Sozinho
Eu não fui, desde a tenra e pura infância | Tal como eram todos — nem ganância | Tive símil — sequer vi como viam — | E as paixões que estimei não podiam …
Edgar Allan Poe
Eu não fui, desde a tenra e pura infância
Tal como eram todos — nem ganância
Tive símil — sequer vi como viam —
E as paixões que estimei não podiam
Vir da mesma primavera de lei;
Meu peito em só pranto — nem despertei
Regozijos sob tom andorinho —
E tudo que amei — tanto amei — sozinho;
Foi na aurora infante a fundação
Da mais tempestuosa vida — então
Viera todo algar do bem e mal
Ao mistério que me cinge abissal —
Da torrente ou da remansa nascente —
Da rubra falésia do monte sedente —
Do sol abrasador que me circunda
Em matiz outonal de áurea profunda —
Do luzir pujante no firmamento
Que passa por mim como agouro vento —
Dos trovões que a intempérie exprimiu —
E a nuvem que em tal forma se assumiu
(Quando anil era todo o céu restante)
De um vil demônio vindo ao meu semblante.
O Epílogo Anunciado
Deito-me às páginas, rubras letras cursivas; no âmbito dos sonhos habito tendo à alma o eflúvio de minha própria seiva. Nas sombras oníricas eu o encontro…
Florence Fuller - Inseparables (1867-1946) Detalhe
Deito-me às páginas, rubras letras cursivas; no âmbito dos sonhos habito tendo à alma o eflúvio de minha própria seiva. Nas sombras oníricas eu o encontro, alado ser notívago e esquálido, beleza núrida¹! Traz consigo o semblante da luz sombria e ao redor de seu esplendor há flores mortas. Olhos felinos, besta humana de nume composição; belíssimo! Mórbida beleza para uma única busca inebriante: a minha sujeição. Hesito, ainda que atordoada; ele me chama à sua glória abissal e, no meu observar tão extático — a sentir que me rarefaço a cada instante — , o livro que protege as minhas letras — e o meu espírito — se evidencia no pomo solene da besta que me chama.
Ao fitá-lo, desperto; acordo fulminante e certa de que devo escrever o que vi… o que senti…, no entanto não há mais sangue à pena, nem folhas ao diário que tão súbito revela-me ausente. Roubado! Ó, sim, levado de mim tal como se leva a alma d’um moribundo. A criatura o levou pelos meus pesadelos com a sua dantesca imagem fascinante quando me deixei ludibriada em seu manto de revelação; estava preso ao pomo de seu poder… Meu pobre imo… meu pobre imo em letras e sangue estará na eternidade sobre o altar de condenados n’um templo sombrio n’algures do universo… a menos que eu o reencontre no desvanecer do sono profundo, o sono profundo é a única escolha.
Vozes sibilares do inverno que se esparge — fogo algum crepita, veste alguma protege. Uma única vela — a única luz — se apaga pelo sopro das cordilheiras. Outro espaço… caminho pelo macio gelo enquanto sinto meus pés necrosarem. Preso ao pinheiro, com arames envoltos a carne fresca animal, uma única página do que se perdera de mim, à força, pela atrocidade do apoteótico. “Estou no sétimo sono, à sétima noite, sob sete palmos, ao sétimo cântico do limbo.” — Li-o, era a minha própria letra cursiva, rubra-enferrujada, reli-o, era a minha própria voz no pântano obscuro do sonhar que desfazia. Outra noite sem sucesso; a cada hora meu corpo se desprendia da alma, a cada ínfima hora afastada do centro de meu ser, das palavras quais me guiam nas sombras do novo mundo, o nadificante núcleo da ausência crescia.
Terceiro sono, lua cheia. Luminosidade dos vales onde o pecado é a sombra da inocência. Meu corpo rasteja pelo labirinto negrume criado de altos muros e árvores mortas de estatura gigantesca; sinto minha respiração densa, sufocada pela aura maligna que descansa no âmbito onírico que me cinge. No entanto, no pousar de uma coruja misteriosa em galhos secos do último carvalho fitado pelos meus olhos ardentes, uma folha em seu bico cai como pena sobre meu semblante já tão consternado. Está vazia. A nulidade que compõe suas entranhas vocifera meu horror pálido e posso visualizar com a perfeição de uma águia a destruição iminente de meu diário roubado pela criatura alada. Desperto, terceiro sono, maldita lua cheia.
Sem força alguma, debaixo de minha própria vitalidade que símil ao vapor se esvaía de mim. Esperei pela quarta imersão no pulsar do entardecer e ela, tão atemporal, não tardara; no quarto plano sonial respirava um dia pálido e seco, nenhuma criatura soturna poderia contemplar a desértica fauna e flora enquanto o astro, no firmamento, no seu ápice cuspia fogo e lava. No horizonte, entretanto, destacava-se uma cruz sem réu; uma cruz que sussurrava meu nome na melancolia de uma elegia. Fui levada até ela frente ao meu desejo peculiar de ouvi-la mais de perto, fui levada pelo sopro quente impetuoso que tão cálido tocava-me a ferir cada centímetro de minha cútis. “Aqui jaz O Diário” — eu li sobre o túmulo mórbido. Em desespero cavei com minhas mãos em carne viva e como, como doía! A dor era real e hoje, ainda, persiste. E mais real que minha decadência, à sete palmos: o diário, o meu diário, rachado, rasgado e ferido, repousava morto.
Meus olhos abriram e levantei meu tronco, célere, a janela do quarto aberta trazia o frio das sete horas da noite. Uma hora de sono, uma mísera hora, e minhas mãos cuja areia adentrava pela carne exposta não puderam alcançá-lo na fundura da cova tórrida e seca. Meu pranto em horror faminto, lágrimas de adeus e agrura. “Por quê?” — bradei ao vazio. “Eu que nada fiz contra deus algum, nem à vida pacata reclamei ou ao caos da solidão fui contra em meu abismo… Eu análoga ao ser mais desprezível, ao verme, ao grão, ao escarro do átomo… tudo o que significava para minha ínfima constituição era o livro que me guardava a alma e ainda assim dele fui desprendida…” — lamuriei. Curvei-me, então, à insônia e nela me obriguei a morar enquanto nenhuma resposta atravessava-me os sentidos.
Quinta noite, escleras avermelhadas, pupilas dilatadas. Sonho algum. E assim da quinta à sexta noite, quebrado o silêncio pelo tênue som que vinha, eu sei, cobrir meu corpo com a mortalha que eu intuía, mas, não ainda; pois que do som veio a medonha criatura de beleza tamanha tal como a morbidez; o homem deificado, alado, de essência animal, felino, no plano da existência real, longe dos sonhos, longe dos pesadelos. Aterrorizada, às pressas para o canto do quarto lúgubre, buscando com tanto afinco um esconderijo. Nenhum diário no pomo, desta vez, eu me preparei para o meu fim, sete palmos, sétima noite. A ave-criatura-ser, besta celestial do inferno, revelou, portanto, no cântico do limbo, que o diário perdido fora perdido dele e de mim, ele que vivera pelo diário desde a página primeva quando nela dei vida, em letras conturbadas, a uma entidade protetora de todo e qualquer diário existente em terra humana. A força das palavras que me tinham o trouxeram, enquanto entidade deificada, mórbida e exuberante, atemporal e consciente; soubera da perdição do diário e em sonhos, profundos, tentou resgatá-lo pelo vínculo tão primitivo ainda que dele já não precisasse mais para se manter entidade-criatura.
Oh, mas não, nem mesmo ela e nem mesmo outro deus-demônio é capaz de curvar a linha da morte sem rompê-la e nem os céus, nem o inferno, nem a destrutiva humanidade poderia impedir que a hora chegasse e que o sepulcro tão fúnebre se adiasse para sempre. Ouvi, atenta, a dor da criatura-besta que tão logo ao dizer-me a verdade, desvaneceu-se à minha frente seguindo à imensidão cósmica de sua morada e deixando, como piedade, a vida retomada ao meu coração agora triste, profundamente amargurado em razão da amarga e fatídica verdade que eu não sou capaz de redigir com clareza, pois que meu luto, e minha saudade, ó sim, a minha lânguida solidão e o meu langor, estes sim são os únicos a possuir imortalidade.
¹ Núrido (adjetivo): Que possui profundidade soturna e aspecto sublime. VEJA O DICIONÁRIO
Dia Quente
Seus olhos contavam-me alguns segredos, embora seus lábios estivessem resistentes à fala por preferirem outro tipo de comunicação….
Seus olhos contavam-me alguns segredos, embora seus lábios estivessem resistentes à fala por preferirem outro tipo de comunicação. Sim, eu havia entrado na livraria dele, pequena e cheia de livros antigos e, sim, eu havia olhado fixamente para seu rosto e a reciprocidade foi tão imediata que a excitação emergiu para aquecer ainda mais aquele dia fumegante. Ele atendia um jovem quando me aproximei da prateleira frontal, desviei meus olhos para as capas e os títulos, um deles me chamou atenção, segurei-o e folheei, perdi-me em seu interior poético até sentir-me sutilmente fria, algo incomum para aquele verão escaldante.
Olhei ao redor, ele não estava mais no balcão. A porta de sua livraria estava trancada, eu sabia, mas tentei por duas vezes abri-la até que senti o calor de seu corpo rente às minhas costas. Tremi.
— Os livros precisam de uma temperatura fria, mas amena, adequada para que se preservem sem se umedecerem — explicou. Senti suas mãos tocarem meus cabelos e àquela altura havia um doce rio mélico escorrendo dentro de mim. — Vamos para um lugar mais quente? — ele questiona e segura, com uma delicadeza inimaginável, a minha mão esquerda. Apesar da delicadeza, sua mão era firme, grande e um tanto áspera, tal como aprecio.
Andamos juntos para os fundos da livraria e adentramos um cômodo, semelhante a um estoque de produtos, nele habitava uma escada. Subimos. O andar de cima era uma casa, pequena como a livraria, no entanto aconchegante. Havia uma cama de casal próxima à janela a qual mostrava a rua agitada, o comércio a todo vapor. Era meio-dia. Um raio de sol incidia bem no centro da cama e as cores de terra e madeira evidenciavam-se para um ambiente em abundantes tons de terracota com nuances esverdeadas pelas plantas que residiam em alguns recantos.
Era a casa de um homem, mas não qualquer um; tratava-se de um homem cujo desejo se manifesta no fogo e se alastra no suor vívido da paixão. Ele foi à cozinha quando chegamos, era um único ambiente; pôs-me em direção à cama, para eu me sentar. Pegou na geladeira um copo d’água e bebeu, devagar. Olhava-me atento, talvez túrgido, eu imaginava. Não havia medo nele, não havia receio e, por isso, me senti profundamente confortável quando seu corpo se aproximou do meu e suas mãos tocaram meus ombros para descer as alças de meu vestido. O sol agora incidia em nós e estava cálido.
Podíamos ser vistos ali, por qualquer curioso dos prédios ao redor; mas aquele lugar era quase estritamente de comércio e, no comércio ninguém para. Nós paramos, quero dizer, alguém parou e que delícia parar naquele tempo, com aquele calor. Fui despida e beijada com a calma de quem tem todo o tempo do mundo e a face daquele homem inspirava anti-heroísmo. Sua pele era negra-dourada, ainda mais sob a luz do astro-rei e o seu beijo que encontrou meus lábios úmidos era escaldante e imersivo. Os olhos verdes — quais reparei só depois quando sua mão esquerda segurou meu pescoço enquanto respirava a avidez de seus dedos da mão direita em um movimento circular em meu clitóris intumescido… os olhos verdes… abri meus lábios e gemi como nunca outrora o fiz com nenhum outro homem e, há um ponto de meu orgasmo, ele parou para mais um beijo suado.
Estávamos suados, não só pelo calor do dia, o desejo aquece. Tirei-lhe a camisa e toda a sua roupa obscura como a noite, seu corpo era sublime, não pela forma, mas por pertencer a ele. Contemplei-o e ao focar seu falo intumescido, fui roubada para mais um beijo e levada em seus braços para cima de seu corpo. Encaixada delicadamente sobre a fonte da energia daquele anti-herói — que eu diria ser um deus ou um anjo caído eternamente pertencente à luz e ao fogo — senti-o profundamente. O encaixe perfeito… e a penetração ardente… fechei meus olhos, mas ele não me permitiu parar de olhá-lo. Seus olhos… entreabri meus lábios e ouvi o silêncio absurdo ao redor de um único som.
— Radamés… — ele sussurra e toca o mais profundo dentro de mim… sinto muito por não poder continuar fitando seus olhos, o êxtase é tão grande… sinto sua mão segurar firme meus cabelos já molhados e a outra contornando minhas costas para o movimento contínuo que se seguia a partir dali… Radamés… Radamés… Só poderia ser o seu nome. Ele me deixa sobre a cama, devagar, sobre mim continua penetrando, tomando-me enquanto minha cona suga seu pênis como se almejando toda a sua energia triunfante. Quero me apresentar a ele, no entanto, não posso; estou sem controle de mim e o ritmo que aumenta eleva à mesma altura os meus gritos de lascívia. Estaria alguém nos ouvindo naquela rua movimentada? Radamés continua, pujante, e ouço seus sutis sons agressivos pelo prazer que lhe domina — o único que poderia dominá-lo. Beijamo-nos outra vez e ele se afasta de dentro de mim. Estamos suados, quentes, reluzimos sobre sua cama.
— Diz para mim… — ouço dele…
— Noemi… — apresento-me em sussurro e ele toma meu rosto, acaricia-me. Segura meu corpo e vira-me contra o seu.
— Assim… Noemi… como poderia me servir… se eu fosse mesmo um deus… — surpreendo-me com o que ouço e, por segundo, estagno… Radamés sorri. — Um deus… ou anjo caído… — ele profere e, claro, claro… meus pensamentos saíram em voz alta; não havia sido tão mero e inocente. Senti-me envergonhada, mas Radamés ainda sorria… — Não se envergonhe, gostei de ouvir… — afirma em sussurro e eu sinto seu membro plenitúrgido tocar-me a fenda enquanto seus braços me envolvem tocando-me os seios e apertando-me, carinhosamente, nos mamilos. Como servir a um deus… Como servir ao deus Radamés…
— Noemi… — ouço outra vez e como gosto de ouvir… Toco seu falo naquele instante e direciono-o para dentro de mim… ele me penetra com toda a força que o rege e a rapidez com que me consome é ainda mais impetuosa do que antes. Sobre ele, me movimento, quero mais e mais fundo, mais e mais forte, mais e mais rápido. Ele faz. Olho para a janela e observo as pessoas correrem contra o tempo enquanto não há mais tempo, nem espaço, para nós dois. Radamés me leva à janela num único movimento e eu me apoio sobre ela, estou de quatro, a minha posição preferida, pois Radamés segura minhas ancas e força-me mais forte contra seu membro… aperta-me, sufoca-me… e o dia é mais quente sobre nós, sobre o meu orgasmo florido súbito impedindo-me de sustar meu próprio corpo…, mas meu homem me segura, trêmula e completamente fraca. Põe-me deitada sobre sua cama e eu me afasto ao canto para ter minha cabeça abaixada o suficiente para saborear… dos lábios à garganta… no mais fundo que pode ir….
— Assim… — digo e abro minha boca. Radamés vem até mim.
— Você o deseja… — ele toca seu membro em meu rosto, está tão duro que parece irreal. Ele passa sua glande em meus lábios, toco-a com minha língua… que sabor! O meu e o dele, juntos.
— Por favor… — imploro sem perceber e Radamés novamente sorri encaixando seu membro em minha boca e recheando-a completamente. Eu quero mais… chupo com voracidade, daquela forma que só eu sei fazer; Radamés estremece e sei que gosta porque aumenta a velocidade do sexo oral sem sequer perceber. Fecha seus olhos, as janelas esverdeadas do paraíso perverso; segura minha cabeça e mete. Engasgo diversas vezes e é assim que gosto e não consigo controlar a insanidade sexual que controla toda a minha existência até que vejo Radamés inclinar-se e, claro, ele não resistiria em beijar minha vulva, meu clitóris cheio de mel.
Ah… sim… aqueles lábios… aquele beijo… aqueles dedos penetrando-me ao mesmo tempo… eu chupo… eu sinto… ele lambe e devora… está mais quente do que antes, e mais quente… mais quente… tomo todo o seu líquido níveo como um manjar e ele toma do meu, o segundo orgasmo, em sua boca apetitosa.
Eu não sei o que houve naquele dia, mas permanecemos num amor infindável que, a quem contei, fui desacreditada. Só paramos quando o sol se pôs, porque Radamés é assim, filho do sol, sua energia está na claridade mais vívida da natureza e nada se compara ao seu sorriso no fim, repleto de contemplação e sublimidade.
Opscur no.2
Era bálsamo, era sorrateiro | Olhos turvos — citrino penumbral | Era dia, e mesmo dia, era hospedeiro | D’uma noite tão mórbida e abissal;…
Zdzisław Beksiński
Era bálsamo, era sorrateiro
Olhos turvos — citrino penumbral
Era dia, e mesmo dia, era hospedeiro
D’uma noite tão mórbida e abissal;
Quanto tempo eu fiquei naquele pranto?
Sem lágrima, sem gesto — oscilante
Sob o véu dum semblante em puro espanto
Oculta dentre a bruma agonizante…
Brusco o rasgo em mi’a mísera garganta
Nenhuma dor, porém tão fulgurante
A agônica emoção silenciosa…
Então como um sussurro proferi
O nome que em transtorno eu diferi
Dentre os gritos de súplica frondosa.
Opscur
Posso ouvir no silêncio, residindo, | Pobres almas que outrora tinham vida | São sonância - apenas - se esvaindo | Tantos semblantes dantes da Partida;…
Paul Delaroche - Henriette Sontag in her Donna Anna costume (1831) - Colagem
Posso ouvir no silêncio, residindo,
Pobres almas que outrora tinham vida
São sonância — apenas — se esvaindo
Tantos semblantes dantes da Partida;
Caro amigo o que encontro — imaginas?
Tais resquícios o invólucro se cria
Símil às vis mortalhas, às neblinas
Vindas no estúrdio em bruma rubra e fria;
Numa destas eu estava em certa estrada
Quão terrível foi vê-la e sentir Nada
Era um Nada corpóreo e em gran tristura;
Ó! meu peito… ardera tal jamais
Fui, sem desejo, ao pélago — e mais —
Bebi o amaro liquor das mil agruras...
Vurphor
Próxima à escuridão, lá, vislumbrei | Tão cintilantes pontos, verde-água; | Era tanto pavor aos que deixei | Debaixo da loucura — estranha frágua; | Gritos por alarde ao…
Luca Giordano - The Fall of the Rebel Angels - Detail (1660-1665)
Próxima à escuridão, lá, vislumbrei
Tão cintilantes pontos, verde-água;
Era tanto pavor aos que deixei
Debaixo da loucura — estranha frágua;
Gritos por alarde ao céu anunciado
Onde fulgurou o tal — o inominável
Vê-lo, assim? Através do véu nervado
Cuja centelha queima— incontestável?
Não o vi, mas sei que horrores eu senti
Ofusquei-me em tremor e... entendi
Todo aquele seu mórbido condão,
Arrastada com caos, eu despertei
Um sonhar nada mero — guardarei
De algum modo parece-me intuição.
Âncora Anfêmera
Na âncora anfêmera | Há tempos estática | Fiz-me uma ínsula | Meu céu é translúcido | Longínquo observo | Sangra a chuva em torrente | Se alastra o declínio…
'Alone in the World', Jozef Israëls, 1878
Na âncora anfêmera
Há tempos estática
Fiz-me uma ínsula
Meu céu é translúcido
Longínquo observo
Sangra a chuva em torrente
Se alastra o declínio
Na atmosfera de outrem
Às suas ínsulas sucumbidas
Na âncora anfêmera
Não há tempo
E de tão constante
Exausta está a comoção
Enquanto corpos isolados
Esquecem do calor
Cuja aproximação, e só ela,
Saberia lembrar.
Parágrafos Imanentes 01
O esperar do existir, a espera, curta anfemeridade sob a mortalha do tempo. Você levará o verso ao abismo da morte enquanto lamenta, no viver, o verso que não…
Jozef Israëls (1824–1911) - 'Contemplation' - 1896
O esperar do existir, a espera, curta anfemeridade sob a mortalha do tempo. Você levará o verso ao abismo da morte enquanto lamenta, no viver, o verso que não conta a própria sílaba? Você será sempre a projeção das máscaras quais tecem suas expectativas inalcançáveis, eu sei disso, porque no suor de sua fronte nada se evidencia mais do que a falta, a falta e a espera, ambas sob o prisma de um sonho mesquinho que a natureza não se importa. Você é ínfimo, como eu, pequenas partículas de nada. Ressuscite o deus que te faz importante enquanto você se volta ao pó, respirando cinzas em suas feridas narinas — as cinzas dos outros, queimados por sua profunda ignorância.
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The waiting of existence, the waiting, the short aphemerality under the shroud of time. Will you carry the verse to the abyss of death while still lives for lamenting the verse that does not count its own syllable? You will always be the projection of the masks that weave your unattainable expectations, I know that, because in the sweat of your forehead nothing is more evident than the lack, the lack and the waiting, both under the prism of a petty dream that nature don't cares. You are trifling, like me, little particles of nothing. Resurrect the god who makes you important as you turn to dust, breathing ash into your sore nostrils —the ashes of others, burned by your hollow ignorance.
A Emersão Transtornada
Passando pelo arvoredo, Nanda estagnou ao sentir-se arrefecer e um fino arrepio assombroso tocou suas costas; sem perceber os seus próprios movimentos…
Thomas Couture - Portrait of a girl - COLAGEM
Passando pelo arvoredo, Nanda estagnou ao sentir-se arrefecer e um fino arrepio assombroso tocou suas costas; sem perceber os seus próprios movimentos, ela fixou os olhos na escuridão. A escuridão mais límpida e terrífica a fitava, chamando-a no silêncio, e quanto mais seus olhos mergulhavam-se naquele pélago, mais absorta ela ficava, cada vez mais… até que, no íntimo das sombras, um vapor escarlate se espargiu, lento e apavorante, e dele um espectro inominável emergiu transtornado em pesadelo hediondo. Nanda despertou, como num transe, nada havia à sua frente, então virou-se apressada para ir embora, mas o fino arrepio em suas costas, denunciando uma presença, continuou com ela desde então.
Encontrar o Silêncio
Escritora angustiada nos tempos livres; para onde carregarei as angústias da existência emergidas no prelúdio tão inocente? Quem verdadeiramente…
Ariadne - Jean-Baptiste Greuze - Séc. XVIII
Escritora angustiada nos tempos livres; para onde carregarei as angústias da existência emergidas no prelúdio tão inocente? Quem verdadeiramente observa os grãos de areia? Na verdade, apenas pisamos sobre eles, sobre as pequenas realidades inimagináveis e, consequentemente, a nossa própria realidade.
Eu preciso de mais do que isso. Estar aqui não tem me levado a lugar algum além do vazio, será que há oxigênio lá fora? Será que há sentidos lá fora? Fora de tudo isso…
Minha alma é inquieta, dizem, volúvel; talvez seja isso e, se não for, o que será? Eu não me adéquo à modernidade, nem ao passado e, o futuro, há de vir? Eu não sei, no entanto, se vier, que seja diferente, que alcance o melhor que eu poderia um dia querer.
Nunca entendi o significado de deixar-se ser o que se é e minhas árduas tentativas de exercer o conheça-te a ti mesmo parecem sempre vãs; estou prisioneira dos martírios de quem foi jogado no mundo na incerteza do antes e no vazio do depois.
Alguns sorriem na estupidez, outros veem mais do que suas expressões faciais imperfeitas diante do espelho da alma. Alguns, não conseguem se amar.
Rarefeita.
Meu gato me faz companhia, dorme o dia inteiro, mas às vezes mia para mim e se eu ando no quintal ele me segue. Ele não gosta de ficar sozinho, ele não é um perfil de uma rede social. Ele está aqui. Mas eu, talvez, nunca tenha de fato estado aqui para ele.
Essa pandemia me destruiu… não, eu não estava inteira antes dela, eu estava destruída também, mas, no tempo que me sobra trancafiada, não posso fugir como antes eu fugia. Eu não quero mais continuar destruída… eu estou exausta de elogios e críticas, de comparações, afetos e ódios.
Eu não preciso e não quero nada disso. Eu nunca precisei e se um dia eu quis, foi por pura e juvenil tolice. Eu não sou nada disso que se mostra e eu estou cansada das sílabas contadas quando, no íntimo do meu coração, tudo o que há é silêncio.
Eu prefiro — e como eu almejo — mergulhar de uma vez nesse silêncio… porque sei que posso me encontrar nele, mesmo que eu me perca do mundo.
Proteção
Oliver, seu gato, despertara cerca de cinco vezes dentro dos trinta minutos em que havia se aconchegado no agradável tapete felpudo. Nestes momentos, o felino…
Jonelle Summerfield
Oliver, seu gato, despertara cerca de cinco vezes dentro dos trinta minutos em que havia se aconchegado no agradável tapete felpudo. Nestes momentos, o felino olhava atentamente para a janela da sala, como se algo ali estivesse. Na sexta vez, inquieto, ele caminhou lentamente até o centro da sala, fitando a janela e externando um som vibrante, introspectivo e instintivo, para a defesa de seu território. Ana, ao ouvir aquele som, levantou-se do sofá reclamando dos gatos dos vizinhos que sempre vinham à noite. Ao passar pelo pequeno animal, que permanecia sentado, fez-lhe um afago e tão logo abriu a cortina para espantar o intruso do jardim. Imediatamente os olhos de Ana transtornaram-se em mórbido pavor, pois no jardim estava Oliver, esquartejado sobre uma poça de sangue.
Sonetos e Amores - Sorinne
Sorinne era, de fato, apaixonada por flores quentes, em especiais as vermelhas, no entanto, ela raramente as via no jardim, pois preferia ficar continuamente dentro do castelo…
The Love Letter (ca 1870) - Petrus van Schendel (Dutch, 1806-1870)
Sorinne era, de fato, apaixonada por flores quentes, em especiais as vermelhas, no entanto, ela raramente as via no jardim, pois preferia ficar continuamente dentro do castelo de Von Sirehn peregrinando nos corredores, sempre com um livro em mãos. Sorinne considerava o mundo hostil, e de fato era; lembrava-se sempre de um antigo amor que durara tão pouco, menos do que todo o verão; ele a prometia cartas de amor, vínculos inefáveis e carinho, mas jamais escreveu, jamais doou-se de coração à reciprocidade. O mais amargo deste romance era o fato de que o rapaz, lembre-se dele como F., adentrou a vida de Sorinne em tempos de felicidade e plenitude, e saiu em tempos de tempestade e solidão. F., na verdade, trouxera toda a languidez e até hoje, cinco anos depois, Sorinne permanece em sua própria companhia e recorda com frequência das palavras de Lord Von Sirehn: “Os homens, minha querida Sorinne, se aproximam das mulheres mais felizes, pois estas são as mais belas. Todo o cuidado é precioso, contudo, pois, eles tendem a destruir a beleza por causa da ausência de tato advinda de suas amarguras viris. Não são todos, é verdade, mas repare bem se F. é mesmo uma exceção”. F. não era uma exceção e Sorinne esperava, de coração, que um dia ele fosse.
— Anne? O que está fazendo? — questionou Sorinne ao passar lentamente pela porta do quarto de Anne e percebê-la, de soslaio, concentrada em redigir sobre alguns papéis. Anne não olhou para Sorinne.
— Escrevendo uma carta para Ewen, adicionando alguns de meus sonetos — ela respondeu, concentrada.
— Para quê perder tempo com isso? Homens não leem sonetos, quero dizer, no início eles leem, mas depois que casar-se contigo, há de perder totalmente o interesse. É um artifício para te conquistar — proferiu Sorinne com profunda amargura, embora seu tom fosse divertido para Anne que sorriu e olhou sua amiga encostada à porta, abraçada a um livro.
— Acho que tu tens razão, mas não me importo muito. Amar um homem requer abrir mão de algumas coisas para poder ter outras — respondeu astuta. Sorinne movimentou seus ombros expressando desdém.
— Pois eu me recuso! Não me contento com pouco!
— É… Sori… Estou vendo… — julgou cuidadosamente.
— “Estou vendo” — Sorinne a imitou e trouxe sorrisos à Anne outra vez — Tu te lembrarás dessa conversa quando notar que teu futuro despe mais teu corpo do que tua alma! — Sorinne voltou à caminhada e Anne adicionou um novo parágrafo à carta que escrevia para Ewen: “Querido Ewen, a alma é mais valiosa que o corpo e, daqui há alguns anos, espero que te lembres disto”.
Incômodo
Perdura ainda o tal do isolamento? | Ou só mantém-se a regra para mim? | Se saio vejo tantos n'um momento | Sorrindo e rindo em goles de festim; | Alguns até que…
Jozef Israels (1824 – 1911, Dutch) - Sunday Morning
Perdura ainda o tal do isolamento?
Ou só mantém-se a regra para mim?
Se saio vejo tantos n’um momento
Sorrindo e rindo em goles de festim;
Alguns até que vestem certos mantos
No rosto ou n’essa alma decadente
A qual carregam límpidos, sem prantos,
Enquanto vivo em cárcere vigente;
A sorte desse povo só me omina!
Se ouso a pé sair ali na esquina,
Provável qu’eu respire o vírus todo!
Eu devo estar de agrores malferidos,
Pois penso sou querida à ir p’r’o céu
Ou eles é que são os preferidos?
Lhaneza d’Amore
Encontro o brilho deste olhar que tens | No rumo qual caminho nesta vida | E como estrela-guia, ó!, tu me vens | Destrói-me a triste angústia tão sustida;…
Auguste Toulmouche - A couple 1880c
Encontro o brilho deste olhar que tens
No rumo qual caminho nesta vida
E como estrela-guia, ó!, tu me vens
Destrói-me a triste angústia tão sustida;
Em mim o teu sorriso faz bom dia
E as horas todas doces soam lindas
E o vento mesmo frio me acolhe e cria
Recanto em nosso amor que nunca finda;
Assim, querido, toda a eternidade
E toda a mais incrível natureza
E — ainda — toda a crível divindade
Se alcançam, perto, os pés de tua grandeza
Decaem, pois jamais na existência
Houvera tanto esmero em gran pureza.
O Ônibus
Ela adentrou o ônibus desconfiada, ainda assim hesitou em perguntar se realmente um dos pontos de parada era aquele…
The Angel Appearing to the Shepherds (1833-1834) - Thomas Cole (American, 1801 - 1848) - Detail
Ela entrou no ônibus desconfiada, mas hesitou em perguntar se a rota passaria no ponto da sua rua. Sentou-se no último banco e esperou. Nada… O veículo ia ficando cada vez mais vazio, até restar apenas ela. Seguia por um trajeto sombrio e incerto. Deixou a vergonha de lado e se levantou para falar com o motorista. Porém, naquele exato instante, ele estacionou. Ao olhar para trás, viu-a. A moça sorriu. O horror, então, empalideceu a pele e arrepiou a espinha dorsal do condutor: diante dele estava o cadáver de sua falecida irmã.
Ingênuos Sonhos
Nesses tempos, minha única vontade é estar bem longe, próxima a uma floresta densa, com neblina e umidade; numa agradável casa aquecida, com lareira e chocolate quente…
Nesses tempos, minha única vontade é estar bem longe, próxima a uma floresta densa, com neblina e umidade; numa agradável casa aquecida, com lareira e chocolate quente. Eu estaria lendo e ocuparia meus instantes mais aconchegantes na solidão e no silêncio. Às cinco da manhã eu apreciaria a aurora pálida e, no horizonte, um belíssimo rio e uma cachoeira nascida das cordilheiras mais ancestrais. O sol como uma longínqua estrela branca e as sombras dos pinheiros soariam o cântico do vento. Um chá pela manhã com a suavidade da harpa que eu saberia tocar. A melancolia da música atrairia os pássaros negros mais exóticos e todos os tipos de seres mágicos das profundezas dos sonhos. Eu os alimentaria e lhes contaria a história do Nunca...
O Prelúdio da Loucura
Havia algo naquela noite, algo cuja fixação no antro do inconsciente é mais poderosa do que quaisquer traumas envolvidos pela…
Nicola Samorì - L’oro galleggia (2011)
Havia algo naquela noite, algo cuja fixação no antro do inconsciente é mais poderosa do que quaisquer traumas envolvidos pela imaginação fértil da infância. Eu não posso esquecer, e por isso escrevo; existe no meu ser uma necessidade incomensurável de escrever as minhas agônicas memórias e, à posterioridade, deixo este relato como uma lembrança de que nem tudo é o que parece ser.
Foi de súbito que o horror nasceu, com o vento soprando em ódio à sua sonância terrífica; trovões ressoaram em átimos subsequentes, com clarões de absurdo fragor no mesmo instante em que a porta da sala-de-estar se abriu impetuosa, possuída de uma fúria ancestral, rangendo e batendo contra a parede. A lufada adentrou, tão semelhante a uma onda de torrentes instáveis, e eu pensei que só podia ser o prelúdio de uma tempestade agressiva — digna de tufões. O medo me tomou num único gole e, apavorada, fixei meu âmago no assobio tétrico que, tão logo, invadiu-me os tímpanos. Meu coração se cercou na arritmia, pois não se tratava de um assobio comum, como qualquer outro vento proporciona ao encontrar uma fresta; não, era o silvo mais horrendo que já ouvi e, embora tenha sido captado pelo sentido da audição, o maldito me penetrou a espinha dorsal e contornou-a, gelando até meu peito. Meus braços e pernas pruriram, e eu hesitei em olhar para a janela.
Quando fitei meu gato, inquieto, saindo do sofá e seguindo para o cômodo ao lado, tive certeza de que algo acontecia; minha intuição, contudo, conturbada pelo alarme, nada me revelava — seu intuito era me proteger, e eu estava anestesiada pela tensão. Caminhei até a porta, oscilando, imaginando que a trancaria após verificar o clima. Assim o fiz, apesar da dificuldade contra o vento continuamente perverso. Olhei para fora, e a rua estava negra como um pântano sombrio, cuja proteção de suas entranhas guarda o segredo de uma gruta úmida e rançosa; as luzes estavam tenras, como a prever a abominação, e eu nunca vi os pinheiros tão enlouquecidos pelas contínuas rajadas, nem os céus naquele negrume tão profundo. Seria mesmo real? Segurei a maçaneta, investi contra o fluxo; o assobio, outra vez. Estremeci como um pobre cão abandonado, ainda na tentativa de fechar a porta, mas parecia impossível, pois mais e mais forte era aquele pulmão inabalável.
— Céus! O que é isso? — proferi na fuga de um alívio; era como se, ao ouvir minha própria voz, estivesse garantido a força da minha sanidade, assim como a realidade tangível e a segurança da vida mediana. Pobre de mim! Mal a indagação retórica se concluía, e o assobio — juro pelos deuses todos que já foram criados nesta humanidade, desde os mais primórdios tempos —, o assobio agudo e perverso vociferara: “Eu sou!”. Delírio? Delírio! Movimentei a minha cabeça, e meu corpo pesou como chumbo; senti tão instável o chão sob meus pés e, atordoada, emergiu-me a necessidade impulsiva, agreste, como uma gana intrincada, de provar a mim mesma que a realidade era ainda digna da significação do termo que lhe designa. Mirei à minha volta; soou-me duas horas de contemplação e busca, mas foram segundos... segundos depois de ouvir o demônio sibilar! Lancei contra a porta de madeira meu corpo pálido e frígido como um cadáver e, decerto, meu espírito, maciço pelo horror, agregara a força precisa para conseguir fechá-la. O maldito portal do inferno estava trancado! Eu, tão ofegante, caminhei à janela, completamente inebriada por uma coragem que nunca mais senti, certa e resoluta sobre fechar, definitivamente, o umbral de assobios execráveis.
Estava lá, a fresta que basta para hipnotizar; ser algum é capaz de tomar ciência das similaridades entre o trivial e o terrífico, tampouco apreender, com clareza, que somente na trivialidade o terrífico se desvela — até que o temor incontrolável lhe penetre como a fina agulha de uma seringa, arauto da vida e da morte. Aquela fresta era trivial, mas eu estava envenenada pela doença do hediondo, na catarse íntima, silenciosa e pungente. Por isso, mesmo quando a fissura se fechou por minhas trépidas mãos, não senti alívio; algo ainda residia na atmosfera. Eu não sabia, entretanto, se advinha do nefasto pronunciar — o silvo do vento cruel — e da sensação de sua magnitude fúnebre, ou se d’outra cousa que meus olhos não podiam enxergar.
Repousei sobre o sofá enquanto morria nas indagações de meu ser. Todavia, meus olhos... ai de mim, meus olhos, que não podiam enxergar o horror que pairava, finalmente puderam me ser úteis. Eu vi o meu amável felino sobre a mesa da sala de jantar — e ele não estava feliz. Na verdade, sua face era de medo, e seus olhos de gato noturno fitavam, arregalados e com finíssimas pupilas, a fresta... a fresta da janela da sala de jantar.
Antes que eu pudesse correr, o assobio bradou suas maldições mais alto do que outrora, e o gato correu para longe, assustado. Minhas forças nitidamente se esvaíram, tamanho era o pânico! E eu não conseguia caminhar enquanto aquele agudo ascendia, e o vento soprava, e a fechadura estalava, deflagrando-se como um arrombamento premeditado de uma criatura monstruosa. A porta da sala-de-estar, o portal do inferno, de novo escancarado, pois que, na rufada maligna, não habita a clemência. Mais temor. Mais vento. Aquilo não podia ser uma simples intempérie! Não podia ser tão somente um vendaval! A coisa que assoprava tinha alma, consciência e voz.
— Deixe-me em paz! — meu urro veio da essência de meu núcleo humano; meus passos já não podiam continuar, e o sibilo, cada vez mais ensurdecedor. — Deixe-me em paz! — cada vez mais estrondoso. Amedrontada, chorei cachoeiras do desespero genuíno. Mas, quando abri meus olhos, vi as lágrimas flutuando ao redor, como se não houvesse, em grau algum, o peso da gravidade. Meu peito tornou-se um cubículo d’onde pouco — ou quase nenhum — oxigênio se abrigava. Que aflição! Inominável aflição! Olhei para o líquido guiado ao vento macabro e notei que nada, nada se movia. Era apenas surreal... nada além de meus cabelos. E tudo o que havia em mim estava no caos daquele místico infortúnio; nada além de minha ínfima existência se afetava em horror. Os livros estavam estáticos, os papéis sequer vibravam, os casacos, pendurados naquele velho cabideiro de eucalipto, estavam inertes... estranhamente inertes; nem as lágrimas tinham noção de seu dever em cair sobre o chão miserável.
Assim, estupefata, me curvei lentamente e, de soslaio, atentei para a sala-de-jantar, buscando o que assombrara o pobre felino — que era, pois, o único além de mim que poderia comprovar aquela — sem dúvida paranormal — extravagância. E estava lá... estava mesmo lá, na frincha ordinária, na trivial fresta, tão símil àquela qual, há poucos segundos, eu fechara. Era um ser diabólico... vívido através do vidro, como uma colossal monstruosidade espiral cuja mente humana sequer pode assimilar. A forma do vento atemorizador, o semblante esguio e atroz do sobre-humano sopro claustrofóbico. Era como uma serpente, com membranas no contorno de seu corpo, possibilitando-o de voar como uma ave amaldiçoada; tinha padrões de orifícios, os quais vibravam — vibravam impetuosos ao som do assovio hediondo! E mais... tanto mais... aquela coisa nunca deixou a minha memória! Pelo contrário, fez de minha memória o seu recôndito infernal — para sempre! Empalideci diante dela, e eu sei que eu estava branca como névoa, pois tamanho era o meu pavor diante daquilo. E eu me arrastei pelo chão até chegar à porta de entrada escancarada, sem conseguir tirar meus olhos daquela coisa. Ela estava parada, e seu único olho negrume parecia me fitar o núcleo de minha constituição. Ela continuava a assobiar e, num único piscar de olhos, após um árduo lacrimejar, a criatura sumiu.
Levantei-me com esforço e corri numa lentidão inimaginável, pois o vento não me permitia sair para fora de casa — ele me afastava à janela, e a coisa, agora invisível, contornava meu desespero. O assobio estava tão perto... era um sussurro em meu cérebro. Jamais serei capaz de descrever a sua composição. Até hoje acreditam que eu estava sob o efeito do ópio — o qual jamais fora encontrado, nem em meu corpo, nem em minha casa! — Céticos condenados! Não sabem com o que estão lidando! A sensação que perdura, desde então, em mim, é de que a criatura inenarrável não era um fenômeno da ufologia moderna, tampouco um acontecimento cuja explicação está no esoterismo; a coisa dominava a natureza terrestre e manipulava a realidade de modo que, quando eu consegui escapar às ruas negras, percebi que, naquela hora, nem os pinheiros se moviam. E tudo o que pude fazer foi gritar — mais alto que o assobio infernal —, tendo ainda meu corpo empurrado pelo mefistofélico vendaval.
Bradei na mais profunda amargura, e meus tios, residentes da casa vizinha, apareceram. Tudo se extinguiu quando eu os vi. Disseram-me, depois, que desmaiei como se estivesse morta; minha pulsação era quase nula e afirmaram-me que tive, a caminho do hospital, lapsos de consciência, onde eu gritava, em grave exasperação, as seguintes palavras desconexas: “retorno” e “devoção”.
Ossos do Conviver
Ora, a infância passara — vedes? | Verteríeis os prantos infantes | se o pretérito fosse, às sedes, | o presente de água-instante, | entretanto…
The Potato Ears - Vincent van Gogh, April-May 1885
Ora, a infância passara — vedes?
Verteríeis os prantos infantes
se o pretérito fosse, às sedes,
o presente de água-instante,
entretanto este tempo aligeira!
Perdereis relevância, atentai!
Dos aprôvos de vossa poeira
e dos julgos vos digo: minguai!
Vossa tese é só manigância!
Se mi'a letra causar-vos a ânsia,
estarei no prazer eremita;
E se faço poema com isso,
é em nome do verso e não disso
que vós tendes na língua maldita.
“Escuta-me”, disse o Demônio, pousando sua mão sobre minha cabeça. “A terra de que te falo é uma terra lúgubre na Líbia…”