Poesias, Sonuras, Existencial, Melancólico Sahra Melihssa Poesias, Sonuras, Existencial, Melancólico Sahra Melihssa

Sonura d’Inverno

Cinéreas nuvens, frio —  e a quietude, | A fina chuva, o aroma: há sopa quente | Nos prédios, casas, lares: placitude; | Debaixo, em cobertores — quiescente;

Morning Mist Oil Painting - Eduard Panov

Cinéreas nuvens, frio —  e a quietude,
A fina chuva, o aroma: há sopa quente
Nos prédios, casas, lares: placitude;
Debaixo, em cobertores — quiescente;

A névoa esparge calma — anoitece,
Cidade, outrora célere, amansou,
E a estranha sensação que se alvorece
Da vida, é a nostalgia — que invernou;

É julho… o tempo passa e as horas vão,
E as lágrimas me regam ternamente…
Humanos esplendores, que canção!

O sono pesa as pálpebras e, à mente,
Habita as fantasias das infâncias,
Do sonho ao despertar, equissonância
É o nosso mais hermético presente.



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Fada

Penugem de mil cântaros de flor, | Pois feitos de suas pétalas o são, | Tesouro de segredo arcano e cor | Carmim enegrecido…

 

Water Nymph, 1907 - Paul Swan (American, 1884–1972)

 

Penugem de mil cântaros de flor,
Pois feitos de suas pétalas o são,
Tesouro de segredo arcano e cor
Carmim enegrecido co' o artesão;

Guardei no meu jardim, e a cerejeira
De orvalho fez enchê-lo a transbordar,
Previ que tombaria e à laranjeira
Levei para o perfume se agregar;

Mais tarde adormeci e um lume leve
Fulgores fez às pálpebras tão minhas
E vi lá no jardim voando breve

Singela criatura e suas asinhas
Sorvendo do licor aromantado
Na beira do meu cântaro rachado,
Depois ornou com luz as tristes pinhas.



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Requiem aos Idos

Por vezes em meus sonhos turbulentos | Sentires do passado me retornam, | São como frágeis sombras, tenros ventos | Que espargem às paisagens que me ornam;…

 

Por vezes em meus sonhos turbulentos
Sentires do passado me retornam,
São como frágeis sombras, tenros ventos
Que espargem às paisagens que me ornam;

Aspiram, porventura, um libertar
Dos dédalos tão lúgubres da mente,
Meadas opressões, vir respirar,
Na paz da superfície do presente;

Compr’endo-os à medida em que desperto,
É símil ao fitar d’um outro alguém
Qu’em lágrimas, em prece, vê-se incerto

E enseja estar no sonho d’um outrem
De modo a amanhecer n’algum instante
A ter, então, o alívio fulgurante
Do “apenas pesadelo, nada além”.

 


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Mormaço

Aflige-me o existir se o outono é febre... | Somente em frigidez eu me apaziguo. | Na toca sou as Cinzas de uma lebre | No tórrido caixão de um lar-jaziguo;…

Aflige-me o existir se o outono é febre...
Somente em frigidez eu me apaziguo.
Na toca sou as Cinzas de uma lebre
No tórrido caixão de um lar-jaziguo;

Escalda este meu ser já condenado
Ao lôbrego lugar abrasador
Que faz na tez o inferno anunciado
Nos últimos versículos do horror...

Privando-me dos ventos nos umbrais,
Parece que este mundo não respira...
Um gole d'água, ou chuva, temporais...

Que o Inverno é una musa que me inspira
Enquanto o fumegar deste planeta
Ebuli a minha vida, uma ampulheta
Revela o fim e a morte que me aspira.



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O Lago Sombrio

Nas minhas vis oníricas vivências, Estive em profundezas obscuras, Foi dentre o arvoredo de imanências, Que vi medrar assombros e loucuras, […]

 

Nas minhas vis oníricas vivências
Estive em profundezas obscuras,
Foi dentre o arvoredo de imanências
Que vi medrar assombros e loucuras

E lembro-me d'um sonho recorrente:
Um lago de nascente em uma gruta
Envolto um arvoredo contundente
Que canta e rega em morte quem escuta;

É nele que perdura algum jazigo
E deste seu negrume exala medo
De outroras, guarda horrores lá consigo…

N’um úmido silêncio, horror-enredo,
Escuro como o abismo, é tão medonho!
Receio, pois pressinto a cada sonho
Que logo externará o seu segredo.

 


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Outonal Lua Cheia

Desperta no crepúsculo silente | Olhei pela janela o frio outono | A brisa que versava o sol poente | Ornava m’ia paisagem como em sonho…

Desperta no crepúsculo silente
Olhei pela janela o frio outono
A brisa que versava o sol poente
Ornava mi’a paisagem como em sonho…

No peito um dolorido “nunca mais”
Pousava devagar contando histórias,
As quais, melancolias e aveleirais,
E amor, de lume infindo, nas memórias;

O índigo-cristal no firmamento
E um pranto calmamente a se verter
Quão belo e assim efêmero momento…

A noite iluminou-se e pude ver
Tão pálida e ofuscante, Dama Lua,
Um toque em minha tez, tão livre e nua,
Nascida p’ra acolher a dor do ser.



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Segredo Feminil

Tu sabes que acostuma ver que o rosto | Mui gera mais encanto que meus versos? | Que o corpo…

Tu sabes que acostuma ver que o rosto
Mui gera mais encanto que meus versos?
Que o corpo qual pertenço, se do gosto,
Por vezes oblação de olhos perversos?

Até cultivaria em mim o rancor,
Mas algo n’alm’essência minha veta,
Pois lídimo sentir tenho em fulgor
Que impede a mim tecer injúria inquieta,

Talvez minhas verdades, meu perdão,
Escondam certa mágoa, ou estranheza,
Que vela esta mi’a vaga solidão,

Que beija esta emoção de mor tristeza
Enquanto nunca sinto pertencer
Ao mundo que corrompe a absorver
Em mórbido silêncio a mi’a pureza.



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A Entidade, Annor: O Encontro

No erguer-se do luar alcantilado | Crocita um corvo enquanto sou lamúria,…

No erguer-se do luar alcantilado
Crocita um corvo enquanto sou lamúria,
Assusto-me e o percebo afortunado,
Pois voa contra o vento da penúria;

Ao leito o meu sombrífero sonhar
Desvela-se à mi’a fronte lentamente,
Um cântico, porém, junto ao nevar
Desperta-me e a lareira queima ardente;

Que o fogo se acendera repentino?
Clamei seguindo à porta da sacada,
Ninguém d’entre os pinheiros, nem o hino…

Silêncio tão perpétuo “Fui brindada
Co’as sombras de m’ia mente solitária
”,
Mas ouço, no rompante… mortuária…
Atrás de mim… presença murmurada…



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Ao Lacrimar

Perpétuo Lacrimar, a solinura | É páramo de véus na cor marfim; | Ouvindo estás, meu cântico-tristura, | Enquanto a lira tange em silencim?…

Perpétuo Lacrimar, a solinura
É páramo de véus na cor marfim;
Ouvindo estás, meu cântico-tristura,
Enquanto a lira tange em silencim?

Tu qu’inda no sonhar do meu lamento
Perduras tão sombrífero e ardente…
Ó… vasto e quebradiço, ao léu do vento,
Orvalhas-me o contento remanente…

Est’alma é nós — condoída imensidão!
Perene Lacrimar, és meu amásio,
Conduzes desalento em algodão,

Vislumbras por cristais o teu copázio
Que tanto já transborda do manar
Que é nosso, vês, a pérola a brotar?
Pequena, orbicular, gema-calázio.

Conheça o significado de “solinura” ou “silencim” em Dicionário — Sara Melissa de Azevedo



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Sede Profunda

Sangrando o coração em minhas mãos, | A carne carmesim desentranhada, | O sândalo do horror enquanto sãos…

Sangrando o coração em minhas mãos,
A carne carmesim desentranhada,
O sândalo do horror enquanto sãos
Olhavam-me co'a fronte embasbacada!

Ouviram dos vitrais o berro alto,
Clamaram por amparo às redondezas,
A noite era negrume em céu cobalto
Vidrando os olhos meus em sordidezas;

Assim talaram todo umbral em drama
Enquanto a negra sede já cessada
Poder de morte deu-me à minha flama;

A seiva que ebulia, eu transmutada
Em pássaro corvino à rama estéril,
Rompi pelas fenestras, abalada,
À tempo em retornar ao cemitério.



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À Escrita

Eterna solidão, noite-mudez | Se tua Olea graciosa não me azeita | À bênção da centelha, a embriaguez | Do elã que lume a letra em mi'a colheita..

Eterna solidão, noite-mudez
Se tua Olea graciosa não me azeita
À bênção da centelha, a embriaguez
Do elã que lume a letra em mi'a colheita..

Amarga perdição, medo-estupor
Se o cântico erudito de tua seiva
É sopro tão fugaz no grã calor
E frígido beijar no frio que m'eiva...

Deitada ao leito Santo de teu lírio
Eu posso ver na vida uma razão
Que amene o caos de todo o meu martírio

Das vezes que velei, pois, teu caixão
E vi-te reencarnar tão de repente
Amálgama de gáudio e aflição
Que eu juro precisar eternamente.



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Entre Mundos

Amor, se amares tu, nos sonhos mil, | Os versos adoçados de tristura | Que afloram de minh'alma feminil | Te juras me visar como escultura? …

Amor, se amares tu, nos sonhos mil,
Os versos adoçados de tristura
Que afloram de minh'alma feminil
Te juras me visar como escultura?

Marfim tão quedo e límpido limar
Tua fonte sacrossanta de paixão,
Irás tecer-me em trovas, teu versar,
No som das rimas doutas, escansão?

Segredo que me encalça bem silente
Saber os teus sigilos sobre nós
Amor, se te convém ser confidente:

Estou à letra tanto e sempre a sós,
Existo tão somente na Sonura,
Afora do viver mundano e atroz
Espero-te em mi'a lira-lar-candura.



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Yeshuah

Ardor d’algures pulsa em sofrimento | Nas sombras de tua imagem sacrossanta, | No peito o lacrimar d’um instrumento | De mor silente essência espelha, encanta...

 

Regina Angelorum (1900) e Pietà (1876), por William-Adolphe Bouguereau (1825 – 1905)

 

Ardor d’algures pulsa em sofrimento
Nas sombras de Tua imagem sacrossanta,
No peito o lacrimar d’um instrumento
De mor silente essência espelha, encanta...

Quem és senão um sopro postremeiro
D’uma alma de esperança terminal
Que entreve a Tua verdade, ó Mensageiro
Das honras mais humanas – és vital;

Nas balças sob as trevas ou clareiras,
Memória do sepulcro e das figueiras,
Hás dentro d’um talvez tanto ideal...

Por isso choro a morte e o renascer
E choro o nascimento, o infindo amor,
A fábula d’outrora em vir a ser
O lídimo acalmar da minha dor.



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Âmago, tormento

É o soluço d'um pranto febril | Às lacunas d'um rosto amolgado | Pelas sombras de essência hostil | Onde o canto da morte é sagrado;…

 

Lumière sur l'épaule, 1895 by John White Alexander (American, 1856–1915)

 

É o soluço d'um pranto febril
Às lacunas d'um rosto amolgado
Pelas sombras de essência hostil
Onde o canto da morte é sagrado;

Nestes tais olhos-d'água negrume
Dorme o amargo indagar imortal
Arde tanto em meu peito que assume
Ser do fado, o horrendo arsenal;

É o silêncio de horror delirante
Cuja espera é calvário e sentido
Mil afogos compõem-me o semblante,

Mil espúrios condenam sorrindo
Minha lira, portanto, minguante
Pelas noites de aperto escaldante
Jaz n'orvalho da treva, pungindo.

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Suavinura

Um pranto verossímil em meu peito… | Nublados céus sombrios me absorvem… | Sozinha eu silencio, então me deito, | E os sonhos da existência me comovem;…

Um pranto verossímil em meu peito…
Nublados céus sombrios me absorvem…
Sozinha eu silencio, então me deito,
E os sonhos da existência me comovem;

Se houvesse uma razão p’ra ser sensível,
Se um lábio me zombasse espinhento
Seria então, o aperto, bem plausível,
Porém ao meu encontro só relento…

Orvalho do nublar que à noite veio
Contíguo a introversão que acolhe o seio
Da minha tão febril fragilidade…

Se viva estou, mui choro com a lua…
Qualquer sinal de pura inocuidade…
Se vejo flor nascer em minha rua…
Quão fácil é me doer a suavidade…

*Suavinura: Palavra que criei para designar um sentimento sensível, sutilmente triste de aperto e comoção profunda que surge por detalhes que são, geralmente, triviais. VER O DICIONÁRIO

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Há o Silêncio

O silêncio jamais se desfalece | E mesmo o falatório que oprimindo | Recua-o a si mesmo restringindo | Não o faz menor, pois mais o engrandece;…

 

Silence, 1800 - Henry Fuseli (Swiss, 1741–1825)

 

O silêncio jamais se desfalece
E mesmo o falatório que oprimindo
Recua-o a si mesmo restringindo
Não o faz menor, pois mais o engrandece;

Tal aura soberana é permanente
Detrás de todo o som vai se expandindo
É como um universo advertindo:
"Cingindo o tudo eu sou onipresente";

Terrífico mistério, mas bem-vindo
Seria aos deuses, pois, equivalente?
Quiçá maior e então antecedente?

Estariam a verdade omitindo?
Que o tal silêncio é a eternidade
Princípio, meio e fim - totalidade
Razão de ainda estarmos existindo.

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