Poesias, Natureza, Melancólico Sahra Melihssa Poesias, Natureza, Melancólico Sahra Melihssa

Marcescível

Há de chover hoje, à tarde, | Este sopro tão tenro segreda | Cá o sol pobrezinho não arde | Seu adeus gradativo arvoreda; | Ó azul melancólico, cante! | As nuvens se unem, me basta…

 

Arthur Parton - Boating by moonlight (1878)

 

Há de chover hoje, à tarde,
Este sopro tão tenro segreda
Cá o sol pobrezinho não arde
Seu adeus gradativo arvoreda;

Ó azul melancólico, cante!
As nuvens se unem, me basta
Que o dia assim seja infante,
Pois ao imo adentro se vasta;

Acinza-se os céus da redoma
Mais um, do outono, sintoma
Aflições que desfloram-se, nuas,

No meu peito há triste carvalho
Em secura, uma prece ao orvalho,
Rega as dores tão minhas, tão cruas…

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Murmúrio

Debaixo d’esta vil tristura | Habito a imensa estafa | E ébria eu n’esta loucura | O vinho me sobra à garrafa; | Estou em delírio, fissura, | O perfume que sinto exala…

 
Nicola Samorì

Nicola Samorì

 

Debaixo d’esta vil tristura
Habito a imensa estafa
E ébria eu n’esta loucura
O vinho me sobra à garrafa;

Estou em delírio, fissura,
O perfume que sinto exala
Tempos d’escola e ternura
Inócua lembrança-opala;

Estou em fascínio, aflição,
Nem sei a razão do sofrer
Mas tardo a ouvir a canção,

Pois que tarda pulsar-me o ser
E a alma que fora ascensão
Declina e se deixa morrer.

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Noturníesis - Ode

Doce noite tão soturna canta | Como o flúmen verte o pranto santo | Mui serena aquece em negra manta | Doce noite... tenra... triste encanto... | Leva sonhos para o lado escuro…

 

A Woman at a Fountain with Rising Moon, Ferdinand Knab (1866)

 

Doce noite tão soturna canta
Como o flúmen verte o pranto santo
Mui serena aquece em negra manta
Doce noite... tenra... triste encanto...

Leva sonhos para o lado escuro
D’este astro acima mui silente
Leva lá também a dor qu'eu juro:
Era calma, dantes, pouco ardente;

Doce noite, dança, musa minha
Tão venusta ocupa e habita o todo
Nesta sombra só serei rainha!
Não trarei luzir que deixa engodo;

É na treva qual pertenço farta!
E às entranhas d’esta gran penumbra
Deixo a Lira d’este verso-carta.

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Outono no.1

Eis, por fim, o Outono... | Frígidas manhãs, | noites de abandono | de todos os afãs; | Das estações: | o sentido; | Do ser, emoções, | de imo luzido;…

 

Jules Dupre - The Windmill (1859)

 

Eis, por fim, o Outono...
Frígidas manhãs,
noites de abandono
de todos os afãs;

Das estações:
o sentido;
Do ser, emoções,
de imo luzido;

Eis, por fim, o Outono...
A maçã*, esperança,
Caem folhas, mudança,
aconchego do sono.

*Referência à poesia "Maçã de Outono" escrita por Sara Melissa de Azevedo no ano de 2018.

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Ecos Exíguos

Nobres fugas demais humanas | nascentes às estações - impróprias, | o Ser pelos átimos d'aspiração, o ser | pelos vazios tão íntimos, tardios | e iguais…

 

Nicola Samorì

 

Nobres fugas demais humanas
nascentes às estações — impróprias,
o Ser pelos átimos d’aspiração, o ser
pelos vazios tão íntimos, tardios

e iguais aos sopros do Nada
que euforem na carne as promessas
do sangue às veias — a máquina — 
um canto irrisório, um desfecho;

Amparam-se, pertuitos, em sentidos
criando-se às molduras — simulacro,
mas a verve da solidão não reside

e nem a brasa da fissura se acende
nos mortais da letárgica razão
na ruína de seus vãos pressupores.

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Cinzas Feminis

Queimada estivera | nos tempos d’outrora | quando o homem da era | salvá-la, ó, Pandora, | jamais, vil, quisera;…

 

Ivan Kramskoy - A Girl with her hair unbraided (1873)

 

Queimada estivera
nos tempos d’outrora
quando o homem da era
salvá-la, ó, Pandora,
jamais, vil, quisera;

No vento ao arbusto
 — o mais espinhoso — 
tuas cinzas, tão justo,
pelo tempo ditoso
às raízes se onusto

e na terra, a morada,
semeara a tristura
nos caules, calada,
veio a ser e perdura
Rosa Rubra alada

onde dás teu perfume
e colecionas no acúleo
o sangue do gume
do homem hercúleo
perdido, azedume,

no mais alto vazio
sem migalhas de alívio
e sem deus ou verdume.

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Galardão para minha humanidade

Corpo em vasta poética e flamância | Girassóis escolhidos, mente sã, | Ouço o lago dos sonhos de mia infância… | Ó Verão, dê-me o doce da maçã!…

 

O Sorrow, Katherine Stone

 

Corpo em vasta poética e flamância
Girassóis escolhidos, mente sã,
Ouço o lago dos sonhos de mia infância…
Ó Verão, dê-me o doce da maçã!

Quão suave a alvorada se estendia,
Como o sol aquecia os corações
Era boa a canção do fim do dia
Mesmo em mil amarguras, solidões…

Sempre os quadros da mente — inefáveis — 
Sós serão cenários confortáveis
Neste olhar real do haver vulgar,

Pois vagar pelo áureo imaginável
É razão que mantém-me suportável
Neste Nada que ferve a me chagar.

 
 
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Memórias da primeira grande guerra

Ao leito que me tem há tantos anos | conto as áridas noites do passado, | jamais trarão sereno sonho alado | meus ares tão perdidos, levianos;…

 

Zdzisław Beksiński

 

Ao leito que me tem há tantos anos
conto as áridas noites do passado,
jamais trarão sereno sonho alado
meus ares tão perdidos, levianos;

Ao berço que me teve n'outras eras
de infantis fantasias inocentes,
rogo tenhas piedade destas meras
loucuras de velhices decadentes;

Meu rosto enrugado de horrores
por lembranças do sangue denso e rubro…
O soturno temor  — turvos calores —
rasgando-me por dentro no delubro;

Escondido e afetado eu vislumbrei,
pelo culto de face inominável,
entidades erguerem-se, bem sei,
silentes em poder inigualável;

Semblantes símeis aos sujos abutres
e de corpo com vísceras à vista,
seus eflúvios carníferos, agrores!
Piores que o pavor novecentista;

Respingos de salino ardor sem dós,
tantas almas no antro sanguinário!
Eu queria não ter visto este cenário
que as bestas eram como somos nós!

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Suave Lamúria

Lua nívea e cinérea | Tua penumbra m’encanta | Ó, ao Sol, tão etérea! | És puríssima manta; | Teu tenro alumbrar | Feito para o semblante | Não alcança o olhar…

 

A Noite Estrelada, de Vincent van Gogh (1889)

 

Lua nívea e cinérea
Tua penumbra m’encanta
Ó, ao Sol, tão etérea!
És puríssima manta;

Teu tenro alumbrar
Feito para o semblante
Não alcança o olhar
Destes grãos petulantes;

Dói-me o peito cansado
Mas sou grão ou semente?
Noite míngua, o fado,
Canta triste e ardente;

Cega busca por deus
Mente humana agitada
Somos vales e nada

Tão perdidos… Adeus…
Nos pesares tão meus
Farei minha morada.

 
 
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Árduo Ponderar

N'algum lago entre arvoredos | O encontrar da permanência | Das alvas cores da quietude | O orvalhar-se em alvorada;…

Kanashibari Maya Kulenovic (?)

N’algum lago entre arvoredos
O encontrar da permanência
Das alvas cores da quietude
O orvalhar-se em alvorada;

Fenômenos do firmamento
Silenciando o cerne frígido
Em seu aspecto sonante
Frescores da antemanhã…

Dorme ao dorso solitário
Um buscar guiando em ermo
Onde o oásis se desvela
Poente ausência de sentido.

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Duro cárcere, sombras da minguança…

Vês que o riso prevê dificuldades | Quando os dias desabam friamente | Mesmo em ápice, a glória, descontente | Não desfaz emoções das finidades,…

Vês que o riso prevê dificuldades
Quando os dias desabam friamente
Mesmo em ápice, a glória, descontente
Não desfaz emoções das finidades,

Ao contrário, resguarda na memória,
Só se aceita a ledice por costume
Nunca o verso nascera, na história,
Desta fé que desagua em grande lume;

Sempre vem o regalo quando o mar
É vistoso e demonstra mansidão
Mas a luz se negrume n’um piscar
Manda as nuvens d’angústia ao coração;

Vês que é fardo, é fado, languidez
Não resiste — a aurora — vir a ser
Nem a calma e a penúria, a torpecer
Nem a noite obscura em morbidez.

 
 
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É destino a aspereza de minh’alma

Negra e rútila seiva de inquietude | vinda deste silente enfraquecer, | mostre o ser que me habita em completude…

 

Nicola Samorì, Maddalena (2010)

 

Negra e rútila seiva de inquietude
vinda deste silente enfraquecer,
mostre o ser que me habita em completude
pelo ermo e sombrio entristecer,
diga, pois, o que sei da infinitude
deste tão permanente aurorescer
Que, nas trevas, me faz… a completude…

Não me nego a verdade da existência,
sempre verte outrossim o lacrimar
e sozinha no peito a divergência
de mil noites perdura em abismar;
e se busco o rogar em complacência
Esperanças exalam o afleumar
P’ra depois me rasgar em dissidência…

Volto como enfim devo: alheável
pelo mundo e seus símeis habitantes
e doída em sentido inexorável,
reconheço os caminhos dissonantes;

Nos desertos me amargo e me afago
em martírios e em tanta alacridade,
esplendores da infância n’um imago:
Solidão de soturna eternidade.

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Insônia

Ruas frígidas, Paris? | Meu caminho de sonhos | Vil tristura, céu gris | Tudo morto e medonho; | Flores plúmbeas, perfume, | Choro calmo e infeliz | Olho a chuva negrume…

 

Comfort Zone - Fongwei Liu

 

Ruas frígidas, Paris?
Meu caminho de sonhos
Vil tristura, céu gris
Tudo morto e medonho;

Flores plúmbeas, perfume,
Choro calmo e infeliz
Olho a chuva negrume
Noite ou tarde, brasis?

Solo bem melancólico
Passo lento e bucólico
Sinto incerta agonia;

Sol se curva, desperto,
Mesma casa e teto,
Rosto ascoso, afonia.

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Quanto o tempo resiste na memória?

Ó, dos féis que amarguram o meu cerne | estes ventos pretéritos estão, | pois me guiam n'outrora que concerne | às belezas que nunca voltarão, | mesmo sempre almejando que se eterne,…

 

Skulls Painting - Skull Rose by Alex Rios

 

Ó, dos féis que amarguram o meu cerne
estes ventos pretéritos estão,
pois me guiam n'outrora que concerne
às belezas que nunca voltarão,
mesmo sempre almejando que se eterne,
vejo as sombras da idade em seu clarão,
são-me, tais, a penúria de meu cerne;

Sinto as marcas nascendo em minha fronte,
todo pássaro canta lentamente,
tal nostálgica aura é horizonte,
minha essência parece mais clemente,
peço e rezo que exista alguma fonte
p'ra trazer-me, os prelúdios, ternamente,
plenos ares do estro como ponte;

Mesmo embora eu fosse solitária
— como sou desde então, mas em tristura —
lá havia uma mágica lendária
qual vestia em mim íntegra armadura;

Era árdua, porém, revigorante,
neste agora se faz fastidiosa,
tudo pende em sonhar nadificante,
só o fino lembrar mantém-me airosa.

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Egressão

Comparar-vos jamais, em sentidos, | co'os carvalhos mirrados no ermo | ou co'os vultos, na encosta, doridos | em retorno infindável do enfermo;…

 

Edvard Munch - Jurisprudence (1887)

 

Comparar-vos jamais, em sentidos,
co’os carvalhos mirrados no ermo
ou co’os vultos, na encosta, doridos
em retorno infindável do enfermo;

Ser-me-ia atitude insalubre
aos carvalhos e vultos honestos
que preservam-se puros e nobres
afastados dos homens funestos;

Sois, se cores, o cinza enfadonho!
e se fordes sonido —  medonho!
Cultivei-vos o apreço pascácio…

Vislumbrei-me de novo no abismo,
iludi-me com vosso humanismo
e a beleza do falso palácio.

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Melancolia de Verão

Delgado violino de Nunquam | Às sombras d'esta oca amargura | Fizera florir aelinos-nūsquam | Rebentos de constante tristura; | "Nas venturas ternuras virão"…

 

George Frederic Watts - Ellen Terry ('Choosing') oil on strawboard mounted on Gatorfoam, 1864

 

Delgado violino de Nunquam
Às sombras d’esta oca amargura
Fizera florir aelinos-nūsquam
Rebentos de constante tristura;

“Nas venturas ternuras virão”
digo às cálidas chuvas do estio
que entardecem na cor de açafrão
suspirando perpétuo vazio;

Mas tão quedas tais dunas de mim,
ascendidas no ermo onde estou,
vão contando-me as gotas carmim
tão vertidas no abismo que sou.

· · • • • ⊰ღ⊱ • • • · ·

Do latim:"Nunquam" (nunca)
"Aelinos" (canto fúnebre)
"Nusquam" (lugar nenhum)

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Leleenvenur

Tens a beleza d'esta chuva | Trazes frescor e bom abrigo | De vida, flora, verde-uva, | Tens uno amor para comigo; | Perfume teu é rio de luzidio | Que como véu às terras úmidas…

 

Antonio Piatti - Rose and Thorn, 1901

 

Tens a beleza d’esta chuva
Trazes frescor e bom abrigo
De vida, flora, verde-uva,
Tens uno amor para comigo;

Perfume teu é rio de luzidio
Que como véu às terras úmidas
Vai guiando o ser-tardio
D’estas belas nuvens túmidas;

Neste teu peito, eu aquecida,
Tuas mãos em minha fronte
Torna a água tão querida
E vem do amor, a nossa fonte.

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Neesme

Pequeno como um ínfimo grão | Esplendores de fleuma inefável | Na deslumbrante imensidão | Sonha à nuvem do inestimável; | Entona toda a bela tristura…

 

Study of a dead bird - John Ruskin

 

Pequeno como um ínfimo grão
Esplendores de fleuma inefável
Na deslumbrante imensidão
Sonha à nuvem do inestimável;

Entona toda a bela tristura
Aos sigilos do áureo clarão
Aurora aos sóis d’abertura
Olhinhos de escuridão;

Quebrante-me o silenciar
Doce e gentil, se vivedouro,
Asas para que saibas voar
Sobre o orvalho-morredouro.

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