Vivo por ela
Escrevo. Bem além do que ressinto | Ou sinto ou do que vejo. Muito mais. | Escrevo por questão da alma, do instinto, | Do sonho mais que as sombras factuais!
Escrevo. Bem além do que ressinto
Ou sinto ou do que vejo. Muito mais.
Escrevo por questão da alma, do instinto,
Do sonho mais que as sombras factuais!
Não tenho musa ou fé ou inspiração,
Escrevo em dor, talvez, por coisa alguma…
Preciso, e não há o luxo da omissão!
Escrevo à solidão que me acostuma;
É belo e, sobretudo, passarinho…
Às vezes voa às nuvens soldoradas
E, n’outras, preso em cárcere, sozinho.
Eu escrevo… e quando a morte inconsolada
Bater à porta d’esta alcova minha…
Com vasta calma irei-me à escrivaninha…
“Adeus” — escreverei — “muito obrigada”.
Envolver
Desperta-me e se achega teso e arfante | No leito de paixão que nos pertence… | Atrita-se ao que a ti faz-se abundante, | Arqueio, pois tão fácil me convence…
Desperta-me e se achega teso e arfante
No leito de paixão que nos pertence…
Atrita-se ao que a ti faz-se abundante,
Arqueio, pois tão fácil me convence…
Envolve meu pescoço com tua mão…
Desliza, aperta firme mi’a cintura…
Desvia do caminho co’ambição
A peça fina e rubra em bel costura…
Encaixa… como sabe… devagar…
Sussurra-me a sentir-te bem profundo…
Prazer… mais, mais, assim… movimentar…
Um sopro de tão cálido segundo…
Meus olhos se abrem súbitos… faz frio…
É má tal solidão qual sou servil…
Um sonho que em volúpia é tão fecundo.
Desvelo
Perfume de tez, tórrido desejo; | Teus olhos na penumbra mui silente… | Assim, tão devagar, bem forte almejo… | Murmuras rijo, amor, em mi’a torrente…
Perfume de tez, tórrido desejo;
Teus olhos na penumbra mui silente…
Assim, tão devagar, bem forte almejo…
Murmuras rijo, amor, em mi’a torrente…
As mãos conduzem firmes… teu sadismo…
Um sopro d’infinita alacridade…
Sabeis qu’este meu ser, em fanatismo,
Anseia teu domínio e bestidade…
Porém, tão só, nos seios meus, amor…
Tu vens sorver estranho à essência tua,
Tão plácido em afagos pelo ardor…
Comum ao teu dispor, eu sempre nua,
Aguardo tua efígie de agressor…
Sussurras a paixão, viril fervor…
E todo o teu desvelo continua!
Mágoa
Jamais imaginei te carregar | Na forma e substância d’esta mágoa, | No peito que se assola por lembrar, | Rendido ao desalento e morto em frágua…
Jamais imaginei te carregar
Na forma e substância d’esta mágoa,
No peito que se assola por lembrar,
Rendido ao desalento e morto em frágua…
Não mera, a solidão, vai torturando…
De ti que outrora esteve aqui tão perto…
Insisto em questionar, mas até quando?
Os olhos teus na tela assolam certos…
Tão certos d’esta tua indiferença,
Afirmam-me teu riso sem saudade…
Embriago-me da tua malquerença…
No excesso a overdose que me invade…
Teu jeito que desprezo, mas amei…
Mi’a raiva qu’era chama… apaguei…
Em cinzas fico sob a tua vaidade.
Vetiver
Fragrância em tua tez tanto me instiga, | Provoca-me o sorriso, m’entorpece… | Fleumático e febril, viril me intriga… | Estímulo notívago, me aquece…
Fragrância em tua tez tanto me instiga,
Provoca-me o sorriso, m’entorpece…
Fleumático e febril, viril me intriga…
Estímulo notívago, me aquece…
Co’as mãos em teus cabelos gris, afago,
Enlaço-te e ao teu peito, terno e quente,
Repouso sob o aroma que naufrago
Entoando amor em juras eloquentes;
Diz sim, resvalo o toque e, vultuoso,
— Olência de avidez que ébria me faz —
Permites prolongar, afetuoso,
— Eflúvio de fascínio pertinaz… —
Mantenho-me centrada à cinesia…
Aguardo o éter puro d’ambrosia…
Pupilas dilatadas… tão salaz…
A Bruxa e o Cadáver
— Levanta-te morbígero cadáver! | Teus olhos vítreos pálidos reluzem! | Odor de morte antiga que paláver | Sem verbo zumbi horrores que conduzem;…
Bruxa
— Levanta-te morbígero cadáver!
Teus olhos vítreos pálidos reluzem!
Odor de morte antiga que paláver
Sem verbo zumbi horrores que conduzem;
— Caminhe n’esta terra aromantada
De lágrimas e sangue, a flor do mal
Que brota putrefata e delicada
Disposta a todo crime mais brutal!
Cadáver
— Devolva-me à morte, bruxa amarga!
Que vida humana alguma me apetece!
Jurei beijar meus vermes, cá me larga!
— Devoto sou ao crânio, pela prece,
E à úmida madeira do caixão
E à paz d’este meu hirto coração…
A vida imunda, sei, não me merece.
Onirialgia
Estive no esplendor d’este lugar | N’algures dos meus sonhos mais serenos | Dormi nos girassóis, ouvi cantar | Os pássaros nas nuvens, contra o vento…
Estive no esplendor d’este lugar
N’algures dos meus sonhos mais serenos
Dormi nos girassóis, ouvi cantar
Os pássaros nas nuvens, contra o vento…
Senti saudades… mesmo não vivendo…
Sem nunca, pois, ter visto o entardecer,
Clamei ao lusco-fusco, mas s’erguendo
A noite em sua bel forma fez-me ver…
Que é tudo um sonho lúcido da pena…
A tinta que conduz toda uma imagem
Dos tempos que amei, quando pequena,
Recônditos profundos e miragens,
E vivo p’ra trazê-los ao presente…
Tão doces ilusões da minha mente…
Longínquas e nostálgicas paisagens…
Delicaen
Pungentes os mundanos são à seda | Das pétalas do ser, que quebradiço, | Eu sou por ver-me sempre na vereda | D’um mundo belicoso e tão mortiço…
Pungentes os mundanos são à seda
Das pétalas do ser, que quebradiço,
Eu sou por ver-me sempre na vereda
D’um mundo belicoso e tão mortiço…
O orvalho é p’ra mim chuva profunda
Vertida do infinito celestino,
Portanto um bruto dito m’infecunda,
E o mau, qual for, lancina-me assassino…
Hostil é-me tal mundo e mui me sinto
Ser nada além d’um frágil beija-flor
Que voa, então, precípite ao destino
E teme as mãos humanas, pois há dor…
Fisgado pelo açúcar n’água fria…
Tão fácil pode ser, pela apatia,
Um alvo formidável do horror.
Vehrvorus
Que fosses ente e crer-te eu sempre iria | No alvor rogar-te em puro amor vestal | Que fosses a Verdade, eu saberia…
Que fosses ente e crer-te eu sempre iria
No alvor rogar-te em puro amor vestal
Que fosses a Verdade, eu saberia
Honrar-te os mandamentos contra o mal;
Tivesses santo mármore esculpido
O qual ser tua imagem p'ra adorar
Pingente no meu peito protegido
Discípula em teu nome doutrinar;
Seria à tua palavra dedicada
Embora eu já o seja, equivalente
Seria esta lição me revelada?
A glória de teu Verbo onipresente
Dizendo “E sou, pois, Deus mesmo que só
No âmago que teu me encontro em nó;
Escreva, que este é Gênesis primente!"
Limbo
Circunda-me gris noite, estou tão só… | Por vezes dói, minh’alma s’esvazia | E lembro hei de tornar-me reles pó | Da vida cuja bruma é primazia…
Circunda-me gris noite, estou tão só…
Por vezes dói, minh’alma s’esvazia
E lembro hei de tornar-me reles pó
Da vida cuja bruma é primazia…
Pergunto-me se Deus… ou se o demônio…
Indago-me no afogo d’este mar
De pranto sorumbático e adônio…
Em salmos esta lira há de adentrar?
A voz d’onipotente nunca ouvi…
Dos seus rivais, decerto, muito menos!
Que doce fleuma mórbida — eu cri…
E crendo vi nobreza em tal veneno
Dos tantos em imagem-semelhança…
Um mundo tão cruel… desesperança…
Ausento-me em mim… limbo tão pleno…
Demasiado Humano
Assim fragmentar-me e à tez sentir, | Aroma, calidez, silêncio a sós… | Desvelo uma clareira do existir | Às cordas d’este tempo em rijos nós…
Assim fragmentar-me e à tez sentir,
Aroma, calidez, silêncio a sós…
Desvelo uma clareira do existir
Às cordas d’este tempo em rijos nós…
A própria companhia que me tenho,
A lôbrega saudade sem porquê,
E mais, toda a memória que mantenho
Retida ao peito frágil — à mercê…
Tão íntimo, tão lânguido, tão meu…
As horas d’este outrora não vivido…
A espera, a fé tão núrida, o breu…
Amálgamas soturnos incendidos
Da gênese à tocante finitude;
Qu’estranha coisa, a vida, que amiúde,
Circunda-se em propósitos partidos.
Capítulo 13: Nada além da verdade — Rubi Áurea
Sussurros de uma antífona elegia percorriam aquelas terras intricadas. E, por trás deles, um som denso, contínuo e tátil arrastava-se como a nota grave…
Sussurros de uma antífona elegia percorriam aquelas terras intricadas. E, por trás deles, um som denso, contínuo e tátil arrastava-se como a nota grave de um órgão profano — era a própria frequência do desespero, da solidão e da orfandade existencial. Uma salmodia vibrante de abandono, alojada sob a soturnía do medo persecutório, vibrava nas camadas hialinas do ar, no calor do mármore e nos lagos de lava escarlate. Sim, tão inextricável e abissal quanto estas lôbregas palavras que descrevem cada detalhe.
Reintegrei-me em corpo — ou no simulacro que me restava dele — envolvida por um fogo que fazia parte de minha tez e alma. Reintegrei-me ali, naquele vasto e montanhoso domínio, onde céus de nuvens negras em fugaz cinesia deslizavam, guiadas por um vento atroz e fastígio. E, além delas, ardia um firmamento escarlate, imóvel como um presságio. Eu via — e saberia que jamais poderia deixar de ver — um reino de edificações negras, cuja arquitetura parecia construída na linguagem do luto, à sombra de arbustos altos e secos, esqueletos de entidades vegetais. Ruínas de uma civilização obliterada pelo próprio peso da existência.
De essência aterradora, sim, entretanto, algo íntimo cingia-me, acolhendo minha desgraça. E o reino todo alcançava meus olhos absorvidos e fascinados. “Lindo...” — murmurei, talvez para mim mesma, talvez em silêncio. Logo notei meus pés descalços e meu corpo envolto a uma peça que esvoaçava pelo álgido ar que vinha dos céus; era estranha, parecia rasgada em retalhos, queimada, feita de um tecido fino e semitransparente. E para meu corpo olhei quando senti calor em meus pés; vi que o chão era mármore negro, cálido, com fissuras em um vermelho intenso — como uma pedra bruta proibida... que sangra.
Olhei para trás, portanto, buscando compreender o derredor... o que veio às minhas retinas, então, deixou-me estarrecida. Era um imenso palácio de mármore negro e rubi, uma inconcebível arquitetura... e inominável. Seus altos e colossais umbrais abertos poderiam ser-me um convite, entretanto, neles estava um ser sublime que me observava atento e imponente. Sei que minhas pupilas se contraíram ao enxergá-lo, pois quão fascinante o esplendor eterno da sua luz perfeita. Eu intuía... e, por isso, tão logo caí-me aos seus pés porque o que eu intuía conduzia meu ser... aquela criatura era nume, celestial, perfeita. Era uma divindade. Eu compreendia. Prostrei-me porque nunca vi tamanha beleza... nunca senti tamanho embevecimento.
— Levanta-te, pois que não tenho servos, tenho aliados. — ouvi. A voz daquela divindade era o universo ecoando em seu próprio abismo constituinte... eu já o havia ouvido antes... eu já conhecia o seu idioma. Obedeci-o prontamente e fitei a sua graça magnânima. Era mesmo de uma beleza surreal e continha grandiosas asas e vestia-se com vestes régias e negras, com detalhes em rubi, tal como o seu palácio. Era como um homem, entretanto, seu corpo era forte e decerto possuía mais de três metros de altura; além disso, eu intuía, mais uma vez, que não havia gênero em sua estrutura... ele era quem ele quisesse ser... quando ele quisesse ser...
— Lussifferr... — sussurrei... reconheci...
— Tenho vários nomes, este é um deles. Seja bem-vinda ao meu reino. — ouvi. Eu sabia que estar ali era um privilégio de poucos...
— Não temas. — disse ele e convidou-me, com um gesto, a adentrar a sua residência sublime.
Caminhei sem pressa e vi, no interior do local, um lago que reluzia carmim e colunas de rubi que tinham, esculpidos em si, rostos de homens e mulheres de magnífica pulcritude. A deidade sentou-se em seu trono portentoso.
— Pergunto-me a razão pela qual há uma nutrúrnia fincada em teu torso... enraizada em teu coração... — senti-me enrubescer ao ouvi-lo. Lembrei-me de Seth. Ponderei em como eu poderia me explicar.
— Não me conte. Aprecio mistérios. — proferiu com um sorriso perverso e sombrio.
— Tu sabes o que és, Áurea Lihran? — meu nome em sua voz de matéria escura. Um deus sabe todos os nomes daqueles que encontram seu reino?
— Eu não sei se sei. — respondi, murmurando.
— Tu és um demônio. Um demônio que nunca caiu. Diferente de todos aqueles que residem em meu mármore... que raridade. — eu o sentia cada vez mais sombrio, suas palavras naquele idioma ancestral me deixavam turva e com um tipo de admiração que beirava o temor.
— Entretanto, ainda és humana e, para minha surpresa, vampira e animal mítico. — engoli minha saliva como se fosse espinhos. Algo me dizia que Lúcifer sabia muito mais de mim do que eu mesma.
— E como se não bastasse, senhorita Lihran, carregas o Olho do Oráculo como pingente e quatro sigilos pherhesistas repousam em teu pulso. — olhei para meus pulsos, revivi aquele momento tão perigoso.
— Portanto, posso convencer-me de que também és Magista e... vidente. Que fardo! — olhei para os lados, a paisagem nas paredes translúcidas era esplêndida; por fora, nada se via no interior do palácio; por dentro, tudo do exterior se via. Eu não sabia o que dizer, eu estava em êxtase.
— Fardo... — repeti como se internalizasse aquele termo.
— Há conhecimentos que somente uma criatura rara como tu pode alcançar, e é por isso que te proponho um pacto. — fitei seus olhos escarlates.
— Tenho más experiências com — hesitei — vínculos a entidades poderosas... — segredei, incerta de recusar algo de um ente tão superior. Lúcifer sorriu outra vez.
— Não sou uma entidade poderosa, Áurea. Sou um deus. — tremi ao ouvi-lo; um estranho frio espargiu e minha tez se arrepiara.
— Posso dar-te quase tudo o que quiseres, em absoluto; sem entrelinhas. Desde que me dê o que quero. É justo para todos os envolvidos.
— Podes trazer todas as minhas memórias à consciência? — instiguei, quase o interrompendo.
— Não posso. — surpreendi-me.
— Não sou capaz de quebrar o poder do livre-arbítrio. — senti-me confusa. — Tu queres manter tuas memórias ocultas, Áurea; teu querer inconsciente é maior do que o teu desejo racional. — tremi mais uma vez. Eu estava me sabotando? Pensei, silenciada.
— Entretanto, tenho algo de teu interesse... algo mais significativo... e tudo o que peço em troca é a tua devoção ao conhecimento que me é valioso... domine-o e traga-o para mim.
— Pherhesí... — intuí e murmurei. Lúcifer sorriu.
— Isso... agrada-me que tua intuição já esteja vinculada a mim, o teu deus.
— Não posso... não posso... quais serão as consequências? — meândrica, o questionei. Lembrei-me de Olga dizendo-me dos riscos daquela magia.
— Muitas. Entretanto, serão consequências diferentes daquelas que terás que arcar se não aceitares minha proposta. Tudo o que fazes traz frutos; a resultância emerge mesmo quando nos recusamos a existir.
— Não... não posso aceitar... — olhei para os umbrais e vi o inferno em sua imensidão. — Por causa da nutrúrnia eu... sou obrigada? Eu devo algo a ti? — entristeci-me.
— Não, criatura. Mas a consequência é a que vês. Estamos vinculados. Há um elo que te trará ao meu reino quando bem quiseres ou quando for do meu interesse. Os poderes demoníacos estão em tua posse; és capaz de compreender minha linguagem. És um anjo que nunca caiu, porém, está caído. E não há como retornar. — Lúcifer fitou meus olhos com precisão.
— Factum est! — conjurou. Um selo para a minha nova verdade. Um selo do meu espírito diante daquele deus..., mas, o que isso significava para além de sua significação?
Factum est!
Nada mais. E um silêncio perdurou enquanto minha mente estava em ebulição de pensamentos apavorantes. Mais um pacto? Com um ser bem mais poderoso? Uma falha, o livre-arbítrio, usado por mim para apartar-me do que fui? Aquela mulher que eu era precisava ser esquecida?
— Eu preciso crer? — questionei, ainda em torpor de meus pensamentos. Lúcifer não me respondeu de imediato.
— “Precisar” significa acender a faísca de um desejo sob argumentação tendenciosa. E “crer”, ah, esta sim... esta é a palavra... a mais irrelevante palavra. A crença é tão só uma mentira, afável mentira. Induz a razão pela veia da ignorância. Se almejas a verdade, nada além da verdade, não creia... beije os lábios da factualidade... lide com as consequências... e que a única calidez advenha do mármore sob teus pés e nunca do teu coração.
Lúcifer se levantou, caminhando ao redor, devagar.
— Mas... quão humana ainda és? Quão ávida estás pelo amor olvidado? Pela paixão proibida? Pela dor e pelo prazer de amar? Ah sim... eu sei... — meu imo ardia ao ouvi-lo.
— A humanidade ainda pulsa na tua carne, não é? Tu sentes o deleite... o vigor... a intensidade. Algo que apenas um humano pode sentir. — Ele continuava me cingindo com seus passos sorrateiros, como um lobo faminto. Parecia um pouco mais próximo, em tamanho, como um ser humano; metamorfoseava-se para que eu não sentisse estranheza, talvez; Lúcifer dominava, persuadia, hipnotizava.
— A fé é tão símil à excitação venérea... induz ao gozo precipitado ou ao tântrico estado perpétuo de realização afrodisia, em ambos os casos, é idealização projetada. Aceite a verdade... as coisas que são como são; e, então, faça do teu sentido aquilo que ele deve ser e não uma deformada efígie dos teus ideais.
Abracei-me com minhas mãos, como se me comprimisse em mim mesma.
— Tenho toda a eternidade para que aceites o pacto que ofereço. Pense, eu estarei sempre aqui... e eu não estarei sozinho...
Eu intuía algo, profundamente brumoso, na última frase de Lúcifer. Voltei a admirar o horizonte do inferno.
— O que me ofereces? — inquiri. Lúcifer sentara-se outra vez.
— Esta é a pergunta certa, e ela te será respondida no momento certo. — argumentou, e eu, devota à sua grandiosidade, apenas assenti. — Ouça bem, esta flor em teu peito, se retirada, levar-te-á para a Morte Rubra. Aquele que tentar contra suas pétalas, sorverá da tormenta; aquele que tentar contra as suas pétalas, será mortificado pela escuridão. As pétalas da nutrúrnia poderão ser arrancadas, entretanto, seu caule tem a força destas colunas lapidadas em carmiantte, e está enraizado, envolto a todas as tuas veias. Só poderá ser retirado, portanto, se tu fores dissecada. — intimidei-me sob assombro silente, quase plangi de súbito por tão somente imaginar tão horrífico fim.
— O que é a Morte Rubra? — indaguei, incerta de que saber fosse preciso. A deidade sorriu, apontando para as colunas lapidadas.
— Carmiantte é a fundamentação d’este reino; um mármore negro-carmesim, de dureza mais acentuada que o diamante vestal. Se lapidado, assemelha-se ao rubi, dado seu esplendor escarlate. — Lúcifer levantou-se, tocando os lábios de um pilar-estátua feminino. — Cada escultura vive suportando o peso de si mesma, senciente. Ou ainda, brutas, sob teus pés aquecidos pela lava vermelha. Onus aeternum. Tudo aqui é carmiantte, e carmiantte é feito de Morte, e é rubro porque sangra.
— Demônios sangram carmesim? — lembrei-me da seiva negra de Seth.
— Não, mas humanos sim. Por isso é rubinegro. Alguns virão para o inferno em razão de seus pecados; outros encontrarão a Morte Rubra por quebrarem o pacto que comigo fizeram. — compreendi, e antes que eu lhe pudesse questionar tanto mais, senti novamente meu corpo transfigurar-se em fogo cetrino, como papel queimando.
— O que...? Por que...? — senti-me confusa e ardente.
— Desejas retornar ao teu Castelo, e a intenção intuitiva do desejo se basta para que o fogo efetive o retorno. — eu queimava, e o medo outra vez tomou-me como um amante febril. — Assim será quando quiseres voltar para meu reino, ainda que não sejas capaz de ouvir o teu intuitivo desejo. — olhei para os olhos de Lúcifer. Ele estava incólume. Olhei para as estátuas de carmiantte; pareciam me observar. — Logo saberás fazê-lo racionalmente. — afirmou a deidade, proferindo o que não pude ouvir em seguida. Senti-me desmaterializar pouco depois de ser preenchida por uma estranha inquietude.
Então, eu estava de volta. As mesmas paredes de pedra, o mesmo silêncio e solidão. Envolvida pela escuridão que me pertencia, ainda tomada pela incerteza e instável verdade da minha existência. Entardecia. Nuvens em bege profundo se espalhavam nos céus simulados; ao derredor, folhagens em marrom-outono dançavam ao vento enfraquecido. Eu estava em casa, a vicissitude do lar ao qual eu pertencia era a ilusão perfeita do espaço-tempo, eu sentia. O inferno era mais real do que o Castelo Drácula — ou seria Castelo Nivïttiz?
Andando a esmo, sem esperanças a conduzirem meus passos, sem razões para direcionar meu comportamento. Toquei a algidez das pedras úmidas, senti o ar rarefeito do dia lá fora; visitei túmulos daqueles que jamais saberão sobre a Morte Rubra e que talvez estivessem, naquele instante, suportando o peso de si mesmos, sendo pilares lapidados do palácio de Lúcifer. Ou eram carmiantte bruto, debaixo dos pés dos residentes do reino que eu agora conhecia? Lembrei-me de Lúcifer e senti a liberdade do seu poder. “Não tenho servos, tenho aliados.” Lúcifer não era um pai, seus princípios de liberdade acima de tudo conduziam minha alma à verdade sombria: estamos sempre sós. Mas, por que estamos? Eu me perguntava nos caminhos irrelevantes daquele alcácer. Por que nos tornamos e agora somos?
“Divino é a criação, ou quem a criou? Fui criada por Lorrt na transmutação vampírica e, antes, criada por meus pais e, muito antes, por quem? Quem estivera antes da vida que agora, na vida, já não está? E se a liberdade é a verdade, junto à factualidade das imensidões subjetivas, então é tudo verdade, então é tudo mentira? Quão livre é estar livre, se há prisões que nos percorrem o corpo e alma, desde o próprio corpo até a própria alma? As indagações tão perenes não são prisões subjetivas tal como as respostas às indagações? Este Castelo, o que é? Por que é? E o que é sê-lo?”
Adentrei uma porta qualquer, irrisória para mim; mais uma dentre tantas. E continuava a pensar. Contudo, era um quarto com tapeçaria amarronzada e detalhes em dourado envelhecido. Vi um belíssimo leito com dossel de ouro translúcido e veludo marfim. Uma escrivaninha com papéis escritos, uma pena de ponta manchada de tinta negra e um cântaro com flores brancas. Isso foi tudo o que vi a princípio e, tão logo, aproximei-me curiosa. O local transmitia uma energia pacífica, embora os lumes de suas velas se ocultassem na minha escuridão. Um canto gregoriano evidenciou-se quando os umbrais foram fechados por minhas mãos, vinha do interior do quarto, especificamente uma estreita porta à esquerda, ornamentada por uma cruz dourada, antiga.
Abeirei-me em silêncio, no mais insano, conduzida pelo enlevo das vozes em coro, ecoando como se fossem donos da eternidade da existência. Lá dentro, espreitei pela porta: uma mulher ajoelhada sobre um pulvinar castanho, costurado com loura lã, tinha suas mãos unidas e seus olhos fechados em um semblante de mansuetude. Seus longos cabelos ondulados eram símeis às folhas secas do outono, pela cor; e em evidência, tão macios quanto o veludo marfim do leito outrora observado. Seu vestido mantinha o tom castanheiro, como se os carvalhos mais ancestrais habitassem o cômodo; tudo era madeira marrom, tudo era entalhado no ouro.
A mulher rezava. Eu sentia. E sua oração me perturbava. Não pelo som que sequer saía de seus lábios, mas pela fé que resplandecia dos poros de sua tez cor de cravo-da-índia. Reluzia sutil a sua tez, azeitada pela natureza própria que a fundamentava. E a cruz-pingente no colar que segurava em suas mãos enfurecera-me, como se fosse um insulto à minha vida. À sua frente, nada além de diversos vasos com flores secas, galhos de árvores, pinhas, velas, água corrente. Havia, também, argila em formas incompreensíveis e, também, um tipo estranho de aparelho por onde as vozes saíam naquele salmo em coro religioso.
Abri a porta um pouco mais, mas aquele fulgurar estranho, feito de pequenos pontos de ar pairando no ambiente, como se crepitasse devagar, constituídos de pura energia de fé, impediam-me de me aproximar. O som da porta despertara, em seguida, a concentração da mulher que, célere, olhara-me atenta. Toda a luz que afrontava minha existência se espargiu como poeira levantada pelo bater intenso de um tapete. A mulher sorriu para mim e perguntou-me se eu precisava de ajuda. Eu precisava? Não sei. Mas aliviada estava por não mais ouvir, ver e sentir aquele obscuro agravo, coberto por fervor espiritual, capaz de me sufocar à Morte Rubra.
— Não sei como encontrei este... altar... — proferi. Minha voz estava diferente, mais séria, mais persuasiva. Sequer parecia ser minha.
— Talvez o tenhas encontrado porque assim foi preciso. Deus pode tê-la direcionado a mim, por suas razões celestiais. Assim acredito, pois que nunca recebi outra visita que não de meu amado pai. — proferira com a voz mais mélea do que qualquer outra que já ouvi. Era como um anjo egrégio, embora compará-la a tal era-me estranho, pois que nunca vi anjo algum, não daqueles que decerto teriam a essência insigne que transpassava, dela a mim, através daquela voz e daquele rosto e de toda aquela luminosidade feita de fé e devoção.
— Devo duvidar, pois que qual deus poderia guiar um coração demoníaco como o meu? — indaguei sem buscar por uma resposta, ao menos não racionalmente.
— Acabo de vir do inferno, o deus que conheci não guia ações, não interfere em minha vida, apenas propõe pactos e vínculos essencialmente convenientes.
— Tenho certeza de que o deus que viste não é o verdadeiro Deus de Todas as Coisas. Tenho certeza, caríssima, que a tua vida é por este Deus Maior guiada e cuidada como deve ser para todas as criaturas debaixo do céu.
— E debaixo do céu carmesim do inferno profundo também?
— O Deus de todas as coisas é piedoso e bondoso, é capaz de tirar uma criatura de seu inferno sob a condição de rendição. Rejeite tudo o que não vier d’Ele e, então, terás a salvação eterna.
— E de quem me salvarei eternamente senão de mim? E se me sou sempre a me ser, como posso salvar-me de mim enquanto me sou? — a mulher fez silêncio.
— Feche teus olhos, dama. Feche-os e profira no teu silente coração amaldiçoado pelo inferno: “Deixe-me sentir-te, Deus, fala comigo, eu rogo!” e Ele falará contigo, se for preciso, se for o momento. — compreendi sob o véu do ceticismo e intensamente enjoada.
“Deixe-me... sentir-te... Deus...”, ponderei. O vazio nunca foi tão vazio quanto o tamanho do vazio que senti ao pensar em tal ridícula oração. “Fala comigo, eu rogo!”, insisti, sentindo vontade de gargalhar e chorar ao mesmo tempo.
— Não sei encenar como tu... não há Deus Maior que me ouça. E se fosse do meu feitio, Deus algum a ouvia agora e eu poderia sorver do teu sangue vestal e te levar mais perto de Deus... ceifando tua vida...
— Mas não o fará... por quê? — questionou mais calma do que previ diante minha insondável ameaça.
— Porque não quero... não tenho sede... não tenho razão... nem sentido.
— Deus me protege de todo o mal. Ele é capaz de fazer o mal desistir do mal, para cuidar de mim, eu sei.
— Um Deus seletivo... entendo... cuida de seus preferidos e renega os que dele mais precisam, pois que estes que não lhe estão sob os princípios, desviados de sua salvação eterna, não são, pois, os que mais deveriam ouvi-lo? Não são, pois, os que mais precisavam de apoio? Intriga-me que sejas tão devota a um Deus assim.
— E quem disse que Ele não está dedicado aos que não o adoram? Sei que o Deus Maior não rejeita ninguém. Apenas é preciso um pouco de sensibilidade para ouvi-lo, mas Ele sempre diz e sempre quer se fazer ouvido. Ele não é racional, Ele está acima da razão, e Ele não pode obrigar-te a ouvi-lo tal como o teu desejo de ouvi-lo não pode trazer-te a capacidade de o fazer.
Silenciei e olhei para a luz tenra que advinha da janela ao lado da escrivaninha; a luz crepuscular dourada tocava as pétalas das lívidas tulipas e difundia-se nos soltos papéis. Um porta-retrato protegia uma fotografia de Monm ao lado da mulher imersa em sua fé inabalável. Sorriam, profundamente felizes, como Monm não parecera ser capaz de fazer quando o conheci.
— Este é meu pai, Abdalla... — olhei para trás, sequer notei que havia andado alguns passos em direção à luz. Hesitei. — E eu sou Siehiffar Monm... ou apenas Sieh. — senti sua proximidade, e isso me desestabilizou.
Havia, de fato, poder em sua crença — um tipo de poder que não poderia coexistir com a daemoniss que eu era, que eu me tornara, que sempre seria rejeitada pelo Deus Maior. Caminhei para os umbrais principais da alcova sacrossanta e, sem olhar para trás, sem proferir uma única sílaba de adeus, fui embora.
Havia uma dor em mim, que não doía... e uma desesperança tão amarga, que não amargurava... havia uma verdade apenas, dentre tantas, a única que me conduzia diante da solidão eterna: Eu não pertencia àqueles que seriam salvos, e eu não era mais humana.
Nosso Momento
Tocar-me o dorso aquece-me e, talvez, | Nas flébeis amarguras de meu ser | Resida algum remanso em lucidez | ‘vivado pelo afago ao noutecer…
Tocar-me o dorso aquece-me e, talvez,
Nas flébeis amarguras de meu ser
Resida algum remanso em lucidez
‘vivado pelo afago ao noutecer…
Mãos tuas, régias, ásperas, amante
Dedicam-se tal como o mar à lua
E sabe ser intenso e confortante
À tez que sempre treme a ti tão nua;
Carícias me conduzem à brandura
E leves os meus olhos vão cerrando
Vigília se amainando à conjuntura
Que tanto me conforta apaziguando
E logo pouco importa os meus horrores,
Quaisquer que sejam minhas as vis dores,
Um toque teu tão só me vem curando.
Capítulo 4: Apreensão Familiar — A Mansão Negra
A cristalina água corrente abluíra as provas de que aquilo não se tratou, tão somente, de uma manifestação…
A cristalina água corrente abluíra as provas de que aquilo não se tratou, tão somente, de uma manifestação do inconsciente. Tentei assimilar a loucura da situação, todavia, estava no horário demarcado por Ehllenor para que eu os encontrasse na sala de jantar, para iniciarmos o desjejum. Portanto, sedei meus pensamentos e indagações sombrias, fiz minhas higienes matinais e deixei meu aposento. Assim que visualizei o corredor, notei a porta da alcova de Ahzaez, ela estava entreaberta, tal como em meu sonho. Caminhei à esquerda, obrigatório para chegar ao meu destino; passei, portanto, pela porta e evitei, a todo o custo, fitá-la. Apressada e um tanto dispersa, acabei por colidir com Morgion pelos estranhos ângulos entre um recôndito e outro daquele lugar.
— Morgion! Perdoe-me. — Proferi, abaixando-me para ficar na sua altura. Ele sorriu, educado. Ehllenor estava logo atrás dele. — Como fora tua noite de sono, querido? — Indaguei-o.
— Nada bem... — Ele sussurrou, entristecido.
— Deixemos para falar disso após o desjejum, meu amor. — Orientou Ehllenor. Levantei-me e sorri para ela. Morgion abaixou sua cabeça, unindo suas pequenas mãos; ele não estava bem.
— Bom alvor, senhorita Saeeri. Espero que a primeira noite em nosso lar lhe tenha sido deleitável. — A seriedade de Ehllenor indicava-me que, na Mansão Negra, ninguém adormece em remanso.
— Sim, senhorita. Agradeço a hospitalidade inestimável. — Respondi-a mentindo, embora por razões de grande valor. Seguimos juntos à sala do desjejum.
Era um cômodo imponente. A mesa no centro era grande, para cerca de quinze pessoas. Esculpida em obsidiana, como imaginado para tudo o que existia ali, com castiçais e esguios vasos para orquídeas negras ao longo de seu comprimento. Ertthan nos acomodou e, em silêncio, aguardamos a chegada dos demais. Esperava conhecer toda a família Sttrattan naquela ocasião, contudo, em alguns minutos, Dama Lilith chegara, caminhando com cuidado sendo guiada pelo mordomo. Somente ela. Levantei-me em respeito à Anfitriã e porque assim o fez Ehllenor e Morgion. A mulher era, de fato, mãe de Ehllenor, pois, ambas eram semelhantes em demasia.
— Dama Heigger. — Dissera com a voz rouca e trêmula. Seu cumprimento fora apenas com uma singela reverência. Fiz o mesmo.
— É um prazer conhecê-la, Senhora Sttrattan. — Expressei. Sentamo-nos todos e, em seguida, Erttham iniciou a colocação dos pães, geleias, frutos e outras iguarias de Amorttam sobre a mesa. Isso indicou-me que ninguém mais viria para compartilhar o momento. — Vi muitos quadros de vossa família; indago-me onde todos estarão. — Proferi em curiosidade, no entanto, em busca de informações que esclarecem mais a vida do pequeno Morgion.
— Muitos dos meus filhos estão em Sihren para formarem uma educação completa na Universidade. Soron os acolheu com estima em seu Castelo. Outros rebentos deixaram a Mansão para que pudessem esculpir seus próprios lares; se não fosse Ehllenor e o meu adorável Morgion, estaria aqui apenas eu e Ahzaez.
— Acredito que Ahzaez seja seu filho mais próximo... — Comentei, mas, fui interrompida.
Proferir o seu nome resultou, por coincidência, em sua aparição pelos principais umbrais do cômodo. Pouco antes, Ertthan abrira todas as janelas, fazendo com que a luz e o ar gélido clareassem o local e desse-lhe vida, renovando a atmosfera. Ahzaez chegou aflito, embora conservasse um severo semblante que vi quando por ele fui recepcionada na noite anterior. Direcionou-se, em primeira instância, à Lilith. Reverenciou-a beijando-lhe a mão. Em seguida, beijou a fronte de Ehllenor e acariciou os cabelos de Morgion. Somente após tal cuidado e apreço com seus familiares, permitiu-se olhar em meus olhos; fitou-me e, por instantes inomináveis e céleres, nada fez além de observar meus olhos e meus lábios... seu olhar me desconcertou...
— Senhorita... — Proferiu em um tom diferente do qual o fez com sua família, o que me soara algo esperado e comum. Não se aproximou de mim e logo sentou-se. — Peço-lhes perdão pelo meu atraso. — Dissera.
— Não te preocupes, creio saber as razões. — Respondera Lilith, olhando para Ahzaez. — Aqui, senhorita Heigger, as noites podem ser um tanto perturbadoras. E, sobre sua indagação, creio ter o dever de esclarecer que Ahzaez é meu irmão, não meu filho.
Fiquei embasbacada com aquela informação, evitei, todavia, de expressar o assombro instantâneo. Ahzaez era jovem, decerto possuía pouco mais que eu em estado de vida. Lilith era bem mais velha, notava-se à olho nu.
— Dialogavam sobre mim antes à minha chegada. — Considerou-me culpada através da ímpar maneira com que se atentou a mim ao dizer aquelas palavras.
— Eu... — Hesitei — Eu estava inferindo seres tu o filho mais próximo da senhora Sttrattan, não... não imaginei que serias irmão da anfitriã. — Explicá-lo não deveria ser uma obrigação, todavia, a julgar pelo seu olhar, cri ser necessário. Uma efêmera quietude espargiu.
— Ahzaez fora um bebê indheren, Senhorita Heigger. — A explanação de Lilith confirmara que meu esforço, para não transmitir minha surpresa a respeito do assunto, não fora suficiente; e que, estranhamente, esqueci-me do método indheren de fecundação. Demonstrei minha compreensão e apenas me calei; tive a sensação de estar incomodando-os com minhas tolas palavras, embora fosse parte de meu ofício a indagação contínua.
— Saee... — Ahzaz hesitou — Dama Heigger pareceu-me interessada na arquitetura da mansão, em especiais os umbrais silentes. — Ahzaez dissera, sem olhar para mim ou para qualquer outra pessoa. Quase perdera a formalidade comigo, mais uma vez.
— Ó, sim... as portas... Espero que tenhas sido informada da importância crucial de mantê-las entreabertas. — Ressaltara a matriarca. Ehllenor demonstrou receio e imediatamente olhou para mim e, em seguida, para Ahzaez.
— Eu a orientei, Lilith. — Disse Ahzaez. Ehllenor sentiu alívio e ele olhou para mim.
— Ótimo. Tu sabes que a Mansão Negra pertencera a Krvier... — Lilith oscilou ao proferir o nome do Soberano e, sinceramente, o nome foi o que mais ecoou pelo ambiente e isso foi de uma estranheza pavorosa. — Não sabemos as razões pelas quais ele construíra este lugar, mas após tantos anos vivendo no “envoltório de obsidiana”, percebo que ele não tinha boas intenções ao erguê-lo. Tudo aqui é silencioso e o som pouco se propaga. Tivemos infortúnios que não serão esquecidos, tudo em razão da Mansão Negra. O que possui de extraordinária beleza, possui de segredos e, alguns deles, decerto são perigosos.
— Pensaste em deixar a mansão em algum momento, senhora Sttrattan? — Questionei, retomando meus motivos para estar ali.
— Não o farei. Ainda que me sustente em sua solidão perpétua. Eu pertenço a este lugar.
— Ninguém pertence à Mansão Negra, Lilith;. O “algo” que a pertence deveria sucumbir junto a ela. Mais perverso que aquele que a construiu, é aquele que a mantém erguida. — Interrompeu Ahzaez. Ele demonstrou uma nervosia tênue, algo que parecia guardar em seu âmago, talvez, por ter sua família na Mansão, passando pelo que passam; ou, pelo que ele passa, se o pesadelo de outrora possuir fragmentos da realidade. E lembrei-me do quanto parecera real e do sangue em meus dedos.
— Nunca disseras tamanha afronta frente a outras visitas... parece-me à vontade com Dama Heigger. — Lilith fitou-me, parecia insinuar algo. Ahzaez olhou para Lilith.
— Não é ofício de Dama Heigger o aconselhamento psíquico de Morgion?
— De Morgion sim, Ahzaez, não de ti.
— A menos que Morgion viva sozinho, Lilith, receio que seja ofício de Saeeri investigar toda a família que o circunda. — Havia furor no olhar de Ahzaez e o mesmo no de Lilith. Eles se encaravam.
— A senhorita Heigger realizará o atendimento de todos nós, assim acordamos. — Ehllenor interrompeu-os, pois que a singela conversa se agravava, suficientemente significativa para que eu pudesse entender a dinâmica da família — ou começar a entendê-la. A voz de Ehllenor quebrantou a faísca do ódio, pois os irmãos deixaram de se olhar. Lilith concentrara-se em seu chá e, Ahzaez, em mim.
— Phamen, a principal ama responsável por Morgion, tem sofrido com algia profunda nas têmporas, sintomático de desordem, pois sua fisiologia não apresenta alterações incomuns. — Disse Ahzaez.
— Ora, Phamen! — Exclamou Lilith, em tom menoscabo. — Uma mulher Ventral consumida por infertilidade e que agora sofre por não poder ter mais uma criatura Ventral para morrer cedo. Isso a perturba, por isso sente dores psíquicas. — Lilith foi fulminada pelas íris de Ahzaez.
— Não diga isso, mamãe; Phamen é docílima e somente cabe a ela revelar suas angústias à doutora, quando for o momento adequado. — Ehllenor parecia sentida pelas palavras de sua mãe.
— Estou apenas sendo objetiva; a doutora não deveria perder seu tempo com os Ventrais da casa; eles escolheram a vida que possuem. Que arquem com as consequências! — A frieza, um profundo descaso, advinha da alma daquela mulher; não ousei revelar ser, pois, uma Ventral e, embora fosse profissional o suficiente para separar as coisas, doeu-me ouvi-la dizer o que dissera, pois sei das razões de meus pais e sei que nasci como sou porque foi preciso.
— Mamãe, por favor...
— Reserva tua energia, Ehllenor; Lilith não tem sensibilidade para lidar com a multiformidade da vida.
— E tens tu? Vives sob meu teto, Ahzaez; usufruis de minha fortuna para se ceifar ao bel prazer do láudano. Sejamos sinceros... — O silêncio e os olhares entre irmãos cultivavam uma cólera inominável. — Se não fosse o método indheren, tu estarias morto.
— Ahzaez é a razão pela qual não sucumbi à loucura nesse lugar... — Ehllenor se direcionava à Lilith e, logo em seguida, olhou para mim. — É um homem bom e protetor, tem cuidado de Morgion como um pai. Ele está atento às portas, aos sons, a nós.
— Se há desagrado em ti, por que continuar aqui? Fomentas a dor porque queres, tal como um Ventral o faz. — Lilith desdenhara. Sua filha respirou fundo.
— Tens razão, mamãe; talvez eu devesse ir.
— E vai. — Afirmara Ahzaez. — Assim que o tratamento com a doutora se findar, Ehllenor e Morgion irão para Sihren, já acordei com Soron. — Revelara. Um brilho nos olhos de Ehllenor emergiu, porém, uma preocupação em seu semblante era inequívoca. Lilith, por sua vez, parecia incólume. O silêncio que pairou a posteriori, teve de ser destruído por mim, pois, notei que a dor e a mágoa eram fortes razões para que algo prejudicasse minha estadia e, àquele ponto, comecei a temer pelo menino.
— É importante que minha estadia seja proveitosa a todos que aqui residem, inclusive os funcionários e em especial os membros da família Sttrattan. — Respirei fundo. — E, bem, o café estava de uma amargura aprazível, agradeço senhora Lilith. Agora já estou à disposição para atender o pequeno Morgion. — Olhei para o petiz. — Sei que tens muito a me contar, certo? — Disse de maneira lúdica, tentando agradá-lo. Ele movimentou sua cabeça, confirmando minha questão.
— Vamos, então, estamos prontos. Por aqui, doutora Heigger. — Dissera Ehllenor. Levantei-me, pedimos licença, saímos. Lilith e Ahzaez permaneceram à mesa. Perguntei-me o que conversariam a sós, mas suspeitei que prefeririam o angustiante silêncio.
Capítulo 3: Insanidade do Desejo e a Loucura — A Mansão Negra
Despertei assustada, sem razão, exceto por uma sensação de intenso temor. Sentei-me…
Despertei assustada, sem razão, exceto por uma sensação de intenso temor. Sentei-me sobre a cama, respirando com dificuldade. As velas do castiçal único estavam apagadas e o breu era carregado, pesado. Como orientada, busquei por fósforos na mesa de cabeceira e os encontrei. Acendendo um, à princípio, para localizar o castiçal. A acústica daquele lugar era impressionante; nenhum som saía, nenhum som entrava. Fui à janela para abri-la, de modo a ouvir algo além do meu frenético coração. Era impossível, não me parecia ser feita para se abrir. Acendi as velas no castiçal sobre a cômoda e o que notei me assombrara de modo tétrico e tão repentino quanto meu despertar sôfrego, voltando a acelerar o meu órgão vital. Nenhuma das pessoas, naqueles retratos, possuía rosto. Suas faces estavam borradas. Aturdida, segurei uma das molduras após o fugaz afastamento impulsivo e instintivo; toquei a pintura. Parecia real. Estava seca. Com uma tênue camada de fino pó sobre sua textura. Antes que pudesse assimilar aquela bizarrice — e antes de me questionar se eu sonhava, tal como Morgion, ouvi batidas à porta e, célere, a encarei.
Em uma lentidão espectral, coloquei o retrato sobre a cômoda e caminhei à porta, segurando o castiçal. Ao fitar meus olhos à maçaneta de ouro, ela apenas não existia. Toquei o cedro negro do umbral, busquei o que apenas nunca parecia ter existido. Ouvi mais duas batidas na porta. Um desespero mórbido emergiu no meu âmago; uma sensação claustrofóbica gritante conduzira todos os meus sentidos. A respiração, outrora ofegante, passou a ser a súplica de um horror silencioso e, ao mesmo tempo, gritante. Pus o castiçal em qualquer lugar, o qual nem vi onde, e, em desespero, bati contra a porta pedindo ajuda para sair, ainda que eu sentisse que nenhum som poderia atravessá-la. Meu pânico gerara um suor vívido pelo meu corpo e meus olhos lacrimejavam pela hediondez daquilo que eu me via imersa. Foram os minutos mais bárbaros de minha vida, pior do que tudo o que aquelas poucas horas já haviam me proporcionado. Abruto, a porta se abriu, empurrando com um abalo, meu corpo. Então vi a maçaneta em seu devido lugar e vi os olhos azuis-cinéreos de Ahzaez, segurando a maçaneta da porta, pelo lado de fora. Por um instante, eu apenas não compreendi nenhuma informação disponível à minha consciência.
— O que houve, Saeeri? — Ele questionou, todavia, arfante e exaurida, eu não pude respondê-lo de imediato. Ele se recompôs, parecia ter forçado a abertura da porta e, decerto, ter ficado ansioso em relação ao meu bater pelo outro lado. Notei — a posteriori, quando a lembrança me veio — que fui chamada de Saeeri sem nenhum tipo de formalidade, algo difícil de acontecer com famílias como as de Sttrattan. Ahzaez aproximou-se um pouco mais e pude sentir seu calor. — Tu estás... — Ele fitou-me de cima a baixo. — O que houve? Precisas de algo? Saeeri? — Esforcei-me para respondê-lo, ponderei, n’um lampo de pensamentos, diversas palavras e as únicas que me saíram foram as mais evidentes.
— Fiquei... presa... — Olhei para trás, de soslaio. Nenhum rosto estava apagado nos retratos. Observei a porta. A maçaneta intacta em seu áureo lume próprio. Que tipo de anomalia era aquilo? Sem nenhum histórico de delírio em todos os meus trinta anos de vida, deduzir que se tratava de alguma patologia mental, por quaisquer motivos, era ignorar a verdade.
— Pegarei um copo d’água para que possas te acalmar... — Ahzaez dissera, voltando-se à porta, mas eu o segurei pelo braço, ainda domada pelo medo. Eu não queria ficar sozinha outra vez. Ele me olhou atento. Tocá-lo foi invasivo... e afrodíseo... como não deveria ser. Soltei-o diante de seus olhos, eram tão amedrontadores quanto todo o horror vivenciado.
— Perdão... — Murmurei. Se já não era educado tocar alguém sem permissão, tocar aquele homem sem a devida autorização assemelhava-se ao crime mais cruel de toda a Sihren. — Estou... assustada... — Ahzaez aproximara-se da cômoda com os retratos, em silêncio; da última gaveta retirou uma toalha, estendendo-a a mim em seguida.
— Use isto para... secar... tua tez... — Sua voz baixou a dois tons, fora quase sussurrada... — Mantenha a porta aberta, volto em breve. Com a porta aberta, ouvirei tua voz caso algo aconteça, basta chamar pelo meu nome. — Abraçada à toalha, apenas concordei com sua fala agravada pela densidade daquela Mansão; então o vi deixar o quarto.
Como ordenado, sequei-me a pele úmida pelo temor; respirei profunda e intensamente. Prendi, com cuidado, meus cabelos que se soltaram diante meus bruscos movimentos contra o umbral. Segui ao espelho oval e ornamentado, ao lado direito da cama. Quis ver meu rosto, acalmando-me a sanidade. No entanto, não havia... reflexo... e fui tomada pelo mesmo impacto horrífico; tendo meu coração acelerado em aterrador ritmo. Cobri meu rosto com o a tolha, seu algodão negro soara-me acalentador. “Isso não pode ser real” — sussurrei, afoita, afogada em medo.
— Dama Saeeri? — Ouvi. Seu tom inominável assustara-me, contudo, contive quaisquer impulsos, apenas o olhei com uma rapidez mórbida. Ahzaez segurava um copo d’água. Com sua presença, no entanto, ainda que macabra de sua maneira, senti-me mais segura para fitar o espelho. Lá estava meu rosto assustado, meus olhos abertos, a pupila dilatada, a pele ainda orvalhada pelo pavor. Respirei com a profundidade de um precipício, fui até Ahzaez e aceitei a água, tomando-a lentamente. Assentei-me no baú frente à cama, o qual era, também, um assento. Aguava meus lábios e entranhas enquanto secava minha tez. Ahzaez apenas olhava, em silêncio.
— Peço perdão pelo constrangimento, Dom Sttrattan. — Pronunciei após conseguir me acalmar; não demorou muito, mas sob a presença daquele homem, assemelhou-se a uma eternidade. Sua imponência era pujante, ainda que, fora dela, o horror extravagante possuísse maior magnificência tenebrosa. — Agradeço por teu cuidado em acudir... acredito que estavas passando pelo corredor... — Queria saber o porquê ele batera em minha porta, no entanto, sua fúnebre composição aflorava minha dedicação à comunicação delicada.
— Notei que este umbral pertencente ao teu aposento estava fechado e, portanto, vim alertar-te da importância de mantê-lo aberto em, ao mínimo, uma singela fresta. — Explicara. — Acredito que Ehllenor não tenha te informado a respeito. Como podes notar, todo este lugar foi construído para que o som não se propagasse. E as janelas não abrem à noite, por seu mecanismo próprio. Manter as portas abertas permite que possamos ouvir, caso algo aconteça.
— Compreendo... Muitas coisas singulares acontecem na Mansão? — Questionei sem tato, confesso, àquela altura eu já não estava tão atenta.
— Não, senhorita. Mas há Lilith cuja idade está avançada e Morgion que é apenas uma criança, ambos podem precisar de auxílio no calar da noite; estamos com colaboradores escassos.
— Tu vagas à noite, cuidando deste afazer? — Olhei para seus olhos, à sombra própria do cômodo, eles pareciam escuros.
— Não... — Respondera e silenciara por um momento. — Meu quarto está próximo do teu, neste corredor... há duas portas de distância. Por insônia, levantei-me para caminhar ao belvedere para respirar um ar puro e úmido. Sabendo que serias colocada neste aposento por Ehllenor, olhei em direção para certificar que a porta estaria entreaberta. — Elucidara.
Não me parecia agradável adormecer sob o olhar de quaisquer pessoas daquele lugar; tendo a porta em fresta, refém da ausência de privacidade. E se, orientada devidamente, mantivesse os umbrais à disposição dos olhos azuis-gris daquele homem? Por quanto me observaria? “Vagante da noite lânguida” quiçá fosse o significado do nome “Ahzaez”. Esses pensamentos usurparam minha mente sem que eu os pudesse comedir, mesmo tendo sido salva por ele, a austeridade vívida de seus olhos mortos e de seu semblante obscuro não me permitiam confiar, com plenitude, em suas ações e intenções, principalmente.
— É imprescindível minha partida agora, Dama. Devo dormir e creio que a senhorita também. — Suas palavras desafiaram o silêncio antecessor a elas.
— Gostaria de conhecer o belvedere; é distante daqui? — Sondar o homem sobre um possível abrigo para a claustrofobia do local, soava-se pertinente. Ahzaez caminhou à porta.
— Ordenarei que uma ama lhe guie até lá pela manhã, senhorita. — Proferira em tom soberbo. — Boa noite... — Com uma pequena saudação silente, Ahzaez deixou o cômodo, seguindo em direção ao seu quarto.
~ ❦ ~
Eu tinha diversas indagações a esse ponto. Por que não travam as portas entreabertas? Ou as trocam por outras? Por que apenas não retiram as trancas? Por que não adicionam algum tipo de circuito interno de comunicação, tal como já vi na universidade de Sihren? Qual seria a razão para que as janelas fossem travadas no calar da noite? E como alguém pôde criar esse mecanismo? Os Sttrattan pareciam defender a Mansão Negra acima de tudo, acostumando-se ao que ela oferecia sem impor nenhuma condição. Além disso, o que vivenciei diante as anomalias do quarto, o sumir da maçaneta, as pinturas sem rostos, a ausência do meu reflexo. Tudo ali era um enigma exótico e amedrontador. Senti ser significativo conhecer com mais profundez os Sttrattan, pois que não poderia haver tamanho horror nos sonhos de uma criança que não estivesse, de alguma forma, manifestando-se em seu derredor, em sua família. Duvidei que um petiz como Morgion pudesse produzir um lago de sangue em seu inconsciente sem antes já ter visto muito sangue na obscuridade de seus vínculos reais. Levando em conta o odor emergido às minhas narinas horas antes, eu não poderia duvidar dessa hipótese.
Como se não bastasse o atordoar tétrico que me cingia, adormecer naquele átimo resultou em pesadelos conturbados, dentre tais, lembro-me perfeitamente de um. Antes, todavia, de revelá-lo, é importante esclarecer que a cinesia do meu inconsciente é um tanto pusilânime, ou seja, pouco alcança a lembrança no despertar e, se o faz, é sempre confuso e irrelevante. Além disso, compreendemos os sonhos como manifestações do esquecimento — vivencias que foram abraçadas pelo oblívio, mas que nunca se perderam de nossas psiques. Quando nos lembramos delas, no entanto, a memória-de-oblívio já está refiltrada, isto é, mascarada para que seja possível alcançar a psique. Em outras palavras, o que sonhamos é um filtro da verdade de nossas lembranças ocultas. Então, com meus olhos selados pela modorra, posso jurar que aquilo que tomou conta de meu plano onírico não foi uma singela manifestação inconsciente e, do tanto que me recordo, a revelação sonial — pois que de “sonho” me recuso a chamar — parecera-me muito mais um pedaço de uma realidade multiforme e paralela àquela em que eu estava.
Iniciou-se com a cena do meu aposento, na Mansão Negra. Eu via Ahzaez deixar o quarto tal como já descrito; com a porta aberta, seus passos foram se distanciando pelo corredor. Todavia, ao contrário do que de fato fiz, — creio eu ter feito, mas, durante o sonho, a lucidez das imagens era tão vívida que jurei ter voltado ao passado e refeito tudo o que ocorrera a partir dali — na agoníria levantei-me em quietude, olhei pelo corredor e vi Ahzaez adentrar seu aposento. A fresta de sua porta reluzia um trêmulo e quente lume vindo das velas quais ele, eu assimilei, acendera no cômodo. Caminhei descalça, sentido aos seus umbrais e, ao chegar, fitei de soslaio a fissura e o observei despir-se de suas roupas negras, devagar. Em seu dorso sangrava um grande símbolo similar a um “Y”, como se tivesse sido rasgado em sua pele. Seu corpo era como uma estátua de mármore, esculpida em perfeição e força; seu aroma viril conduzira meu olfato com suavidade concupiscente, de modo que fiquei ainda mais concentrada àquela fresta, como se estivesse obcecada em lascívia. Em contrapartida, o odor de sangue anojava, aturdindo a mente. Assim vi que sua mão esquerda, segurando um conta-gotas, lhe vertia nas costas um tipo de líquido retirado de um frasco de vidro. Ahzaez pingava a solução na base de seus ombros e nuca, e ela escorria para a ferida. Sua ofegante respiração denunciava a dor.
Eu não podia parar de observá-lo. Relutava com a vontade obscura de invadir seu íntimo momento, todavia, igualmente era abraçada por um medo e uma curiosidade excitante, desenfreadas sensações que me mantinham submissa àquela tênue fresta. Então, Ahzaez virou-se. Olhando diretamente em meus olhos. Em assombro, afastei-me da porta, contudo, não evadi. Logo a notei abrir-se e a sombra do corpo de Ahzaez fez-se pelo assoalho iluminado apenas pelas velas. Quando ele surgiu entre sombras e cálidos lumes, vi a perfeição de seu torso e, nele, outra grande ferida similar a um sigilo antigo, talvez uma mescla de Ankh e o símbolo invertido da Ascendência. Sua tez suava como outrora a minha suou, ou melhor, como na realidade suou em completo espanto pelas anomalias. Diferente de mim, naquele perverso sonho lúcido, Ahzaez não expressava nenhum temor, nenhuma emoção. Portanto, era mesmo ele. Sempre incólume.
— Precisas de algo, Dama Saeeri? — Dissera, austero. Eu estava arfante, como se acometida por uma súbita falta de ar. Eu o temia e era-me difícil não observar sua ferida sangrenta, sua tez úmida, as sombras sobre toda a cena mórbida. Meu corpo não respondia à minha intenção de movimento, minha voz não espargia pelo silêncio. — Saeeri? — Murmurou, aproximando-se de mim.
— O que... houve? — Sussurrei, preocupada com a ferida, quando ele estava próximo. Senti-me impulsionada a tocar aquele símbolo, porém, tive o despertar da consciência e notei que estava sonhando; evitei minhas ações e falas, tentando modificá-las; como se eu guiasse minha própria mente, empenhando-me em convencer-me de agir diferente daquilo. Era em vão. Ahzaez olhou para meus lábios e tocou, levemente, meu braço, levando meus dedos à lesão de seu torso. Toquei-o com gentileza e Ahzaez, em grave gemido, expressou a dor horrífica que sentia, embora se contivesse em demonstrar. Meus dedos umidificaram-se pelo sangue e não me demorei tocando-o, evidentemente; era aflitivo vê-lo sofrer daquela forma. — Por que...? — Soprei somente a ele e seus olhos se aprofundaram nos meus. Seu semblante tornou-se sombrio e triste. Despertei de súbito neste átimo. Outra vez assustada, com o coração frenético. Era manhã, o alvor despontava sutil, sua luz traspassava a janela ornamental; não demorei a notar que havia vívido sangue em meus dedos.
Capítulo 2: Inquietação Profunda — A Mansão Negra
Alguns dias e noites bastante invernais se seguiram até que fui levada à Mansão Negra e…
Alguns dias e noites bastante invernais se seguiram até que fui levada à Mansão Negra e, às vinte horas, eu a vi. Imponente e obscura entre o denso arvoredo: a Mansão Negra. Passei o dia descansando em um chalé próximo e havia me impressionado com a imensidão verdinegra, dali já avistada, da floresta abissal; era de uma altura tenebrosa, ponderei como seria adentrar sua densidade e tive de fazê-lo logo depois, mesmo por um tanto simbólico, pois a mansão não ficava tão profunda no balcedo.
O cocheiro, criatura contadora de histórias, passara o dia revelando lendas locais, pois estava ocioso, porém, no caminho, ele incorporou um silêncio bizarro que eu não ousei questionar, pois que, de algum modo, eu compreendia a razão. A noite era lúgubre e insalubre; o poder da floresta Alpha Morttam — e agora não poderia chamá-la tão somente de Amorttam, pois era amedrontadora demais para ter seu nome amenizado, pois seu poder me submetia a um tremor contínuo — era coercitivo, olhá-la era amedrontador; decerto aquelas árvores alcançavam de 100 a 200 metros de altura tal como ouvi dizer por aqueles que outrora visitaram o local, tal como eu fazia naquele momento. E os sonidos, cânticos de criaturas jamais vistas, ecoavam vindos do arvoredo alto e sombrio. Tamanha era a flora perene que o ar úmido carregado sufocava em certo grau, era imponente, angustiava os pulmões. Era medonho e fascinante.
Compreendi, naquele átimo, a razão pela qual havia tantas lendas sobre aquela selva; assim como assimilei, perfeitamente, o motivo de Vonssihren proibir que pessoas explorem o local; deduzo que sua inimizade com Krvier tenha emergido daí, nos tempos ancestrais, quando a mansão fora erguida sem a concordância de Soron, adentro de Amorttam, sendo preciso derrubar algumas árvores. Soron Vonssihren sempre fora um profundo defensor da natureza e sua aguçada intuição o mantivera firme a respeito de qualquer sondagem, mínima que fosse, em quaisquer partes de Morttam. No entanto, o início dessa imponente floresta estava à minha frente; era como alcançar os pés de um titã. Era tão alta que, mesmo exausta de toda a longa viagem ininterrupta, despertei diante dela, com os olhos abertos ao máximo, para enxergar a sua silhueta negra com precisão.
Era noite, cabalística noite, e deixei o cocheiro, despedindo-me em silêncio; ele decerto estava amedrontado e eu ainda mais. A aura sombria acelerava o coração e caminhei, aflita e encantada, pela singela estrada que levava à Mansão. A cada passo, ouvia sons indescritíveis... pássaros, eu suponho... corujas? Lobos, talvez, ou uma das míticas criaturas dos contos de fadas. Grilos, cigarras, insetos e o vento que tornava aquela folhagem em uma colossal monstruosidade viva. E como era escuro! Minha candeia era um vagalume naquele labirinto índigo-anoitecido.
Se não bastasse a monumental natureza umbrífera, após uma caminhada de dez minutos, vi com uma perfeição fúnebre aquela arquitetura pontiaguda e negra, cintilante em seu negrume, pois tivera diversas partes esculpidas em obsidiana e, portanto, reluzia em um esplendor mórbido. O lugar era mesmo tenebroso; o que o amenizava eram as velas nas fenestras, pelo lado de dentro, gerando luz; embora no bruxulear das velas, tudo ao redor se tornasse sombras anormais, distorcidas, apressivas em um mistério aterrador. Nunca vi arquitetura como aquela; dizem que assim o é no império Krvieröm, mas, sinceramente, não tenho coragem alguma para deixar as terras de Sihren e enfrentar o gelo do Anti-Ártico, ainda mais após sentir a energia que emana daquela arquitetura.
Aprendi que o ceticismo pode ser um grande problema quando se pretende ir mais à fundo na existencialidade humana, então, nunca desconsiderei o que senti; diante da Mansão Negra, eu tive medo... e a atmosfera sepulcral do lugar era sinistra em um nível perturbador e, ao mesmo tempo, sutil. Havia também um odor... e compreendo que não seja possível acreditar... mas, vez ou outra, vinha-me o cheiro de sangue às narinas e, não, não era o meu sangue vertendo por razões fisiológicas; foi a primeira coisa que verifiquei quando o odor macabro se difundiu no primeiro momento.
Bati com a aldrava após retomar meu fôlego. A porta abriu-se após poucos segundos, era ornamental, ostensiva; e além de complexos ornatos volutais em obsidiana, havia arabescos em ouro puro. Assim, um homem apareceu à minha frente enquanto o silêncio mórbido dos umbrais abrindo-se afligiam-me. Ele me olhou... intensamente... como a noite faria com a manhã, se a pudesse olhar... isso me estremeceu. Apresentei-me após ajustar a voz para não evidenciar meu tênue descontrole com todo aquele lugar. O homem tinha a beleza de um anjo caído, vestia-se como um Dom, todo em tons de preto, tinha olhos claros, azuis-cinéreos, suas roupas possuíam uma elegância surreal, a qual só vi no castelo de Vonssihren — o que reafirmava a ligação dos Sttrattan com os Soberanos. Ele era alto, forte como se podia notar. Olhou-me nos olhos, íntimo por um breve instante, em silêncio. Senti-me n’um ardor sombrio e por ele fui convidada a entrar a partir de um singelo sinal e uma reverência... ele não me tocou... e eu nunca esquecerei de seu olhar... o semblante do homem deixara-me realmente ébria, de modo diferente, mas tanto quanto aquela arquitetura e aquela mata espessa.
Não ouvi a ornamental porta se fechar, mas senti cessar a brisa gélida do arvoredo. Por dentro, a Mansão era ainda mais escura, luzidia pelos motivos já citados, e lauta. Um imenso lustre feérico de ouro, com velas negras, iluminava o salão de entrada, o qual era vazio de mobília, possuindo apenas uma belíssima alfombra jaqguar em preto e dourado e uma mesa de centro, em atro cedro — servindo para o apoio de dois cântaros de ouro e uma estátua de uma criatura horrenda, que eu diria ser uma gárgula, contudo, dentro de um cômodo? Não fazia sentido. Vi alguns pilares de sustentação da arquitetura; meia dúzia de portas ao derredor, duas grandiosas escadas para o andar superior. E mais portas.
— É um prazer conhecê-la, Dama Heigger. — Proferiu o homem, sua voz assemelhava-se ao vaporoso ar soturno daquela mansão e seu olhar me invadira mais ainda. Ele caminhava, eu o seguia. Antes que eu o questionasse sobre seu nome, fomos interrompidos pelo mordomo Ertthan que logo recolheu minhas malas, levando-as pela escada imponente. — Sou Ahzaez Sttrattan — Disse, próximo. Ahzaez era-me familiar. Seu rosto era esguio, contudo, seu porte era robusto; suas olheiras eram fundas, embora amainassem no tom de sua pele, como se realçassem sua beleza demoníaca. O que me incomodava era o olhar, a expressão de seu semblante, a qual já mencionei. — Ehllenor virá em breve. — Anunciou assim que adentramos aos umbrais de um dos aposentos. Vi uma lareira acesa, crepitava contra o silêncio; era uma sala confortável, diferente dos poucos outros lugares que andejei por ali. — Fique à vontade. — Ahzaez fechara a porta após se despedir; sorrira pela educação, no entanto, não pude fazer o mesmo, pois, o seu sorriso era ainda mais lutuoso do que sua face soturna; isso trouxera-me uma imediata turvação.
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Sozinha, observei o cômodo, mas sem objetivos; apenas olhei. De toda a mobília de igual luxo como o restante da Mansão, e entre todo o mobiliário escuro como a noite, um item em especial reluzira aos meus olhos e, dele, me aproximei. Era pequeno o suficiente para que eu pudesse segurá-lo, porém, grande o suficiente para que eu hesitasse em mantê-lo erguido com apenas uma de minhas mãos — embora fosse possível. Diferente do que vi, este objeto não era de ouro ou obsidiana; era de Sirenniha e pesava, o que me levou a crer que era pura. Tinha a forma de uma libélula, parecia haver algo em suas asas, lapidados como letras ancestrais de alguma linguagem antiga; Soron Vonssihren sempre apreciou o estudo da linguagem e escrita; porventura — deduzi — fosse um objeto dado por ele.
— Li’ibelum... — Ouvi e, de súbito, quebrando o silêncio, assombrei-me olhando rapidamente em direção à voz feminina. Vi, com o coração frenético, uma mulher cuja aparência indicava que ela possuía uma idade semelhante à minha. Usava um belo vestido vitoriano, tal como o meu, no entanto, o seu era de um preto brilhante e tinha, sobre ele, um chambre de renda negrume e aveludada. Seus cabelos ondulados estavam soltos, mas algumas mechas curvas se prendiam para trás das orelhas. Seus olhos eram azuis-cinéreos e, nas trevas daquela sala, ficavam ainda mais claros. Seu rosto era gentil e expressava-se em uma fisionomia de apreensão. — Dada por Vonssihren. — Dissera. — Perdoa-me por assustá-la. Sou-me Ehllenor. — Ela estendeu-me sua mão para um cumprimento formal.
— As portas são bem silenciosas aqui. — Expressei, colocando a libélula de volta em seu devido recôndito. Ehllenor sorriu, no entanto, não parecia feliz.
— Sim... todas elas... é algo feito por... tu sabes quem. E se há alguém que sabe o motivo, este é, decerto, apenas ele. — Lamuriou, sentando-se em uma das poltronas próximas da lareira.
— O que é Li’ibelum? — Inquiri por uma curiosidade imaculada. A Dama pediu-me para levar o artefato até ela e, assim que lhe dei o objeto, sentei-me na poltrona ao lado.
— Soron é um verdadeiro Soberano, não é? — Dissera enquanto afagava o artefato, olhando-o atenta. — Revelei-o sobre os pesadelos de Morgion e, então, ele me enviou este artigo único, todo lapidado em Sirenniha. — Ehllenor colocou a libélula na mesa de canto que separava nossas poltronas. — Ele disse que ela acalmaria o sono do pequeno, no entanto, agora que tu estás aqui, creio que seja importante que vejas o que acontece com ele e saibas da seus pesadelos cruéis.
— Li’ibelum fora útil? — Questionei em busca de compreensão acerca de suas crenças. Ehllenor sorriu em uma tristeza fidagal. — Chegara hoje no entardecer... — Silenciamos. — Estás exausta, acredito, preferirás conhecer Morgion amanhã... — Afirmara. Entendi o seu desejo e a respondi como devia, mesmo estando, de fato, exausta.
— Estou pronta para conhecê-lo, senhorita Ehllenor. — Ela suspirou e tal suspiro fora, ao que me parecia, o máximo de gáudio que ela poderia sentir.
Fui levada por Ehllenor até o quarto do jovem Morgion, uma criança cuja face não deveria nutrir tamanha angústia; seus olhos eram como covas, sua tristura era uma morbidez vívida, como se houvesse a presença fúnebre do horror sobre seus ombros infantis. Ainda assim, abraçara-me com afável cortesia proferindo que eu o salvaria “dele”. Embora fosse já tarde da noite, notei que Ehllenor e Morgion estavam despertos e esperançosos; guardavam, dentro de seus peitos amedrontados, toda uma narrativa que se retinha principalmente em suas gargantas. Eu não poderia adormecer tranquila sabendo que, por mais uma lôbrega noite, eles teriam que guardar essa dor encarcerada nas entranhas. Então eu o questionei.
— Ele quem? — A fatídica pergunta. Buscarei transcrever a exata descrição da criança, com todo o lúdico pertencente à sua essência infantil e, em razão disto, o trecho de sua narrativa estará em itálico, para se destacar daquilo que redijo, intercalando com a minha análise entre os íntegros trechos.
Morgion descrevera uma criatura humanoide, com duas bocas e dentes afiados; de corpo retorcido e forte, “sua pele era como tendões com lacunas entre eles”; não tinha olhos e suas mãos eram coladas em seu corpo, retorciam-se junto; “correntes saíam de dentro de sua carne” fazendo um tinido espectral, “disforme e medonho”. Aparecera no sonho em que Morgion caminhava por Vonssihren, onde gostava de ir ao visitar a capital; o parque do lago onde um cisne o levava a passear. Então, “eu o avistei próximo das palmeiras que estavam maiores e, visivelmente, mortas... uma névoa cobria tudo... e ele se contorcia em minha direção... murmurava meu nome e eu sentia dor de medo”. A dor, ele contara, era real e intensa, o que tornara tudo mais horrível; em certo momento, um sonido execrável espargiu das bocas da criatura que, pouco a pouco, se aproximava do cisne qual Morgion estava; o animal não respondeu bem à aproximação e começou a se agitar, batendo suas asas nas águas “que se tornaram sangue negro”.
Explorando com indagações cuidadosas, descobri que Morgion não era uma criança cujos pais liam histórias de terror — embora a Mansão Negra soasse-me como um horror por si só; tampouco ouvira algo, nos últimos tempos, a respeito de criaturas grotescas. Preocupei-me mais com o lago de sangue negro, ainda que a criatura fosse descrita como “perturbadora e ameaçadora, sendo que a cada vez que se aproximava de mim, meu coração acelerava e eu sentia que poderia morrer”. N'um dos sonhos anteriores, o primeiro qual resultou na carta de Ehllenor, o menino fora acometido por uma paralisia de agoníria, isto é, sonhou que havia acordado, levantou-se de sua cama e caminhou à antessala até ser surpreendido pelo mesmo ser feito de tensões e pele putrefata, no final do saguão, movimentando-se lentamente, contorcendo-se e grunhindo enquanto se aproximava do petiz que estremecia de medo — uma vez que a criatura era muito alta, fétida e carregava essas correntes que ecoavam um sonido metálico fantasmagórico. O menino despertou ensanguentado, tivera seus dois pulsos mordidos pela criatura, embora, na realidade, estivesse preso a espinhos n’um arbusto do jardim. Nunca ouvi um relato de sonho tão lúcido e esmiuçado. Morgion ficou preso, não conseguia se mover conforme a entidade o devorava. Ele viu de perto “o sangue e minha pele dilacerando nas presas da coisa inumana”. Então, desperto aos gritos de sua mãe, o menino saiu do transe no exato instante em que a coisa devorou as mãos do garoto. “Eu... senti a dor, senhorita” — murmurara com pesar.
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Deixamo-lo no quarto logo após alguns diálogos, senti que a atmosfera densificada em razão das descrições tão vívidas e, para não incentivar ainda mais a sua mente infantil, pedi para que descansasse. Ehllenor ordenou que uma de suas amas acompanhasse o garoto por um tempo, para que ela pudesse me levar até meus aposentos. Enquanto caminhávamos, notei diversos quadros nas paredes do passadiço principal, o mesmo qual Morgion vira a criatura pela primeira vez. Era uma passagem mais estreita do que costumam ser e as dezenas de molduras possuíam pinturas do que deduzi serem a linhagem Sttrattam. Indaguei Ehllenor sobre a imagem que possuía uma mulher, símil a ela, porém muito mais jovem. A resposta fora previsível. Tratava-se de Lilith Sttrattan em seus dezoito anos de idade. Minha questão adviera por um motivo. A partir de Lilith, todas as gerações seguintes eram retratas usando roupas negras, tal como Ehllenor, Morgion e Ahzaez usavam. Esclarecera-me Ehllenor que todos os retratos estavam em ordem geracional. Uma coisa peculiar que também pude notar: algumas pessoas tinham olhos estranhos, com olhar vago, e rostos cheios, como se inchados.
— Noto a mudança da cor... dos tecidos... — Proferi com a intenção de sondar um pouco mais a história da família. Ehllenor ficara em silêncio.
Chegamos ao quarto, fui orientada sobre os horários e instruída a acordar para o desjejum pontualmente, para que eu pudesse conhecer Dama Lilith cuja rotina era bastante severa. Compreendi todas as circunstâncias e adentrei ao meu cômodo, vedando-me para o lado de dentro. O silêncio absurdo da porta era agoniante. No entanto, o quarto possuía sua dose de conforto, ainda que escuro e negro; tudo era envolto por uma riqueza única. Havia alguns retratos sobre a cômoda onde resguardei meus pertences, observei alguns dos rostos. Vi um vaso com uma espécie de planta cujas folhas eram no mesmo tom de tudo o que ali residia. À janela, a expansão terrífica de Amorttam e a lua minguante que logo daria lugar à escuridão perpétua do universo. Despi-me e escolhi um damanoute branco, confesso que com o propósito, ao menos para efeito emocional e mental, de não me sentir pertencente àquele lugar. Assim, adormeci, entre o veludo negro e com a exaustão que, naquele instante, era ainda mais violenta.
Capítulo 1: Um Sopro de Pressa — A Mansão Negra
O perfume dos lihrios de ébano serena meu coração desde então; por muito quando as visões…
O perfume dos lihrios de ébano serena meu coração desde então; por muito quando as visões daqueles momentos perturbam a minha memória, recorro à essência vestal de suas pétalas lutuosas e vejo o pólen laranjim manchar-me o cimo de meu nariz. Colho-os sempre n’aurora e descanso seus caules n’água fria, adoçada com stevia; costumo escolher um cântaro de cerâmica... deixo-o ao lado de minha Vërmanen. E escrevo. Para tirar esses vis numes que murmuram presos em minh’alma... murmuram tal como lamuria o lôbrego jardim da Mansão Negra, onde vi, naquele primeiro dia, a sublimidade dos galhos das paineiras se esgueirando secos entre si, criando um emaranhado assombroso junto aos cedros mirrados pela seca do outono, entretanto, havia mais.
Enquanto sussurrava o inverno de Nottsoen, gemia a mastodôntica floresta de Amorttam onde os mognos, com suas folhas perenes, poderiam ressoar a verdejante esperança, porém, junto com outras espécies da mata, tudo apenas amedrontava. Em contraste com a morte das decíduas do jardim, a floresta de Amorttam era profunda e frondosa — e ainda é. Posso dizer que o mesmo acontece em todos os períodos sazonais, até quando, na primavera, os Ipês florescem e as orquídeas se multiplicam. Por infortúnio, ou não, estive aos pés de Amorttam, pela primeira vez, no fim do inverno, no mês da escuridão perpétua e, por fatídico destino, no mês das duas luas novas. O inverno d’este lugar traz a névoa que sempre se concentra e a molúria que se esparge mórbida e silente, como se domadas pela Mansão Negra.
A Mansão Negra fora erguida no ano cinquenta, por Damon Krvier, o Soberano do Império Krvieröm. Esta é a única relíquia que ele deixara nas terras de Sihren. Em algum momento, a Mansão tornou-se o Lar de uma família que, até então, eu compreendia como, tão somente, uma família peculiar: a Família Sttrattan. A razão — a que me fora explicada pelos conhecedores menos distantes da população local e, em especial, dos Sttrattan — pela qual decidiram por habitar a Mansão Negra, estava ligada intimamente à admiração de Dama Lilith Sttrattan pela arquitetura fascinante do local e pelo habitat que o envolvia. O Soberano do Império Sihren, Dom Soron Vonssihren, proibiu que a Mansão Negra fosse habitada por quaisquer pessoas desde que Damon Krvier deixara Sihren. Por razões obscuras, foi permitido que a Família Sttrattan tomasse posse do lugar.
O povo Sirehnian fomentava suas lendas; alastrava suas pressuposições — dentre elas havia uma que se destacava. Muitos acreditavam que a Dama Lilith Sttrattan tivera um envolvimento com o Soberano Damon Krvier e, sendo uma verdade incontestável a imortalidade dos Soberanos, Dom Vonssihren teria permitido que Lilith ficasse na Mansão Negra para impedir que o local se tornasse um umbral ou totem para Damon — dado que, supostamente, ele estaria envolvido com coisas ocultas. Lilith, por sua vez, em profunda mágoa por ter sido enganada por Krvier, teria jurado a Vonssihren que sua família manteria a Mansão Negra protegida da manipulação diabólica do Soberano inimigo. Sendo assim, teriam selado um acordo e, desde então, os Sttrattan mantiveram a jura primeva. Se isso é verdade, eu não sabia; o mistério era denso como a morte e eu sequer imaginava que os rumores terríficos eram, na verdade, brandos ao extremo se comparados àquilo que viria ao meu encontro durante minha estadia.
As bizarrices da Mansão Negra começaram a ser compartilhadas pelas histórias narradas e escritas ao longo dos anos desde que, com a moradia habitada, pessoas passaram a visitar a residência, tais como jardineiros, professores de música e dança que davam aulas particulares para os filhos Sttrattan; vendedores, cuidadores, entre outros serviços contratados pela família. De vultos pelos corredores à sussurros mórbidos pelo jardim. A Mansão era, decerto, alvo de alguma força oculta e se eu não tivesse passado tantas noites em suas entranhas, continuaria cética a respeito das fábulas e, com toda a certeza, estas palavras não estariam sendo escritas agora.
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Há dez anos, em um dos mais mórbidos invernos que passei, fui chamada à Mansão Negra pela filha mais velha dos Sttrattan, senhorita Ehllenor. De acordo com o que conversáramos por cartas, Ehllenor temia que seu filho de nove anos, Morgion, estivesse passando por algum problema de caráter emocional ou mental, pois, a criança tinha grandiosas crises noturnas durante o sono e, por vezes, passava pela experiência de sonambulismo e agoníria ao mesmo tempo, o que em perigo o colocava quase todas as vezes. Compreendi sua aflição, em especial, n’uma das cartas que fora escrita e entregue uma semana antes de minha partida de Numnura para os limiares de Amorttam; nesta missiva — parte disponível na íntegra —, Ehllenor revelara uma coisa pertinente e bastante assombrosa.
Para Saeeri Heigger
De Ehllenor Strattan Vvelusch
20 de Selenoor, 349
Caríssima Saeeri, escrevo-te antes do previsto, pois, algo perturbador ocorrera na noite passada. Perdoa-me pelas alarmantes palavras que, com infortúnio, usarei neste soturno papel, pois, tamanha fora a minha aflição que não posso poupá-las para te descrever a verdade. Adianto, sobremaneira, que implorarei, em todas as linhas, que antecipes tua vinda à Amorttam para que possas, com o teu conhecimento sobre a psique humana, ajudar-me a guiar, da melhor forma, o meu pequeno Morgion. Por favor, minha querida, sabes o quanto sofre uma mãe cujo coração pertence a um Corvo-dos-mares; o pai do meu pequeno lume raramente está presente e isso decerto o afeta. Embora eu o compreenda em seu ofício para com o Soberano Vonssihren, dói-me que ele tenha que ficar distante por longos períodos, inda mais quando tudo parece sair do meu controle. Compreendo, igualmente, que deixar Numnura e viajar por inúmeros dias até Amorttam será sofrível, no entanto, disponibilizo a ti tudo o que é necessário. Inclusive, neste envelope estão três Siremihtas, isso deverá ser suficiente para que viajes com conforto e segurança.
Peço, com profunda súplica, que escrevas para mim antes de tua partida — a qual espero que seja emergente, ao tardar da manhã em que esta missiva te for entregue; deste modo, poderei monitorar o tempo da tua vinda e, reforço, que não te distraias pelo caminho; prometo proporcionar-te um retorno mais sereno após a tua estadia e, então, poderás usufruir das paisagens ao longo de Sihren e de todas as singelas províncias cuja cultura é única e as histórias surpreendem. Esclareço que tais Siremihtas antecipadas não estão vinculadas ao valor do teu ofício, são à parte, para que consideres a prioridade dos teus próximos dias de Nottsoen e não se demore para aprontar tuas malas. Perdoa-me o desespero e insistência, creio que, agora, seja de exímia importância lhe revelar o último ocorrido com Morgion, meu menino. Leia com atenção, caríssima; rogo-te.
Estávamos adormecidos, beirava à hora lôbrega, como o costume que tu bem conheces em razão de minhas cartas anteriores; estava frio como um manto de morte quando despertei assustada, ouvindo Morgion lamuriar em sua cama. Fiz o que a senhorita recomendara, não o acordei para que o episódio não o causasse traumas e sofrimento; todavia, eu o via, ó sim, sua expressão era extremamente assustadora, senhorita; era um rosto que, ouso escrever-te, não era o de meu pequeno. Sorria um sorriso glacial e oblíquo, seus olhos abertos e arregalados evidenciavam suas retinas que tremiam e vageavam como se acompanhassem cenas assustadoras; nunca ouvi falar sobre ser isso possível; por vezes sumiam, mantendo apenas a esclera nívea e horrenda. Sua tez empalidecida assimilava-se quase hialina, além de úmida de um suor gélido inenarrável. Ele lamuriava dezenas de frases mórbidas e, quando o toquei em sua fronte, com um pano aquecido, pois temi que se tratasse de estado febril, ele se assentou à cama quieto — pensei que se levantaria para caminhar à esmo, como nos dias antecessores, porém, movimentou-se estranhamente, olhando-me com suas escleras... quão atro, minha querida... arrepiei-me de imediato e o ouvi sussurrar o inaudível quando, súbito como um relâmpago, ele me atacou, n’uma inominável rapidez, na tentativa de morder-me o pescoço.
Saeeri, não sei como proferir o verdadeiro medo que senti... decerto sabes das lendas percorridas pelos quatro quantos de Sihren a respeito desta Mansão; não creio que seja real, no entanto, desde que nos hospedamos aqui para que a solidão de meu amado Atos não nos impactasse em demasia, Morgion tem vivenciado o mais horrífico e não vejo saída que não seja rogar às quaisquer boas entidades sobre-humanas, para que possam purificar este mausoléu. Não me recordo de vivenciar tamanhos horrores quando cá vivi na tenra infância, por mais escuros que fossem esses corredores; e agora vejo todos os mais terríficos horrores amargurarem a infância de meu menino. Sua feição diabólica não deixa minha mente e, agora, eu é que sofro dos pesadelos mais ensandecidos. Tive de fazer algo por Morgion naquele momento, compreende? Mesmo debaixo de um medo abíssico, segurei os ombros do petiz e o chacoalhei bradando seu nome a ponto de ecoar por toda a Mansão pelas portas entreabertas. Mamãe despertara, todavia, ao chegar ao aposento em que estávamos, com seu singelo castiçal, Morgion já havia saído do transe e chorava de soluçar, pobre pequeno, tão puro, tão atormentado em pânico.
Ehllenor descrevera um estado de sono profundo, onde os olhos movimentam-se de acordo com os sonhos e o corpo é canalizado para o torpor muscular. Algo comum nos estudos soniais e neurológicos; entretanto, era evidente o distúrbio e assombrosas as descrições acerca da face da criança; pude supor ser um sonambulismo catatônico ou, porventura, a patologia da condição patológica. Professor Nehri nomeara, a posteriori, o episódio de “agoníria túrbida com prosopagnosia estúrdia” quando lhe contei a respeito do caso em uma troca de missivas.
Não possuindo acesso ao paciente, era inviável dar diagnósticos, no entanto, indiscutível deduzir algumas possibilidades. Diante à missiva escrita por Ehllenor, lembrei-me de Maelli Vonssihren, nossa Mestra nos estudos psíquicos, suas palavras imersas por uma sabedoria única diziam: “A respeito da mente, toda a dedução é uma verdade em algum grau e todo o estudo é apenas um início, seja hoje ou daqui a milhões de anos”. Explorar a mente requer lucidez e um pouco de loucura. Evidente que preparei minha partida no mesmo dia, escrevi-a como solicitado e vi-me no primeiro trem para Amorttam antes do anoitecer.
Silêncio — Uma Fábula
“Escuta-me”, disse o Demônio, pousando sua mão sobre minha cabeça. “A terra de que te falo é uma terra lúgubre na Líbia…”
“Os pináculos das montanhas entorpecem-se;
vales, penhascos, e cavernas imergem no silêncio.” — Álcman
“Escuta-me”, disse o Demônio, pousando sua mão sobre minha cabeça.
“A terra de que te falo é uma terra lúgubre na Líbia, às margens do rio Zaire. E ali, não há quietude… nem silêncio.”
“As águas do rio possuem uma tonalidade doentia de açafrão; e não fluem rumo ao mar, mas palpitam para sempre — para sempre — sob o olho rubro do sol, em um movimento tumultuoso e convulsivo. Por incontáveis milhas, de cada lado do leito viscoso do rio, estende-se um pálido deserto de nenúfares gigantescos. Eles suspiram uns para os outros naquela solidão; estendem para o alto seus longos e espectrais pescoços; e balançam suas cabeças eternas de um lado para o outro. E há um murmúrio indistinto que emerge do meio deles, como o ímpeto de águas subterrâneas. E eles suspiram uns para os outros.
“Mas há uma fronteira para o seu domínio — a fronteira da floresta sombria, horrível e elevada. Ali, como as ondas ao redor das Hébridas, os arbustos rasteiros agitam-se incessantemente. Mas vento algum respira nos céus. E as altas árvores primevas balançam-se eternamente de um lado para o outro, com um som estrondoso e poderoso. E de seus altos cumes, um a um, gotejam orvalhos eternos. E junto às raízes, estranhas flores venenosas jazem, contorcendo-se em um sono perturbado. E acima, com um farfalhar áspero e clamoroso, as nuvens cinéreas precipitam-se rumo ao ocidente para sempre, até rolarem, em catarata, sobre a muralha em chamas do horizonte. Mas vento algum respira nos céus. E às margens do rio Zaire não há quietude, nem silêncio.
“Era noite, e a chuva caía; e, caindo, era chuva — mas, tendo caído, era sangue. E eu permaneci no pântano, entre os altos nenúfares — e a chuva tombava sobre minha cabeça — e os nenúfares suspiravam uns para os outros, na solenidade de sua desolação.
“E, de repente, a lua surgiu através da névoa fina e espectral, e era de cor escarlate. E meus olhos recaíram sobre uma enorme rocha cinérea que se erguia à beira do rio, resplandecendo sob o luar. E a rocha era cinérea, espectral e alta — e a rocha era cinérea. Em sua fachada havia sinais gravados na pedra; e caminhei por entre os nenúfares até chegar perto da margem, para poder ler os sinais na pedra. Mas não consegui decifrá-los. E eu estava voltando para o palude, quando a lua cintilou com um escarlate ainda mais pungente; e me virei, e olhei novamente para a rocha e para os sinais — e os sinais diziam: DESOLAÇÃO.
“E ergui meu olhar, e lá estava um homem no alcantil daquela rocha; e escondi-me entre os nenúfares, para poder espreitar as ações do homem. E o homem era alto e imponente, e estava envolto, dos ombros aos pés, na toga da Roma Antiga. E os contornos de sua figura eram indistintos — mas suas feições eram as de uma divindade; pois o manto da noite, da névoa, da lua e do orvalho havia deixado descoberto o semblante de seu rosto. E sua fronte erguia-se, altiva de pensamento, e seu olhar era selvagem de preocupação; e, nos poucos sulcos que lhe marcavam o rosto, li as fábulas da tristeza, do cansaço, do desgosto pela humanidade, e do anseio pela solidão.
“E o homem sentou-se sobre a rocha, apoiou a cabeça em sua mão, e contemplou a desolação. Olhou para baixo, para a vegetação rasteira e inquieta; olhou para cima, para as altas árvores primevas; olhou mais acima, para o céu farfalhante, e para a lua escarlate. E eu me deitei, abrigado entre os nenúfares, e observei as ações do homem. E o homem estremeceu na solidão; — mas a noite s extinguiu, e ele sentou-se sobre a rocha.
“E o homem desviou a atenção do céu e contemplou o lúgubre rio Zaire, as águas áureas e espectrais, e as lívidas legiões de nenúfares. E o homem escutou os suspiros dos nenúfares, e o murmúrio que se erguia do meio deles. E eu me deitei dentro do meu refúgio e observei as ações do homem. E o homem estremeceu na solidão; — mas a noite se extinguiu e, ele, lá sentado sobre a rocha.
“Então desci aos recessos do palude, e caminhei para longe através da vastidão dos nenúfares, e chamei os hipopótamos que viviam entre os pântanos, nos recessos do palude. E os hipopótamos ouviram meu chamado, e vieram, junto com o beemote, até o pé da rocha, e rugiram de maneira hórrida e estridente sob a lua. E eu me deitei dentro do meu refúgio e observei as ações do homem. E o homem estremeceu na solidão; — mas a noite se extinguiu e, ele, lá sentado sobre a rocha.
“Então amaldiçoei os elementos com a maldição da balbúrdia; e uma tempestade mórbida se formou no céu onde, antes, vento algum soprava. E o céu ficou lívido com a violência da tempestade — e as pancadas de chuva caíram na cabeça do homem — e as águas do rio desceram — e o rio em tormenta espumosa — e os nenúfares na sínfora de seus leitos — e a floresta cedeu diante do vento — e o trovão rompeu — e o relâmpago ruiu — e a rocha oscilou até seus fulcros. E eu me deitei em meu refúgio e observei as ações do homem. E o homem tremeu na solidão; — mas a noite se extinguiu e, ele, lá sentado sobre a rocha.
“Então me cingi em cólera e amaldiçoei, com a maldição do silêncio, o rio, os nenúfares, o vento, a floresta, o céu, o trovão e os suspiros dos nenúfares. E eles se tornaram amaldiçoados e amansaram-se. E a lua cessou de ascender, vacilante, em seu caminho para o céu — e o trovão arrefeceu — e o relâmpago não mais cintilou — e as nuvens pairaram imóveis — e as águas afundaram até seu nível e repousaram — e as árvores cessaram de balançar — e os nenúfares não suspiraram mais — e o murmúrio não foi mais ouvido entre eles, nem qualquer sombra de som por todo o vasto deserto ilimitado. E olhei para os sinais gravados na rocha, e eles haviam mudado; — e os sinais diziam: SILÊNCIO.
“E meus olhos recaíram sobre o semblante do homem, e seu semblante estava lívido de horror. E, célere, ele ergueu a cabeça da mão onde se apoiava, pôs-se de pé sobre a rocha e escutou. Mas nenhuma voz ressoou em todo o vasto e ilimitado deserto, e os sinais na rocha eram: SILÊNCIO. E o homem estremeceu, virou o rosto e fugiu para longe, às pressas, de modo que não mais o vi.”
Ora, há belas histórias nos volumes dos Magos — nos volumes melancólicos e encadernados em ferro dos Magos. Neles, digo, repousam histórias gloriosas do Céu, da Terra e do poderoso mar — e dos Gênios que governavam o mar, a terra e o sublime firmamento. Havia também muita sabedoria nos ditos das Sibilas; e coisas sagradas, sagradas, eram ouvidas outrora pelas folhas sombrias que tremulavam ao redor de Dodona — mas, como Alá vive, aquela fábula que o Demônio me contou enquanto se sentava ao meu lado, à sombra do túmulo, considero-a a mais maravilhosa de todas! E quando o Demônio concluiu sua história, tombou de volta para a cavidade do túmulo e riu. E eu não pude rir com o Demônio, e ele me amaldiçoou porque eu não conseguia rir. E o lince, que habita eternamente no túmulo, saiu de lá, deitou-se aos pés do Demônio e olhou-o fixamente no rosto.
As maldades humanas me enojam. Meu corpo é afetado fisiologicamente quando quaisquer injustiças são presenciadas por meus olhos. Não consigo conceber a ignorância…