Cartas Eróticas, Erotismo Sahra Melihssa Cartas Eróticas, Erotismo Sahra Melihssa

Sonhos

Moroso e calmo como a noite e o silêncio. Vem, toca-me com seus dedos tenros, esqueça o que nos ascende à dor da alma, mate a solidão com a lembrança do meu desejo. Veja que tenho sonhado, diz se você também sonha comigo...

Moroso e calmo como a noite e o silêncio. Vem, toca-me com seus dedos tenros, esqueça o que nos ascende à dor da alma, mate a solidão com a lembrança do meu desejo. Veja que tenho sonhado, diz se você também sonha comigo... Nas visões oníricas te senti penetrar-me na noite passada e hoje apenas finjo que somos esses dois conhecidos. Você sabe pouco desta que busca seus olhos com frequência, decerto porque fora da sua mira e às vistas do mundo onde nunca nos encontramos, eu sou uma mulher sensível que quer tanto o prazer quanto as dores que somente mãos viris proporcionam.

Percebe? Ficamos no abismo de nós quando você não me toca... não queira vestir máscaras comigo, se você não vem próximo, não dá carinho, demonstrando tênue vínculo, pode fácil esvair-se como reminiscência... E eu não quero isso. Raros são os que admiro, raros os que me fascinam — leva um tempo e eles desaparecem como névoa pálida e frígida. Não suma deste ideal, deixa seu corpo dizer a verdade, ainda que seja apenas no segredo de uma realidade alternativa, como a que sonho quando durmo e a que me inquieta quando acordo.

Feita desta fantasia, mesmo sozinha, é impossível não me enganar nessas dunas de inocente vontade. Como reconheço as profundezas dessa tensão? O erotismo tem mesmo as suas faces, posso sentir pulsar longínquo. Guarde agora o seu ego, se possível, minha vontade etérea e tão pura não é esperança, tampouco mundana, é como o primeiro amor de uma criança que, às vezes, se trata apenas de sua pelúcia favorita. Veja que divago, se o faço é porque te quero, mesmo assim como um momento que pode facilmente acabar. Não tem problema.... Começos me assuntam mais do que os fins, pois, em suma, só os inícios são incontroláveis e imprevisíveis. Preparo-me para o nosso fim desde antes de nosso começo, em vista da sua personalidade e da minha. Não nos conhecemos. Deixemos ao sonho o que nunca será real.

Assim, então, penetra-me outra vez, é apenas um sonho, beija-me ao som da chuva que é intensa, úmida como eu. Sinta meu hálito de frescor primaveril e não perca o ritmo do nosso prazer; há um violino distante que toca no momento do meu gozo, eu te abraço porque você está tenso. Você nunca se despede direito. Você nunca me responde direito. E eu sei que, como a chuva, preciso apaziguar; sugo teu sexo pela última vez, no fundo da minha garganta; encontro meus olhos lacrimejando e vejo seu rosto distorcido. Somos o que somos, mentiras desveladas em fragmentos; nunca compartilharemos a verdade de nós e eu que sou frágil, entendo. Você toca minha perna e some como o vento. Um pesadelo que sempre vem pelo vazio que mora no meu peito.



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Coração palpitante e dois capítulos escritos

Hoje senti algo surreal após escrever o final do décimo segundo capítulo do meu livro Rubi Áurea. Compartilhei com os leitores no Instagram, entretanto…

Hoje senti algo surreal após escrever o final do décimo segundo capítulo do meu livro Rubi Áurea. Compartilhei com os leitores no Instagram, entretanto, senti ser preciso dissertar mais a respeito. Meu coração, acelerado n’um ritmo que raramente sinto, envolveu minhas emoções em uma ansiedade a respeito da história, como se eu desconhecesse os caminhos narrativos, como se eu não soubesse o fim ou as reviravoltas ou cada um dos personagens.

Senti-me extremamente empolgada e apaixonada pelas cenas que escrevi; de certa forma, elas mesmas se escreveram através de mim. É fascinante como a Escrita é viva e se manifesta como uma entidade que não precisa se apossar da sua identidade para ser. A Escrita me completa como nem mesmo eu poderia e é isso que me ascende a uma profunda gratidão por ter sido, na infância, vinculada a esta arte tão única.

Trabalhei dias nesses últimos dois capítulos que ficarão disponíveis para leitura na décima sexta edição da revista eletrônica Castelo Drácula. Tive de analisar para onde a história iria, criar contextos externos a respeito dos personagens e ainda preparar o caminho para trazer pontos importantes no próximo capítulo. O que faço é simples, porém, exaustivo. É como criar uma história secundária para a história principal. Entretanto, posso dizer que vale a pena.

Ainda preciso organizar muitas coisas a respeito dos personagens, pois, a história se passa no mundo de Lacrimur (criado para comportar o universo de histórias que estou criando) e, portanto, é cruzada com dezenas de outros personagens e história. Inclusive, os leitores verão isso claramente na edição — estou quase revelando a surpresa, mas farei o possível para aguentar até o dia treze. 

Percebo, cada vez mais, a importância de conversar com alguém sobre os caminhos da história, isso sempre elucida bastante e as possibilidades ficam mais claras à mente. Converso com ChatGPT também, entretanto, em razão da programação dele, por vezes não tenho tempo para papear sobre as histórias, pois, ele escreve demais e exige tempo de leitura — sim, eu o programei para escrever bastante e não poupar palavras. Posso trazer um pouco sobre isso nas próximas páginas desse diário.

Por fim, finalizei a parte principal do ajuste do meu site, o qual iniciei há algumas semanas e não tive tempo de continuar (são mudanças sutis). Ainda não tenho tempo, mas me permiti fazer isso, há tempos preciso ajustei e organizar os textos do meu site oficial. Sinto falta de escrever para ele coisas que não combinam com o Castelo Drácula. Fiquei órfã de uma revista de literatura que pudesse comportar meus textos menos obscuros, portanto, precisava ajustar meu site para voltar a escrever.

O Diário de Escritora eu estava planejando a séculos, nunca consegui. Seria esse um sinal de que coisas boas virão para meu universo literário? Que assim seja!



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Capítulo 9 – Perturbadoras Revelações

Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava…

Um abrupto sopro de vida e meus olhos foram circundados pelo lume de um dia nublado. Eu dormia? Ao derredor, um cemitério árido e lúgubre descansava, com carvalhos negros ressequidos e antigas estátuas de mármore cobertas por um tipo de limo amarantino à beira do índigo-profundo. À frente, um homem dava forma a uma sepultura, cavando sem pressa; observando a terra atra e úmida se amontoar ao lado da cova. Demorei-me para compreender que o indivíduo proferia palavras, as quais eu bem ouvia, após o súbito despertar que fizera um estranho chiado perturbar-me os ouvidos. Demorei-me, igualmente, para assimilar-me em pé, segurando em mãos um pequeno livro e vestida em tecido de veludo, na cor noite-violeta.  

— … que entendia como algo irrelevante, tal qual a vida em si mesma é compreendida por um recém-nascido. Era, entretanto, aprazível viver nos augúrios nadificantes em Sihren, pois, vês? Cá é tudo cinza e silente. Lá, entre jardins de espécimes indizíveis e mais tantos visitantes a trazerem mudas crescidas de ascehderas e lihrios, eu podia me deleitar com o aroma místico enquanto aconselhava as criaturas que, na verdade, nunca precisaram de conselhos. Ah… sim… Sihren era mesmo o paraíso… aqui, entretanto, eu sou esta mórbida criatura que rasteja na terra e estes corpos, enterrados soltos no solo infértil, nunca recebem flores, tampouco saudações d’algum vivo que deles se recorde. — Após calar-se, o homem fitou os céus, como se mergulhasse em memórias. — Bom saber que eras de Sihren, senhora. Saber que tenho uma conterrânea, afaga esse meu velho coração. Não só uma, já conheci alguns outros… inclusive Olga… bem petiz, ela corria pelos corredores do Castelo do nosso imperador… ah… que saudade… 

Minha reação, se é que posso dizer que reagi, era como um oceano infinito de incertezas sôfregas. Eu decerto o olhava confusa. Senti-me colocada em meio a algo que não me pertencia; desde o local até o corpo meu, pois, tão íntimo aquele senhor me dirigia sua palavra serena sobre o que tínhamos em comum, entretanto, como poderia saber? E eu lhe disse que sou de…Sihren? Mas como o poderia dizer se eu, decerto, não disse? E Olga, criança? Como e quando tal fenômeno ocorrera? Quem poderia ser este imperador? Eram tantas indagações, entretanto, nenhuma se clarificava à medida em que eu me esforçava para lembrar. 

— Eu… — Sem que pensamentos torturantes florescessem, busquei algo sutil para trazer à tona e fazer com que o homem caísse em seu falatório que, por muito, soava-se valioso. Todavia, seus olhos se voltaram a mim e sua face, outrora tão tenra, transfigurou-se n’um pavor desmedido. O homem, na tentativa de fugir de mim como se eu lhe fosse a pior das assombrações, tropeçou em sua pá, ficando ainda mais horrorizado. 

 — Tu… tu és… um deles! — Bradou atormentado em medo. 

— Senhor… por favor… eu não… 

— Vampira!!! — Seu vocífero contornou os quatro quantos do universo. Ele ergueu-se com dificuldade, apoiando-se na terra, sujando suas mãos ainda mais.  

— Eu não te farei mal… — Tentei explicar. 

— Teus olhos… onde estão…? Mudaram… tu és…como eles! Eles! — O homem correu com uma pressa espectral, guiado por um frenesi de medo insano entranhado na alma, como se fugisse do próprio passado reencarnado diante dele. Não o impedi, pois, sei que quaisquer ações poderiam levá-lo à morte súbita, tamanho era seu terror abominável. Apenas fiquei observando-o se afastar como um animal selvagem... embora, talvez, eu que fosse animalesca de fato. 

Diligenciei-me, sob uma promessa autoimposta, a absorver a cinesia do que me parecia um desvario meu, uma insanidade onírica; e, então, reordená-la para que fizesse sentido. Entretanto, toda a lógica sangrava diante de meus pensamentos toldados por um discernimento fragmentado. A verdade é que eu estava de volta ao prólogo, com os olhos abertos para o mundo e um oceano de enigmas para decodificar. Por infortúnio, diferente do sereno início, eu carregava muito mais fardos e, um deles, decidiu se manifestar enquanto eu ponderava... 

— Devias ter mantido teus olhos no fulvo que os pertence. — Ouvi. Olhei para trás e Seth estava ali, recostado em um carvalho. 

— Como... saíste? — Questionei incrédula. Ele pareceu meândrico. “Ó, fardo maldito!” pensei. 

— Do que estás falando, Áurea? — A voz de falésia e voragem. 

— O ritual... o círculo... como tu quebraste a magia? — Eu estava mesmo incrédula, a magia era poderosa, não poderia ter se desintegrado sem que alguém, intencionalmente, a tivesse rompido. Seth se aproximou. 

— Tu não te lembras? — Ele é quem estava, naquele instante e, mais do que eu, cético. Mantive-me em silêncio. Eu poderia estar perdendo minhas memórias recentes como um despertar de um sonho? — Hum... — Murmurou rodeando-me e, por fim, abaixou-se perto à cova, tocando a terra úmida. — Não te lembras que foste ao teu aposento, com uma adaga-cruz em mãos? Esta que refulge em teu cós, presa por uma fita de veludo? — Toquei-me a cintura, senti a adaga frígida. — E não te lembras de encontrar-me preso ao aposento e não ao círculo, dificultando a tua obscura intenção de fincar em meu peito o teu novo artefato? 

— Do que estás falando? — Interrompi-o, aflita. Seth gargalhou e levantou-se. 

— Interessante... se tu não te recordas, não serei eu o responsável por te trazer a lembrança; ainda mais sendo vítima da tua loucura e pendor assassino. Se não fosse por Olga, eu teria me tornado pó; mas... é gratificante saber que teu ponto fraco é tu mesma. 

— Fale-me agora, Seth! — Segurei-lhe em seu braço com uma força que eu não sabia me pertencer; estava com ira abíssica e desejei, confesso sem receios, que ele não existisse e que toda a sua ironia e seu sarcasmo sucumbisse junto dele para mais profundo que o inferno de onde ele vinha. Olhamo-nos de perto. Ele sorriu outra vez. 

— Um olho carmim... um olho dourado... Ela está vindo, Áurea... vais deixá-la entrar? — Pressionei ainda mais o seu braço e vi em seus olhos um fogo rubro faiscante enquanto seu semblante deixava o aspecto satírico e contornava-se em cólera. 

— Basta!!! — Murmurei furiosa. 

— Pergunta para Lorrt, Áurea. O maldito nocturvo que tanto te venera. 

Eu não sei como, mas, ouvi-lo falar de Lorrt fora o estopim do meu furor. Num único movimento célere, segurei a adaga-cruz e passei pelo rosto de Seth. Um sangue negro verteu quente da fenda aberta em seu queixo. Sua mão prendeu-me o pescoço no mesmo ímpeto e mais um corte fiz sobre ela até que, num golpe desordenado, Seth fez a adaga soltar-se de minha mão e cair sobre a terra. Desarmada, segurei sua camisa torcendo-a contra seu pescoço e o golpeei entre suas pernas, fazendo-o se curvar em dor; presos e entrelaçados no ódio, desequilibramo-nos e caímos na cova — não foi o suficiente para me fazer parar.  

Talhei seu rosto com meu punho fechado, três vezes, enquanto ele tentava prender minha mão esquerda. Sem sucesso. Embora fosse forte como um touro, não tinha nenhuma habilidade física contra meu esgueirar-se. Prensei seu estômago com meu joelho e senti-o segurar meus cabelos com avidez, buscando me parar. Seu murmúrio demoníaco se alastrava; cravei meus dentes em seu braço, fazendo-o me soltar e, fugaz, cravei-os novamente, mas em seu pescoço e suguei seu sangue asqueroso para, pouco depois, cuspi-lo em sua face. Seth, atordoado, grunhiu algo ainda mais diabólico e vi a tez de sua fronte rasgar como se algo em seu interior quisesse pôr à vista a verdadeira forma de sua constituição.  

Ssatt esstt hrasstt — Rosnou dizendo, grave algar. Forçou-me contra o muro, tentava virar-me para ficar sobre mim, mas não deixei; cravei meu olecrano em seu peito, fazendo-o tossir; entretanto, um obscuro calor em meu corpo emergiu como se dentro de mim e o incêndio daqueles olhos satânicos parecia se alastrar n’um ardor pecaminoso. Gritei como a morte em fel e chamas, enterrei minhas unhas em seu pescoço e as arrastei para baixo, sulcando sua pele. Por instantes, jurei que não haveria um fim, mas, o fogo do inferno cessou e Seth conseguiu prender-me os braços. Seus olhos atentos, seu corpo prensando-me na terra. 

— É desleal fazer isso, Áurea; eu não posso te ferir, eu devo te proteger, essa é a minha função. Foi tu que assinaste o acordo com Lahgura. 

— Que maldita proteção é esta? Obscurecendo as verdades que possui sobre minha própria existência! — Seth respirou fundo e soltou-me. Entre nós o silêncio pareceu-nos perdurar mil e uma noites. 

— Quando… — Ele iniciou, demonstrava exaustão. — Quando teus olhos refulgem dourados, ambos, uma outra personalidade se manifesta — Seth tocou suas feridas, feitas por mim, e gemeu de dor intensa. — Ela, a outra, determinada e ciente de toda a tua história, não teme nada, é instintiva. Ela desejou a minha morte na violência de suas mãos, com seu desprezível caráter incólume. Ela é perigosa... — Seth se apoiou, saindo da cova e se sentando à beira.  

— Não é fácil dizer a alguém importante que sua doença é psíquica e que esta, decerto, é a razão pela qual suas memórias desapareceram. Ela as roubou de ti... e eu... eu só não sabia como revelar este lídimo e pernicioso fato. — Confessou e estendeu-me sua mão esquerda, supus que pretendia me tirar da cova. Hesitei, mas, ele relevou o que devia e eu queria sair daquele úmido túmulo. E saímos, sujos de terra. Seth, sangrava. Nada proferi a respeito da revelação. — Minha Aessatt, eu te perdoo... não traga em tua fronte tal desespero. — Ele sorriu e eu o fuzilei com minhas retinas trêmulas em gana. — Agora, devo ir. 

Antes que eu pudesse desfrutar do seu desaparecimento, ele se esvaneceu. Tentou acariciar meu rosto, mas não o permiti. Apenas com sua expressão de cinismo, foi embora fazendo uma reverência arrogante. Com certeza foi para o inferno, lugar onde pertence.  

Demorei-me ali, sozinha. Vi o pequeno caderno e a adaga-cruz lançadas no solo fúnebre, peguei-as e as limpei como pude. Pouca e mórbida era a aragem que soprava e parecia-me que o entardecer não chegaria. Os céus, por instantes, soavam-me espúrio e o Castelo Drácula, no horizonte, uma miragem. Guardei a adaga em meu cós, no veludo que lhe era apropriado; abri o pequeno caderno. Havia uma frase escrita na primeira página, com a minha letra cursiva.  

Naomie e Noellie — no quarto umbral, de cor gaultéria. Há treze escadas abaixo, iniciando pela espiral da biblioteca. No estreito corredor, elas possuem o Oráculo das Sete Profecias. 

Uma parca esperança, pelo Norte que se fez possível, emergiu no meu íntimo como um lume tenro na escuridão. Meu caminho se erguera à frente, tal uma ponte no abismo. Com ou sem a maldição de Seth, eu iria até estas duas mulheres e, de lá, algo ainda que mais infinitesimal que minha esperança, em absoluto, alcançaria meu coração dilacerado e olvidado. A fé não fazia parte do eixo de minha existência, entretanto, era a única que poderia perdurar em mim, pois, se eu estava mesmo dividindo minh’alma com um alter ego, se ela guarda minhas memórias para si, como afrontá-la se ela é, pois, eu mesma? Pelo espelho? Refletindo as janelas do espírito? Embora as revelações tenham sido ácidas, eu intuía que ela, a outra que eu era, não queria confronto — não comigo. 

Um Oráculo, como previa aquela anotação, poderia ser deveras relevante para os que, como eu, perduram no longínquo de si mesmos. Portanto, pela lógica do enigma — pois era o que soava ser — descer uma escada em espiral na biblioteca do Castelo seria o iniciático movimento para alcançar o corredor estreito, onde a quarta porta em seu imo, de cor gaultéria, seria o aposento onde Noemie e Noellie estariam. Eu não sabia ao certo a localização da biblioteca, quero dizer, eu sabia sobre uma delas, local onde perscrutei sobre livros de exorcismos, entretanto, nesta, não avistei nenhuma escada em espiral, portanto, cri não se tratar dela. Deste modo, então, quando retornei ao alcácer — de volta às suas entranhas, sentindo o aroma de sangue e solidão, tive de acessar cada espaço em busca de uma orientação, ainda que intuitiva, para localizar um novo leito das palavras infindas. 

Em um dos aposentos, quando as esperanças se desintegravam mais céleres do que na gênese de minha busca, deparei-me com uma figura enigmática — tal como outras naquele recôndito sombrio que mais se assemelhava a um labirinto grotesco de lamúrias, silêncios perturbadores e angústias. Ela vestia-se com mantos pesados, um deles negro como a noite e outro pálido como a névoa lôbrega de Séttimor — inclusive, havia tal neblina ao seu redor, como uma aura rarefeita. Assustou-se ao me ver abrir os umbrais, voltou-se abrupta para mim, porém, seu rosto estava oculto no capuz. O aposento era pequeno. Nas mãos enluvadas da figura, um tipo de colar do que se assemelhava, em cor, a ourídeo.  

— Quem tu és? — Indagara com sutileza, sua voz feminil não me era estranha... na verdade... eu sabia bem de quem era aquela voz... 

— Liliana? — Indaguei, confusa. Um breve silêncio se liquefez no aposento. Ela, então, revelou-me seu semblante, entretanto, surpreendi-me ao vê-la em perfeitas condições, como uma humana. Diferente do que avistei em Séttimor, ali, de frente a mim, Liliana estava perfeita; não havia sombras em metade de seu rosto, como um vazio imposto em sua carne; não havia o fumo, a dor, a lúgubre essência. Era apenas Liliana, bela, com longos cabelos lívidos e forte olhar. Eu não hesitei, fugaz a abracei, sem pensar em quaisquer consequências ou, ainda, sem considerar o seu primevo questionamento. Ela pareceu relutante ao abraço. 

— É tão bom te ver aqui... mas... como? — Olhei para seu rosto, soltando-a com afago. Foi n’este átimo que... algo mórbido me aconteceu. 

Assim que fitei seus olhos cinéreos, eu a vi em um sinistro lugar pálido em neve densa com altos edifícios negros pontiagudos. O ar era o vale da morte em sua mais atroz constituição. Liliana era levada por homens de olhos negros, sem esclera... eram Ohrmons. Foi jogada aos pés de um homem cujo rosto eu não saberia descrever, porém, senti perfeitamente a sua energia densa e mórbida. “Queres teu filho, pois então o encontrarás.” — a voz grave e rouca dissera. Liliana foi tomada novamente, sem cuidado, pelos Ohrmons e, então, levada.  

Vi-a inalando um tipo de vapor enegrecido que a fez adentrar um estado de delírio semi-inconsciente. Não parecia sentir dor, mas decerto compreendida a perversidade. N'este calabouço, o seu corpo foi violado enquanto seu sangue era retirado por tubos introduzidos nas veias de seus pulsos, sendo trocado por um tipo de líquido espesso, fumegante e fétido. Palavras estranhas se proferiam no ar quando o homem sem rosto, da voz grave e rouca, adentrou ao local, expulsando os Ohrmons com seu poder abissal.  

Liliana, ainda viva, olhou em direção ao homem tétrico. Ele tocou seu rosto e, imediatamente, metade de sua tez facial apodreceu. Segundos depois, ela estava morta. O homem maldito cortou-se, gotejando seu rubro sangue sobre a cabeça de Liliana. Parecia-me um ritual de sacrifício macabro. Todas as cenas, em milésimos de segundos, atormentaram meu cérebro, fazendo-me afastar de Liliana. Meu corpo estava trêmulo e minha respiração ofegante. Eu tinha uma certeza atroz: o que vi foi uma visão do futuro. E eu compreendi que a Liliana de Séttimor estava morta, possuía, em seu corpo fumegante, todos os sinais dos horrores que sofrera. 

— Senhorita? O que está havendo? — Ela indagou, preocupada. De meus olhos vertia a lágrima dourada, eu a vi pingar em minhas mãos. 

— Por favor... — Murmurei, em completo abalo. — Por favor, Liliana... — Ela se abaixou, tocando meus braços e secando minhas lágrimas. 

— Diga o que queres, querida. Diga-me o que houve? — Eu apenas chorava. 

— Não vá para a neve... não busque teu filho naquele sórdido lugar... eles... eles... aquele homem... — Eu não conseguia dizer, mas vi o semblante de Liliana mudar. 

— Quem és tu? O que sabes sobre Luíre e sobre mim? 

— Eu vi... nos teus olhos... eu previ... — Toquei-lhe a face, com cautela. — Apenas confie em mim... eu sei... é terrível... é um revolto oceano ambíguo, mas... Liliana... eu não me perdoarei se eu não te salvar... a certeza de minh’alma é que teu destino... eu posso... — Voltei a chorar em desespero. Liliana me abraçou, parecia perceber minhas lídimas intenções. Eu nunca esquecerei o que vi... a verdade daquela deletéria premonição. 

— Está bem... acalma-te... — Busquei ouvi-la, ficamos em silêncio até que meu soluçar cessasse. — Em tua visão, havia um lugar hostil, com neve... e o que mais? 

— Edifícios negros... pontiagudos... uma arquitetura que nunca vi... mastodôntica... bela e... amedrontadora... — Respondi em lamúria, mas ainda hesitei em lhe revelar o que causaram a ela, era demasiado chocante. Liliana respirou fundo. 

— Krvieröm... — Proferiu, abalada... — Eu... estava decidida a ir até lá... deixar este Castelo com tudo o que aqui aprendi sobre Pherhesí... e enfrentá-lo... em nome do que eu sei que ele fez com meu filho... — De imediato, lembrei-me do homem mencionado por Lëvri como sendo o seu “criador”. 

— Não sei quem é este homem, Liliana, mas ele é muito poderoso... é preciso muitos para conseguir destruí-lo... muitos ou, talvez, todos aqueles que existem... eu senti... a densa energia dele... infelizmente tu não poderás... tu não serás para ele sequer um exíguo cílio incômodo em seu olho. — Ela compreendia. 

— Eu não duvido de tuas palavras... — Vi-a levantar-se, sentando-se à poltrona próxima ao que me parecia uma escrivaninha. — Contudo... chegaste sabendo meu nome antes mesmo de fitar meus olhos e ter a... horrenda revelação... de onde me conheces? — Hesitei... não parecia ser adequado dizê-la que sua alma está vagando em um corpo deformado e brumoso n’uma vila de nome Séttimor. 

— Eu... não sei ao certo... perdoa-me... eu sequer sabia que essas visões poderiam acontecer... eu... perdi minhas memórias e há muito o que ainda não sei sobre mim e sobre o que conheço e o porquê... — Ela aparentou decepcionar-se um tanto com a minha resposta. Ficamos silentes outra vez. 

— Entendo... e como vieste até aqui? N’este cômodo? 

— Estava em busca de uma biblioteca que tivesse uma escada em espiral para baixo... busco encontrar Naomie e Noellie. 

— Por que buscas por elas? 

— Encontrei uma nota deixada em um caderno... com a minha letra... indicando o local... eu não temo em lhe contar tudo o que sei, Liliana, entretanto, sei tão pouco. Imaginei que, porventura, estas mulheres me ajudariam de alguma forma, uma vez que, segundo a nota, elas possuem o “Oráculo das Sete Profecias”. 

— Posso levar-te até elas, sei o caminho... e creio te dever um favor... pois mudaste meu destino... — Ela sorriu-me. Um sorriso triste, lacrimejante. — Eu desconfiaria se não fosse pelo teu assombro... se não fosse pelo teu abraço... este alcácer é perturbador, então... por muitas vezes fui ludibriada. — Levantei-me, devagar. Liliana ajudou-me. 

— Eu sei... quero dizer... estar aqui tem sido uma experiência obscura... por vezes merencório... e ad aeternum solitária... — Exprimi. 

— Agora, ao menos o que diz respeito à última questão, não há mais o que se preocupar. — Novamente, Liliana sorriu, um pouco mais contente. — Venha, devemos ir. É um longo, e escuro, caminho com muitos degraus. 

Deixamos o aposento. Em meu peito ainda pulsava um pesar aflitivo. Uma dúvida enraizada sobre o prenúncio que me dominou. Lembrei-me das visões que tive na Masqarilla. Pela primeira vez, encaixei peças na totalidade do que eu já sabia e isso liberara à minha consciência uma lógica e um sentido para muitas das caliginosas verdades desveladas a mim desde meu despertar. Ainda assim, não se bastavam. Havia muito o que eu ainda não sabia e, por isso, estava disposta e ir além e desvendar mais do mistério de minha própria existência. 

Texto publicado na Edição 14 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa



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A Face Encarnada do Medo

Olhos de pútrida esperança; entre o frígido derredor, onde as mãos do insondável inverno conduzem a pequenez de seres irrisórios..

Olhos de pútrida esperança; entre o frígido derredor, onde as mãos do insondável inverno conduzem a pequenez de seres irrisórios. Ela se aproxima, mãos trêmulas; um corvo-albino a rodeia, parece segui-la por vínculo — o que me impressiona, é certo, pois são criaturas ríspidas. Carregando o peso de um grande casaco de pelame de ursos negros, ela caminha devagar; o vento impiedoso ainda arrefece sua lívida tez. Ela busca por humanidade em recônditos aquecidos por uma chama à lareira, mas, não há mais lume; as ruínas que deixei são álgidas e traiçoeiras. 

Medo... é isso que atravessa sua carne no instante em que toca os primeiros escombros mastodônticos. Eu sinto o medo que a penetra violento. Que saudade sinto d’este lôbrego arrepio subindo pela espinha dorsal de meu próximo mártir; ó... sim... fascinante! O corvo-albino pousa no ombro dela, ele sabe do perigo, porém, jamais poderá alertá-la. Este era um reino próspero, cara visitante; sorvi da vida fértil e tive o mórbido prazer de assimilar seu idioma. Tão bela a minha obra de arte... de morte... tão bela que não pude deixá-la e, por isso, aqui estou, há mil e um milhões de anos; observando. Agora, vens tu; doce humana frágil; exígua criatura... 

A densa atmosfera é a cinesia que a cinge; ainda assim, em assombro, ela adentra os escombros do que outrora fora um lar abastado — O que houve aqui? — ela sussurra e, tão logo, um lume é aceso por ela com um tipo raro de artefato. Sou atraído a apagá-lo com um sopro de horror, contudo, por hora, agrada-me ver a vida sob seu brilho, a vida que hei de sorver, gota a gota. Aquecida, serena-se, porém, não o suficiente; a escuridão é o meu domínio, isso a terrifica. Para o meu abíssico gáudio, seu nome se desvela à minha consciência: Anissa... De tudo sei, Anissa; do teu coração em mágoa, do pranto, da dor e, principalmente, do medo. Dá-me o teu pavor, criatura feminil, dá-me o teu olhar de tormento! 

“Algo terrível aconteceu n’este lugar... eu sinto uma inominável aura dos cantos onde o lume não alcança, o breu parece possuir corpos e olhos que perseguem meus movimentos.” — ela escreve. “Ttir acompanha-me e está agitado como outrora não esteve, mesmo quando, ao meu lado, viu-me ser violentada pelo oceano cujo atroz poder revelara ao meu herodes que há forças bem maiores do que a sua crueldade desoladora. Estas mesmas profundas águas, condenaram-me aos escombros gélidos em que me encontro. Que perversa ventura... que hediondo fado! Tenho medo... um temor que toca minha tez, que olha para os meus olhos... nessa imensidão sombria...” — Sou eu, ela não sabe. Eu te vejo, Anissa... Eu sou a raiz do teu temor... sinta-me em teu corpo... nos poros da tez que pertence a ti... nem teu algoz ou o ancestral oceano são capazes de conceber tão genuíno terror. Venha para o abismo da loucura, ouça o murmúrio da tua agonia advir, ressoando em teus ouvidos...  

Escurece. Ela aguarda pelo alvor, escondida em minha destruição. Mal sabe que se amanhecer para seu deleite, é porque permiti. Adormecida, sei que sonhará com a meu rastro: a insânia. Um rosto rígido e feliz, de soslaio, fitando seu tormento. Mas, desta vez, não quero este jogo cruel. O corvo-albino crocita, Anissa acorda de súbito e suas pupilas se contraem. Este sou eu. E agora tu me vês. Teu pavor nasce lento, teu susto te afasta, teu grito me enleva. Queres ouvir a minha voz? Sou capaz de falar como os que eram símeis a ti, humanas criaturas ínferas... 

— Anissa... — Profiro. Caída no canto, ela mal consegue respirar. — Que sublime é o aroma negrume do teu instável temor... Não aprecias o que vês? — Indago, densificando as trevas; tornando seu lume em um risível vagalume. Lacrimeje, menina. Como é frágil... Desapareço para brincar com sua mente, ela grita e fecha seus olhos lacrimosos. Trarei o amanhecer, pequena criança, para que outra noite traga a face rígida à tua espreita, com o riso mórbido e a minha visita. Estou sempre olhando para ti, admirando o medo que escorre em tuas têmporas e guiando as imagens infernais do teu onírico. Ela caminha mais à fundo na vila do sibilo da morte e da loucura. Está exausta, em tormento e dor.  

“Ele tinha uma feição humana...” ela escreve quando encontra uma antiga catedral em ruínas e adentra seu esplendoroso interior; notando se tratar do que fora uma alcova de fé há éons, esgueira-se entre ervas daninhas do ártico. “Entretanto, seus olhos eram umbrosos, com as cavidades expandidas e fundas, tal como a área menos óssea de seu rosto, marcada por uma fundura que lhe dava um aspecto cadavérico e... sua pele era carne pútrida... Nunca senti tamanho medo...” — E nunca alguém fora assim, suficientemente intrépido, para redigir minha aparência, Anissa. “Sinto falta de Sihren... sei que morrerei n’este insosso lugar... consumida por uma diabólica criatura, porventura advinda das agruras pertencentes a mim...” — Sim; sou eu, criado por tua tolice. “Estarei sempre fadada ao horror? In perpehctua?”. 

O corvo-albino voa pelos vitrais estilhaçados; Anissa o observa. Ele deve morrer; sua presença é desgraçada e impede que o meu tétrico expandir alcance o mártir. Então, o avisto; na brancura da densa neve; tu vês, mediano animal, esta turvação? A atmosfera a renegar o teu voo? Não posso controlar o tempo, de fato, mas sinto o medo de tudo o que respira e o medo sempre há de se ampliar sob meu fitar. Por infortúnio, perco-o na imensidão cândida. Um assovio quebranta o horizonte, o corvo retorna à Anissa; ao redor da flama áurea, eles se deliciam com frutas secas. — Resta-nos pouco alimento, Ttir... por favor, voe para Sihren e sobreviva! Não sabes o quanto destruirás meu coração, impedindo minha alma da paz eterna, sob a circunstância de ter sido razão da morte tua, de meu único amigo... — ela diz, o corvo a compreende. 

Contudo, ergue-se a segunda noite lôbrega e, com ela, o meu poder. A face rígida em sorriso diabólico emerge das trevas, Anissa sabe e evita que seus olhos mirem a aparição. É em vão. Seu suor escorre, sua tensão exala. O corvo crocita. “O que é isso...? Eu estou delirando...?” — Sim, está, pequena infeliz. Um sussurro em eco pela catedral, um murmúrio nos tímpanos de Anissa. Chama pelo nome dela. De repente, ela se levanta apontando, ao derredor, o seu lume pulcro. “Quem está aí!?” — Vocifera oscilante. Gosto da tua solidão, criatura humana; enquanto estiveres só, na amargura pertencente às tuas mazelas, eu estarei à espreita — sussurrarei teu nome nas noites mais fúnebres; farei visível o rosto rígido que ri, na tua visão paralela, uma presença pecaminosa; consegues sentir, não é? Bem atrás de ti... enquanto me lês. 

“Isso não é real...” — Lamúrias de insignificância. Anissa se encolhe como um feto exaurido. Seu coração é o púlpito do meu esconjuro. Estou no silêncio, entidade notívaga, apague a luz para me ver. “Está... dentro de mim?” — Ela segreda a si mesma. Sim, estou dentro de ti; arranque-me por sua tez; corte sua carne para me encontrar. Eu sou o teu medo. Ela leva suas mãos ao seu crânio dorido, as têmporas estalam em algia; o corvo que voava em ansiedade mórbida, de súbito, cai; morto; morto de temor. Anissa o acaricia, em lágrimas. “Ttir... não... por favor Ttir!” — agoniza junto ao pássaro cuja expressão é de um pânico hediondo. Acolhe-o em seu casaco. Mas eu quero mais. Tu vês? Tua chama enfraquecendo...? A escuridão ascende... ela pesa... é densa... ramosa... sólida... capaz de sufocar... lentamente... 

Anissa busca pelo sopro hialino da vida; ares de alívio. É em vão. Ela está submergindo. Aflita, rasga a pele de seu pescoço, seus olhos arregalados, semblante pávido. Quem ousou dizer-te que o horror é frígido? Anissa tira seu casaco, pois, está quente; o inferno em suas pernas e braços... “So...corro...” — murmureja. Agora é a minha hora, em minha mais bela e vil aparição. Uma besta horrenda e deformada, humanoide esguia, sempre sorrindo; decomposta, exposta em carne escarlate. Ela não consegue tirar seus olhos dilatados de mim. A escuridão atrai o mártir ao seu horror. Trêmula e sem oxigênio. Agônico pavor. Uma excelsa sínfora para mim que, por infortúnio, se esgota quando ela, a vulnerável, desmaia; púrpura de tanta adrenalina; hirta como uma estátua de mármore. Ela não está morta; há de retomar a consciência e chorar de horror. Tão frágil... Tu és tão frágil... 

E esta é apenas a segunda noite, quantas outras virão? Quantas suportarás sob meu macabro domínio? Desejo que muitas... para o meu vil prazer. 



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Manancial

Est’água é Deus, fluída ao corpo e tão vital... | Portanto basilar à fauna e flora, | À sede, alívio vívido — espiral | De grã poder e simples a quem chora... 

Est’água é Deus, fluída ao corpo e tão vital... 
Portanto basilar à fauna e flora, 
À sede, alívio vívido — espiral 
De grã poder e simples a quem chora... 
 
Est’água é Deus, arcano flúmen: cura; 
Orvalho da manhã, bel natureza, 
Se jaz no evaporar, volta na chuva, 
Três dias sem tua glória: morbideza... 

O símbolo do puro e da abundância, 
Nascemos nela imersos, preservados... 
Est’água é, na memória, a proba infância; 

É Deus, fonte primeva, procurado 
N'algures do universo, pois é vida! 
Pecado é óleo, é cisco, e água ferida 
Dilúvio faz p’ra sermos restaurados. 

Escrito em 30 de setembro de 2024 



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Soledade

Kalimba lacrimosa em noite fria: | Sonido de lamúria em languidez, | Se o toque lhe conduz e acaricia | Silêncios mui se prostram — placidez...

 

Foto de Sara Melissa de Azevedo

 

Kalimba lacrimosa em noite fria: 
Sonido de lamúria em languidez, 
Se o toque lhe conduz e acaricia 
Silêncios mui se prostram — placidez... 

Ouvir-te é calmaria e desalento, 
Miúdo regozijo, colo e leito, 
Conforto de pesar, sopro do vento, 
Sonura que assimila a dor do peito... 

Kalimba, quão sensível me percebo... 
Por vezes m’espaireço refletindo 
Que o mundo, porventura, é só placebo... 

 E às vezes tudo está coexistindo, 
Enquanto em minha mente um universo 
É só, pedaço ímpar, submerso, 
N’um tanto que silente vou sentindo... 

Escrito em 22 de setembro de 2024 



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A Guirlanda do Artesão

Querida Lilaen, o mundo silente convida-me ao infinito dos teus olhos. Embora eu não possa ouvir tua voz, sei que ela é doce como mel…

de Niehr Veritch para Lilaen Gohs

Querida Lilaen, o mundo silente convida-me ao infinito dos teus olhos. Embora eu não possa ouvir tua voz, sei que ela é doce como mel. Que o presente que te envio seja protegido pelas tuas afáveis mãos até que minha chegada, no Natal, possa aquecê-las suavemente. Escrevo-te por saudades, mais do que isso, escrevo-te por amor. Sabes que se eu pudesse escolher algo para ouvir uma única vez, seria a tua risada que pelo teu semblante já me convida ao perene gáudio. Vi que teus estudos de Libras estão avançados, nunca tamanha dedicação recebi de uma mulher, decerto que tu estavas destinada a viver em meu coração solitário. Guiar-te-ei pelo período em que estiver em Numnura, prometo; para que possas conversar comigo secretamente. Ser-me-á agradável ver o movimento dócil de tuas mãos e o que elas me revelarão no amanhecer. 

Note que o que te envio é uma Guirlanda, todavia, não uma qualquer; a comprei n’uma singela cabana cujo artesão, dedicado, recebeu-me em mor alegria e contou-me algumas de suas fascinantes histórias — sim, ele tinha domínio de Libras, isto fora uma surpresa imensurável. Acontece que o senhor tivera um filho surdo, no entanto, diferente de mim, o jovem perdera a audição quando criança por causa de uma infecção auricular bastante problemática — tanto ele quanto o pai são ventrais, devo dizer. Recebiam o tratamento adequado, todavia, houve uma negligência. O menino nadou no lago Vertor de Amorttam, por causa de um desafio de adolescentes irresponsáveis, isso complicou os resultados do tratamento. E mais, não contara sobre suas dores após o mergulho, pois temia que a revelação complicasse o problema no coração de seu pai. Pobre criatura. 

O pai, senhor Philiphi, tomou a decisão de ter sua comutação genética após o incidente, passou a odiar a morte. Além disso, entendeu que a medicina de Vonssihren jamais será realmente eficaz nos ventrais que não fazem a comutação. O filho, Domure era seu nome, falecera aos dezoito anos de idade. Que história, não é, minha querida? Não te entristeças, todavia, conto-te para compartilhar, em essência, o dom que Philiphi descobrira a posteriori, quando passou a dedicar-se ao que sempre amou: a arte. Não pôde trabalhar com ela antes, dada sua condição ventral. Meu amor, Philiphi está bem agora, a comutação lhe garantiu um ofício de marceneiro; tem ganhado uma Siremihta por semana! Nas horas vagas, cria essas pequenas maravilhas com flores e folhas desidratadas e aromantadas. Creio que apreciarás o artefato, é de uma delicadeza surreal e ficará belíssimo na porta de teu lar. 

Acabei por refletir sobre o assunto na cabana; nascido indheren, incapaz de ouvir mesmo tendo as perfeitas condições para; sem efeitos aos tratamentos biológicos de Vonssihren; parece-me que há mais na terra do que sonha nossas vãs sabedorias. A senhora de Philiphi, dama Naomi, acredita ser obra da “magia oculta” — eu não duvido, pois, soube recentemente de uma possível ancestralidade com uma família de lá. É intrigante. Não tema, contudo, minha querida; se for verossímil, serei nada além de uma vítima dos antepassados; há nada em meu sangue que pulse pelas terras anti-árticas. Sou sirehnian com honra e serei numnurian ao teu lado. Agora, devo ir, anoitece. O frio se aproxima para beijar o Natal, tal como quero beijar-te a fronte, minha pequena uva. Bons sonhos. Espera-me. 

Com amor, seu Niehr. 



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Uma História de Natal

Mariê Aloe despertara na aurora morna daquele verão recém-chegado; sentia-se enjoada e melancólica. Pousou suas mãos em alguns limões…

Mariê Aloe despertara na aurora morna daquele verão recém-chegado; sentia-se enjoada e melancólica. Pousou suas mãos em alguns limões, escolhendo o mais macio para espremer n’um copo d'água. Sentou-se enquanto degustava sua bebida gélida e observava, pela janela, o amanhecer e a brisa que fazia os trigos do jardim dançarem. Mariê sempre fora apaixonada por flores de trigo, em especial por aquelas, tão douradas e vívidas. Destacavam-se na imensidão. 

Após uma reflexão silenciosa, e por ter esgotado sua água por completo, levantou-se. Contudo, uma vertigem atingiu suas percepções, e ela temeu que estivesse doente. Aprontou-se e, antes do despertar de seu esposo, foi ao Lar de Dhera Nimare, pois precisava estar disposta para a ceia de Natal do dia seguinte — convidara tantas pessoas queridas e estava empolgada para fazer os seus pães doces com frutas cristalizadas. O futuro, todavia, nunca descansa sobre o leito da certeza. Mariê soube do que nunca esperava saber e retornou à sua casa trazendo no semblante um medo, uma estranheza, uma surpresa enraizada. 

Descansara, como orientado no Lar de Dhera Nimare; sua médica, por sorte, estava disponível naquela manhã. Mariê conseguiu fazer os pães, as geleias de mirtilo e cereja; as decorações com pinhas secas e azevinhos. Seu marido, Dom Ithar Aloe, cuidara, como sempre, de sua esposa, especialmente ao saber do pequeno mal-estar natinal. Mariê, porém, não lhe contou a verdade, queria revelar na hora certa, quando estivessem a sós, após a ceia em família, na calma do Natal, ao som do piano pelo arsmusian enquanto dançam lentamente. Era preciso cautela para anunciar uma situação tão delicada. 

Quando, por fim, o instante chegou, Mariê hesitou. Os olhos de Ithar eram dois lumes esmeraldinos. 
— Querido… — iniciou. Ele a fitava, atento como sempre fora. — És a luz dos meus dias, meu recanto seguro… — Ithar sorriu, amava ouvir as palavras doces de sua mulher. Lágrimas brotaram nos olhos de Mariê. — Há algo que preciso contar a ti, meu bem… — Seu esposo se preocupou. A verdade era só uma, e Ithar a ouviu com o coração apertado e exaltado. — Estou grávida, Ithar… de verdade… há um bebê em meu ventre… — Entre medo e alegria, o esposo de Mariê abraçou-a, acariciando seus cabelos. 

Não era fácil conceber um bebê ventral, tampouco cuidar de sua saúde e do seu bem-estar. A vida de um ser humano ventral era curta, mas, sendo Ithar e Mariê nascidos pelo método Indheren, jamais imaginavam ser possível a concepção natural. 
— Eu sei que ele será frágil, mas podemos levá-lo a Vonssihren, para a comutação genética em… — Mariê foi interrompida por um beijo. 
— Minha perfeição… ouça bem! Esta criança será saudável e feliz. Faremos tudo o que for preciso para que ela tenha uma vida longa e seja forte como nós somos… — Ithar acariciou a barriga de sua esposa. — Consigo entender por que alguns escolhem a vida ventral… sinto a energia da existência em ti, minha perfeição. Notei em teus olhos que algo mudara nos últimos dias… — Mariê sorriu, derramando-se em lágrimas. 
— Oh, meu querido… estou com medo… — sussurrou. 
— Não te preocupes, perfeição; estou e estarei ao teu lado sempre… Sempre… 

De fato, Ithar esteve ao lado de Mariê, nunca a deixou só, e aquele Natal mudou suas vidas, levando-os a ver as flores de trigo com mais sabedoria, entendendo o tempo que o tempo sopra em suas faces e, acima de tudo, o que o amor é capaz de fazer sobre todas as coisas. Mariê deu luz a um menino e uma menina, gêmeos univitelinos. As crianças passaram pela comutação genética aos dezoito anos e, em função disso, viveram cem anos mais do que o esperado para quem nasce de um ventre humano. 

Ithar e Mariê viram as crianças envelhecerem, viram-nas morrer naturalmente. Não tiveram outros filhos. Foram profundamente dedicados, por cento e setenta anos, aos gêmeos e, mesmo após a morte natural de Alegra e Felice, não viram razão para uma segunda gravidez e se recusaram a ter filhos pelo método Indheren. 
— Eu sentia-os em mim, Ithar… um vínculo inenarrável… não posso amar mais do que os amei... perdoa-me? Queria dar a ti todos os filhos que almejássemos, mas essa concepção ventral mudou algo em mim… — revelou. 
— E em mim também, minha perfeição. Estou contigo, concordo contigo. Guardaremos a eterna lembrança de nossas crianças e seguiremos sós, tu e eu, na longa vida que ainda nos resta. — Ithar soube acalmar o coração de Mariê. 

Os epitáfios dos gêmeos foram escolhidos por eles, um ano antes de falecerem. A morte natural permite a compreensão plena de sua chegada. Alegra teve dois meninos ventrais, não fez comutação genética em nenhum deles. Felice teve três filhos, duas meninas e um menino; igualmente, recusou-se a fazer a comutação genética. Somente o filho mais velho de Felice, ao atingir a maioridade, quis passar pelo procedimento. Os gêmeos faleceram em seus quartos, adormecidos, no dia de Natal. 

Epitáfios 

Alegra Aloe Nnae 
"Eu não odeio o tempo, eu o amo, pois ele me permitiu viver." 

Felice Aloe Mizzior 
"Tive de partir, mas deixei no mundo humano a minha verdade; que ela seja útil aos que ficaram." 

Escrito em 5 de dezembro de 2024  



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Hermético Bioma

Raríssimos cristais d’olhos chorosos | Regaram-me o jardim do peito e a dor | Nascera envolta n’água, pois ditosos | Langores deram vida à ave Candor*…

Raríssimos cristais d’olhos chorosos 
Regaram-me o jardim do peito e a dor 
Nascera envolta n’água, pois ditosos 
Langores deram vida à ave Candor* 

Que ninho tenro e lírico fizera 
N’este âmago dorido, e o coração 
Pulsar em canto lôbrego viera 
P’ra dar sentido à minha solidão; 

D’orvalho lacrimal à cachoeira: 
Valências p’r’os mais raros desalentos, 
Memórias de amargura n’algibeira 

Que é feita de minh'alma a barlavento 
Propensa à quedabismo* por fortuna 
Do sopro contumaz de tece-dunas, 
Qu’estranha fauna e flora... e que tormento! 

Hermético Bioma, por Sara Melissa de Azevedo (Poesia Lírica; Sonura) - 18 de outubro de 2024 

*Candor é um pássaro negro que reside em meus sonhos, de pequeno porte, longa crista; canto melancólico, longas penas negras com curvas ornamentais nas pontas. Seu nome é em razão de seus olhos profundamente brancos. 

*Quedabismo (substantivo feminino poético): Junção de queda+abismo; representa a queda de forma poética, indicando a sua profundidade e, consequentemente, a dor que ela causa. Essa queda é simbólica, geralmente atrelada às agruras e ou ardores da complexidade humana. 



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Pequenos Sinos

À noite, tilintam... | Entre a breve garoa; | E os brilhos longínquos, | Iguais se tilintam... | No firmamento sereno. | Tradições e esperanças: | Tesouros de vida,…

À noite, tilintam...
Entre a breve garoa;
E os brilhos longínquos,
Iguais se tilintam...
No firmamento sereno.
Tradições e esperanças:
Tesouros de vida,
Que assim fazem soá-la
Perenifólia,
Enquanto, o tempo,
N’ela, manso, tilinta.



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Florescer Melancólico

Silencie seus pensamentos por um instante e, então, ouça o canto do sereno vazio. Talvez eu sinta — na imensidão do único universo que me pertence…

Silencie seus pensamentos por um instante e, então, ouça o canto do sereno vazio. Talvez eu sinta — na imensidão do único universo que me pertence — uma sôfrega sensação de que não há, no interior do mundo humano, alma capaz de enxergar-me como sou.

Não porque estou invisível, mas sim porque ver o Ser é apenas possível àquele que o é. E mesmo nestas condições, vê-se o que se vê na idealização do próprio ser o que se é.

É compreensível todo o inestimável valor desta verdade; no entanto, compreendê-la não me isenta de sentir a profunda dor que ela causa, quando, a esmo, perco-me do rumo e, então, escapam, pelas trêmulas mãos, os sentidos de outrora. Quando as dúvidas permeiam a escuridão da mente inquieta e o “por que há vida?” ergue-se, como uma cordilheira, no horizonte.

Quando lembro que o efêmero condensa a vida, lapidando um medo de que tudo seja esquecido. Porque sou minhas lembranças de ser, ainda que imersas em um achismo ideal, neste terreno pulcro ergo um edifício de saberes aprendidos em momentos de estranheza e de fascínio, lugar que habito, portanto, ao passar do tempo, e que deixo, por fim, caminhando descalça até o horizonte cujo mar da morte aguarda-me: a singela nau, a estátua daquele que levará a minha vida.

Assim, perceberei que o edifício ruirá conforme sou levada pela nau da morte. Isso me inquieta. Eu não quero partir... Talvez eu sinta que, sob o mesmo sol do nunca-ser-alcançada-por-uma-alma-humana, reside um que-assim-seja. A vida ainda é um lírio para mim.



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Agoníria

N'alcova em solinura eu m'afligia, | Terror de pesadelos: abundante! | Nesta umbra-consciência algo plangia | Em mórbido sonar arrepiante...

N'alcova em solinura eu m'afligia,  
Terror de pesadelos: abundante! 
Nesta umbra-consciência algo plangia 
Em mórbido sonar arrepiante. 
 
O choro era vazio e aterrador 
Mas nunca o despertar me bem-dizia; 
Cruel me simulava — Ó vil horror! — 
No cômodo em bizarra noite fria; 
 
Eterno retornar do lacrimar 
A cada um só segundo mais agudo 
Refém d'um hediondo ilusionar 
 
N'alcova, condenada sobretudo,  
E quando finalmente a me surgir 
O sol duma manhã, meu grão-vizir,  
Um logro — qu'inda durmo em meu veludo. 

Escrito em 20 de agosto de 2024 

Agoníria (substantivo poético feminino): Pesadelo sufocante que ilusionar o despertar para enganar a mente e mantê-la aprisionada no plano onírico.



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Sê Éden

Floresça em direção ao vivo sol… | Que o lume da manhã, o gris frescor, | Conduzem quietude ao teu lençol | De cândido conforto e tenro ardor;...

Floresça em direção ao vivo sol… 
Que o lume da manhã, o gris frescor, 
Conduzem quietude ao teu lençol 
De cândido conforto e tenro ardor; 

Floresça sempre douta do qu’é simples 
Se sob a escuridão vir a ficares 
Acalma e regue as raras e absímiles 
Que fazem tu’essência de mil mares; 

Permita-se fanar quando preciso, 
É cedo crer que não renascerás; 
Adube com cautela o paraíso… 

Jardim d’esta tu’alma, então serás 
A lótus e o alvo lírio e a bela rosa, 
E as águas, teu pomar, poema e prosa… 
Silêncio-entardecer vislumbrarás. 

Escrito em 23 de agosto de 2024



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Sonura Aos Mortos

Memórias d’estas mil alcovas lôbregas, | Perlustro os epitáfios, os semblantes, | Há brandos anjos, murchas rosas sôfregas, | À morte: Os meus silêncios lacrimantes…

Memórias d’estas mil alcovas lôbregas, 
Perlustro os epitáfios, os semblantes, 
Há brandos anjos, murchas rosas sôfregas, 
À morte: Os meus silêncios lacrimantes… 

Epígrafes datadas de saudades… 
Soturno violino à sete palmos… 
Pretérito e futuro, ambiguidades… 
Um último versar dos raros salmos… 

Mil sonhos cujo rastro se prostrou… 
O Efêmero é, da vida, a cortesia 
Que dá sabor ao doce que amargou 

Lembrando-nos que houvera poesia, 
E mais um mausoléu longínquo conta: 
No fim aquele alvor sempre desponta”, 
Mas nunca há de brindar-nos c’o ambrosia… 

Escrito em 6 de setembro de 2024 



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Sínfora d’Envocação

As treze sinfonias tocarão | Ardor da Morte pútrida —  evocada | De face em fleuma — sopro de aguilhão | Um canto de langor à dor cessada;...

 

Marino Lenci

 

As treze sinfonias tocarão 
Ardor da Morte pútrida —  evocada 
De face em fleuma — sopro de aguilhão 
Um canto de langor à dor cessada; 

Allegro em tumular sigilo oculto 
Das letras, valsa a Lúcifer, o anjo 
 — Adagio, uma sonura que sepulto 
Em rosas escarlates n’um arranjo; 

Então, no silencim, às três do alvor 
No círculo uma lírica sonante 
Minuetto raro emerge em esplendor 

Erguendo-se, finale, tão flamante 
Em sangue, era o Diabo, estupefato! 
Colérico! Esclareço: “Foi o gato! 
De negros pêlos, olhos rutilantes!”. 

Escrito em 31 de agosto de 2024 

Sínfora (substantivo feminino poético): Sinfonia macabra. Composição musical para orquestra, em formato de sonata, com teor obscuro e sombrio. 



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Raro Azul

Anil do teu sorriso cristalino,  | Um mar, que azul-mirtilo, me acalenta, | Minh’alma azulescida* em teu destino | É doce, pois te amar me fundamenta; ...

Anil do teu sorriso cristalino,  
Um mar, que azul-mirtilo, me acalenta,  
Minh’alma azulescida* em teu destino 
É doce, pois te amar me fundamenta; 

Cerúlea voz, a tua, cativante,  
São índigos os lírios de teu ser… 
O raro pigmento ressonante 
Faz sempre a tua essência enobrecer; 

Safira enamorada sou-me e, assim, 
Matiz azul fazemos, segredados 
Nas íntimas promessas de cetim; 

Conservo-te com mui zelo florado! 
Genciana-de-turfeiras sou-me e hábeis 
Teus dedos polinizam-me — afábeis —  
Teus lábios neste estigma molhado. 

Escrito em 23 de agosto de 2024 

*Azulescer (verbo poético): Tornar azul. Fazer ficar com a cor azul. Azular. 



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Maçã Cítrica

O fruto suculento aos lábios meus… | Amável, tanto cítrico, doçura | De sumo, assim, sublime; que aos museus | Seria, bem decerto, uma obra pura…

O fruto suculento aos lábios meus…
Amável, tanto cítrico, doçura
De sumo, assim, sublime; que aos museus
Seria, bem decerto, uma obra pura…

Orgânico, porém, não poderia
Ficar longe d’um vivo paladar,
Rosado, orbicular, vês? Quem diria?
Que pude degustá-lo e, então, amar…

E amei, na intensidade mais vestal…
Rostindo, com carícias, fruição…
No entanto, que tristura, é sazonal…

E adeus me dera em cálido verão,
Beirando, pois, de março, as grandes chuvas
Faz tempo que o troquei por méleas uvas,
Mas é setembro e sei que voltarão.

Escrito em 7 de setembro de 2024 



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Inconfidente

Loureio tua tredice, doce anímia… | Ingênua aleivosia amargurada! | Dou lírios à cobiça, alogamia, | Caráter, tão só, teu — apedantada… 

Loureio tua tredice, doce anímia… 
Ingênua aleivosia amargurada! 
Dou lírios à cobiça, alogamia, 
Caráter, tão só, teu — apedantada… 

Esqueça-me, ó anímia, balaclava 
No amor que produzi — afetuoso… 
Esqueça-me, por cada uma palavra 
Por que comigo, amásio defraudoso

Olvides teus espelhos que me efigem! 
Anímia, quis, por tanto, compreender… 
E vis, os teus maneios, não me atingem; 

Não mais, tal como outrora — a saber —  
Serás sincera a mim, virgem falaz? 
Eu temo que, p’ra ti, seja fugaz, 
Enquanto, para mim, doa esquecer… 

Escrito em 7 de setembro de 2024 

Animia (substantivo poético de dois gêneros): Aquele que imita, mímico.
Efigir (verbo poético): Fazer representar a imagem de alguém em algo.
Defraudoso (Adjetivo poético): Enganoso, fraudulento, decepcionante.
 
Palavras criadas por Sahra Melihssa



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