Promessa & Desejo
Caminhava nas ruas escuras de Verttica. Nenhuma luz natural... uma aurora sem pálido sol. O minimalismo geométrico da metrópole…
Caminhava nas ruas escuras de Verttica. Nenhuma luz natural... uma aurora sem pálido sol. O minimalismo geométrico da metrópole, cingido num orvalho de solidão prateada, era melancólico e belo. Apreciava, de modo soturno, o brilho de látex, os vidros espelhados e o asfalto de basalto. Olhava para cima, para o céu de rocha ígnea, o interior do Monte Elbrus — imponente, observando-me de volta tal como um abismo o faria.
Com fascínio e certa angústia — a qual eu me negava a ver —, cheguei à Pirâmide Mater. Iniciava-se mais um dia de trabalho, como todos os anteriores. Pelo menos, naquela sala, eu podia observar o que restou do planeta: a lividez do gelo, o céu coberto de poeira biotecnológica. Às vezes a neblina negro-cinérea… às vezes a neve umbrosa e, em raras oportunidades, a chuva — do mesmo tom e gosto amargo de zëttir.
Após validar minha íris, fui instruída a seguir para os escritórios térreos — uma mudança estrutural repentina, por segurança. A Pirâmide Mater era obscura, pontiaguda. No seu interior, um labirinto burocrático e militar garantia a proteção de Verttica, mesmo que isso custasse algumas vidas humanas. Sinceramente, eu já estava acostumada com esta verdade, e todo o meu ofício naquele lugar dependia de uma concentração ímpar — portanto, gastá-la questionando o imutável era tolice. Estar em Verttica era um privilégio, a única zona habitável, com qualidade de vida, em toda a Rússia e, talvez, em todo o mundo.
Seção 13, última sala. Sem janelas. Não demorou para que eu me sentisse sufocada. Levantei-me após uma hora de trabalho e caminhei pelos corredores próximos. Eu só precisava de um pouco de ar, ainda que contaminado por biotecnologia — ousei pensar que seria melhor se estivesse mesmo infectado.
Os corredores estavam vazios, em sua maioria. Meu corpo começava a tremer e meu coração acelerava. “Uma janela... só uma saída... preciso de um tempo” — eu pensava. Perdi-me rapidamente, adentrando em portas que nunca ultrapassara — mesmo as mais restritas, embora reconhecessem e aprovassem minha íris. Talvez, pelo meu cargo, não me fosse impedido o acesso, entretanto, por que não? Havia algo de errado na Pirâmide Mater naquele dia, era evidente.
Consumida por um pânico pressuroso, corri para mais uma porta naquele labirinto e, então, eu o vi. Estava atrás de grades de ferro e prata. Usava um sobretudo de vinil e roupas de couro. Uma carcaça de zër cobria seu rosto, formando uma pirâmide assimétrica. Era um homem alto e forte — estranho para um externado. Aqueles que vivem fora de Verttica não deveriam ser fracos? Eu nunca havia visto um..., mas sabia que existiam e eram divididos em “selvagens” e “ocultos”. Aproximei-me... tive a impressão de que ele me observava.
A carcaça de zër era fascinante! As criaturas que dominam o mundo, o perigo iminente, a fonte da biotecnologia e ali, na minha frente, lapidada em geometria assimétrica, cobrindo um rosto humano como se fosse só mais uma pele de urso. O sujeito teria matado a criatura? Como poderia? Elas possuíam uma agressividade descomedida, eram imensas e de uma força inigualável! Eu estava impressionada...
“Oi...” — murmurei. Sua cabeça se movia, sempre acompanhando meus movimentos. Meu coração ainda acelerado. “Você matou um zër?” — ousei perguntar. Um tenso silêncio emergiu.
“Talvez...” — ouvi. Voz grossa e amedrontadora, decerto modificada para não ser reconhecida. Fremi e senti o arrepio correr pelos meus braços.
“Como é lá fora?” — Aproximei-me da grade, eu não estava raciocinando direito. Mesmo sem face, o homem estranhava meu comportamento, eu sentia. “Posso tocar?” — estiquei-me para dentro da sela, minhas mãos trêmulas.
“Pupilas dilatadas... mãos trêmulas... incapaz de identificar o perigo... você está em vianttre...” — proferiu como um demônio. Vianttre: Síndrome do confinamento de Verttica — eu estudei sobre isso ainda na graduação, entretanto, tomávamos pílulas diárias para manter a sanidade e jamais imaginei que sentiria aquilo; jurei que saberia identificar no primeiro sintoma.
“Deixe-me tocar...” — insisti, perturbada. O homem se aproximou, silencioso. Abaixou ligeiramente sua cabeça. Toquei na pirâmide assimétrica.
Frígida. De textura obscura. Perturbadora! Senti-me eufórica, uma risada súbita partiu de mim. Era impossível manter o controle. De modo célere, meus olhos lacrimejaram e senti algo descer pelas minhas narinas. Era sangue. Aquilo me levou a um pavor mórbido e eu ri mais do que antes. Uma profunda sensação histérica — e pensamentos de morte súbita. Minhas pernas fraquejaram, sentei-me no chão. A visão embaçava, enegrecia.
“Seu coração vai parar, você precisa chamar ajuda...” — ele disse, seu tom selvagem tal como sua aparência macabra. Nunca um habitante de Verttica se importaria com o colapso de um desconhecido. Menos um — eles diriam. Não querem superlotação na megalópole perfeita. Senti uma pontada aguda de dor no tórax, minha capacidade pulmonar estava reduzida.
Vi o homem colocar sua cabeça entre as grades, retorcendo a pirâmide assimétrica, entortando as colunas o suficiente para que ele pudesse passar. Aquela carcaça de zër continuava extrema em força e poder, mesmo sendo apenas uma carcaça.
No chão, a risada perdurava, mas eu estava agora deitada e já quase não enxergava. Lembro-me bem, eu vi com muita dificuldade. Ele sobre mim, e uma agulha perfurando meu pescoço. Retomei a consciência e a sanidade quase que em segundos posteriores, embora com a sequela da tremulação. Fitei o selvagem, senti medo profundo — entretanto, ele havia me salvado. Ficamos em silêncio. Tentei pensar em tudo o que eu poderia perguntar, porém, um nervosismo impedia-me de pensar com clareza.
“Se você podia fugir, por que esperava na cela?” — questionei, quase como um alívio por conseguir proferir alguma coisa.
“Aceito seu agradecimento...” — ironizou. “Uma vez dentro da Pirâmide Mater, não há como sair. Você sabe disso. A menos que sua íris seja verificada.” — ele tinha razão. Estava fadado à morte. Selvagens são considerados contaminados.
“Você tinha um antídoto consigo? Como?” — perguntei, confusa. Ele ficou em silêncio, observando. Levantei-me devagar, algo nele me instigava. Talvez o mistério de seu rosto, porventura sua força em destruir um zër. Ou apenas por ter sido salva, sentindo-me importante para alguém, ainda que para um completo anônimo.
Retirei a renda que escondia meu rosto — e soltei meus cabelos presos pela norma de Verttica. Eu queria que ele confiasse em mim, então fiquei vulnerável. Rendas negras, couro, vinil ou látex cobrindo o corpo, o rosto; cabelos presos e peças geométricas: tudo isso para confundir os inimigos externos. Essa era a lei de Verttica. Zërs não conseguem enxergar, entendem materiais enegrecidos como sombras e geometrias como perigo. Eu escolhia a renda, pois achava bonita — embora não fosse perfeitamente eficaz.
O homem aproximou sua grande mão de meus cabelos soltos, tocando-os devagar. Parecia nunca ter visto uma mulher de cabelos soltos. Pensei que o exterior, porventura, tivesse regras semelhantes à Verttica. Meu corpo ainda tremia e, estranhamente, eu senti desejo e intensa excitação com a aproximação do sujeito. Uma overdose de vianttre e, depois, libido? Eu não conseguia compreender aquela anomalia. Ninguém em Verttica tinha o direito de explorar a sexualidade, tampouco de senti-la. As pílulas regulavam os hormônios para manter o controle. Era preciso. A sexualidade leva à depravação e à violência..., contudo, eu me sentia viva enquanto aquela sensação se prolongava.
“Estou desejando você” — afirmei. Eu não sabia o que fazer com aquilo, achei sensato mencionar, embora, pensei em seguida, o selvagem não entenderia.
“Meu antídoto tira a letargia de todos os controles emocionais que Verttica impõe sobre seus residentes através de doping.” — explicou, tocando, em lentidão, meu pescoço. “Inclusive e, principalmente, o controle sexual...”
“Isso... não é verdade... Verttica nos protege...” — O toque dele... Eu precisava de mais...
“Sente-se protegida?” — ele questionou, seu tom de voz parecia mais monstruoso. Eu não pude responder... Abaixei a cabeça, fitando a porta de saída. Eu poderia fugir. Eu sabia que ele era uma ameaça. Quão abruptas as sensações se destravam no corpo... capazes de dilacerar toda a racionalidade. Eu não iria desistir ou retroceder...
“Pessoas externas sentem desejo diariamente?” — olhei-o.
“Talvez... o externo é precário, mas o sexo nos revigora. Pelo que posso notar, você nunca experimentou essa adrenalina. Sabe na teoria como funciona, mas claramente não sabe o que fazer com o que está sentindo.” — debochou.
“Por que não sei?” — senti meu ego ferido.
“Ninguém anuncia a um desconhecido que está com tesão por ele.” — afirmou, assertivo. “Ainda mais estando dentro de uma sala, desprotegida. E sendo uma mulher, ou seja, fraca.”
“Não sou fraca” — afirmei e, imediatamente, ele me pegou, prendendo-me em seus braços, impedindo-me de me mover. Ele estava quente e ficar tão próxima dele fez minha respiração tornar-se ofegante.
“Talvez para um homem residente de Verttica você não seja fraca. Mas para um externo, você é presa fácil.” — murmurou. Ficamos em silêncio.
Agradava-me sentir tamanho êxtase que, decerto, nascia do meu ventre. Eu estava enlouquecida por ele, tomada por um enlevo demoníaco. Era surreal, tamanha a intensidade. Eu sabia que mulheres poderiam procriar se realizassem o ato sexual e, claro, se ainda tivessem seus úteros. Eu não tinha medo dessa consequência, pois, em razão da rejeição de anestesia, minha cirurgia de remoção de útero era impossível, consequentemente, minha medicação controlada impedia a ovulação natural, tornando-me infértil. Todas as mulheres, ou quase todas, em Verttica, passavam por essa cirurgia. O Domínio — poder governamental — sabia o que fazia para amenizar a superpopulação em tempos de baixo recurso.
“Faça-me sentir mais... e eu te ajudo a ir embora daqui.” — prometi, ainda presa em seus braços. “Mas é preciso ser rápido...” — exigi.
“Prefiro devagar...” — murmurou, imerso em um flerte provocativo. “Pela sua sede, o rápido não vai te satisfazer” — afirmou, soltando-me.
“Não preciso me satisfazer... preciso sentir...” — ficamos em silêncio. Meu desejo estava me deixando sem juízo, pois até mesmo quando nos calávamos, eu sentia imersiva excitação.
O homem levou suas mãos à pirâmide assimétrica sobre sua cabeça e rosto, retirando-a. Meu coração disparou... eu iria vê-lo? Em seguida, livrou-se da placa de aço em seu pescoço e, por último, da balaclava de couro. E então... sim... eu vi seu semblante. O contorno de seu maxilar... seus cabelos castanhos e ondulados... um homem de beleza inexplicável, com algumas cicatrizes na pele, barba curta no rosto, olhos negros como uma breummita e... o brilho prateado na pupila. Ele estava mesmo infectado pela poeira biotecnológica. Aquele lume argênteo eu conhecia bem.
A volúpia, estranhamente, aumentara. No limiar do incontrolável — como se nada importasse. O possível perigo me atraía incondicionalmente. Manter-se distante de um infectado era uma das primeiras leis de Verttica. Entretanto, minhas emoções desequilibradas dificultavam minha servidão ao Domínio.
Ele se aproximou, como um caçador furtivo, desfazendo qualquer tênue possibilidade de retrocesso da minha decisão. Suas mãos envolveram minha cintura, seu perfume como ópio. Senti sua força. Um receio contornou toda a volúpia — fazendo em mim um verdadeiro amálgama de contradições sensoriais. Tudo vibrava, cada centímetro de aproximação era suficiente para a tremulação, mesmo a razão insistindo em me alertar das consequências daquela aproximação. Eu não a ouvia — cedi pela alucinante lascívia... era como estar embriagada. Eu sentia a presença daquele homem... carregada de atração.
“Vou te fazer sentir...” — ele sussurrou... o seu sussurro me inundava... sua voz real era grave para temer... grave para amar... um tom viril que me deixava em silencioso delírio.
Quando seus lábios tocaram os meus, tudo se dissolveu. O ar rareou, o calor ascendeu como uma febre capaz de alucinar. Uma vivacidade afrodisíaca percorreu-me por dentro, desgovernando quaisquer possíveis ações da minha parte. Fiquei submissa à cinesia daquele homem e sua mão envolveu-me a nuca com uma firmeza terna. Seu toque tinha um nível íntimo, como se já nos conhecêssemos há anos. O que aquilo significava?
A língua dele buscou a minha, lenta e profunda, deixando um rastro mentolado, talvez férreo, que contrastava com a sordidez daquilo que nos incendiava. O beijo prolongou-se até perder forma, narcótico e absoluto, misturando respiração e gemido. Quando suas mãos alcançaram meus seios, o mundo, a minha vida, o controle total, a externalidade em decadência — tudo, completamente, findou. O calor foi o que restou, e um som fugido da alma, lamúria de fervor.
Ele despiu-me com calma — mas havia pressa na sua vontade. Eu não estava sozinha no desvario da cobiça impúdica! Aquele lume prateado não negava. Seu toque inicial em meus cabelos, não fora desprovido de intenção. Percorreu-me com um olhar que também me penetrava, sem sequer mover-se. Eu via o desejo contido pulsar sob o vinil que o cobria, e ele percebeu para onde eu dedicava minha atenção. Não precisou de palavra: ele sabia bem o que eu queria. Eu o desejava com uma urgência insana, com a fome de quem quer ultrapassar todos os limites.
Com uma única mão, ele desativou as travas das correntes, abriu o zíper de aço e se libertou da proteção. A cada movimento, com sua habilidade excepcional, algo em mim se dissolvia. O som metálico reverberava na sala, e uma ansiedade pavorosa percorria-me, vibrando entre o medo e o desejo. Quando o vi — rijo, pulsante — toda a minha lógica restante se amorteceu. Restou apenas o frenesi, um torpor que me deixava entre o fascínio e a entrega. Era estranho... eu queria sentir o sabor... o peso... queria tantas coisas que não sei nomear. Por um instante, acreditei que aquela união era fisicamente impossível.
“Não... não acho...” — hesitei, e a dúvida soou como um convite.
“Pode doer um pouco... pode sangrar... mas...” — a respiração dele tornou-se arfante, e o som, por si só, me excitava. “Vou fazer devagar, até que você se acostume.” A voz, antes grave e ameaçadora, tornara-se afetuosa na curva sutil do seu proferir. Devagar... — essa palavra me escaldava.
Ele me tomou pelos quadris e me colocou sobre a mesa. O computador caiu, estrondando no chão. Houve silêncio depois...
Se eu pudesse voltar àquele instante, o teria beijado — eu, na atitude que devia, beijá-lo para parar o tempo. Assim eu faria... e beijaria também a sua rigidez imponente... tocando e sorvendo com meus lábios abrasados...
Quando o senti — a ponta roçando, o calor, o deslizamento... úmido, tão lento quanto a queda de um anjo ao inferno. Trepidei.
“Não... não acho que... cabe...” — Meu ar faltava, meu coração palpitava frenético outra vez. Não era possível que seu membro me penetrasse... era vultoso, talvez demais, entretanto, eu jamais havia visto um, então eu não saberia mensurar com precisão. Senti sua mão em meu queixo, ele me fez fitar seus olhos de luz prateada.
“Feche os olhos” — ordenou. Obedeci.
O avanço lento — muito lento — de sua entrada em mim. Na escuridão trêmula das minhas pálpebras. O corpo se abria à força e, ao mesmo tempo, pedia mais. Devagar... Ele gemia... Dor e calor misturavam-se até que já não soubesse distingui-los. O tempo pareceu se suspender, de fato, o ar ficou denso. Era uma sensação esplendorosa, uma vertigem que fazia esvair o medo e deixava apenas a satisfação. Cada fibra do meu corpo reagia, cada pensamento explodia como uma centelha. Senti arrepiar-se a tez, o sangue ferver, uma corrente subir pela espinha. Era humano… e, pela primeira vez, eu me sentia humana.
Quando percebi que ele estava todo dentro de mim, abri os olhos — precisava ver para acreditar que eu não estava sonhando.
“Está tudo bem?” — ele perguntou, murmurando. A dor já diminuía.
“S-sim...” — respondi em êxtase, ébria.
“Agora vem a parte boa...” — sussurrou em meu ouvido. O homem começou um movimento... entrando e saindo... penetrando, intenso e mais rígido. Eu não... aquilo era apenas impossível... todas aquelas sensações múltiplas. Não havia prazer maior. Nunca houve, nunca haverá. Eu gemia... ele gemia... e mantinha um ritmo perfeito. Meus olhos reviravam, minhas unhas cravavam-se em suas costas, mesmo e ainda que sua roupa fosse reforçada. Suas mãos coordenavam tudo e as minhas estavam indomáveis, capazes de feri-lo sem que eu pudesse perceber.
“Diz... seu nome...” — ele sussurrou. Meus olhos não conseguiam se manter abertos, nem fechados. Abracei-o, com os braços em volta de seu pescoço. Seu perfume invadiu-me... eu poderia morrer naquele momento.
“Nyum...” — proferi com dificuldade... “E você?” — toquei seu peito, mas não conseguia retirar sua proteção. Queria mais de sua pele.
“Logan...” — respondeu, aumentando o ritmo. “Ainda quer... que seja rápido?” — Seu gemido estava deliciosamente austero.
“Não quero... mas... tem que ser assim...” — Logan me segurou pelas pernas, penetrando-me em pé, apenas subindo e descendo com meu corpo. Lembro-me... e reminiscências da sensação se revivem no meu ser. Ia tão fundo. Parecia tocar um ponto específico que me deixava mais molhada, dando-me a sensação de que eu não ia suportar. Algo parecia crescer, um ápice de deleite... eu estava sempre em um “quase”... um “quase” que me levava à loucura. E Logan, tão viril, deixando-me mais ávida e ardente.
“Nyum...” — murmurou meu nome e aquilo me arrebatou. Bem no pé do ouvido, segurando-me intenso... possuindo-me tão firme...
“Preciso cumprir... minha promessa... Logan...” — relembrei... era necessário que parássemos.
“Essa... hum... é uma boa hora... para morrer....” — afirmara enquanto apertava minhas coxas, mantendo o ritmo do seu teso aprofundar. Uma troca de pensamentos... uma sincronicidade de sensações... ambos morreríamos felizes..., porém, a morte não merecia nosso orgasmo final.
“Não... não é...” — Eu desejava mais dele... almejava tê-lo todas as noites. Logan pôs-me na mesa outra vez. Retirou suas luvas.
Mãos... rústicas... veias salientes... força e brutalidade.
Segurou minha cintura e, violento, penetrou ainda mais forte e rápido. Minhas forças se esvaíam. Meu corpo em descontrole total.
Gritei seu nome, implorei para que não parasse... eu sentia que algo aconteceria... nas minhas entranhas... nas artérias, no pulmão... no útero... em todos os órgãos... algo viria, tórrido e indômito... e, de fato, aconteceu.
Tive uma convulsão — era o que me parecia. Espasmos pelo meu corpo, uma carga de energia elétrica em meu sexo. Uma overdose perigosa de enlevo. Uma exultação que atravessava meu crânio, energizando minhas células, fervilhando minha alma. E, no mesmo momento, senti o éter adentrar-me... tão febril... em um jato fugaz — selando o fim.
Logan gemeu intenso, segurando firme o meu pescoço, beijando-me em seguida.
Senti-me mais fraca do que antes... deitei-me em seus braços e ele saiu de dentro de mim, deixando seu sêmen escapar, escorrendo por minhas pernas. Manteve-me em seus braços e sentamo-nos no chão, exaustos. Eu não estava satisfeita, mas sentia-me realizada... cansada e... feliz. As sensações amainaram... a loucura abrandou.
“Eu vou... te tirar daqui...” — sussurrei, respirando seu perfume, tocando seu suor com a ponta dos meus dedos. Ele sorriu, cético, num crime de beleza masculina.
“Hum... eu prefiro ficar...” — afirmou, elevando meu rosto, olhando-me nos olhos.
Rui Mansur - Parte 1
Seus olhos jamais se perderiam em minha memória, ainda que o tempo se regozijasse na tarefa do esquecimento. Contudo, a noite solitária era estranha e fria, meu âmago se calava como um pássaro morto enquanto tudo o que eu sentia era medo…
Seus olhos jamais se perderiam em minha memória, ainda que o tempo se regozijasse na tarefa do esquecimento. Contudo, a noite solitária era estranha e fria, meu âmago se calava como um pássaro morto enquanto tudo o que eu sentia era medo. Eu não estava pronta para olhar as íris que perfuravam minhas retinas naquele instante. Eu tremia. Eu sabia, inclusive, que poderia ter sido evidente o meu tremor, pois que o arrepio brincava em minha pele e se fazia visível em meus braços. À princípio tudo o que fiz foi silêncio, o silêncio parecia durar a eternidade, mas o homem que guardava tão vívido o meu semblante não parecia hesitar, ele não parecia abalado. Decerto sorria detrás da máscara, a maldita máscara… ou seria bendita? Graças a ela a minha feição de transtorno podia se manifestar sem restrições, sem perigos. E naquele instante, com o coração disparado como se eu corresse uma maratona, travei minha respiração enquanto minha pele esquentava como uma febre perigosa.
— Sophia? — aquela voz, agora mais grave do que há dez anos, atravessou o precipício entre nós e espargiu em meu coração, fez com que a pulsação acelerasse num ritmo ainda mais tenebroso. Respirei o mínimo, para não desmaiar. Sentia um amargor vindo da tão clara incapacidade de me comunicar como um ser humano civilizado, custei respondê-lo e ele, graciosamente, elegante como sempre, apenas se fazia espontâneo e tranquilo. — Lembra de mim? — acrescentou, tudo sumiu ao nosso redor e eu apenas o enxergava, vívido, como um ser absorvido pela imensidão de si mesmo; senti uma dor pequena e estortegada, tudo porque minha mudez nos constrangia.
— Ahm… — gemi, ou apenas vocalizei, sem razão aparente, sem motivo, eu estava me esforçando para ser quem eu deveria ser em uma situação inusitada; meu erro, entretanto, foi apreender aquele momento como apenas e tão somente “inusitado”; eu estava afetada, eu estava assustada, não era só um reencontro daqueles em que sorrimos, relembramos e nos despedimos felizes e nostálgicos. Deveria ser, mas, não era para mim. — Claro… — respondi com dificuldade eterna. Ele pareceu mais tranquilo quando o respondi, eu não o notei apreensivo antes, porém, quando o vi mais relaxado, percebi que antes estava tenso. Não era mesmo apenas um reencontro comum, ainda mais pela onda abusiva que corroía meu corpo excitado e transtornado.
— Quanto tempo… Como você está? Conseguiu se formar direitinho? — ele indagava enquanto um frio me envolvia perigoso. Esfreguei meus braços devagar, fechei a porta da geladeira que até aquele momento estivera aberta, porque pouco antes daquela situação horrenda, eu estava apenas escolhendo um sabor de sorvete para adoçar e gelar a noite, quem me diria que o frio viria de outro lugar, numa dança obscura com a febre mais promíscua jamais olvidada... Fiquei de frente ao meu passado, respirei fundo.
— Sim… estou bem… é… no ensino médio sim, mas ainda estou no superior… — Minha resposta, era nítida, estava cheia de insegurança. Era terrível a sensação! — Como... Como você me reconheceu? — Perguntei sem pensar muito a respeito. Ele desviou seu oceano-olhar que ainda era — e como não seria? — tão azul quanto o fim de uma tarde nublada, acinzentado a depender de quem ele está olhando.
— Sinceramente? Eu não faço ideia... Passei por você, seus olhos atentos às geladeiras, tive a impressão de que já tinha visto esses olhos... — Silêncio… Nossos olhos não se desgrudavam naquele momento, mesmo à distância. — Busquei com afinco na memória…. e então Sophia me veio à mente. Resolvi arriscar. — Como eu poderia processar aquela explicação? Eu não poderia, porque seus olhos a mirar meu rosto pálido eram árduos, dominadores, tórridos como o verão de 1999, quando o vi adentrar a sala de aula pela primeira vez… Eu apenas não conseguia entender o porquê de estar tão mais frio a cada segundo, enquanto tudo era calidez, talvez fosse culpa daquele silêncio que fazia morada em meu caos, um pouco mais da música sem ondas sonoras batendo contra minha ansiedade. — Bem, quer tomar um café? Sei que é tarde para isso, mas acho que eles têm chocolate quente aqui também. — Rui estendeu sua mão direita, tocou meu braço esquerdo e o acariciou como se fôssemos íntimos. Eu apenas fiquei estática. — Você está fria… e arrepiada… É bom tomar algo quente.
Fria… arrepiada… Seu toque trouxe algo mais do que isso. Seu toque, mãos quentes, grandes como eram quando tocavam em meu caderno apontando detalhes matemáticos quais eu me esforçava para entender apenas para impressioná-lo. Eu tinha quinze, ele talvez tivesse uns trinta… Era ótimo amá-lo em segredo, meu maior erro foi ter acreditado que a confiança em minhas amizades era baseada em provas concretas de real afeto e bem-querer. Malditas traíras… contaram ao professor que eu o amava… Eu não podia esquecer o quão traumatizante foi aquilo; senti a vergonha de toda a humanidade concentrada dentro de mim. Apesar disso, ainda o amei por um tempo, mesmo já não vendo o seu rosto, já que ele não ficara mais na escola, pois era um professor temporário. Rui Mansur… ele ainda me excitava como antes e… muito mais… porque, afinal, eu já sabia muito bem o que era a excitação e o que poderia ser feito para saná-la, sabedorias que na juventude nunca são bem esclarecidas.
— Eu… não sei… — Respondi com toda a veracidade da minha alma. Eu não sabia se deveria ou não aceitar aquele convite.
— Vamos… não sou mais seu professor de matemática… Não vou te dar uma prova oral sobre raiz e porcentagem — ele sorriu, percebi pelos seus olhos. A prova oral que eu queria era outra, e a máscara não escondia a fascinante expressão de alegria de Rui, por que talvez tenha pensado o mesmo? Não pode ser… lembro de repreender meus pensamentos naquele momento. Sorri de volta, por educação, a tensão existia, mas o cuidado, o carinho que envolvia aquele homem, simplesmente era impossível não ficar à vontade ao lado dele. Caminhamos juntos pelo mercado, passos lentos, só nós dois existíamos ali; seu corpo não estava distante e a cada pronunciar de suas palavras, eu sentia mais e mais desejo.
— Você está… trabalhando em alguma escola da região? — questionei.
— Agora na universidade de USFOR. — Ao ouvi-lo, expressei supresa com sinceridade, mas disfarcei. A USFOR era a maior universidade do país, decerto uma honra para ele poder fazer parte do corpo docente, no entanto, era a mesma Universidade que a minha, pois naquela semana eu havia concretizado minha transferência, uma vez que me mudei para o meu novo apartamento. Mesmo assim, minhas aulas seriam em um prédio completamente diferente, isso me aquietou bem rápido, a sorte de não unirem exatas com humanas. Preferi me abster de imaginar a possibilidade de encontrá-lo outra vez.
— Parabéns! É um grande passo — congratulei e o olhei nos olhos, virando-me sutilmente de lado; pela primeira vez eu busquei o oceano de suas retinas, intencionalmente, eu estava me acostumando com o desconforto pela vergonha de tê-lo tão perto depois de tudo o que vivenciamos naqueles tempos.
— Obrigado, Sophia… — Meu nome em seus lábios me faziam novamente perder o controle; novamente me arrepiei e dessa vez ele com certeza percebeu, olhou para meus braços e depois inclinou suavemente sua cabeça, fechou ligeiramente seus olhos num semicerrar bem sutil. Mesmo assim, mesmo que a cada instante meu anelo por ele ascendesse drasticamente, pouco depois tudo desmoronava como um monte imensurável de lama feita da memória de minha humilhação… Aquele dia… O meu segredo… Aquele era… era meu único segredo… e de repente eu estava nua, sendo julgada no meio de um campo de futebol lotado — era o que eu sentia —; desde então evitei tudo isso, todavia, como eu devia ter previsto, quando se evita demais alguma coisa — com esse esforço exagerado —, essa coisa tende a ressurgir frequentemente para te torturar.
Chegamos ao café. Pedimos bebidas quentes no balcão, sentamo-nos em uma mesa pequena. Não ficamos frente a frente, estávamos pendendo para à esquerda, de forma tênue, já que a mesa possuía três cadeiras..
— Não se assuste — disse Rui ao retirar a sua máscara — maldita pandemia! Eu o vi… perfeitamente… ele estava ainda mais elegante. Fascinante em sua beleza viril. — Como pode ver, me tornei grisalho nesses dez anos e essa expressão facial de velho cansado foi um brinde agregado. — Ele sorri galanteador. E me olha nos lábios e depois nos olhos.
— Você não está com cara de velho… — afirmo sem pensar — Quero dizer… — desvio meu olhar —Não é um problema também estar com cara de velho… — Explico, mas sinto-me confusa, retiro minha máscara devagar e bebo meu chocolate quente e olho os arredores. Não bastasse a incapacidade de socializar, eu ainda estava visceralmente excitada somente pela presente do senhor Mansur.
— Sophia? — Ele me chama. Olho para seu rosto, ele estava concentrado no meu. Logo sua mão direita toca minha perna, ele toca com cuidado e força, eu não esperava, e eu não entendi aquele súbito toque tão quente… Mãos quentes e firmes, mesmo ainda cuidadosas. Eu estava queimando e pelo seu toque em minha perna eu estava em combustão — mesmo ainda morrendo de frio. — Essa sua perna não para de balançar, você não está confortável, não é?
Nem eu mesma percebi que estava assim tão agitada. Rui sem dúvida estava sentindo o meu desejo, porque continuava me olhado fixo, meu nervosismo evidenciava tudo para ele, como uma grande janela aberta. O que eu poderia dizer? O que eu poderia fazer? Era sempre assim, algo o fazia sempre saber o que eu guardava de segredo sobre ele. — Se quiser posso ir embora — ele diz, com a voz mais baixa.
— Não quero… — respondo rápido, como um sopro. Quero pedir para que ele não tire as mãos de mim. — Quero dizer… — hesito — Não precisa ir… só estou um pouco nervosa porque não te vi desde aquele dia… na escola…
— Lembro bem daquele dia… — Rui deixa de tocar minha perna, ela esfria mais do que antes… — Aquelas suas amigas infernizaram a minha vida. — Confessou e bebeu o chocolate logo em seguida. — Elas provavelmente não te contaram o que eu disse a elas, um sermão de meia hora sobre não revelar segredos dos outros, ainda mais dos amigos. Depois eu soube que você estava chorando no intervalo. — Rui respirou fundo e me olhou mais próximo. — Fui atrás de você, mas a Sandra me pegou no meio do caminho para falar sobre as provas… Queria ter te dito que estava tudo bem… Ainda fui surpreendido com o retorno do Gilson, sequer me despedi de você. — Rui se ajustou em sua cadeira, ficou ainda mais perto de mim, eu sabia que provavelmente teria um orgasmo se ele se aproximasse um pouco mais.
— Achei que você tinha ido embora por minha causa… — revelei.
— Jamais… Quero dizer… Não era um problema para mim que uma aluna me amasse, o problema seria eu amá-la de volta — ele disse semissorrindo — Eu não sou o tipo de cara que se apaixona por adolescentes, eu apenas fiquei frustrado com a cara de pau das suas amigas e por isso eu queria te consolar de alguma forma, pelo menos dizendo que estava tudo bem e que eu não tinha achado aquilo ridículo, eu não achava seu amor ridículo.
— Fiquei mesmo com essa impressão — confessei novamente e tomei meu último gole de chocolate. Rui ficou me encarando por alguns momentos.
— Você mudou bastante… — Seus olhos passearam sobre mim… — Mas seu olhar ainda é igual… Doce e gentil... — Sorrio para ele e levanto-me devagar, ele faz o mesmo.
— Eu preciso ir agora — Se eu não fosse embora… eu tinha medo do que poderia acontecer. A forma como falou comigo devagar, o modo como me disse ter um olhar doce e gentil, mordendo sutilmente os lábios, quase imperceptível… Eu não conseguia mais… — Mas… foi ótimo te reencontrar. — Eu falei…. Eu não sabia se de fato tinha sido ótimo. Rui me cumprimentou com um leve abaixar de cabeça, não deixava de me olhar e agora, sem máscara, parecia me causar mais vontade e mais vergonha.
— Foi um prazer te reencontrar. Bom saber que você não me odeia. — Ele brinca. Se inclina um pouco para mim, sorri, fala ainda mais baixo. — Acredite ou não, isso me perseguia bastante.
Isso o perseguia? Por quê? Fiquei sem reação outra vez. Eu quase não respirava, de novo.
— Perseguia? — Repeti como que para assimilar, mas é claro que o Sr Mansur aceitou a indagação.
— Sim… Por empatia e…
— Ah sim… claro… desculpe a pergunta — desviei o olhar, interrompi-o porque sabia que a minha pergunta tinha sido tola, eu me sentia uma criança em busca de migalhas de afeição — Bem, até logo professor. — Rui sorriu.
— Até logo, aluna. — Respondeu para me provocar. Eu apenas sorri enquanto estava enxarcada de desejo por ele.
Não comprei nada naquele dia. Esqueci meu carrinho de compras e apenas não voltei atrás. Eu queria tanto vê-lo de novo que meu desejo era nunca mais encontrá-lo, se é que esse paradoxo é possível. Meu corpo era a manifestação pura do desejo e apenas quando meu coração se acalmou, cerca de duas horas depois, eu consegui relaxar no banho e depois na cama, sentindo a excitação enquanto relembrava do toque quente de Rui e fantasiava como poderia ser o seu corpo, o seu sexo… Qual seria o tamanho, a vultuosidade… quão quente poderia ficar dentro de mim… O quanto poderia preencher a minha boca… Rui estava ainda mais belo agora, mais velho e mais forte… Seu olhar estava mais seguro, mais erótico… Não era aquele olhar de professor cansado… ou eu estava tão apaixonada que apenas enxergava o que eu queria enxergar? Eu não sabia. Esperei ter sonhos com ele naquela noite, mas apaguei rápido e profundo depois de uma intensa e rápida masturbação. Queria os lábios de Rui, faria tudo por isso.
Mórbida Esperança
À Noite, quando as candeias se apagam e, sob sombria imensidão, ergue-se o prazer em minh’alma, ultrapassando a tórrida pele, relembro-me…
Imagem criada e editada por Sahra Melihssa
À Noite, quando as candeias se apagam e, sob sombria imensidão, ergue-se o prazer em minh’alma, ultrapassando a tórrida pele, relembro-me unicamente dele. Criatura inumana e, como tal, restringia-se aos sentimentos e ao instinto; embora me compreendesse tão bem. Sei que me arrisco ao escrever sobre tais obscuras verdades, todavia, corrói-me não ter a quem confessar os indistintos sentimentos que me sufocam. A loucura bate aos umbrais, espreita em cada fresta; ainda assim, eu insisto. Eu insisto no alarde sutil da aldrava desta porta que leva à morte e ao insondável.
Vertido, o sangue, à mórbida cena. Os corpos dilacerados em frações de tempo. Ele, que os senhores gritavam pelo insulto “demônio”, ele tão facilmente poderia me consumir, no entanto, viera em lentidão extrema, logo após matá-los todos, frente a mim, seu hálito com pujante odor de ferro. Não vi seus olhos, porém, por eles, eu era vista; de alguma oculta maneira. Tive meu medo farejado. Suas garras em meu rosto sob mesma lentidão que seus passos, enquanto eu chorava. Implorei, em sussurro, para que ele não ceifasse a minha vida naquela horrenda mansão e ele se afastou, brando. Comportava-se como um homem educado, tinha análoga anatomia humana, movimentava-se quase símil, como um homem, exceto quando rasgava a carne humana. Era uma criatura imensa, com presas ensanguentadas, rosnado alto e grave, pele fosca e negra-cinérea, um tipo de cor jamais imaginada em nenhuma tez.
Rodeando meu corpo frágil, após longo admirar que tanto me intimidava, ele se foi e, ao recompor minha comoção, corri à saída com dificuldade, visto que o traje determinado pelos senhores se assemelhava aos antigos vestidos vitorianos. Demorei a encontrá-la. Eu não sabia o que ocorreria naquela noite, fui ludibriada e tomada como mercadoria, mas hoje eu sei a razão primeva, porventura sobrenatural, própria da criatura que encontrei. A submissão qual me submeteria faria dos homens reais as verdadeiras bestas medonhas e eu era a única mulher naquele lugar e eles eram em vinte homens. Uma leve compreensão alcançara minha consciência acerca daquela mansão assim que abri as portas de entrada; eu estava lá para servi-los, servir aos cadáveres outrora com seus corações pulsantes; eram homens de poder. Mas não eu, eu era mais uma vítima de seus rituais.
Havia névoa por toda a parte, neve e névoa, frio intenso e ventania tétrica. Nunca vi tal clima tão perturbador. Entendi, somente ali, que eu não sabia onde estava, tampouco como havia chegado naquele lugar. Voltei à mansão fechando-lhe os umbrais antes que meus braços congelassem. O silêncio. O silêncio e um leve respirar grave à distância. Era a criatura. E ele se aproximava outra vez. Sob um pavor singular, segui à direção oposta por um corredor qualquer. Cheguei à cozinha, retornei aos quartos, encontrei uma biblioteca. Nesta última, sentei-me n’uma grande poltrona frente a uma pintura à óleo antiga. Descansei até ouvir a criatura outra vez.
Seu sibilar era como um abismo e eu sentia esta profundeza em meu ser. Não somente inumano, a criatura não era sequer animal; decerto vinha d’outro mundo, d’outro plano. Não fugi, embora almejasse; talvez, ponderei, fosse melhor a morte, pois, o que eu faria ali sozinha? Por quanto tempo? Questionava-me tão célere quanto meu coração batia e, assim, sob um impulso mortal, me joguei aos braços do demônio, em pranto súbito, e eu o senti aquecido. “Mata-me! Mata-me que já não sei o que fazer aqui sozinha!” — meus gritos eram estridentes e repletos de angústia. Fui abraçada, então, à minha surpresa, pela criatura. E ali ficamos até meu acalmar. Até meu adormecer.
Com os olhos abertos, serenos, senti-me ser a mais etérea quietude. O meu peito já não estava arfante. A adrenalina enclausurada. “Podes sentir-me?” — sussurrei, e ele emitiu de sua garganta um som grave, mas ameno. Nenhuma palavra. Apenas um tom. Toquei a pele de seu tórax e o toque expandiu-se para seu pescoço, mandíbula, nuca e, quanto mais o tocava, mais sua respiração se elevava. Em certo momento, senti-o envolver seus braços em minha cintura para nos aproximar e, tão logo, passou a acariciar minhas costas e meus cabelos. Ele insistia no cuidado, embora fosse, pelo tamanho e composição, brusco. Tudo, entretanto, deu luz a uma inenarrável vontade e notei-me, em profundez, envolvida; meu corpo pedia por ele, eu estava excitada. E pelo arfar intenso, ele também.
Sei o quão errôneo soa tal relato… eu sei… “Sinta-me” — proferi, então, subi sobre o seu corpo, na mesma poltrona de outrora. As suas mãos, que eram como garras, cortavam meu vestido e eu o olhava em sua face mórbida de criatura infernal. Beijei seu rosto e atritei meus seios, já nus, em seu peito. Senti-o segurar-me intenso e sua língua indiscreta alcançou-me os seios outrora apoiados em seu corpo robusto. Ah… se descrever fosse o mesmo que sentir… Alçado em lascívia, hirto, túrgido como um homem; guiei-o ao caminho que o esperava inundado. Ele compreendia sua vultuosa natureza, penetrou-me tão devagar até minha face lhe confessar os meus limites. E ele os respeitou. Quão fascinante tê-lo na alcova de mim. Seus movimentos advieram com o mesmo cuidado e não demorou para meus gemidos encontrar-lhe os tímpanos e levá-lo quase à bestialidade de sua essência.
Seus urros eram ensurdecedores; sua língua, impetuosa; seu corpo, promíscuo; seu desejo, violento. Ele estava sob seu próprio autocontrole, enquanto eu desejava, vítima de um prazer diabólico, o desvario e a morte. Quis tê-lo todo introduzido, quis sangrar pelo interior e enfim jazer em seus braços; visitar o inferno. Ele, todavia, era certo de seus impulsos e despejou sobre minha carne íntima toda a sua vitalidade carmesim enquanto eu mesma tremia pelo orgasmo que meu corpo nunca presenciara. Eu o amei e o amaria de novo e o amei por dezenas de vezes e nunca me arrependi. Tive-o rígido em meus lábios, tive-o em vigor, lado a lado, dei-lhe meu sangue; supliquei para que marcasse minha pele, ele o fez; supliquei para que penetrasse mais fundo, ele o fez. Adormeci por dezenas de noites em seu colo e o vi ser morto pelos malditos oficiais que me encontraram e me apartaram de meu único amor. A dor de perdê-lo foi cruel… desumana… ele tentou trucidar aqueles malditos, porém, suas armas de fogo foram impiedosas. Tentei impedi-los. Pus-me à frente para ser baleada; nua, e encharcada em devassidão, eu bradei para que parassem.
Abracei-o forte, mesmo caído ao chão. Em seus últimos suspiros jurei amá-lo pela eternidade e sei que ele compreendeu. Os oficiais levaram-me para uma clínica psiquiátrica e por lá fiquei por uma vida. Retornei há poucas semanas para minha casa e, estranhamente, pude senti-lo por perto; parece-me ainda tão vivo, como se sua alma sombria estivesse na espera de um receptáculo que a comportasse para que, então, ele pudesse voltar à vida para me encontrar outra vez. É nesta ínfima possibilidade que me apego cada dia mais.
Dia Quente
Seus olhos contavam-me alguns segredos, embora seus lábios estivessem resistentes à fala por preferirem outro tipo de comunicação….
Seus olhos contavam-me alguns segredos, embora seus lábios estivessem resistentes à fala por preferirem outro tipo de comunicação. Sim, eu havia entrado na livraria dele, pequena e cheia de livros antigos e, sim, eu havia olhado fixamente para seu rosto e a reciprocidade foi tão imediata que a excitação emergiu para aquecer ainda mais aquele dia fumegante. Ele atendia um jovem quando me aproximei da prateleira frontal, desviei meus olhos para as capas e os títulos, um deles me chamou atenção, segurei-o e folheei, perdi-me em seu interior poético até sentir-me sutilmente fria, algo incomum para aquele verão escaldante.
Olhei ao redor, ele não estava mais no balcão. A porta de sua livraria estava trancada, eu sabia, mas tentei por duas vezes abri-la até que senti o calor de seu corpo rente às minhas costas. Tremi.
— Os livros precisam de uma temperatura fria, mas amena, adequada para que se preservem sem se umedecerem — explicou. Senti suas mãos tocarem meus cabelos e àquela altura havia um doce rio mélico escorrendo dentro de mim. — Vamos para um lugar mais quente? — ele questiona e segura, com uma delicadeza inimaginável, a minha mão esquerda. Apesar da delicadeza, sua mão era firme, grande e um tanto áspera, tal como aprecio.
Andamos juntos para os fundos da livraria e adentramos um cômodo, semelhante a um estoque de produtos, nele habitava uma escada. Subimos. O andar de cima era uma casa, pequena como a livraria, no entanto aconchegante. Havia uma cama de casal próxima à janela a qual mostrava a rua agitada, o comércio a todo vapor. Era meio-dia. Um raio de sol incidia bem no centro da cama e as cores de terra e madeira evidenciavam-se para um ambiente em abundantes tons de terracota com nuances esverdeadas pelas plantas que residiam em alguns recantos.
Era a casa de um homem, mas não qualquer um; tratava-se de um homem cujo desejo se manifesta no fogo e se alastra no suor vívido da paixão. Ele foi à cozinha quando chegamos, era um único ambiente; pôs-me em direção à cama, para eu me sentar. Pegou na geladeira um copo d’água e bebeu, devagar. Olhava-me atento, talvez túrgido, eu imaginava. Não havia medo nele, não havia receio e, por isso, me senti profundamente confortável quando seu corpo se aproximou do meu e suas mãos tocaram meus ombros para descer as alças de meu vestido. O sol agora incidia em nós e estava cálido.
Podíamos ser vistos ali, por qualquer curioso dos prédios ao redor; mas aquele lugar era quase estritamente de comércio e, no comércio ninguém para. Nós paramos, quero dizer, alguém parou e que delícia parar naquele tempo, com aquele calor. Fui despida e beijada com a calma de quem tem todo o tempo do mundo e a face daquele homem inspirava anti-heroísmo. Sua pele era negra-dourada, ainda mais sob a luz do astro-rei e o seu beijo que encontrou meus lábios úmidos era escaldante e imersivo. Os olhos verdes — quais reparei só depois quando sua mão esquerda segurou meu pescoço enquanto respirava a avidez de seus dedos da mão direita em um movimento circular em meu clitóris intumescido… os olhos verdes… abri meus lábios e gemi como nunca outrora o fiz com nenhum outro homem e, há um ponto de meu orgasmo, ele parou para mais um beijo suado.
Estávamos suados, não só pelo calor do dia, o desejo aquece. Tirei-lhe a camisa e toda a sua roupa obscura como a noite, seu corpo era sublime, não pela forma, mas por pertencer a ele. Contemplei-o e ao focar seu falo intumescido, fui roubada para mais um beijo e levada em seus braços para cima de seu corpo. Encaixada delicadamente sobre a fonte da energia daquele anti-herói — que eu diria ser um deus ou um anjo caído eternamente pertencente à luz e ao fogo — senti-o profundamente. O encaixe perfeito… e a penetração ardente… fechei meus olhos, mas ele não me permitiu parar de olhá-lo. Seus olhos… entreabri meus lábios e ouvi o silêncio absurdo ao redor de um único som.
— Radamés… — ele sussurra e toca o mais profundo dentro de mim… sinto muito por não poder continuar fitando seus olhos, o êxtase é tão grande… sinto sua mão segurar firme meus cabelos já molhados e a outra contornando minhas costas para o movimento contínuo que se seguia a partir dali… Radamés… Radamés… Só poderia ser o seu nome. Ele me deixa sobre a cama, devagar, sobre mim continua penetrando, tomando-me enquanto minha cona suga seu pênis como se almejando toda a sua energia triunfante. Quero me apresentar a ele, no entanto, não posso; estou sem controle de mim e o ritmo que aumenta eleva à mesma altura os meus gritos de lascívia. Estaria alguém nos ouvindo naquela rua movimentada? Radamés continua, pujante, e ouço seus sutis sons agressivos pelo prazer que lhe domina — o único que poderia dominá-lo. Beijamo-nos outra vez e ele se afasta de dentro de mim. Estamos suados, quentes, reluzimos sobre sua cama.
— Diz para mim… — ouço dele…
— Noemi… — apresento-me em sussurro e ele toma meu rosto, acaricia-me. Segura meu corpo e vira-me contra o seu.
— Assim… Noemi… como poderia me servir… se eu fosse mesmo um deus… — surpreendo-me com o que ouço e, por segundo, estagno… Radamés sorri. — Um deus… ou anjo caído… — ele profere e, claro, claro… meus pensamentos saíram em voz alta; não havia sido tão mero e inocente. Senti-me envergonhada, mas Radamés ainda sorria… — Não se envergonhe, gostei de ouvir… — afirma em sussurro e eu sinto seu membro plenitúrgido tocar-me a fenda enquanto seus braços me envolvem tocando-me os seios e apertando-me, carinhosamente, nos mamilos. Como servir a um deus… Como servir ao deus Radamés…
— Noemi… — ouço outra vez e como gosto de ouvir… Toco seu falo naquele instante e direciono-o para dentro de mim… ele me penetra com toda a força que o rege e a rapidez com que me consome é ainda mais impetuosa do que antes. Sobre ele, me movimento, quero mais e mais fundo, mais e mais forte, mais e mais rápido. Ele faz. Olho para a janela e observo as pessoas correrem contra o tempo enquanto não há mais tempo, nem espaço, para nós dois. Radamés me leva à janela num único movimento e eu me apoio sobre ela, estou de quatro, a minha posição preferida, pois Radamés segura minhas ancas e força-me mais forte contra seu membro… aperta-me, sufoca-me… e o dia é mais quente sobre nós, sobre o meu orgasmo florido súbito impedindo-me de sustar meu próprio corpo…, mas meu homem me segura, trêmula e completamente fraca. Põe-me deitada sobre sua cama e eu me afasto ao canto para ter minha cabeça abaixada o suficiente para saborear… dos lábios à garganta… no mais fundo que pode ir….
— Assim… — digo e abro minha boca. Radamés vem até mim.
— Você o deseja… — ele toca seu membro em meu rosto, está tão duro que parece irreal. Ele passa sua glande em meus lábios, toco-a com minha língua… que sabor! O meu e o dele, juntos.
— Por favor… — imploro sem perceber e Radamés novamente sorri encaixando seu membro em minha boca e recheando-a completamente. Eu quero mais… chupo com voracidade, daquela forma que só eu sei fazer; Radamés estremece e sei que gosta porque aumenta a velocidade do sexo oral sem sequer perceber. Fecha seus olhos, as janelas esverdeadas do paraíso perverso; segura minha cabeça e mete. Engasgo diversas vezes e é assim que gosto e não consigo controlar a insanidade sexual que controla toda a minha existência até que vejo Radamés inclinar-se e, claro, ele não resistiria em beijar minha vulva, meu clitóris cheio de mel.
Ah… sim… aqueles lábios… aquele beijo… aqueles dedos penetrando-me ao mesmo tempo… eu chupo… eu sinto… ele lambe e devora… está mais quente do que antes, e mais quente… mais quente… tomo todo o seu líquido níveo como um manjar e ele toma do meu, o segundo orgasmo, em sua boca apetitosa.
Eu não sei o que houve naquele dia, mas permanecemos num amor infindável que, a quem contei, fui desacreditada. Só paramos quando o sol se pôs, porque Radamés é assim, filho do sol, sua energia está na claridade mais vívida da natureza e nada se compara ao seu sorriso no fim, repleto de contemplação e sublimidade.
Caminhava nas ruas escuras de Verttica. Nenhuma luz natural... uma aurora sem pálido sol. O minimalismo geométrico da metrópole…