Poesias, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Existencial Sahra Melihssa

Mal Devenir

Aflitos estão, mergulhados n'ausência | dormindo no véu do sonhar nebuloso | guiando o viver na ilusão-reticência, | cativos, em vão, do torpor deleitoso…

 

Salvator Rosa ( 1615-1673 ) - L'Umana Fragilità

 

Aflitos estão, mergulhados n’ausência
dormindo no véu do sonhar nebuloso
guiando o viver na ilusão-reticência,
cativos, em vão, do torpor deleitoso;

As flores do alvor, em licor escarlate,
respingam sinais, menosprezam-nas, tolos…
Semblante vital d’um triste calafate
vedando, tão só, p’ra sorver desconsolos…

São eles os quais, pertencentes ao mundo,
respiram, fiéis, decadência vestal,
e vão sucumbir em valores, no fundo,
repletos de fel… no vazio imortal.


Leia mais
Poesias, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Existencial Sahra Melihssa

Efígies

Teimosia de luto, calada | fundamenta somente o vazio… | eu vislumbro o silêncio, nevada, | na pureza da ausência de brio; | Na paisagem que fúnebre canta…

Teimosia de luto, calada
fundamenta somente o vazio…
eu vislumbro o silêncio, nevada,
na pureza da ausência de brio;

Na paisagem que fúnebre canta,
questionando me vejo, confusa,
de quem é a tragédia, a manta
sobre o corpo debaixo da musa?

Mas por vezes o escuro cintila…
Nada vejo ou escuto, ventila,
o perfume de areia, de morte;

A permuta das almas murmura:
“Condenada no ciclo d’agrura
habitando-se em dores-consorte”.

Leia mais
Poesias, Solidão, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Solidão, Existencial Sahra Melihssa

Regressão Lastimosa

Solidão, com perpétuas ternuras, | adentrando silente, prostrada, | simulando que sempre, funduras, | estivera presente, deixada; | Por constantes desejos estive…

 

Edvard Munch - Nude (1913)

 

Solidão, com perpétuas ternuras,
adentrando silente, prostrada,
simulando que sempre, funduras,
estivera presente, deixada;

Por constantes desejos estive
esforçando-me como nutriz…
esculpindo morada, sustive,
um sentido: fazê-la feliz;

Entretanto se vai, sobremodo,
ausentando-se neste seu modo
e voltando depois, com tristuras…

Quem me dera sentir que pertence,
que comigo, perene, mantém-se,
sem deixar fraquejar estruturas.

Leia mais
Poesias, Tristeza Sahra Melihssa Poesias, Tristeza Sahra Melihssa

Lancinura

sinto mundos febris, | sinto imenso e agudo | dor no peito, amiúdo: | meus plangores ardis… | sentimento-agonia, | sinto tanta torrente | que se verte, cadente, | a ilusão de euforia…

Francesco Hayez (1791–1882) - Mary Magdalene as a hermit (1833) DETALHE

sinto mundos febris,
sinto imenso e agudo
dor no peito, amiúdo:
meus plangores ardis…

sentimento-agonia,
sinto tanta torrente
que se verte, cadente,
a ilusão de euforia…

sinto muito e pressinto:
decadência e martírio
penumbral sentinela;

aqui dentro, distinto…
se me fosse um delírio
não teria sequela.

5 de janeiro de 2021

“Lancinura” é uma palavra criada por mim para representar a sensação que atravessa os metros d’este Soneto. Significa o mesmo que “Lancinante”, contudo o termo ascende-se às profundezas do âmago pela vogal “U” mais grave que se estende por maior tempo. Além disso, “nura” faz referência ao termo “nullus” que em latim significa “nada” ou “coisa alguma”; isso porque sentir muito é olhar para o abismo do ser — o Nada que nos constitui — e que pulsa continuamente.

Leia mais
Poesias, Mágoas Sahra Melihssa Poesias, Mágoas Sahra Melihssa

Intermúndio

Eclipsar esta sujeição tu pretendes? | Ilusão de que na prece te acalmarás | Da nulidade perpétua que entendes | Ser a única entidade que amarás? | Dê-lhe o corpo viril que te ascendes…

 

Roberto Ferri, Vanitas (2014)

 

Eclipsar esta sujeição tu pretendes?
Ilusão de que na prece te acalmarás
Da nulidade perpétua que entendes
Ser a única entidade que amarás?

Dê-lhe o corpo viril que te ascendes
Projete o ego virtuoso que te falta
Luz negrume no espírito acendes
Ao passo que a guilhotina se solta;

Obsessão ao tal calvário venéreo
Qual morres para que seja etéreo
Às mãos da escuridão tão dura

Retinas ao humano cerne contido
Apática às argúcias do sentido
Carícia mórbida em brandura.

Leia mais
Poesias, Coração Partido Sahra Melihssa Poesias, Coração Partido Sahra Melihssa

Nihilen

Amor… guardarás algo dos momentos? | Das tenras amarguras que criamos | Às loucas vãs mentiras que contamos | Meu rosto trará amenos fragmentos?…

 

Stephen Mackey - Meniscus

 

Amor… guardarás algo dos momentos?
Das tenras amarguras que criamos
Às loucas vãs mentiras que contamos
Meu rosto trará amenos fragmentos?

Querido… vês o abismo melancólico?
O pranto rarefeito e tão contínuo?
Por quanto fingiremos o imo ingénuo
Temendo um só futuro não bucólico?

Já não sei o que te escrevo n’esta estrofe
E odeio tua falsa e vítrea apóstrofe
Ao meu discurso fraco, inexistente…

Do vinho o sangue cálido te escarra!
Do escarro o vinho cálido se esbarra
No oculto verso, um grito inconsciente.

Leia mais
Poesias, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Existencial Sahra Melihssa

Soneto d’Enfaro

Por mais que eu tanto insista na tendência | Debaixo das possíveis esperanças | Dezembro é-me d'angústia as alianças | Firmando um casamento por clemência…

 

Mateo Cerezo the Younger - Magdalena (17th century)

 

Por mais que eu tanto insista na tendência
Debaixo das possíveis esperanças
Dezembro é-me d’angústia as alianças
Firmando um casamento por clemência;

Perdão senhores, santos, cada fé;
Estou refém dos pobres pensamentos
Culpados são, pois, trazem tal maré
À vista d’um horror por sacramentos;

Qu’estejam crendo, não vou me importar
Eu mesma invejo o vosso atenuar
Às cousas abismais d’esta existência;

Sucumbam aos anfêmeros afagos
Das rasas mãos do tempo, truques vagos,
Pois nada disso afasta a decadência.

Leia mais
Poesias, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Existencial Sahra Melihssa

Elucubração

Mesmo estando ainda exausta | Prezo ao exílio próprio de mim | Prostrada ao cavar d’esta crusta | À angústia do abismo carmim; | Às veras dos sonhos devastados…

 

Daniel Murtagh - Kate

 

Mesmo estando ainda exausta
Prezo ao exílio próprio de mim
Prostrada ao cavar d’esta crusta
À angústia do abismo carmim;

Às veras dos sonhos devastados,
Sentidos ergueram-se a sorrir
Com seus rostos transfigurados
Por tal melancolia em vil devir;

Assim se foram os elos puros
E da música só a lira aos escuros
Sepultou-se em seus tristes versos,

Fenecido está agora o afã tolo,
Ah… se me servissem de consolo
Os lânguidos restos submersos.

Leia mais
Poesias, Amor Sahra Melihssa Poesias, Amor Sahra Melihssa

Phainesthai

Limiares d’uma vasta imensidão | Indagações à vida, impertinentes, | Traços de indolência em infusão | Alegorias aquém, inconscientes…

Edelfelt, Albert (1854-1905) - Playing the piano

Limiares d’uma vasta imensidão
Indagações à vida, impertinentes,
Traços de indolência em infusão
Alegorias aquém, inconscientes;

Que tudo, se noite, quer fulgor
Eles volvem aos brandos ninhos
Lares que amenizam rubra dor
Compreensão do fruto do alinho;

Mesmo qu’inda vagante e infeliz
O velar paternal à fundura-cicatriz
Arroga-se do imortal pertencimento,

Assim, sendo, acolho-me quente
Ao destemor do luzir benevolente
Berço inócuo d’inabalável alento.

Leia mais
Poesias, Coração Partido Sahra Melihssa Poesias, Coração Partido Sahra Melihssa

Enquanto Dormes

A morada do austero pranto \ é o desaguar que recidivo | indaga-te pravo e ablativo: | “Vais desejá-la se a água-manto | cobri-la o rosto em pálida ternura?…

 

Le Buveur d'absinthe  -   Edouard Manet -  cerca de 1859

 

A morada do austero pranto
é o desaguar que recidivo
indaga-te pravo e ablativo:
“Vais desejá-la se a água-manto
cobri-la o rosto em pálida ternura?
Hás de vestir tua lúbrica bravura
no jazer da flor de teu encanto?”
Sim, que o residir do vil lamento
frente à omissão em pigmento
é a mancha do imo-amianto
que planeias dar à combustão
sepultando, em úmido chão,
um sentimento sacrossanto.

Leia mais
Poesias, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Existencial Sahra Melihssa

Modernidade

Bem longe no horizonte está minha alma | Sozinha vê todo este pranto ardente | Que transparente desce ao rosto quente | E ecoa langor triste à flora e fauna; | O mundo não é…

Jonelle Summerfield

Bem longe no horizonte está minha alma
Sozinha vê todo este pranto ardente
Que transparente desce ao rosto quente
E ecoa langor triste à flora e fauna;

O mundo não é mesmo como outrora
Nos sonhos de um talvez tanto ideal
No fim nos cobre em máscara vital
Que feita de mentiras nunca chora;

Tomamos nos cristais o vinho-escárnio
Jurando amores ao morto licórnio
À sombra d'uma infância sepultada

Caímos ébrios sobre nossa inglória
Uivando o que por dentro traz memória
Da amarga solidão fundamentada.



Leia mais
Poesias, Natureza Sahra Melihssa Poesias, Natureza Sahra Melihssa

Avis Rara

Colibri, Cântico noturno, Rubi d’ouro soturno, Trove p’ra mim…Colibri, Aos meus umbrais, Tardio n’alma jamais, Inverno de mim;…

 

Orchid and Hummingbird - Martin Johnson Headeca. 1885

 

Colibri,
Cântico noturno,
Rubi d’ouro soturno,
Trove p’ra mim…

Colibri,
Aos meus umbrais,
Tardio n’alma jamais,
Inverno de mim;

Colibri…
Choras vagante
Sobre a flor errante
Que havia em mim;

Colibri…
A escuridão conduz
Aos lânguos teus
Que dos olhos meus
Deram-te a luz.

ó Colibri… o pranto…
De mil águas, Colibri.



Leia mais
Poesias, Natureza Sahra Melihssa Poesias, Natureza Sahra Melihssa

Contais

Ó! três flores garbosas De seis flores colhidas, Sois as mais morosas Nas nove jarras, findas; S’em doze arbustos vinha Regar de quinze prantos Os caules todos n’uma linha, O verso de…

Ó! três flores garbosas
De seis flores colhidas,
Sois as mais morosas
Nas nove jarras, findas;

S’em doze arbustos vinha
Regar de quinze prantos
Os caules todos n’uma linha,
O verso de dezoito lânguos;

Vinte e uma dores partidas
Vinte e quatro fés ardidas
Paixão profunda e frágil;

Pois há de ver-se doloridas
Vinte e sete pétalas jazidas
Nas retinas em naufrágio.

Criei a palavra “lânguos” para representar a união de três outras palavras: Lânguido, Lôbrego e Lágrima.



Leia mais
Poesias, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Existencial Sahra Melihssa

Desperta, menina!

Desperta, menina! | Há sonho que termina, | Mas podes, pois, ainda | Sonhar mais de uma vez; | Desperta, menina! | Pega uma tangerina! | Sente mais d’esta tua vida!…

Desperta, menina!
Há sonho que termina,
Mas podes, pois, ainda
Sonhar mais de uma vez;

Desperta, menina!
Pega uma tangerina!
Sente mais d’esta tua vida!
Aquietes o febril de tua tez;

Desperta, menina!
Vem cá e lá, vem só, sorria!
Se doer, pois, sê bem-vinda,
No verter d’água em fluidez;

Desperta, menina!
Deixe-se entregar, pois finda,
Esta aurora destes dias,
Desfrute a tua lucidez.

 


 
Leia mais