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Âncora Anfêmera

Na âncora anfêmera | Há tempos estática | Fiz-me uma ínsula | Meu céu é translúcido | Longínquo observo | Sangra a chuva em torrente | Se alastra o declínio…

'Alone in the World', Jozef Israëls, 1878

Na âncora anfêmera
Há tempos estática
Fiz-me uma ínsula

Meu céu é translúcido
Longínquo observo
Sangra a chuva em torrente

Se alastra o declínio
Na atmosfera de outrem
Às suas ínsulas sucumbidas

Na âncora anfêmera
Não há tempo
E de tão constante
Exausta está a comoção

Enquanto corpos isolados
Esquecem do calor
Cuja aproximação, e só ela,
Saberia lembrar. 

 
 
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Parágrafos Imanentes 01

O esperar do existir, a espera, curta anfemeridade sob a mortalha do tempo. Você levará o verso ao abismo da morte enquanto lamenta, no viver, o verso que não…

Jozef Israëls (1824–1911) - 'Contemplation' - 1896

O esperar do existir, a espera, curta anfemeridade sob a mortalha do tempo. Você levará o verso ao abismo da morte enquanto lamenta, no viver, o verso que não conta a própria sílaba? Você será sempre a projeção das máscaras quais tecem suas expectativas inalcançáveis, eu sei disso, porque no suor de sua fronte nada se evidencia mais do que a falta, a falta e a espera, ambas sob o prisma de um sonho mesquinho que a natureza não se importa. Você é ínfimo, como eu, pequenas partículas de nada. Ressuscite o deus que te faz importante enquanto você se volta ao pó, respirando cinzas em suas feridas narinas — as cinzas dos outros, queimados por sua profunda ignorância.

________

The waiting of existence, the waiting, the short aphemerality under the shroud of time. Will you carry the verse to the abyss of death while still lives for lamenting the verse that does not count its own syllable? You will always be the projection of the masks that weave your unattainable expectations, I know that, because in the sweat of your forehead nothing is more evident than the lack, the lack and the waiting, both under the prism of a petty dream that nature don't cares. You are trifling, like me, little particles of nothing. Resurrect the god who makes you important as you turn to dust, breathing ash into your sore nostrils —the ashes of others, burned by your hollow ignorance.

 
 
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Encontrar o Silêncio

Escritora angustiada nos tempos livres; para onde carregarei as angústias da existência emergidas no prelúdio tão inocente? Quem verdadeiramente…

 

Ariadne - Jean-Baptiste Greuze - Séc. XVIII

 

Escritora angustiada nos tempos livres; para onde carregarei as angústias da existência emergidas no prelúdio tão inocente? Quem verdadeiramente observa os grãos de areia? Na verdade, apenas pisamos sobre eles, sobre as pequenas realidades inimagináveis e, consequentemente, a nossa própria realidade.

Eu preciso de mais do que isso. Estar aqui não tem me levado a lugar algum além do vazio, será que há oxigênio lá fora? Será que há sentidos lá fora? Fora de tudo isso…

Minha alma é inquieta, dizem, volúvel; talvez seja isso e, se não for, o que será? Eu não me adéquo à modernidade, nem ao passado e, o futuro, há de vir? Eu não sei, no entanto, se vier, que seja diferente, que alcance o melhor que eu poderia um dia querer.

Nunca entendi o significado de deixar-se ser o que se é e minhas árduas tentativas de exercer o conheça-te a ti mesmo parecem sempre vãs; estou prisioneira dos martírios de quem foi jogado no mundo na incerteza do antes e no vazio do depois.

Alguns sorriem na estupidez, outros veem mais do que suas expressões faciais imperfeitas diante do espelho da alma. Alguns, não conseguem se amar.

Rarefeita.

Meu gato me faz companhia, dorme o dia inteiro, mas às vezes mia para mim e se eu ando no quintal ele me segue. Ele não gosta de ficar sozinho, ele não é um perfil de uma rede social. Ele está aqui. Mas eu, talvez, nunca tenha de fato estado aqui para ele.

Essa pandemia me destruiu… não, eu não estava inteira antes dela, eu estava destruída também, mas, no tempo que me sobra trancafiada, não posso fugir como antes eu fugia. Eu não quero mais continuar destruída… eu estou exausta de elogios e críticas, de comparações, afetos e ódios.

Eu não preciso e não quero nada disso. Eu nunca precisei e se um dia eu quis, foi por pura e juvenil tolice. Eu não sou nada disso que se mostra e eu estou cansada das sílabas contadas quando, no íntimo do meu coração, tudo o que há é silêncio.

Eu prefiro — e como eu almejo — mergulhar de uma vez nesse silêncio… porque sei que posso me encontrar nele, mesmo que eu me perca do mundo.

 
 
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Incômodo

Perdura ainda o tal do isolamento? | Ou só mantém-se a regra para mim? | Se saio vejo tantos n'um momento | Sorrindo e rindo em goles de festim; | Alguns até que…

 

Jozef Israels (1824 – 1911, Dutch) - Sunday Morning

 

Perdura ainda o tal do isolamento?
Ou só mantém-se a regra para mim?
Se saio vejo tantos n’um momento
Sorrindo e rindo em goles de festim;

Alguns até que vestem certos mantos
No rosto ou n’essa alma decadente
A qual carregam límpidos, sem prantos,
Enquanto vivo em cárcere vigente;

A sorte desse povo só me omina!
Se ouso a pé sair ali na esquina,
Provável qu’eu respire o vírus todo!

Eu devo estar de agrores malferidos,
Pois penso sou querida à ir p’r’o céu
Ou eles é que são os preferidos?

 
 
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O Diário de Laurien

Esfriara. Minha pele está mais nívea e meu rosto mais magro. Estou esquálida de espírito e, de tanta imersão na mediocridade, estou desabitada;…

 

James Jebusa Shannon - Lady Marjorie Manners (1900)

 

Esfriara. Minha pele está mais nívea e meu rosto mais magro. Estou esquálida de espírito e, de tanta imersão na mediocridade, estou desabitada; minha energia tornou-se vapor cinéreo contornando o nadificante vazio do abismo do mundo humano. Não há quem possa me encontrar no breu imortal de meu ser, tampouco na cálida algidez de minha mente; intriga-me que me vejam e que gerem sobre mim imagéticas compreensões jamais assentadas sobre o fenômeno mesmo  — o fenômeno mesmo que eu sou. Eu nada espero do mundo, porque reconheço a sua desordem abundante e a sua fome e sede por olhos, olhos que podem ver como os meus veem, olhos quais ninguém, um dia, foi capaz de realmente fitar.

A melancolia é meu recôndito, e há de sempre ser, pois que o é a cada dia mais e a cada noite ela se desvela outra vez dentro de meu pranto imanente. Noite… A noite é o deus que cultuo e, quando de frente à sua esplendorosa glória sou posta a louvá-lo através da poética mais ingênua que meu peito comporta, reconheço o porque de minha misantropia; é graça que todos se denominem relutantes ao afeto humano, ao vínculo, ao encontro; todavia no cerne da suma maioria o que reside é, tão somente, a saudade; já em mim, nem saudade, nem paixão, nem loucura. À serenidade da solidão, meu próximo gole de sangue; à razoabilidade dos homens, meu próximo escarro negrume. Enquanto os observo sinto a aragem do desabrigo, a natureza não é capaz de julgar, então recorro à sua imensidão, minhas pálpebras se fecham e eu durmo no sorrir tênue do amanhecer.

 
 
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Melancolia de Outono

Pois que a vida me parece decadente… | Ó! Ser que voa níveo entre flores | Compr’endes poesia em mi’as dores? | Estou já delirando lentamente;…

 

Victor Gabriel Gilbert (1847 - 1933) - Resting, c.1890

 

Pois que a vida me parece decadente…
Ó! Ser que voa níveo entre flores
Compr’endes poesia em mi’as dores?
Estou já delirando lentamente;

Só n’altura da inefável estação
Emanas tu o bálsamo nectáreo
Criatura de tal rara composição
Reluzes como quartzo solitário;

Quão harmônica é a tua simetria
N’este teu rastro de adorável leveza;
É límpida em graça a cinesia,
Estás longe de sentir a estranheza

Que aquém, anfêmera, cresce
Segredando sua morta sinfonia,
Enquanto a humanidade se aquiesce
Sob a própria, e triste, astenia;

Como bênção daninha é a razão
Que recria teu invólucro de outrora
E faz-me ponderar tua mutação
Vinda ao despertar na certa hora;

Eu que me assemelho me tumulo
 — Ó, como vem pesar de angústia a mente! — 
Na eterna permanência em meu casulo,
Pois que a vida me parece decadente.

 
 
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Esconjuro

Escaldas, Sol, de modo pálido | Melódicos sons de calada, | Fervendo-me o âmago cálido | A lágrima minha é brumada; | ‘Que queres de mim, ó sazão!…

Escaldas, Sol, de modo pálido
Melódicos sons de calada,
Fervendo-me o âmago cálido
A lágrima minha é brumada;

‘Que queres de mim, ó sazão!
Que dás-me o horror infecundo?
Retrais-me as pupilas, vazão
De meu existir moribundo;

E ainda o caminho iluminas,
Queres qu’eu veja o destino
Fitando mi’as próprias ruínas;

Assim sob o fel genuíno,
A tão prematura morfina
Eu tomo em pavor morosino.

 
 
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Aesir

Uma lânguida tristura penetrou-me o âmago e minhas lágrimas nasceram como orvalho da manhã. Eu estava preenchida pelo vazio de modo que toda a extensão…

 

The Maiden’s Lament - Horace Vernet (1789-1863)

 

Uma lânguida tristura penetrou-me o âmago e minhas lágrimas nasceram como orvalho da manhã. Eu estava preenchida pelo vazio de modo que toda a extensão abíssica que o comporta fazia completo sentido em minha alma. E aquele ser continuava a olhar-me com seu lúrido semblante tumular. Eu soube, pouco antes, das consequências quais se desvelavam naquele atormentador momento, no entanto custei a acreditar até vivenciá-los, pois que qualquer sã criatura hesitaria assim como eu hesitei e, decerto, na mais pura consciência, qualquer um desconfiaria de sua própria sanidade tal como eu desconfiei no prelúdio de todas as coisas. Mas ali, sendo fitada profundamente por aquelas órbitas solitárias, já não cabia em meu peito quaisquer desconfianças, restava tão somente o vínculo ao desalento.

Devo dizer que ainda não manejo as palavras tal como sei que o farei nas próximas décadas; no entanto há sede e vazio, e as palavras possuem a razão elementar que me permite lembrar o sentido etéreo de minha escolha. A minha escolha; aquela que, por Amor, resistiu a todo o sangue e toda a agonia. Fui guiada por minha intuição desde que Aesir pousara em um dos balaústres, na varanda. Era três horas da manhã. O vi majestoso, de soslaio, imediatamente levantei-me para contemplá-lo de perto. Tratava-se de um pássaro corvino cujas penas possuíam tons violáceos, embora, predominantemente, negros. Seus olhos também eram púrpura e detinham uma reluzente constituição símil às chamas de um tipo de fogo obscuro e cósmico. Fitei-o através da porta, pelo vidro. Tive receio, por segundos, diante a magnitude da ave.

Olá” — sussurrei ao abrir a porta, um sopro taciturno adentrou a fresta e invadiu-me o corpo como se fosse uma aura — e de fato era, mas eu não sabia. Senti frio e angústia, abracei meus braços em busca de calidez e mirei os detalhes da criatura à minha frente. O pássaro era mais belo do que previsto, suas penas possuíam ornamentos reluzentes em um tipo de cor metálica-violeta e o bico era negro, de ponta afilada, perigosa e, talvez, fatal. Sentei-me à porta após buscar, devagar, a cadeira da escrivaninha. A porta de vidro permaneceu semiaberta, pois diante os detalhes que apreendi, temi um pouco mais, temi que seu acúleo penetrasse meu órgão vital, deste modo não deixei que o espaço fosse suficientemente vasto para que ele pudesse entrar. Era tão belo, tão estranhamente melancólico, não quis deixar de fitá-lo mesmo temerosa.

De onde é essa ave?” — pensei. “Parece um tipo de criatura dos sonhos, fantástica, irreal”. A ave parecia serena, seus movimentos eram tão venustos quanto sua aparência. “Agora não estou tão só” — proferi à ave. “Aqui, às vezes, é solitário; não é como se a solidão me perturbasse, mas você, como uma ave solitária tal como me parece ser, entende que, às vezes, faz falta…” — eu disse. Não há razões para eu ter começado um diálogo com aquela criatura, tratava-se de um pássaro, um tanto místico, eu sei, mas ainda assim era um pássaro; eu de fato sentia a solidão e a falta, a ausência corria em meus pulmões e, por vezes, devorava minha energia. Eu recebia visitas semanais e mensais de alguns familiares e amigos, nutríamos uma relação amistosa; ainda assim eu apenas não pertencia. Não havia encaixe e conforto ao lado daqueles quais me criaram e me educaram durante tantos anos; muito menos daqueles quais conheci no decorrer de meu amadurecimento. Todos eram estranhos e eu me sentia, a cada anfemeridade, mais alheia e indiferente e todos eles.

Meu adorável pai com seu austero semblante, era fraco; tão fraco. Seus traumas o faziam, tão somente, um homem comum cuja autoestima se imergia na ilusão de unicidade; minha mãe, tão amável, imersa em fantasmas cujos horrores a faziam morrer em si mesma, dia após dia. Ambos viam-me como um espelho, transformavam-me em si mesmos e, cada palavra a meu respeito que eu lhes direcionava, voltava para mim como sendo propriedade deles, acerca deles, nunca de mim. E o que posso falar sobre meus irmãos e tios e tias e avós? Todos são como fiéis carvalhos, enraizados no pântano de seus entraves e quimeras. Não se diferem de meus colegas e amigos, os quais vivem sedentos de compensação da vida adulta medíocre que são obrigados a levar. “Devo escolher um nome para você, não é?” — falei ao pássaro após um mergulho prolongado em meus reclusos pensamentos. “É isso que fazem os humanos, nomeiam os entes do mundo, coisas e criaturas” — expliquei e suspirei pela atmosfera ainda tão consternada. “Aesir…” — revelei. “É um nome com sonoridade interessante, não acha?” — mais um suspiro. “É isso… Aesir… Este será o seu nome agora”. Levantei-me. “Aesir, eu estou triste como nunca estivera, não poderei lhe fazer companhia. Logo amanhecerá.” — Fui à minha cama e me deitei. “Dizem que o amanhecer traz sempre um recomeço”. Antes de adormecer, lembro-me de ter visto Aesir voar.

Não era como avistar uma belíssima Arara azul ou, ainda, Tucanos ou Flamingos; Aesir era um pássaro obscuro, olhá-lo não trazia somente encanto de modo a ser, a primeira reação do observador, fotografá-lo ou, ainda, na pior das hipóteses, prendê-lo numa espécie de gaiola. Aesir trazia o encanto rubro cujas sensações de fascinação, infelicidade e vazio uniam-se através da morte em uma dança íntima e soturna. Fitá-lo era, tão somente, profundo desejo de fitá-lo e nada mais além das sensações deste etéreo contemplar. Apesar da estável veracidade daquele noturno encontro, ao despertar na manhã seguinte deduzi se tratar de um sonho lúcido e que a mística criatura nascera meramente das nódoas mentais de meu inconsciente ressentido.

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Murmúrio

Debaixo d’esta vil tristura | Habito a imensa estafa | E ébria eu n’esta loucura | O vinho me sobra à garrafa; | Estou em delírio, fissura, | O perfume que sinto exala…

 
Nicola Samorì

Nicola Samorì

 

Debaixo d’esta vil tristura
Habito a imensa estafa
E ébria eu n’esta loucura
O vinho me sobra à garrafa;

Estou em delírio, fissura,
O perfume que sinto exala
Tempos d’escola e ternura
Inócua lembrança-opala;

Estou em fascínio, aflição,
Nem sei a razão do sofrer
Mas tardo a ouvir a canção,

Pois que tarda pulsar-me o ser
E a alma que fora ascensão
Declina e se deixa morrer.

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A Anestesia da Indiferença enquanto Silêncio e Solidão

É inevitável que o tempo adiante, em cada passo dado na torrente de seu próprio existir, a anestesia da indiferença. Não se trata de apatia ou ignorância, mas de consciência…

 

Lavery - Maiss Auras (1900)

 

É inevitável que o tempo adiante, em cada passo dado na torrente de seu próprio existir, a anestesia da indiferença. Não se trata de apatia ou ignorância, mas de consciência e compreensão de que para a vida humana ser bem vivida, é preciso silêncio e solidão. Engana-se aquele que pensar o silêncio como ausência de sons — ou diminuição extrema de tais — e a solidão como isolamento total dos pares partindo do sentimento de lúgubre vazio. Não. Há silêncio também nos sons, seja uma música, um diálogo ou o gotejar de uma chuva amena; há solidão no sentimento de plena completude e até mesmo no estar-em-companhia. Não é sobre ausências ou multidões, a Solidão é um estado de espírito e, o Silêncio, um modo-de-ser.

A anestesia da indiferença é o silêncio e a solidão como estado de espírito e modo-de-ser; neles reside o saber de que nada se pode fazer com os instantes da vida senão aceitá-los ou ressignificá-los ou, ainda, transformá-los — este último sob a ciência de que só se pode mudar a si mesmo e nunca o outro ou o passado. Partindo desta ciência, as emoções mais hostis encontram o equilíbrio preciso para se manifestarem sem alarde — e as emoções eufóricas também, pois engana-se aquele que pensa que, sobremodo as emoções prazerosas, não precisam em si mesmas de dosagem; elas, na verdade, são estritamente responsáveis pelos níveis alarmantes das emoções hostis, pois elevam demais o nosso espírito e declinam com rapidez exacerbada, causam uma queda brusca e trazem, com isso, consequências destrutivas para a psique humana.

Deste modo reitero que, neste texto, a explicação dos termos “anestesia” e “indiferença” está, tão somente, na redução da sensibilidade e na tranquilidade da compreensão. É o silêncio e a solidão como estado de espírito e modo-de-ser que proporcionam a redução da sensibilidade — trazendo o equilíbrio e a noção consciente das coisas, situações ou pessoas que nos afetam; enquanto a tranquilidade da compreensão nos permite enxergar e entender nossos limites e nossos tempos, pois que há tempo para todas as coisas e nossos limites precisam ser cuidados e protegidos — haverá sempre o tempo adequado para ultrapassá-los também. Desconsiderem, para manter a sanidade, a ideia errônea de que devemos, constantemente, sermos pessoas melhores — desconsidere ainda mais o significado generalizado do “ser uma pessoa melhor”; ser-melhor requer, profundamente, cuidado e respeito consigo mesmo e estes dois são encontrados e aflorados no Silêncio e na Solidão.

Sim, é um privilégio vivenciar a anestesia da indiferença enquanto silêncio e solidão; quaisquer mudanças em larga escala sempre se iniciam no individual, pois que o exemplo é inestimável e nele está o verdadeiro aprendizado. Aproveite o seu privilégio de poder ler este texto e pensar a respeito do que se apresenta a você; sua mudança pessoal refletirá na totalidade do mundo.

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Ecos Exíguos

Nobres fugas demais humanas | nascentes às estações - impróprias, | o Ser pelos átimos d'aspiração, o ser | pelos vazios tão íntimos, tardios | e iguais…

 

Nicola Samorì

 

Nobres fugas demais humanas
nascentes às estações — impróprias,
o Ser pelos átimos d’aspiração, o ser
pelos vazios tão íntimos, tardios

e iguais aos sopros do Nada
que euforem na carne as promessas
do sangue às veias — a máquina — 
um canto irrisório, um desfecho;

Amparam-se, pertuitos, em sentidos
criando-se às molduras — simulacro,
mas a verve da solidão não reside

e nem a brasa da fissura se acende
nos mortais da letárgica razão
na ruína de seus vãos pressupores.

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Cinzas Feminis

Queimada estivera | nos tempos d’outrora | quando o homem da era | salvá-la, ó, Pandora, | jamais, vil, quisera;…

 

Ivan Kramskoy - A Girl with her hair unbraided (1873)

 

Queimada estivera
nos tempos d’outrora
quando o homem da era
salvá-la, ó, Pandora,
jamais, vil, quisera;

No vento ao arbusto
 — o mais espinhoso — 
tuas cinzas, tão justo,
pelo tempo ditoso
às raízes se onusto

e na terra, a morada,
semeara a tristura
nos caules, calada,
veio a ser e perdura
Rosa Rubra alada

onde dás teu perfume
e colecionas no acúleo
o sangue do gume
do homem hercúleo
perdido, azedume,

no mais alto vazio
sem migalhas de alívio
e sem deus ou verdume.

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Galardão para minha humanidade

Corpo em vasta poética e flamância | Girassóis escolhidos, mente sã, | Ouço o lago dos sonhos de mia infância… | Ó Verão, dê-me o doce da maçã!…

 

O Sorrow, Katherine Stone

 

Corpo em vasta poética e flamância
Girassóis escolhidos, mente sã,
Ouço o lago dos sonhos de mia infância…
Ó Verão, dê-me o doce da maçã!

Quão suave a alvorada se estendia,
Como o sol aquecia os corações
Era boa a canção do fim do dia
Mesmo em mil amarguras, solidões…

Sempre os quadros da mente — inefáveis — 
Sós serão cenários confortáveis
Neste olhar real do haver vulgar,

Pois vagar pelo áureo imaginável
É razão que mantém-me suportável
Neste Nada que ferve a me chagar.

 
 
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Memórias da primeira grande guerra

Ao leito que me tem há tantos anos | conto as áridas noites do passado, | jamais trarão sereno sonho alado | meus ares tão perdidos, levianos;…

 

Zdzisław Beksiński

 

Ao leito que me tem há tantos anos
conto as áridas noites do passado,
jamais trarão sereno sonho alado
meus ares tão perdidos, levianos;

Ao berço que me teve n'outras eras
de infantis fantasias inocentes,
rogo tenhas piedade destas meras
loucuras de velhices decadentes;

Meu rosto enrugado de horrores
por lembranças do sangue denso e rubro…
O soturno temor  — turvos calores —
rasgando-me por dentro no delubro;

Escondido e afetado eu vislumbrei,
pelo culto de face inominável,
entidades erguerem-se, bem sei,
silentes em poder inigualável;

Semblantes símeis aos sujos abutres
e de corpo com vísceras à vista,
seus eflúvios carníferos, agrores!
Piores que o pavor novecentista;

Respingos de salino ardor sem dós,
tantas almas no antro sanguinário!
Eu queria não ter visto este cenário
que as bestas eram como somos nós!

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Suave Lamúria

Lua nívea e cinérea | Tua penumbra m’encanta | Ó, ao Sol, tão etérea! | És puríssima manta; | Teu tenro alumbrar | Feito para o semblante | Não alcança o olhar…

 

A Noite Estrelada, de Vincent van Gogh (1889)

 

Lua nívea e cinérea
Tua penumbra m’encanta
Ó, ao Sol, tão etérea!
És puríssima manta;

Teu tenro alumbrar
Feito para o semblante
Não alcança o olhar
Destes grãos petulantes;

Dói-me o peito cansado
Mas sou grão ou semente?
Noite míngua, o fado,
Canta triste e ardente;

Cega busca por deus
Mente humana agitada
Somos vales e nada

Tão perdidos… Adeus…
Nos pesares tão meus
Farei minha morada.

 
 
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Árduo Ponderar

N'algum lago entre arvoredos | O encontrar da permanência | Das alvas cores da quietude | O orvalhar-se em alvorada;…

Kanashibari Maya Kulenovic (?)

N’algum lago entre arvoredos
O encontrar da permanência
Das alvas cores da quietude
O orvalhar-se em alvorada;

Fenômenos do firmamento
Silenciando o cerne frígido
Em seu aspecto sonante
Frescores da antemanhã…

Dorme ao dorso solitário
Um buscar guiando em ermo
Onde o oásis se desvela
Poente ausência de sentido.

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Duro cárcere, sombras da minguança…

Vês que o riso prevê dificuldades | Quando os dias desabam friamente | Mesmo em ápice, a glória, descontente | Não desfaz emoções das finidades,…

Vês que o riso prevê dificuldades
Quando os dias desabam friamente
Mesmo em ápice, a glória, descontente
Não desfaz emoções das finidades,

Ao contrário, resguarda na memória,
Só se aceita a ledice por costume
Nunca o verso nascera, na história,
Desta fé que desagua em grande lume;

Sempre vem o regalo quando o mar
É vistoso e demonstra mansidão
Mas a luz se negrume n’um piscar
Manda as nuvens d’angústia ao coração;

Vês que é fardo, é fado, languidez
Não resiste — a aurora — vir a ser
Nem a calma e a penúria, a torpecer
Nem a noite obscura em morbidez.

 
 
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É destino a aspereza de minh’alma

Negra e rútila seiva de inquietude | vinda deste silente enfraquecer, | mostre o ser que me habita em completude…

 

Nicola Samorì, Maddalena (2010)

 

Negra e rútila seiva de inquietude
vinda deste silente enfraquecer,
mostre o ser que me habita em completude
pelo ermo e sombrio entristecer,
diga, pois, o que sei da infinitude
deste tão permanente aurorescer
Que, nas trevas, me faz… a completude…

Não me nego a verdade da existência,
sempre verte outrossim o lacrimar
e sozinha no peito a divergência
de mil noites perdura em abismar;
e se busco o rogar em complacência
Esperanças exalam o afleumar
P’ra depois me rasgar em dissidência…

Volto como enfim devo: alheável
pelo mundo e seus símeis habitantes
e doída em sentido inexorável,
reconheço os caminhos dissonantes;

Nos desertos me amargo e me afago
em martírios e em tanta alacridade,
esplendores da infância n’um imago:
Solidão de soturna eternidade.

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