Sonura d’Inverno
Cinéreas nuvens, frio — e a quietude, | A fina chuva, o aroma: há sopa quente | Nos prédios, casas, lares: placitude; | Debaixo, em cobertores — quiescente;
Morning Mist Oil Painting - Eduard Panov
Cinéreas nuvens, frio — e a quietude,
A fina chuva, o aroma: há sopa quente
Nos prédios, casas, lares: placitude;
Debaixo, em cobertores — quiescente;
A névoa esparge calma — anoitece,
Cidade, outrora célere, amansou,
E a estranha sensação que se alvorece
Da vida, é a nostalgia — que invernou;
É julho… o tempo passa e as horas vão,
E as lágrimas me regam ternamente…
Humanos esplendores, que canção!
O sono pesa as pálpebras e, à mente,
Habita as fantasias das infâncias,
Do sonho ao despertar, equissonância
É o nosso mais hermético presente.
Melancolia de Outono
Pois que a vida me parece decadente… | Ó! Ser que voa níveo entre flores | Compr’endes poesia em mi’as dores? | Estou já delirando lentamente;…
Victor Gabriel Gilbert (1847 - 1933) - Resting, c.1890
Pois que a vida me parece decadente…
Ó! Ser que voa níveo entre flores
Compr’endes poesia em mi’as dores?
Estou já delirando lentamente;
Só n’altura da inefável estação
Emanas tu o bálsamo nectáreo
Criatura de tal rara composição
Reluzes como quartzo solitário;
Quão harmônica é a tua simetria
N’este teu rastro de adorável leveza;
É límpida em graça a cinesia,
Estás longe de sentir a estranheza
Que aquém, anfêmera, cresce
Segredando sua morta sinfonia,
Enquanto a humanidade se aquiesce
Sob a própria, e triste, astenia;
Como bênção daninha é a razão
Que recria teu invólucro de outrora
E faz-me ponderar tua mutação
Vinda ao despertar na certa hora;
Eu que me assemelho me tumulo
— Ó, como vem pesar de angústia a mente! —
Na eterna permanência em meu casulo,
Pois que a vida me parece decadente.
Marcescível
Há de chover hoje, à tarde, | Este sopro tão tenro segreda | Cá o sol pobrezinho não arde | Seu adeus gradativo arvoreda; | Ó azul melancólico, cante! | As nuvens se unem, me basta…
Arthur Parton - Boating by moonlight (1878)
Há de chover hoje, à tarde,
Este sopro tão tenro segreda
Cá o sol pobrezinho não arde
Seu adeus gradativo arvoreda;
Ó azul melancólico, cante!
As nuvens se unem, me basta
Que o dia assim seja infante,
Pois ao imo adentro se vasta;
Acinza-se os céus da redoma
Mais um, do outono, sintoma
Aflições que desfloram-se, nuas,
No meu peito há triste carvalho
Em secura, uma prece ao orvalho,
Rega as dores tão minhas, tão cruas…
Melancolia de Verão
Delgado violino de Nunquam | Às sombras d'esta oca amargura | Fizera florir aelinos-nūsquam | Rebentos de constante tristura; | "Nas venturas ternuras virão"…
George Frederic Watts - Ellen Terry ('Choosing') oil on strawboard mounted on Gatorfoam, 1864
Delgado violino de Nunquam
Às sombras d’esta oca amargura
Fizera florir aelinos-nūsquam
Rebentos de constante tristura;
“Nas venturas ternuras virão”
digo às cálidas chuvas do estio
que entardecem na cor de açafrão
suspirando perpétuo vazio;
Mas tão quedas tais dunas de mim,
ascendidas no ermo onde estou,
vão contando-me as gotas carmim
tão vertidas no abismo que sou.
Do latim:"Nunquam" (nunca)
"Aelinos" (canto fúnebre)
"Nusquam" (lugar nenhum)
Nos lagos da saudade há tenro orvalho | De lágrimas nativas do meu ser… | Oníricas venturas são-me atalhos | P’ra sôfrega distância combater…