Sangrando o coração em minhas mãos,
A carne carmesim desentranhada,
O sândalo do horror enquanto sãos
Olhavam-me co'a fronte embasbacada!
Ouviram dos vitrais o berro alto,
Clamaram por amparo às redondezas,
A noite era negrume em céu cobalto
Vidrando os olhos meus em sordidezas;
Assim talaram todo umbral em drama
Enquanto a negra sede já cessada
Poder de morte deu-me à minha flama;
A seiva que ebulia, eu transmutada
Em pássaro corvino à rama estéril,
Rompi pelas fenestras, abalada,
À tempo em retornar ao cemitério.
Se o fado eterno rege a lei altíssima* | Decerto deve haver atroz —malíssima — | Ventura então…
O sol floresce pálido em meu peito, | Recordo a noite lôbrega e soturna | Enquanto escuto vozes sobre o leito, | A fresta assopra aragem vil, vulturna, | Trazendo-me a fragrância fascinante…
Respiro-te alvo e vejo escuro o céu | Angústia e voz-silêncio pressentindo | Um sonho ou pesadelo, o vento, o véu | Da morte assim tão bela confundindo;…
Conduza o sonho qual está profundo | Inquieto em verve pulsa dentro, assim | Sem medo toque e exale-me fecundo…
Sangrando o coração em minhas mãos, | A carne carmesim desentranhada, | O sândalo do horror enquanto sãos…