Poesias, Convidados Sahra Melihssa Poesias, Convidados Sahra Melihssa

Dueto com Marujo Poeta

Cruzaste os vastos pélagos cruéis | Dos mares nunca findos regressaste | Versaste amor na luz…

 

Nordic summer's evening (entre 1899 a 1900), por Richard Bergh  (1858–1919)

 

(Sahra Melihssa)
Cruzaste os vastos pélagos cruéis
Dos mares nunca findos regressaste
Versaste amor na luz d’alguns carcéis
Sozinho ao véu das águas aspiraste
Que fosse do oceano a dor e o canto
E não destes teus olhos desolados?
Que houvesse astro no céu mui sacrossanto
Levando-te aos caminhos meditados?
Segredas-me que o tempo diz teu nome
E orvalha a noite vil que me consome
Nos versos, de teu imo, entrelinhados.

(Marujo)
Com versos, transpassando-me de méis,
Já sabes que domado me deixaste?
Pois ora, desprovido dos anéis
Trocados com o mistério que fitaste,
Ensejo, desvelando-me do manto,
Sem medo de segredos revelados,
Em versos doloríssimos, em canto...
Falar-te que - nos mares navegados -
Desejo me conduz e me consome:
A um mar em calmaria, que se some
O brilho da aliança dos amados.

(Sahra Melihssa)
Teus olhos já reluzem co’este encanto
Talvez por tantos sonhos afogados
Decerto hás de sentir paixão que arome
Os ares que conduzem teu renome
De ser marujo em mares conturbados.

(Marujo)
Que sonhos com dulcífero recanto
Conduzem corações abandonados
Confesso! Mas, do canto, que retome
A sombra o que me causa o codinome
De náutico maior dos incansados.

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Dueto com Ricardo Zanela

Se credes em minha dor | Quanto odiais a compaixão, | Dama, fazei-me exceção, | Pois angustura e pavor…

 

The Poets Theme, por John Callcott Horsley (1817 – 1903)

 

(I) - Ricardo
Se credes em minha dor
Quanto odiais a compaixão,
Dama, fazei-me exceção,
Pois angustura e pavor
M'ativeram mudo em via
D'amor, canto e poesia:
Melisse, coisa que for,
Aconselhai-me, qual guia.

(II) - Melisse
Símil sou na vida minha
Às abíssicas sonuras
Mas, vem, trove tuas tristuras
Pois que invoco da andorinha
Todo o lume edificante
P'ra que a treva delirante
Qual sussurra e se avizinha
Vá s'embora e doravante.

(III) - Ricardo
Egéria, gélida bruma
M'enseja cordial suspiro:
Desabo, choro, me firo
Em grande amor que avoluma
Pior, álgido inconforto
Qu'ela, vendo-me quas' morto,
Não mantém piedade alguma,
Eis trevas, meu desconforto.

(IV) - Melisse
Que vil tortura, quão cruel!
Ouço o pranto tão revolto
Qual ecoa adentro, solto,
Em tu'alma de umbra e fel;
Se este Manto, gris, te chama,
Beije à Lira que balsama
Tuas angústias de papel
No versejar da tua flama.

(V) - Ricardo
A longínqua joia altiva,
Poesia, egéria Melisse,
Morna, como se partisse,
Tanto, tanto, que s'esquiva
Dos lábios a inspiração,
Que afonos sustam canção:
Língua já inexpressiva
Que vale à surda audição?

(VI) - Melisse
Seja, pois, a própria dor
Seja o teu tormento ardente
Ao pavor d'alma eminente
Devolvendo Lira, Amor...
Caro meu, se te enamora
Tal pesar que só te aflora
Cale a pena, regue a flor
Cujo caule é de Pandora.

(VII) - Ricardo
Egéria, a voz sibilina
Que usais, paço de ternura,
Conselha, não assegura,
Contra minh'opoente sina;
Se Egéria tal se interessa,
Bel, que me faça promessa:
A flor poética germina
Na angustura nada egressa?

(VIII) - Melisse
Deitas ao leito tranquilo
Que D'ela, o canto, ouvirás
Como o alvor e os seus sabiás
Soando belíssimo trilo;
E assim, no pranto rimar,
Verás musa, o estro lunar
A beijar-te, sem vacilo,
Como agora em teu rogar.

(Tornada I) - Ricardo
Aura diurnal pôde impor
Vossa jura, vosso alvor;
É dom que portais, Egéria:
Apreço de rósea flor.

(Tornada II) - Melisse
Sob, da Poesia, este manto,
Meu caro, de enlevo santo,
Morremos p'ra Ela em miséria
Vivemos por ode e pranto.

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