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Escrevo

Escrevo, | pois que amanhã | impossível; | Escrevo, | pois que amanhã | não cheguei; | Escrevo, | pois que amanhã | sonho findo;…

Imagem criada por Sahra Melihssa

Escrevo,
pois que amanhã
impossível;

Escrevo,
pois que amanhã
não cheguei;

Escrevo,
pois que amanhã
sonho findo;

Escrevo,
pois que amanhã
já mudei.

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Espiral

Saber-me-ei | ao luzir do devir, | nos amanhãs, | turvos outroras…

Saber-me-ei
ao luzir do devir,
nos amanhãs,
turvos outroras
tão meus.

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É possível estar pronto para a tecnologia?

Há umas semanas escrevi o artigo “Não estamos prontos para a tecnologia” — considero, inclusive, que ele seja lido antes deste…

Jonelle Summerfield

Há umas semanas escrevi o artigo “Não estamos prontos para a tecnologia” — considero, inclusive, que ele seja lido antes deste. Notei, a posteriori, que algumas pessoas defendem o abandono pleno das redes sociais, mantendo somente as mais importantes que são, no geral, uma de entretenimento amplo e outra de contato com as pessoas via mensagem e ligação. Comprei esta ideia por algum momento até perceber que, à distância, não se pode aprender a lidar com um estímulo negativo.

Em outras palavras, se abandonarmos completamente o uso de todas as redes sociais, não evoluiremos individualmente para sermos capazes de viver nas próximas eras que, pelo que tudo indica, será cada vez mais tecnológica. Precisamos desse contato com as redes sociais para que tenhamos mais consciência de nossas escolhas. Algo que o ser humano desenvolveu tão pouco é a consciência de suas próprias escolhas e a capacidade de assumi-las em todas as suas consequências boas e ruins.

Não é uma convivência fácil, conhecer os próprios limites é importante para isso. Conseguir conviver com o mundo virtual requer uma mudança gradual de compreensão da realidade; você terá que ver a vida humana de outra forma, fazer sua mente aceitar que as redes sociais são desperdício de tempo e, a partir disso, decidir se vale a pena perder esse tempo que poderia facilmente agregar valor se usado para alguma outra coisa mais interessante e/ou importante. Você pode escolher perder meia hora do seu tempo aos domingos, ou aos sábados, ou numa quinta-feira de trabalho exaustivo; mas, como eu disse, é preciso ter consciência da escolha e de suas consequências.

Se você decide conscientemente que pode e deve perder trinta minutos do seu tempo em um aplicativo de vídeos curtos, deve estar pronto para lidar com a montanha-russa de emoções que vai ativar diversos hormônios em seus órgãos internos, você poderá rir e chorar várias vezes nesses trinta minutos, você terá raiva, ódio, medo e também terá sua autoestima e libido afetadas. Ao término dos trinta minutos, você pode sofrer uma resistência mental em fechar o aplicativo — que é feito para te manter nele a todo o custo — e, se conseguir fechá-lo, poderá sentir uma estranha necessidade de voltar a ele ao longo do dia, além de ter dificuldades de dormir a noite por causa da quantidade de estímulo mental em tão pouco tempo.

Escolhas e consequências. Como lidar com isso? Posso dizer como eu lido. Começo a ver os vídeos curtos do aplicativo, se um deles me emociona, eu paro de assistir e fecho o aplicativo; se um deles afeta minha autoestima ou libido, eu faço o mesmo. E abro o aplicativo uma vez por dia e nunca depois de três horas antes de me deitar para dormir. Além disso, o tempo máximo para utilizá-lo é de dez minutos. Vale ressaltar que geralmente assisto de dois a cinco vídeos curtos nesse aplicativo, porque tudo o que vem ali é feito para te emocionar, dificilmente completo os dez minutos. Já no site de vídeos mais longos, uma hora, dia sim e dia não — isso porque neste caso eu posso escolher pontualmente o que irei consumir, então é de minha responsabilidade saber escolher corretamente; não adianta tomar atitudes e depois sabotá-las.

Você não precisa fazer o mesmo que eu faço, no entanto, perceba o quão consciente é preciso estar para perceber cada emoção e sentimento que esses estímulos trazem sorrateiramente; não é nada fácil, principalmente quando se está habituado à altas doses de estimulação. Nesses casos, quando diminuímos a quantidades, tendemos a ficar ainda mais em disforia.

Alguns experimentos comportamentais com ratos mostram que quando um rato deixa de receber comida ao abaixar a alavanca — tal como ele recebia antes, isto é, já estava condicionado, já aprendeu a abaixar a alavanca para se alimentar — ele tende a abaixá-la dezenas de vezes consecutivas. O mesmo funciona para nosso corpo. Quando cessamos o estímulo contínuo que dávamos ao cérebro, tendemos a ficar ansiosos e nervosos porque o cérebro está fazendo de tudo para retomar o nível de estímulo que ele estava tendo. É como se ele estivesse abaixando a alavanca do estímulo continuamente na esperança de “reativar” o estado anterior. Depois de um tempo, se você não ceder, o cérebro se acalma, a mente se aquieta e você para de sentir os sintomas da disforia. Mas pode levar semanas até todo o processo estar completo e, durante esse tempo, você pode ter várias crises — que são resolvidas com facilidade se você se alimentar bem, dormir bem e fazer no mínimo trinta minutos de exercícios físicos todo o dia.

Portanto, sem dúvida é possível estar pronto para a tecnologia, contudo, como se pode notar, é preciso uma intensa autolapidação e, na verdade, essa consciência, essa capacidade de notar seus estados mentais, perceber o que te faz mal e compreender as consequências de suas escolhas é algo de extrema importância para todas as instâncias da existência humana. Não vale a pena se afastar completamente das redes sociais para sempre, podemos tirar um tempo delas, um tempo para que possamos acalmar nosso cérebro e deixar de sentir os sintomas de disforia; mas precisamos aprender a conviver com as redes acima de tudo e, principalmente, precisamos aprender a conviver com nós mesmos respeitando nossos limites e nossos potenciais, até porque o único trabalho que realmente dignifica o ser humano, é o trabalho do autoconhecimento e autoconsciência.

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Sejamos gentis

Sejamos gentis. Se possível, na maior parte do nosso tempo, que estejamos conscientes de que as pessoas ao nosso redor possuem vivências, verdades…

Edvard Munch - At the Coffee Table (1883)

Sejamos gentis. Se possível, na maior parte do nosso tempo, que estejamos conscientes de que as pessoas ao nosso redor possuem vivências, verdades, ignorâncias e conhecimentos que nós não possuímos. Isso deve reger nossas falas e comportamentos, isso não significa deixar de lado a espontaneidade particular que tanto nos caracteriza, tampouco sufocar nosso próprio eu para proporcionar algo bom aos outros. Ser espontâneo, cuidadoso e autoprotetor são modos que podem perfeitamente coexistir e, conforme coexistem, costumam se mesclar em uma única coisa que faz bem para nós e para aqueles que são nossos semelhantes.

Sejamos gentis porque boa parte do mundo não é; e quando uma pessoa agressiva ou intolerante se depara com a gentileza, muitas coisas podem acontecer em seu interior, a semente da gentileza pode não brotar de imediato, mas ela permanecerá ali e a cada nova gentileza, ela continuará se fortalecendo lentamente até que possa, por fim, brotar. E se, por mil razões, ela não brotar; mal ela não fez.

Sejamos gentis conosco, porque nem sempre estamos prontos para ser gentis com os outros e isso não deve nos ser um fardo. Errar é humano, ainda que nos dias atuais nos soe como um absurdo imperdoável cometer um erro comum. Esse ódio pelo erro é reflexo de uma geração inteira que passou sua infância com medo de errar e ser considerado estúpido ou incapaz. Essa mesma geração passou por momentos de violência por outra geração que entendia que educar só podia funcionar por opressão. Por isso, hoje, cheios de horrores mentais, nós tendemos a querer destruir à força qualquer manifestação dessa violência. No entanto, precisamos entender que poucos são aqueles que são potencialmente e conscientemente maus, no geral as pessoas apenas não saber agir de forma diferente e são o que são no modo automático de suas vidas partindo sempre de suas próprias histórias e escolhas individuais.

A gentileza nos abraça e abraça as pessoas ao nosso redor, isso não significa aceitar e concordar com as suas e nossas falhas recorrentes; mas sim nos capacita na compreensão da individualidade de cada um, o que nos leva a ter mais controle de como falamos e como incentivamos as pessoas a pensarem sobre seus atos violentos. É o mesmo efeito da semente que citei no segundo parágrafo. Infelizmente devemos aceitar que nós não podemos mudar os outros, ainda que os prendamos, ainda que os cancelemos, cada indivíduo é responsável por sua própria evolução pessoal. As pessoas ao redor são apenas pequenas doses de consciência que cada indivíduo escolhe tomar para si ou não tomar.

Então sejamos gentis, porque todos, inclusive e principalmente eu e você, já escolhemos não tomar consciência de algo importante que estava sendo transmitido a nós e a cada dia fazemos novamente essa escolha com cada novo estímulo. Se você quer ter mais consciência da sua escolha, seja mais gentil, quando você decide ser gentil e tomar mais cuidado consigo e com os outros, você tende a reparar mais no que vem ao seu encontro e, reparando, você compreende; compreendendo, você escolhe tomar ou não aquilo para si. Abandonar a inconsciência de suas escolhas é algo muito poderoso, ser gentil te levará a esse superpoder.

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Não estamos prontos para a tecnologia

Nós estamos nos enganando quase sempre em que acessamos a Internet, porque é imensa a ilusão de que somos especiais aqui. Isso faz com que…

Jonelle Summerfield

Nós estamos nos enganando quase sempre em que acessamos a Internet, porque é imensa a ilusão de que somos especiais aqui. Isso faz com que acreditemos que nossa opinião e nossa vida precisam ser postas à mostra de todos. A primitiva necessidade do ser humano de ser ouvido e compreendido tornou-se perigosa, pois, neste cenário, oprimimos e humilhamos aqueles que não concordam conosco ou que não conseguem nos entender ou, ainda, aqueles que não passam por nossa “aprovação”, isto é, por nosso tribunal de falsa moralidade. A busca por um sentido de vida através das telas tecnológicas nos trouxe disforia, porque aqui o tempo voa, tudo acontece em segundos e a montanha-russa de emoções nos leva a um profundo estado de abstinência, ansiedade e medo.

A vida real é lenta. Os relacionamentos precisam de anos de dedicação para que possam dar certo, além de muita dedicação mútua que requer paciência, tolerância e cuidado. As amizades precisam de anos de convivência para que cultivem confiança, precisam de muita verdade mútua compartilhada em momentos de grande valor. Um trabalho requer horas e mais horas para ser feito e mais incontáveis horas para ser aprendido e, por fim, para que seja aprimorado, é preciso anos. Um conhecimento valioso nunca vai caber em cinco minutos de vídeo, muito menos em quinze segundos. Um conhecimento valioso só será retido por seu cérebro se você estiver em contato constante com esse conhecimento, caso contrário ele descansará no leito da memória de curto prazo que se apaga depois de algum tempo. Na vida real você não apaga o que acabou de dizer como se fosse uma mensagem que te trouxe arrependimento, na vida real você tem que aprender a saber o que dizer e como dizer, além de enfrentar a frustração de cometer um erro e não poder facilmente apagá-lo.

A obviedade do que eu escrevo não exclui o fato de que é um assunto que precisa constantemente ser relembrado e mencionado a todos àqueles que existem no mundo humano; isso porque, como você pode perceber, a realidade virtual está destruindo a pouca empatia humana, pois a faz ser seletiva, isto é, ou nos comovemos demais com os outros a ponto de doarmos tempo, dinheiro e holofotes a eles, ou as odiamos a ponto de acabar com a vida dessas pessoas, cancelando-as em tudo o que comporta a existência delas. Mas a empatia, em sua forma original, é um sentimento que um indivíduo cultiva por todas as pessoas, inclusive aquelas que erram feio ou que fazem coisas imperdoáveis. Isso porque a empatia não é o mesmo que dó ou compaixão; ser empático é ser capaz de compreender e respeitar as glórias e as inglórias dos outros. Ser empático é doar tempo para ouvir e é estar aberto para aquilo que há de ser dito quando a oportunidade se faz presente. Essa conturbada falta de empatia acontece justamente pela negligência que temos com nós mesmos.

A tecnologia, contudo, não é a culpada da negligência humana; aceitar que o erro está em nossa inabilidade em lidar com as nossas dificuldades e emoções, além das nossas profundas erronias no que diz respeito ao âmbito social intersubjetivo, é uma atitude adulta e coerente, pois que, sim, nós somos os culpados. Escolhemos o ecrã brilhante nas horas em que deveríamos escolher tão somente um rosto amigo. E ainda que, para nós, seja apenas “uma olhadinha” nas notificações, é nessa “olhadinha” que as coisas se perdem, pois, se você reparar com atenção, ela acontece frequentemente. É assim que depositamos na Internet, através de uma tecnologia cada vez mais singular e perfeita, toda a nossa incapacidade de lidar com nosso próprio Ser, em contra partida transformamos nossa incapacidade, via esta mesma ferramenta, em um monstro incontrolável, cego, julgador e manipulador. Esta realidade se transforma à essa maneira por um motivo assustador: a distância que existe entre nós — tanto do “eu” consigo mesmo, quanto do “eu” com os outros — quando nos conectamos, por meio de uma interface amigável, nesta imensurável rede de códigos.

Há os que defendem o mundo virtual pelo fato de “aproximar” pessoas; eu mesma conheci meu companheiro em uma rede social, estamos juntos desde dois mil e quinze. No entanto aqui descansa a indagação que deve servir como um alerta: Será que a distância não é precisa para que saibamos aproveitar a presença de modo vívido e inesquecível? O equilíbrio entre a distância e a presença não seria, pois, a razão pela qual aprendemos a viver superando a nós mesmos? E este equilíbrio não seria também preciso para a nossa solitude? Nas redes estamos sempre acompanhados por estímulos que se comunicam impedindo o silêncio nadificante que precisamos para nos conectar com a nossa solitude e, por isso, por vezes, somos tomados por uma angustiante soledade que aumenta drasticamente a nossa disforia. Agora, em uma simplória análise, posso afirmar com certeza que não estamos prontos para a tecnologia que estamos desenvolvendo. Deveríamos, antes dela, ter aprendido a compreender a nossa existência humana.

E, não, eu não sou contra a internet, tampouco contra a tecnologia, na verdade eu tenho grande paixão por ambas, mas, com o tempo eu estou percebendo que este lugar é só mais um lugar e que tudo o que reside aqui é apenas um por cento da minha vida e, desta porcentagem tão ínfima, somente um terço dela, senão menos, é real. Porque aqui usamos avatares na maior parte do tempo, trazendo à vista alheia um “eu” completamente deturpado. É preciso cautela, é preciso aprender a usar todo este poder que nós mesmos estamos nos presenteando com. Às vezes é preciso deixar que o sentimento de saudade perdure mais, antes que façamos uma videochamada com a pessoa que nos dá saudade. Deixar-se sentir aquilo que vem aos sentidos, ao coração e à alma e levar à sério este silêncio, esta ausência, este tempo que passa tão devagar.

Dias desses vi um amigo ouvindo uma mensagem de áudio que alguém o enviara, este áudio estava acelerado em 2x. Era quase impossível de compreender para mim, e aquela voz falando rápido me trouxe angústia e ansiedade de modo instantâneo. Fiquei perplexa com aquilo, com o fato de meu amigo ouvir todos os áudios daquela maneira. Fiquei ainda mais chocada com o fato de ter me afetado tanto com aquilo, foi uma sensação de sufoco como se alguém apertasse a minha garganta.

A vida não se passa na velocidade acelerada em duas vezes, e nessa loucura em otimizar o tempo, a nossa disforia só aumenta e usamos, pois, a internet e toda a tecnologia, para compensar cada uma das nossas frustrações descontroladas.

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Laslum

Tuas asas se abrem lívidas ao céu | Tens face em palidez símil às nuvens | Mãos negras estendidas, nenhum fel, | Com olhos carmesim de sangue em flúmens…

 

Horace Vernet (1789–1863) - The Angel of Death (1851) - Detalhe (Manipulação de Imagem por Sara Melissa)

 

Tuas asas se abrem lívidas ao céu
Tens face em palidez símil às nuvens
Mãos negras estendidas, nenhum fel,
Com olhos carmesim de sangue em flúmens;

Transmuta-se alguém que muito amei,
Por hora és um demônio e também homem,
Um anjo horrendo e belo — opus Dei — 
Lhe temo com afãs que me consomem;

Emerge em sonhos tristes, devagar,
E em noites cuja relva queima o ar
Recita o verso fúnebre por fim;

Tão próximo deleita o meu perfume
Ardor e solidão, tão pouco lume,
Afogo-me no assombro em frenesim.

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O Chamado

Ó fardo este infinito penumbral | Uivando seu silêncio que me amarga | Às vísceras, o medo sepulcral, | Isola-me na prece - minha adarga; | Serena imensidão, revela o peito,…

 

Nicola Samorì, Valle umana (Malafonte), 2018

 

Ó fardo este infinito penumbral
Uivando seu silêncio que me amarga
Às vísceras, o medo sepulcral,
Isola-me na prece — minha adarga;

Serena imensidão, revela o peito, 
Debaixo desta noite, sussurrando
Que os ares tão sombrios são-me o leito
O qual hei de jazer-me suplicando;

Mas como eu poderia imaginar
Que os ventos do obscuro abominar
Buscavam servilismo etéreo e pleno

E n’ávida aflição que estive tanto
Tangível me rendi regada ao pranto
Tomei do algar das sombras o veneno.

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Dilúvio

Beijou-me tão suave à noite quente | Por tempos infindáveis degustou | Da úmida, lasciva e caulescente | Bebeu do cimo qual embriagou;…

Beijou-me tão suave à noite quente
Por tempos infindáveis degustou
Da úmida, lasciva e caulescente
Bebeu do cimo qual embriagou;

Tomou p’ra si a gruta, diligente
Sorveu sensível como mui sonhou
Por tantos meus murmúrios, mi’a torrente
Tão cálida por horas destilou;

E ainda quando o ápice emanente
Tão próximo e voraz, acalentou
O orvalho de mi’a pele então fremente

Fez vir a febre qual se perdurou
Tão logo assim me olhando intensamente
Á fonte abundante penetrou.

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Experiência

Órbitas saltadas por tal horrífico, Manhã fria como o cadáver deitado, Um som à mente penetra sombrífico, Que o rubi líquido verte alarvado; […]

 

Nicola Samori

 

Órbitas saltadas por tal horrífico
Manhã fria como o cadáver deitado
Um som à mente penetra sombrífico
Que o rubi líquido verte alarvado;

Atenção angustiosa ao vil vazio
Passos ocultos, poço da ilusão
Há ninguém sob o efêmero alívio
Mesmo assim eu revivo uma oração:

“Pai nosso que estais no céu, tão amado”
Completa a voz sinistra: “santificado” 
E ecoa como um grito no abismo;

Meu tremor se ergue símil a um rei
E a gorja é entrave ao ar que pensei
Ser a fonte de meu vital niilismo.

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O Lago Sombrio

Nas minhas vis oníricas vivências, Estive em profundezas obscuras, Foi dentre o arvoredo de imanências, Que vi medrar assombros e loucuras, […]

Moonlit Alpine Landscape, 1827. Painted by Oswald Achenbach

"Olho para dentro do lago, para a gruta que abriga parte de sua extensão. Meu corpo treme, o seu frio é como um abismo sem fim que exala do manto orvalhado que o rodeia…"
— Sahra Melihssa

Nas minhas vis oníricas vivências
Estive em profundezas obscuras,
Foi dentre o arvoredo de imanências
Que vi medrar assombros e loucuras

E lembro-me d'um sonho recorrente:
Um lago de nascente em uma gruta
Envolto um arvoredo contundente
Que canta e rega em morte quem escuta;

É nele que perdura algum jazigo
E deste seu negrume exala medo
De outroras, guarda horrores lá consigo…

N’um úmido silêncio, horror-enredo,
Escuro como o abismo, é tão medonho!
Receio, pois pressinto a cada sonho
Que logo externará o seu segredo.

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A Sonância Escarlate

Meu horror não tem rosto, tampouco forma ou, ainda, constituição. As sombras mais negrumes das sextas-feiras mais insólitas conduzem-me…

Zdzisław Beksiński

Meu horror não tem rosto, tampouco forma ou, ainda, constituição. As sombras mais negrumes das sextas-feiras mais insólitas conduzem-me sempre à lembrança, ressuscitando aquele lôbrego som em minha mente atormentada. Estou fadada à loucura perene desde que deixei aquele lugar — o qual não me recordo ao certo os seus pormenores e, confesso, prefiro que tais reminiscências descansem em paz sob a mortalha do esquecimento, pois diante a condição atual qual me definho, todo olvidar é alívio. O que sei é vago sobre todo o âmbito daquele lugar amaldiçoado e mais ainda do ser, o mensageiro do diabo, que trouxera à luz da vida a composição terrífica do antro mais obscuro de todo o cosmo. Desde aquele dia, perdi minha voz… e não há doutor especialista capaz de identificar algum problema. Se ouso falar… tudo o que ouço é a música espargindo de minhas cordas vocais e penetrando meus órgãos como execráveis agulhas imanentes.

Havia um convite sincero, era para ser um dia especial… como pode haver tamanha desgraça no inócuo encontro de pessoas que se amam? Estávamos naquele bar, nosso entusiasmo era genuíno e emergia de nossas mais recentes conquistas, entretanto, por sorte — a sorte que eu não tive — Eric teve de atender a um telefonema urgente que o fizera deixar o bar pelos eternos segundos em que eu, sozinha, encontrei a hediondez da sonância macabra. Foi a última vez que Eric ouviu a minha voz na sutil expressão da paixão etérea; hoje o que me resta é a imortal prostração, embora eu tente, por amor, ainda sorrir. Sei que aos poucos estou sucumbindo, senão pela música que se repete indefinidamente por cada poro de minha pele, então pelos pesadelos diários culpados de minha insônia e das constantes paralisias oníricas — e como me dói ter de escrever a respeito disso… se estou aqui é tão somente pelo meu dever moral, tendo ciência de que devo alertar a todos sobre o que sei, prevenindo-os de sofrerem o que sofri e que sofro, mas que fique claro que eu não voltarei a redigir sobre o este assunto, eu estou cansada de fazer relatórios e mais relatórios sobre o pior momento de toda a minha existência para que, no final, façam da insanidade a única conclusão possível; este será o meu relatório completo e o único a ser entregue à todas as autoridades que precisarem de meu depoimento. Nunca mais trarei à tona este assunto e ainda que no futuro todos os inquéritos sejam retomados, apenas não me procurem! Tudo o que os senhores precisam se encontra aqui, somente aqui.

Tratava-se, portanto, de uma noite de jazz, com a exibição de um músico que, como Eric já vos deve ter dito, não lembramos do nome e tampouco da razão pela qual ele foi especialmente chamado a se apresentar. Tudo naquela sexta-feira foi incerta a partir do momento em que adentramos o insidioso local. Sua atmosfera era incomum, embora tentássemos não pensar a seu respeito, era evidente que algo estava errado… agora é mais que evidente… ah, se eu tivesse dado ouvidos à minha intuição, tudo poderia ter sido diferente. O lugar era potencialmente repulsivo, não pelas instalações, infraestrutura ou atendimento, mas pela aura. As lâmpadas tremeluziam com aspecto espectral sobre as mesas e pessoas de modo a potencializar uma atmosfera inominável; quando fiquei sozinha na mesa, tudo o que eu sentia era frio, mais e mais frio pelo sopro gélido que pairava no ambiente fechado, a cada segundo, conforme o horário da apresentação se aproximava.

O rosto do músico é indefinido, não sou capaz de descrever o homem, ou mulher, eu não sei, eu apenas fui subjugada de súbito por uma nota que se estendeu melancólica em timbres mórbidos inenarráveis. Foi tão célere quanto impactante, e eu lembro, numa perfeição incontestável, que todas as pessoas que apreciavam a noite naquele local horrífico desapareceram como fantasmas logo em que a música se alastrou e, no mesmo instante, a aura supracitada revelou-se integralmente quando uma névoa encarnada, de odor profundamente idêntico à sangue, veio à tona encobrindo meu corpo. O pavor me consumiu, e eu não tive forças para afastá-lo, pois que o momento insondável esconjurou a deplorável sensação de morte, decadência e danação em proporções insuportáveis. Foi nessa hora que minha garganta foi contorcida e a falta de ar culminou meu desespero, foi uma dor intolerável e tão peculiar como a música que prosseguia fúnebre e maldita tal como deve de ser o riso perverso de uma besta do abismo — a mesma besta que decerto fragmentara os ossos de todo o meu aparelho vocal ainda que a ciência insista em dizer que está tudo intacto!

Agora o que vem é o que menos será aceito pelo mundo, todo o horror que vivenciei por causa da cruciante sinfonia não durou mais que um segundo. O músico infernal? Era como se nunca tivesse pisado naquele palco e Eric insiste em dizer que o sujeito sequer se apresentou naquela noite. E as pessoas que vi desaparecem? Continuavam com seus jantares normalmente. E a névoa escarlate fétida como seiva fresca? Apenas inexistente. Tudo acabou — parecia ter acabado — e quando Eric voltou à mesa, me encontrou morrendo de dores lancinantes na cabeça, a dor era símil às mais agônicas enxaquecas e meus globos oculares latejavam, desolados no caos. Senti enjoos e torturas, as náuseas eram tantas que implorei, no sussurro mais confrangedor, para que fôssemos embora enquanto nada, absolutamente nenhuma lembrança da situação sobrenatural, residia em minha mente. A minha confusão mental naquela noite é assentida pelos sete psiquiatras que passei como responsável pelas “alucinações” ou “fantasias oníricas” que tive a posteriori, todavia eu sei muito bem que não se trata disso.

Pelos dias que se seguiram após a situação que eu sequer me lembrava, a bizarra sensação persecutória nasceu prematura, isto é, tão logo em que deixamos o bar; uma impressão impertinente e contínua; sua duração? Eterna. Ainda hoje sinto estar sendo observada quando me deito na cama para dormir, ou se cozinho com Eric pelas manhãs; não importa o dia, nem a hora, à minha visão paralela pertence as sombras encarnadas como a névoa daquela noite; e o cheiro de sangue sempre germina como uma asquerosa erva daninha, embora não seja pior do que a música, a obstinada canção que desde a saída do bar esteve em minha mente. Saibam que se trata de uma composição funesta, só pode ser, pois o que tem de esplendor, tem de dantesco! Ela contorna a minha psique com uma perfeição tétrica que me afoga em severa algia e, antes de perder a voz, eu a cantarolava de modo inconsciente a ponto de me oprimir aos dissabores mais pulsantes vindos de um umbroso confim que jamais saberemos onde é — aliás, é melhor que sequer investiguemos, pois que foi na busca por respostas que eu naufraguei minha alma na ínsula do desolador átimo esquecido.

As devotadas terapias causavam-me amargor, pois eu tinha de repetir sempre a mesma história, reclamar sempre das mesmas dores; e todos os meus psicólogos e psiquiatras pareciam unanimes sobre a necessidade de prosseguir com as consultas semanais; Eric sabia que eu estava exausta, o resultado que eu buscava estava apenas — e cada vez mais — distante. Dos médicos especializados em toda a fisiologia de meu corpo doente, eu já havia desistido, ninguém entendia as dores pungentes na cabeça, tampouco na garganta; para eles era somatização fundamentada em neurose e, com esta hipótese, terapia era o único caminho. Mesmo diante do meu infortúnio e fadiga exorbitante, aceitei ir a um último psiquiatra, o Dr. Frederico, este, por sua vez, se diferia dos demais, pois, trabalhava com hipnose. Graças a ele eu encontrei o que procurava. Meu alerta é contumaz e é evidente que as autoridades me reconhecerão — e reconhecem, convenhamos! — como doente mental, mas decerto que n’algum momento há de vir à tona uma curiosidade peculiar, alguém há de se sentir instigado a entender o que houve comigo. Digo, repito, tomem cuidado para onde vão, mas não insistam em demasia na empolgação da descoberta, pois que eu insisti e bastou uma única sessão para eu me lembrar de tudo, tudo o que já vos descrevi… e mais…

A música cantarolada todo esse tempo, que trazia meu declínio à angústia permanente, estava inacabada; porém na hipnose ela me veio em completude cruel além de todas as cenas daquela sexta-feira maldita. Sonante pelo inferno mais fascinante e horrendo, notas contínuas de um piano medonho causando nada mais além de constante exasperação e fobia. Minha garganta foi outra vez dilacerada ao ouvir a composição completa e meus olhos se cobriram pelo sangue que eu tanto sentira exalar. Dor, dor agonizante, abri meus olhos antes mesmo de sair do transe e de uma forma assustadora eu vi o Dr. Frederico com um espectro rubro, ele era nada além de névoa fantasmagórica, escarlate, com deformidade cadavérica e a sua nitidez, enquanto toda a sinfonia da loucura, o jazz da minha inabalável ruína, clamava, ensurdecedor, aos meus tímpanos; é palpável para mim, cada cena, todas as vezes em que adormeço. Diante do manto medonho que cobriu minhas retinas naquele momento, lembro-me de cair sobre o chão na lentidão mais avassaladora, dominada pela atmosfera de violenta abominação, e que chorei o sangue das notas macabras e que, também, perdi a minha voz para sempre.

Os senhores jamais entenderão o que é perder a voz para sempre, ainda mais quando se sente, dia após dia, noite após noite, que seu pescoço é envolvido pelas mãos malignas de uma criatura translúcida e cetrina que aperta, oprime e esmaga sua traqueia a cada piscar de seus olhos insones… e mais do que isso, até hoje o jazz melancólico me causa crises de pânico e, numa dessas mordazes crises eu tive uma considerável perda de audição — e essa é a única prova palpável que os senhores terão de mim, a prova que traz à tona a veracidade deste relato, por mais que vocês insistam em desconsiderá-lo. Está tudo anexado a este documento e trilhões de cópias já foram criadas e direcionadas a investigadores, policiais e outros tantos profissionais — e todos os laudos das constantes perdas de audição que me vêm ocorrendo desde a sessão de hipnose estão assinadas por diversos doutores especialistas na área que poderão, e hão de sempre o fazer, confirmar cada exame, cada vídeo e cada relatório técnico que afirma, confirma e explica, que meus tímpanos sofrem da mais estranha anomalia, pois vibram, vibram como se estivessem continuamente expostos a algum tipo de ruído excessivamente estrondoso… de caráter alarmante… vinte e quatro horas por dia… Enganam-se, contudo, se tomarem para si a ideia de que o jazz do espectro encarnado está diminuindo também diante a minha perda de audição; não, a música maldita permanece ensurdecedora e ela nunca… nunca termina.

 
 
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Pensares Nímios

Buscar-se n’água oculta — negro mar — | que jaz nas curvas desta mente insana, | parece tanto eterno — infindo lar — | dos vastos pensamentos…

 

Nicola Samorí

 

Buscar-se n’água oculta — negro mar —
que jaz nas curvas desta mente insana,
parece tanto eterno — infindo lar —
dos vastos pensamentos — como engana!

Sei lá se cá me entendo os versos pálidos
ou s’esta solidão interna chora,
eu sei somente as noites de ouros cálidos
que são-me só um raro sonho, embora…

O sol luzindo — vês? — em lua nova
é como respirar além da alcova
de ser-se humano assim — fado imortal;

Pretendo, em jura, não deixar que o peito
faleça pelo excesso de afeito
enquanto o vil sentir me faz brumal.

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Conto “Recorrência” de Sete Abismos - Versão Original em Inglês

I was spending hours there; it was as if I was losing…

Como revelado em meu livro Sete Abismos, o conto Recorrência é uma adaptação e tradução do conto Recurrence que escrevi em inglês. O idioma foi escolhido em razão de seu poder de síntese, portanto cairia muito bem na transmissão do que eu pretendia explorar com o personagem Misthe. Aqui você poderá ler, portanto, o conto original, escrito em inglês, que deu origem ao conto Recorrência que está no livro.

 

 

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa

Recurrence

I was spending hours there; it was as if I was losing all my life in fifty fragile minutes, and those eyes behind round and large glasses, the ticking of the clock. Something was very wrong there. However, I could not say anything; there was a big sign on the white wall in front of me: Do not speak, keep silence. Next to me, a woman wrapped her arms around herself; her clothes were white and she was barefoot. I can hear her breathing. Small noises and I start to sweat. I can hear steps in the distance. I was rubbing my hands over my eyes; my eyes were burning. How else could I bear it? Any type of electronic couldn’t get there; they had even confiscated my keys; I was forced to take off my contact lens! Because of that, my eyes were burning. "Sir Misthe?" - I hear a soft female voice. I get up and look towards the silhouette. "Could you come with me?" - I move my head to show that, yes, I will go with her; after all, there was no other choice.

Through the halls, doors in light gray. My vision was already driving me crazy, I could swear that in one of those doors was a small window, in this window was something strange. It was like an animal, I swear I saw. However, it was also a person, a woman with short and dark hair. I rubbed my eyes. Damn myopia. Suddenly a sound invaded my ears, I put my hands over my ears and my body bent down, I looked up and saw the silhouette walking without me. I tried to tell the woman to wait for me, but my voice was no way out. The fault was of that damned sign that called for silence. "Sir Misthe?" - I heard. I looked at the silhouette. A soft voice before the silence. "Could you come with me?" - She said. - I moved my head to show that, yes, I will go with her; after all, there was no other choice.

I do not know for sure about the things that happened there, but I was there and I felt it in my veins. The fear. Some things do not need detailed explanation. “Sir Misthe? – I heard again. “Are your eyes ready for surgery?” -- I looked at her; in my forehead was the purest expression of horror. – “Surgery? Are you crazy? I don't even know what I’m doing here at all; how can I accept this?” – “Just keep calm, sir, we're all in trouble here. It is a tough choice, I know, you have your time to decide. Call me when you need.” – She left the room. “Abandon all your expectations” – I heard a whisper, but there was no one there but me.

I looked around quickly, desperately; I felt fear. “Who is there?” – I asked the nothingness. No one answered. I do not know for sure about the things that happened there, but I was there and I felt it in my veins. The fear. Some things do not need detailed explanation. I got up and walked towards the exit door; I touched the doorknob, but I was afraid to open the door. I looked back, I looked around, and I looked up. I was, really, alone. I decided to look through the keyhole.

The whisper… I have not looked through the keyhole, the feeling was unique, and I felt uncomfortable. I knelt. My eyes began to water and my heart was tight. What could I do? Life was no longer the same, the meaning had undone. Sometimes we struggle to believe that the possibility is in our favor, but it is not. When the first tear fell at the white floor, I saw the blood. I looked in panic at the door; my vision stained with blood; the door was open. “Why do you do this to yourself?” – There was a woman standing there in front of me. I could not see her perfectly. However, she was beautiful. The whisper that she gave me. The whisper…

"Sir Misthe?" - I heard a soft female voice. "Could you come with me?" – I looked at her and I smiled, the clock was still on the wall and I had no other choice but to go with her.

II

"Sir Misthe, welcome back"

My tongue has become fiery rock and my cries are the silence of my soul. To die would be my only luck. Something is wrong with me. I know you will come again and order silence, just as the damn sign on the wall. I did not forget the lava you made come out of my brain.

"Oh, Misthe, please drink her" you said. Your tongue has always been fiery rock.

I'm fine, before you ask me. I went back to that room and the only truth I had was chaos. The girl was transformed into a living flesh demon. I can’t see the light. You sewed my eyes, you sewed! But I still see that girl. It's like she's inside me... Stop! Stop laughing! I will not go with you anymore, no, I will not.

"It's time to take your medicine, Sir Misthe" she said.

"Damn it! What did you do to me?"

"Sir Misthe, it's all in your mind."

You look at me, I know it even though I cannot see you. I hear your breath. I smile.

"I'm fine" I say before she asks me.

Alone again. First, I still hear the clock. The water tastes like blood. "Drink her" I remember. Something is very wrong here, I slept for five years while you extracted my organs; my lungs exhaled volcanic smoke. The visions are stable, I've never been alone.

"It's all inside you, Misthe."

I've never been alone.

I get out of bed. I spit the narcotic. I'm dizzy, I'm cold. The more I walk towards what I think is a door, the more I feel strange. But how can I know? The curve of the wire glues my eyelids. Suddenly the light. I scream, and the intensity makes me fall to the ground.

"I can see again!"

The first image comes under the door. There is a great hall there and the people ... Oh my god ... People are eating each other like cannibals. I throw up my lunch, even though I have not eaten anything for five years. Then I hear a sound coming from the right side. A mirror reflects my body. Numerous eyes have been implanted in my skin and I can fill ... I can fill with all of them.

"What the fuck did you do to me?"

"Stay with me, I'll give you everything" I hear you whisper.

“Who are you?” – I shout.

I break the mirror, I'm learning to master my new eyes. Behind the broken glass is a door with a small window. "Could you come with me?" I hear the voice behind the door. I approach the small window and there I can see ...

"Could you come with me?"

The tick of the Clock.

"No! Don’t move your head to say you go with her!"

My twenty eyes are burning.

"No, you bastard! Dont’t go with her!” – I scream.

"Sir Misthe?" – I look back. "We will begin the twenty-first surgery."

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Às Sombras de Scar Narcht, Canto de nº II

Respiro-te alvo e vejo escuro o céu | Angústia e voz-silêncio pressentindo | Um sonho ou pesadelo, o vento, o véu | Da morte assim tão bela confundindo;…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa

Respiro-te alvo e vejo escuro o céu
Angústia e voz-silêncio pressentindo
Um sonho ou pesadelo, o vento, o véu
Da morte assim tão bela confundindo;

Nenhuma lua — vedes? Quão sombrio
Teus olhos na calada em verso pulcro
As presas e os murmúrios — arrepio
Deleito-me do horror, meu triste fulcro;

O sangue símil lembra-me das rosas
E as rosas tão singelas e sedosas
Se murcham são negrume carmesim

E então os pobres ínfimos espinhos
Definham sem calor e tão sozinhos
Igual eu sinto após teu beijo em mim.

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Queira-me de joelhos

Queira-me de joelhos bem assim | Lábios na calidez te pertencente | Ébrio do anelo vívido p'ra mim | Beijo de sabor tanto envolvente;…

Queira-me de joelhos bem assim
Lábios na calidez te pertencente
Ébrio do anelo vívido p'ra mim
Beijo de sabor tanto envolvente;

Sorvo-te na garganta e teu gemido…
Faço só ao teu prazer, amante,
Forte como as tuas mãos — fluído
Teu lívido liquor verte pulsante;

Bebo trêmula, o tanto que venero
Tal mastro espesso vil como te quero
Busco pelo domínio de tua mão;

Dor — a pele carmim sob teu mando
Como então elucidar amor infando
Vivo em minha tão profunda sujeição?

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Às Sombras de Scar Narcht, Canto de nº I

Conduza o sonho qual está profundo | Inquieto em verve pulsa dentro, assim | Sem medo toque e exale-me fecundo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa

Conduza o sonho qual está profundo
Inquieto em verve pulsa dentro, assim
Sem medo toque e exale-me fecundo
Prelúdio umbroso, um beijo à fronte em mim;

A noite qual tu és desbrava a luz
Que íntima ao meu peito só te espera
Ouvindo grave a voz que mui seduz
E traz pr'o sonho amor que tanto esmera;

"Lerei co' afinco as linhas quais te escrevem.
Irei sorver-te tanto quanto entrevem
Os deuses sobre amores tão febris."


Jamais esqueço o verso tão seguro
Fitando os olhos vis que tens eu juro
Infindo honrar-te em flamas bem sutis.

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Nunca-estive

Vislumbro na evidência os teus olhos vazios pela infinitude ardente que carregam no silêncio. A beleza da tua máscara negra, os pés de teu eu de morada em meu ideal…

The Mask of Sanity - Ray Donley

Vislumbro na evidência os teus olhos vazios pela infinitude ardente que carregam no silêncio. A beleza da tua máscara negra, os pés de teu eu de morada em meu ideal — caminhando devagar sobre as reticências quais me pertencem. Ouço tua voz noturna e esqueço quem tu és para quebrantar o sopro do sonho ainda tão jovem… e quão bem realizado o sufocar até à morte do sonho impertinente; veste tu a máscara que te veste, de uma vez por todas! E assim adormeço serena à perfeição do adeus célere. Para o plano onírico, o verdadeiro fim; teu beijo enquanto repouso, teu vazio de nunca-estive no abrir de meus olhos cansados.

 
 
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Vilviren

Luz pálida nos frios cantos | Memórias de mudos prantos | Rubro líquido sobre a mesa | E a taça-cristal — reluz atro — | Partida em silêncio — o rastro…

 

Raven, Vera Velichko

 

Luz pálida nos frios cantos
Memórias de mudos prantos
Rubro líquido sobre a mesa

E a taça-cristal — reluz atro —
Partida em silêncio — o rastro
Da única vela inda acesa;

A mortalha da noite — o leito —
A vil solidão sem despeito
À presa que jaz na alfombra,

O vão entre os ossos do torso
Nenhum fragmento-remorso
Habita o agouro da sombra.

 
 
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