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Sonurista da Morte

Nas grotas d’uma lôbrega passagem, | A balça gris e sôfrega, que à vista, | Ornava em medo fúnebre a viagem | Aos versos d’um plangente sonurista;…

Nas grotas d’uma lôbrega passagem,
 A balça gris e sôfrega, que à vista,
 Ornava em medo fúnebre a viagem
 Aos versos d’um plangente sonurista;

Lagura enegrecida e nau minguada,
 Um’áura tão morbígera envolvia
 Minh’alma dolorida e desgraçada,
 Enquanto ele, em poema, me pre’nchia

Seu canto-recitar… Ó! Que tristura!
 A cada rima, de algo eu me esquecia
 Sumindo, n’aflição de mi’a fissura…

“Bem-vindo ao fim” — ouvi e pertencia
 Ao ser de manto negro na paragem,
 Olhei o sonurista, uma miragem?
 Um mármore, tão só, me conduzia.



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Íntima Tristura

Pressinto as outonais aragens frias | No âmago e às janelas, devagar… | O belo movimento em pradarias | Tão símeis aos meus sonhos — meu lugar;…

Pressinto as outonais aragens frias
No âmago e às janelas, devagar…
O belo movimento em pradarias
Tão símeis aos meus sonhos — meu lugar;

Saudosa alma silente e melancólica,
Efêmeros ocasos: meu langor…
No onírico resido e quão simbólica
A vida é n’esta gênese do alvor…

Quão índigo o pulsar do coração…
Quiçá no sopro frígido eu entenda
Qu’estou fadada a tal introversão…

Protejo-me em exílio e a minha senda
Compr’ende-me a lhaneza tão soturna
E o méleo riso e a tenra fé noturna,
A sós, sob minha lôbrega oferenda…



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Soledade

Kalimba lacrimosa em noite fria: | Sonido de lamúria em languidez, | Se o toque lhe conduz e acaricia | Silêncios mui se prostram — placidez...

 

Foto de Sara Melissa de Azevedo

 

Kalimba lacrimosa em noite fria: 
Sonido de lamúria em languidez, 
Se o toque lhe conduz e acaricia 
Silêncios mui se prostram — placidez... 

Ouvir-te é calmaria e desalento, 
Miúdo regozijo, colo e leito, 
Conforto de pesar, sopro do vento, 
Sonura que assimila a dor do peito... 

Kalimba, quão sensível me percebo... 
Por vezes m’espaireço refletindo 
Que o mundo, porventura, é só placebo... 

 E às vezes tudo está coexistindo, 
Enquanto em minha mente um universo 
É só, pedaço ímpar, submerso, 
N’um tanto que silente vou sentindo... 

Escrito em 22 de setembro de 2024 



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Sê Éden

Floresça em direção ao vivo sol… | Que o lume da manhã, o gris frescor, | Conduzem quietude ao teu lençol | De cândido conforto e tenro ardor;...

Floresça em direção ao vivo sol… 
Que o lume da manhã, o gris frescor, 
Conduzem quietude ao teu lençol 
De cândido conforto e tenro ardor; 

Floresça sempre douta do qu’é simples 
Se sob a escuridão vir a ficares 
Acalma e regue as raras e absímiles 
Que fazem tu’essência de mil mares; 

Permita-se fanar quando preciso, 
É cedo crer que não renascerás; 
Adube com cautela o paraíso… 

Jardim d’esta tu’alma, então serás 
A lótus e o alvo lírio e a bela rosa, 
E as águas, teu pomar, poema e prosa… 
Silêncio-entardecer vislumbrarás. 

Escrito em 23 de agosto de 2024



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Sonura Aos Mortos

Memórias d’estas mil alcovas lôbregas, | Perlustro os epitáfios, os semblantes, | Há brandos anjos, murchas rosas sôfregas, | À morte: Os meus silêncios lacrimantes…

Memórias d’estas mil alcovas lôbregas, 
Perlustro os epitáfios, os semblantes, 
Há brandos anjos, murchas rosas sôfregas, 
À morte: Os meus silêncios lacrimantes… 

Epígrafes datadas de saudades… 
Soturno violino à sete palmos… 
Pretérito e futuro, ambiguidades… 
Um último versar dos raros salmos… 

Mil sonhos cujo rastro se prostrou… 
O Efêmero é, da vida, a cortesia 
Que dá sabor ao doce que amargou 

Lembrando-nos que houvera poesia, 
E mais um mausoléu longínquo conta: 
No fim aquele alvor sempre desponta”, 
Mas nunca há de brindar-nos c’o ambrosia… 

Escrito em 6 de setembro de 2024 



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Sonura d’Inverno

Cinéreas nuvens, frio —  e a quietude, | A fina chuva, o aroma: há sopa quente | Nos prédios, casas, lares: placitude; | Debaixo, em cobertores — quiescente;

Morning Mist Oil Painting - Eduard Panov

Cinéreas nuvens, frio —  e a quietude,
A fina chuva, o aroma: há sopa quente
Nos prédios, casas, lares: placitude;
Debaixo, em cobertores — quiescente;

A névoa esparge calma — anoitece,
Cidade, outrora célere, amansou,
E a estranha sensação que se alvorece
Da vida, é a nostalgia — que invernou;

É julho… o tempo passa e as horas vão,
E as lágrimas me regam ternamente…
Humanos esplendores, que canção!

O sono pesa as pálpebras e, à mente,
Habita as fantasias das infâncias,
Do sonho ao despertar, equissonância
É o nosso mais hermético presente.



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Requiem aos Idos

Por vezes em meus sonhos turbulentos | Sentires do passado me retornam, | São como frágeis sombras, tenros ventos | Que espargem às paisagens que me ornam;…

 

Por vezes em meus sonhos turbulentos
Sentires do passado me retornam,
São como frágeis sombras, tenros ventos
Que espargem às paisagens que me ornam;

Aspiram, porventura, um libertar
Dos dédalos tão lúgubres da mente,
Meadas opressões, vir respirar,
Na paz da superfície do presente;

Compr’endo-os à medida em que desperto,
É símil ao fitar d’um outro alguém
Qu’em lágrimas, em prece, vê-se incerto

E enseja estar no sonho d’um outrem
De modo a amanhecer n’algum instante
A ter, então, o alívio fulgurante
Do “apenas pesadelo, nada além”.

 


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Segredo Feminil

Tu sabes que acostuma ver que o rosto | Mui gera mais encanto que meus versos? | Que o corpo…

Tu sabes que acostuma ver que o rosto
Mui gera mais encanto que meus versos?
Que o corpo qual pertenço, se do gosto,
Por vezes oblação de olhos perversos?

Até cultivaria em mim o rancor,
Mas algo n’alm’essência minha veta,
Pois lídimo sentir tenho em fulgor
Que impede a mim tecer injúria inquieta,

Talvez minhas verdades, meu perdão,
Escondam certa mágoa, ou estranheza,
Que vela esta mi’a vaga solidão,

Que beija esta emoção de mor tristeza
Enquanto nunca sinto pertencer
Ao mundo que corrompe a absorver
Em mórbido silêncio a mi’a pureza.



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Ao Lacrimar

Perpétuo Lacrimar, a solinura | É páramo de véus na cor marfim; | Ouvindo estás, meu cântico-tristura, | Enquanto a lira tange em silencim?…

Perpétuo Lacrimar, a solinura
É páramo de véus na cor marfim;
Ouvindo estás, meu cântico-tristura,
Enquanto a lira tange em silencim?

Tu qu’inda no sonhar do meu lamento
Perduras tão sombrífero e ardente…
Ó… vasto e quebradiço, ao léu do vento,
Orvalhas-me o contento remanente…

Est’alma é nós — condoída imensidão!
Perene Lacrimar, és meu amásio,
Conduzes desalento em algodão,

Vislumbras por cristais o teu copázio
Que tanto já transborda do manar
Que é nosso, vês, a pérola a brotar?
Pequena, orbicular, gema-calázio.

Conheça o significado de “solinura” ou “silencim” em Dicionário — Sara Melissa de Azevedo



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Há o Silêncio

O silêncio jamais se desfalece | E mesmo o falatório que oprimindo | Recua-o a si mesmo restringindo | Não o faz menor, pois mais o engrandece;…

 

Silence, 1800 - Henry Fuseli (Swiss, 1741–1825)

 

O silêncio jamais se desfalece
E mesmo o falatório que oprimindo
Recua-o a si mesmo restringindo
Não o faz menor, pois mais o engrandece;

Tal aura soberana é permanente
Detrás de todo o som vai se expandindo
É como um universo advertindo:
"Cingindo o tudo eu sou onipresente";

Terrífico mistério, mas bem-vindo
Seria aos deuses, pois, equivalente?
Quiçá maior e então antecedente?

Estariam a verdade omitindo?
Que o tal silêncio é a eternidade
Princípio, meio e fim - totalidade
Razão de ainda estarmos existindo.

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