Arvohreomor
O Sol, um ponto pálido no céu | Azúleo-gris, opaco e tão brumoso; | Pinheiros, névoa negra como um véu… | N’orvalho d’um dilúculo moroso;…
O Sol, um ponto pálido no céu
Azúleo-gris, opaco e tão brumoso;
Pinheiros, névoa negra como um véu…
N’orvalho d’um dilúculo moroso;
Caminho cujo rumo esvanecido
Norteia-me os meus passos n’esta relva,
Profundo-me silente no esquecido
Arbóreo melancólico da selva;
Paisagem que recorro se adormeço,
Que vejo se mi’as pálpebras se fecham
Efúgio meu que tanto tenho apreço…
Tão só no solo dela se apetrecham
Crisântemos plantados por deidades…
Ó leva-me, na morte, à tua verdade
Floresta cujos banzos nunca flecham…
Escaldas, Sol, de modo pálido | Melódicos sons de calada, | Fervendo-me o âmago cálido | A lágrima minha é brumada; | ‘Que queres de mim, ó sazão!…
Há de chover hoje, à tarde, | Este sopro tão tenro segreda | Cá o sol pobrezinho não arde | Seu adeus gradativo arvoreda; | Ó azul melancólico, cante! | As nuvens se unem, me basta…
Sonurista da Morte
Nas grotas d’uma lôbrega passagem, | A balça gris e sôfrega, que à vista, | Ornava em medo fúnebre a viagem | Aos versos d’um plangente sonurista;…
Nas grotas d’uma lôbrega passagem,
A balça gris e sôfrega, que à vista,
Ornava em medo fúnebre a viagem
Aos versos d’um plangente sonurista;
Lagura enegrecida e nau minguada,
Um’áura tão morbígera envolvia
Minh’alma dolorida e desgraçada,
Enquanto ele, em poema, me pre’nchia
Seu canto-recitar… Ó! Que tristura!
A cada rima, de algo eu me esquecia
Sumindo, n’aflição de mi’a fissura…
“Bem-vindo ao fim” — ouvi e pertencia
Ao ser de manto negro na paragem,
Olhei o sonurista, uma miragem?
Um mármore, tão só, me conduzia.
Nas grotas d’uma lôbrega passagem, | A balça gris e sôfrega, que à vista, | Ornava em medo fúnebre a viagem | Aos versos d’um plangente sonurista;…
Memórias d’estas mil alcovas lôbregas, | Perlustro os epitáfios, os semblantes, | Há brandos anjos, murchas rosas sôfregas, | À morte: Os meus silêncios lacrimantes…
Noturno — o silêncio — em sinfonia, | Às notas vagarosas como rios, | Escuto adormecida — a astenia | Do corpo embriagado em mil vazios; | O pêndulo — as horas — sem sentido...
Notúrnea
Dois breus s’escondem brandos n’este olhar | Transitam, sobretudo, em rubras rosas, | Às vezes, lhanos, tenros, a expressar | Paixões intensas, dores perigosas…
Dois breus s’escondem brandos n’este olhar
Transitam, sobretudo, em rubras rosas,
Às vezes, lhanos, tenros, a expressar
Paixões intensas, dores perigosas…
Negrumes íris fitam-nos silentes,
Profundas tal o abismo mortuário,
Portal por onde Lúcifer, ardente,
Perdeu-se enfraquecido e solitário…
Escuros são da noite nectáreos
Lacrimam mel sublime de tristura,
Em trevas nos seduz, sempre sombráreos…
Estão semicerrados em ternura…
Assim reduzem toda a luz cegante,
Abrigam-se em negror vil, delirante,
Nuumita lapidada por fissura.
Raríssimos cristais d’olhos chorosos | Regaram-me o jardim do peito e a dor | Nascera envolta n’água, pois ditosos | Langores deram vida à ave Candor*…
Nesses tempos, minha única vontade é estar bem longe, próxima a uma floresta densa, com neblina e umidade; numa agradável casa aquecida, com lareira e chocolate quente…
Íntima Tristura
Pressinto as outonais aragens frias | No âmago e às janelas, devagar… | O belo movimento em pradarias | Tão símeis aos meus sonhos — meu lugar;…
Pressinto as outonais aragens frias
No âmago e às janelas, devagar…
O belo movimento em pradarias
Tão símeis aos meus sonhos — meu lugar;
Saudosa alma silente e melancólica,
Efêmeros ocasos: meu langor…
No onírico resido e quão simbólica
A vida é n’esta gênese do alvor…
Quão índigo o pulsar do coração…
Quiçá no sopro frígido eu entenda
Qu’estou fadada a tal introversão…
Protejo-me em exílio e a minha senda
Compr’ende-me a lhaneza tão soturna
E o méleo riso e a tenra fé noturna,
A sós, sob minha lôbrega oferenda…
Nos lagos da saudade há tenro orvalho | De lágrimas nativas do meu ser… | Oníricas venturas são-me atalhos | P’ra sôfrega distância combater…
Que sempre, se pudesse, aqui ficar | Os tempos tão felizes de Natal… | As luzes, os docinhos, o aquietar… | E todo o amor que surge cordial…
Balão festivo, alegra o entardecer! | Refulge níveo e vai no sopro-vento; | Menina que o observa a perceber | Que o escuro vem estranho e nevoento…
Perfeito, o Teatro — e nele a decadência | As máscaras são telas luminosas | Personas em suas tantas aparências | Roteiro de ventura confragosa;…
A névoa do passado é melancólica | Lembranças d’este outrora se dispersam: | O outono e sua Maçã tanto simbólica, | O inverno e a solitude que se versam…
Escrevo. Bem além do que ressinto | Ou sinto ou do que vejo. Muito mais. | Escrevo por questão da alma, do instinto, | Do sonho mais que as sombras factuais!
Vinho & Ausência
Do vinho que deixaste na tua ausência | Recordo-me do gole, seco e rubro… | Da amarga nicotina em decadência | Do beijo que me deste em triste outubro…
Do vinho que deixaste na tua ausência
Recordo-me do gole, seco e rubro…
Da amarga nicotina em decadência
Do beijo que me deste em triste outubro…
Perverso o teu olhar que a mim dardeja
Deixaste vinho e ausência e, sobretudo,
A morte que mui sei, tão ímpia almeja
Cingir-se em mim na cama e no veludo…
Por falta do teu toque amargurado,
Na ausência que deixaste no meu vinho,
Um gole, que me baste, aromantado
Do sândalo — almíscar — sal marinho
Demais impregnado na saudade,
Um roubo da mi’a pouca sanidade,
Torturo-me a saber que estás sozinho…
Do vinho que deixaste na tua ausência | Recordo-me do gole, seco e rubro… | Da amarga nicotina em decadência | Do beijo que me deste em triste outubro…
Que ardor… Cri na mendaz ilusão | Teus olhos negros na escuridão | Fisgados por entre…
Vislumbro na evidência os teus olhos vazios pela infinitude ardente que carregam no silêncio. A beleza da tua máscara negra, os pés de teu eu de morada em meu ideal…
Amor… guardarás algo dos momentos? | Das tenras amarguras que criamos | Às loucas vãs mentiras que contamos | Meu rosto trará amenos fragmentos?…
A morada do austero pranto \ é o desaguar que recidivo | indaga-te pravo e ablativo: | “Vais desejá-la se a água-manto | cobri-la o rosto em pálida ternura?…
Manancial
Est’água é Deus, fluída ao corpo e tão vital... | Portanto basilar à fauna e flora, | À sede, alívio vívido — espiral | De grã poder e simples a quem chora...
Est’água é Deus, fluída ao corpo e tão vital...
Portanto basilar à fauna e flora,
À sede, alívio vívido — espiral
De grã poder e simples a quem chora...
Est’água é Deus, arcano flúmen: cura;
Orvalho da manhã, bel natureza,
Se jaz no evaporar, volta na chuva,
Três dias sem tua glória: morbideza...
O símbolo do puro e da abundância,
Nascemos nela imersos, preservados...
Est’água é, na memória, a proba infância;
É Deus, fonte primeva, procurado
N'algures do universo, pois é vida!
Pecado é óleo, é cisco, e água ferida
Dilúvio faz p’ra sermos restaurados.
Escrito em 30 de setembro de 2024
As maldades humanas me enojam. Meu corpo é afetado fisiologicamente quando quaisquer injustiças são presenciadas por meus olhos. Não consigo conceber a ignorância…
Nos lagos da saudade há tenro orvalho | De lágrimas nativas do meu ser… | Oníricas venturas são-me atalhos | P’ra sôfrega distância combater…
O caminho da Sonura iniciou-se em fevereiro de 2021; tenho o registro d’esta ideia em meus arquivos, disponíveis em meu site também. Cingida por significados…
Névoa profunda n’um jardim de flores em tons de rosa-empoeirado. Tulipas, girassóis, lírios e sempre-vivas — tudo rosê, como os olhos e os cabelos de Dandeliz…
No escritório, pedi para que Ehllenor deixasse-me a sós com Morgion, para que houvesse o sigilo correto que meu ofício exige. Ela titubeou, como imaginado…
Que sempre, se pudesse, aqui ficar | Os tempos tão felizes de Natal… | As luzes, os docinhos, o aquietar… | E todo o amor que surge cordial…
Soledade
Kalimba lacrimosa em noite fria: | Sonido de lamúria em languidez, | Se o toque lhe conduz e acaricia | Silêncios mui se prostram — placidez...
Foto de Sara Melissa de Azevedo
Kalimba lacrimosa em noite fria:
Sonido de lamúria em languidez,
Se o toque lhe conduz e acaricia
Silêncios mui se prostram — placidez...
Ouvir-te é calmaria e desalento,
Miúdo regozijo, colo e leito,
Conforto de pesar, sopro do vento,
Sonura que assimila a dor do peito...
Kalimba, quão sensível me percebo...
Por vezes m’espaireço refletindo
Que o mundo, porventura, é só placebo...
E às vezes tudo está coexistindo,
Enquanto em minha mente um universo
É só, pedaço ímpar, submerso,
N’um tanto que silente vou sentindo...
Escrito em 22 de setembro de 2024
As maldades humanas me enojam. Meu corpo é afetado fisiologicamente quando quaisquer injustiças são presenciadas por meus olhos. Não consigo conceber a ignorância…
Nos lagos da saudade há tenro orvalho | De lágrimas nativas do meu ser… | Oníricas venturas são-me atalhos | P’ra sôfrega distância combater…
O caminho da Sonura iniciou-se em fevereiro de 2021; tenho o registro d’esta ideia em meus arquivos, disponíveis em meu site também. Cingida por significados…
Névoa profunda n’um jardim de flores em tons de rosa-empoeirado. Tulipas, girassóis, lírios e sempre-vivas — tudo rosê, como os olhos e os cabelos de Dandeliz…
No escritório, pedi para que Ehllenor deixasse-me a sós com Morgion, para que houvesse o sigilo correto que meu ofício exige. Ela titubeou, como imaginado…
Que sempre, se pudesse, aqui ficar | Os tempos tão felizes de Natal… | As luzes, os docinhos, o aquietar… | E todo o amor que surge cordial…
Hermético Bioma
Raríssimos cristais d’olhos chorosos | Regaram-me o jardim do peito e a dor | Nascera envolta n’água, pois ditosos | Langores deram vida à ave Candor*…
Raríssimos cristais d’olhos chorosos
Regaram-me o jardim do peito e a dor
Nascera envolta n’água, pois ditosos
Langores deram vida à ave Candor*
Que ninho tenro e lírico fizera
N’este âmago dorido, e o coração
Pulsar em canto lôbrego viera
P’ra dar sentido à minha solidão;
D’orvalho lacrimal à cachoeira:
Valências p’r’os mais raros desalentos,
Memórias de amargura n’algibeira
Que é feita de minh'alma a barlavento
Propensa à quedabismo* por fortuna
Do sopro contumaz de tece-dunas,
Qu’estranha fauna e flora... e que tormento!
Hermético Bioma, por Sara Melissa de Azevedo (Poesia Lírica; Sonura) - 18 de outubro de 2024
*Candor é um pássaro negro que reside em meus sonhos, de pequeno porte, longa crista; canto melancólico, longas penas negras com curvas ornamentais nas pontas. Seu nome é em razão de seus olhos profundamente brancos.
*Quedabismo (substantivo feminino poético): Junção de queda+abismo; representa a queda de forma poética, indicando a sua profundidade e, consequentemente, a dor que ela causa. Essa queda é simbólica, geralmente atrelada às agruras e ou ardores da complexidade humana.
As maldades humanas me enojam. Meu corpo é afetado fisiologicamente quando quaisquer injustiças são presenciadas por meus olhos. Não consigo conceber a ignorância…
Nos lagos da saudade há tenro orvalho | De lágrimas nativas do meu ser… | Oníricas venturas são-me atalhos | P’ra sôfrega distância combater…
O caminho da Sonura iniciou-se em fevereiro de 2021; tenho o registro d’esta ideia em meus arquivos, disponíveis em meu site também. Cingida por significados…
Névoa profunda n’um jardim de flores em tons de rosa-empoeirado. Tulipas, girassóis, lírios e sempre-vivas — tudo rosê, como os olhos e os cabelos de Dandeliz…
No escritório, pedi para que Ehllenor deixasse-me a sós com Morgion, para que houvesse o sigilo correto que meu ofício exige. Ela titubeou, como imaginado…
Que sempre, se pudesse, aqui ficar | Os tempos tão felizes de Natal… | As luzes, os docinhos, o aquietar… | E todo o amor que surge cordial…
Agoníria
N'alcova em solinura eu m'afligia, | Terror de pesadelos: abundante! | Nesta umbra-consciência algo plangia | Em mórbido sonar arrepiante...
N'alcova em solinura eu m'afligia,
Terror de pesadelos: abundante!
Nesta umbra-consciência algo plangia
Em mórbido sonar arrepiante.
O choro era vazio e aterrador
Mas nunca o despertar me bem-dizia;
Cruel me simulava — Ó vil horror! —
No cômodo em bizarra noite fria;
Eterno retornar do lacrimar
A cada um só segundo mais agudo
Refém d'um hediondo ilusionar
N'alcova, condenada sobretudo,
E quando finalmente a me surgir
O sol duma manhã, meu grão-vizir,
Um logro — qu'inda durmo em meu veludo.
Escrito em 20 de agosto de 2024
Agoníria (substantivo poético feminino): Pesadelo sufocante que ilusionar o despertar para enganar a mente e mantê-la aprisionada no plano onírico.
Enquanto no convés observava | Revolto o mar estranho parecia, | A negra tempestade se agravava, | Um som horripilante s’espargia…
N'alcova em solinura eu m'afligia, | Terror de pesadelos: abundante! | Nesta umbra-consciência algo plangia | Em mórbido sonar arrepiante...
Nas minhas vis oníricas vivências, Estive em profundezas obscuras, Foi dentre o arvoredo de imanências, Que vi medrar assombros e loucuras, […]
No erguer-se do luar alcantilado | Crocita um corvo enquanto sou lamúria,…
Sê Éden
Floresça em direção ao vivo sol… | Que o lume da manhã, o gris frescor, | Conduzem quietude ao teu lençol | De cândido conforto e tenro ardor;...
Floresça em direção ao vivo sol…
Que o lume da manhã, o gris frescor,
Conduzem quietude ao teu lençol
De cândido conforto e tenro ardor;
Floresça sempre douta do qu’é simples
Se sob a escuridão vir a ficares
Acalma e regue as raras e absímiles
Que fazem tu’essência de mil mares;
Permita-se fanar quando preciso,
É cedo crer que não renascerás;
Adube com cautela o paraíso…
Jardim d’esta tu’alma, então serás
A lótus e o alvo lírio e a bela rosa,
E as águas, teu pomar, poema e prosa…
Silêncio-entardecer vislumbrarás.
Escrito em 23 de agosto de 2024
Nas grotas d’uma lôbrega passagem, | A balça gris e sôfrega, que à vista, | Ornava em medo fúnebre a viagem | Aos versos d’um plangente sonurista;…
Pressinto as outonais aragens frias | No âmago e às janelas, devagar… | O belo movimento em pradarias | Tão símeis aos meus sonhos — meu lugar;…
Kalimba lacrimosa em noite fria: | Sonido de lamúria em languidez, | Se o toque lhe conduz e acaricia | Silêncios mui se prostram — placidez...
Floresça em direção ao vivo sol… | Que o lume da manhã, o gris frescor, | Conduzem quietude ao teu lençol | De cândido conforto e tenro ardor;...
Memórias d’estas mil alcovas lôbregas, | Perlustro os epitáfios, os semblantes, | Há brandos anjos, murchas rosas sôfregas, | À morte: Os meus silêncios lacrimantes…
Cinéreas nuvens, frio — e a quietude, | A fina chuva, o aroma: há sopa quente | Nos prédios, casas, lares: placitude; | Debaixo, em cobertores — quiescente;
Por vezes em meus sonhos turbulentos | Sentires do passado me retornam, | São como frágeis sombras, tenros ventos | Que espargem às paisagens que me ornam;…
Tu sabes que acostuma ver que o rosto | Mui gera mais encanto que meus versos? | Que o corpo…
Perpétuo Lacrimar, a solinura | É páramo de véus na cor marfim; | Ouvindo estás, meu cântico-tristura, | Enquanto a lira tange em silencim?…
Sonura Aos Mortos
Memórias d’estas mil alcovas lôbregas, | Perlustro os epitáfios, os semblantes, | Há brandos anjos, murchas rosas sôfregas, | À morte: Os meus silêncios lacrimantes…
Memórias d’estas mil alcovas lôbregas,
Perlustro os epitáfios, os semblantes,
Há brandos anjos, murchas rosas sôfregas,
À morte: Os meus silêncios lacrimantes…
Epígrafes datadas de saudades…
Soturno violino à sete palmos…
Pretérito e futuro, ambiguidades…
Um último versar dos raros salmos…
Mil sonhos cujo rastro se prostrou…
O Efêmero é, da vida, a cortesia
Que dá sabor ao doce que amargou
Lembrando-nos que houvera poesia,
E mais um mausoléu longínquo conta:
“No fim aquele alvor sempre desponta”,
Mas nunca há de brindar-nos c’o ambrosia…
Escrito em 6 de setembro de 2024
Nos lagos da saudade há tenro orvalho | De lágrimas nativas do meu ser… | Oníricas venturas são-me atalhos | P’ra sôfrega distância combater…
O caminho da Sonura iniciou-se em fevereiro de 2021; tenho o registro d’esta ideia em meus arquivos, disponíveis em meu site também. Cingida por significados…
Que sempre, se pudesse, aqui ficar | Os tempos tão felizes de Natal… | As luzes, os docinhos, o aquietar… | E todo o amor que surge cordial…
Balão festivo, alegra o entardecer! | Refulge níveo e vai no sopro-vento; | Menina que o observa a perceber | Que o escuro vem estranho e nevoento…
Perfeito, o Teatro — e nele a decadência | As máscaras são telas luminosas | Personas em suas tantas aparências | Roteiro de ventura confragosa;…
A névoa do passado é melancólica | Lembranças d’este outrora se dispersam: | O outono e sua Maçã tanto simbólica, | O inverno e a solitude que se versam…
Escrevo. Bem além do que ressinto | Ou sinto ou do que vejo. Muito mais. | Escrevo por questão da alma, do instinto, | Do sonho mais que as sombras factuais!
Sínfora d’Envocação
As treze sinfonias tocarão | Ardor da Morte pútrida — evocada | De face em fleuma — sopro de aguilhão | Um canto de langor à dor cessada;...
Marino Lenci
As treze sinfonias tocarão
Ardor da Morte pútrida — evocada
De face em fleuma — sopro de aguilhão
Um canto de langor à dor cessada;
Allegro em tumular sigilo oculto
Das letras, valsa a Lúcifer, o anjo
— Adagio, uma sonura que sepulto
Em rosas escarlates n’um arranjo;
Então, no silencim, às três do alvor
No círculo uma lírica sonante
Minuetto raro emerge em esplendor
Erguendo-se, finale, tão flamante
Em sangue, era o Diabo, estupefato!
Colérico! Esclareço: “Foi o gato!
De negros pêlos, olhos rutilantes!”.
Escrito em 31 de agosto de 2024
Sínfora (substantivo feminino poético): Sinfonia macabra. Composição musical para orquestra, em formato de sonata, com teor obscuro e sombrio.
N'alcova em solinura eu m'afligia, | Terror de pesadelos: abundante! | Nesta umbra-consciência algo plangia | Em mórbido sonar arrepiante...
Raro Azul
Anil do teu sorriso cristalino, | Um mar, que azul-mirtilo, me acalenta, | Minh’alma azulescida* em teu destino | É doce, pois te amar me fundamenta; ...
Anil do teu sorriso cristalino,
Um mar, que azul-mirtilo, me acalenta,
Minh’alma azulescida* em teu destino
É doce, pois te amar me fundamenta;
Cerúlea voz, a tua, cativante,
São índigos os lírios de teu ser…
O raro pigmento ressonante
Faz sempre a tua essência enobrecer;
Safira enamorada sou-me e, assim,
Matiz azul fazemos, segredados
Nas íntimas promessas de cetim;
Conservo-te com mui zelo florado!
Genciana-de-turfeiras sou-me e hábeis
Teus dedos polinizam-me — afábeis —
Teus lábios neste estigma molhado.
Escrito em 23 de agosto de 2024
*Azulescer (verbo poético): Tornar azul. Fazer ficar com a cor azul. Azular.
Maçã Cítrica
O fruto suculento aos lábios meus… | Amável, tanto cítrico, doçura | De sumo, assim, sublime; que aos museus | Seria, bem decerto, uma obra pura…
O fruto suculento aos lábios meus…
Amável, tanto cítrico, doçura
De sumo, assim, sublime; que aos museus
Seria, bem decerto, uma obra pura…
Orgânico, porém, não poderia
Ficar longe d’um vivo paladar,
Rosado, orbicular, vês? Quem diria?
Que pude degustá-lo e, então, amar…
E amei, na intensidade mais vestal…
Rostindo, com carícias, fruição…
No entanto, que tristura, é sazonal…
E adeus me dera em cálido verão,
Beirando, pois, de março, as grandes chuvas
Faz tempo que o troquei por méleas uvas,
Mas é setembro e sei que voltarão.
Escrito em 7 de setembro de 2024
Escaldas, Sol, de modo pálido | Melódicos sons de calada, | Fervendo-me o âmago cálido | A lágrima minha é brumada; | ‘Que queres de mim, ó sazão!…
Há de chover hoje, à tarde, | Este sopro tão tenro segreda | Cá o sol pobrezinho não arde | Seu adeus gradativo arvoreda; | Ó azul melancólico, cante! | As nuvens se unem, me basta…
Inconfidente
Loureio tua tredice, doce anímia… | Ingênua aleivosia amargurada! | Dou lírios à cobiça, alogamia, | Caráter, tão só, teu — apedantada…
Loureio tua tredice, doce anímia…
Ingênua aleivosia amargurada!
Dou lírios à cobiça, alogamia,
Caráter, tão só, teu — apedantada…
Esqueça-me, ó anímia, balaclava
No amor que produzi — afetuoso…
Esqueça-me, por cada uma palavra
Por que comigo, amásio defraudoso?
Olvides teus espelhos que me efigem!
Anímia, quis, por tanto, compreender…
E vis, os teus maneios, não me atingem;
Não mais, tal como outrora — a saber —
Serás sincera a mim, virgem falaz?
Eu temo que, p’ra ti, seja fugaz,
Enquanto, para mim, doa esquecer…
Escrito em 7 de setembro de 2024
Animia (substantivo poético de dois gêneros): Aquele que imita, mímico.
Efigir (verbo poético): Fazer representar a imagem de alguém em algo.
Defraudoso (Adjetivo poético): Enganoso, fraudulento, decepcionante.
Palavras criadas por Sahra Melihssa
Tempus Fugit III
Alguém verá esta noite, que estrelada, | A sós vislumbro em toda a imensidão? | E mesmo que a perceba agraciada | Compreende seu sabor de solidão?…
Alguém verá esta noite, que estrelada,
A sós vislumbro em toda a imensidão?
E mesmo que a perceba agraciada
Compreende seu sabor de solidão?
Alguém, sentindo a aragem tão sutil,
Enquanto a escuridão é mui soturna,
Talvez encontre lá, sentidos mil,
Os quais estão, p’ra mim, na fé sonurna...
Ó, quanta vastidão, do firmamento,
Assombra, pois, infinitesimal,
Mui faz do meu haver — triste relento;
Soterro-me em vazio adagial...
— O sopro d’uma vida passadiça —
Andar errante à sombra fronteiriça
Das horas no relógio arterial.
Nos lagos da saudade há tenro orvalho | De lágrimas nativas do meu ser… | Oníricas venturas são-me atalhos | P’ra sôfrega distância combater…
O caminho da Sonura iniciou-se em fevereiro de 2021; tenho o registro d’esta ideia em meus arquivos, disponíveis em meu site também. Cingida por significados…
Que sempre, se pudesse, aqui ficar | Os tempos tão felizes de Natal… | As luzes, os docinhos, o aquietar… | E todo o amor que surge cordial…
Balão festivo, alegra o entardecer! | Refulge níveo e vai no sopro-vento; | Menina que o observa a perceber | Que o escuro vem estranho e nevoento…
Perfeito, o Teatro — e nele a decadência | As máscaras são telas luminosas | Personas em suas tantas aparências | Roteiro de ventura confragosa;…
A névoa do passado é melancólica | Lembranças d’este outrora se dispersam: | O outono e sua Maçã tanto simbólica, | O inverno e a solitude que se versam…
Escrevo. Bem além do que ressinto | Ou sinto ou do que vejo. Muito mais. | Escrevo por questão da alma, do instinto, | Do sonho mais que as sombras factuais!
Promessa de Solstício
Amado, esta invernia quando vem, | Na tua serenidade apaziguante, | Almejo o aconchego que nos tem | Somente em nosso leito lacrimante;…
Amado, esta invernia quando vem,
Na tua serenidade apaziguante,
Almejo o aconchego que nos tem
Somente em nosso leito lacrimante;
No peito teu deitar-me aquecida
E penso: a eternidade fulgurante
Protege nosso amor e faz da vida
Promessa de um só vínculo constante;
Tu me és tenro perfume de memórias
Em tanto formidáveis, por cuidado,
És lume, amor, pr’a toda a nossa história…
Segredas-me que estás propositado
A ouvir-me parolando as minhas juras,
Zelando, assim, sereno a mi’a candura…
Promete sempre estar, pois, ao meu lado?
Seth
Orquídeas negras tecem a ninguém, | Silêncio aveludado no jardim, | Apresso-me temendo vir alguém | Desperto pelo…
Orquídeas negras tecem a ninguém,
Silêncio aveludado no jardim,
Apresso-me temendo vir alguém
Desperto pelo horror do olor carmim;
Perfiz todo o balcedo estéril e vi
A névoa cinerária se achegando,
Tão tácita espargia — eu m’envolvi…
Sua lôbrega humidade circundando;
Desvelo, cinza e triste vilarejo,
Porém, ao meu espanto, flama à vela
E o som d’um tragimorbo realejo…
Vertigem brusca, bagas de Glïzehla
Nas mãos de humana tez, viril demônio,
Semblante tão terrífico em adônio —
“Não temas teu Arcanjo, bel donzela”.
Orquídeas negras tecem a ninguém, | Silêncio aveludado no jardim, | Apresso-me temendo vir alguém | Desperto pelo…
O Sol, um ponto pálido no céu | Azúleo-gris, opaco e tão brumoso; | Pinheiros, névoa negra como um véu… | N’orvalho d’um dilúculo moroso;…