Sede Profunda
Sangrando o coração em minhas mãos, | A carne carmesim desentranhada, | O sândalo do horror enquanto sãos…
Sangrando o coração em minhas mãos,
A carne carmesim desentranhada,
O sândalo do horror enquanto sãos
Olhavam-me co'a fronte embasbacada!
Ouviram dos vitrais o berro alto,
Clamaram por amparo às redondezas,
A noite era negrume em céu cobalto
Vidrando os olhos meus em sordidezas;
Assim talaram todo umbral em drama
Enquanto a negra sede já cessada
Poder de morte deu-me à minha flama;
A seiva que ebulia, eu transmutada
Em pássaro corvino à rama estéril,
Rompi pelas fenestras, abalada,
À tempo em retornar ao cemitério.
Às Sombras de Scar Narcht, Canto de nº III
Se o fado eterno rege a lei altíssima* | Decerto deve haver atroz —malíssima — | Ventura então…
Imagem criada por Sahra Melihssa
Se o fado eterno rege a lei altíssima*
Decerto deve haver atroz— malíssima —
Ventura então traçada em minha mão
De modo que ao crepúsculo a sanção
Enquanto eu me encontrava felicíssima
Punira-me co’a noite em gris arpão
Fincado ao centro d’alma, ó, languidíssima!
Foi quando aos céus-negror ela emergiu
E a prata-lume aos vultos afligiu
Deixando no horizonte um esplendor
De face tanto argêntea em vil fulgor
Eu vi da mi’a janela que se ungiu
Do pálido luzir versicolor
De encanto o meu semblante se tingiu…
— Quão belo! Que estupor inebriante!
Devora-me silente… angustiante! —
Clamei como menina em devaneio
Sequer notei que a aragem contraveio
Cingida à névoa lôbrega pulsante
M’ia tez a arrefecer — Demais receio…
Receio estar co’a mente delirante… —
A névoa fez-se breu tão densamente
Gemi mortificada e confidente
Pois nela reslumbrante olhos-palor
Serenos conduziram-me em pavor
Um grã pavor tão mórbido que ardente
Causava-me um enlevo inconsequente
Até se dissiparem sem pudor
Deixando-me amargura decadente
Querendo me afogar em seu horror.
Sangue Vestal
O sol floresce pálido em meu peito, | Recordo a noite lôbrega e soturna | Enquanto escuto vozes sobre o leito, | A fresta assopra aragem vil, vulturna, | Trazendo-me a fragrância fascinante…
O sol floresce pálido em meu peito,
Recordo a noite lôbrega e soturna
Enquanto escuto vozes sobre o leito,
A fresta assopra aragem vil, vulturna,
Trazendo-me a fragrância fascinante
Que vinda do assoalho umedecido
Desperta a minha sede devorante,
Ascende vida à morte em meu jazigo
E acende tal a luz impenetrável,
Espreito no silêncio que entardece,
A sombra nasce hórrida e agradável;
Envolvo meu amor que empalidece
Bem símil ao recanto de meu cerne,
Enfim todo o liquor rubro ensandece.
Às Sombras de Scar Narcht, Canto de nº II
Respiro-te alvo e vejo escuro o céu | Angústia e voz-silêncio pressentindo | Um sonho ou pesadelo, o vento, o véu | Da morte assim tão bela confundindo;…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa
Respiro-te alvo e vejo escuro o céu
Angústia e voz-silêncio pressentindo
Um sonho ou pesadelo, o vento, o véu
Da morte assim tão bela confundindo;
Nenhuma lua — vedes? Quão sombrio
Teus olhos na calada em verso pulcro
As presas e os murmúrios — arrepio
Deleito-me do horror, meu triste fulcro;
O sangue símil lembra-me das rosas
E as rosas tão singelas e sedosas
Se murcham são negrume carmesim
E então os pobres ínfimos espinhos
Definham sem calor e tão sozinhos
Igual eu sinto após teu beijo em mim.
Às Sombras de Scar Narcht, Canto de nº I
Conduza o sonho qual está profundo | Inquieto em verve pulsa dentro, assim | Sem medo toque e exale-me fecundo…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa
Conduza o sonho qual está profundo
Inquieto em verve pulsa dentro, assim
Sem medo toque e exale-me fecundo
Prelúdio umbroso, um beijo à fronte em mim;
A noite qual tu és desbrava a luz
Que íntima ao meu peito só te espera
Ouvindo grave a voz que mui seduz
E traz pr'o sonho amor que tanto esmera;
"Lerei co' afinco as linhas quais te escrevem.
Irei sorver-te tanto quanto entrevem
Os deuses sobre amores tão febris."
Jamais esqueço o verso tão seguro
Fitando os olhos vis que tens eu juro
Infindo honrar-te em flamas bem sutis.
Sangrando o coração em minhas mãos, | A carne carmesim desentranhada, | O sândalo do horror enquanto sãos…