Poesias, Amor Sahra Melihssa Poesias, Amor Sahra Melihssa

Flúmen de Amor

Amar d’infindas formas, amar…| E verte o meu amor como o mar | Querendo aos seres todos…

Amar d’infindas formas, amar…
E verte o meu amor como o mar
Querendo aos seres todos cingir
Gentil amá-los como o fulgir
Do sol ameno em puro cuidar
Ser água que da sede remir
Calor cá nos meus braços brandar.

Amar d’infindas formas, querer
Nos olhos teus tua alma entender
Histórias mil d’algures contar
E então cantarolando adoçar
A noite que em teu leito se erguer
Os sonhos te envolvendo, o trovar
Do céu da tempestade a fender.

Amar d’infindas formas, alvor
No nosso mais intenso fervor
Desejo de meu vivo clamar
P’ra’s cartas, redigir e versar,
Afagos de desvelo e valor
E toda a angústia vir se anular
No etéreo e raro manto do amor.

Amar com inefável esmero
Acima do julgar tão severo
Que faz o coração lancinar.

Por vezes em meu cerne verbero
Resiste este amor mui sincero
Nos vales d’este humano pecar?

Mas tendo em mansidão relembrar
Que se é lídimo o lume e tão mero
Há nada que o fará se arruinar.



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Cruel Delírio

Que ardor… Cri na mendaz ilusão | Teus olhos negros na escuridão | Fisgados por entre…

Imagem criada por Sahra Melihssa

Que ardor… Cri na mendaz ilusão
Teus olhos negros na escuridão
Fisgados por entre meus vitrais
Sutil luzido sob céus astrais
Enquanto o sopro frio em tua feição
Na aragem de aspectos brumais
Aluíra-me o infeliz coração.

Fui dentre os pinheiros te buscar
Nas sombras tua voz grave a chamar
Meus pés descalços, e eu tão marfim,
Que espinhos emergiram sob mim
Num negro roseiral de agoniar
Deixei um rastro em sangue carmesim
Horrores vis verti em lacrimar.

Que pouco a pouco a morte fatal
Viera à minha solidão cabal
Caíra ao meu ruir, ó, tão silenciado
Que fim; que epílogo consumado!
Roguei fraca por tu’alma abissal
Tal como fiz à tua cova, amado…
Tal como fiz no rito à catedral.

Senti tua presença eterna em tez
Fitei o envolto turvo em frigidez
Havia da noite a treva somente.

Tal como tu eras, intransigente,
Ela urgia muda, um mal imanente
Eu sob seu manto em languidez.

N’aurora, pois, voltei à lucidez
Tu foste a ilusão, ó, tristemente,
E eu só queria amar-te a última vez.



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Elo & Sinfonia

Tenaz opus sonda e cura, | O agravo do agora se cala, | Exornas-me a grã tristura, | Um gesto de benquerença…

The Violin Student (1891), por Stephen Seymour Thomas (1868 - 1956)

Tenaz opus sonda e cura,
O agravo do agora se cala,
Exornas-me a grã tristura,
Um gesto de benquerença
Que, pêsame, cor de opala
Análoga à sepultura
Por onde o violino avença
No amar-te que assim m’embala
Anseias-me na partitura.

Escarpa, os olhinegros cravar,
E a treva do abismo tu vês
Que sou, mas vens afinar
Portento opimo só teu
Abeiro-me em calidez
Cortejas-me no aurorar
Dos sóis do solo imo meu
Enfloro-me em languidez
E luro-me em teu firmar.

Se liro assim intrincada
Estimo quem és, me enlaço,
Mãos tuas, aprumo, enseada
Das águas do pranto lasso
De estar, pois, apaixonada.

Teu timbre compõe-me o ser
Portanto, que amanteigado,
O afeto e meu bem-querer
Aspiro o vir compassado
Afago teu âmago a arder.

E sendo já o anoitecer
Vibrando-nos resplendor
A aliança a me conceder
Vertendo-te ao seio-rubor.



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Centelha

Tornou-se o lacrimar a chuva minha | E o corpo meu que em medo se convinha | Nas águas puras…

Leveil du coeur (1892), por William-Adolphe Bouguereau (1825-1905)

Tornou-se o lacrimar a chuva minha
E o corpo meu que em medo se convinha
Nas águas puras logo se banhou
Dos antros pesadelos despertou
E a vida se ascendeu pr’o meu rogar
Gotículas translúcidas do amar
Dulcífera a tristura, então, se fez
As dores em adeus — em escassez
Enquanto d’este flúmen veio a fé
E n’ela a mi’a esperança em sã maré
Por onde uma missiva foi-me entregue
Trazendo-me a lembrança que se segue:
Um lume do Teu rosto ao meu olhar.



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Deste Século

Perceba que são tempos assombrosos | Àqueles cuja essência é tão sensível | Vivendo em vis…

 

Narciso (cerca de 1600) por Caravaggio (1571–1610)

 

Perceba que são tempos assombrosos
Àqueles cuja essência é tão sensível
Vivendo em vis quebrantos ominosos
Expõem-se, sem desejo, ao desprezível;

Declinam, pois, equevos, sem escolha,
Se amargam pelo vasto deslouvor
Que abriga tanto os modos quanto a folha
Por onde letra alguma tem valor

Daqueles com espelho em seus semblantes
Enquanto se assoberbam delirantes,
Aviltam-se na graça do olvidar

E erigem-se do inóculo do acaso,
Postergam a ascensão p’ra mascarar
Que estão fazendo o mundo ser mais raso
Urgindo alarde agudo sem parar.



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Yeshuah

Ardor d’algures pulsa em sofrimento | Nas sombras de tua imagem sacrossanta, | No peito o lacrimar d’um instrumento | De mor silente essência espelha, encanta...

 

Regina Angelorum (1900) e Pietà (1876), por William-Adolphe Bouguereau (1825 – 1905)

 

Ardor d’algures pulsa em sofrimento
Nas sombras de Tua imagem sacrossanta,
No peito o lacrimar d’um instrumento
De mor silente essência espelha, encanta...

Quem és senão um sopro postremeiro
D’uma alma de esperança terminal
Que entreve a Tua verdade, ó Mensageiro
Das honras mais humanas – és vital;

Nas balças sob as trevas ou clareiras,
Memória do sepulcro e das figueiras,
Hás dentro d’um talvez tanto ideal...

Por isso choro a morte e o renascer
E choro o nascimento, o infindo amor,
A fábula d’outrora em vir a ser
O lídimo acalmar da minha dor.



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Dueto com Marujo Poeta

Cruzaste os vastos pélagos cruéis | Dos mares nunca findos regressaste | Versaste amor na luz…

 

Nordic summer's evening (entre 1899 a 1900), por Richard Bergh  (1858–1919)

 

(Sahra Melihssa)
Cruzaste os vastos pélagos cruéis
Dos mares nunca findos regressaste
Versaste amor na luz d’alguns carcéis
Sozinho ao véu das águas aspiraste
Que fosse do oceano a dor e o canto
E não destes teus olhos desolados?
Que houvesse astro no céu mui sacrossanto
Levando-te aos caminhos meditados?
Segredas-me que o tempo diz teu nome
E orvalha a noite vil que me consome
Nos versos, de teu imo, entrelinhados.

(Marujo)
Com versos, transpassando-me de méis,
Já sabes que domado me deixaste?
Pois ora, desprovido dos anéis
Trocados com o mistério que fitaste,
Ensejo, desvelando-me do manto,
Sem medo de segredos revelados,
Em versos doloríssimos, em canto...
Falar-te que - nos mares navegados -
Desejo me conduz e me consome:
A um mar em calmaria, que se some
O brilho da aliança dos amados.

(Sahra Melihssa)
Teus olhos já reluzem co’este encanto
Talvez por tantos sonhos afogados
Decerto hás de sentir paixão que arome
Os ares que conduzem teu renome
De ser marujo em mares conturbados.

(Marujo)
Que sonhos com dulcífero recanto
Conduzem corações abandonados
Confesso! Mas, do canto, que retome
A sombra o que me causa o codinome
De náutico maior dos incansados.

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Dueto com Ricardo Zanela

Se credes em minha dor | Quanto odiais a compaixão, | Dama, fazei-me exceção, | Pois angustura e pavor…

 

The Poets Theme, por John Callcott Horsley (1817 – 1903)

 

(I) - Ricardo
Se credes em minha dor
Quanto odiais a compaixão,
Dama, fazei-me exceção,
Pois angustura e pavor
M'ativeram mudo em via
D'amor, canto e poesia:
Melisse, coisa que for,
Aconselhai-me, qual guia.

(II) - Melisse
Símil sou na vida minha
Às abíssicas sonuras
Mas, vem, trove tuas tristuras
Pois que invoco da andorinha
Todo o lume edificante
P'ra que a treva delirante
Qual sussurra e se avizinha
Vá s'embora e doravante.

(III) - Ricardo
Egéria, gélida bruma
M'enseja cordial suspiro:
Desabo, choro, me firo
Em grande amor que avoluma
Pior, álgido inconforto
Qu'ela, vendo-me quas' morto,
Não mantém piedade alguma,
Eis trevas, meu desconforto.

(IV) - Melisse
Que vil tortura, quão cruel!
Ouço o pranto tão revolto
Qual ecoa adentro, solto,
Em tu'alma de umbra e fel;
Se este Manto, gris, te chama,
Beije à Lira que balsama
Tuas angústias de papel
No versejar da tua flama.

(V) - Ricardo
A longínqua joia altiva,
Poesia, egéria Melisse,
Morna, como se partisse,
Tanto, tanto, que s'esquiva
Dos lábios a inspiração,
Que afonos sustam canção:
Língua já inexpressiva
Que vale à surda audição?

(VI) - Melisse
Seja, pois, a própria dor
Seja o teu tormento ardente
Ao pavor d'alma eminente
Devolvendo Lira, Amor...
Caro meu, se te enamora
Tal pesar que só te aflora
Cale a pena, regue a flor
Cujo caule é de Pandora.

(VII) - Ricardo
Egéria, a voz sibilina
Que usais, paço de ternura,
Conselha, não assegura,
Contra minh'opoente sina;
Se Egéria tal se interessa,
Bel, que me faça promessa:
A flor poética germina
Na angustura nada egressa?

(VIII) - Melisse
Deitas ao leito tranquilo
Que D'ela, o canto, ouvirás
Como o alvor e os seus sabiás
Soando belíssimo trilo;
E assim, no pranto rimar,
Verás musa, o estro lunar
A beijar-te, sem vacilo,
Como agora em teu rogar.

(Tornada I) - Ricardo
Aura diurnal pôde impor
Vossa jura, vosso alvor;
É dom que portais, Egéria:
Apreço de rósea flor.

(Tornada II) - Melisse
Sob, da Poesia, este manto,
Meu caro, de enlevo santo,
Morremos p'ra Ela em miséria
Vivemos por ode e pranto.

Conheça o trabalho do poeta Ricardo Zanela em seu Instagram, @ricardo_zanela

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Augúrio d’Inverno

Quão frígido há de ser este solstício…| Sinto os ares regélidos soprando | Mesmo à clausura, em febre, é propício | Que este tempo vil beije-me nefando;…

 

La Mélancolie (1785) - Louis Jean-François dit aussi Lagrenée, Louis, L'Aîné (Paris, 1725 - Paris, 1805)

 

Quão frígido há de ser este solstício…
Sinto os ares regélidos soprando
Mesmo à clausura, em febre, é propício
Que este tempo vil beije-me nefando;

Nesta grã solidão, profundamente,
Ouço o aljofre que vítreo faz remanso
À mirrada folhagem putrescente
Núrida¹ sob a paz de seu descanso;

Símil à cavidade do meu peito
Como a viva estranhez deste meu leito
Onde só o coração faz-se escutado…

Tanto pulsa em sonhar n’esta escassez
P’ra que minh’alma em verso delicado
Volte tal o estio volta ensolarado
P’ra sonura ser soneto outra vez.

Elucidário: ¹ Núrido (adjetivo) Que possui profundidade soturna e aspecto sublime.

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Âmago, tormento

É o soluço d'um pranto febril | Às lacunas d'um rosto amolgado | Pelas sombras de essência hostil | Onde o canto da morte é sagrado;…

 

Lumière sur l'épaule, 1895 by John White Alexander (American, 1856–1915)

 

É o soluço d'um pranto febril
Às lacunas d'um rosto amolgado
Pelas sombras de essência hostil
Onde o canto da morte é sagrado;

Nestes tais olhos-d'água negrume
Dorme o amargo indagar imortal
Arde tanto em meu peito que assume
Ser do fado, o horrendo arsenal;

É o silêncio de horror delirante
Cuja espera é calvário e sentido
Mil afogos compõem-me o semblante,

Mil espúrios condenam sorrindo
Minha lira, portanto, minguante
Pelas noites de aperto escaldante
Jaz n'orvalho da treva, pungindo.

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A Felicidade e a Razão

O pensar racional aplicado à quotidianidade resulta na felicidade em seu estado original…

Oil Painting Replica - Girl Thinking - Patti Mayor

O pensar racional aplicado à quotidianidade resulta na felicidade em seu estado original, pois que, embora seja profundamente invocada pela sociedade, a felicidade não é a euforia contínua, tampouco a graça do prazer eterno, muito menos o sorriso estampado na face; a felicidade é genuinamente um estado-de-ser, onde há equilíbrio emocional e consciência racional, de modo que o prazer é sentido com sobriedade e o desprazer compreendido com facilidade. Não há como ofuscar a obscuridade da existência, ainda que se viva debaixo de crenças acolhedoras; até certo ponto há acolhimento, a posteriori o encarar da natureza é preciso, o enxergar de sua constituição completa é vital — não para deixar-se abater, perdendo o controle das emoções e, consequentemente, minimizando a racionalidade que nos é tão própria; olhar para o abismo é puramente olhar para a nascente de tudo aquilo que há e que é; olhar, sentir e compreender, tudo no equilíbrio racional e na admiração emocional que nisto se cabe.

O des-velar é necessariamente o despreocupar-se com a mundanidade, e isso advém do racionalizar da existência em sua constituição própria. A quotidianidade não é culpada pelo afogamento do nosso ser e, consequentemente, das consequências devastadoras desse afogamento. O quotidiano é o que é, a natureza faz o que faz, as pessoas são o que são e somente o Ser-si-mesmo é capaz de modificar a realidade que o faz — e somente ele e somente a realidade que o faz, dado que a realidade como um todo não é modificada, as plantas continuarão sendo plantas e a vida humana continuará sendo desprovida de sentidos pré-determinados. No des-velar, portanto, reside a felicidade em seu estado original; pois o des-velar só se apresenta à medida em que nos dispomos à racionalidade — no exercício constante dela — em todas as instâncias da vida. Por fim, enquanto mundanidade, entende-se tudo aquilo encobre o exercício constante da Razão, onde o pensar é sufocado pela emoção desequilibrada sob sentidos extravagantes — a inconsciente do Ser-si-mesmo, a ignorância da existência, estas são as pragas que englobam tudo o que ofusca a Razão.

Entendendo que a Felicidade é o estado em que dispomos nosso Ser-si-mesmo a partir do exercício da Razão, compreendemos, portanto, que a Razão nos leva à compreensão plena e constante do mundo em sua mundanidade e, a partir disso, aceitamos nosso caráter de agente da — e apenas da — nossa própria existência individual. Quaisquer mudanças que fazemos no mundo humano — que achamos que fazemos — se trata tão somente do caráter de agende das pessoas que, pela razão, foram capazes de enxergar aquilo que você transmutava em si mesmo e, a partir disso, conseguiu-se abrir mais uma clareira na escuridão da ignorância. O exercício da Razão, pelo pensar, é o único capaz de desafogar o ser da ignorância; por isso não adianta tentar mudar os outros, é completamente antirracional desejar ser o “exemplo” aos demais, deve-se ser a si mesmo a partir do exercício constante da Razão, qualquer um que se afete positivamente por isso deve carregar o mérito de ter-se afetado positivamente pela mudança alheia, pois, se foi afetado, é porque exerceu a Razão. Em suma, não é mérito seu ser um “exemplo” às pessoas, é mérito das pessoas fazer você de “exemplo” — isto é, de serem capazes de, pelo exercício da Razão, entenderem uma nova perspectiva de vida a partir da observação e da compreensão; não é sobre copiar cegamente o modo-de-ser do outro.

Se é aí que a felicidade original faz morada e se é, ela mesma, um estado que nem sempre está vinculada ao prazer, então por que querer a felicidade original? Talvez seja mais interessante a euforia que é, pois, uma emoção de contentamento completamente descontrolada. A resposta desta indagação encontra-se somente no exercício da Razão que o Ser-si-mesmo precisa aprender a realizar, no entanto, o registro desta resposta também tem grande valor e aqui será redigida. Qualquer emoção descontrolada carregará consigo o descontrole das ações do indivíduo — descontrolar-se em seu comportamento trará consequências quais você não tem nenhum controle e absolutamente nenhuma previsão; qualquer emoção exagerada de contentamento terá um fim súbito de modo a gerar o efeito contrário daquilo que se sentia, isto é, um ciclo vicioso para o corpo em sua totalidade; qualquer emoção exagerada não está vinculada com a Razão, por isso não enxerga a realidade tal como ela é e, portanto, não coincide com a vida em si mesma — é antivida.

A Felicidade original é o estado de compreensão plena de cada situação que nos dispõe à certa emoção. Se estamos felizes, aproveitamos conscientemente desta alegria; se somos abraçados pela tristeza, somos capazes de compreender a sua origem e o porquê ela está ali, isso nos permite sentir se for preciso sentir ou deixar de sentir se ela simplesmente não tiver razão para estar ali. Ambos os casos são manifestações da Felicidade Original que só existe no exercício constante da Razão. Um exemplo evidente: Sente-se triste porque chove e não se pode sair de casa de modo confortável, essa tristeza é irracional, a chuva continuará caindo mesmo que você esteja triste e só quem se incomoda e perde tempo é você. A natureza é como é. Se você toma a decisão de ficar em casa, não há mais por que ficar triste, você já tomou a decisão e pronto. Se você ficar remoendo a chuva que cai, você estará consumindo a si mesmo e isso é irracional, pelo exercício da Razão compreendemos que consumir-se a si mesmo é antivida e imoral, não há nenhuma razão para que o ato de se consumir a si mesmo seja plausível. Por outro lado, se pelo exercício da Razão você entende que sua tristeza está enraizada em uma perda, um luto por alguém que lhe era importante e que se foi, tomar a decisão de deixar-se chorar e sentir é o mais racional a fazer, uma vez que quando amamos alguém e a perdemos, isso é de grande dor para nosso ser, devemos encarar esta dor, sentir, chorar e aprender com ela — e isso é a felicidade original. Quando não encaramos uma dor profunda, engolindo nosso choro e abafando nossa tristeza, transformamos a dor em trauma e o trauma nos consome.

O exercício da Razão, repito, deve ser constante; assim, mesmo sentindo profundamente alguma emoção, ainda sim estamos pensando, ainda assim somos capazes de ter consciência de nossas ações e da realidade tal como ela é.

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Suavinura

Um pranto verossímil em meu peito… | Nublados céus sombrios me absorvem… | Sozinha eu silencio, então me deito, | E os sonhos da existência me comovem;…

Um pranto verossímil em meu peito…
Nublados céus sombrios me absorvem…
Sozinha eu silencio, então me deito,
E os sonhos da existência me comovem;

Se houvesse uma razão p’ra ser sensível,
Se um lábio me zombasse espinhento
Seria então, o aperto, bem plausível,
Porém ao meu encontro só relento…

Orvalho do nublar que à noite veio
Contíguo a introversão que acolhe o seio
Da minha tão febril fragilidade…

Se viva estou, mui choro com a lua…
Qualquer sinal de pura inocuidade…
Se vejo flor nascer em minha rua…
Quão fácil é me doer a suavidade…

*Suavinura: Palavra que criei para designar um sentimento sensível, sutilmente triste de aperto e comoção profunda que surge por detalhes que são, geralmente, triviais. VER O DICIONÁRIO

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Há o Silêncio

O silêncio jamais se desfalece | E mesmo o falatório que oprimindo | Recua-o a si mesmo restringindo | Não o faz menor, pois mais o engrandece;…

 

Silence, 1800 - Henry Fuseli (Swiss, 1741–1825)

 

O silêncio jamais se desfalece
E mesmo o falatório que oprimindo
Recua-o a si mesmo restringindo
Não o faz menor, pois mais o engrandece;

Tal aura soberana é permanente
Detrás de todo o som vai se expandindo
É como um universo advertindo:
"Cingindo o tudo eu sou onipresente";

Terrífico mistério, mas bem-vindo
Seria aos deuses, pois, equivalente?
Quiçá maior e então antecedente?

Estariam a verdade omitindo?
Que o tal silêncio é a eternidade
Princípio, meio e fim - totalidade
Razão de ainda estarmos existindo.

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Uma Imensidão

Era manhã, mas, parecia entardecer. As nuvens estavam densas e pálidas, carregadas de uma chuva-talvez. O vento dançava as árvores e folhas ao sabor da primavera, enquanto o sol quente…

 

Karl Rosen (Latvian, 1864–1934) 

 

Era manhã, mas, parecia entardecer. As nuvens estavam densas e pálidas, carregadas de uma chuva-talvez. O vento dançava as árvores e folhas ao sabor da primavera, enquanto o sol quente tardava na imensidão; ele trazia, assim, uma calidez singular, soprava com um perfume próprio, não havia como assimilá-lo, é como a tranquilidade do oceano sob o pôr-do-sol; ou a chuva calma e contínua escurecendo o meio-dia; é a infância, sob os cobertores brancos, os olhos atentos ao desenho animado e o leite amornado com aveia. Parecia o som de um piano sereno ou a ausência de gravidade; uma manhã que fazia ser manhã por dentro, aconchegante, com meia nos pés e pensamento longínquo. É uma raridade, as clareiras do céu desvelando-se para brincar com a brisa em seu canto de silêncio. Foi assim, manhã, até o verdadeiro lusco-fusco; e a noite beijou o vazio por completo; sem vento, sem luz, sem sentido.

Eu percebi. Diversas vezes eu percebi. A exatidão do tempo. Sutil como uma pétala perdida ao desprender-se de uma margarida no topo de um arranha-céu — ninguém nota, mesmo que sua graciosidade chegue ao chão ou que se desvie para uma janela vizinha. É apenas uma pétala. É apenas uma pétala? Parece-me como o céu ser tão somente o céu, a chuva apenas a chuva — apenas, apenas? É como se fosse pouco, mas não é. Nunca será. Rege a existência cada sinônimo de sutileza, dos grãos ao orvalho; e o cântico dos pássaros pela madrugada vazia, banhada pelos sonhos do mundo humano, mundo daqueles que não se lembram de sonhar quando outro ciclo se inicia brindando a natureza das coisas como são. Eu me encontro nas coisas como são. Em como eu me sou. No entanto, cada alguém é uma ilha que, mesmo explorada, esconderá eternamente um mil segredos.

Não choveu naquela manhã, nunca foi uma promessa das nuvens que as lágrimas de seu interior embriagassem os lares, embora ao que cabe meu coração, meu lar de mim, chove até agora e ainda sopra o vento na mesma velocidade com o eflúvio da primavera vibrante em minha memória. É que a noite respira de outra forma, se antes acalmei as emoções pela razão da consciência da tenuidade de tudo, agora, à glória da madrugada-quietude, estou para o questionamento como a Lua está para a Terra — sou uma escrivaninha do quarto à meia-luz, sou a poesia de ser-me humana e da humana que fui; tudo o que aprendi, nas escolhas e nos risos e nas outras noites tantas em que a indagação dormiu ao meu lado — nas outras manhãs que pareciam entardecer. A companhia da introspecção, essa fleuma e essa verve, a vontade e a necessidade; um abraço e um tempo de apenas olhar, de apenas tocar — a introspecção do universo inteiro no pequeno imo desta que escreve pelos segundo de cada gota da chuva nunca prometida.

É peculiar que agora as letras se embacem como vidros de janelas fechadas, talvez por causa das janelas da alma que umedecem em cada íris — e costumam irrigar travesseiros. E não que me seja assim tão estranho, é que os anos se passam e nem todas as manhãs são a nostalgia do entardecer; eu apenas envelheço em certos cotidianos de todo-o-sempre e tudo passa e passa… pessoas passam… rasas e singelas — beijam o abismo que sempre preservamos entre nós, mesmo quando amamos tanto. O amor que me trouxe, se houver alguém ou algo que queira saber, ele é a razão, o amor — não o puro e imaculado, mas aquele que insiste apenas porque lhe traz uma raiz de sentido, um norte acolhedor. E eu sei que tudo era sobre o tempo ou sobre aquela manhã; contudo, se todas as palavras se unirem como a vida se une à morte e a morte à vida, elas se tornariam apenas uma imensidão — uma minha imensidão.

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Epílogo

Noturno — o silêncio — em sinfonia, | Às notas vagarosas como rios, | Escuto adormecida — a astenia | Do corpo embriagado em mil vazios; | O pêndulo — as horas — sem sentido...

 

Victor Gabriel Gilbert (1847 - 1933) - Resting, c.1890

 

Noturno — o silêncio — em sinfonia,
Às notas vagarosas como rios,
Escuto adormecida — a astenia
Do corpo embriagado em mil vazios;

O pêndulo — as horas — sem sentido...
A morte e a vida — canto de ilusão;
A fé — a lua — o âmago dorido
E a tênue linha desta solidão;

A dúvida — o preço — despertado
Os olhos sobre o teto imaculado,
O vento me assovia — a tempestade...

Terceiro movimento, inquietante...
O Gran Finale então — apaziguante;
Concerto da existência à finidade.

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Mar Teu

Estás onde? Em meu quente coração! | Assim adormecido e protegido | Sob uma aura esmeralda de emoção | Que lume, como céu deste infinito…

Imagem criada por Sahra Melihssa

Estás onde? Em meu quente coração!
Assim adormecido e protegido
Sob uma aura esmeralda de emoção
Que lume, como céu deste infinito…

E neste meu sonhar tanto plantamos
Palavras mil de amores tão serenos,
Regando-nos às chuvas quais amamos,
Nas pétalas carinhos bem amenos;

Amar-te, Azul, me alegra — é eterno…
Febril estado deste corpo meu…
Teu olhar âmbar é nobre — e fraterno,

Escolho descansar no mar, mar teu,
Que enlevo traz, afasta o triste inverno
E etéreo reluz sobre o torvo breu.

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Sangue Vestal

O sol floresce pálido em meu peito, | Recordo a noite lôbrega e soturna | Enquanto escuto vozes sobre o leito, | A fresta assopra aragem vil, vulturna, | Trazendo-me a fragrância fascinante…

O sol floresce pálido em meu peito,
Recordo a noite lôbrega e soturna
Enquanto escuto vozes sobre o leito,
A fresta assopra aragem vil, vulturna,

Trazendo-me a fragrância fascinante
Que vinda do assoalho umedecido
Desperta a minha sede devorante,
Ascende vida à morte em meu jazigo

E acende tal a luz impenetrável,
Espreito no silêncio que entardece,
A sombra nasce hórrida e agradável;

Envolvo meu amor que empalidece
Bem símil ao recanto de meu cerne,
Enfim todo o liquor rubro ensandece.

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O Ser Atemporal

Você ouve a sua própria voz em sua mente dizendo coisas para te acalmar ou te guiar na sua vida? E essas coisas são estranhamente muito sábias, como se a voz…

Imagem criada por Sahra Melihssa

Você ouve a sua própria voz em sua mente dizendo coisas para te acalmar ou te guiar na sua vida? E essas coisas são estranhamente muito sábias, como se a voz fosse mais emocionalmente estável, mais cuidadosa e mais velha que você? É sobre isso que este texto se trata, porém sob uma ótica bastante abstrata e fascinante.

Espera-se, no entretenimento e nos estudos profundos das ciências quânticas e singulares, que a viagem no tempo seja possível no porvir e tal fenômeno nos proporcione o poder supremo sobre toda a fonte de vida. É um sonho, de fato, tão ambicioso. Mas aqui resguardo a verdade de que, ao passado e ao futuro, viajamos com frequência.

Volto ao passado quando me lembro criança, e lembro das dúvidas da mocidade e o quanto, hoje, respeito aquela que fui. Posso ver-me adolescente, amargurada pelos horrores da transformação íntima vivenciada, mas sei que sorrio quando eu, neste presente, reconheço o valor dessa garota que fui. E há uma comunicação entre nós, difícil de explicar, mas eu chego a cogitar que a voz que ouço na mente desde criança é a voz do meu futuro eu, por exemplo agora, o que mais ouço é “você está indo bem, não tenha pressa, respeite seu tempo”. Na adolescência eu ouvia muito aquilo que hoje penso da minha adolescência quando me volto ao passado, por exemplo, “está tudo bem, fique calma, você pode buscar um abrigo na Escrita e essas coisas que te envergonham não precisam ser carregadas para sempre”.

É fascinante pensar desta maneira, porque sinto disso uma veracidade incontestável. É mesmo a voz de hoje que eu ouvia no passado e decerto o que ouço hoje é a voz do futuro. Estamos nos comunicando. Tenho até mesmo intuições vívidas sobre o que haverá no futuro, certezas que não sei dizer a razão, elas apenas existem e eu sei o quanto são reais, pois o Ser é atemporal, derivado do cosmo, da natureza, e de tudo o que há, numa única linhagem de vida que compartilha uma consciência coletiva que se expande como o universo.

O leitor então pensa: “que loucura abstrata é essa?”, ora que a mente humana não se encaixa no método cartesiano, tampouco no raciocínio plenamente lógico e menos ainda no sobrenatural. Somos seres de natural intuição e de profundas habilidades que, para muitos é delírio, imaginação ou quaisquer manifestações divinas. Uma mente aberta, uma mente que não se satisfaz, ela consegue ver além do que se mostra ao perscrutar curiosa, atiçada pela dúvida eterna, os pormenores mais irrelevantes. Daí emerge as experiências mais puras e, por fim, atemporais. Mas, claro, o ideal é fazer isso com os pés no chão, sem sacrificar a racionalidade, sem sacrificar aquilo que somos.

Se você leu até aqui, devo-lhe uma explicação mais detalhada. A Consciência é atemporal, mas a nossa forma física não o é. Dentro do mundo físico temos a lei do tempo linear, e entenda “mundo físico” como tudo o que há na Terra em que vivemos, isso porque quando ao sairmos da Terra, o tempo já se modifica e as leis são outras. Portanto se o tempo é relativo desta forma, há de se esperar que o passado e o futuro não existam em “tempos específicos”, eles existem no tempo como um todo que, por sua relatividade, nos faz um convite à compreensão de que o tempo é atemporal.

A Atemporalidade une todos os momentos do tempo, enquanto escrevo este texto, estou nascendo em 1994 e estou concluindo meu curso de Psicologia em 2019. Para mim houve uma linearidade, porque no mundo físico, as impressões e percepções são principalmente regidas pelas leis que o governam, no entanto, para a minha consciência ou Ser — como você preferir chamar — tudo se expande e se transforma ao mesmo tempo. Somente minha consciência tem acesso a isso, porque embora ela esteja dentro de um corpo físico, sua constituição é o cosmo, absolvida das regras terráqueas, disponível aos dons da atemporalidade, mas, claro que estes dons são contraídos e bem sutis, afinal de contas, a consciência ainda está no corpo físico que habita um planeta que existe dentro de um tempo linear — aqui posso concluir que só acontece dessa forma porque não temos habilidades o suficiente para vivenciar leis diferentes, ainda temos muitos problemas primitivos para compreender dentro das leis do nosso mundo.

Portanto, quando no presente do meu corpo físico me vêm à memória uma época passada da minha infância onde senti determinada emoção; revivo a emoção, pois que, na verdade, ela está acontecendo naquele momento, naquela época, enquanto me recordo. Então meu corpo no presente físico, para se acalmar da emoção intensa, diz: “Respire, isso já passou, você consegue se livrar desse sentimento, apenas espere um pouco”. Esse “dizer” que pode ser apenas um mentalizar, alcança a consciência atemporal e chega até meu “passado”, por isso tenho tantas lembranças de ouvir esse apaziguamento, na infância e na adolescência, da minha própria voz mais madura dizendo coisas que eu, naquela época não poderia dizer a mim mesma, dada a minha imaturidade.

Eu constantemente ouço esses apaziguamentos, a minha própria voz dizendo coisas em minha mente que precisariam de muita sabedoria para serem formuladas, e eu tenho apenas vinte e sete anos, a minha sabedoria não se compara ao tanto de sabedoria que a minha própria voz em minha mente demonstra. Isso só pode significar o seguinte: O meu eu do “futuro”, mais sábio, mais prudente, vivido por tantas experiências, está me ajudando a existir em todas as fases da minha vida desde que nasci. Estamos, eu passado, eu presente e eu futuro, construindo juntos a nossa história e talvez você pense: “então já está tudo predestinado, o seu futuro existe na atemporalidade por que tudo já deu certo?”, é isso, mas não se trata de uma predestinação sobrenatural ou espiritual, o destino só foi possível porque dentro de minha conexão com a consciência atemporal, a minha vida foi possível.

E, bem, digamos que eu cheguei a tais análises ontem mesmo, então preciso analisar mais para explicar mais coisas. Pode ser que, por necessitar da cognição para se comunicar, a consciência só “venha à tona” após certa idade quando a personalidade já se moldou melhor; ou não, pode ser que ao nascer, no primeiro movimento de consciência, tudo se forme ligeiramente na atemporalidade, como portas e caminhos. Há muitas possibilidades, eu sei, e espero que até a velhice eu tenha desvelado mais desta descoberta fantástica, porque depois de anos sob uma cegueira advinda da religião e depois de anos cega pela ciência, ser capaz de ver além de tudo isso é fascinante demais para mim! E estimula cada célula do meu corpo.

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