Poesias, Terror/Horror Sahra Melihssa Poesias, Terror/Horror Sahra Melihssa

A Presença

Vestida em damanoute enegrecida | Desperta e dos sonhares esquecida | Na muda…

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Vestida em damanoute enegrecida
Desperta e dos sonhares esquecida
Na muda escuridão pungente e morta 
Senti certa presença à minha porta
Porém sonido algum, nem vil batida
Ouvi no cumarú que o umbral comporta. 

Decerto estava, pois, eu mui confusa
Deitei-me ao leito lânguido, reclusa
 — Talvez o horário esteja me inibindo
E a minha sanidade se embaindo 
— 
Pensei relenta ao breu d’ngústia infusa
Até mi’a tez prever horror infindo;

Dealvando a face minha no rompante
No umbral ‘tava a presença necromante
Meus olhos em temor se comprimiram
Que às frestas tão mofinas difundiram
A aragem putrefata equissonante:
Os vis silêncios mórbidos se uniram
Ao pranto meu de agrura fulgurante;

A névoa negra logo condensou
E vi que a orla da porta se grisou
Havia, pois, só ela e nada além,

 — Retorna à treva ruim que te provém! — 
Mi’a trêmula voz tola esbravejou
Pujante que meu pânico aumentou

E a súbita coragem fé detém,
Abri com ódio a porta, nada além…
A límpida moldura me espelhou;

Um quadro na parede, mais ninguém… — 
Alívio! À solidão, meu puro amém,
Até que algo em mi’a nuca respirou…



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Flúmen de Amor

Amar d’infindas formas, amar…| E verte o meu amor como o mar | Querendo aos seres todos…

Amar d’infindas formas, amar…
E verte o meu amor como o mar
Querendo aos seres todos cingir
Gentil amá-los como o fulgir
Do sol ameno em puro cuidar
Ser água que da sede remir
Calor cá nos meus braços brandar.

Amar d’infindas formas, querer
Nos olhos teus tua alma entender
Histórias mil d’algures contar
E então cantarolando adoçar
A noite que em teu leito se erguer
Os sonhos te envolvendo, o trovar
Do céu da tempestade a fender.

Amar d’infindas formas, alvor
No nosso mais intenso fervor
Desejo de meu vivo clamar
P’ra’s cartas, redigir e versar,
Afagos de desvelo e valor
E toda a angústia vir se anular
No etéreo e raro manto do amor.

Amar com inefável esmero
Acima do julgar tão severo
Que faz o coração lancinar.

Por vezes em meu cerne verbero
Resiste este amor mui sincero
Nos vales d’este humano pecar?

Mas tendo em mansidão relembrar
Que se é lídimo o lume e tão mero
Há nada que o fará se arruinar.



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Cruel Delírio

Que ardor… Cri na mendaz ilusão | Teus olhos negros na escuridão | Fisgados por entre…

Imagem criada por Sahra Melihssa

Que ardor… Cri na mendaz ilusão
Teus olhos negros na escuridão
Fisgados por entre meus vitrais
Sutil luzido sob céus astrais
Enquanto o sopro frio em tua feição
Na aragem de aspectos brumais
Aluíra-me o infeliz coração.

Fui dentre os pinheiros te buscar
Nas sombras tua voz grave a chamar
Meus pés descalços, e eu tão marfim,
Que espinhos emergiram sob mim
Num negro roseiral de agoniar
Deixei um rastro em sangue carmesim
Horrores vis verti em lacrimar.

Que pouco a pouco a morte fatal
Viera à minha solidão cabal
Caíra ao meu ruir, ó, tão silenciado
Que fim; que epílogo consumado!
Roguei fraca por tu’alma abissal
Tal como fiz à tua cova, amado…
Tal como fiz no rito à catedral.

Senti tua presença eterna em tez
Fitei o envolto turvo em frigidez
Havia da noite a treva somente.

Tal como tu eras, intransigente,
Ela urgia muda, um mal imanente
Eu sob seu manto em languidez.

N’aurora, pois, voltei à lucidez
Tu foste a ilusão, ó, tristemente,
E eu só queria amar-te a última vez.



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Elo & Sinfonia

Tenaz opus sonda e cura, | O agravo do agora se cala, | Exornas-me a grã tristura, | Um gesto de benquerença…

The Violin Student (1891), por Stephen Seymour Thomas (1868 - 1956)

Tenaz opus sonda e cura,
O agravo do agora se cala,
Exornas-me a grã tristura,
Um gesto de benquerença
Que, pêsame, cor de opala
Análoga à sepultura
Por onde o violino avença
No amar-te que assim m’embala
Anseias-me na partitura.

Escarpa, os olhinegros cravar,
E a treva do abismo tu vês
Que sou, mas vens afinar
Portento opimo só teu
Abeiro-me em calidez
Cortejas-me no aurorar
Dos sóis do solo imo meu
Enfloro-me em languidez
E luro-me em teu firmar.

Se liro assim intrincada
Estimo quem és, me enlaço,
Mãos tuas, aprumo, enseada
Das águas do pranto lasso
De estar, pois, apaixonada.

Teu timbre compõe-me o ser
Portanto, que amanteigado,
O afeto e meu bem-querer
Aspiro o vir compassado
Afago teu âmago a arder.

E sendo já o anoitecer
Vibrando-nos resplendor
A aliança a me conceder
Vertendo-te ao seio-rubor.



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Centelha

Tornou-se o lacrimar a chuva minha | E o corpo meu que em medo se convinha | Nas águas puras…

Leveil du coeur (1892), por William-Adolphe Bouguereau (1825-1905)

Tornou-se o lacrimar a chuva minha
E o corpo meu que em medo se convinha
Nas águas puras logo se banhou
Dos antros pesadelos despertou
E a vida se ascendeu pr’o meu rogar
Gotículas translúcidas do amar
Dulcífera a tristura, então, se fez
As dores em adeus — em escassez
Enquanto d’este flúmen veio a fé
E n’ela a mi’a esperança em sã maré
Por onde uma missiva foi-me entregue
Trazendo-me a lembrança que se segue:
Um lume do Teu rosto ao meu olhar.



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Deste Século

Perceba que são tempos assombrosos | Àqueles cuja essência é tão sensível | Vivendo em vis…

 

Narciso (cerca de 1600) por Caravaggio (1571–1610)

 

Perceba que são tempos assombrosos
Àqueles cuja essência é tão sensível
Vivendo em vis quebrantos ominosos
Expõem-se, sem desejo, ao desprezível;

Declinam, pois, equevos, sem escolha,
Se amargam pelo vasto deslouvor
Que abriga tanto os modos quanto a folha
Por onde letra alguma tem valor

Daqueles com espelho em seus semblantes
Enquanto se assoberbam delirantes,
Aviltam-se na graça do olvidar

E erigem-se do inóculo do acaso,
Postergam a ascensão p’ra mascarar
Que estão fazendo o mundo ser mais raso
Urgindo alarde agudo sem parar.



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Yeshuah

Ardor d’algures pulsa em sofrimento | Nas sombras de tua imagem sacrossanta, | No peito o lacrimar d’um instrumento | De mor silente essência espelha, encanta...

 

Regina Angelorum (1900) e Pietà (1876), por William-Adolphe Bouguereau (1825 – 1905)

 

Ardor d’algures pulsa em sofrimento
Nas sombras de Tua imagem sacrossanta,
No peito o lacrimar d’um instrumento
De mor silente essência espelha, encanta...

Quem és senão um sopro postremeiro
D’uma alma de esperança terminal
Que entreve a Tua verdade, ó Mensageiro
Das honras mais humanas – és vital;

Nas balças sob as trevas ou clareiras,
Memória do sepulcro e das figueiras,
Hás dentro d’um talvez tanto ideal...

Por isso choro a morte e o renascer
E choro o nascimento, o infindo amor,
A fábula d’outrora em vir a ser
O lídimo acalmar da minha dor.



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Dueto com Marujo Poeta

Cruzaste os vastos pélagos cruéis | Dos mares nunca findos regressaste | Versaste amor na luz…

 

Nordic summer's evening (entre 1899 a 1900), por Richard Bergh  (1858–1919)

 

(Sahra Melihssa)
Cruzaste os vastos pélagos cruéis
Dos mares nunca findos regressaste
Versaste amor na luz d’alguns carcéis
Sozinho ao véu das águas aspiraste
Que fosse do oceano a dor e o canto
E não destes teus olhos desolados?
Que houvesse astro no céu mui sacrossanto
Levando-te aos caminhos meditados?
Segredas-me que o tempo diz teu nome
E orvalha a noite vil que me consome
Nos versos, de teu imo, entrelinhados.

(Marujo)
Com versos, transpassando-me de méis,
Já sabes que domado me deixaste?
Pois ora, desprovido dos anéis
Trocados com o mistério que fitaste,
Ensejo, desvelando-me do manto,
Sem medo de segredos revelados,
Em versos doloríssimos, em canto...
Falar-te que - nos mares navegados -
Desejo me conduz e me consome:
A um mar em calmaria, que se some
O brilho da aliança dos amados.

(Sahra Melihssa)
Teus olhos já reluzem co’este encanto
Talvez por tantos sonhos afogados
Decerto hás de sentir paixão que arome
Os ares que conduzem teu renome
De ser marujo em mares conturbados.

(Marujo)
Que sonhos com dulcífero recanto
Conduzem corações abandonados
Confesso! Mas, do canto, que retome
A sombra o que me causa o codinome
De náutico maior dos incansados.

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Dueto com Ricardo Zanela

Se credes em minha dor | Quanto odiais a compaixão, | Dama, fazei-me exceção, | Pois angustura e pavor…

 

The Poets Theme, por John Callcott Horsley (1817 – 1903)

 

(I) - Ricardo
Se credes em minha dor
Quanto odiais a compaixão,
Dama, fazei-me exceção,
Pois angustura e pavor
M'ativeram mudo em via
D'amor, canto e poesia:
Melisse, coisa que for,
Aconselhai-me, qual guia.

(II) - Melisse
Símil sou na vida minha
Às abíssicas sonuras
Mas, vem, trove tuas tristuras
Pois que invoco da andorinha
Todo o lume edificante
P'ra que a treva delirante
Qual sussurra e se avizinha
Vá s'embora e doravante.

(III) - Ricardo
Egéria, gélida bruma
M'enseja cordial suspiro:
Desabo, choro, me firo
Em grande amor que avoluma
Pior, álgido inconforto
Qu'ela, vendo-me quas' morto,
Não mantém piedade alguma,
Eis trevas, meu desconforto.

(IV) - Melisse
Que vil tortura, quão cruel!
Ouço o pranto tão revolto
Qual ecoa adentro, solto,
Em tu'alma de umbra e fel;
Se este Manto, gris, te chama,
Beije à Lira que balsama
Tuas angústias de papel
No versejar da tua flama.

(V) - Ricardo
A longínqua joia altiva,
Poesia, egéria Melisse,
Morna, como se partisse,
Tanto, tanto, que s'esquiva
Dos lábios a inspiração,
Que afonos sustam canção:
Língua já inexpressiva
Que vale à surda audição?

(VI) - Melisse
Seja, pois, a própria dor
Seja o teu tormento ardente
Ao pavor d'alma eminente
Devolvendo Lira, Amor...
Caro meu, se te enamora
Tal pesar que só te aflora
Cale a pena, regue a flor
Cujo caule é de Pandora.

(VII) - Ricardo
Egéria, a voz sibilina
Que usais, paço de ternura,
Conselha, não assegura,
Contra minh'opoente sina;
Se Egéria tal se interessa,
Bel, que me faça promessa:
A flor poética germina
Na angustura nada egressa?

(VIII) - Melisse
Deitas ao leito tranquilo
Que D'ela, o canto, ouvirás
Como o alvor e os seus sabiás
Soando belíssimo trilo;
E assim, no pranto rimar,
Verás musa, o estro lunar
A beijar-te, sem vacilo,
Como agora em teu rogar.

(Tornada I) - Ricardo
Aura diurnal pôde impor
Vossa jura, vosso alvor;
É dom que portais, Egéria:
Apreço de rósea flor.

(Tornada II) - Melisse
Sob, da Poesia, este manto,
Meu caro, de enlevo santo,
Morremos p'ra Ela em miséria
Vivemos por ode e pranto.

Conheça o trabalho do poeta Ricardo Zanela em seu Instagram, @ricardo_zanela

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Augúrio d’Inverno

Quão frígido há de ser este solstício…| Sinto os ares regélidos soprando | Mesmo à clausura, em febre, é propício | Que este tempo vil beije-me nefando;…

 

La Mélancolie (1785) - Louis Jean-François dit aussi Lagrenée, Louis, L'Aîné (Paris, 1725 - Paris, 1805)

 

Quão frígido há de ser este solstício…
Sinto os ares regélidos soprando
Mesmo à clausura, em febre, é propício
Que este tempo vil beije-me nefando;

Nesta grã solidão, profundamente,
Ouço o aljofre que vítreo faz remanso
À mirrada folhagem putrescente
Núrida¹ sob a paz de seu descanso;

Símil à cavidade do meu peito
Como a viva estranhez deste meu leito
Onde só o coração faz-se escutado…

Tanto pulsa em sonhar n’esta escassez
P’ra que minh’alma em verso delicado
Volte tal o estio volta ensolarado
P’ra sonura ser soneto outra vez.

Elucidário: ¹ Núrido (adjetivo) Que possui profundidade soturna e aspecto sublime.

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Âmago, tormento

É o soluço d'um pranto febril | Às lacunas d'um rosto amolgado | Pelas sombras de essência hostil | Onde o canto da morte é sagrado;…

 

Lumière sur l'épaule, 1895 by John White Alexander (American, 1856–1915)

 

É o soluço d'um pranto febril
Às lacunas d'um rosto amolgado
Pelas sombras de essência hostil
Onde o canto da morte é sagrado;

Nestes tais olhos-d'água negrume
Dorme o amargo indagar imortal
Arde tanto em meu peito que assume
Ser do fado, o horrendo arsenal;

É o silêncio de horror delirante
Cuja espera é calvário e sentido
Mil afogos compõem-me o semblante,

Mil espúrios condenam sorrindo
Minha lira, portanto, minguante
Pelas noites de aperto escaldante
Jaz n'orvalho da treva, pungindo.

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Suavinura

Um pranto verossímil em meu peito… | Nublados céus sombrios me absorvem… | Sozinha eu silencio, então me deito, | E os sonhos da existência me comovem;…

Um pranto verossímil em meu peito…
Nublados céus sombrios me absorvem…
Sozinha eu silencio, então me deito,
E os sonhos da existência me comovem;

Se houvesse uma razão p’ra ser sensível,
Se um lábio me zombasse espinhento
Seria então, o aperto, bem plausível,
Porém ao meu encontro só relento…

Orvalho do nublar que à noite veio
Contíguo a introversão que acolhe o seio
Da minha tão febril fragilidade…

Se viva estou, mui choro com a lua…
Qualquer sinal de pura inocuidade…
Se vejo flor nascer em minha rua…
Quão fácil é me doer a suavidade…

*Suavinura: Palavra que criei para designar um sentimento sensível, sutilmente triste de aperto e comoção profunda que surge por detalhes que são, geralmente, triviais. VER O DICIONÁRIO

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Há o Silêncio

O silêncio jamais se desfalece | E mesmo o falatório que oprimindo | Recua-o a si mesmo restringindo | Não o faz menor, pois mais o engrandece;…

 

Silence, 1800 - Henry Fuseli (Swiss, 1741–1825)

 

O silêncio jamais se desfalece
E mesmo o falatório que oprimindo
Recua-o a si mesmo restringindo
Não o faz menor, pois mais o engrandece;

Tal aura soberana é permanente
Detrás de todo o som vai se expandindo
É como um universo advertindo:
"Cingindo o tudo eu sou onipresente";

Terrífico mistério, mas bem-vindo
Seria aos deuses, pois, equivalente?
Quiçá maior e então antecedente?

Estariam a verdade omitindo?
Que o tal silêncio é a eternidade
Princípio, meio e fim - totalidade
Razão de ainda estarmos existindo.

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Epílogo

Noturno — o silêncio — em sinfonia, | Às notas vagarosas como rios, | Escuto adormecida — a astenia | Do corpo embriagado em mil vazios; | O pêndulo — as horas — sem sentido...

 

Victor Gabriel Gilbert (1847 - 1933) - Resting, c.1890

 

Noturno — o silêncio — em sinfonia,
Às notas vagarosas como rios,
Escuto adormecida — a astenia
Do corpo embriagado em mil vazios;

O pêndulo — as horas — sem sentido...
A morte e a vida — canto de ilusão;
A fé — a lua — o âmago dorido
E a tênue linha desta solidão;

A dúvida — o preço — despertado
Os olhos sobre o teto imaculado,
O vento me assovia — a tempestade...

Terceiro movimento, inquietante...
O Gran Finale então — apaziguante;
Concerto da existência à finidade.

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Mar Teu

Estás onde? Em meu quente coração! | Assim adormecido e protegido | Sob uma aura esmeralda de emoção | Que lume, como céu deste infinito…

Imagem criada por Sahra Melihssa

Estás onde? Em meu quente coração!
Assim adormecido e protegido
Sob uma aura esmeralda de emoção
Que lume, como céu deste infinito…

E neste meu sonhar tanto plantamos
Palavras mil de amores tão serenos,
Regando-nos às chuvas quais amamos,
Nas pétalas carinhos bem amenos;

Amar-te, Azul, me alegra — é eterno…
Febril estado deste corpo meu…
Teu olhar âmbar é nobre — e fraterno,

Escolho descansar no mar, mar teu,
Que enlevo traz, afasta o triste inverno
E etéreo reluz sobre o torvo breu.

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Sangue Vestal

O sol floresce pálido em meu peito, | Recordo a noite lôbrega e soturna | Enquanto escuto vozes sobre o leito, | A fresta assopra aragem vil, vulturna, | Trazendo-me a fragrância fascinante…

O sol floresce pálido em meu peito,
Recordo a noite lôbrega e soturna
Enquanto escuto vozes sobre o leito,
A fresta assopra aragem vil, vulturna,

Trazendo-me a fragrância fascinante
Que vinda do assoalho umedecido
Desperta a minha sede devorante,
Ascende vida à morte em meu jazigo

E acende tal a luz impenetrável,
Espreito no silêncio que entardece,
A sombra nasce hórrida e agradável;

Envolvo meu amor que empalidece
Bem símil ao recanto de meu cerne,
Enfim todo o liquor rubro ensandece.

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Escrevo

Escrevo, | pois que amanhã | impossível; | Escrevo, | pois que amanhã | não cheguei; | Escrevo, | pois que amanhã | sonho findo;…

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Escrevo,
pois que amanhã
impossível;

Escrevo,
pois que amanhã
não cheguei;

Escrevo,
pois que amanhã
sonho findo;

Escrevo,
pois que amanhã
já mudei.

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Espiral

Saber-me-ei | ao luzir do devir, | nos amanhãs, | turvos outroras…

Saber-me-ei
ao luzir do devir,
nos amanhãs,
turvos outroras
tão meus.

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