O Restaurador de Livros
Sorinne, apressada, adentrou a biblioteca pensativa; não queria ter assustado sua adorável…
Sorinne, apressada, adentrou a biblioteca pensativa; não queria ter assustado sua adorável amiga Anne e até tentou retornar ao quarto dela para se desculpar, mas Anne já havia partido. Sorinne temia estar imersa em tristes desesperanças que ressoavam amargamente por cada uma de suas falas. Então, respirou fundo por causa da sensação infeliz e voltou-se ao centro do ambiente, avistou um homem. As costas dele eram largas, vestia-se elegante, parecia atento às escrituras d'algum livro já debilitado. Sorinne não se lembrava de ter avistado aquelas costas, não pareciam familiar, então aproximou-se. Bisbilhotou. Mãos viris e grandes foram distinguidas segurando uma agulha e fios de linha. No rosto do forasteiro um tipo específico de monóculo com três lentes espessas, as quais facilmente se intercalavam por meio de uma mecânica inovadora. De súbito, o homem viu Sorinne que, até então, fora profundamente furtiva; o susto tênue fez com que a agulha furasse seu dedo e Sorinne, prestativa, não conseguia parar de pedir-lhe desculpas enquanto buscava fiapos de tecido para envolver o ferimento.
— Não te preocupas, está tudo bem, veja, um sangue de nada. Há de cicatrizar antes mesmo que voltes com um curativo.
— Perdoe-me, senhor, estava eu tão curiosa para saber o que tu fazias com este exemplar e, por estares concentrado, hesitei em interrompê-lo. — Fitzwilliam sorriu.
— Como uma Dama profundamente instruída, temeste que eu o estivesse ferindo? — As palavras do Dom trouxeram um natural e límpido semblante feliz à Sorinne.
— De certa forma… O que o senhor fazia?
— Estou restaurando-o. Veja, a capa soltou-se e as primeiras páginas estão inseguras. Com esta agulha curva e mais a linha adequada, costuro e fortifico o exemplar. — Sorinne observava com atenção e fascínio. Fitzwilliam demonstrava seus movimentos delicados, ensinando-a cada um dos passos que fazia para criar os minúsculos nós.
— Ó! Tão belo… quão delicado! Um trabalho de grande valor, senhor. — Fitzwilliam deixou suas ferramentas de lado, tirou seu monóculo, limpou suas mãos com um pouco de álcool de seu pequeno frasco ao lado da pilha de livros e estendeu, em cumprimento, sua mão direita.
— Sou Fitzwilliam Learvhen — Sorinne tocou a mão de Fitzwilliam e ele beijou o dorso da mão dela.
— Muito prazer, senhor Learvhen. Eu sou Sorinne von Phennen.
— Por favor, apenas Fitzwilliam. Decerto que o prazer é meu, senhorita Sorinne, se assim posso chamar-te. — Sorinne enrubesceu.
— Claro que podes. Vais restaurar toda esta pilha?
— Aqui não. Levarei alguns para meu ateliê a pedido de Dom Vonssihren.
— Há um exemplar de um romance que tenho grande paixão, ele está tão destruído. Posso mostrar-te?
— Decerto que sim! — Sorinne caminhou lentamente até a mais distante das estantes, Fitzwilliam a seguiu. Olhando ao redor não pôde encontrar a escada para que pudesse subir às prateleiras mais altas.
— Está ali, mas, não alcanço. — Fitzwilliam esticou seu braço, sua estatura era suficiente para alcançar o objeto, mas para isso, dado o espaço em que estavam, teve de inclinar-se mais do que devia sobre o corpo de Sorinne. Os segundos que se sucederam causaram, aos dois, grande calidez; a aproximação permitiu-lhes sentir seus perfumes entrelaçados sobre a atmosfera silenciosa, além disso, o toque, a sutil pressão de Fitzwilliam sobre Sorinne de imediato ruborizou-lhes as faces. Com o exemplar em mãos, o senhor Learvhen afastou-se cauteloso.
— Aqui... está… — ele disse olhando diretamente aos olhos negros de Sorinne. Ela sentiu-se envergonhada, principalmente porque estava atraída pelo restaurador de livros, algo que há tempos não sentia. — Bem… a capa está bem desgastada… — continuou Fitzwilliam na tentativa de desviar-se da admiração constante que dedicava ao rosto da donzela. — Muitas folhas soltas e… que doloroso! Alguns rasgos entre páginas… — Fitzwilliam analisava com zelo e não deixou de perceber que se tratava de um romance clássico.
— Ganhei quando jovem, eu estava com quinze anos. Faz um tempo… — Sorinne abraçou-se num tênue gesto de carinho a si mesma — Era de minha mãe… Já li tantas vezes… contudo há tempos receio de tocá-lo, está tão sensível. Precisa de atenção. Quanto ficaria para consertá-lo, senhor Fitzwilliam? — Ele a olhou atento.
— Será um presente a uma dama tão delicada e gentil. Levarei junto com os demais e trarei assim que possível.
— Não posso aceitar, é o teu trabalho e merece todo o reconhecimento.
— Então dê-me um entardecer de outono, o que achas? Junto com uma conversa agradável nos bosques. De maneira alguma te cobrarei quaisquer quartzos por este serviço, o farei com o coração aberto e… — Fitzwilliam hesitou — Pulsante… — Seu tom de voz diminuiu, como se buscasse confidenciar algo. Sorinne tremeu ao ouvir as palavras que, embora inócuas e desprovidas de quaisquer intensões sombrias, traziam à tona a reciprocidade do desejo. Admiraram-se em silêncio e calor por átimos se segundos infinitos até que o som da grave voz de Dom Vonssihren os retirasse da aprazível aproximação. Ambos caminharam até o centro da biblioteca outra vez.
Para Sorinne as excitações tão inocentes que emergiram vívidas em sua alma muito se assemelhavam às sensações dos livros restaurados que, com esmero, eram manuseados e curados para reviverem e, com isso, oferecerem a um leitor, outra vez, o melhor que possuem em si. Ao despedirem-se, Sorinne não hesitou em reforçar sua admiração: “Todo o apuro que dedicas aos livros é algo de digníssimo valor!” — Fitzwilliam sentiu-se lisongeado e manteve seus olhos atentos aos lábios de Sorinne: “Tenho o mesmo afeto e diligência com tudo o que minhas mãos tocam, senhorita” — Revelou. Sorinne saudou-o enquanto sentia o encanto, o arrepio e a paixão que nascia ávida pela vida, assim como uma flor pelo sol, etérea e orvalhando em perpétuo contentamento.
Outonal Lua Cheia
Desperta no crepúsculo silente | Olhei pela janela o frio outono | A brisa que versava o sol poente | Ornava m’ia paisagem como em sonho…
Desperta no crepúsculo silente
Olhei pela janela o frio outono
A brisa que versava o sol poente
Ornava mi’a paisagem como em sonho…
No peito um dolorido “nunca mais”
Pousava devagar contando histórias,
As quais, melancolias e aveleirais,
E amor, de lume infindo, nas memórias;
O índigo-cristal no firmamento
E um pranto calmamente a se verter
“Quão belo e assim efêmero momento…”
A noite iluminou-se e pude ver
Tão pálida e ofuscante, Dama Lua,
Um toque em minha tez, tão livre e nua,
Nascida p’ra acolher a dor do ser.
Luz, Se Feres…
Luz, se feres, é porque te tornaste a escuridão. Nunca, todavia, abdiquei da noite…
Luz, se feres, é porque te tornaste a escuridão. Nunca, todavia, abdiquei da noite mórbida, tampouco reneguei seus ares frígidos. Luz, se feres, és manhã. E nestas terras Múrmuras a tua face é lacrimal, símil à minha. Tua alvorada lôbrega e noturna permeia o coração que aqui te clama. Luz, se feres, faz-me tua. Prostra-me ao leito que abriga o bálsamo da tez, pertenço às tuas mãos, porque és anjo, caído à sombra-e-lume de tua essência. Luz, se feres, que assim seja. Penetra-me o ventre co’a tua rigidez enquanto a minha lamúria é regozijo. Vislumbro em teu olhar tanto viril, a morte a me beijar os lábios úmidos. Luz, se feres, verta o sangue e, vem, deflora a mi’a vestal nascente fértil.
Não sei, ó Luz, se feres, pois grande é-me o desejo, o qual se pulsa, ímpeto, porque teu símbolo o liberta; sei, porém, que a culpa em silencim me oprime quando ao templo inverto a prece. Luz, se feres, serás breve co’a marca que abrasarás no seio meu; peço que apareças pouco antes no revelar-me de tua forma. Luz, se feres, fira, eu suporto por amar-te estranhamente, pela dor de minha mágoa diligente nascida em prematura infância, quando o mundo humano e as vestes da deidade sufocaram a alegria de meu ser, tão só era eu mesma, apenas eu, uma menina. Agora, há tanto tempo, o quanto amarga… e tu, ó Luz, que tantos dizem má, é única a luzir no meu anseio, a única a brilhar no meu altar.
Segredo Feminil
Tu sabes que acostuma ver que o rosto | Mui gera mais encanto que meus versos? | Que o corpo…
Tu sabes que acostuma ver que o rosto
Mui gera mais encanto que meus versos?
Que o corpo qual pertenço, se do gosto,
Por vezes oblação de olhos perversos?
Até cultivaria em mim o rancor,
Mas algo n’alm’essência minha veta,
Pois lídimo sentir tenho em fulgor
Que impede a mim tecer injúria inquieta,
Talvez minhas verdades, meu perdão,
Escondam certa mágoa, ou estranheza,
Que vela esta mi’a vaga solidão,
Que beija esta emoção de mor tristeza
Enquanto nunca sinto pertencer
Ao mundo que corrompe a absorver
Em mórbido silêncio a mi’a pureza.
A Entidade, Annor: O Encontro
No erguer-se do luar alcantilado | Crocita um corvo enquanto sou lamúria,…
No erguer-se do luar alcantilado
Crocita um corvo enquanto sou lamúria,
Assusto-me e o percebo afortunado,
Pois voa contra o vento da penúria;
Ao leito o meu sombrífero sonhar
Desvela-se à mi’a fronte lentamente,
Um cântico, porém, junto ao nevar
Desperta-me e a lareira queima ardente;
“Que o fogo se acendera repentino?”
Clamei seguindo à porta da sacada,
Ninguém d’entre os pinheiros, nem o hino…
Silêncio tão perpétuo “Fui brindada
Co’as sombras de m’ia mente solitária”,
Mas ouço, no rompante… mortuária…
Atrás de mim… presença murmurada…
Ao Lacrimar
Perpétuo Lacrimar, a solinura | É páramo de véus na cor marfim; | Ouvindo estás, meu cântico-tristura, | Enquanto a lira tange em silencim?…
Perpétuo Lacrimar, a solinura
É páramo de véus na cor marfim;
Ouvindo estás, meu cântico-tristura,
Enquanto a lira tange em silencim?
Tu qu’inda no sonhar do meu lamento
Perduras tão sombrífero e ardente…
Ó… vasto e quebradiço, ao léu do vento,
Orvalhas-me o contento remanente…
Est’alma é nós — condoída imensidão!
Perene Lacrimar, és meu amásio,
Conduzes desalento em algodão,
Vislumbras por cristais o teu copázio
Que tanto já transborda do manar
Que é nosso, vês, a pérola a brotar?
Pequena, orbicular, gema-calázio.
Conheça o significado de “solinura” ou “silencim” em Dicionário — Sara Melissa de Azevedo
O Lírio e o Lago
De modo sensível e vago | Protejo em meu peito, dorido, | Um lírio tão pulcro e um lago | Com águas de morte, contido…
De modo sensível e vago
Protejo em meu peito, dorido,
Um lírio tão pulcro e um lago
Com águas de morte, contido,
Ao lado de incerto amargor
Por onde há o semblante choroso
Que vejo n'um ninho vazio
E escrevo em papel tão poroso
Meu manto de inverno sombrio
Que sobre um cadáver feitio
Eu vejo no lago clivoso.
De modo aturdido este Lírio
Umbroso em lamúria é fissura
D'um cântico vasto em martírio
Por onde minh'alma é lagura
E, sendo, é vertida em ardor
E o líquido anil d'embriez
Deságua a regar meu florir
De lúgubre e grã profundez:
Angústia que faz meu sorrir
Tão lhano que emerge a asserir
Murmúrio em escol languidez.
De modo soturno e imersor
No Lago me habito silente
E o Lírio é meu triste candor
Um Lírio de níveo fulgor
Um Lago de eterna torrente.
Mórbida Esperança
À Noite, quando as candeias se apagam e, sob sombria imensidão, ergue-se o prazer em minh’alma, ultrapassando a tórrida pele, relembro-me…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa
À Noite, quando as candeias se apagam e, sob sombria imensidão, ergue-se o prazer em minh’alma, ultrapassando a tórrida pele, relembro-me unicamente dele. Criatura inumana e, como tal, restringia-se aos sentimentos e ao instinto; embora me compreendesse tão bem. Sei que me arrisco ao escrever sobre tais obscuras verdades, todavia, corrói-me não ter a quem confessar os indistintos sentimentos que me sufocam. A loucura bate aos umbrais, espreita em cada fresta; ainda assim, eu insisto. Eu insisto no alarde sutil da aldrava desta porta que leva à morte e ao insondável.
Vertido, o sangue, à mórbida cena. Os corpos dilacerados em frações de tempo. Ele, que os senhores gritavam pelo insulto “demônio”, ele tão facilmente poderia me consumir, no entanto, viera em lentidão extrema, logo após matá-los todos, frente a mim, seu hálito com pujante odor de ferro. Não vi seus olhos, porém, por eles, eu era vista; de alguma oculta maneira. Tive meu medo farejado. Suas garras em meu rosto sob mesma lentidão que seus passos, enquanto eu chorava. Implorei, em sussurro, para que ele não ceifasse a minha vida naquela horrenda mansão e ele se afastou, brando. Comportava-se como um homem educado, tinha análoga anatomia humana, movimentava-se quase símil, como um homem, exceto quando rasgava a carne humana. Era uma criatura imensa, com presas ensanguentadas, rosnado alto e grave, pele fosca e negra-cinérea, um tipo de cor jamais imaginada em nenhuma tez.
Rodeando meu corpo frágil, após longo admirar que tanto me intimidava, ele se foi e, ao recompor minha comoção, corri à saída com dificuldade, visto que o traje determinado pelos senhores se assemelhava aos antigos vestidos vitorianos. Demorei a encontrá-la. Eu não sabia o que ocorreria naquela noite, fui ludibriada e tomada como mercadoria, mas hoje eu sei a razão primeva, porventura sobrenatural, própria da criatura que encontrei. A submissão qual me submeteria faria dos homens reais as verdadeiras bestas medonhas e eu era a única mulher naquele lugar e eles eram em vinte homens. Uma leve compreensão alcançara minha consciência acerca daquela mansão assim que abri as portas de entrada; eu estava lá para servi-los, servir aos cadáveres outrora com seus corações pulsantes; eram homens de poder. Mas não eu, eu era mais uma vítima de seus rituais.
Havia névoa por toda a parte, neve e névoa, frio intenso e ventania tétrica. Nunca vi tal clima tão perturbador. Entendi, somente ali, que eu não sabia onde estava, tampouco como havia chegado naquele lugar. Voltei à mansão fechando-lhe os umbrais antes que meus braços congelassem. O silêncio. O silêncio e um leve respirar grave à distância. Era a criatura. E ele se aproximava outra vez. Sob um pavor singular, segui à direção oposta por um corredor qualquer. Cheguei à cozinha, retornei aos quartos, encontrei uma biblioteca. Nesta última, sentei-me n’uma grande poltrona frente a uma pintura à óleo antiga. Descansei até ouvir a criatura outra vez.
Seu sibilar era como um abismo e eu sentia esta profundeza em meu ser. Não somente inumano, a criatura não era sequer animal; decerto vinha d’outro mundo, d’outro plano. Não fugi, embora almejasse; talvez, ponderei, fosse melhor a morte, pois, o que eu faria ali sozinha? Por quanto tempo? Questionava-me tão célere quanto meu coração batia e, assim, sob um impulso mortal, me joguei aos braços do demônio, em pranto súbito, e eu o senti aquecido. “Mata-me! Mata-me que já não sei o que fazer aqui sozinha!” — meus gritos eram estridentes e repletos de angústia. Fui abraçada, então, à minha surpresa, pela criatura. E ali ficamos até meu acalmar. Até meu adormecer.
Com os olhos abertos, serenos, senti-me ser a mais etérea quietude. O meu peito já não estava arfante. A adrenalina enclausurada. “Podes sentir-me?” — sussurrei, e ele emitiu de sua garganta um som grave, mas ameno. Nenhuma palavra. Apenas um tom. Toquei a pele de seu tórax e o toque expandiu-se para seu pescoço, mandíbula, nuca e, quanto mais o tocava, mais sua respiração se elevava. Em certo momento, senti-o envolver seus braços em minha cintura para nos aproximar e, tão logo, passou a acariciar minhas costas e meus cabelos. Ele insistia no cuidado, embora fosse, pelo tamanho e composição, brusco. Tudo, entretanto, deu luz a uma inenarrável vontade e notei-me, em profundez, envolvida; meu corpo pedia por ele, eu estava excitada. E pelo arfar intenso, ele também.
Sei o quão errôneo soa tal relato… eu sei… “Sinta-me” — proferi, então, subi sobre o seu corpo, na mesma poltrona de outrora. As suas mãos, que eram como garras, cortavam meu vestido e eu o olhava em sua face mórbida de criatura infernal. Beijei seu rosto e atritei meus seios, já nus, em seu peito. Senti-o segurar-me intenso e sua língua indiscreta alcançou-me os seios outrora apoiados em seu corpo robusto. Ah… se descrever fosse o mesmo que sentir… Alçado em lascívia, hirto, túrgido como um homem; guiei-o ao caminho que o esperava inundado. Ele compreendia sua vultuosa natureza, penetrou-me tão devagar até minha face lhe confessar os meus limites. E ele os respeitou. Quão fascinante tê-lo na alcova de mim. Seus movimentos advieram com o mesmo cuidado e não demorou para meus gemidos encontrar-lhe os tímpanos e levá-lo quase à bestialidade de sua essência.
Seus urros eram ensurdecedores; sua língua, impetuosa; seu corpo, promíscuo; seu desejo, violento. Ele estava sob seu próprio autocontrole, enquanto eu desejava, vítima de um prazer diabólico, o desvario e a morte. Quis tê-lo todo introduzido, quis sangrar pelo interior e enfim jazer em seus braços; visitar o inferno. Ele, todavia, era certo de seus impulsos e despejou sobre minha carne íntima toda a sua vitalidade carmesim enquanto eu mesma tremia pelo orgasmo que meu corpo nunca presenciara. Eu o amei e o amaria de novo e o amei por dezenas de vezes e nunca me arrependi. Tive-o rígido em meus lábios, tive-o em vigor, lado a lado, dei-lhe meu sangue; supliquei para que marcasse minha pele, ele o fez; supliquei para que penetrasse mais fundo, ele o fez. Adormeci por dezenas de noites em seu colo e o vi ser morto pelos malditos oficiais que me encontraram e me apartaram de meu único amor. A dor de perdê-lo foi cruel… desumana… ele tentou trucidar aqueles malditos, porém, suas armas de fogo foram impiedosas. Tentei impedi-los. Pus-me à frente para ser baleada; nua, e encharcada em devassidão, eu bradei para que parassem.
Abracei-o forte, mesmo caído ao chão. Em seus últimos suspiros jurei amá-lo pela eternidade e sei que ele compreendeu. Os oficiais levaram-me para uma clínica psiquiátrica e por lá fiquei por uma vida. Retornei há poucas semanas para minha casa e, estranhamente, pude senti-lo por perto; parece-me ainda tão vivo, como se sua alma sombria estivesse na espera de um receptáculo que a comportasse para que, então, ele pudesse voltar à vida para me encontrar outra vez. É nesta ínfima possibilidade que me apego cada dia mais.
Sede Profunda
Sangrando o coração em minhas mãos, | A carne carmesim desentranhada, | O sândalo do horror enquanto sãos…
Sangrando o coração em minhas mãos,
A carne carmesim desentranhada,
O sândalo do horror enquanto sãos
Olhavam-me co'a fronte embasbacada!
Ouviram dos vitrais o berro alto,
Clamaram por amparo às redondezas,
A noite era negrume em céu cobalto
Vidrando os olhos meus em sordidezas;
Assim talaram todo umbral em drama
Enquanto a negra sede já cessada
Poder de morte deu-me à minha flama;
A seiva que ebulia, eu transmutada
Em pássaro corvino à rama estéril,
Rompi pelas fenestras, abalada,
À tempo em retornar ao cemitério.
Rosas
— Por que rosas? — Indagou Lord Mauror. Aruahlis caminhava devagar pelo jardim enquanto tocava com ternura as pétalas…
— Por que rosas? — Indagou Lord Mauror. Aruahlis caminhava devagar pelo jardim enquanto tocava com ternura as pétalas das rosas silvestres. Ela gostaria de explicar ao Lord que aquelas flores lhe traziam um conforto inenarrável, que às noites de setembro, quando maior era o desabrochar daquela espécie, Aruahlis colhia algumas para amolgar até tornarem-se uma pasta pigmentada com óleo natural e, então, ela dispunha tal substância em telas de linho puro formando assim pinturas fascinantes e monocromáticas. No entanto, frente àquele que lhe despertava tanto amor, ela pouco conseguia expressar o que almejava. Mauror, por sua vez, buscava desvelar a essência de sua amada pouco a pouco e se fascinava com o enrubescer do rosto de Aruahlis sempre que se aproximavam.
— Veja, eu trouxe algo. — Aruahlis parou seus curtos passos e fitou as mãos do Lord que estava logo atrás. Nelas havia o que parecia ser sementes. Olharam-se nos olhos em seguida. — Outra espécie que convive muito bem com esta. Plante e descobrirá sua cor. — Explicou ele. Aruahlis sorriu encantada e pegou suavemente as sementes das mãos de Mauror. As mãos tocadas eram como o infinito perfeito.
— Há nenhum presente mais belo que este — sussurrou — e jamais esquecerei de teu gesto, Lord Mauror. — Seguraram as mãos com mais calor.
— Dar-te-ei o jardim mais valioso, com todas as espécies, e tu, como flor mais rara, zelará por todas elas com ternura. A tua ternura que me encanta. — Sussurrou Mauror e, no mesmo instante, ele viu o lacrimar dos olhos de sua amada.
À Escrita
Eterna solidão, noite-mudez | Se tua Olea graciosa não me azeita | À bênção da centelha, a embriaguez | Do elã que lume a letra em mi'a colheita..
Eterna solidão, noite-mudez
Se tua Olea graciosa não me azeita
À bênção da centelha, a embriaguez
Do elã que lume a letra em mi'a colheita..
Amarga perdição, medo-estupor
Se o cântico erudito de tua seiva
É sopro tão fugaz no grã calor
E frígido beijar no frio que m'eiva...
Deitada ao leito Santo de teu lírio
Eu posso ver na vida uma razão
Que amene o caos de todo o meu martírio
Das vezes que velei, pois, teu caixão
E vi-te reencarnar tão de repente
Amálgama de gáudio e aflição
Que eu juro precisar eternamente.
A Fenomenologia da Imortalidade
Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida…
Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida. Na Fenomenologia estuda-se a essência daquilo que se manifesta nos sujeitos a partir deles próprios, isto é, da expressão mais pura de suas singularidades reais, das vivências, compreensões e sentidos. Por meio da Fenomenologia, aplicada na Psicologia e revelada pelas linhas Existenciais da Filosofia, o ser que somos é foco de estudo a partir de seu existir significativo, tendo o objetivo de desvelar sua estrutura essencial, ou seja, para cada indivíduo a morte é experienciada como um fenômeno a partir de suas próprias manifestações enquanto ser individual, embora esta experiência esteja em dinâmico vínculo com o que o mundo em si, a sociedade, expressa em suas compreensões coletivas — a intersubjetividade também traz a subjetividade à luz de sua existência.
Discorrer sobre a Fenomenologia é sempre um ofício árduo, isso porque o seu método é enxergar com transparência genuína o ser que se revela em construção ser-mundo diariamente. Não há como mensurar e categorizar a experiência humana, nossa consciência é fundamentada em vivências reais imediatas, construídas, significadas, expandidas, inexploradas — somos a límpida revelação de nós mesmos; a Fenomenologia quer extrair a essência imutável dessa revelação. Deste modo, podemos afirmar que a Fenomenologia da morte é o estudo da essência imutável que reside em todas as expressões humanas em suas singularidades relatadas e vividas a respeito do morrer.
Sob as perspectivas atuais, notamos uma brusca mudança social onde a busca pela imortalidade é fulgurante e a morte é, cada vez mais, negligenciada — o fechar de olhos para o fim tendo o amanhecer sempre ao alcance das perspectivas. Naturalmente, com o avanço tecnológico, viver mais é uma realidade um pouco menos distante do que vinte e quatro anos atrás; podemos compreender, no entanto, que a temporalidade, ainda que prolongada, não pode ser extinta, pois, em si mesma, ela é o viver da forma que este se manifesta. Alcancemos a morte do morrer, continuaremos a existir no tempo. O tempo é uma vertente da morte e não há como parar o tempo.
Evidente que, como mencionado, a vivência da morte é única para cada humano e não investigo neste artigo relatos específicos sobre o assunto, mas discorro em reflexão sobre o que vem de encontro à minha consciência nos tempos atuais, busco, assim, a partir do que enxergo, extrair uma essência imutável de compreensão. Eis algumas pertinentes questões: Uma sociedade sedenta pela vida, poderia ser capaz de morrer? O tempo poderia ser a nova morte? Ou a finitude, ressignificada à imortalidade, caracterizar-se-ia pelo medo, o tédio e a angústia? Em resposta, a morte em si, como essência do fenômeno humano, constitui-se por todos os aspectos da finitude do ser, isto é, há morte no tédio, na angústia, no medo e no tempo — ser imortal, se podemos imaginar, não é o que fará desaparecer a morte.
Portanto, a escolha individual de negar ou aceitar o que a morte é em toda a sua significação, não poderá deixar de existir enquanto parte essencial do ser; somos para a morte mais do que somos para vida, sua substância integra todos os momentos e, portanto, nos faz — ontologicamente — para-a-morte. Envoltos à uma possível imortalidade, estaremos prostrados a um tempo eterno para a realização manifesta do que somos através de escolhas, mas não haveria a finitude enquanto impulsionadora desta disposição à escolha — o nos leva a deduzir que o tédio e a angústia tomariam esse papel. Teríamos todo o tempo disponível, e o quão angustiante isso poderia ser? Cabe, neste ponto, reforçar o aspecto indissociável do ser humano em relação à totalidade de sua realidade, desde suas manifestações subjetivas, à sua consciência direcionada e construída no mundo e com os outros — o que novamente revela a impossibilidade da morte deixar de ser a essência do ser, dado que sua ausência ainda seria um gatilho para a autenticidade do ser, isto é, para trazer ao ser uma “luz” de compreensão sobre si mesmo, levando-o à ação que corresponde, especificamente, na ação de existir.
Diante disso, a afirmação que traz o resumo de toda a compreensão discorrida é: mesmo na imortalidade, morreremos. A morte não pode ser encurtada ao morrer em si, pois sua significação está atrelada ao sentido de tudo o que o ser experiencia. A escolha singular de cada indivíduo os levara ou não aos sentidos da morte, mas os sentidos da morte, mesmo na imortalidade humana, sempre estarão presentes como estímulos essenciais para a realização do fenômeno do ser em seu mais puro desvelar-se a si.
Entre Mundos
Amor, se amares tu, nos sonhos mil, | Os versos adoçados de tristura | Que afloram de minh'alma feminil | Te juras me visar como escultura? …
Amor, se amares tu, nos sonhos mil,
Os versos adoçados de tristura
Que afloram de minh'alma feminil
Te juras me visar como escultura?
Marfim tão quedo e límpido limar
Tua fonte sacrossanta de paixão,
Irás tecer-me em trovas, teu versar,
No som das rimas doutas, escansão?
Segredo que me encalça bem silente
Saber os teus sigilos sobre nós
Amor, se te convém ser confidente:
Estou à letra tanto e sempre a sós,
Existo tão somente na Sonura,
Afora do viver mundano e atroz
Espero-te em mi'a lira-lar-candura.
Nota Sobre a Caridade
A mais valiosa caridade está na abertura para a compreensão. Compreender seus…
A mais valiosa caridade está na abertura para a compreensão. Compreender seus semelhantes é um ato de caridade, poupar-lhes da amargura de não ser entendido, mostrar-lhes que há ouvidos dispostos e atentos para suas dores e amores; esta caridade ameniza a solidão em seus aspectos aflitivos e revigora o espírito.
A caridade da compreensão é sutil e não pode ser filmada, pois sua essência e eficácia só aflora no íntimo contato com sua abertura. Quando nos permitimos compreender o outro em seu ser mais autêntico, somos incapazes de ascender nosso ego acima disso. É o ego que quer mostrar ao mundo suas boas ações. A caridade da compreensão é a única forma de caridade que nos obriga a calar o ego.
Ser caridoso é uma construção intrínseca, enraizada, que dá origem a diversas folhas e flores, até que se torne uma árvore frutífera.
Laços de Verão
Abraça-me que a chuva cai | Pacífica em gotinhas, vês? | Que a noite quente agora vai | Zelar por nós mais uma vez;…
Abraça-me que a chuva cai
Pacífica em gotinhas, vês?
Que a noite quente agora vai
Zelar por nós mais uma vez;
Presentes n’arvorinha e luzes
Regados por lembranças puras,
Livrando do pesar das cruzes,
Brindando a nós as grandes curas;
Noss’alma lacrimeja tanto
E os olhos vertem grand’encanto.
Aquieta-me na santa prece!
Sossega-te no afago calmo
Que canto, n’esta aurora, o salmo
Que guia e a paz tão mais floresce.
Aconchego
Luzes quentes cintilam dentro de lares cujo amansar de dezembro sorri gentil. Há neve lá fora…
Luzes quentes cintilam dentro de lares cujo amansar de dezembro sorri gentil. Há neve lá fora, flocos lívidos tocam os rostos corados e frígidos. Nôe caminha com sua amada Lillra no entardecer pálido, ela guarda em sua feição uma alegria serena. Estão juntos, isso é o que há de mais valioso em suas vidas naquele instante. Seus passos são marcados na neve até que cheguem, enfim, em sua singela casa de madeira.
A ceia iniciaria em breve, por isso deixaram o aconchego das luzes e do fogo da lareira e seguiram sem pressa até o bosque para colher as cerejas mais perfeitas em frescor. Receberiam, também, familiares íntimos, eram poucos, porém, especiais. Avistaram, por sinal, seus pais a espera deles assim que se aproximaram, os casais carregavam duas candeias cada, pois o sol já se punha.
— Deixe-nos ajudá-los com essas cestas — dissera Ordom, pai de Lillra. Ambos sorriam. Todos sorriam. O sorriso era o cumprimento, as boas-vindas. Amavam-se ainda mais quando o frio congelava os pés e, portanto, tinham de cobri-los com meias de lã. Amavam-se quando o cheiro de bolo de frutas amanteigado pairava no ar e as ameixas cristalizadas cobriam o manjar sobre a mesa. Abraçavam-se o tanto que não o puderam fazer no ano inteiro.
Aynile, mãe de Nôe, tocava com excelência o piano que fora herdado de seus pais e que, agora, foi passado à geração de Lillra — que não sabia tocar tão bem. Ao som suave e natalino, conversavam e cantava, sim, cantavam! Em coro e no balanço sutil da noite, a família libertava suas vozes graves e angelicais em um coral amável de hinos sobre amor e generosidade.
Não eram religiosos. Talvez, todavia, fossem. Mas, o que importava era o vínculo em vida, a vida perene que tinham; importavam as dádivas singelas que cultivavam. Dezembro era o mês que lhes servia como um retorno ao íntimo, reencontrando seus olhares infantis, porque na infância o valor da vida está tão somente no significado puro de viver.
Por isso seus olhos brilhavam. Eram pequenas luzes aquecidas pelo amor.
Às Sombras de Scar Narcht, Canto de nº III
Se o fado eterno rege a lei altíssima* | Decerto deve haver atroz —malíssima — | Ventura então…
Imagem criada por Sahra Melihssa
Se o fado eterno rege a lei altíssima*
Decerto deve haver atroz— malíssima —
Ventura então traçada em minha mão
De modo que ao crepúsculo a sanção
Enquanto eu me encontrava felicíssima
Punira-me co’a noite em gris arpão
Fincado ao centro d’alma, ó, languidíssima!
Foi quando aos céus-negror ela emergiu
E a prata-lume aos vultos afligiu
Deixando no horizonte um esplendor
De face tanto argêntea em vil fulgor
Eu vi da mi’a janela que se ungiu
Do pálido luzir versicolor
De encanto o meu semblante se tingiu…
— Quão belo! Que estupor inebriante!
Devora-me silente… angustiante! —
Clamei como menina em devaneio
Sequer notei que a aragem contraveio
Cingida à névoa lôbrega pulsante
M’ia tez a arrefecer — Demais receio…
Receio estar co’a mente delirante… —
A névoa fez-se breu tão densamente
Gemi mortificada e confidente
Pois nela reslumbrante olhos-palor
Serenos conduziram-me em pavor
Um grã pavor tão mórbido que ardente
Causava-me um enlevo inconsequente
Até se dissiparem sem pudor
Deixando-me amargura decadente
Querendo me afogar em seu horror.
A Presença
Vestida em damanoute enegrecida | Desperta e dos sonhares esquecida | Na muda…
Imagem criada por Sahra Melihssa
Vestida em damanoute enegrecida
Desperta e dos sonhares esquecida
Na muda escuridão pungente e morta
Senti certa presença à minha porta
Porém sonido algum, nem vil batida
Ouvi no cumarú que o umbral comporta.
Decerto estava, pois, eu mui confusa
Deitei-me ao leito lânguido, reclusa
— Talvez o horário esteja me inibindo
E a minha sanidade se embaindo —
Pensei relenta ao breu d’ngústia infusa
Até mi’a tez prever horror infindo;
Dealvando a face minha no rompante
No umbral ‘tava a presença necromante
Meus olhos em temor se comprimiram
Que às frestas tão mofinas difundiram
A aragem putrefata equissonante:
Os vis silêncios mórbidos se uniram
Ao pranto meu de agrura fulgurante;
A névoa negra logo condensou
E vi que a orla da porta se grisou
Havia, pois, só ela e nada além,
— Retorna à treva ruim que te provém! —
Mi’a trêmula voz tola esbravejou
Pujante que meu pânico aumentou
E a súbita coragem fé detém,
Abri com ódio a porta, nada além…
A límpida moldura me espelhou;
— Um quadro na parede, mais ninguém… —
Alívio! À solidão, meu puro amém,
Até que algo em mi’a nuca respirou…
Querida Lilaen, o mundo silente convida-me ao infinito dos teus olhos. Embora eu não possa ouvir tua voz, sei que ela é doce como mel…