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Laslum

Tuas asas se abrem lívidas ao céu | Tens face em palidez símil às nuvens | Mãos negras estendidas, nenhum fel, | Com olhos carmesim de sangue em flúmens…

 

Horace Vernet (1789–1863) - The Angel of Death (1851) - Detalhe (Manipulação de Imagem por Sara Melissa)

 

Tuas asas se abrem lívidas ao céu
Tens face em palidez símil às nuvens
Mãos negras estendidas, nenhum fel,
Com olhos carmesim de sangue em flúmens;

Transmuta-se alguém que muito amei,
Por hora és um demônio e também homem,
Um anjo horrendo e belo — opus Dei — 
Lhe temo com afãs que me consomem;

Emerge em sonhos tristes, devagar,
E em noites cuja relva queima o ar
Recita o verso fúnebre por fim;

Tão próximo deleita o meu perfume
Ardor e solidão, tão pouco lume,
Afogo-me no assombro em frenesim.

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O Chamado

Ó fardo este infinito penumbral | Uivando seu silêncio que me amarga | Às vísceras, o medo sepulcral, | Isola-me na prece - minha adarga; | Serena imensidão, revela o peito,…

 

Nicola Samorì, Valle umana (Malafonte), 2018

 

Ó fardo este infinito penumbral
Uivando seu silêncio que me amarga
Às vísceras, o medo sepulcral,
Isola-me na prece — minha adarga;

Serena imensidão, revela o peito, 
Debaixo desta noite, sussurrando
Que os ares tão sombrios são-me o leito
O qual hei de jazer-me suplicando;

Mas como eu poderia imaginar
Que os ventos do obscuro abominar
Buscavam servilismo etéreo e pleno

E n’ávida aflição que estive tanto
Tangível me rendi regada ao pranto
Tomei do algar das sombras o veneno.

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Experiência

Órbitas saltadas por tal horrífico, Manhã fria como o cadáver deitado, Um som à mente penetra sombrífico, Que o rubi líquido verte alarvado; […]

 

Nicola Samori

 

Órbitas saltadas por tal horrífico
Manhã fria como o cadáver deitado
Um som à mente penetra sombrífico
Que o rubi líquido verte alarvado;

Atenção angustiosa ao vil vazio
Passos ocultos, poço da ilusão
Há ninguém sob o efêmero alívio
Mesmo assim eu revivo uma oração:

“Pai nosso que estais no céu, tão amado”
Completa a voz sinistra: “santificado” 
E ecoa como um grito no abismo;

Meu tremor se ergue símil a um rei
E a gorja é entrave ao ar que pensei
Ser a fonte de meu vital niilismo.

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Pensares Nímios

Buscar-se n’água oculta — negro mar — | que jaz nas curvas desta mente insana, | parece tanto eterno — infindo lar — | dos vastos pensamentos…

 

Nicola Samorí

 

Buscar-se n’água oculta — negro mar —
que jaz nas curvas desta mente insana,
parece tanto eterno — infindo lar —
dos vastos pensamentos — como engana!

Sei lá se cá me entendo os versos pálidos
ou s’esta solidão interna chora,
eu sei somente as noites de ouros cálidos
que são-me só um raro sonho, embora…

O sol luzindo — vês? — em lua nova
é como respirar além da alcova
de ser-se humano assim — fado imortal;

Pretendo, em jura, não deixar que o peito
faleça pelo excesso de afeito
enquanto o vil sentir me faz brumal.

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Às Sombras de Scar Narcht, Canto de nº II

Respiro-te alvo e vejo escuro o céu | Angústia e voz-silêncio pressentindo | Um sonho ou pesadelo, o vento, o véu | Da morte assim tão bela confundindo;…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa

Respiro-te alvo e vejo escuro o céu
Angústia e voz-silêncio pressentindo
Um sonho ou pesadelo, o vento, o véu
Da morte assim tão bela confundindo;

Nenhuma lua — vedes? Quão sombrio
Teus olhos na calada em verso pulcro
As presas e os murmúrios — arrepio
Deleito-me do horror, meu triste fulcro;

O sangue símil lembra-me das rosas
E as rosas tão singelas e sedosas
Se murcham são negrume carmesim

E então os pobres ínfimos espinhos
Definham sem calor e tão sozinhos
Igual eu sinto após teu beijo em mim.

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Às Sombras de Scar Narcht, Canto de nº I

Conduza o sonho qual está profundo | Inquieto em verve pulsa dentro, assim | Sem medo toque e exale-me fecundo…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa

Conduza o sonho qual está profundo
Inquieto em verve pulsa dentro, assim
Sem medo toque e exale-me fecundo
Prelúdio umbroso, um beijo à fronte em mim;

A noite qual tu és desbrava a luz
Que íntima ao meu peito só te espera
Ouvindo grave a voz que mui seduz
E traz pr'o sonho amor que tanto esmera;

"Lerei co' afinco as linhas quais te escrevem.
Irei sorver-te tanto quanto entrevem
Os deuses sobre amores tão febris."


Jamais esqueço o verso tão seguro
Fitando os olhos vis que tens eu juro
Infindo honrar-te em flamas bem sutis.

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Vilviren

Luz pálida nos frios cantos | Memórias de mudos prantos | Rubro líquido sobre a mesa | E a taça-cristal — reluz atro — | Partida em silêncio — o rastro…

 

Raven, Vera Velichko

 

Luz pálida nos frios cantos
Memórias de mudos prantos
Rubro líquido sobre a mesa

E a taça-cristal — reluz atro —
Partida em silêncio — o rastro
Da única vela inda acesa;

A mortalha da noite — o leito —
A vil solidão sem despeito
À presa que jaz na alfombra,

O vão entre os ossos do torso
Nenhum fragmento-remorso
Habita o agouro da sombra.

 
 
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Sozinho

Eu não fui, desde a tenra e pura infância | Tal como eram todos — nem ganância | Tive símil — sequer vi como viam —  | E as paixões que estimei não podiam …

Edgar Allan Poe

Eu não fui, desde a tenra e pura infância
Tal como eram todos — nem ganância
Tive símil — sequer vi como viam —
E as paixões que estimei não podiam
Vir da mesma primavera de lei;
Meu peito em só pranto — nem despertei
Regozijos sob tom andorinho —
E tudo que amei — tanto amei — sozinho;
Foi na aurora infante a fundação
Da mais tempestuosa vida — então
Viera todo algar do bem e mal
Ao mistério que me cinge abissal —
Da torrente ou da remansa nascente —
Da rubra falésia do monte sedente —
Do sol abrasador que me circunda
Em matiz outonal de áurea profunda —
Do luzir pujante no firmamento
Que passa por mim como agouro vento —
Dos trovões que a intempérie exprimiu —
E a nuvem que em tal forma se assumiu
(Quando anil era todo o céu restante)
De um vil demônio vindo ao meu semblante.

 
 
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Opscur no.2

Era bálsamo, era sorrateiro | Olhos turvos — citrino penumbral | Era dia, e mesmo dia, era hospedeiro | D’uma noite tão mórbida e abissal;…

Zdzisław Beksiński

Era bálsamo, era sorrateiro
Olhos turvos — citrino penumbral
Era dia, e mesmo dia, era hospedeiro
D’uma noite tão mórbida e abissal;

Quanto tempo eu fiquei naquele pranto?
Sem lágrima, sem gesto — oscilante
Sob o véu dum semblante em puro espanto
Oculta dentre a bruma agonizante…

Brusco o rasgo em mi’a mísera garganta
Nenhuma dor, porém tão fulgurante
A agônica emoção silenciosa…

Então como um sussurro proferi
O nome que em transtorno eu diferi
Dentre os gritos de súplica frondosa.

 
 
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Vurphor

Próxima à escuridão, lá, vislumbrei | Tão cintilantes pontos, verde-água; | Era tanto pavor aos que deixei | Debaixo da loucura — estranha frágua; | Gritos por alarde ao…

 

Luca Giordano - The Fall of the Rebel Angels - Detail (1660-1665)

 

Próxima à escuridão, lá, vislumbrei
Tão cintilantes pontos, verde-água;
Era tanto pavor aos que deixei
Debaixo da loucura — estranha frágua;

Gritos por alarde ao céu anunciado
Onde fulgurou o tal — o inominável
Vê-lo, assim? Através do véu nervado
Cuja centelha queima— incontestável?

Não o vi, mas sei que horrores eu senti
Ofusquei-me em tremor e... entendi
Todo aquele seu mórbido condão,

Arrastada com caos, eu despertei
Um sonhar nada mero — guardarei
De algum modo parece-me intuição.

 
 
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Âncora Anfêmera

Na âncora anfêmera | Há tempos estática | Fiz-me uma ínsula | Meu céu é translúcido | Longínquo observo | Sangra a chuva em torrente | Se alastra o declínio…

'Alone in the World', Jozef Israëls, 1878

Na âncora anfêmera
Há tempos estática
Fiz-me uma ínsula

Meu céu é translúcido
Longínquo observo
Sangra a chuva em torrente

Se alastra o declínio
Na atmosfera de outrem
Às suas ínsulas sucumbidas

Na âncora anfêmera
Não há tempo
E de tão constante
Exausta está a comoção

Enquanto corpos isolados
Esquecem do calor
Cuja aproximação, e só ela,
Saberia lembrar. 

 
 
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Incômodo

Perdura ainda o tal do isolamento? | Ou só mantém-se a regra para mim? | Se saio vejo tantos n'um momento | Sorrindo e rindo em goles de festim; | Alguns até que…

 

Jozef Israels (1824 – 1911, Dutch) - Sunday Morning

 

Perdura ainda o tal do isolamento?
Ou só mantém-se a regra para mim?
Se saio vejo tantos n’um momento
Sorrindo e rindo em goles de festim;

Alguns até que vestem certos mantos
No rosto ou n’essa alma decadente
A qual carregam límpidos, sem prantos,
Enquanto vivo em cárcere vigente;

A sorte desse povo só me omina!
Se ouso a pé sair ali na esquina,
Provável qu’eu respire o vírus todo!

Eu devo estar de agrores malferidos,
Pois penso sou querida à ir p’r’o céu
Ou eles é que são os preferidos?

 
 
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Lhaneza d’Amore

Encontro o brilho deste olhar que tens | No rumo qual caminho nesta vida | E como estrela-guia, ó!, tu me vens | Destrói-me a triste angústia tão sustida;…

 

Auguste Toulmouche - A couple 1880c

 

Encontro o brilho deste olhar que tens
No rumo qual caminho nesta vida
E como estrela-guia, ó!, tu me vens
Destrói-me a triste angústia tão sustida;

Em mim o teu sorriso faz bom dia
E as horas todas doces soam lindas
E o vento mesmo frio me acolhe e cria
Recanto em nosso amor que nunca finda;

Assim, querido, toda a eternidade
E toda a mais incrível natureza
E — ainda — toda a crível divindade

Se alcançam, perto, os pés de tua grandeza
Decaem, pois jamais na existência
Houvera tanto esmero em gran pureza.

 
 
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Ossos do Conviver

Ora, a infância passara  — vedes? | Verteríeis os prantos infantes | se o pretérito fosse, às sedes, | o presente de água-instante, | entretanto…

 

The Potato Ears - Vincent van Gogh, April-May 1885

 

Ora, a infância passara  — vedes?
Verteríeis os prantos infantes
se o pretérito fosse, às sedes,
o presente de água-instante, 

entretanto este tempo aligeira!
Perdereis relevância, atentai!
Dos aprôvos de vossa poeira
e dos julgos vos digo: minguai! 

Vossa tese é só manigância!
Se mi'a letra causar-vos a ânsia,
estarei no prazer eremita; 

E se faço poema com isso,
é em nome do verso e não disso
que vós tendes na língua maldita.

 
 
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Melancolia de Outono

Pois que a vida me parece decadente… | Ó! Ser que voa níveo entre flores | Compr’endes poesia em mi’as dores? | Estou já delirando lentamente;…

 

Victor Gabriel Gilbert (1847 - 1933) - Resting, c.1890

 

Pois que a vida me parece decadente…
Ó! Ser que voa níveo entre flores
Compr’endes poesia em mi’as dores?
Estou já delirando lentamente;

Só n’altura da inefável estação
Emanas tu o bálsamo nectáreo
Criatura de tal rara composição
Reluzes como quartzo solitário;

Quão harmônica é a tua simetria
N’este teu rastro de adorável leveza;
É límpida em graça a cinesia,
Estás longe de sentir a estranheza

Que aquém, anfêmera, cresce
Segredando sua morta sinfonia,
Enquanto a humanidade se aquiesce
Sob a própria, e triste, astenia;

Como bênção daninha é a razão
Que recria teu invólucro de outrora
E faz-me ponderar tua mutação
Vinda ao despertar na certa hora;

Eu que me assemelho me tumulo
 — Ó, como vem pesar de angústia a mente! — 
Na eterna permanência em meu casulo,
Pois que a vida me parece decadente.

 
 
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Esconjuro

Escaldas, Sol, de modo pálido | Melódicos sons de calada, | Fervendo-me o âmago cálido | A lágrima minha é brumada; | ‘Que queres de mim, ó sazão!…

Escaldas, Sol, de modo pálido
Melódicos sons de calada,
Fervendo-me o âmago cálido
A lágrima minha é brumada;

‘Que queres de mim, ó sazão!
Que dás-me o horror infecundo?
Retrais-me as pupilas, vazão
De meu existir moribundo;

E ainda o caminho iluminas,
Queres qu’eu veja o destino
Fitando mi’as próprias ruínas;

Assim sob o fel genuíno,
A tão prematura morfina
Eu tomo em pavor morosino.

 
 
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O Lago

Nas auroras d’outros tempos santos | Ó, meu fado! Amei, amei por tantos | Tão sombrio recôndito n’este mundo…

The Portraits and Daguerreotypes of Edgar Allan Poe (1989) - Charles Hine

Nas auroras d’outros tempos santos
Ó, meu fado! Amei, amei por tantos
Tão sombrio recôndito n’este mundo;
Era belo e habitava em solidão,
Entre fragas de agreste escuridão
Cingido ao arvoredo tão profundo!

Como estar sob a mortalha, a noite vinha
E ao mundo o vento místico convinha
Soprar murmúrio em cântico temível;
Ó, então, do fascínio eu despertava
E o horror do vil enlevo acalentava
Meu trêmulo prazer, sem medo e crível!

Imerso ao calafrio! Nem cristais
De preciosos valores tão vestais
Seduzem-me tal o flúmen lôbrego;
Nem o amor, mesmo que teu, me poderia
Inspirar da forma em que me inspira
As águas de morte ao peito sôfrego;

Lá fluía o golfo venenoso, sepultura,
Consolo àqueles que jazem na agrura
E sonham sós com Édens infindáveis!
Pois que a alma que tanto se esvazia,
No lago escuro se preenche, afrodisia
Ao descanso em penumbras insondáveis.

Adaptação e tradução de Sahra Melihssa

 
 

THE LAKE

(Edgar Allan Poe)

In spring of youth it was my lot
To haunt of the wide world a spot
The which I could not love the less —
So lovely was the loneliness
Of a wild lake, with black rock bound,
And the tall pines that towered around.

But when the Night had thrown her pall
Upon that spot, as upon all,
And the mystic wind went by
Murmuring in melody —
Then — ah! then I would awake
To the terror of the lone lake.

Yet that terror was not fright,
But a tremulous delight —
A feeling not the jewelled mine
Could teach or bribe me to define —
Nor Love — although the Love were thine.

Death was in that poisonous wave,
And in its gulf a fitting grave
For him who thence could solace bring
To his lone imagining —
Whose solitary soul could make
An Eden of that dim lake.

 
 
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Cidelly

Ambígua presença, amedrontas, | Amas-me ó vil criatura? | Canta-me o mal que me contas! | És doce horror, minha agrura; | Guardei-te os olhos tão vítreos…

Ambígua presença, amedrontas,
Amas-me ó vil criatura?
Canta-me o mal que me contas!
És doce horror, minha agrura;

Guardei-te os olhos tão vítreos
Dantes de ires às tumbas
Banhei-te aos sabores mui cítreos
A terra infértil que adubas;

Fiz lá teu eflúvio ameno
Colhi as janelas, sereno,
Pingentes de culpa tardia;

Agora tu assombras meu pranto
Cinérea maldiz-me em espanto
Encarando-me sempre vazia.

 
 
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