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Quanto o tempo resiste na memória?

Ó, dos féis que amarguram o meu cerne | estes ventos pretéritos estão, | pois me guiam n'outrora que concerne | às belezas que nunca voltarão, | mesmo sempre almejando que se eterne,…

 

Skulls Painting - Skull Rose by Alex Rios

 

Ó, dos féis que amarguram o meu cerne
estes ventos pretéritos estão,
pois me guiam n'outrora que concerne
às belezas que nunca voltarão,
mesmo sempre almejando que se eterne,
vejo as sombras da idade em seu clarão,
são-me, tais, a penúria de meu cerne;

Sinto as marcas nascendo em minha fronte,
todo pássaro canta lentamente,
tal nostálgica aura é horizonte,
minha essência parece mais clemente,
peço e rezo que exista alguma fonte
p'ra trazer-me, os prelúdios, ternamente,
plenos ares do estro como ponte;

Mesmo embora eu fosse solitária
— como sou desde então, mas em tristura —
lá havia uma mágica lendária
qual vestia em mim íntegra armadura;

Era árdua, porém, revigorante,
neste agora se faz fastidiosa,
tudo pende em sonhar nadificante,
só o fino lembrar mantém-me airosa.

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A necessidade de termos empatia

Falta-nos Empatia. Empatia é enxergar a constituição subjetiva, histórica e social de cada pessoa que existe no mundo, independente de nossa opinião pessoal a respeito…

 
 

Falta-nos Empatia. Empatia é enxergar a constituição subjetiva, histórica e social de cada pessoa que existe no mundo, independente de nossa opinião pessoal a respeito desta pessoa ou de seus comportamentos e princípios. Além disso, Empatia é Tolerância e Reflexão e, mais ainda, é o ato de colocar-se como protagonista da realidade humana e não somente da sua realidade individual.

Um exemplo para ilustrar isso é o tipo de justiça que desejamos para aqueles que são criminosos. Tendemos a acreditar que a justiça ideal é a morte ou o sofrimento e, se alguém se dispõe à empatia diante desses sujeitos, logo esta pessoa empática é considerada fraca por ter “compaixão” e “defender” criminosos. Isso é sim um grande equívoco!

Empatia não é Compaixão. Se fosse, não se chamaria Empatia, se chamaria Compaixão. Colocar-se no lugar do outro é permitir-se refletir com vastidão sobre tudo aquilo que compõe a humanidade daquele ser, inclusive o sistema em que este ser está inserido. Ao contrário do que muitos acreditam, ter Empatia não significa aceitar as pessoas como elas são sem questioná-las, tampouco significa sentir piedade desconsiderando o mal que elas causaram às outras pessoas.

Ter Empatia é desenvolver em si mesmo a capacidade de entender a amplitude das situações, tanto pelo lado individual de cada um dos envolvidos, quanto pelo lado coletivo — o que engloba cada um de nós, mesmo que a questão a ser avaliada não esteja relacionada diretamente com a gente.

Voltando ao caso de um criminoso, vamos dar-lhe um contexto, ele é um homicida que acabou com a vida de todas as pessoas inocentes dentro de um restaurante em algum país bem longe daqui. O que eu tenho a ver com isso? É evidente que quem está mais envolvido nessa situação é o povo daquele país, as famílias das vítimas e seus respectivos círculos sociais, mas, nós enquanto seres humanos, precisamos da Empatia para considerarmos os erros que aquela cultura cultiva, pois, ninguém nasce homicida e, se nasce, por que e como encontra espaço para se desenvolver a ponto de chegar a concretizar tamanha barbaridade?

Empatia é questionamento. Empatia é conhecimento. É saber que as pessoas não possuem as mesmas oportunidades, tampouco o mesmo nível de consciência. Vamos falar sobre ter consciência: Ter consciência é ser capaz de reconhecer, em seu comportamento, os pontos falhos e, principalmente, ser capaz de entender o porquê é importante seguir outros caminhos e mudar.

Mais um exemplo: Um ou uma jovem percebe, após o término de seu primeiro namoro, que ele ou ela possuía atitudes desagradáveis que sempre constrangiam seu parceiro ou sua parceira; o trauma do término permitiu a essa pessoa que ela decidisse não cometer os mesmos erros da próxima vez que se relacionasse intimamente com alguém. Dentro dessa situação nós temos muitas capacidades desenvolvidas que são privilégios de poucos: Observação — tanto de si mesmo como do contexto em que se está inserido — , Autopercepção — entender seus sentimentos, erros e acertos — , Autoanálise — questionar seus erros e reconhecer seus acertos — e Empatia — colocar-se no lugar do outro buscando compreender a realidade dele.

Para que uma pessoa consiga fazer este tipo de autoinvestigação, ela precisa ter, no mínimo, uma educação e um apoio psicológico — essa é a regra e, se existe exceção, devemos tratá-las como a exceção que são. Tendemos a generalizar exceções de modo a torná-las como molde para as regras, isso é um grande erro; uma pessoa que não tem apoio psicológico ou educação pode sim ser capaz de desenvolver tudo isso a partir de sua própria busca por educação e apoio psicológico, no entanto, isso é raro e, enquanto raridade, é exceção.

Nós somos seres coletivos, por mais introspectivos ou antissociais, sem os outros não somos capazes de evoluir, de aprender e de conhecer a vida; precisamos do coletivo, precisamos do grupo, precisamos de pessoas ao nosso lado e que principalmente nos dê apoio na caminhada da vida — este apoio acontece — e esta é uma das formas em que ele se apresente — na troca de conhecimento que nos levará a compreender melhor nossas emoções, percepções e sentimentos; além de nos permitir entender que o mundo não gira em torno de nosso umbigo.

Portanto, se você entendeu o papel da Empatia, então você sabe que você é um indivíduo privilegiado, enquanto indivíduo privilegiado, sua voz pode ir mais longe, não a utilize para segregar, para vulgarizar, generalizar ou menosprezar; use-a para promover mudanças valiosas e ponha em prática os princípios da Empatia. Por mais que a informação pareça estar disponível a qualquer um, nem todos estão prontos para digeri-la e nós, todos nós, temos responsabilidade nisso.

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Melancolia de Verão

Delgado violino de Nunquam | Às sombras d'esta oca amargura | Fizera florir aelinos-nūsquam | Rebentos de constante tristura; | "Nas venturas ternuras virão"…

 

George Frederic Watts - Ellen Terry ('Choosing') oil on strawboard mounted on Gatorfoam, 1864

 

Delgado violino de Nunquam
Às sombras d’esta oca amargura
Fizera florir aelinos-nūsquam
Rebentos de constante tristura;

“Nas venturas ternuras virão”
digo às cálidas chuvas do estio
que entardecem na cor de açafrão
suspirando perpétuo vazio;

Mas tão quedas tais dunas de mim,
ascendidas no ermo onde estou,
vão contando-me as gotas carmim
tão vertidas no abismo que sou.

· · • • • ⊰ღ⊱ • • • · ·

Do latim:"Nunquam" (nunca)
"Aelinos" (canto fúnebre)
"Nusquam" (lugar nenhum)

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Mal Devenir

Aflitos estão, mergulhados n'ausência | dormindo no véu do sonhar nebuloso | guiando o viver na ilusão-reticência, | cativos, em vão, do torpor deleitoso…

 

Salvator Rosa ( 1615-1673 ) - L'Umana Fragilità

 

Aflitos estão, mergulhados n’ausência
dormindo no véu do sonhar nebuloso
guiando o viver na ilusão-reticência,
cativos, em vão, do torpor deleitoso;

As flores do alvor, em licor escarlate,
respingam sinais, menosprezam-nas, tolos…
Semblante vital d’um triste calafate
vedando, tão só, p’ra sorver desconsolos…

São eles os quais, pertencentes ao mundo,
respiram, fiéis, decadência vestal,
e vão sucumbir em valores, no fundo,
repletos de fel… no vazio imortal.


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Efígies

Teimosia de luto, calada | fundamenta somente o vazio… | eu vislumbro o silêncio, nevada, | na pureza da ausência de brio; | Na paisagem que fúnebre canta…

Teimosia de luto, calada
fundamenta somente o vazio…
eu vislumbro o silêncio, nevada,
na pureza da ausência de brio;

Na paisagem que fúnebre canta,
questionando me vejo, confusa,
de quem é a tragédia, a manta
sobre o corpo debaixo da musa?

Mas por vezes o escuro cintila…
Nada vejo ou escuto, ventila,
o perfume de areia, de morte;

A permuta das almas murmura:
“Condenada no ciclo d’agrura
habitando-se em dores-consorte”.

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Regressão Lastimosa

Solidão, com perpétuas ternuras, | adentrando silente, prostrada, | simulando que sempre, funduras, | estivera presente, deixada; | Por constantes desejos estive…

 

Edvard Munch - Nude (1913)

 

Solidão, com perpétuas ternuras,
adentrando silente, prostrada,
simulando que sempre, funduras,
estivera presente, deixada;

Por constantes desejos estive
esforçando-me como nutriz…
esculpindo morada, sustive,
um sentido: fazê-la feliz;

Entretanto se vai, sobremodo,
ausentando-se neste seu modo
e voltando depois, com tristuras…

Quem me dera sentir que pertence,
que comigo, perene, mantém-se,
sem deixar fraquejar estruturas.

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Soneto d’Enfaro

Por mais que eu tanto insista na tendência | Debaixo das possíveis esperanças | Dezembro é-me d'angústia as alianças | Firmando um casamento por clemência…

 

Mateo Cerezo the Younger - Magdalena (17th century)

 

Por mais que eu tanto insista na tendência
Debaixo das possíveis esperanças
Dezembro é-me d’angústia as alianças
Firmando um casamento por clemência;

Perdão senhores, santos, cada fé;
Estou refém dos pobres pensamentos
Culpados são, pois, trazem tal maré
À vista d’um horror por sacramentos;

Qu’estejam crendo, não vou me importar
Eu mesma invejo o vosso atenuar
Às cousas abismais d’esta existência;

Sucumbam aos anfêmeros afagos
Das rasas mãos do tempo, truques vagos,
Pois nada disso afasta a decadência.

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Elucubração

Mesmo estando ainda exausta | Prezo ao exílio próprio de mim | Prostrada ao cavar d’esta crusta | À angústia do abismo carmim; | Às veras dos sonhos devastados…

 

Daniel Murtagh - Kate

 

Mesmo estando ainda exausta
Prezo ao exílio próprio de mim
Prostrada ao cavar d’esta crusta
À angústia do abismo carmim;

Às veras dos sonhos devastados,
Sentidos ergueram-se a sorrir
Com seus rostos transfigurados
Por tal melancolia em vil devir;

Assim se foram os elos puros
E da música só a lira aos escuros
Sepultou-se em seus tristes versos,

Fenecido está agora o afã tolo,
Ah… se me servissem de consolo
Os lânguidos restos submersos.

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Modernidade

Bem longe no horizonte está minha alma | Sozinha vê todo este pranto ardente | Que transparente desce ao rosto quente | E ecoa langor triste à flora e fauna; | O mundo não é…

Jonelle Summerfield

Bem longe no horizonte está minha alma
Sozinha vê todo este pranto ardente
Que transparente desce ao rosto quente
E ecoa langor triste à flora e fauna;

O mundo não é mesmo como outrora
Nos sonhos de um talvez tanto ideal
No fim nos cobre em máscara vital
Que feita de mentiras nunca chora;

Tomamos nos cristais o vinho-escárnio
Jurando amores ao morto licórnio
À sombra d'uma infância sepultada

Caímos ébrios sobre nossa inglória
Uivando o que por dentro traz memória
Da amarga solidão fundamentada.



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Ausente

Projetar-se sempre em possibilidades de ser é a característica mais própria do que Heidegger denomina Dasein. Dasein é o modo de ser humano, indissociável do mundo. Por isso constantemente…

Dante Gabriel Rossetti - The Roman Widow (1874)

Dante Gabriel Rossetti - The Roman Widow (1874)

Venustas solidões quais me declino; vêm-me na compreensão de que estou rumo ao meu uno destino e, mais, confessam-me a ilusão dos campos infindos das sociáveis redes virtuais. Aprendo, como um inseto em metamorfose. Observo na ausência o revitalizar da força que há de retornar ainda mais sólida. Observo as palavras, elas me guiam.

No verso ou nas longas narrativas estão as palavras de meu fundamento. A Escrita é a razão primeira de tudo, o alvor inicial, a única luz possível, sob ou sobre a época, sob ou sobre o movimento.

Da Poesia um gole basta para a eternidade sã embebecida. Como a Escrita, ela perdura sem esforço quando genuína. E de toda a mundanidade estou ausente, com exceção da linguagem, do conhecimento, e pergunto-me por esta atual realidade, sobre quais são os vales que significam… e o que se faz sentido aos olhos meus…

Penso nos antecessores, pondero em seus traços; o que sou no tanto que outrora já fora? Quem sou n’este oceano de beleza vasta em letras pretéritas? A solidão responde-me cautelosamente e digníssima: eu sou idioma a idioma, expressão a expressão, eu sou a linguagem, o verbo, a sílaba, a gramática; sem esforço, sem medo, mesmo errônea e, ainda, tão criança.



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Desperta, menina!

Desperta, menina! | Há sonho que termina, | Mas podes, pois, ainda | Sonhar mais de uma vez; | Desperta, menina! | Pega uma tangerina! | Sente mais d’esta tua vida!…

Desperta, menina!
Há sonho que termina,
Mas podes, pois, ainda
Sonhar mais de uma vez;

Desperta, menina!
Pega uma tangerina!
Sente mais d’esta tua vida!
Aquietes o febril de tua tez;

Desperta, menina!
Vem cá e lá, vem só, sorria!
Se doer, pois, sê bem-vinda,
No verter d’água em fluidez;

Desperta, menina!
Deixe-se entregar, pois finda,
Esta aurora destes dias,
Desfrute a tua lucidez.

 


 
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