descalça, sentido aos seus umbrais e, ao chegar, fitei de soslaio a fissura e o observei despir-se de suas roupas negras, devagar. Em seu dorso sangrava um grande símbolo similar a um “Y”, como se tivesse sido rasgado em sua pele. Seu corpo era como uma estátua de mármore, esculpida em perfeição e força; seu aroma viril conduzira meu olfato com suavidade concupiscente, de modo que fiquei ainda mais concentrada àquela fresta, como se estivesse obcecada em lascívia. Em contrapartida, o odor de sangue anojava, aturdindo a mente. Assim vi que sua mão esquerda, segurando um conta-gotas, lhe vertia nas costas um tipo de líquido retirado de um frasco de vidro. Ahzaez pingava a solução na base de seus ombros e nuca, e ela escorria para a ferida. Sua ofegante respiração denunciava a dor.
Eu não podia parar de observá-lo. Relutava com a vontade obscura de invadir seu íntimo momento, todavia, igualmente era abraçada por um medo e uma curiosidade excitante, desenfreadas sensações que me mantinham submissa àquela tênue fresta. Então, Ahzaez virou-se. Olhando diretamente em meus olhos. Em assombro, afastei-me da porta, contudo, não evadi. Logo a notei abrir-se e a sombra do corpo de Ahzaez fez-se pelo assoalho iluminado apenas pelas velas. Quando ele surgiu entre sombras e cálidos lumes, vi a perfeição de seu torso e, nele, outra grande ferida similar a um sigilo antigo, talvez uma mescla de Ankh e o símbolo invertido da Ascendência. Sua tez suava como outrora a minha suou, ou melhor, como na realidade suou em completo espanto pelas anomalias. Diferente de mim, naquele perverso sonho lúcido, Ahzaez não expressava nenhum temor, nenhuma emoção. Portanto, era mesmo ele. Sempre incólume.
— Precisas de algo, Dama Saeeri? — Dissera, austero. Eu estava arfante, como se acometida por uma súbita falta de ar. Eu o temia e era-me difícil não observar sua ferida sangrenta, sua tez úmida, as sombras sobre toda a cena mórbida. Meu corpo não respondia à minha intenção de movimento, minha voz não espargia pelo silêncio. — Saeeri? — Murmurou, aproximando-se de mim.
— O que... houve? — Sussurrei, preocupada com a ferida, quando ele estava próximo. Senti-me impulsionada a tocar aquele símbolo, porém, tive o despertar da consciência e notei que estava sonhando; evitei minhas ações e falas, tentando modificá-las; como se eu guiasse minha própria mente, empenhando-me em convencer-me de agir diferente daquilo. Era em vão. Ahzaez olhou para meus lábios e tocou, levemente, meu braço, levando meus dedos à lesão de seu torso. Toquei-o com gentileza e Ahzaez, em grave gemido, expressou a dor horrífica que sentia, embora se contivesse em demonstrar. Meus dedos umidificaram-se pelo sangue e não me demorei tocando-o, evidentemente; era aflitivo vê-lo sofrer daquela forma. — Por que...? — Soprei somente a ele e seus olhos se aprofundaram nos meus. Seu semblante tornou-se sombrio e triste. Despertei de súbito neste átimo. Outra vez assustada, com o coração frenético. Era manhã, o alvor despontava sutil, sua luz traspassava a janela ornamental; não demorei a notar que havia vívido sangue em meus dedos.
Capítulo 2: Inquietação Profunda — A Mansão Negra
Alguns dias e noites bastante invernais se seguiram até que fui levada à Mansão Negra e…
Alguns dias e noites bastante invernais se seguiram até que fui levada à Mansão Negra e, às vinte horas, eu a vi. Imponente e obscura entre o denso arvoredo: a Mansão Negra. Passei o dia descansando em um chalé próximo e havia me impressionado com a imensidão verdinegra, dali já avistada, da floresta abissal; era de uma altura tenebrosa, ponderei como seria adentrar sua densidade e tive de fazê-lo logo depois, mesmo por um tanto simbólico, pois a mansão não ficava tão profunda no balcedo.
O cocheiro, criatura contadora de histórias, passara o dia revelando lendas locais, pois estava ocioso, porém, no caminho, ele incorporou um silêncio bizarro que eu não ousei questionar, pois que, de algum modo, eu compreendia a razão. A noite era lúgubre e insalubre; o poder da floresta Alpha Morttam — e agora não poderia chamá-la tão somente de Amorttam, pois era amedrontadora demais para ter seu nome amenizado, pois seu poder me submetia a um tremor contínuo — era coercitivo, olhá-la era amedrontador; decerto aquelas árvores alcançavam de 100 a 200 metros de altura tal como ouvi dizer por aqueles que outrora visitaram o local, tal como eu fazia naquele momento. E os sonidos, cânticos de criaturas jamais vistas, ecoavam vindos do arvoredo alto e sombrio. Tamanha era a flora perene que o ar úmido carregado sufocava em certo grau, era imponente, angustiava os pulmões. Era medonho e fascinante.
Compreendi, naquele átimo, a razão pela qual havia tantas lendas sobre aquela selva; assim como assimilei, perfeitamente, o motivo de Vonssihren proibir que pessoas explorem o local; deduzo que sua inimizade com Krvier tenha emergido daí, nos tempos ancestrais, quando a mansão fora erguida sem a concordância de Soron, adentro de Amorttam, sendo preciso derrubar algumas árvores. Soron Vonssihren sempre fora um profundo defensor da natureza e sua aguçada intuição o mantivera firme a respeito de qualquer sondagem, mínima que fosse, em quaisquer partes de Morttam. No entanto, o início dessa imponente floresta estava à minha frente; era como alcançar os pés de um titã. Era tão alta que, mesmo exausta de toda a longa viagem ininterrupta, despertei diante dela, com os olhos abertos ao máximo, para enxergar a sua silhueta negra com precisão.
Era noite, cabalística noite, e deixei o cocheiro, despedindo-me em silêncio; ele decerto estava amedrontado e eu ainda mais. A aura sombria acelerava o coração e caminhei, aflita e encantada, pela singela estrada que levava à Mansão. A cada passo, ouvia sons indescritíveis... pássaros, eu suponho... corujas? Lobos, talvez, ou uma das míticas criaturas dos contos de fadas. Grilos, cigarras, insetos e o vento que tornava aquela folhagem em uma colossal monstruosidade viva. E como era escuro! Minha candeia era um vagalume naquele labirinto índigo-anoitecido.
Se não bastasse a monumental natureza umbrífera, após uma caminhada de dez minutos, vi com uma perfeição fúnebre aquela arquitetura pontiaguda e negra, cintilante em seu negrume, pois tivera diversas partes esculpidas em obsidiana e, portanto, reluzia em um esplendor mórbido. O lugar era mesmo tenebroso; o que o amenizava eram as velas nas fenestras, pelo lado de dentro, gerando luz; embora no bruxulear das velas, tudo ao redor se tornasse sombras anormais, distorcidas, apressivas em um mistério aterrador. Nunca vi arquitetura como aquela; dizem que assim o é no império Krvieröm, mas, sinceramente, não tenho coragem alguma para deixar as terras de Sihren e enfrentar o gelo do Anti-Ártico, ainda mais após sentir a energia que emana daquela arquitetura.
Aprendi que o ceticismo pode ser um grande problema quando se pretende ir mais à fundo na existencialidade humana, então, nunca desconsiderei o que senti; diante da Mansão Negra, eu tive medo... e a atmosfera sepulcral do lugar era sinistra em um nível perturbador e, ao mesmo tempo, sutil. Havia também um odor... e compreendo que não seja possível acreditar... mas, vez ou outra, vinha-me o cheiro de sangue às narinas e, não, não era o meu sangue vertendo por razões fisiológicas; foi a primeira coisa que verifiquei quando o odor macabro se difundiu no primeiro momento.
Bati com a aldrava após retomar meu fôlego. A porta abriu-se após poucos segundos, era ornamental, ostensiva; e além de complexos ornatos volutais em obsidiana, havia arabescos em ouro puro. Assim, um homem apareceu à minha frente enquanto o silêncio mórbido dos umbrais abrindo-se afligiam-me. Ele me olhou... intensamente... como a noite faria com a manhã, se a pudesse olhar... isso me estremeceu. Apresentei-me após ajustar a voz para não evidenciar meu tênue descontrole com todo aquele lugar. O homem tinha a beleza de um anjo caído, vestia-se como um Dom, todo em tons de preto, tinha olhos claros, azuis-cinéreos, suas roupas possuíam uma elegância surreal, a qual só vi no castelo de Vonssihren — o que reafirmava a ligação dos Sttrattan com os Soberanos. Ele era alto, forte como se podia notar. Olhou-me nos olhos, íntimo por um breve instante, em silêncio. Senti-me n’um ardor sombrio e por ele fui convidada a entrar a partir de um singelo sinal e uma reverência... ele não me tocou... e eu nunca esquecerei de seu olhar... o semblante do homem deixara-me realmente ébria, de modo diferente, mas tanto quanto aquela arquitetura e aquela mata espessa.
Não ouvi a ornamental porta se fechar, mas senti cessar a brisa gélida do arvoredo. Por dentro, a Mansão era ainda mais escura, luzidia pelos motivos já citados, e lauta. Um imenso lustre feérico de ouro, com velas negras, iluminava o salão de entrada, o qual era vazio de mobília, possuindo apenas uma belíssima alfombra jaqguar em preto e dourado e uma mesa de centro, em atro cedro — servindo para o apoio de dois cântaros de ouro e uma estátua de uma criatura horrenda, que eu diria ser uma gárgula, contudo, dentro de um cômodo? Não fazia sentido. Vi alguns pilares de sustentação da arquitetura; meia dúzia de portas ao derredor, duas grandiosas escadas para o andar superior. E mais portas.
— É um prazer conhecê-la, Dama Heigger. — Proferiu o homem, sua voz assemelhava-se ao vaporoso ar soturno daquela mansão e seu olhar me invadira mais ainda. Ele caminhava, eu o seguia. Antes que eu o questionasse sobre seu nome, fomos interrompidos pelo mordomo Ertthan que logo recolheu minhas malas, levando-as pela escada imponente. — Sou Ahzaez Sttrattan — Disse, próximo. Ahzaez era-me familiar. Seu rosto era esguio, contudo, seu porte era robusto; suas olheiras eram fundas, embora amainassem no tom de sua pele, como se realçassem sua beleza demoníaca. O que me incomodava era o olhar, a expressão de seu semblante, a qual já mencionei. — Ehllenor virá em breve. — Anunciou assim que adentramos aos umbrais de um dos aposentos. Vi uma lareira acesa, crepitava contra o silêncio; era uma sala confortável, diferente dos poucos outros lugares que andejei por ali. — Fique à vontade. — Ahzaez fechara a porta após se despedir; sorrira pela educação, no entanto, não pude fazer o mesmo, pois, o seu sorriso era ainda mais lutuoso do que sua face soturna; isso trouxera-me uma imediata turvação.
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Sozinha, observei o cômodo, mas sem objetivos; apenas olhei. De toda a mobília de igual luxo como o restante da Mansão, e entre todo o mobiliário escuro como a noite, um item em especial reluzira aos meus olhos e, dele, me aproximei. Era pequeno o suficiente para que eu pudesse segurá-lo, porém, grande o suficiente para que eu hesitasse em mantê-lo erguido com apenas uma de minhas mãos — embora fosse possível. Diferente do que vi, este objeto não era de ouro ou obsidiana; era de Sirenniha e pesava, o que me levou a crer que era pura. Tinha a forma de uma libélula, parecia haver algo em suas asas, lapidados como letras ancestrais de alguma linguagem antiga; Soron Vonssihren sempre apreciou o estudo da linguagem e escrita; porventura — deduzi — fosse um objeto dado por ele.
— Li’ibelum... — Ouvi e, de súbito, quebrando o silêncio, assombrei-me olhando rapidamente em direção à voz feminina. Vi, com o coração frenético, uma mulher cuja aparência indicava que ela possuía uma idade semelhante à minha. Usava um belo vestido vitoriano, tal como o meu, no entanto, o seu era de um preto brilhante e tinha, sobre ele, um chambre de renda negrume e aveludada. Seus cabelos ondulados estavam soltos, mas algumas mechas curvas se prendiam para trás das orelhas. Seus olhos eram azuis-cinéreos e, nas trevas daquela sala, ficavam ainda mais claros. Seu rosto era gentil e expressava-se em uma fisionomia de apreensão. — Dada por Vonssihren. — Dissera. — Perdoa-me por assustá-la. Sou-me Ehllenor. — Ela estendeu-me sua mão para um cumprimento formal.
— As portas são bem silenciosas aqui. — Expressei, colocando a libélula de volta em seu devido recôndito. Ehllenor sorriu, no entanto, não parecia feliz.
— Sim... todas elas... é algo feito por... tu sabes quem. E se há alguém que sabe o motivo, este é, decerto, apenas ele. — Lamuriou, sentando-se em uma das poltronas próximas da lareira.
— O que é Li’ibelum? — Inquiri por uma curiosidade imaculada. A Dama pediu-me para levar o artefato até ela e, assim que lhe dei o objeto, sentei-me na poltrona ao lado.
— Soron é um verdadeiro Soberano, não é? — Dissera enquanto afagava o artefato, olhando-o atenta. — Revelei-o sobre os pesadelos de Morgion e, então, ele me enviou este artigo único, todo lapidado em Sirenniha. — Ehllenor colocou a libélula na mesa de canto que separava nossas poltronas. — Ele disse que ela acalmaria o sono do pequeno, no entanto, agora que tu estás aqui, creio que seja importante que vejas o que acontece com ele e saibas da seus pesadelos cruéis.
— Li’ibelum fora útil? — Questionei em busca de compreensão acerca de suas crenças. Ehllenor sorriu em uma tristeza fidagal. — Chegara hoje no entardecer... — Silenciamos. — Estás exausta, acredito, preferirás conhecer Morgion amanhã... — Afirmara. Entendi o seu desejo e a respondi como devia, mesmo estando, de fato, exausta.
— Estou pronta para conhecê-lo, senhorita Ehllenor. — Ela suspirou e tal suspiro fora, ao que me parecia, o máximo de gáudio que ela poderia sentir.
Fui levada por Ehllenor até o quarto do jovem Morgion, uma criança cuja face não deveria nutrir tamanha angústia; seus olhos eram como covas, sua tristura era uma morbidez vívida, como se houvesse a presença fúnebre do horror sobre seus ombros infantis. Ainda assim, abraçara-me com afável cortesia proferindo que eu o salvaria “dele”. Embora fosse já tarde da noite, notei que Ehllenor e Morgion estavam despertos e esperançosos; guardavam, dentro de seus peitos amedrontados, toda uma narrativa que se retinha principalmente em suas gargantas. Eu não poderia adormecer tranquila sabendo que, por mais uma lôbrega noite, eles teriam que guardar essa dor encarcerada nas entranhas. Então eu o questionei.
— Ele quem? — A fatídica pergunta. Buscarei transcrever a exata descrição da criança, com todo o lúdico pertencente à sua essência infantil e, em razão disto, o trecho de sua narrativa estará em itálico, para se destacar daquilo que redijo, intercalando com a minha análise entre os íntegros trechos.
Morgion descrevera uma criatura humanoide, com duas bocas e dentes afiados; de corpo retorcido e forte, “sua pele era como tendões com lacunas entre eles”; não tinha olhos e suas mãos eram coladas em seu corpo, retorciam-se junto; “correntes saíam de dentro de sua carne” fazendo um tinido espectral, “disforme e medonho”. Aparecera no sonho em que Morgion caminhava por Vonssihren, onde gostava de ir ao visitar a capital; o parque do lago onde um cisne o levava a passear. Então, “eu o avistei próximo das palmeiras que estavam maiores e, visivelmente, mortas... uma névoa cobria tudo... e ele se contorcia em minha direção... murmurava meu nome e eu sentia dor de medo”. A dor, ele contara, era real e intensa, o que tornara tudo mais horrível; em certo momento, um sonido execrável espargiu das bocas da criatura que, pouco a pouco, se aproximava do cisne qual Morgion estava; o animal não respondeu bem à aproximação e começou a se agitar, batendo suas asas nas águas “que se tornaram sangue negro”.
Explorando com indagações cuidadosas, descobri que Morgion não era uma criança cujos pais liam histórias de terror — embora a Mansão Negra soasse-me como um horror por si só; tampouco ouvira algo, nos últimos tempos, a respeito de criaturas grotescas. Preocupei-me mais com o lago de sangue negro, ainda que a criatura fosse descrita como “perturbadora e ameaçadora, sendo que a cada vez que se aproximava de mim, meu coração acelerava e eu sentia que poderia morrer”. N'um dos sonhos anteriores, o primeiro qual resultou na carta de Ehllenor, o menino fora acometido por uma paralisia de agoníria, isto é, sonhou que havia acordado, levantou-se de sua cama e caminhou à antessala até ser surpreendido pelo mesmo ser feito de tensões e pele putrefata, no final do saguão, movimentando-se lentamente, contorcendo-se e grunhindo enquanto se aproximava do petiz que estremecia de medo — uma vez que a criatura era muito alta, fétida e carregava essas correntes que ecoavam um sonido metálico fantasmagórico. O menino despertou ensanguentado, tivera seus dois pulsos mordidos pela criatura, embora, na realidade, estivesse preso a espinhos n’um arbusto do jardim. Nunca ouvi um relato de sonho tão lúcido e esmiuçado. Morgion ficou preso, não conseguia se mover conforme a entidade o devorava. Ele viu de perto “o sangue e minha pele dilacerando nas presas da coisa inumana”. Então, desperto aos gritos de sua mãe, o menino saiu do transe no exato instante em que a coisa devorou as mãos do garoto. “Eu... senti a dor, senhorita” — murmurara com pesar.
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Deixamo-lo no quarto logo após alguns diálogos, senti que a atmosfera densificada em razão das descrições tão vívidas e, para não incentivar ainda mais a sua mente infantil, pedi para que descansasse. Ehllenor ordenou que uma de suas amas acompanhasse o garoto por um tempo, para que ela pudesse me levar até meus aposentos. Enquanto caminhávamos, notei diversos quadros nas paredes do passadiço principal, o mesmo qual Morgion vira a criatura pela primeira vez. Era uma passagem mais estreita do que costumam ser e as dezenas de molduras possuíam pinturas do que deduzi serem a linhagem Sttrattam. Indaguei Ehllenor sobre a imagem que possuía uma mulher, símil a ela, porém muito mais jovem. A resposta fora previsível. Tratava-se de Lilith Sttrattan em seus dezoito anos de idade. Minha questão adviera por um motivo. A partir de Lilith, todas as gerações seguintes eram retratas usando roupas negras, tal como Ehllenor, Morgion e Ahzaez usavam. Esclarecera-me Ehllenor que todos os retratos estavam em ordem geracional. Uma coisa peculiar que também pude notar: algumas pessoas tinham olhos estranhos, com olhar vago, e rostos cheios, como se inchados.
— Noto a mudança da cor... dos tecidos... — Proferi com a intenção de sondar um pouco mais a história da família. Ehllenor ficara em silêncio.
Chegamos ao quarto, fui orientada sobre os horários e instruída a acordar para o desjejum pontualmente, para que eu pudesse conhecer Dama Lilith cuja rotina era bastante severa. Compreendi todas as circunstâncias e adentrei ao meu cômodo, vedando-me para o lado de dentro. O silêncio absurdo da porta era agoniante. No entanto, o quarto possuía sua dose de conforto, ainda que escuro e negro; tudo era envolto por uma riqueza única. Havia alguns retratos sobre a cômoda onde resguardei meus pertences, observei alguns dos rostos. Vi um vaso com uma espécie de planta cujas folhas eram no mesmo tom de tudo o que ali residia. À janela, a expansão terrífica de Amorttam e a lua minguante que logo daria lugar à escuridão perpétua do universo. Despi-me e escolhi um damanoute branco, confesso que com o propósito, ao menos para efeito emocional e mental, de não me sentir pertencente àquele lugar. Assim, adormeci, entre o veludo negro e com a exaustão que, naquele instante, era ainda mais violenta.
Capítulo 1: Um Sopro de Pressa — A Mansão Negra
O perfume dos lihrios de ébano serena meu coração desde então; por muito quando as visões…
O perfume dos lihrios de ébano serena meu coração desde então; por muito quando as visões daqueles momentos perturbam a minha memória, recorro à essência vestal de suas pétalas lutuosas e vejo o pólen laranjim manchar-me o cimo de meu nariz. Colho-os sempre n’aurora e descanso seus caules n’água fria, adoçada com stevia; costumo escolher um cântaro de cerâmica... deixo-o ao lado de minha Vërmanen. E escrevo. Para tirar esses vis numes que murmuram presos em minh’alma... murmuram tal como lamuria o lôbrego jardim da Mansão Negra, onde vi, naquele primeiro dia, a sublimidade dos galhos das paineiras se esgueirando secos entre si, criando um emaranhado assombroso junto aos cedros mirrados pela seca do outono, entretanto, havia mais.
Enquanto sussurrava o inverno de Nottsoen, gemia a mastodôntica floresta de Amorttam onde os mognos, com suas folhas perenes, poderiam ressoar a verdejante esperança, porém, junto com outras espécies da mata, tudo apenas amedrontava. Em contraste com a morte das decíduas do jardim, a floresta de Amorttam era profunda e frondosa — e ainda é. Posso dizer que o mesmo acontece em todos os períodos sazonais, até quando, na primavera, os Ipês florescem e as orquídeas se multiplicam. Por infortúnio, ou não, estive aos pés de Amorttam, pela primeira vez, no fim do inverno, no mês da escuridão perpétua e, por fatídico destino, no mês das duas luas novas. O inverno d’este lugar traz a névoa que sempre se concentra e a molúria que se esparge mórbida e silente, como se domadas pela Mansão Negra.
A Mansão Negra fora erguida no ano cinquenta, por Damon Krvier, o Soberano do Império Krvieröm. Esta é a única relíquia que ele deixara nas terras de Sihren. Em algum momento, a Mansão tornou-se o Lar de uma família que, até então, eu compreendia como, tão somente, uma família peculiar: a Família Sttrattan. A razão — a que me fora explicada pelos conhecedores menos distantes da população local e, em especial, dos Sttrattan — pela qual decidiram por habitar a Mansão Negra, estava ligada intimamente à admiração de Dama Lilith Sttrattan pela arquitetura fascinante do local e pelo habitat que o envolvia. O Soberano do Império Sihren, Dom Soron Vonssihren, proibiu que a Mansão Negra fosse habitada por quaisquer pessoas desde que Damon Krvier deixara Sihren. Por razões obscuras, foi permitido que a Família Sttrattan tomasse posse do lugar.
O povo Sirehnian fomentava suas lendas; alastrava suas pressuposições — dentre elas havia uma que se destacava. Muitos acreditavam que a Dama Lilith Sttrattan tivera um envolvimento com o Soberano Damon Krvier e, sendo uma verdade incontestável a imortalidade dos Soberanos, Dom Vonssihren teria permitido que Lilith ficasse na Mansão Negra para impedir que o local se tornasse um umbral ou totem para Damon — dado que, supostamente, ele estaria envolvido com coisas ocultas. Lilith, por sua vez, em profunda mágoa por ter sido enganada por Krvier, teria jurado a Vonssihren que sua família manteria a Mansão Negra protegida da manipulação diabólica do Soberano inimigo. Sendo assim, teriam selado um acordo e, desde então, os Sttrattan mantiveram a jura primeva. Se isso é verdade, eu não sabia; o mistério era denso como a morte e eu sequer imaginava que os rumores terríficos eram, na verdade, brandos ao extremo se comparados àquilo que viria ao meu encontro durante minha estadia.
As bizarrices da Mansão Negra começaram a ser compartilhadas pelas histórias narradas e escritas ao longo dos anos desde que, com a moradia habitada, pessoas passaram a visitar a residência, tais como jardineiros, professores de música e dança que davam aulas particulares para os filhos Sttrattan; vendedores, cuidadores, entre outros serviços contratados pela família. De vultos pelos corredores à sussurros mórbidos pelo jardim. A Mansão era, decerto, alvo de alguma força oculta e se eu não tivesse passado tantas noites em suas entranhas, continuaria cética a respeito das fábulas e, com toda a certeza, estas palavras não estariam sendo escritas agora.
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Há dez anos, em um dos mais mórbidos invernos que passei, fui chamada à Mansão Negra pela filha mais velha dos Sttrattan, senhorita Ehllenor. De acordo com o que conversáramos por cartas, Ehllenor temia que seu filho de nove anos, Morgion, estivesse passando por algum problema de caráter emocional ou mental, pois, a criança tinha grandiosas crises noturnas durante o sono e, por vezes, passava pela experiência de sonambulismo e agoníria ao mesmo tempo, o que em perigo o colocava quase todas as vezes. Compreendi sua aflição, em especial, n’uma das cartas que fora escrita e entregue uma semana antes de minha partida de Numnura para os limiares de Amorttam; nesta missiva — parte disponível na íntegra —, Ehllenor revelara uma coisa pertinente e bastante assombrosa.
Para Saeeri Heigger
De Ehllenor Strattan Vvelusch
20 de Selenoor, 349
Caríssima Saeeri, escrevo-te antes do previsto, pois, algo perturbador ocorrera na noite passada. Perdoa-me pelas alarmantes palavras que, com infortúnio, usarei neste soturno papel, pois, tamanha fora a minha aflição que não posso poupá-las para te descrever a verdade. Adianto, sobremaneira, que implorarei, em todas as linhas, que antecipes tua vinda à Amorttam para que possas, com o teu conhecimento sobre a psique humana, ajudar-me a guiar, da melhor forma, o meu pequeno Morgion. Por favor, minha querida, sabes o quanto sofre uma mãe cujo coração pertence a um Corvo-dos-mares; o pai do meu pequeno lume raramente está presente e isso decerto o afeta. Embora eu o compreenda em seu ofício para com o Soberano Vonssihren, dói-me que ele tenha que ficar distante por longos períodos, inda mais quando tudo parece sair do meu controle. Compreendo, igualmente, que deixar Numnura e viajar por inúmeros dias até Amorttam será sofrível, no entanto, disponibilizo a ti tudo o que é necessário. Inclusive, neste envelope estão três Siremihtas, isso deverá ser suficiente para que viajes com conforto e segurança.
Peço, com profunda súplica, que escrevas para mim antes de tua partida — a qual espero que seja emergente, ao tardar da manhã em que esta missiva te for entregue; deste modo, poderei monitorar o tempo da tua vinda e, reforço, que não te distraias pelo caminho; prometo proporcionar-te um retorno mais sereno após a tua estadia e, então, poderás usufruir das paisagens ao longo de Sihren e de todas as singelas províncias cuja cultura é única e as histórias surpreendem. Esclareço que tais Siremihtas antecipadas não estão vinculadas ao valor do teu ofício, são à parte, para que consideres a prioridade dos teus próximos dias de Nottsoen e não se demore para aprontar tuas malas. Perdoa-me o desespero e insistência, creio que, agora, seja de exímia importância lhe revelar o último ocorrido com Morgion, meu menino. Leia com atenção, caríssima; rogo-te.
Estávamos adormecidos, beirava à hora lôbrega, como o costume que tu bem conheces em razão de minhas cartas anteriores; estava frio como um manto de morte quando despertei assustada, ouvindo Morgion lamuriar em sua cama. Fiz o que a senhorita recomendara, não o acordei para que o episódio não o causasse traumas e sofrimento; todavia, eu o via, ó sim, sua expressão era extremamente assustadora, senhorita; era um rosto que, ouso escrever-te, não era o de meu pequeno. Sorria um sorriso glacial e oblíquo, seus olhos abertos e arregalados evidenciavam suas retinas que tremiam e vageavam como se acompanhassem cenas assustadoras; nunca ouvi falar sobre ser isso possível; por vezes sumiam, mantendo apenas a esclera nívea e horrenda. Sua tez empalidecida assimilava-se quase hialina, além de úmida de um suor gélido inenarrável. Ele lamuriava dezenas de frases mórbidas e, quando o toquei em sua fronte, com um pano aquecido, pois temi que se tratasse de estado febril, ele se assentou à cama quieto — pensei que se levantaria para caminhar à esmo, como nos dias antecessores, porém, movimentou-se estranhamente, olhando-me com suas escleras... quão atro, minha querida... arrepiei-me de imediato e o ouvi sussurrar o inaudível quando, súbito como um relâmpago, ele me atacou, n’uma inominável rapidez, na tentativa de morder-me o pescoço.
Saeeri, não sei como proferir o verdadeiro medo que senti... decerto sabes das lendas percorridas pelos quatro quantos de Sihren a respeito desta Mansão; não creio que seja real, no entanto, desde que nos hospedamos aqui para que a solidão de meu amado Atos não nos impactasse em demasia, Morgion tem vivenciado o mais horrífico e não vejo saída que não seja rogar às quaisquer boas entidades sobre-humanas, para que possam purificar este mausoléu. Não me recordo de vivenciar tamanhos horrores quando cá vivi na tenra infância, por mais escuros que fossem esses corredores; e agora vejo todos os mais terríficos horrores amargurarem a infância de meu menino. Sua feição diabólica não deixa minha mente e, agora, eu é que sofro dos pesadelos mais ensandecidos. Tive de fazer algo por Morgion naquele momento, compreende? Mesmo debaixo de um medo abíssico, segurei os ombros do petiz e o chacoalhei bradando seu nome a ponto de ecoar por toda a Mansão pelas portas entreabertas. Mamãe despertara, todavia, ao chegar ao aposento em que estávamos, com seu singelo castiçal, Morgion já havia saído do transe e chorava de soluçar, pobre pequeno, tão puro, tão atormentado em pânico.
Ehllenor descrevera um estado de sono profundo, onde os olhos movimentam-se de acordo com os sonhos e o corpo é canalizado para o torpor muscular. Algo comum nos estudos soniais e neurológicos; entretanto, era evidente o distúrbio e assombrosas as descrições acerca da face da criança; pude supor ser um sonambulismo catatônico ou, porventura, a patologia da condição patológica. Professor Nehri nomeara, a posteriori, o episódio de “agoníria túrbida com prosopagnosia estúrdia” quando lhe contei a respeito do caso em uma troca de missivas.
Não possuindo acesso ao paciente, era inviável dar diagnósticos, no entanto, indiscutível deduzir algumas possibilidades. Diante à missiva escrita por Ehllenor, lembrei-me de Maelli Vonssihren, nossa Mestra nos estudos psíquicos, suas palavras imersas por uma sabedoria única diziam: “A respeito da mente, toda a dedução é uma verdade em algum grau e todo o estudo é apenas um início, seja hoje ou daqui a milhões de anos”. Explorar a mente requer lucidez e um pouco de loucura. Evidente que preparei minha partida no mesmo dia, escrevi-a como solicitado e vi-me no primeiro trem para Amorttam antes do anoitecer.
Silêncio — Uma Fábula
“Escuta-me”, disse o Demônio, pousando sua mão sobre minha cabeça. “A terra de que te falo é uma terra lúgubre na Líbia…”
“Os pináculos das montanhas entorpecem-se;
vales, penhascos, e cavernas imergem no silêncio.” — Álcman
“Escuta-me”, disse o Demônio, pousando sua mão sobre minha cabeça.
“A terra de que te falo é uma terra lúgubre na Líbia, às margens do rio Zaire. E ali, não há quietude… nem silêncio.”
“As águas do rio possuem uma tonalidade doentia de açafrão; e não fluem rumo ao mar, mas palpitam para sempre — para sempre — sob o olho rubro do sol, em um movimento tumultuoso e convulsivo. Por incontáveis milhas, de cada lado do leito viscoso do rio, estende-se um pálido deserto de nenúfares gigantescos. Eles suspiram uns para os outros naquela solidão; estendem para o alto seus longos e espectrais pescoços; e balançam suas cabeças eternas de um lado para o outro. E há um murmúrio indistinto que emerge do meio deles, como o ímpeto de águas subterrâneas. E eles suspiram uns para os outros.
“Mas há uma fronteira para o seu domínio — a fronteira da floresta sombria, horrível e elevada. Ali, como as ondas ao redor das Hébridas, os arbustos rasteiros agitam-se incessantemente. Mas vento algum respira nos céus. E as altas árvores primevas balançam-se eternamente de um lado para o outro, com um som estrondoso e poderoso. E de seus altos cumes, um a um, gotejam orvalhos eternos. E junto às raízes, estranhas flores venenosas jazem, contorcendo-se em um sono perturbado. E acima, com um farfalhar áspero e clamoroso, as nuvens cinéreas precipitam-se rumo ao ocidente para sempre, até rolarem, em catarata, sobre a muralha em chamas do horizonte. Mas vento algum respira nos céus. E às margens do rio Zaire não há quietude, nem silêncio.
“Era noite, e a chuva caía; e, caindo, era chuva — mas, tendo caído, era sangue. E eu permaneci no pântano, entre os altos nenúfares — e a chuva tombava sobre minha cabeça — e os nenúfares suspiravam uns para os outros, na solenidade de sua desolação.
“E, de repente, a lua surgiu através da névoa fina e espectral, e era de cor escarlate. E meus olhos recaíram sobre uma enorme rocha cinérea que se erguia à beira do rio, resplandecendo sob o luar. E a rocha era cinérea, espectral e alta — e a rocha era cinérea. Em sua fachada havia sinais gravados na pedra; e caminhei por entre os nenúfares até chegar perto da margem, para poder ler os sinais na pedra. Mas não consegui decifrá-los. E eu estava voltando para o palude, quando a lua cintilou com um escarlate ainda mais pungente; e me virei, e olhei novamente para a rocha e para os sinais — e os sinais diziam: DESOLAÇÃO.
“E ergui meu olhar, e lá estava um homem no alcantil daquela rocha; e escondi-me entre os nenúfares, para poder espreitar as ações do homem. E o homem era alto e imponente, e estava envolto, dos ombros aos pés, na toga da Roma Antiga. E os contornos de sua figura eram indistintos — mas suas feições eram as de uma divindade; pois o manto da noite, da névoa, da lua e do orvalho havia deixado descoberto o semblante de seu rosto. E sua fronte erguia-se, altiva de pensamento, e seu olhar era selvagem de preocupação; e, nos poucos sulcos que lhe marcavam o rosto, li as fábulas da tristeza, do cansaço, do desgosto pela humanidade, e do anseio pela solidão.
“E o homem sentou-se sobre a rocha, apoiou a cabeça em sua mão, e contemplou a desolação. Olhou para baixo, para a vegetação rasteira e inquieta; olhou para cima, para as altas árvores primevas; olhou mais acima, para o céu farfalhante, e para a lua escarlate. E eu me deitei, abrigado entre os nenúfares, e observei as ações do homem. E o homem estremeceu na solidão; — mas a noite s extinguiu, e ele sentou-se sobre a rocha.
“E o homem desviou a atenção do céu e contemplou o lúgubre rio Zaire, as águas áureas e espectrais, e as lívidas legiões de nenúfares. E o homem escutou os suspiros dos nenúfares, e o murmúrio que se erguia do meio deles. E eu me deitei dentro do meu refúgio e observei as ações do homem. E o homem estremeceu na solidão; — mas a noite se extinguiu e, ele, lá sentado sobre a rocha.
“Então desci aos recessos do palude, e caminhei para longe através da vastidão dos nenúfares, e chamei os hipopótamos que viviam entre os pântanos, nos recessos do palude. E os hipopótamos ouviram meu chamado, e vieram, junto com o beemote, até o pé da rocha, e rugiram de maneira hórrida e estridente sob a lua. E eu me deitei dentro do meu refúgio e observei as ações do homem. E o homem estremeceu na solidão; — mas a noite se extinguiu e, ele, lá sentado sobre a rocha.
“Então amaldiçoei os elementos com a maldição da balbúrdia; e uma tempestade mórbida se formou no céu onde, antes, vento algum soprava. E o céu ficou lívido com a violência da tempestade — e as pancadas de chuva caíram na cabeça do homem — e as águas do rio desceram — e o rio em tormenta espumosa — e os nenúfares na sínfora de seus leitos — e a floresta cedeu diante do vento — e o trovão rompeu — e o relâmpago ruiu — e a rocha oscilou até seus fulcros. E eu me deitei em meu refúgio e observei as ações do homem. E o homem tremeu na solidão; — mas a noite se extinguiu e, ele, lá sentado sobre a rocha.
“Então me cingi em cólera e amaldiçoei, com a maldição do silêncio, o rio, os nenúfares, o vento, a floresta, o céu, o trovão e os suspiros dos nenúfares. E eles se tornaram amaldiçoados e amansaram-se. E a lua cessou de ascender, vacilante, em seu caminho para o céu — e o trovão arrefeceu — e o relâmpago não mais cintilou — e as nuvens pairaram imóveis — e as águas afundaram até seu nível e repousaram — e as árvores cessaram de balançar — e os nenúfares não suspiraram mais — e o murmúrio não foi mais ouvido entre eles, nem qualquer sombra de som por todo o vasto deserto ilimitado. E olhei para os sinais gravados na rocha, e eles haviam mudado; — e os sinais diziam: SILÊNCIO.
“E meus olhos recaíram sobre o semblante do homem, e seu semblante estava lívido de horror. E, célere, ele ergueu a cabeça da mão onde se apoiava, pôs-se de pé sobre a rocha e escutou. Mas nenhuma voz ressoou em todo o vasto e ilimitado deserto, e os sinais na rocha eram: SILÊNCIO. E o homem estremeceu, virou o rosto e fugiu para longe, às pressas, de modo que não mais o vi.”
Ora, há belas histórias nos volumes dos Magos — nos volumes melancólicos e encadernados em ferro dos Magos. Neles, digo, repousam histórias gloriosas do Céu, da Terra e do poderoso mar — e dos Gênios que governavam o mar, a terra e o sublime firmamento. Havia também muita sabedoria nos ditos das Sibilas; e coisas sagradas, sagradas, eram ouvidas outrora pelas folhas sombrias que tremulavam ao redor de Dodona — mas, como Alá vive, aquela fábula que o Demônio me contou enquanto se sentava ao meu lado, à sombra do túmulo, considero-a a mais maravilhosa de todas! E quando o Demônio concluiu sua história, tombou de volta para a cavidade do túmulo e riu. E eu não pude rir com o Demônio, e ele me amaldiçoou porque eu não conseguia rir. E o lince, que habita eternamente no túmulo, saiu de lá, deitou-se aos pés do Demônio e olhou-o fixamente no rosto.
Lotus Aqua Obscura
Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente…
Agachada sob a sombra crepuscular, olhei e vi um ancião cujos olhos exaustos caiavam seu espírito perverso; o que, se por mim fosse evidente, dali eu teria fugido antes mesmo do poente efetivar-se. A verdade é que, até então, eu ignorava o domínio inenarrável dos seres Magistas sobre a realidade humana; mas ali, diante do velho em vestes míseras e ínfima voz, tive de renunciar às minhas ignorâncias, as quais, por anos, governaram-me o ser. O senil peregrinava entre os arvoredos mais úmidos e, quando colidia, por sorte ou azar, com alguma alma vivente, já de imediato iniciava a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Confesso o haver julgado um Mago, mas, revelo que não detenho tal vera; por muito ousaria dizer que se tratava mais de um demônio atormentador originário de intermúndios tétricos; ainda assim a dúvida persistia, pois que suas habilidades fascinavam qualquer deus e, portanto, não poderiam advir dos seus caídos e expulsos — o herói nunca admira o vilão.
Antes de dar-me conta, seu timbre acre invadiu-me os tímpanos e eu fitei o sujeito franzino. Eis que, então, já não pude deter-lhe; estagnei-me à sua presença e, ao léu, o ouvi do início ao fim, e os seus lábios contavam em penumbra que a noite há de ser, por tempos, única possível; pois que os céus negros não se banharão do sol; o sol em si, negrume, cálido pousará apagado no horizonte. E nas orlas os barcos guiar-se-ão, não pelas estrelas, mas pelas divergentes sombras. O plantio noturno gerará frutos sombrios e os frutos serão ingeridos em silêncio; seus sumos violáceos serão doces, mas turvarão os corpos famintos; e as plantas, e os grãos e tudo o que vem da terra deterá sutilezas nos sabores e eflúvios constituintes. “E até as chuvas ― não duvides ― cairão como gotas de obsidianas ácidas. Por tempos todo fel cobrirá os mares e” ― descrevia — “as herbáceas brotarão dos solos e das águas e elas serão feitas de treva e a treva será insólita”. E, por cada segundo, o ancião trazia à voz etérea os pormenores daquela realidade que não nos pertencia mais, entretanto, conforme o ouvia sentia-me estar inserida nela como pertencente. “Ouça, não só escute! Pois que as árvores secretarão licor viscoso e seus galhos languinhentos soarão fúnebre sibilo que será, pois, apreendido em perfeição pelas orelhas dos ouvidores e dos moucos”.
Tentei, ávida, retirar-me, em corpo, daquela insanidade; no entanto caíra a noite com o peso das palavras ouvidas e o peso era similar às montanhas laminadas das Cordilheiras do Sul. “Pois que das mais horríficas herbáceas, a Lotus Aqua Obscura, invicta, mui mais apavorará; o manjar de seu caule e suas pétalas em ilusão, o êxtase, provocará; e a água qual se fundamentará será mais umbrosa que o firmamento; e quisera eu não a ter degustado com afinco, pela fome miserável a corromper meu antro”. Com frêmitas mãos, o velho, de seu bolso, retirou uma caixa amadeirada cuja fragrância era de bambu e tão logo abriu-a revelando uma semente. Esticou à minha direção o objeto e gargalhou, orate, aos ventos todos que, inopinos, tornaram-se violentos. “Coma esta semente!” ― ordenou o velho. Olhei aos céus, roguei piedade. “Saberás que cada Lotus Aqua Obscura é, pois, um humano sucumbido, transformado, fadado por fim, e sentirás em tua tez o sabor da língua pegajosa e a saliva cinza dos famintos; e toda a vivência de sê-la! Tu passarás e testemunharás o veneno de suas vísceras. Coma esta semente, coma agora esta semente!” ― e pôs-se a repetir, ininterrupto, o dito final, de modo a desordenar-me a sanidade. Tomei-lhe a semente e a engoli, seca. “Assim renascerás a única planta de espírito e corpo igual aos animais desta classe sapiens sapiens, caso contrário o meu haver não mais firmar-se-á no juramento: Hei de vagar pelo mundo humano fundindo o sórdido ao vil para alertar a infame escuridão que há de vir”.
Aflita, forcei-me a arrevessar o grão, mas, já era tarde. Presenciei os pinheiros a vergarem-se e a tempestade vir a ser e todo o sombrio a firmar-se e o homem, maldito, esvaiu como saibro em alto-mar deixando, apenas, uma abominável mensagem: a revelação perturbadora que era obrigado a carregar consigo. Segurei-a em minhas mãos e senti a saliva e as línguas, e fui, na pele, a planta coloidal; e do reino Plantae espargi essência de clorofila debaixo da atmosfera fumegante em névoa, a névoa mais rara em gigante e medonho horizonte abominável. E a névoa era densa como meus olhos, os quais eu não possuía; e meus pés, que não eram pés, estavam sucumbidos ao gomoso e frio chão, o qual não era chão e, antes de haver, pois, senso sobre a insânia a difundir-se; senti sede, a inenarrável sede pelo sangue do inimaginável. A treva acima, a neblina e o terror; bem soube que era eu a plantae-animalia, pois que o veneno se açodava em minhas artérias hialinas e a maldição era hedionda e a ela eu me debruçava; assim, tão logo senti uma presença próxima e era no flúmen qual eu me firmava, então roguei pelos deuses de todos os elementos e vi ― juro aos santos e profanos ― eu vi o ancião perverso a, de novo, aproximar-se. E quis vociferar pelo socorro de um ser qualquer sob ou sobre a escuridão a cingir, mas eu não tinha boca e minha boca era feita de pétalas e das pétalas escorria elixir de morte e argila.
Eis que o macróbio sórdido e vil, com violência bruta arrancou-me do pântano e levou meu venusto caule à língua áspera. E a língua áspera era cinza e pegajosa e eu vi, por fim, a névoa mais rara no gigantesco horizonte e eu a vi antes da absurda dor tomar-me o âmago. Moída em fel feneci antes da ausência ser-me única possível, chorei as lágrimas moribundas que me restavam e despertei de súbito como de uma paralisia do sono e olhei para o céu e era dia e o dia luzia tenro e afável. Nada havia além da lembrança vívida dos tempos mais obscuros que virão, onde o sol será negrume e queimará e as algas serão alimentos pútridos aos famintos e as frutas terão sumo violáceo. Retomei à angústia mais etérea, pois que agora eu detinha como cruz ao torso, a pesada revelação perturbadora e, sem ter como dela livrar-me, sendo obrigada a carregá-la comigo; tornei-me andarilha das terras humanas em busca de alguém para devorar minha própria semente.
Ttrttrom
Enquanto no convés observava | Revolto o mar estranho parecia, | A negra tempestade se agravava, | Um som horripilante s’espargia…
Enquanto no convés observava
Revolto o mar estranho parecia,
A negra tempestade se agravava,
Um som horripilante s’espargia…
As nuvens ondulavam, vento em fel,
E o leme por mil vultos s’envolvia;
De súbito, no infindo, atroz e bel:
Voragem de astros, morbo-anomalia!
Às vigas me prendi, águas s’ergueram
E às nuvens se fundiram em voluta!
Brutal sopro e os cordames desprenderam…
Ingente besta o céu e o mar desfruta!
Nós, pasmos, avistamos sua vil forma…
Rachada a embarcação na plataforma
Morreram, menos eu, sob loucura…
A Carta de Íris Cohen
Escrevo esta carta porque devo explicações aos meus familiares e queridos amigos, já que sumi há anos e, decerto, sou dada como morta por…
Escrevo esta carta porque devo explicações aos meus familiares e queridos amigos, já que sumi há anos e, decerto, sou dada como morta por todos aqueles quais amei um dia. Sei que o mundo não é mais como outrora e sei acerca de uma das razões por detrás do horror que acomete o momento; creio que aquilo que vivenciei, e que hei de descrever ― até quando me for possível ―, poderá acrescentar majestosas ― e medonhas ― compreensões a respeito de tudo, inclusive possíveis hipóteses de resolução.
Até hoje não sei o que de fato aconteceu, não a coisa em si, mas o verossímil sentido que a cinge, contudo o que sei ― e tenho uma certeza inegável ― é que desde então sou perturbada, terrivelmente, por meio da paralisia do sono que faz as imagens daqueles instantes confusos e sinistros retornarem ao meu presente infortúnio e, como se ocorressem no exato agora, eu vejo aquele homem obscuro outra vez, observando-me, parado na janela, olhando-me como o seu retrato antigo.
Peço desculpas se meu vocabulário se apresentar exageradamente extenso, é que a ninguém revelei este segredo e o guardo como um íntimo calvário; sinto-me, de fato, aplacada em poder segredar tudo o que sofri e não quero poupar meu léxico para tal, porque sei que isso há de aliviar um pouco esta intimidatória lembrança, de algum jeito, apesar de eu já estar velha e perto da morte.
Tudo aconteceu no ano de dois mil e setenta e três, quando eu já me afastava do convívio social pelo cansaço da existência miserável, pela lassidão solitária que fora, por tantos anos, minha única verdade. Vocês não sabiam e não souberam que me imergi em uma vil consternação e percebi estar curvada à depressão que, tão familiar, se achegava; por esse motivo tomei a decisão de ir embora daquele extenuante e monótono lugar onde passei todos os meus trinta anos de vida e onde a vida era vivida em conjunturas esmigalhadas, ano por ano e, sim, tão assaz frequente era a minha penúria, o meu desalento.
Dei nome às minhas melancolias e, sequer percebi, que se enraizaram como figueiras. Contudo, a desolação que me acometera nem de perto assemelha-se ao que supus estar prestes a vivenciar com o baixo humor contínuo, a fadiga e o isolamento; o horror que me acometera estava há um adeus de distância, o adeus de meu lar amarescente que era ― e eu não sabia ― suficientemente seguro.
Contextualizo-vos que era demasiado raro eu ter um momento de prazer, o vazio sufocava meu cerne e eu estava sempre naqueles cárceres cotidianos ― os quais soavam deveras como um hospício ― e no aproximar das confraternizações de dezembro eu me sentia, em grau superior, a um poço de aversão imutável, porque o perfume de hipocrisia irritava-me mais do que as luzes piscando em cada janela de cada maldita residência. Mas eu não odiava vocês, acreditem, o ódio pertencia apenas a mim, por mim e para mim, refletindo no mundo como um espelho. Esta é, enfim, a razão pela qual realizei a fuga para um espaço na terra desprovido, o quanto fosse possível, de pessoas. Eu sentia que para que o ato de meditar alcançasse o seu cume necessário, era crucial o afastamento, eu precisava refletir em como tomar certas atitudes quais, quiçá, poderiam me dar uma última esperança de vida ― e para tal, a mudança era inevitável.
Em poucas horas, depois de uma lancinante crise existencial, no crepúsculo mundano do dia vinte e três de dezembro, tomei as comuns doses de pessimismo após notar o quão errôneo era imaginar que meus planos seriam dignos de um plausível desfecho de realização plena, tudo isso porque eu estava prestes a ir embora da minha cidade até ser notificada de que o único trem daquela segunda-feira, único e último da semana para lugares distantes da capital, estava indisponível, sequer uma única vaga, por incrível que pareça.
Fiz o possível para que me permitissem entrar, implorei por um lugar, mínimo que fosse, ainda que no apertado núcleo ruidoso dos vagões menos tersos, pois eu não poderia apenas voltar para casa e esvair na agonia daqueles quartos, era meu último saldo de fé. Contudo não havia condescendência. Vi com meus olhos lacrimejantes a partida desesperadora do último trem e fiquei apenas inerte, observando seu vazio deixado na encantadora linha de cobre, desocupada em seus trilhos envelhecidos. Porém, perto de abandonar a estação, visualizei um novo comboio a se aproximar; de imediato açodei até a bilheteria e indaguei o destino do, aparentemente, verdadeiro último trem, mas não souberam me informar, a verdade é que, para eles, tratava-se de algum tipo de trem particular ― isso existe? Eu duvidei, mas observei que em poucos minutos algumas pessoas adentravam-no, entregando, ao que me parecia ser o condutor, bilhetes em um dourado-escuro deveras brilhante. Não hesitei em perscrutar.
O homem era velho, seus olhos fundos estavam distantes, no entanto a sua cordialidade ainda vívida apaziguou-me a ansiedade. Com serena voz dissera-me que o Aecqer ― este era o nome da comitiva ― partiria para Nehen, uma cidade muitíssimo afastada, além das cordilheiras de Ahvalanch. Segundo o ancião, tratava-se de uma cidade pouco conhecida, visitada particularmente por sujeitos de alto poder econômico que, com o objetivo de afastarem-se dos dias festivos, iam para Nehen usufruir dos seus belíssimos e caros chalés. Interessei-me, é evidente, mas desde a passagem até a hospedagem era preciso alguns rins de pagamento. Por sorte, ou não, o bom homem quis fazer a caridade natalina de me permitir ingressar sem bilhete ― já que eu estava em prantos incorpóreos, com a fronte franzina, cabisbaixa, demasiado abatida e profundamente símil a um ser moribundo. Além disso, o homem revelara-me que um velho chalé, o mais afastado do mais apartado centro de Nehen, pertencia à sua tia e ele poderia, pois, alugá-lo para mim com condições de pagamento menos sufocantes.
Apesar da suave alegria que dera, pois, o ar de sua graça nos segundos discorridos após o ato de compaixão, não senti o júbilo qual expectei e, talvez por isso, sequer contestei a revelação posterior do homem ― Jonathan D’orvalho ―, mas fremi em certo grau com ela ― o que agora entendo como um tipo de aviso intuitivo. Jonathan entornava recomendações acerca da hospedagem qual eu seria obrigada a permanecer por uma semana ou mais ― eis a revelação ―, uma vez que, afirmara, não há possibilidade de retorno de Nehen até que a nevasca cesse ― qual nevasca? Eu indagaria, mas o senhor D’orvalho antecipara sua resposta e explicou que há um dia havia iniciado uma grande nevasca em Nehen e, esta, em breve chegaria às cidades centrais de Ahvalanch.
— Aproveite, minha jovem, que há uma lindíssima biblioteca na vivenda de madeira e tire algumas horas para ler sobre Nehen. ― dissera-me no cortar de seu raciocínio; a tal nevasca estava demasiado intensa e a previsão não estava tão boa para os próximos dias, ela decerto acometeria todo o estado, impossibilitando que os trens galgassem principalmente no cruzamento do leste, a ponte estaiada, e outras linhas próximas das cordilheiras, uma vez que o congelamento da superfície poderia desnivelar os trilhos e comprometer o comboio ― o qual Jonathan não hesitou em enunciar, a cada segundo, sua tradicionalidade, fazendo questão de desvelar o regozijo que sentia por ser maquinista dos trens de Ahvalanch há mais de cinquenta anos.
Resolvemo-nos e pude acessar o interior de Aecqer. Era mesmo um trem mais luxuoso, verdadeira classe alta, com passageiros que, mesmo sozinhos, reservavam cabines grandes para o conforto egoísta que não hei de objetar, eu também preferiria a solidão. Por infortúnio maldito, minha insistência corroborou ao objetivo primevo, isto é, eu estava de partida. O corredor do comboio era belíssimo, embora eu tenha pouco vislumbrado a sua extensão, pois eu estava apressava em encontrar a minha cabine. Eu precisava de um descanso agradável e taciturno.
Ao adentrar a pequeníssima sala, avistei um homem sentado no sofá esquerdo, em silêncio; eu não esperava por isso e retrocedi alguns instantes na memória para lembrar das cruciais recomendações de Jonathan, em algum momento ele decerto dissera acerca do compartilhamento da cabine, acredito; eu e minha maldita incapacidade de prestar atenção, não por menos, pois eu estava profundamente sorumbática, como já vos disse, nada era mais digno de concentração do que minha própria soledade. Sorri tímida, seus olhos estupidamente claros fixaram-se em mim como duas joias raras cujo núcleo era dominado por um exíguo abismo nocivo.
— Íris? ― Indagara-me. Sim, alguma coisa eu perdi no meio do caminho entre a conversa com Jonathan e o encontro com aquele ser estupidamente belo ― não estou, pois, lhes revelando quaisquer sentimentos senão aqueles que permeiam a pura e simples estupefação, aquele homem era belo, belíssimo, demasiado bem-posto, amedrontadoramente venusto, eis a primeira ponta de verossímil desconfiança que fiquei. Nenhum ser humano, mesmo com toda a tecnologia possível, seria capaz de ter aquele aspecto tão esplêndido.
Meu sorriso emergido continha profundo incômodo e ao homem eu me apresentei, sim, apresentei-me e questionei-me o fato dele já saber o meu nome ― “não tire satisfações”, eu pensei, “isso não importa”, eu pensei. Eu preferia mesmo é que permanecêssemos em silêncio e, na medida do possível, distantes. Sentei-me à sua frente e nada mais lhe dirigi, desviei o olhar, pois, como um quadro, eu poderia olhá-lo pela eternidade ― e não é, pois, que estou a olhá-lo desde então? É o meu anátema, oh sim, a minha maldição.
Desconfiada e desolada, senti os segundos vastos como eternidades de meu completo desconforto, enquanto insistia em me convencer de que Jonathan havia sim falado sobre aquele homem, embora não houvesse nenhum resquício de lembrança, nem a ínfima reminiscência, a favor desta possível verdade; senti-me indisposta rapidamente, pela veemência que a timidez atravessava minhas entranhas, além do lapso mental e todas as minhas opressões internas.
A cabine era um cômodo pequeno com dois sofás, um de frente para o outro; a grande janela ao lado mostrava a paisagem noturna que surgia no horizonte abismal. Já do outro lado, à direita, havia apenas a porta de vidro escuro e ornamental, bem intacta, venerando o que acontecia no sepulcro daquele antro. Tentei cessar o pessimismo e o desalento até que fui novamente cingida por aquela voz; falei-vos da voz? Um grave-rouco, perturbador e instigante, de caráter unicamente persuasivo, peculiarmente imponente mesmo possuindo calma e suavidade em seu timbre. Entrevi-o sem desejar olhá-lo, mas fortemente ansiosa para.
— Edgard Venesthron, é um prazer conhecê-la ― ele disse. Sua mão à minha direção, mirei-a em completa ausência de reação até ser capaz de tocá-la. Era absurdamente álgida. Sorri mais uma vez, constrangida e com grande transtorno inexprimível. Voltei-me à minha mala e retirei dela uma revista qualquer para minha leitura desprovida de raciocínio e conhecimento. Diante daquele embaraço acentuado, tudo o que eu almejava era passar o tempo enquanto sentia a apática friagem invernal vagarosamente se estabelecendo ao redor. Assim como eu estava exausta naquela época, bem, eu continuo, embora um pouco mais.
Peço que me desculpem, eu não estou bem, enquanto escrevo sinto-me à deriva em um oceano de exaustão, este é o terceiro dia desde que decidi relatar-vos a experiência que tive com a sutileza vil do horrífico aquém, e agora acabo de acordar, estou sob o crepúsculo demoníaco e minhas instáveis visões estão perturbadoras, além do que estive há anos acostumada. Nesta noite aquele sonho retornara para ludibriar e decair todo o meu esforço de esquecimento, lá estava o homem na janela, como seu quadro, observando-me. Por vezes hesito em continuar a escrita desta carta, porque me pego continuamente descrevendo inúteis detalhes que não deveriam estar aqui, que tipo de relato estou fazendo? Isto não é ficção! Logro mais indulgência, quero ser mais concisa, entretanto, conforme adentro o cerne do horror, ele aparenta estar mais claro dentro de mim e não posso apenas destruir o que já foi redigido com tanta alma e que possui um caráter intensamente relevante, pelo menos para mim. Acabo de pedir para ser colocada esta noite na sala acolchoada, sei que estarei segura lá, fisicamente.
Quarto dia de escrita desta carta e agora eu volto ao dia vinte e três, ao comboio, ao homem na cabine. A minha leitura naquela noite, notei após alguns minutos, residia em assuntos de entretenimento pouco dignos, eis a razão pela qual me dispersei ainda mais, entretanto vi pela visão paralela de minhas retinas que Edgard movimentava-se e observava-me e, antes de ousar fitá-lo em retorno, uma moça batera lentamente à obscura porta cristalina, três vezes; foi Edgard que a atendeu, dissera-lhe para entrar. A moça abriu a porta da cabine e sorriu para o senhor Venesthron, foi um largo, extenso e sombrio sorriso, aquilo me enojou de modo irracional, contudo havia alguma coisa de horrendo naquele feitio, uma face estranha que incomodava tanto quanto a beleza de Edgard que me prendia tão cruel, porém antes do prolongar de minha racionalidade a respeito daquela cena, Edgard interrompeu meus pensamentos indagando-me se eu desejava algo, quem sabe um chá.
Nada, eu nada pedi, minha resposta esvaiu sem voz enquanto Edgard solicitava um tipo de vinho seco para a moça e lhe tratava com demasiada cortesia, algum clima acontecia ali e eu, ébria demais com a melancolia, fracassei em notar quaisquer atmosferas dissemelhantes à minha própria, que era densa e nebulosa. Isabelle se foi, sim, Isabelle ― vocês verão no futuro, caso investiguem, que ela nunca existiu, mas por hora eu vos posso afirmar que sim, tudo aquilo aconteceu, e ela foi em busca do pedido de Edgard enquanto ele ajustava seu casaco um pouco mais.
— Uma jovem agradável por sua bela tristeza ― ele expressou, e eu não consegui compreender o teor do que afirmara. Eu estava sã, creiam, e o caráter demoníaco intrínseco daquela situação que se iniciava em espúria inocência foi exatamente da forma que vos relato. Aproveito para expor que minha doença de memória, por infortúnio, não afetou em nada o que aconteceu naquela noite e a razão pela qual verão em minha ficha a condição de “possível suicida” é, pois, que eu tento destruir, com certa frequência, as memórias, sempre me ferindo no crânio para que cada lembrança se dissipe. Vocês fariam o mesmo, eu sei, se estivessem no meu lugar e passassem pelo que passei. Se estou aqui agora, na casa de repouso psiquiátrica, não é porque sou louca, tudo o que descrevo é real, vocês terão a oportunidade de compreender melhor os motivos que me trouxeram até aqui, mas tudo tem o seu devido tempo para ser dissertado. Eu não quis tornar esta carta em algo demasiado emocional, porém, é difícil, trabalho para que ela tenha uma lógica perfeitamente formulada de cada fato e cada tétrica verdade, assim acreditarão em mim, tenho certeza.
Prossigo, sem descanso, aquieto-me nesta casa, eu e a memória fumegante daquele momento em que olhei para o rosto de Edgard e imergi-me em sua face absurdamente perfeita ― perfeita, como um anjo, quão sinistra em sua agradabilidade, como um demônio. Não tivemos educação religiosa, vocês sabem, mas se tem alguma coisa que sei a respeito dos anjos é que alguns caíram na Terra, pelo menos dentro da mitologia cristã, e eu estou certa de que aquele homem não poderia ser humano, por vezes sei que paro para analisar hipóteses sobre a sua verdadeira origem, jamais chego à nobres conclusões.
— Está falando de mim? ― perguntei com certo fremir em meu baixo timbre. Edgard, o maldito, sorriu para ascender a sua gloriosa forma.
— Não, não, estou falando de Isabelle, mas, bem, você também beira as margens da consternação, então, posso afirmar o mesmo de você. ― Sua narrativa embrulhava meu estômago e eu tão rápido passei a sentir uma nascente gélida de suor em minha espinha dorsal. Voltei-me aos meus pertences, sem responder a Venesthron, em busca de uma garrafa de água esquecida para aliviar o que estava engasgado em minha garganta. O homem ainda me olhava, a sua desumana visão era tangível e tocava minha tez como se fosse as suas mãos galgazes.
O alívio, oh sim, o alívio da sede foi transmutado na agonia mais execrável; vocês pouco imaginariam, mesmo que suas mentes estivessem banhadas do azeite fétido do averno, ainda assim vocês não seriam suficientemente bárbaros de imaginar que aquela garrafa, naquela pequena abertura, na parte frontal da bolsa, estaria ― eu juro por tudo o que há de mais sacrossanto ― abundante no mais rubro e denso sangue, cheirando à ferro; era assim que estava, escoando como se crivada intencionalmente ― quem dera, quem dera fosse uma divagação.
Assustei-me com um furor tão descomunal que mais célere do que era possível prever, como um reflexo, um feixe de luz frenética, arremessei aquela coisa na janela e a vi espatifar... todo o sangue verteu e terrificou ao jorrar-se em nossos corpos. Fiquei atônita e imóvel; o sangue borbulhava e, como exprimir o inenarrável? Aquilo era... tão impossível..., mas ao mesmo tempo era nítido de modo intimamente infernal.
Uma eternidade de mudez pela paralisia perdurou até ouvirmos Isabelle novamente à porta, olhei-a na escuridão fugaz de minha visão estendida, provavelmente, pelo pavor. Isabelle adentrou a cabine, entregou ao homem o vinho seco e partiu. Desta vez sua feição era mais horrenda, como se ela estivesse sorumbática e fizesse, eu pressenti, o possível para não se virar para mim, portanto, não pude vê-la completamente, ela se foi mais apressada do que antes e aí está mais um sinal de que sua realidade não era a mesma que a minha e que a sua constituição não era a constituição humana. Ela simplesmente não notou o sangue e sequer questionara o estrondoso som, como pôde? Eu estava tão perturbada, posso sentir na minha língua agora enquanto discorro estas letras de infortúnio; mais do que isso, eu estava intrinsecamente inibida pelo horror, pela face do mais grotesco horror.
Mas... o sangue... Sangue? Não havia sangue, não havia água, não havia garrafa. Edgard bebia o seu vinho e olhava atentamente para mim com seu ar galanteador enquanto eu não encontrava nenhum vestígio da cena terrífica. Em um átimo... tudo se foi... nada do mórbido ebulir férreo sobre o rubro oxidante que tão há pouco fora apreendido, nada daquilo estava acessível na realidade. Eu... eu me desolei... minha alma pesou na difícil e funérea sensação de insanidade; tudo o que me faltava, pensei, era me tornar uma louca e, no íntimo mais soturno, depressiva; senti que em meus olhos as lamúrias brotariam como erva daninha e que, na relva aparada da angústia, as águas salgadas verteriam para alimentá-las e fazê-las proliferarem-se até cobrirem todo o meu corpo e me estrangular, mas eu as interrompi quando Edgard questionou-me:
— Está tudo bem? Parece assustada. Foi o que eu lhe contei? Se for, por favor, não tema, isso é tão somente uma coincidência ― alegou Edgard. Eu estava sim aterrada em pânico, no entanto fui capaz de questioná-lo ― de modo um tanto incivil, admito, o que o deixou sutilmente austero, seus ares triunfantes diminuíram, todavia eu simplesmente não sabia do que ele estava falando e a seiva do inferno respirava no meu intestino. A resposta de Edgard foi sensata e em absurda genialidade, não pelas palavras em si, mas porque o que ele dizia era irrefutável e por isso me acometeu ainda mais a sensação ordinária de ambiguidade meândrica.
“Você indagou sobre o que faço e eu lhe disse que sou escritor e lhe apresentei, em suma, um dos meus livros sobre uma mulher curiosamente chamada Íris” ― explicou. Eu não sei o que houve entre a busca por uma garrafa de água até o sutil instante não vivido de um diálogo tão perfeitamente formulado. A seiva gotejando da janela ao chão frígido ainda reluzia e cintilava como um astro no meu pensar. “Você também disse ser ilustradora” ― acrescentou. Levei minhas mãos à minha testa e tentei compreender o que acontecia, eu só podia não estar atenta aos horrores daquele momento por causa da maldita melancolia ― é isso, meus caros, a tristeza profunda, o vazio.
Que sirva de lição a todos que lerem este relato, a condição depressiva é o pior de todos os males, é como se o corpo rejeitasse quaisquer informações de caráter perigoso ou duvidoso e, portanto, não se qualificasse na tarefa de ativar seus instintos de proteção e sobrevivência; estar vulnerável ao mundo, sem filtro, sem cuidado, e com disposição contrária, é um erro, o pior de todos os erros inconscientes. Olhei para a janela de novo e pensei no cenário estendido em exagerado breu, nada além da obscura paisagem enquanto o pouco silêncio, que se propagava na cabine e acolhia-me em toda a aflição gélida, foi mais uma vez obstruído pelo meu sentir nauseante, suspirei a dor, quis me controlar, mas as grandes aguilhoadas em minha cabeça, como golpes bestiais, acometeram-me de modo inenarrável, era um tipo de enxaqueca nímia que me fez levantar e sair da cabine em busca de um banheiro que me permitisse a solidão. Levei comigo alguns de meus remédios, cujas receitas estão anexadas a esta carta para garantir-lhes que nenhum deles possuíam efeitos colaterais alucinógenos, sim elas estiveram comigo até hoje porque precisei delas muito mais, uma vez que as dores se estenderam continuamente dia após dia desde então. Não observei bem a reação de Edgard, mas, dentre as confusas e inconstantes visões causadas pelo sucessivo fechar de olhos como reflexo dos árduos espasmos, ele parecia incólume frente à minha reação febril e súbita.
Foi então que me vi no corredor, aquele corretor que outrora era magnífico e que naquele momento tornara-se análogo a uma dimensão de severo esconjuro insuportável, em certo nível de turvação eu observei as cabines pelas singelas frestas dos vidros das portas ornamentais e me vi mais do que espavorida diante daqueles corpos; as pessoas estavam apáticas, estáticas, secas e todas com um semblante de horrenda agonia; muito semelhante à Isabelle, embora cada indivíduo expressasse um suplício tão próprio. Aquele calvário insólito arrefecera-me, o abalo cerebral ainda pulsava quando me vi apressada em busca de um refúgio do cenário aziago que me vinha de encontro. E a cada passo, um agouro; e o som do trem em contínuo oscilar. Indago outra vez, seriam vocês capazes de conceber a ideia de um espaço subvertido, outrora tão admirável e então, em um átimo, um mofino átimo, integralmente enfermiço? Os rostos, os risos, as consternações mórbidas. Não era magia, não, sequer um tipo de trabalho pagão cuja oferenda era, pois, eu mesma; não, não se tratava disso, eu podia sentir por cada um dos meus cinco sentidos; era algo bem pior do que tudo o que já havia sido visto até então.
Encontrei um lavabo e fechei-me em seu antro estreito, de imediato coloquei dois comprimidos em minha boca e com a água da torneira tomei-os, mas, em desespero não a vi de imediato, só a vi quando fitei aquele espelho de moldura ornamental à minha frente, a água que eu bebia era imunda e negrume, embora de gosto neutro; ela tinha um aspecto esverdeado e nojento, sim, era como ter um pântano na língua, ó mais um pavor! Assustei-me tanto que abandonei o cubículo com mais pressa do que antes, para tentar despertar a mim mesma daquele pesadelo deletério. Quem dera fosse só um pesadelo de uma noite conturbada, quem me dera. Foi mais um daquele piscar tão singelo, a visão toldada, e eu estava de volta à cabine, não sei exatamente de que modo consegui passar pelo cemitério dos vivos, dos semblantes infelizes prostrados em perturbação e afetados na paralisia imortal de seus introspectivos desgostos, não sei como, todavia, consegui e eu estava na cabine, meu cérebro ainda pungente na agonia, e eu olhava para Edgard enquanto ele admirava um papel à sua frente, fascinado, com sua fronte em límpida formosura, tão diferente dos demais rostos enlutados na desgraça. Quis revelá-lo o meu horror por um segundo, mas esmaeci nas ondas de seu proferir.
“Está perfeito! Você é uma exímia artista!” ― Sem compreender e completamente espantada, recebi de Edgard um papel e eu o vi. Ali estava uma ilustração em grafite com o rosto de Edgard numa janela de um tipo de quarto numa casa rústica. Era uma ilustração perfeita, bem próxima as que eu fazia quando jovem ― hábito que perdi com escassez mundial de papel. “Sinto-me honrado por esse presente, mas, por favor, assine!” ― pediu. Onde estava todo o sangue e todo o horror da água negra? E os rostos e as intensas dores? Quis dizer-lhe que eu não havia desenhado aquilo, mas, a melancolia, o medo... entreguei-lhe o papel sem assinar, eu apenas queria fugir, mais uma vez fugir, fugir era a minha lei, o meu único possível, e eu pensei que estava salva quando o trem parou, havia se passado duas horas e a viagem chegou ao seu fim, não posso afirmar saber como todo aquele tempo passou, soava-me no máximo meia hora, eu não sabia se estivera mesmo em um sonho ou se tinha sido envenenada ou se algo entre o espaço-tempo trouxera a lacuna mais perturbadora de minha existência, eu não sabia e naquele momento como eu poderia saber?
“Eu... preciso ir” ― eu disse com dificuldade, Edgard apenas sorriu para mim, de novo, acenou com seu chapéu e viu-me deixar a cabine levando comigo todo aquele martírio. Eu não olhei ao redor, esbarrei naqueles corpos que se retiravam do comboio, mas eu não os fitei; fui o mais rápido que pude para fora daquele poço, mas ali eu já estava completamente submetida ao horror aspecto de Edgard Venesthron, sua imagem não esvaía, sua voz não se esquecia e se eu não estivesse tão assustada, voltaria para questioná-lo e para, estranhamente, só estar com ele. É isso que ele faz.
Cheguei até Jonathan, vocês podem imaginar o quanto fui rápida, eu queria descansar do caos que se repetia em minha psique ou, ao menos, entender um pouco de seu fundamento, algo me alertava que aquele homem quase inabitado por palavras não deveria ser real e esperei em Jonathan encontrar as respostas quais eu almejava. Lá estava ele, se preparando para deixar o ofício amado, embora provavelmente descansaria em alguns minutos e retornaria para a capital. Tão logo ao me encontrar, Jonathan questionara, solícito, sobre minha viagem e eu ainda mais inocente afirmei-lhe que o homem com o qual dividi a cabine era um tanto excêntrico. O homem qual eu dividi a cabine. Edgard Venesthron. Quem sabe alguma informação pertinente, não é mesmo? Algumas informações sobre a origem de Venesthron, porventura seu contato ou quiçá um reconhecimento singelo que me acalmasse ao afirmar, mesmo com astúcia, meu equilíbrio psíquico, entretanto, tal como eu imaginei, as expectativas caíram por terra. “Ó, não, deve haver algo errado” ― afirmou o senhor D’orvalho. “Eu a direcionei a uma cabine vazia e, pela lista de passageiros, tudo estava perfeitamente correto, era previsto que uma cabine estivesse vaga” ― declarou, eu não insisti... Edgard Venesthron... Edgard Venesthron estava lá, não pode se tratar de um delírio ― pensei ― tampouco de algum outro tipo de deslize mental, seja qual for, as cenas eram vívidas e indiscutíveis ― eu quis me convencer. Não fui capaz de indagá-lo, é verdade, sequer de dizer o nome de Edgard, pois, temi ter minha estabilidade questionada e, consequentemente, não ter mais minha estadia permitida nas vísceras de Nehen. “Minha querida Íris, vamos, venha, eu a levarei para o chalé agora, tenho pouco tempo para voltar à cidade depois disso” ― advertiu Jonathan.
Meia hora até a moradia mais afastada de Nehen. Pelo caminho aprendi que na historicidade daquele pequeno lugar-nenhum, havia, pois, uma estirpe que por séculos governou a restrita população da cidade lá no centro, onde casas populares se ergueram. Na época os chalés eram poucos, mas bem funcionais para o turismo que abençoou mesmo a população mais simples. A família-governo, aparentemente justa, sempre dividia de modo razoável todos os ganhos conseguidos com os aluguéis em temporada de inverno, de modo que todos os moradores mais simples puderam erguer seus próprios chalés e passaram a alugá-los pouco tempo depois. A população continuou morando no centro, com a fonte de renda principal vinda dos chalés e, claro, do comércio local. Embora essa história me soasse profundamente interessante, eu só conseguia pensar em Edgard, em sua face perfeita e o horror entorno de sua existência, entendo o esforço de Jonathan em entreter-me com aquelas explanações, eu quis dar-lhe atenção, mas fui incapaz.
Tão logo ao chegarmos no Chalé da família D’orvalho, percebi que havia muitos quadros antigos, pinturas clássicas de rostos e pessoas desconhecidas; segundo Jonathan aqueles eram da estirpe governante de Nehen e aquele chalé pertencera a eles até que o último herdeiro conhecido o doou, ficando apenas com o castelo das montanhas; o indivíduo faleceu ainda lá e dizem, pois, que sua alma vagante permanece nos cômodos obscuros do alcácer ― esta foi a explicação de Jonathan.
“Quem foi o último herdeiro?” ― perguntei e a sua resposta misteriosa poderia ter me atiçado a curiosidade se não fosse pelo meu estado de espírito tão débil.
“Você saberá quem é, está no belíssimo quadro fixado à parede frontal da suíte” ― explicara.
Fui deixada na casa com os quadros e os rostos, a madeira escurecida e o frio. A lareira estava acesa e eu analisei cada espaço dos cômodos de meu atual lar. Para o meu infortúnio havia mesmo uma imensa moldura no quarto e, imaginem, ela carregava o rosto de Edgard pintado em tinta óleo. Eu não dormiria naquele antro ou assassinaria aquela maldita pintura, foi o que pensei, mas aquela beleza chamava-me e observá-la era uma sede imoral que me acometia com furor, ó, e que furor! Acomodei-me na sala por um tempo, mas tão logo retornei ao quarto e por ali permaneci, com o rosto de Edgard observando-me cuidadosamente como uma negra coruja à espreita, acima dos altos galhos de um carvalho seco. Os olhos azuis, a perfeição.
Eu apenas o fitava, demorando-me a piscar, para contemplar toda a sua graça inenarrável e assim se estendia a noite lúgubre e a cada segundo eu me envolvia mais à sua simetria; foi neste contínuo admirar que um tormento se revelou em assombro perturbador, taciturno e hediondo. Levantei-me da cama com lassidão exacerbada ― com meu corpo tão ártico e minha alma dilacerada na ilusão do encanto ― e aproximei-me do quadro, sem tirar minha visão de sua inquietante sublimidade. Assim ousei tocá-lo e ao fazê-lo uma vaga sombra acomodou-se pelo quarto, sim, de modo indizível, desalumiada atmosfera; como se uma névoa alvacenta viesse devagar pelas frestas, nas janelas e portas, em quaisquer tênues lacunas. Era como se todas as luzes diminuíssem e se tornassem estranhamente rarefeitas. Toquei-lhe toda a extensão do rosto e não me apeguei ao horror de estar, pois, da mesma estatura que eu, sim, o quadro, não estava imenso como estivera se observado em distância considerável; ao me aproximar toda a sua dimensão foi afetada, era como vislumbrar Edgard em sua real constituição, bem à minha frente, separado tão somente por uma camada de óleo, pigmentos e tela.
Toda a experiência macabra do sangue e das águas negrumes e dos rostos sorumbáticos que estivera até então singularmente inexpressiva em mim ― como forma de privação do que achei ser minha loucura ―, retornou vívida quando meus níveos dedos harpejaram os lábios enrubescidos do quadro, com o cuidado de quem toca um instrumento divino pela primeira vez. Hesitei, levei minhas mãos ao meu rosto suado, a dor de cabeça volveu e eu ouvi, claro que ouvi, era a voz de Edgard vindo da biblioteca já mencionada por Jonathan antes mesmo de minha viagem. Olhei imediatamente para a porta e vislumbrei o corredor, caminhei devagar, ó como era nítida a sua voz clamando meu nome como música fúnebre; eu tive a esperança de vê-lo, uma tétrica esperança de intransigente autenticidade que posso descrever-vos como uma reza ― eu jamais havia rezado antes daquela viagem, entretanto tive de aprender e agora eu sei que me acometia, pois, uma sensação de prece ao mais bondoso de todos os deuses enquanto, no íntimo, eu almejava e esperava com afinco o perturbar do mais feral demônio.
Cheguei ao recanto, abri suavemente sua porta maciça e barroca que rangia insalubre, e adentrei. As estantes eram altas e perfeitamente arrumadas, embora com bastante poeira, senti-me instigada com o conhecimento que jazia ali, pois os títulos dos exemplares ressoavam a antiguidade de suas histórias rompendo a barreira do tempo, muito mais do que eu poderia prever. Tateei devagar cada um deles nas imensas prateleiras ― muito embora eu estivesse tensa e ainda com aquela enxaqueca dos precipícios de meu averno. Eram obras raras, percebia-se pelos títulos, muitos em latim e outras línguas quase mortas. Observei por minutos longos todos os abandonados papéis na escrivaninha também, documentos perdidos ― indaguei-me sobre quantos anos alguém não inspecionava aquele recôndito, era tão grandioso. A grandiosidade daquele lugar, entretanto, não trazia sentires fleumáticos, sua aura agoniava e minha abominação renascia das covas, reencarnado em estranheza e medo, muito mais quando os dois candeeiros próximos à escrivaninha se acenderam em chamas negras e, ainda, reluzentes, trouxeram a voz de Edgard outra vez.
Se não fosse o seu valor, para mim, tão estranhamente fascinante, eu decerto teria fugido daquele lugar no momento seguinte de sua voz ter, pois, espargido pela primeira vez na densa neblina que cobria cômodo a cômodo; ou ainda o teria feito logo ao ver o quadro na parede; contudo Edgard era fascinante, deslumbrava-me, horrorizava-me e seduzia-me. As circunstâncias favoreciam a permanência, além de meu completo abandono aos recursos primitivos de autocuidado, o feitiço daquele ser já morto ― e revivido por algum tipo de patogênica alquimia ― conseguia cativar toda a minha atenção e assim me fazer estar ali. Foi por isso que não fugi ― tal como me era ordinário fazer ― e, por consequência, as escuras chamas, em um paradoxo inconcebível, iluminaram um livro na estante e, neste livro, eu não sabia, o feitiço fúnebre habitava do mesmo modo que a tragédia e a agonia me habitavam.
A obra estava na segunda prateleira atrás da escrivaninha, era a única de capa cor gaultéria, escrito em dourado rústico. Acerquei o exemplar com todo o desvelo que a mim mesma jamais doei, sem esforço notei que meu nome era proferido bem ali, aquela era a fonte da voz de Edgard e que harmonizava com a ansiedade que me sorvia: “Íris... Íris” ao passo que segurei o livro, finalmente, muito apreensiva, e li seu título cursivo: “Minha Íris” escrito por Edgard Vanesthron, todas as agulhadas em minha fronte esvaíram como chuva de verão assim que li aquele título, e o vazio deixado pela dor ocupou-se de sua lembrança, para me oprimir silenciosamente; junto dela, uma expectativa infesta de encontrar na leitura compulsiva, sob a rédea do extraordinário, algo próximo a um vínculo sentimental, além, claro, da avidez desvelar o que havia nas páginas daquele livro e por que ele me chamava e por que encontrei Edgard ― ou o seu espírito ― em meu caminho. Pelas indagações e pela diabólica atração, decidi lê-lo, inda que debaixo da angústia que advinha da asfixia, do pesar árduo que me consumia e da afronta que me esperava, serena, para o xeque-mate.
Vislumbrei as primeiras folhas de seu interior, e admirei-me ao ter a consciência de que eu estava mesmo ludibriada, o apego na possibilidade de estar frente uma majestosa, romântica, ― e mais ainda ―, mágica e cálida história, repercutia em meu espírito sigilosamente, por conseguinte comecei a ler cada singela sílaba em voz alta e nítida, ato este que cessara sem que eu percebesse e não poderia ser diferente, toda a formosura exacerbada protege uma verdade dantesca vinda de suas entranhas e eu comecei a notá-la assim que me embrenhei na primeira estrofe. O bálsamo daquela simetria de Edgard, a ambição por seu tom, a ganância por suas retinas, a vasta relevância de seu enigma e, por fim, o meu caos afetivo, chocavam-se com a factualidade coexistencial, tão mundana, discorrida naquelas folhas cor de pólen, arfando-me frente a tal medonha malignidade.
Edgard escrevera cada coisa ― repito, cada coisa ― acontecida no período da viagem que fiz em Aecqer, acreditem ou não, estava escrito e possuía detalhes meus que nem mesmo eu poderia saber; como se não bastasse, a dissertação incluía os pormenores funestos da mente daquele sujeito ― quem me dera nunca os ter conhecido. A assustadora narração do amaldiçoado romance transtornou-me a um pânico umbrífero, paralisei, a verdade era-me intimamente aterradora, minha sepulcral condição anterior a tudo aquilo jamais seria símil à mediocridade da vulnerabilidade que compreendi estar sujeita sabe-se lá desde quando, pois, se a narração se iniciava no trem, como julgar que tais presságios terríveis não vieram de outras histórias absconsas? Quais eram as magias ocultas invocadas por Edgard? Que tipo de diabólica premonição era aquela? Sua sombra estava sobre mim e como eu me lembro... lembro-me tão bem e posso, e irei, transcrever agora até onde minha mente suportar.
“Eu estou morto ― onnomapherhesí ― todavia, pelo antro de Pherhesí, veem-me ressurgir como anima, tão consciente, como se vivo; em vida redigi a beleza execrável do que acontece ― onnomapherhesí ― no futuro, no dia vinte e três de dezembro do ano dois mil e setenta e três. Ela, de nome Íris, com agradável aspecto, está digna e pronta ― onnomapherhesí ― para os horrores que estou cometendo, a começar pela angústia lôbrega que faço jorrar aos seus lábios de sepulcral-escarlate. Eu a escolhi e ela é minha, pertence à fonte primeva de Pherhesí, esta fonte que eu sou, assim, ― onnomashryos ― por meio da permutação, fazemo-nos uno espectro das sombras de modo a germinar o primogênito do vigésimo segundo século, o século da soberania ― onnoma ehret ― de Pherhesí. Meus planos são incontáveis, minha sede é a sede de Pherhesí e eu estou em Aecqer, o comboio, e eu espero Íris pacientemente ― Aecqer phrephahen ― tenho o poder de ludibriar estes seres da terceira dimensão, pois já não faço parte dela e, mediante Pherhesí, eu sou imortal, eu ― onnomashryos ― abismo o novo mundo com o meu eterno retorno. Íris alcançara a languidez precisa para o meu desvelar como anima e, por isso, não há dúvidas de que eu a conduzo pelas palavras originárias.” ― escrevera.
Como eu gostaria de olvidar aquilo tudo. Cada frase daquela primeira estrofe ressoava em meus ouvidos, minha voz não tinha vigor algum para ler, mas o quadro lia, ó sim, mesmo estático, mesmo no quarto, mesmo distante, ele lia ao pé de meu ouvido, tão limítrofe à minha cerviz com sua névoa agora opaca a incensar o ambiente de madeira; o seu vil poder fulgurava e eu, apenas e por demais, lia. Nenhum tipo de oxigênio parecia ser capaz de alcançar meus pulmões, tudo isso no parágrafo exordial; meus olhos, no entanto, transitaram frenéticos na alínea seguinte e eu não pude contê-los. Compreendam que a dificuldade de transcrever a memória tão estável daquelas páginas crescera, pois agora absorvo Edgard se aproximando de mim outra vez, posso assimilar sua presença prestímana como há tempos não apreendia e, por isso, minha dúvida a respeito de conseguir continuar a redigir esta missiva arde bem mais do que outrora, arde tanto que já não durmo porque eu sei, ele estará lá para me aprisionar. Tenho certeza de que as palavras ― as malditas palavras impronunciáveis e repetitivas ― são a razão do que agora me acomete, deste intrínseco desespero, desta medonha sensação de companhia. Sempre que penso naquelas palavras, uma consumição emerge insípida e se demora a esvair; não seria diferente agora em que as escrevo, aliás, talvez por escrevê-las, tenham mais poder sobre mim.
“Quão bela, minha bela, minha Íris; sinto seu choro, ouço o seu pesar; cada passo seu conta-me um desespero singular que traz cálido conforto ao predomínio de Pherhesí. Quando o corpo de Íris adentra a cabine de Aecqer, eu vislumbro a sua sujeição ― onnomashryos onnomapherhesí ―; profiro seu nome para deixá-la perturbada e ela está perturbada tal como aprecio, possuída de uma soturnidade nímia cujo perfume declina-me ao fogo do inferno profano. Seus pensamentos são estes ― onnomapherhesí ― de angústia e incerteza: “Jonathan dissera-me a respeito deste homem? Que beleza estupidamente fascinante! Estes olhos, parece que posso fitá-lo pela eternidade.”; assim ela se senta e promove cada um de seus questionamentos ao obscuro de sua melancolia, é assim que eu a quero e por isso é assim que acontece, mesmo no furor de sua razão, toda a autopreservação há tempos lhe foi tirada, para ser digna e estar pronta ― onnomashryos onnomapherhesí.
Apresento-me, embora todo o seu corpo já me reconheça; ela sorri no embaraço de seu incômodo ardiloso. Isabelle surge, tal como previ, para trazer-me um pouco de vinho; nada disso é real, mas sei que envolve Íris de modo a apaziguá-la para o que há de vir, seu desconforto é a minha morada, de fato, e traz as pujanças cruciais para o efetivar da primeira das suaves ilusões que tramei há muitos anos, desde quando sua elementar treva formou-se no cerne da sua desgraça, eu poderia achegar-me na realidade tangível que a cinge sem os jogos quais aprecio, mas sou em demasia admirador da beleza fúnebre, por isso oscilo a serenidade com o pavor, o horror com a angústia, a agonia com a quietude, ó quão aprazível. Aqui está, minha Íris, em busca de alívio, vejo-a e faço a minha seiva viva em suas mãos, a reação de seu rosto tristonho, ó, tão delicada, tão deslumbrante lutuosa constituição, transforma-se em pavor atônito partindo de uma reação súbita. O sangue que ferve tão logo se orvalha sobre nós, admiro-a na repugnância e ascendo o poder de sohmphorhen”.
Devorei suas palavras como um demônio devora um ser vulnerável, como Edgard devorara-me e devora novamente pelo seu retorno hediondo. Sinto-me nas anuviadas ojerizas, possuída de fraqueza e aversão. Acreditem, o que li perfurou-me tão inerente que, como posso explicar, toda a índole lúbrica, a feição mortífera, o traço indigno comprimiam meus órgãos e impediam-me de sustentar vida. Estava, igualmente, cada vez mais árduo sustentar o corpo; as minhas pernas trepidavam tal como minhas mãos vibravam, todo o meu equilíbrio se desestabilizava e meus sentidos alçavam cumes opostos, de minuto a minuto; eu era capaz de ouvir o crepitar da lenha na sala e a efemeridade das percepções queimavam no meu calvário. Eu gostaria de ainda ter aquele livro e eu o teria em minhas mãos se não fosse pela fúria de queimá-lo, instigada pelo crepitar, na busca pela sanidade e pelo aprumo, apenas queimá-lo e assim vê-lo desfazer-se na magia tétrica das chamas umbrosas. Demorara a, para a minha infelicidade, advir este esforço de coragem, uma ou, quiçá, sete mil eternidades ― assim soava para mim, pois o afã, ah, o afã em ler as palavras daquele ser inumano, o afã era o flúmen das veias minhas, a torrente de minha paixão inconcepta e de minha aversão conjecturável. Se não fosse tal híbrido afã ― não importa, essa é a verdade, sem a avidez ou com ela, o destino seria o mesmo, minha via-crúcis esteve sempre consumada.
“Íris, ó, minha Íris, tão estática, aproximo-me de seu corpo e perfuro o portal para o seu espírito, delicadamente, seu eflúvio é agradável e quente; introduzo ali, em êxtase, a minha figura pelo fragmento de minha alma; minha infeliz adorável se assusta e está mais pálida, contudo ainda imóvel pelo pavor, porque o poder de sohmphorhen faz ― onnomapherhesí ― conservar-se a condição inerte de minha desventurada e de todos os pobres infelizes que estão sob o controle pérfido e magnífico de Pherhesí. Ssahmqenehr, Ssahmqenehr Pherhesí, seu poder conduz a humanidade através do espelho de mim sobre o corpo de Íris e sobre o ser do primogênito; tudo o que desvelei e desvelo de sua consciência é a chave etérea, ó Ssahmqenehr Pherhesí, crio mundos com o seu poder, destruo dimensões que se negarem a perpassar a sua grandiosidade ― onnoma ehret. Agora em minhas mãos está Íris, sorrio porque isso a amedronta, a noite é obscura, pois esta é a reação universal diante Pherhesí, o fundamento responde ao poder do fundamento quando este é exposto pela fundação; a criatura é maior agora, e está acima do criador. ― Escute, minha Íris, na eternidade de sua subjugação, retirarei o único fragmento de júbilo que descansa em sua alma, retirarei através de seus olhos pulcros ― digo-lhe, suas lágrimas esvaem em pavor; sorvo-a e sua feição se torna fantasmagórica, sorvo-a pois que foi essa a minha atração desde o princípio, a troca de almas, a eternidade em lembrança e melancolia; neste plano eu a destruo devagar para que refulja sempre e tão somente o seu merencório ser, para a efetivação do perfeito devir do primogênito”.
Porventura haja uma desconfiança, eu sei, estes relatos seriam mesmo reais? Sem o livro de Edgard, provar sua existência é laborioso, mas, tenham certeza de que nada disso viera de uma criatividade bestial, reviver verso por verso, eternizando-os na escrita outra vez tem me destruído, minhas crises pioraram, as paralisias se estendem a pequenos comas obscuros; foram duas paradas respiratórias nos últimos dois dias, está tudo relatado e a tudo isso vocês terão acesso, esteja eu viva ou não. Sabe, reside em minha natureza um imensurável medo de morrer, desde que vi e li Edgard, a morte é o palco de meu drama e, jamais, as cortinas; será que encontrarei ele, o escritor, em algum outro lugar além? Sinto que sim, algum outro lugar além de minha própria alma. Edgard espera-me e eu temo, porém, entrego-me, porque não há circunstâncias suficientemente nobres que signifiquem a vida para mim, ele tirou tudo, toda a ledice, toda a esperança; era mesmo demasiado raro eu ter um momento de prazer, agora é apenas impossível.
“Ordeno a vinda de Isabelle, a alma vagante que encontrei ao vagar minha própria alma jamais desvinculada do que foi, em vida, redigido por meio de Pherhesí. Denomino-a Isabelle para fazê-la real, nomear energias perdidas, eis um inquestionável fato, enleia-as àquele qual as nomearam. Portanto posso moldar, e moldo, a face de Isabelle no horror que me convém, seu corpo é também a minha criação desde que proferi: ‘sehsqor phrephahen’, e sua estrutura humana instituiu-se. Ela adentra para quebrantar a híbrida realidade que transmutei, para abrandar a paralisia sublime de sohmphorhen e trazer meu ilusório líquido. Ordeno que se achegue disposta, sempre apaixonada, e assim apreendo as nuances do encanto de Íris por mim. Íris está no êxtase da melancolia, o apagar da chama frágil de sua alacridade demonstra o efeito esperado, além disso, está estarrecida e confusa com a ausência de todos os elementos sanguinolentos que ludibriei para terrificá-la, é assim que deve ser; digo-lhe sobre nosso diálogo jamais existido, pois não é preciso haver, de fato, já que sei tudo sobre Íris e a manipulo devagar, conforme sua abertura natural chama por mim; sinto-a mais intricada, tanto que suas dores floreiam tal como previ ― suas dores indicam o efeito de estar, pois, em elo com o que está do outro lado, isto é, comigo. Ah, o outro lado, a morada de todos no pós-vida, somente eu, contudo, sou capaz de fazer o que almejo neste lugar-nenhum, só eu possuo Pherhesí. Íris guardará um abismo, assim a preparo, este abismo a deixará no futuro para o vir a ser do primogênito, no entanto, ela jamais se esquecerá deste abismo, pois ele sou eu; hoje ouve minha voz e vê minha face e se deleita e se terrifica, amanhã há de odiar e amar a lembrança.”
Mas há muito, há muito o que vos segredar ― que naquela noite eu desvaneci na agonia mais pútrida, sim, dentro do silêncio mais violento e sem saber como respirar, ó sim, decerto pela alma de Edgard em meu âmago eu fui afetada; ele sabia tudo o que fiz e deve saber o que faço, ele escreve-me desde então, e talvez guie assim minhas próprias ações. Não sei quantas noites passei imersa naquela atrocidade inenarrável, e a escuridão sombria aos olhos vinha como lapsos de imobilidade e tempo, semelhantes ao que acontecera no trem, cenas de indescritível aflição de minhas próprias mãos contra meu próprio corpo, tudo tão frequente e febril, como se eu tentasse destruir tudo o que Edgard penetrara em meu espírito; assim não vi brilhar dia algum; todo o tempo estive com cada uma de suas frases que li se repetindo como um sempiterno sino de mortuário, em especial aquelas que estruturavam a última estrofe que fui capaz de ler; aquela hediondez que no mais inconsciente de mim, eu sei, compreendi, pois foram elas que me levaram à fúria.
“Há de beber sempre este meu dissabor ― eu digo ao vê-la de joelhos com suas escleras fulgurantes enquanto me ilustra com seu grafite a cena que há de se repetir para sempre em seus pesadelos ― abri-lhe os lábios trêmulos e dei-lhe o licor do infortúnio, da blasfêmia, do mais horrífico vazio perturbador que eu sou; e ela bebeu, sua ébria mente tornou-se ainda mais sã sobre sua absurda desolação; agora cada noite mais escura ser-lhe-á e sendo mais escura, há de verter-lhe a solidão e o desconsolo, prostrada ao soturno que eu sou, e ela assina seu eviterno elo comigo, porque toma agora minha essência desta fonte primeva, e ergue-nos ao novo gênesis de um nascimento. Toco-lhe o rosto frígido ― Você pertence ao meu aflito pranto agora, às minhas trevas e à minha atra luz, e chamarás, pela eternidade, o nome de meu fundamento, para que eu lhe afogue no mais côncavo de meu oceano elegíaco e guie todos os seus rumos. O primogênito há de tomar o meu reino e abrir as portas dos últimos abismos ― sussurro-lhe e preceituo, ela obedece e diz, para manar-lhe, por fim, toda a nequícia cruciante: Srhyos ― ela diz por que há de sempre dizer ― Srhyos.”
Não sei bem quando fui encontrada, mas eu estava franzina, violácea e sem forças, em meio à branquidão, e só sei disso porque os médicos me revelaram. Fui levada às pressas para o hospital por um lenhador e permaneci desde então entre o horror da lembrança e a vida que perdi, e como perdi, mais inacreditável do que vocês possam devanear, eu fiquei um ano desaparecida. Do dia que narrei em perfeição de detalhes, vinte e três de dezembro de dois mil e setenta e três, ao dia vinte três de dezembro de dois mil e setenta e quatro. Um ano de fragmentos. A maldição e meu martírio são infinitos; desnutrida, fantasmagórica e sozinha, após ondas bárbaras de demência ― só podia ser loucura, não é?
A perturbação do mais hediondo, a tortura da não-morte e do não-morrer, tudo era minha insânia, eis a resposta do mundo, insânia, nada além dela, alienação e desatino, mesmo que as cenas ditem o contrário e revelam minha luta para sobreviver naquele lugar. Pouco depois de me ver no hospital, consciente, um escândalo floresceu no meu imo, o caos por uma busca: o bebê. Sim, eu só conseguia vociferar sobre o bebê, eu o resgatei na lembrança das cenas vividas naquele ano extraviado e que me vinham em clarões, como reminiscências de um sonho. Doutora Paole contara-me com uma delicadeza indizível: “Os exames revelam uma gravidez, mas, infelizmente, você estava sozinha quando foi encontrada”. Foi entre os pinheiros densos das cordilheiras de Ahvalanch que sangrei, mas não morri, por uma fuga em busca de salvação e, sim, a morte daquele ser vindo de uma imunda concepção de almas, apenas almas, quão horrífico! Não sei como, dei-lhe à luz na neve esquálida e o perdi para a escuridão.
Fui encaminhada para o hospício porque as paralisias traziam sempre alucinações e eu, como um explosivo, buscava a morte súbita ― não queiram conceber a ideia de um eterno nascimento maldito em seu útero, dia após dia. Permaneço aqui porque é preciso... eu sei, eu sei que deveria lutar para defender minha sanidade e talvez retornar àquela mansão tétrica e encontrar aquela criança... eu sei. Mas a confusão que me toma é o maior obstáculo e as crises são nefandas, eu não compreendo o porquê de tudo isso e sei que não hei de compreender, talvez se eu tivesse lido o livro até o fim, para saber meu exício e o começo da vida da criança, talvez. Eu nunca fui uma heroína, eu sinto muito, sou o soturno medo, dominada pelas lembranças, refém de palavras impronunciáveis; eu sou o fundo de um abismo sem fim. Quando miro esta minha face apavorada e aponto a mim mesma a possibilidade de eu ser só mais uma pobre sujeita acometida de patologias mentais, logo me lembro, as cenas, os clarões, as sensações, as emoções, a luta, o bebê, os olhos de Edgard, o licor, o sangue. Não é, não, não é uma desordem da minha psique, eu estava lá e eu sei o que eu vivi.
Eu também sei que sou menos desgraçada por não ter total consciência de cada vivência naquele lugar que não era o chalé, ó não, pois ainda no dia de minha chegada, após a leitura daquele livro ominoso, eu saí transtornada em meu delírio para o meio da nevasca e andei longas horas até encontrar aquele castelo. O Castelo de Venesthron. Seria impossível se o impossível não caísse por terra desde o dia nefando, o dia vinte e três. Ainda tenho minha razão questionada, em qualquer instância, por todos ao redor mesmo depois de tantos anos, eu menti minha identidade para preservar cada pessoa que um dia conheci, pois decerto morreriam de desgosto se soubessem, pois que ouviriam as más línguas que acreditam que eu fui para as cordilheiras para matar aquele pobre recém-nascido e o abandonei no manto do arvoredo; isto não é verdade, não era um pobre ser, era o ser concebido pelo diabo, pelo horrífico, o ser que decerto está por detrás do caos dos nossos dias, da névoa que esparge sempre às dezoito horas e do sol que já não brilha como antes, a ele pertence toda a culpa, que estejam cientes e em alerta, pois se aquela coisa veio a ser de dentro de mim e sumiu naquela escuridão gélida, decerto está viva e abre, desde então, os portais do inferno.
A Face Encarnada do Medo
Olhos de pútrida esperança; entre o frígido derredor, onde as mãos do insondável inverno conduzem a pequenez de seres irrisórios..
Olhos de pútrida esperança; entre o frígido derredor, onde as mãos do insondável inverno conduzem a pequenez de seres irrisórios. Ela se aproxima, mãos trêmulas; um corvo-albino a rodeia, parece segui-la por vínculo — o que me impressiona, é certo, pois são criaturas ríspidas. Carregando o peso de um grande casaco de pelame de ursos negros, ela caminha devagar; o vento impiedoso ainda arrefece sua lívida tez. Ela busca por humanidade em recônditos aquecidos por uma chama à lareira, mas, não há mais lume; as ruínas que deixei são álgidas e traiçoeiras.
Medo... é isso que atravessa sua carne no instante em que toca os primeiros escombros mastodônticos. Eu sinto o medo que a penetra violento. Que saudade sinto d’este lôbrego arrepio subindo pela espinha dorsal de meu próximo mártir; ó... sim... fascinante! O corvo-albino pousa no ombro dela, ele sabe do perigo, porém, jamais poderá alertá-la. Este era um reino próspero, cara visitante; sorvi da vida fértil e tive o mórbido prazer de assimilar seu idioma. Tão bela a minha obra de arte... de morte... tão bela que não pude deixá-la e, por isso, aqui estou, há mil e um milhões de anos; observando. Agora, vens tu; doce humana frágil; exígua criatura...
A densa atmosfera é a cinesia que a cinge; ainda assim, em assombro, ela adentra os escombros do que outrora fora um lar abastado — O que houve aqui? — ela sussurra e, tão logo, um lume é aceso por ela com um tipo raro de artefato. Sou atraído a apagá-lo com um sopro de horror, contudo, por hora, agrada-me ver a vida sob seu brilho, a vida que hei de sorver, gota a gota. Aquecida, serena-se, porém, não o suficiente; a escuridão é o meu domínio, isso a terrifica. Para o meu abíssico gáudio, seu nome se desvela à minha consciência: Anissa... De tudo sei, Anissa; do teu coração em mágoa, do pranto, da dor e, principalmente, do medo. Dá-me o teu pavor, criatura feminil, dá-me o teu olhar de tormento!
“Algo terrível aconteceu n’este lugar... eu sinto uma inominável aura dos cantos onde o lume não alcança, o breu parece possuir corpos e olhos que perseguem meus movimentos.” — ela escreve. “Ttir acompanha-me e está agitado como outrora não esteve, mesmo quando, ao meu lado, viu-me ser violentada pelo oceano cujo atroz poder revelara ao meu herodes que há forças bem maiores do que a sua crueldade desoladora. Estas mesmas profundas águas, condenaram-me aos escombros gélidos em que me encontro. Que perversa ventura... que hediondo fado! Tenho medo... um temor que toca minha tez, que olha para os meus olhos... nessa imensidão sombria...” — Sou eu, ela não sabe. Eu te vejo, Anissa... Eu sou a raiz do teu temor... sinta-me em teu corpo... nos poros da tez que pertence a ti... nem teu algoz ou o ancestral oceano são capazes de conceber tão genuíno terror. Venha para o abismo da loucura, ouça o murmúrio da tua agonia advir, ressoando em teus ouvidos...
Escurece. Ela aguarda pelo alvor, escondida em minha destruição. Mal sabe que se amanhecer para seu deleite, é porque permiti. Adormecida, sei que sonhará com a meu rastro: a insânia. Um rosto rígido e feliz, de soslaio, fitando seu tormento. Mas, desta vez, não quero este jogo cruel. O corvo-albino crocita, Anissa acorda de súbito e suas pupilas se contraem. Este sou eu. E agora tu me vês. Teu pavor nasce lento, teu susto te afasta, teu grito me enleva. Queres ouvir a minha voz? Sou capaz de falar como os que eram símeis a ti, humanas criaturas ínferas...
— Anissa... — Profiro. Caída no canto, ela mal consegue respirar. — Que sublime é o aroma negrume do teu instável temor... Não aprecias o que vês? — Indago, densificando as trevas; tornando seu lume em um risível vagalume. Lacrimeje, menina. Como é frágil... Desapareço para brincar com sua mente, ela grita e fecha seus olhos lacrimosos. Trarei o amanhecer, pequena criança, para que outra noite traga a face rígida à tua espreita, com o riso mórbido e a minha visita. Estou sempre olhando para ti, admirando o medo que escorre em tuas têmporas e guiando as imagens infernais do teu onírico. Ela caminha mais à fundo na vila do sibilo da morte e da loucura. Está exausta, em tormento e dor.
“Ele tinha uma feição humana...” ela escreve quando encontra uma antiga catedral em ruínas e adentra seu esplendoroso interior; notando se tratar do que fora uma alcova de fé há éons, esgueira-se entre ervas daninhas do ártico. “Entretanto, seus olhos eram umbrosos, com as cavidades expandidas e fundas, tal como a área menos óssea de seu rosto, marcada por uma fundura que lhe dava um aspecto cadavérico e... sua pele era carne pútrida... Nunca senti tamanho medo...” — E nunca alguém fora assim, suficientemente intrépido, para redigir minha aparência, Anissa. “Sinto falta de Sihren... sei que morrerei n’este insosso lugar... consumida por uma diabólica criatura, porventura advinda das agruras pertencentes a mim...” — Sim; sou eu, criado por tua tolice. “Estarei sempre fadada ao horror? In perpehctua?”.
O corvo-albino voa pelos vitrais estilhaçados; Anissa o observa. Ele deve morrer; sua presença é desgraçada e impede que o meu tétrico expandir alcance o mártir. Então, o avisto; na brancura da densa neve; tu vês, mediano animal, esta turvação? A atmosfera a renegar o teu voo? Não posso controlar o tempo, de fato, mas sinto o medo de tudo o que respira e o medo sempre há de se ampliar sob meu fitar. Por infortúnio, perco-o na imensidão cândida. Um assovio quebranta o horizonte, o corvo retorna à Anissa; ao redor da flama áurea, eles se deliciam com frutas secas. — Resta-nos pouco alimento, Ttir... por favor, voe para Sihren e sobreviva! Não sabes o quanto destruirás meu coração, impedindo minha alma da paz eterna, sob a circunstância de ter sido razão da morte tua, de meu único amigo... — ela diz, o corvo a compreende.
Contudo, ergue-se a segunda noite lôbrega e, com ela, o meu poder. A face rígida em sorriso diabólico emerge das trevas, Anissa sabe e evita que seus olhos mirem a aparição. É em vão. Seu suor escorre, sua tensão exala. O corvo crocita. “O que é isso...? Eu estou delirando...?” — Sim, está, pequena infeliz. Um sussurro em eco pela catedral, um murmúrio nos tímpanos de Anissa. Chama pelo nome dela. De repente, ela se levanta apontando, ao derredor, o seu lume pulcro. “Quem está aí!?” — Vocifera oscilante. Gosto da tua solidão, criatura humana; enquanto estiveres só, na amargura pertencente às tuas mazelas, eu estarei à espreita — sussurrarei teu nome nas noites mais fúnebres; farei visível o rosto rígido que ri, na tua visão paralela, uma presença pecaminosa; consegues sentir, não é? Bem atrás de ti... enquanto me lês.
“Isso não é real...” — Lamúrias de insignificância. Anissa se encolhe como um feto exaurido. Seu coração é o púlpito do meu esconjuro. Estou no silêncio, entidade notívaga, apague a luz para me ver. “Está... dentro de mim?” — Ela segreda a si mesma. Sim, estou dentro de ti; arranque-me por sua tez; corte sua carne para me encontrar. Eu sou o teu medo. Ela leva suas mãos ao seu crânio dorido, as têmporas estalam em algia; o corvo que voava em ansiedade mórbida, de súbito, cai; morto; morto de temor. Anissa o acaricia, em lágrimas. “Ttir... não... por favor Ttir!” — agoniza junto ao pássaro cuja expressão é de um pânico hediondo. Acolhe-o em seu casaco. Mas eu quero mais. Tu vês? Tua chama enfraquecendo...? A escuridão ascende... ela pesa... é densa... ramosa... sólida... capaz de sufocar... lentamente...
Anissa busca pelo sopro hialino da vida; ares de alívio. É em vão. Ela está submergindo. Aflita, rasga a pele de seu pescoço, seus olhos arregalados, semblante pávido. Quem ousou dizer-te que o horror é frígido? Anissa tira seu casaco, pois, está quente; o inferno em suas pernas e braços... “So...corro...” — murmureja. Agora é a minha hora, em minha mais bela e vil aparição. Uma besta horrenda e deformada, humanoide esguia, sempre sorrindo; decomposta, exposta em carne escarlate. Ela não consegue tirar seus olhos dilatados de mim. A escuridão atrai o mártir ao seu horror. Trêmula e sem oxigênio. Agônico pavor. Uma excelsa sínfora para mim que, por infortúnio, se esgota quando ela, a vulnerável, desmaia; púrpura de tanta adrenalina; hirta como uma estátua de mármore. Ela não está morta; há de retomar a consciência e chorar de horror. Tão frágil... Tu és tão frágil...
E esta é apenas a segunda noite, quantas outras virão? Quantas suportarás sob meu macabro domínio? Desejo que muitas... para o meu vil prazer.
Agoníria
N'alcova em solinura eu m'afligia, | Terror de pesadelos: abundante! | Nesta umbra-consciência algo plangia | Em mórbido sonar arrepiante...
N'alcova em solinura eu m'afligia,
Terror de pesadelos: abundante!
Nesta umbra-consciência algo plangia
Em mórbido sonar arrepiante.
O choro era vazio e aterrador
Mas nunca o despertar me bem-dizia;
Cruel me simulava — Ó vil horror! —
No cômodo em bizarra noite fria;
Eterno retornar do lacrimar
A cada um só segundo mais agudo
Refém d'um hediondo ilusionar
N'alcova, condenada sobretudo,
E quando finalmente a me surgir
O sol duma manhã, meu grão-vizir,
Um logro — qu'inda durmo em meu veludo.
Escrito em 20 de agosto de 2024
Agoníria (substantivo poético feminino): Pesadelo sufocante que ilusionar o despertar para enganar a mente e mantê-la aprisionada no plano onírico.
A Insondável Redenção
Ouvia o sussurrante estridor do rígido inverno e o pálido horizonte nevoado assustava-me em sua imensidão anilada…
Ouvia o sussurrante estridor do rígido inverno e o pálido horizonte nevoado assustava-me em sua imensidão anilada. Estes meus incrédulos olhos nunca estiveram de frente a tal terrífica paisagem; tampouco o fremir das ondas sonoras deste estranho sibilar penetrara meus tímpanos alguma vez. No mais longínquo do que eu podia observar, as cordilheiras negras preenchiam uma infinitude sombria e, detrás das nuvens glaciais, havia o sol remoto— eu sei, pois seu reluzir fantasmagórico manifestava-se pelas céleres clareiras repentinas, como rachaduras no céu, eram raras frestas de lume solar, cada vez mais infinitesimais. Facilmente, debaixo daquela intensa nevasca, nada sobreviveria.
A flama que crepitava na lareira era um vagalume na vastidão azul-grisácea, tomada pelo seu imanente índigo. A madeira da cabana ilusionava-se mais escurecida e úmida, algo deveras insólito; em certo aspecto, parecia envelhecida. Minha percepção era de que a morte, em sua mais bruta manifestação, fomentaria um pavor verossímil à vívida crueldade da natureza climática. Apesar dessa mórbida verdade, a morte era a entidade que espreitava, na sua escuridão, as minhas visões paralelas; como três olhos fundos pelos cantos imersos em um estranho breu, onde a brasa, lânguida, não tateava. Antes do enregelar fúnebre, almejado pelo espectro de Exício que circundava, eu sentia que quando o sopro tétrico do exterior extraísse minha única fonte de aquecimento, o sibilo da insanidade causaria o efeito que narrava em seus decibéis e, então, eu cortaria meu pescoço com a lâmina de tungstênio da minha faca de caça.
No antro de minha existência, jamais cogitei tal medonha blasfêmia. O sibilo do vento antártico insinuava uma influência perversa, tanto quanto o espreitar da escuridão. A vida, em suas quedas mais abismais, tecera cenários terríficos que assombraram meu âmago, sob angústia e medo, no entanto, jamais ao nível daquilo — e não me refiro ao sopro diabólico da nevasca, tampouco às intimidantes trevas da cabana. Quando já não me era possível permanecer sob a frágil luz da última lenha queimada, protegi-me com o traje adequado, reforçado em razão do nível de horror branco no lado de fora; por instinto peguei alguns itens, como a faca de caça, uma corda, um candeeiro e suprimentos. Meu destino era o casebre da lenha, lar de Gahsper, meu irmão. Não ficava muito longe dali, aliás, deveria ser visível da fenestra do meu quarto, se não fosse o mal tempo.
Andejar na árdua neve acumulada, com a frígida e impetuosa aragem, assemelhava-se às veredas dos vales das montanhas mais afastadas, as que se enegreciam no horizonte. Tive de armar os báculos para me locomover com mais segurança, no entanto, o casebre de lenha não se desvelava à frente e, em minha análise, nele eu já deveria ter chegado. Quando fitei a bússola estagnada, completamente inerte, entendi que o pressentimento amargo não advinha de uma fraqueza mental, pois algo estava, sem dúvidas, errado; uma aura perigosa cingia-me de modo que, impossível de voltar à cabana para morrer de frio, segui com rapidez arriscada, à frente. Quando encontrei uma poça de líquido vermelho espargido na pálida neve cerúlea, n’uma cor vívida, como se tivesse sido vertido há segundos, empunhei a faca de caça e segui na direção da poça que permeava um corpo indistinguível. Como previ, sangue. O que... aconteceu aqui? E a pobre criatura estraçalhada, decapitada e devorada, era humana. Era Gahsper. Gahsper...
Nunca senti o tétrico gelar da minha alma, mesmo vivendo há tantos anos em Nehen. Ainda, pelo rosto de meu irmão, assombrado em um pânico indizível, por certo, aquela morte não fora causada por um animal selvagem. Seus olhos estavam arregalados, as pupilas congelaram dilatadas. Nunca esquecerei o seu semblante dantesco, nem o seu sangue vertido — a única cor naquela brancura desoladora. Aquilo era tão obsceno e… pavoroso…que não pude chorar, pois, o temor impedia qualquer alarde emocional e, até hoje, inibe. É verdade que por esta razão, tudo o que escrevo é tão frígido quanto o fenômeno daquele dia; eu não sinto nada além do medo, visceral e íntegro, como uma chama no peito, acesa no perpétuo dos meus pesadelos, incitando-me à lembrança hedionda. A opressão deste pânico silencioso arruinou muito do que havia de contentamento em minha vida, pois me ronda, desde então, aviventando o pavor e a solidão que me residem.
Retirei a corrente de Gahsper, ela repousava no sangue; observei os arredores e guardei o objeto no bolso. Ainda cogitando voltar para a cabana, olhei na direção do meu rastro na neve, prestes a se perder no nevoeiro de gelo. Então, meus olhos viram o que fez meu coração disparar frenético em um macabro assombro. O sussurrante estridor do rígido inverno expandiu-se agônico de modo que meu crânio padeceu, no imediato instante, de uma dor aguda em cada têmpora. Um homem, é o que ele parecia, em uma nudez dismórfica, estava há poucos metros de distância de mim. Sua pele descamava e uma carne enegrecida e pútrida, mesmo longe, podia ser vista por detrás da cútis. Seus braços eram finos, seus olhos enegrecidos eram como dois poços profundos; havia sangue em seu rosto, mãos e torso. Ele fitava meu espírito como somente uma criatura do inferno poderia fazer. Seus dentes eram afiados, ele possuía vários em sua boca oval, e ao contorno da sua silhueta deformada, uma aura de breu, a mesma da cabana, o cingia. No centro de sua face medonha, havia um terceiro olho n’uma metamorfose bizarra na cavidade encarnada de seu nariz. De todos os orifícios de seu corpo absurdo em bestialidade, um escuro líquido espesso gotejava.
Eu desviei meus olhos da morbífica criatura humanoide e me apressei, ofegante, entre o sopro terrífico que se difundia cada vez mais violento e a paisagem que se tornava, em segundos, mais pálida. A caudalosa invernia, pela nevasca mais perturbadora que já vi, não cessaria; se aquela coisa sinistra me seguiria, eu não deduzi; ao guia de meu mais abismal pavor, apenas corri como me era possível, afundando na neve já embriagada de seu próprio poder destrutivo. Mas, reconhecia meus limites; do meu corpo a fremer de frio e horror, enquanto a imagem das vísceras de Gahsper vinham à minha mente ao lado dos dentes afiados e dos três olhos repulsivos e lôbregos; lampejos de um pesadelo no qual não se pode despertar. Assim fui consumida por uma ansiedade, talvez pela certeza de encontrar a morte de fato, da pior maneira; talvez porque eu não desejasse morrer, pois que eu amava, no mais fidedigno da minha essência, o poético viver naquela cidade perdida e consumida pela noite. Amava, também, todo aquele continente, pelos trens aquecidos, os quais eu viajava por longas horas e até mesmo por dias; pelos mistérios de seus habitantes que me ascendiam a um sentimento de vínculo profundo que galgava os entraves climáticos. Talvez porque eu ainda não tinha sido amada, tal como fora a minha mãe, pelo meu pai, por mais de cinquenta anos.
Afundei na neve nívea quando vi no céu as sombras fúnebres perpassarem com a chegada da noite. Ofegante cada vez mais. A escuridão era quase tangível, achegava-se como o vento pujante e se não mente a minha lembrança, a vi distorcer-se em determinados momentos, como se dançasse junto à nevasca, como se fosse sobrenatural. E eu, eu não conseguia correr nem mesmo um metro à frente. Avistei partes de uma torre ao longe, eu decerto estava próxima de um possível abrigo. Era tarde demais, como geralmente é quando encaramos demais o semblante da morte. A visão que antecedera o meu desmaio, fora da plenitude noturna e daquela mesma sensação que tive na cabana… o estranho breu que parecia me encarar com três olhos… ali, no entanto, diferente de antes, eu sabia muito bem que tipo de coisa me encarava daquela forma na escuridão.
O sopro da morte álgida, em frações de tempo, dissipou-se. O silvo se fez rarefeito, um símbolo à lembrança perturbadora. Meus olhos se abriram com uma lentidão difusa e queria eu ter visto a madeira da cabana e ouvido o crepitar na lareira, estalando a lenha; seria, inclusive, aceitável estar debaixo de um monte nevado, sentindo meus membros necrosarem. No entanto, nada disso era factual. Quando fui capaz de distinguir as sombras no verter do fluído de minhas retinas — as quais, cobertas pelas pálpebras, descansaram sabe-se lá por quantas horas — então, avistei paredes de pedra úmida e ouvi sons de correntes coincidentes aos meus movimentos. O que... o que é isso...? Meu corpo frágil desidratava, olhei em direção ao som ferroso e vi uma grossa argola enferrujada a prender meu tornozelo a uma corrente fundida na parede rochosa. Arfei trêmula, puxando a corrente diversas vezes. Foi em vão. E pairava um contínuo ruído por aquele ambiente sanguinolento, eu ouvia minha respiração cada vez mais acelerada, destacando-se no ruído. Esperei a morte, com duas faces: meu corpo decepado sobre a poça vermelha, como Gahsper, e ser necrosada até a morte pelo frio cruel. Todavia, estava encarcerada; nada do que eu poderia prever.
Fica... calma... Um enjoo germinou pútrido no meu estômago, decerto ocasionado pelo odor de plasma, de morte, de umidade. Turva, levei minhas mãos ao rosto, qualquer alívio seria suficiente. Então vislumbrei minha possível e única saída, advinha dela uma luz trêmula e fraca de pontos longínquos de luz por um corredor estreito; um lume que permitia as sombras do gradil se propalarem pela minha cela. Nestas grades arqueadas, contudo, um corpo jazia... contorcido. Discerni algumas coisas ao seu respeito, pois, a visão era limitada. Primeiro, o que me era mais inestimável, um molho de chaves esplendia em sutileza, resvalando do bolso do indivíduo; e seu cadáver vestia um tipo de traje específico, símil a uniformes usados pelos Humanos da Ordem, quando se erguia o inverno no continente acima. Era mais que fundamental alcançar o falecido, mesmo que para isso fosse inevitável uma irreparável perda. Não tenho escolha... Então comecei a esticar meu corpo, apoiando-me no chão enegrecido e sujo. Eu sentia a argola enferrujada rasgar a pele de meu tornozelo, um suor intenso escorria de minha testa e o enjoo se intensificava. Eu... me lembro... me lembro do quanto as emoções foram suprimidas e, meu corpo, distendido; lembro da minha carne sendo penetrada por aquele grilhão oxidado, a dor... a dor inominável... e o grito escravizado pelo medo sob as asas da mais verossímil aflição.
Alcancei as chaves e me libertei das correntes. Mas vi os ossos e tendões de meu calcanhar, tudo esfolado em uma ardência que parecia subir aos nervos de toda a perna esquerda. Aquela cena foi o meu estopim. Regurgitei tudo o que me era possível, à espera de expelir, talvez, minha própria alma. E quando fui capaz de cessar o vômito, percebi o perigo daquela perda excessiva de sangue. Rasguei a roupa do cadáver para envolvê-lo em mim, para extinguir o que vertia contínuo. Retirei do sujeito uma adaga, fincada em seu tórax — algo que vi ao abrir as grades do cárcere. Sim, eu caminhava, lenta e com vívida dor, mancando, decerto e apenas, por causa da adrenalina. O defunto nas grades, usava em sua face uma estranha máscara negra que escondia sua feição, ilusionava estar unificada à pele de seu rosto; de uma estranheza terrífica. Já o corredor, segui cambaleante por sua amplitude, no lado direito cuja luz espargia fraca. Fui buscando uma saída do pesadelo mórbido que preenchia todos os meus debilitados sentidos.
Subi por escadas longas e vi mais celas e corpos mutilados pelo caminho e era... tenebroso... ainda mais pelo contínuo ruído baixo... como se aquele lugar fosse vivo.... cada parede de pedra... cada sangue jorrado... algum tipo de energia. Dentro da última sala, após me esgueirar por escombros, encontrei um candeeiro e mais uma adaga, a qual, todavia, diferente da anterior retirada do torso do homem no gradil, esta era feita de algum tipo de material peculiar, como um quartzo bem rígido. Subi, portanto, mais uma quantia de degraus e entre o ruído aterrorizante, vozes longínquas passei a ouvir enquanto um cômodo se revelava à minha frente; sua amplitude era considerável e tinha um formato encíclico, nele difundia-se uma luz avermelhada que evidenciava altas estantes cheias de livros e mais dezenas de símbolos estranhos pelo chão e paredes, organizados criteriosamente. Pensei que encontraria a origem das vozes, cada vez mais altas em meus ouvidos como sussurros de morte, socorro e gritos abafados entre palavras indescritíveis. Contudo, ao adentrar de vez pela porta semiaberta e fitar cada detalhe daquela ritualística câmara, nada havia lá dentro... ninguém além de mim... enquanto as vozes tornavam-se verdadeiros bramidos.... Alessia... Alessia... aos meus tímpanos... Socorro... Ajuda-nos... Alessia... Socorro... Ajuda-nos... como se dezenas de pessoas estivessem ao meu redor.
Choro morbígero, urros bestiais... as vozes cada vez mais altas entre risos distorcidos... Alessia... Salve nossa alma... Socorro.... Enlouquecida, ajoelhei-me no chão, tapei meus ouvidos em busca de alívio, mas... aquilo estava dentro de minha mente... Alessia... inclusive a voz de Gahsper. Entre tantos clamores bizarros, eu o ouvia... Irmã.... fuja... fuja agora... minha... Alessia... Fechei meus olhos, cerrando minhas pálpebras em busca de um despertar. As lágrimas caíam de meus olhos vedados à força, verdadeiras como na infância, quando não se sabe de onde vem a primeira dor sentida... De súbito, porém, entre as frases e gritos desconexos, logo fitei a sala pelo pavor de sentir a presença de outro ser no ambiente... Ninguém... ninguém que podia ser reconhecido pelos meus olhos amedrontados. Comecei a retroceder, tendo aquela presença invisível cada vez mais próxima... arrastando-se contra mim, fazendo-me de imã à sua atroz consciência inominável. Socorro... Cuidado... Morra! Morra! Ajude-nos! Foi... extremamente difícil sair daquele lugar... o fiz com extensa agrura, fechei a porta da sala carmesim e empunhei a primeira adaga de ferro entre a porta e a parede, impedindo-a de ser aberta por dentro. Não importava saber o que havia naquele lugar, mas, decerto, importava-me trancar, o que quer que fosse, lá dentro.
A insanidade prospera quando o horror irriga o espírito... e nunca sabemos como lidar com tamanho abismo, por isso, somos sorvidos pelo estado catatônico de nosso semblante e pelo instinto à sobrevivência... a qualquer custo... a qualquer preço. Mesmo à parte daquele salão de espectro aterrador, em estado de perturbação, com as vozes já dilatadas, eu corri numa pressa sobre-humana, abrindo todas as portas que via e entrando em todas as salas que eu podia em busca da saída. Corri... sem questionar como... sem sentir nenhuma dor no tornozelo... e encontrei a primeira luz pálida vinda de uma imensa porta meio vertical, em uma cor prata, lisa, com um único símbolo estranho, entalhado no material, algo jamais imaginado por mim ou por qualquer outro ser humano, tenho certeza. Ela estava entreaberta, a fresta de luz também carregava o frio e a nevasca hedionda, a esperança de sair outra vez na densa neve nunca me soou como tamanho alívio e proteção, mas ali me soava.
Uma sombra, entretanto, parou frente à fissura e ouvi uma voz humana masculina, grave e avultada, proferindo a seguinte palavra: “Ttyrttyuor” — deduzo sua grafia. Sob seu som, a porta cujo lume de seu exterior era minha única esperança, abriu-se em completude de modo a exasperar meus olhos. A palavra era a sua chave. Esgueirei-me em escombros próximos e notei serem duas pessoas, uma delas vestia-se como o guarda da minha cela. O outro sujeito, porém... era uma opaca sombra indistinguível na escuridão, uma silhueta de um homem alto com uma face oculta — não busquei olhar sua face vazia, nem mesmo compreender a sua existência... ele era como a energia pesada daquela sala... sua presença assemelhava-se àquela do cômodo escarlate como se fosse, ele próprio, o cômodo em si. Escondi-me como pude, prendi minha respiração.
— Certifique-se de que todos estão mortos, prenda-os se não estiverem. Estarei no anfiteatro sangrento. — Arrepiava-me ouvi-lo, era temível estar em sua presença abissal. Ainda assim, dediquei-me ao silêncio e respirei apenas quando estava prestes a esmaecer mesmo depois de não sentir mais a proximidade deles, no dissipar daquela energia diabólica. Retornei, portanto, à porta fechada, sem nenhuma fissura de luz; e restou-me pronunciar o que ouvi... e o fiz, em sussurro, com os lábios bem rentes ao símbolo esculpido.
— Ttyrttyuor... — Uma intolerável dor cingira-me repentina, pulsando meu organismo como um pêndulo que se abala, dramático e solene, no antro de uma catedral; e vi minha pele rasgar em inúmeros cortes onde o sangue verteu célere e vigoroso e tomou a forma do símbolo entalhado. A porta se abriu em um segundo posterior e, imersa em pungente algia agônica, corri pela neve... desesperada... sem olhar para trás, com o rastro do meu sangue na palidez e o cruel sopro gelado coagulando, aos poucos, as cissuras da pele. Eu jamais pronunciarei aquilo outra vez... muitos daqueles cortes permaneceram em minha pele... mesmo após tantos anos. E, como se ainda fosse vivido, a energia hedionda daquele homem... daquela sala... afluiu-se pelos poros de minha pele, à minha carne, ossos e sangue vertido... senti perder o controle de minha alma, por átimos de um tempo além do tempo... e quando vi a neve, quando corri para minha liberdade, eu estava... instável... desnorteada e... oca...
À beira da morte pelo frio, correndo sem cessar debaixo da eterna nevasca, tive a impressão de ser cercada por escuridão, outra vez, a energia... deduzi que era a morte ou a proximidade dela, todavia, a luz retornou às minhas retinas como se cobertas, tão somente, por uma espessa nuvem passageira, então, quando tive de volta a minha visão, percebi haver casas à frente, era uma vila desconhecida; luzes tremeluziam nas janelas de algumas delas, pinheiros indicavam vida aos arredores e, se posso dizer que sorri, naquela condição desgraçada, não estaria mentindo, pois algum tipo de sorriso construiu-se em meu semblante traumatizado quando observei um homem na janela de uma das primeiras casas avistadas e, com minhas últimas forças, levantei meus braços para sinalizar minha decadência, meu pedido de socorro.
— Como está o chá? — A voz de Samael era suave, embora viril como seu rosto. Abriu a porta de seu lar para mim, sem saber quem eu era. Ao ser acudida por ele, tive os cuidados mais inestimáveis; e deitada entre as cobertas tórridas, frente à lareira mais serena, tomei de seu chá de especiarias. Conversamos um pouco, não o revelei minha terrífica história.
— Perfeito... — murmurei, ainda exausta.
— É impossível sobreviver a tal nevasca... o Criador tem planos para a tua vida... tenho certeza...
— Criador? — Eu não entendia, genuinamente. Samael olhou-me atento.
— Tu não és de Múrmura? — Demonstrei desconhecimento através de meu silêncio angustiado.
— Estranho... Tens a marca de nascença de todos os múrmuros... No seu tornozelo...
Então olhei, pela primeira vez desde a cela, quando me turvei pelo sangue, pelos ossos expostos, pela mórbida dor... eu olhei para meu tornozelo. Nele residia um imenso estigma, uma perfeita cicatriz contornando todo o espaço onde fora corroído pela argola enferrujada quando eu estava naquele inferno. Sobre parte desta cicatriz, um símbolo estranho estava marcado, como se feito à ferro quente em minha pele. Tudo, porém, curado. E jurei ter visto o mesmo emblema naquele quarto escarlate, quando caí no chão, perturbada pelas vozes. Samael mostrou-me o mesmo símbolo em seu braço direito e explicou-me que advinha do batismo sagrado realizado com os recém-nascidos por toda a província em que estávamos.
— Tu estás em Múrmura, estranha-me que sejas de Nehen, pois... não existe este lugar... quero dizer... é uma província denominada “fantasma”, lugar aonde não se chega, a menos que sejas guiado por Lúcifer.
— Lúcifer? — Minha cabeça doía, minhas mãos tremiam a cada fisgada em minhas têmporas.
— Acalma-te, Alessia... — Samael sentou-se ao meu lado, levando à minha fronte um cálido pano banhado outrora em águas fumegantes. — Não te entulharei com indagações ou explicações agora, perdoe-me. Descanse... os próximos dias serão melhores, eu prometo.
Os dias foram, de fato, melhores, no entanto, a lembrança perdurou a cada adormecer; não posso esquecê-la, mesmo sob a benção do Criador que, hoje sei, esteve comigo a todo o momento, embora eu não compreenda como poderia aquele antro horrífico carregar um símbolo sagrado, igualmente desconfio de como pude não ser assassinada enquanto fugia, visto que, não há como negar, aquele homem sombrio e sem face possuía um poder diabólico que, sob uma impiedosa habilidade, me desolaria em segundos. Ainda assim, eu fugi... e desde então, tudo se fez reminiscências de um pesadelo. Mantenho o colar de Gahsper dentro de minha Bíblia e, no baú, a adaga de quartzo negro. Não compreendo, não vejo lógica ou explicação que possa elucidar o horror que vivi, por mais que eu tente pensar — e aqui escrevi com esse intuito —, parece que quanto mais insisto, mais distante de uma resolução eu me encontro. Eu continuo sem compreender... talvez seja, realmente, melhor assim.
O Lago Sombrio
Nas minhas vis oníricas vivências, Estive em profundezas obscuras, Foi dentre o arvoredo de imanências, Que vi medrar assombros e loucuras, […]
Nas minhas vis oníricas vivências
Estive em profundezas obscuras,
Foi dentre o arvoredo de imanências
Que vi medrar assombros e loucuras
E lembro-me d'um sonho recorrente:
Um lago de nascente em uma gruta
Envolto um arvoredo contundente
Que canta e rega em morte quem escuta;
É nele que perdura algum jazigo
E deste seu negrume exala medo
De outroras, guarda horrores lá consigo…
N’um úmido silêncio, horror-enredo,
Escuro como o abismo, é tão medonho!
Receio, pois pressinto a cada sonho
Que logo externará o seu segredo.
Backrooms — espaços liminares
Eu estive em um labirinto liminar. Compreendo, por experiência própria, as suas obscuras entranhas…
Eu estive em um labirinto liminar. Compreendo, por experiência própria, as suas obscuras entranhas. Eu também conheci pessoas que conseguiram escapar, mas, infelizmente, estes indivíduos não estão lúcidos o suficiente para que eu possa considerar, em completude, as suas narrações. Encontrei-os por meio de um amigo Psiquiatra que comentara a respeito das constantes crises de seus internatos. Imediatamente reconheci do que se tratava, mas nada mencionei; insisti, com a desculpa de estar pensando em escrever um livro a respeito, para ouvir dos próprios sujeitos o que condenava suas almas e mentes. Consegui muito material com isso, mas em determinado ponto percebi que, talvez, todo o bruto relato dessas pessoas estivesse cheio de ilusões criadas pelo trauma e por seus mecanismos mentais de defesa — o que invalidava muitas “verdades” mencionadas.
Não é fácil escapar dos labirintos, não é possível viver com tranquilidade após encontrar uma saída, então eu os compreendo. Acredito que a razão pela qual consegui manter minha sanidade foi por acreditar profundamente que se tratava de um sonho e que, portanto, eu despertaria em breve. Eu compreendia a extensão daquela realidade, mas me recusava a levá-la em consideração. Você deve entender, o local era absurdamente desesperador, não é como se eu pudesse simplesmente lidar com o fato de que caí de súbito numa realidade paralela. Insisti até o fim, insisti mesmo quando eu sangrava, que aquilo tudo era um colapso onírico de um corpo talvez em coma ou em algum tipo de delírio mórbido do sono.
Cair nos labirintos é, literalmente, cair; os portais estão sempre na queda; subitamente você tropeça em alguma coisa ou pisa em falso e, então, a queda parece estranhamente maior do que deveria; na sua visão conturbada você não consegue entender e tampouco tem tempo para quaisquer conjecturas, um segundo é suficiente, você se percebe com o corpo todo dolorido, largado no meio de uma sala vazia com cheiro de carpete úmido. É assim que acontece. Depois de bastante análise entendi que encontramos os labirintos quando caímos porque eles são, essencialmente, um erro, ou melhor, um glitch. É mais do que óbvio que vivemos em um sistema, pode ser um sistema compreendido a partir de termos diferentes das tecnologias que criamos, mas, ainda assim, é um sistema. Coincidentemente o universo é feito de matéria escura, tal como a tela de programação de um computador, tal como o lugar em que estão os códigos por detrás da interface do usuário.
O glitch acontece, nós somos os afetados; a pergunta que fica é: por que alguém criaria um lugar como aquele? Alguém o criou? Qual é o intuito de uma realidade paralela tão similar às construções humanas, mas que aleatoriamente se faz por labirintos tão somente para perturbar as pessoas que, por uma falha no sistema, caem dentro do primeiro nível? Sim, o primeiro nível são os escritórios, infinitas salas de escritórios ligadas por dezenas de corredores e outras salas com a mesma monótona aparência, por isso são labirintos, você não consegue distinguir as salas, todas possuem o mesmo papel de parede amarelado e sujo, as mesmas luzes fluorescentes. Vez ou outra eu encontrava computadores antigos, desligados, escrivaninhas e cadeiras; armários e estantes símeis àqueles de almoxarifado de arquivos. Encontrei até mesmo um ventilador ligado – sim, funcionando – em uma tomada, simplesmente assim, como se alguém o tivesse deixado ali há pouco tempo.
Tento me concentrar neste relato, porém uma fraqueza emerge sempre, é como estar lá novamente, é como sentir aquele silêncio em meio ao zumbido das lâmpadas enquanto me sufoco na angústia de um talvez; ninguém estava lá, compreende? Ao mesmo tempo havia alguém, alguém que fugia, que buscava uma saída, mas não se tratava de mim. A sensação era essa, de estar perto, porque tudo o que estava ali parecia ter sido abandonado há segundos, um átimo de segundo antes de eu chegar. Por isso tamanha é minha dor quando me recordo, tão vívida memória maldita. Lembro-me de estar a cada segundo sob a perspectiva de que a saída se aproximava, eu andava por horas, se é que havia tempo naquele inferno, por isso a exasperação me consumia, era como ter um sapo na garganta, eu não respirava direito, uma aflição inominável escorria no meu corpo junto ao suor. Eu estava chegando perto da saída, mas ela nunca surgia aos meus olhos. Passos e mais passos. Um móvel à mais, um pilar em outra posição, cada detalhe diferente me dava a esperança necessária para continuar.
Estou descrevendo minhas conclusões aqui, estou dizendo que tudo acontece por causa do glitch e que os labirintos são um espelho aleatório da realidade, um espelho criado pelo sistema central que, ao que tudo indica, o fazia de backup da interface do usuário até o momento em que, por um erro grotesco no código, o backup se transformou em uma geração infinita e aleatória dos mesmos cenários da interface; e o erro está num código bem específico, está nas construções humanas e não na natureza; não há um labirinto de florestas ou jardins, são sempre espaços humanos, isto é, casas, shoppings, prédios, estacionamentos... eu sei... eu sei que estou sendo hermética... peço desculpas por usar termos tão técnicos, isso me distrai das sensações persecutórias e ambíguas que fazem minhas mãos tremerem e minha visão turvar... aquele lugar é meu pior pesadelo, talvez seja questão de tempo para que eu me torne louca o suficiente para ser internada no hospício junto com aqueles que considero insanos demais para levar em consideração.
A minha queda foi na escada; eu estava descendo pela saída de emergência de meu prédio quando me acidentei. O ambiente estava um pouco mais penumbral do que deveria, visto que aguava uma intensa tempestade lá fora, a mesma culpada pela queda de energia do prédio – uma sequência de infortúnios tornou inviável o uso dos elevadores, ninguém se arriscava quando o céu desabava daquela forma, mesmo sob a segurança dos geradores do edifício. Eu devia ter identificado que algo não me parecia certo naquela noite, isso porque pouco antes de vestir meus sapatos e aceitar que eu seria obrigada a sair naquele tempo insalubre, uma pequena faísca de intuição soprou um infinitesimal alerta. Isso me faz concluir que os glitches podem ser perceptíveis, porque mesmo que não dominemos o código do sistema da vida, estamos ligados a ele e, portanto, reconhecemos as suas oscilações. Além disso, apreendo que, não só a aleatoriedade dos níveis labirínticos, o lugar em que os glitches ocorrerão também é aleatório; no entanto, posso estar errada, afinal, houve uma intuição e eu não sei se ela sabia apenas da minha queda ou se sabia do glitch em si. Como previsto, não dei atenção aos questionamentos intrínsecos. Foi a terceira vez que eu caía no mesmo lugar, tudo por causa de uma maldita noção arquitetônica péssima que deixou alguns centímetros de diferença entre um degrau e outro.
Depois de cair pela segunda vez, eu prestava excessiva atenção ao usar as escadas de emergência, todavia, o ínfimo alerta da consciência me deixou tão perturbada e desnorteada que não pude me defender, sem contar a chuva que caía e alagava São Paulo inteira fazendo um alarde horroroso. Sinceramente, não tive culpa, aquele glitch ia me pegar de qualquer jeito. Eu tinha certeza, durante o acontecido, que não havia como evitar aquilo, as dúvidas acerca da aleatoriedade dos glitches não são em vão, como dá para notar. Desci as escadas com estranha pressa e tropecei do quinto degrau antes de chegar no térreo; no entanto um violento silêncio nasceu, não havia mais chuva por poucos segundos até o som de objetos caindo em um lugar com eco se disseminar aos meus sentidos. Caí de costas, a primeira coisa que notei foi a lâmpada fluorescente no teto; minha visão estava embaçada e meu corpo doía, mas não o suficiente para me deixar inerte. Levantei-me e lá estava eu em uma sala de um escritório aleatório; o cenário que já descrevi. Comecei a andar porque não havia outra opção.
Eu assobiava, batia nas paredes, fazia todo o tipo de som de alerta; eu já disse que a sensação de estar quase perto de alguém era como um ninho no peito, isto é, uma esperança ou lembrança de encontrar um rosto humano que pudesse me explicar o que estava acontecendo. Tudo era insuficiente. Conforme eu andava, vez ou outra eu ouvia uma porta se fechar; às vezes eram passos... Às vezes eu era tomada por um medo estranho, um arrepio frígido que amargurava meu peito a ponto de me fazer parar e tocar meu tórax como um reflexo de sobrevivência.
Em determinado momento eu percebi que a sensação de estar tão perto de alguém, infelizmente, não era um delírio. Havia mesmo alguém..., ou melhor, havia algo. Algo inumano sabia que eu estava ali desde o princípio e eu soube disso porque eu vi o seu rastro. Não eram passos. Era um rastro de fios negros que, quando observei, percebi haver algo se mexendo em sua composição, como vermes em uma carne pútrida. Os fios eram fétidos e pouco antes de vê-los, comecei a sentir o mesmo medo estranho de outrora, porém, incorporado a um extremo pavor diante uma sensação genuína de perigo; quando de fato vi o rastro, eu suava de temor e meu desespero era profundo como abismo, não sei como descrever, eu estava enlouquecida, olhando para todos os lados, andando com passos de tartaruga para não ser ouvida. Eu sabia que havia perigo naquela coisa.
Minha intuição outra vez gritava na sua infinitesimal manifestação, mas naquele momento eu a ouvi. Aquele negócio, aos poucos, evaporava como água, sumia, não era um rastro eterno. Comecei a me afastar devagar. Era impossível, mas eu não estava descrente o suficiente para seguir o rastro. Numa súbita angústia, corri para o lado oposto; corri o mais rápido que pude e na minha desolação afobada, coberta pelo pânico mais atroz, eu caí outra vez, pelas pernas que vacilaram enquanto meu coração pulsava mais frenético do que poderia suportar. Eu caí. O glitch que me colocou ali, me tirou; mas não me levou de volta ao meu apartamento. É claro que não. Eu estava caída, com o corpo mais dolorido do que a primeira vez e diante dos meus olhos havia um novo nível de labirinto liminar: um infinito aleatório de espaços semelhantes a um bairro, sim, um bairro com casas vazias, ruas eternas, sem nenhum carro ou pessoas. O céu era avermelhado, com nuvens escuras, sem nada, nenhum ponto de luz. Embora houvesse um “campo aberto” por causa daquele céu tenebroso, a sensação claustrofóbica permanecia. Ali a tétrica morte respirava ofegante eu a ouvia e sabia que encontraria com ela a qualquer momento.
A Entidade, Annor: O Encontro
No erguer-se do luar alcantilado | Crocita um corvo enquanto sou lamúria,…
No erguer-se do luar alcantilado
Crocita um corvo enquanto sou lamúria,
Assusto-me e o percebo afortunado,
Pois voa contra o vento da penúria;
Ao leito o meu sombrífero sonhar
Desvela-se à mi’a fronte lentamente,
Um cântico, porém, junto ao nevar
Desperta-me e a lareira queima ardente;
“Que o fogo se acendera repentino?”
Clamei seguindo à porta da sacada,
Ninguém d’entre os pinheiros, nem o hino…
Silêncio tão perpétuo “Fui brindada
Co’as sombras de m’ia mente solitária”,
Mas ouço, no rompante… mortuária…
Atrás de mim… presença murmurada…
A Presença
Vestida em damanoute enegrecida | Desperta e dos sonhares esquecida | Na muda…
Imagem criada por Sahra Melihssa
Vestida em damanoute enegrecida
Desperta e dos sonhares esquecida
Na muda escuridão pungente e morta
Senti certa presença à minha porta
Porém sonido algum, nem vil batida
Ouvi no cumarú que o umbral comporta.
Decerto estava, pois, eu mui confusa
Deitei-me ao leito lânguido, reclusa
— Talvez o horário esteja me inibindo
E a minha sanidade se embaindo —
Pensei relenta ao breu d’ngústia infusa
Até mi’a tez prever horror infindo;
Dealvando a face minha no rompante
No umbral ‘tava a presença necromante
Meus olhos em temor se comprimiram
Que às frestas tão mofinas difundiram
A aragem putrefata equissonante:
Os vis silêncios mórbidos se uniram
Ao pranto meu de agrura fulgurante;
A névoa negra logo condensou
E vi que a orla da porta se grisou
Havia, pois, só ela e nada além,
— Retorna à treva ruim que te provém! —
Mi’a trêmula voz tola esbravejou
Pujante que meu pânico aumentou
E a súbita coragem fé detém,
Abri com ódio a porta, nada além…
A límpida moldura me espelhou;
— Um quadro na parede, mais ninguém… —
Alívio! À solidão, meu puro amém,
Até que algo em mi’a nuca respirou…
Experiência
Órbitas saltadas por tal horrífico, Manhã fria como o cadáver deitado, Um som à mente penetra sombrífico, Que o rubi líquido verte alarvado; […]
Nicola Samori
Órbitas saltadas por tal horrífico
Manhã fria como o cadáver deitado
Um som à mente penetra sombrífico
Que o rubi líquido verte alarvado;
Atenção angustiosa ao vil vazio
Passos ocultos, poço da ilusão
Há ninguém sob o efêmero alívio
Mesmo assim eu revivo uma oração:
“Pai nosso que estais no céu, tão amado”
Completa a voz sinistra: “santificado”
E ecoa como um grito no abismo;
Meu tremor se ergue símil a um rei
E a gorja é entrave ao ar que pensei
Ser a fonte de meu vital niilismo.
A Sonância Escarlate
Meu horror não tem rosto, tampouco forma ou, ainda, constituição. As sombras mais negrumes das sextas-feiras mais insólitas conduzem-me…
Zdzisław Beksiński
Meu horror não tem rosto, tampouco forma ou, ainda, constituição. As sombras mais negrumes das sextas-feiras mais insólitas conduzem-me sempre à lembrança, ressuscitando aquele lôbrego som em minha mente atormentada. Estou fadada à loucura perene desde que deixei aquele lugar — o qual não me recordo ao certo os seus pormenores e, confesso, prefiro que tais reminiscências descansem em paz sob a mortalha do esquecimento, pois diante a condição atual qual me definho, todo olvidar é alívio. O que sei é vago sobre todo o âmbito daquele lugar amaldiçoado e mais ainda do ser, o mensageiro do diabo, que trouxera à luz da vida a composição terrífica do antro mais obscuro de todo o cosmo. Desde aquele dia, perdi minha voz… e não há doutor especialista capaz de identificar algum problema. Se ouso falar… tudo o que ouço é a música espargindo de minhas cordas vocais e penetrando meus órgãos como execráveis agulhas imanentes.
Havia um convite sincero, era para ser um dia especial… como pode haver tamanha desgraça no inócuo encontro de pessoas que se amam? Estávamos naquele bar, nosso entusiasmo era genuíno e emergia de nossas mais recentes conquistas, entretanto, por sorte — a sorte que eu não tive — Eric teve de atender a um telefonema urgente que o fizera deixar o bar pelos eternos segundos em que eu, sozinha, encontrei a hediondez da sonância macabra. Foi a última vez que Eric ouviu a minha voz na sutil expressão da paixão etérea; hoje o que me resta é a imortal prostração, embora eu tente, por amor, ainda sorrir. Sei que aos poucos estou sucumbindo, senão pela música que se repete indefinidamente por cada poro de minha pele, então pelos pesadelos diários culpados de minha insônia e das constantes paralisias oníricas — e como me dói ter de escrever a respeito disso… se estou aqui é tão somente pelo meu dever moral, tendo ciência de que devo alertar a todos sobre o que sei, prevenindo-os de sofrerem o que sofri e que sofro, mas que fique claro que eu não voltarei a redigir sobre o este assunto, eu estou cansada de fazer relatórios e mais relatórios sobre o pior momento de toda a minha existência para que, no final, façam da insanidade a única conclusão possível; este será o meu relatório completo e o único a ser entregue à todas as autoridades que precisarem de meu depoimento. Nunca mais trarei à tona este assunto e ainda que no futuro todos os inquéritos sejam retomados, apenas não me procurem! Tudo o que os senhores precisam se encontra aqui, somente aqui.
Tratava-se, portanto, de uma noite de jazz, com a exibição de um músico que, como Eric já vos deve ter dito, não lembramos do nome e tampouco da razão pela qual ele foi especialmente chamado a se apresentar. Tudo naquela sexta-feira foi incerta a partir do momento em que adentramos o insidioso local. Sua atmosfera era incomum, embora tentássemos não pensar a seu respeito, era evidente que algo estava errado… agora é mais que evidente… ah, se eu tivesse dado ouvidos à minha intuição, tudo poderia ter sido diferente. O lugar era potencialmente repulsivo, não pelas instalações, infraestrutura ou atendimento, mas pela aura. As lâmpadas tremeluziam com aspecto espectral sobre as mesas e pessoas de modo a potencializar uma atmosfera inominável; quando fiquei sozinha na mesa, tudo o que eu sentia era frio, mais e mais frio pelo sopro gélido que pairava no ambiente fechado, a cada segundo, conforme o horário da apresentação se aproximava.
O rosto do músico é indefinido, não sou capaz de descrever o homem, ou mulher, eu não sei, eu apenas fui subjugada de súbito por uma nota que se estendeu melancólica em timbres mórbidos inenarráveis. Foi tão célere quanto impactante, e eu lembro, numa perfeição incontestável, que todas as pessoas que apreciavam a noite naquele local horrífico desapareceram como fantasmas logo em que a música se alastrou e, no mesmo instante, a aura supracitada revelou-se integralmente quando uma névoa encarnada, de odor profundamente idêntico à sangue, veio à tona encobrindo meu corpo. O pavor me consumiu, e eu não tive forças para afastá-lo, pois que o momento insondável esconjurou a deplorável sensação de morte, decadência e danação em proporções insuportáveis. Foi nessa hora que minha garganta foi contorcida e a falta de ar culminou meu desespero, foi uma dor intolerável e tão peculiar como a música que prosseguia fúnebre e maldita tal como deve de ser o riso perverso de uma besta do abismo — a mesma besta que decerto fragmentara os ossos de todo o meu aparelho vocal ainda que a ciência insista em dizer que está tudo intacto!
Agora o que vem é o que menos será aceito pelo mundo, todo o horror que vivenciei por causa da cruciante sinfonia não durou mais que um segundo. O músico infernal? Era como se nunca tivesse pisado naquele palco e Eric insiste em dizer que o sujeito sequer se apresentou naquela noite. E as pessoas que vi desaparecem? Continuavam com seus jantares normalmente. E a névoa escarlate fétida como seiva fresca? Apenas inexistente. Tudo acabou — parecia ter acabado — e quando Eric voltou à mesa, me encontrou morrendo de dores lancinantes na cabeça, a dor era símil às mais agônicas enxaquecas e meus globos oculares latejavam, desolados no caos. Senti enjoos e torturas, as náuseas eram tantas que implorei, no sussurro mais confrangedor, para que fôssemos embora enquanto nada, absolutamente nenhuma lembrança da situação sobrenatural, residia em minha mente. A minha confusão mental naquela noite é assentida pelos sete psiquiatras que passei como responsável pelas “alucinações” ou “fantasias oníricas” que tive a posteriori, todavia eu sei muito bem que não se trata disso.
Pelos dias que se seguiram após a situação que eu sequer me lembrava, a bizarra sensação persecutória nasceu prematura, isto é, tão logo em que deixamos o bar; uma impressão impertinente e contínua; sua duração? Eterna. Ainda hoje sinto estar sendo observada quando me deito na cama para dormir, ou se cozinho com Eric pelas manhãs; não importa o dia, nem a hora, à minha visão paralela pertence as sombras encarnadas como a névoa daquela noite; e o cheiro de sangue sempre germina como uma asquerosa erva daninha, embora não seja pior do que a música, a obstinada canção que desde a saída do bar esteve em minha mente. Saibam que se trata de uma composição funesta, só pode ser, pois o que tem de esplendor, tem de dantesco! Ela contorna a minha psique com uma perfeição tétrica que me afoga em severa algia e, antes de perder a voz, eu a cantarolava de modo inconsciente a ponto de me oprimir aos dissabores mais pulsantes vindos de um umbroso confim que jamais saberemos onde é — aliás, é melhor que sequer investiguemos, pois que foi na busca por respostas que eu naufraguei minha alma na ínsula do desolador átimo esquecido.
As devotadas terapias causavam-me amargor, pois eu tinha de repetir sempre a mesma história, reclamar sempre das mesmas dores; e todos os meus psicólogos e psiquiatras pareciam unanimes sobre a necessidade de prosseguir com as consultas semanais; Eric sabia que eu estava exausta, o resultado que eu buscava estava apenas — e cada vez mais — distante. Dos médicos especializados em toda a fisiologia de meu corpo doente, eu já havia desistido, ninguém entendia as dores pungentes na cabeça, tampouco na garganta; para eles era somatização fundamentada em neurose e, com esta hipótese, terapia era o único caminho. Mesmo diante do meu infortúnio e fadiga exorbitante, aceitei ir a um último psiquiatra, o Dr. Frederico, este, por sua vez, se diferia dos demais, pois, trabalhava com hipnose. Graças a ele eu encontrei o que procurava. Meu alerta é contumaz e é evidente que as autoridades me reconhecerão — e reconhecem, convenhamos! — como doente mental, mas decerto que n’algum momento há de vir à tona uma curiosidade peculiar, alguém há de se sentir instigado a entender o que houve comigo. Digo, repito, tomem cuidado para onde vão, mas não insistam em demasia na empolgação da descoberta, pois que eu insisti e bastou uma única sessão para eu me lembrar de tudo, tudo o que já vos descrevi… e mais…
A música cantarolada todo esse tempo, que trazia meu declínio à angústia permanente, estava inacabada; porém na hipnose ela me veio em completude cruel além de todas as cenas daquela sexta-feira maldita. Sonante pelo inferno mais fascinante e horrendo, notas contínuas de um piano medonho causando nada mais além de constante exasperação e fobia. Minha garganta foi outra vez dilacerada ao ouvir a composição completa e meus olhos se cobriram pelo sangue que eu tanto sentira exalar. Dor, dor agonizante, abri meus olhos antes mesmo de sair do transe e de uma forma assustadora eu vi o Dr. Frederico com um espectro rubro, ele era nada além de névoa fantasmagórica, escarlate, com deformidade cadavérica e a sua nitidez, enquanto toda a sinfonia da loucura, o jazz da minha inabalável ruína, clamava, ensurdecedor, aos meus tímpanos; é palpável para mim, cada cena, todas as vezes em que adormeço. Diante do manto medonho que cobriu minhas retinas naquele momento, lembro-me de cair sobre o chão na lentidão mais avassaladora, dominada pela atmosfera de violenta abominação, e que chorei o sangue das notas macabras e que, também, perdi a minha voz para sempre.
Os senhores jamais entenderão o que é perder a voz para sempre, ainda mais quando se sente, dia após dia, noite após noite, que seu pescoço é envolvido pelas mãos malignas de uma criatura translúcida e cetrina que aperta, oprime e esmaga sua traqueia a cada piscar de seus olhos insones… e mais do que isso, até hoje o jazz melancólico me causa crises de pânico e, numa dessas mordazes crises eu tive uma considerável perda de audição — e essa é a única prova palpável que os senhores terão de mim, a prova que traz à tona a veracidade deste relato, por mais que vocês insistam em desconsiderá-lo. Está tudo anexado a este documento e trilhões de cópias já foram criadas e direcionadas a investigadores, policiais e outros tantos profissionais — e todos os laudos das constantes perdas de audição que me vêm ocorrendo desde a sessão de hipnose estão assinadas por diversos doutores especialistas na área que poderão, e hão de sempre o fazer, confirmar cada exame, cada vídeo e cada relatório técnico que afirma, confirma e explica, que meus tímpanos sofrem da mais estranha anomalia, pois vibram, vibram como se estivessem continuamente expostos a algum tipo de ruído excessivamente estrondoso… de caráter alarmante… vinte e quatro horas por dia… Enganam-se, contudo, se tomarem para si a ideia de que o jazz do espectro encarnado está diminuindo também diante a minha perda de audição; não, a música maldita permanece ensurdecedora e ela nunca… nunca termina.
Conto “Recorrência” de Sete Abismos - Versão Original em Inglês
I was spending hours there; it was as if I was losing…
Como revelado em meu livro Sete Abismos, o conto Recorrência é uma adaptação e tradução do conto Recurrence que escrevi em inglês. O idioma foi escolhido em razão de seu poder de síntese, portanto cairia muito bem na transmissão do que eu pretendia explorar com o personagem Misthe. Aqui você poderá ler, portanto, o conto original, escrito em inglês, que deu origem ao conto Recorrência que está no livro.
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa
Recurrence
I was spending hours there; it was as if I was losing all my life in fifty fragile minutes, and those eyes behind round and large glasses, the ticking of the clock. Something was very wrong there. However, I could not say anything; there was a big sign on the white wall in front of me: Do not speak, keep silence. Next to me, a woman wrapped her arms around herself; her clothes were white and she was barefoot. I can hear her breathing. Small noises and I start to sweat. I can hear steps in the distance. I was rubbing my hands over my eyes; my eyes were burning. How else could I bear it? Any type of electronic couldn’t get there; they had even confiscated my keys; I was forced to take off my contact lens! Because of that, my eyes were burning. "Sir Misthe?" - I hear a soft female voice. I get up and look towards the silhouette. "Could you come with me?" - I move my head to show that, yes, I will go with her; after all, there was no other choice.
Through the halls, doors in light gray. My vision was already driving me crazy, I could swear that in one of those doors was a small window, in this window was something strange. It was like an animal, I swear I saw. However, it was also a person, a woman with short and dark hair. I rubbed my eyes. Damn myopia. Suddenly a sound invaded my ears, I put my hands over my ears and my body bent down, I looked up and saw the silhouette walking without me. I tried to tell the woman to wait for me, but my voice was no way out. The fault was of that damned sign that called for silence. "Sir Misthe?" - I heard. I looked at the silhouette. A soft voice before the silence. "Could you come with me?" - She said. - I moved my head to show that, yes, I will go with her; after all, there was no other choice.
I do not know for sure about the things that happened there, but I was there and I felt it in my veins. The fear. Some things do not need detailed explanation. “Sir Misthe? – I heard again. “Are your eyes ready for surgery?” -- I looked at her; in my forehead was the purest expression of horror. – “Surgery? Are you crazy? I don't even know what I’m doing here at all; how can I accept this?” – “Just keep calm, sir, we're all in trouble here. It is a tough choice, I know, you have your time to decide. Call me when you need.” – She left the room. “Abandon all your expectations” – I heard a whisper, but there was no one there but me.
I looked around quickly, desperately; I felt fear. “Who is there?” – I asked the nothingness. No one answered. I do not know for sure about the things that happened there, but I was there and I felt it in my veins. The fear. Some things do not need detailed explanation. I got up and walked towards the exit door; I touched the doorknob, but I was afraid to open the door. I looked back, I looked around, and I looked up. I was, really, alone. I decided to look through the keyhole.
The whisper… I have not looked through the keyhole, the feeling was unique, and I felt uncomfortable. I knelt. My eyes began to water and my heart was tight. What could I do? Life was no longer the same, the meaning had undone. Sometimes we struggle to believe that the possibility is in our favor, but it is not. When the first tear fell at the white floor, I saw the blood. I looked in panic at the door; my vision stained with blood; the door was open. “Why do you do this to yourself?” – There was a woman standing there in front of me. I could not see her perfectly. However, she was beautiful. The whisper that she gave me. The whisper…
"Sir Misthe?" - I heard a soft female voice. "Could you come with me?" – I looked at her and I smiled, the clock was still on the wall and I had no other choice but to go with her.
II
"Sir Misthe, welcome back"
My tongue has become fiery rock and my cries are the silence of my soul. To die would be my only luck. Something is wrong with me. I know you will come again and order silence, just as the damn sign on the wall. I did not forget the lava you made come out of my brain.
"Oh, Misthe, please drink her" you said. Your tongue has always been fiery rock.
I'm fine, before you ask me. I went back to that room and the only truth I had was chaos. The girl was transformed into a living flesh demon. I can’t see the light. You sewed my eyes, you sewed! But I still see that girl. It's like she's inside me... Stop! Stop laughing! I will not go with you anymore, no, I will not.
"It's time to take your medicine, Sir Misthe" she said.
"Damn it! What did you do to me?"
"Sir Misthe, it's all in your mind."
You look at me, I know it even though I cannot see you. I hear your breath. I smile.
"I'm fine" I say before she asks me.
Alone again. First, I still hear the clock. The water tastes like blood. "Drink her" I remember. Something is very wrong here, I slept for five years while you extracted my organs; my lungs exhaled volcanic smoke. The visions are stable, I've never been alone.
"It's all inside you, Misthe."
I've never been alone.
I get out of bed. I spit the narcotic. I'm dizzy, I'm cold. The more I walk towards what I think is a door, the more I feel strange. But how can I know? The curve of the wire glues my eyelids. Suddenly the light. I scream, and the intensity makes me fall to the ground.
"I can see again!"
The first image comes under the door. There is a great hall there and the people ... Oh my god ... People are eating each other like cannibals. I throw up my lunch, even though I have not eaten anything for five years. Then I hear a sound coming from the right side. A mirror reflects my body. Numerous eyes have been implanted in my skin and I can fill ... I can fill with all of them.
"What the fuck did you do to me?"
"Stay with me, I'll give you everything" I hear you whisper.
“Who are you?” – I shout.
I break the mirror, I'm learning to master my new eyes. Behind the broken glass is a door with a small window. "Could you come with me?" I hear the voice behind the door. I approach the small window and there I can see ...
"Could you come with me?"
The tick of the Clock.
"No! Don’t move your head to say you go with her!"
My twenty eyes are burning.
"No, you bastard! Dont’t go with her!” – I scream.
"Sir Misthe?" – I look back. "We will begin the twenty-first surgery."
Névoa profunda n’um jardim de flores em tons de rosa-empoeirado. Tulipas, girassóis, lírios e sempre-vivas — tudo rosê, como os olhos e os cabelos de Dandeliz…