Contos, Terror/Horror Sahra Melihssa Contos, Terror/Horror Sahra Melihssa

O Epílogo Anunciado

Deito-me às páginas, rubras letras cursivas; no âmbito dos sonhos habito tendo à alma o eflúvio de minha própria seiva. Nas sombras oníricas eu o encontro…

Florence Fuller - Inseparables (1867-1946) Detalhe

Deito-me às páginas, rubras letras cursivas; no âmbito dos sonhos habito tendo à alma o eflúvio de minha própria seiva. Nas sombras oníricas eu o encontro, alado ser notívago e esquálido, beleza núrida¹! Traz consigo o semblante da luz sombria e ao redor de seu esplendor há flores mortas. Olhos felinos, besta humana de nume composição; belíssimo! Mórbida beleza para uma única busca inebriante: a minha sujeição. Hesito, ainda que atordoada; ele me chama à sua glória abissal e, no meu observar tão extático — a sentir que me rarefaço a cada instante — , o livro que protege as minhas letras — e o meu espírito — se evidencia no pomo solene da besta que me chama.

Ao fitá-lo, desperto; acordo fulminante e certa de que devo escrever o que vi… o que senti…, no entanto não há mais sangue à pena, nem folhas ao diário que tão súbito revela-me ausente. Roubado! Ó, sim, levado de mim tal como se leva a alma d’um moribundo. A criatura o levou pelos meus pesadelos com a sua dantesca imagem fascinante quando me deixei ludibriada em seu manto de revelação; estava preso ao pomo de seu poder… Meu pobre imo… meu pobre imo em letras e sangue estará na eternidade sobre o altar de condenados n’um templo sombrio n’algures do universo… a menos que eu o reencontre no desvanecer do sono profundo, o sono profundo é a única escolha.

Vozes sibilares do inverno que se esparge — fogo algum crepita, veste alguma protege. Uma única vela — a única luz — se apaga pelo sopro das cordilheiras. Outro espaço… caminho pelo macio gelo enquanto sinto meus pés necrosarem. Preso ao pinheiro, com arames envoltos a carne fresca animal, uma única página do que se perdera de mim, à força, pela atrocidade do apoteótico. “Estou no sétimo sono, à sétima noite, sob sete palmos, ao sétimo cântico do limbo.” — Li-o, era a minha própria letra cursiva, rubra-enferrujada, reli-o, era a minha própria voz no pântano obscuro do sonhar que desfazia. Outra noite sem sucesso; a cada hora meu corpo se desprendia da alma, a cada ínfima hora afastada do centro de meu ser, das palavras quais me guiam nas sombras do novo mundo, o nadificante núcleo da ausência crescia.

Terceiro sono, lua cheia. Luminosidade dos vales onde o pecado é a sombra da inocência. Meu corpo rasteja pelo labirinto negrume criado de altos muros e árvores mortas de estatura gigantesca; sinto minha respiração densa, sufocada pela aura maligna que descansa no âmbito onírico que me cinge. No entanto, no pousar de uma coruja misteriosa em galhos secos do último carvalho fitado pelos meus olhos ardentes, uma folha em seu bico cai como pena sobre meu semblante já tão consternado. Está vazia. A nulidade que compõe suas entranhas vocifera meu horror pálido e posso visualizar com a perfeição de uma águia a destruição iminente de meu diário roubado pela criatura alada. Desperto, terceiro sono, maldita lua cheia.

Sem força alguma, debaixo de minha própria vitalidade que símil ao vapor se esvaía de mim. Esperei pela quarta imersão no pulsar do entardecer e ela, tão atemporal, não tardara; no quarto plano sonial respirava um dia pálido e seco, nenhuma criatura soturna poderia contemplar a desértica fauna e flora enquanto o astro, no firmamento, no seu ápice cuspia fogo e lava. No horizonte, entretanto, destacava-se uma cruz sem réu; uma cruz que sussurrava meu nome na melancolia de uma elegia. Fui levada até ela frente ao meu desejo peculiar de ouvi-la mais de perto, fui levada pelo sopro quente impetuoso que tão cálido tocava-me a ferir cada centímetro de minha cútis. “Aqui jaz O Diário” — eu li sobre o túmulo mórbido. Em desespero cavei com minhas mãos em carne viva e como, como doía! A dor era real e hoje, ainda, persiste. E mais real que minha decadência, à sete palmos: o diário, o meu diário, rachado, rasgado e ferido, repousava morto.

Meus olhos abriram e levantei meu tronco, célere, a janela do quarto aberta trazia o frio das sete horas da noite. Uma hora de sono, uma mísera hora, e minhas mãos cuja areia adentrava pela carne exposta não puderam alcançá-lo na fundura da cova tórrida e seca. Meu pranto em horror faminto, lágrimas de adeus e agrura. “Por quê?” — bradei ao vazio. “Eu que nada fiz contra deus algum, nem à vida pacata reclamei ou ao caos da solidão fui contra em meu abismo… Eu análoga ao ser mais desprezível, ao verme, ao grão, ao escarro do átomo… tudo o que significava para minha ínfima constituição era o livro que me guardava a alma e ainda assim dele fui desprendida…” — lamuriei. Curvei-me, então, à insônia e nela me obriguei a morar enquanto nenhuma resposta atravessava-me os sentidos.

Quinta noite, escleras avermelhadas, pupilas dilatadas. Sonho algum. E assim da quinta à sexta noite, quebrado o silêncio pelo tênue som que vinha, eu sei, cobrir meu corpo com a mortalha que eu intuía, mas, não ainda; pois que do som veio a medonha criatura de beleza tamanha tal como a morbidez; o homem deificado, alado, de essência animal, felino, no plano da existência real, longe dos sonhos, longe dos pesadelos. Aterrorizada, às pressas para o canto do quarto lúgubre, buscando com tanto afinco um esconderijo. Nenhum diário no pomo, desta vez, eu me preparei para o meu fim, sete palmos, sétima noite. A ave-criatura-ser, besta celestial do inferno, revelou, portanto, no cântico do limbo, que o diário perdido fora perdido dele e de mim, ele que vivera pelo diário desde a página primeva quando nela dei vida, em letras conturbadas, a uma entidade protetora de todo e qualquer diário existente em terra humana. A força das palavras que me tinham o trouxeram, enquanto entidade deificada, mórbida e exuberante, atemporal e consciente; soubera da perdição do diário e em sonhos, profundos, tentou resgatá-lo pelo vínculo tão primitivo ainda que dele já não precisasse mais para se manter entidade-criatura.

Oh, mas não, nem mesmo ela e nem mesmo outro deus-demônio é capaz de curvar a linha da morte sem rompê-la e nem os céus, nem o inferno, nem a destrutiva humanidade poderia impedir que a hora chegasse e que o sepulcro tão fúnebre se adiasse para sempre. Ouvi, atenta, a dor da criatura-besta que tão logo ao dizer-me a verdade, desvaneceu-se à minha frente seguindo à imensidão cósmica de sua morada e deixando, como piedade, a vida retomada ao meu coração agora triste, profundamente amargurado em razão da amarga e fatídica verdade que eu não sou capaz de redigir com clareza, pois que meu luto, e minha saudade, ó sim, a minha lânguida solidão e o meu langor, estes sim são os únicos a possuir imortalidade.

¹ Núrido (adjetivo): Que possui profundidade soturna e aspecto sublime. VEJA O DICIONÁRIO

 
 
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Opscur no.2

Era bálsamo, era sorrateiro | Olhos turvos — citrino penumbral | Era dia, e mesmo dia, era hospedeiro | D’uma noite tão mórbida e abissal;…

Zdzisław Beksiński

Era bálsamo, era sorrateiro
Olhos turvos — citrino penumbral
Era dia, e mesmo dia, era hospedeiro
D’uma noite tão mórbida e abissal;

Quanto tempo eu fiquei naquele pranto?
Sem lágrima, sem gesto — oscilante
Sob o véu dum semblante em puro espanto
Oculta dentre a bruma agonizante…

Brusco o rasgo em mi’a mísera garganta
Nenhuma dor, porém tão fulgurante
A agônica emoção silenciosa…

Então como um sussurro proferi
O nome que em transtorno eu diferi
Dentre os gritos de súplica frondosa.

 
 
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Vurphor

Próxima à escuridão, lá, vislumbrei | Tão cintilantes pontos, verde-água; | Era tanto pavor aos que deixei | Debaixo da loucura — estranha frágua; | Gritos por alarde ao…

 

Luca Giordano - The Fall of the Rebel Angels - Detail (1660-1665)

 

Próxima à escuridão, lá, vislumbrei
Tão cintilantes pontos, verde-água;
Era tanto pavor aos que deixei
Debaixo da loucura — estranha frágua;

Gritos por alarde ao céu anunciado
Onde fulgurou o tal — o inominável
Vê-lo, assim? Através do véu nervado
Cuja centelha queima— incontestável?

Não o vi, mas sei que horrores eu senti
Ofusquei-me em tremor e... entendi
Todo aquele seu mórbido condão,

Arrastada com caos, eu despertei
Um sonhar nada mero — guardarei
De algum modo parece-me intuição.

 
 
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A Emersão Transtornada

Passando pelo arvoredo, Nanda estagnou ao sentir-se arrefecer e um fino arrepio assombroso tocou suas costas; sem perceber os seus próprios movimentos…

 

Thomas Couture - Portrait of a girl - COLAGEM

 

Passando pelo arvoredo, Nanda estagnou ao sentir-se arrefecer e um fino arrepio assombroso tocou suas costas; sem perceber os seus próprios movimentos, ela fixou os olhos na escuridão. A escuridão mais límpida e terrífica a fitava, chamando-a no silêncio, e quanto mais seus olhos mergulhavam-se naquele pélago, mais absorta ela ficava, cada vez mais… até que, no íntimo das sombras, um vapor escarlate se espargiu, lento e apavorante, e dele um espectro inominável emergiu transtornado em pesadelo hediondo. Nanda despertou, como num transe, nada havia à sua frente, então virou-se apressada para ir embora, mas o fino arrepio em suas costas, denunciando uma presença, continuou com ela desde então.

 
 
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Proteção

Oliver, seu gato, despertara cerca de cinco vezes dentro dos trinta minutos em que havia se aconchegado no agradável tapete felpudo. Nestes momentos, o felino…

Jonelle Summerfield

Oliver, seu gato, despertara cerca de cinco vezes dentro dos trinta minutos em que havia se aconchegado no agradável tapete felpudo. Nestes momentos, o felino olhava atentamente para a janela da sala, como se algo ali estivesse. Na sexta vez, inquieto, ele caminhou lentamente até o centro da sala, fitando a janela e externando um som vibrante, introspectivo e instintivo, para a defesa de seu território. Ana, ao ouvir aquele som, levantou-se do sofá reclamando dos gatos dos vizinhos que sempre vinham à noite. Ao passar pelo pequeno animal, que permanecia sentado, fez-lhe um afago e tão logo abriu a cortina para espantar o intruso do jardim. Imediatamente os olhos de Ana transtornaram-se em mórbido pavor, pois no jardim estava Oliver, esquartejado sobre uma poça de sangue.

 
 
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O Ônibus

Ela adentrou o ônibus desconfiada, ainda assim hesitou em perguntar se realmente um dos pontos de parada era aquele…

The Angel Appearing to the Shepherds (1833-1834) - Thomas Cole (American, 1801 - 1848) - Detail

Ela entrou no ônibus desconfiada, mas hesitou em perguntar se a rota passaria no ponto da sua rua. Sentou-se no último banco e esperou. Nada… O veículo ia ficando cada vez mais vazio, até restar apenas ela. Seguia por um trajeto sombrio e incerto. Deixou a vergonha de lado e se levantou para falar com o motorista. Porém, naquele exato instante, ele estacionou. Ao olhar para trás, viu-a. A moça sorriu. O horror, então, empalideceu a pele e arrepiou a espinha dorsal do condutor: diante dele estava o cadáver de sua falecida irmã.

 
 
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O Prelúdio da Loucura

Havia algo naquela noite, algo cuja fixação no antro do inconsciente é mais poderosa do que quaisquer traumas envolvidos pela…

Nicola Samorì - L’oro galleggia (2011)

Havia algo naquela noite, algo cuja fixação no antro do inconsciente é mais poderosa do que quaisquer traumas envolvidos pela imaginação fértil da infância. Eu não posso esquecer, e por isso escrevo; existe no meu ser uma necessidade incomensurável de escrever as minhas agônicas memórias e, à posterioridade, deixo este relato como uma lembrança de que nem tudo é o que parece ser.

Foi de súbito que o horror nasceu, com o vento soprando em ódio à sua sonância terrífica; trovões ressoaram em átimos subsequentes, com clarões de absurdo fragor no mesmo instante em que a porta da sala-de-estar se abriu impetuosa, possuída de uma fúria ancestral, rangendo e batendo contra a parede. A lufada adentrou, tão semelhante a uma onda de torrentes instáveis, e eu pensei que só podia ser o prelúdio de uma tempestade agressiva — digna de tufões. O medo me tomou num único gole e, apavorada, fixei meu âmago no assobio tétrico que, tão logo, invadiu-me os tímpanos. Meu coração se cercou na arritmia, pois não se tratava de um assobio comum, como qualquer outro vento proporciona ao encontrar uma fresta; não, era o silvo mais horrendo que já ouvi e, embora tenha sido captado pelo sentido da audição, o maldito me penetrou a espinha dorsal e contornou-a, gelando até meu peito. Meus braços e pernas pruriram, e eu hesitei em olhar para a janela.

Quando fitei meu gato, inquieto, saindo do sofá e seguindo para o cômodo ao lado, tive certeza de que algo acontecia; minha intuição, contudo, conturbada pelo alarme, nada me revelava — seu intuito era me proteger, e eu estava anestesiada pela tensão. Caminhei até a porta, oscilando, imaginando que a trancaria após verificar o clima. Assim o fiz, apesar da dificuldade contra o vento continuamente perverso. Olhei para fora, e a rua estava negra como um pântano sombrio, cuja proteção de suas entranhas guarda o segredo de uma gruta úmida e rançosa; as luzes estavam tenras, como a prever a abominação, e eu nunca vi os pinheiros tão enlouquecidos pelas contínuas rajadas, nem os céus naquele negrume tão profundo. Seria mesmo real? Segurei a maçaneta, investi contra o fluxo; o assobio, outra vez. Estremeci como um pobre cão abandonado, ainda na tentativa de fechar a porta, mas parecia impossível, pois mais e mais forte era aquele pulmão inabalável.

— Céus! O que é isso? — proferi na fuga de um alívio; era como se, ao ouvir minha própria voz, estivesse garantido a força da minha sanidade, assim como a realidade tangível e a segurança da vida mediana. Pobre de mim! Mal a indagação retórica se concluía, e o assobio — juro pelos deuses todos que já foram criados nesta humanidade, desde os mais primórdios tempos —, o assobio agudo e perverso vociferara: “Eu sou!”. Delírio? Delírio! Movimentei a minha cabeça, e meu corpo pesou como chumbo; senti tão instável o chão sob meus pés e, atordoada, emergiu-me a necessidade impulsiva, agreste, como uma gana intrincada, de provar a mim mesma que a realidade era ainda digna da significação do termo que lhe designa. Mirei à minha volta; soou-me duas horas de contemplação e busca, mas foram segundos... segundos depois de ouvir o demônio sibilar! Lancei contra a porta de madeira meu corpo pálido e frígido como um cadáver e, decerto, meu espírito, maciço pelo horror, agregara a força precisa para conseguir fechá-la. O maldito portal do inferno estava trancado! Eu, tão ofegante, caminhei à janela, completamente inebriada por uma coragem que nunca mais senti, certa e resoluta sobre fechar, definitivamente, o umbral de assobios execráveis.

Estava lá, a fresta que basta para hipnotizar; ser algum é capaz de tomar ciência das similaridades entre o trivial e o terrífico, tampouco apreender, com clareza, que somente na trivialidade o terrífico se desvela — até que o temor incontrolável lhe penetre como a fina agulha de uma seringa, arauto da vida e da morte. Aquela fresta era trivial, mas eu estava envenenada pela doença do hediondo, na catarse íntima, silenciosa e pungente. Por isso, mesmo quando a fissura se fechou por minhas trépidas mãos, não senti alívio; algo ainda residia na atmosfera. Eu não sabia, entretanto, se advinha do nefasto pronunciar — o silvo do vento cruel — e da sensação de sua magnitude fúnebre, ou se d’outra cousa que meus olhos não podiam enxergar.

Repousei sobre o sofá enquanto morria nas indagações de meu ser. Todavia, meus olhos... ai de mim, meus olhos, que não podiam enxergar o horror que pairava, finalmente puderam me ser úteis. Eu vi o meu amável felino sobre a mesa da sala de jantar — e ele não estava feliz. Na verdade, sua face era de medo, e seus olhos de gato noturno fitavam, arregalados e com finíssimas pupilas, a fresta... a fresta da janela da sala de jantar.

Antes que eu pudesse correr, o assobio bradou suas maldições mais alto do que outrora, e o gato correu para longe, assustado. Minhas forças nitidamente se esvaíram, tamanho era o pânico! E eu não conseguia caminhar enquanto aquele agudo ascendia, e o vento soprava, e a fechadura estalava, deflagrando-se como um arrombamento premeditado de uma criatura monstruosa. A porta da sala-de-estar, o portal do inferno, de novo escancarado, pois que, na rufada maligna, não habita a clemência. Mais temor. Mais vento. Aquilo não podia ser uma simples intempérie! Não podia ser tão somente um vendaval! A coisa que assoprava tinha alma, consciência e voz.

— Deixe-me em paz! — meu urro veio da essência de meu núcleo humano; meus passos já não podiam continuar, e o sibilo, cada vez mais ensurdecedor. — Deixe-me em paz! — cada vez mais estrondoso. Amedrontada, chorei cachoeiras do desespero genuíno. Mas, quando abri meus olhos, vi as lágrimas flutuando ao redor, como se não houvesse, em grau algum, o peso da gravidade. Meu peito tornou-se um cubículo d’onde pouco — ou quase nenhum — oxigênio se abrigava. Que aflição! Inominável aflição! Olhei para o líquido guiado ao vento macabro e notei que nada, nada se movia. Era apenas surreal... nada além de meus cabelos. E tudo o que havia em mim estava no caos daquele místico infortúnio; nada além de minha ínfima existência se afetava em horror. Os livros estavam estáticos, os papéis sequer vibravam, os casacos, pendurados naquele velho cabideiro de eucalipto, estavam inertes... estranhamente inertes; nem as lágrimas tinham noção de seu dever em cair sobre o chão miserável.

Assim, estupefata, me curvei lentamente e, de soslaio, atentei para a sala-de-jantar, buscando o que assombrara o pobre felino — que era, pois, o único além de mim que poderia comprovar aquela — sem dúvida paranormal — extravagância. E estava lá... estava mesmo lá, na frincha ordinária, na trivial fresta, tão símil àquela qual, há poucos segundos, eu fechara. Era um ser diabólico... vívido através do vidro, como uma colossal monstruosidade espiral cuja mente humana sequer pode assimilar. A forma do vento atemorizador, o semblante esguio e atroz do sobre-humano sopro claustrofóbico. Era como uma serpente, com membranas no contorno de seu corpo, possibilitando-o de voar como uma ave amaldiçoada; tinha padrões de orifícios, os quais vibravam — vibravam impetuosos ao som do assovio hediondo! E mais... tanto mais... aquela coisa nunca deixou a minha memória! Pelo contrário, fez de minha memória o seu recôndito infernal — para sempre! Empalideci diante dela, e eu sei que eu estava branca como névoa, pois tamanho era o meu pavor diante daquilo. E eu me arrastei pelo chão até chegar à porta de entrada escancarada, sem conseguir tirar meus olhos daquela coisa. Ela estava parada, e seu único olho negrume parecia me fitar o núcleo de minha constituição. Ela continuava a assobiar e, num único piscar de olhos, após um árduo lacrimejar, a criatura sumiu.

Levantei-me com esforço e corri numa lentidão inimaginável, pois o vento não me permitia sair para fora de casa — ele me afastava à janela, e a coisa, agora invisível, contornava meu desespero. O assobio estava tão perto... era um sussurro em meu cérebro. Jamais serei capaz de descrever a sua composição. Até hoje acreditam que eu estava sob o efeito do ópio — o qual jamais fora encontrado, nem em meu corpo, nem em minha casa! — Céticos condenados! Não sabem com o que estão lidando! A sensação que perdura, desde então, em mim, é de que a criatura inenarrável não era um fenômeno da ufologia moderna, tampouco um acontecimento cuja explicação está no esoterismo; a coisa dominava a natureza terrestre e manipulava a realidade de modo que, quando eu consegui escapar às ruas negras, percebi que, naquela hora, nem os pinheiros se moviam. E tudo o que pude fazer foi gritar — mais alto que o assobio infernal —, tendo ainda meu corpo empurrado pelo mefistofélico vendaval.

Bradei na mais profunda amargura, e meus tios, residentes da casa vizinha, apareceram. Tudo se extinguiu quando eu os vi. Disseram-me, depois, que desmaiei como se estivesse morta; minha pulsação era quase nula e afirmaram-me que tive, a caminho do hospital, lapsos de consciência, onde eu gritava, em grave exasperação, as seguintes palavras desconexas: “retorno” e “devoção”.

 
 
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O Adeus Prematuro

Gabriela se levantou assustada, aos prantos e gritos, acendeu o candeeiro e iluminou ao redor. Nada havia, nada além da sensação absurda…

 

Nicola Samorì

 

Gabriela se levantou assustada, aos prantos e gritos, acendeu o candeeiro e iluminou ao redor. Nada havia, nada além da sensação absurda de que ele estava ali, de algum modo, ele estava ali. A presença cadavérica de seu falecido esposo não a deixaria descansar, pois tamanha é a dor do adeus prematuro e não há descanso na úmida tumba daqueles que juram amor eterno.

 
 
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A Chave

No entanto, naquela noite, a minha maldita curiosidade despertara quando, no meio de um falso livro, encontrei a chave. Fui direto àquela grande porta de ferro e todo…

No entanto, naquela noite, a minha maldita curiosidade despertara quando, no meio de um falso livro, encontrei a chave. Fui direto àquela grande porta de ferro e todo o meu interesse transformou-se em pavor no instante em que a abri. Um ácido cheiro fétido e úmido imediatamente invadiu todo o corredor e quando pude olhar para dentro daquele lugar, tive de trancá-lo o mais rápido possível. Havia uma coisa encarnada… de olhos pálidos... distorcida... completamente deformada e franzina… uma coisa infernal cujo rosto era o meu próprio rosto... e ela sabia, profundamente, sobre todos os meus maiores medos.

 
 
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Chuva Maldita

A tempestade não cessa e Jonathan está sentado, como sempre, frente à tela de seu computador. Para seu infortúnio, um estrondo o desperta do transe e as luzes…

A tempestade não cessa e Jonathan está sentado, como sempre, frente à tela de seu computador. Para seu infortúnio, um estrondo o desperta do transe e as luzes do bairro se apagam. Jonathan vai à janela, abre-a, está frio e nada se vê além do negro céu. “Chuva maldita” — ele resmunga, no entanto, antes que pudesse prolongar o reclame, sentiu-se perturbado; o som da porta de seu quarto abrindo-se devagar fez da tempestade um silêncio aterrador. Trêmulo e atormentado, num súbito movimento, Jonathan se vira. A porta esta fechada como de costume, nada há fora do comum. Ele busca se acalmar no exato momento do espargir de um clarão seguido de mais um estrondo. Na luz, as pupilas de Jonathan dilatam. Ele vê. Há uma uma poça de sangue debaixo da porta e um rastro inumano até o seu guarda-roupas.

 
 
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Cidelly

Ambígua presença, amedrontas, | Amas-me ó vil criatura? | Canta-me o mal que me contas! | És doce horror, minha agrura; | Guardei-te os olhos tão vítreos…

Ambígua presença, amedrontas,
Amas-me ó vil criatura?
Canta-me o mal que me contas!
És doce horror, minha agrura;

Guardei-te os olhos tão vítreos
Dantes de ires às tumbas
Banhei-te aos sabores mui cítreos
A terra infértil que adubas;

Fiz lá teu eflúvio ameno
Colhi as janelas, sereno,
Pingentes de culpa tardia;

Agora tu assombras meu pranto
Cinérea maldiz-me em espanto
Encarando-me sempre vazia.

 
 
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A Janela

Despertara com o frio que adentrava a janela entreaberta, lá fora uma névoa densa se espargia e ela apreciou a paisagem incomum, no entanto um assombro emergiu…

 

Kamsar Ohanyan - Open Window, 2020

 

Despertara com o frio que adentrava a janela entreaberta, lá fora uma névoa densa se espargia e ela apreciou a paisagem incomum, no entanto um assombro emergiu e seu corpo estremeceu enquanto a adrenalina do medo abominável habitava-lhe o semblante. Ela sentiu, tão vívido quanto seu próprio desespero: Algo pútrido a observava, à espreita, em algum lugar naquela neblina.

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A Sombra

No despertar noturno uma sombra atravessa a tenra luz vinda da lua cheia. Olho apressada e trêmula, é nada além de uma coruja. Vou à janela para observá-la e no instante seguido…

 

Owl painting - Thomas Hay

 

No despertar noturno uma sombra atravessa a tenra luz vinda da lua cheia. Olho apressada e trêmula, é nada além de uma coruja. Vou à janela para observá-la e no instante seguido meu corpo tona-se um frígido túmulo… a coruja está sorrindo para mim, do topo da igreja ao lado, e seus olhos são vermelhos como sangue.

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Memórias da primeira grande guerra

Ao leito que me tem há tantos anos | conto as áridas noites do passado, | jamais trarão sereno sonho alado | meus ares tão perdidos, levianos;…

 

Zdzisław Beksiński

 

Ao leito que me tem há tantos anos
conto as áridas noites do passado,
jamais trarão sereno sonho alado
meus ares tão perdidos, levianos;

Ao berço que me teve n'outras eras
de infantis fantasias inocentes,
rogo tenhas piedade destas meras
loucuras de velhices decadentes;

Meu rosto enrugado de horrores
por lembranças do sangue denso e rubro…
O soturno temor  — turvos calores —
rasgando-me por dentro no delubro;

Escondido e afetado eu vislumbrei,
pelo culto de face inominável,
entidades erguerem-se, bem sei,
silentes em poder inigualável;

Semblantes símeis aos sujos abutres
e de corpo com vísceras à vista,
seus eflúvios carníferos, agrores!
Piores que o pavor novecentista;

Respingos de salino ardor sem dós,
tantas almas no antro sanguinário!
Eu queria não ter visto este cenário
que as bestas eram como somos nós!

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O Portal

Destranquei a porta e abri-a lentamente, nenhum ruído advinha de dentro daquele apartamento, nem mesmo do computador…

Destranquei a porta e abri-a lentamente, nenhum ruído advinha de dentro daquele apartamento, nem mesmo do computador ligado sobre a mesa da sala. Estava tudo escuro quando entrei e Dante não parecia estar por perto, isso me fez pensar que, decerto, ele estaria dormindo; mas, por que dormir àquela hora se, há meia hora enviara-me uma mensagem tão incomum? Havia uma atmosfera estranha ali que eu não quis aceitar como real, eu definitivamente não sinto medo e não tenho sensações como aquela; não ter medos não significa que sou superior ou evoluída, é o meu cansaço que faz tudo parecer insuficientemente surpreendente ou assustador. No entanto a sensação estava ali e aquela atmosfera não poderia ser tão somente um pormenor irrelevante, ela ascendia significativamente conforme eu me aproximava do computador onde eu teria acesso a visão completa dos dois corredores, à direita e à esquerda, que levava aos demais cômodos. Era como uma presença imersiva. Hesitei. Tudo continuava em um silêncio obscuro. “Dan?” ― proferi, mas nenhuma resposta encontrou-me. “Dan?” ― novamente o nada. À janela à frente denunciava a chuva e na tela do computador havia uma página aberta com algo escrito. Curvei-me ligeiramente e li.

Era uma página de notícias, um trecho selecionado se destacava aos meus olhos. “Os policiais encaminharam Luíza para o centro psiquiátrico de Nortos, porém durante todo o tempo Luíza estivera sã e até quando entrevistada pelo jornalista Caesar Soares do jornal da manhã, manteve-se calma e afirmara várias vezes que jamais poderia ferir sua irmã: “Eu sei bem o que eu vi ali, um tipo de fenômeno completamente anormal e monstruoso, eu apenas não consigo descrever aquilo, porque me assombra, mas eu sei muito bem que estou falando a verdade e eu vou, de algum jeito, provar minha inocência”. O corpo de sua Lígia será enterrado amanhã, sua família preferiu não divulgar o local da cerimônia”. Ao lado, na mesa, uma vela e um livro. Curvei-me mais um pouco para enxergar o título, curvei-me demais e pela visão paralela eu vi a silhueta no corredor. Tremi e imediatamente retrocedi alguns passos. Meu coração se acelerou como há tempos não fazia. “Dan, você está aí? Me responde, droga!” ― disse ainda mais alto. Nenhum som. “Merda...” ― sussurrei e voltei para a porta com o intuito de ir embora o mais rápido possível. Foi nesse instante que tudo ficou claro, a energia elétrica voltara. Olhei para a sala outra vez, antes de sair do apartamento. Eu o vi, então, e um maldito susto levei, seus olhos eram fundos como um cadáver e seu rosto pálido era agonizante. Meu alarde foi tanto que gritei e levei minhas mãos ao meu peito, sentindo o coração mais que frenético.

― Meu deus, Dante, que porra é essa! ― falei com a voz fraca

― Há alguém do outro lado do espelho ― aquela voz não podia ser a de Dante, era tão baixa e grave, tão tenra e apática.

― O quê? Enlouqueceu? ― Minha postura retomava aos poucos enquanto eu tentava entender tudo aquilo.

― Venha, vou te mostrar ― ele se virou de costas, deu alguns passos.

― Não, Dante, você fumou? Não vou com você, esse lugar está bizarro!

― Está bizarro por causa do espelho... ― ele me olhou outra vez ― E se eu fosse você eu falava mais baixo, aquela coisa não parece gostar de barulhos.

― Do que você está falando? ― preceituei.

― Vem, Ana, eu preciso que você venha ver! ― expressou num sussurro. Confesso que me preocupei e caminhei com ele, ainda hesitante. Não havia nada no corredor. No quarto de hóspedes o espelho estava coberto por uma manta escura. ― Eu vou tirar a manta, está claro e nada de ruim vai acontecer, eu acho, porque tem luz aqui.

Eu vi o espelho e nele o reflexo era sinistro, tudo o que havia era o mesmo quarto, mas em completa deformidade, coberto com sangue e entranhas. Cada parede suja era negra e cinza, um tipo de musgo arrastava-se na extensão das rachaduras de cada mobília. Enjoei-me com a cena e o cheiro de enxofre que de repente tão forte e tão impossível, trouxera-me vertigens; virei meu rosto para não ver aquilo, nem eu e nem mesmo Dante eram refletidos. Meu coração pulsou mais forte e, completamente atordoada, fiquei sem reação.

― É um portal, Ana, eu olhei lá dentro, minha cabeça atravessou. Eu vi uma coisa lá. Um tipo de ser... não sei explicar.

Eu senti que iria vomitar, meu corpo tremia e eu não era capaz de controlar meu próprio ser. Não podia ser real. Dante cobriu novamente a entrada infernal. Continuei aturdida.

― Quando está escuro ele sai... caminha devagar e vai até o corredor. Para. Não continua. A luz do computador o impede de passar. Mas ele sabe onde estou, por isso espera... ele está a cada noite mais próximo... ― Lembro-me da silhueta, da sensação persecutória, do silêncio. Começo a suar. Sinto falta de ar e sei que vou colapsar, não consigo dizer nada.

― Ana... me ajude... me ajude, Ana ― Dante se aproxima e começa a me chacoalhar como um insano ― Me ajuda, por favor, me ajuda ― Sussurra como um maníaco. Solto-me de suas mãos agressivas e corro para a saída da casa, ele corre atrás de mim. ― Ana, não! Por favor! Eu preciso de ajuda! ― Abro a porta e tranco-o para dentro do apartamento. Estou ofegante. Ele não bate na porta. Sei que ele tem a chave, mas não a vi no lugar que deveria estar, nem mesmo na porta do lado de dentro quando entrei. ― Ana... por favor... ― ele sussurra, encostado na porta.

― Por que você não vem comigo? Nós podemos apenas ir embora... ― digo, completamente atormentada. Ouço-o respirar.

― Poderíamos..., mas eu o vi... e não posso esquecer... a forma... a carne... os olhos... estão dentro de mim... ele me seguira onde eu for...

― Apenas vamos embora, Dante, você não vai salvar o mundo, aquilo é um portal! ― sussurrei em desespero. Aquilo era um portal?

― Eu sei... eu o abri, Ana... a culpa é minha... ― a voz de Dante se distância.

― Dante? Por que você fez isso? ― indago, mas ele não responde. ― Dante! ― grito. Nada. Abaixo-me para olhar debaixo da porta. A fresta suave de luz se apaga. ― Dante! Não faça isso! Seja o que for que você vá fazer! ― brado outra fez, dando murros na madeira que nos separa. Ouço um som. É o silêncio. Ele está vindo. A atmosfera e a silhueta são vivas na minha mente. Começo a destrancar a porta com uma fugacidade desumana, pois eu sabia, Dante estava pronto para se entregar.

― Dante! Isso não vai resolver os problemas! Me ouve! ― Destranco. Abro-a e está escuro, mas a luz do corredor contagia a escuridão. Era tarde demais. Corro até o quarto de hóspedes e pelo caminho acendo cada uma das luzes. Era tarde demais. A porta do quarto estava fechada, lá dentro estava escuro e eu pude ouvir a sonância de um líquido pingar, e o silêncio espargir, e a carne mastigada, e o cheiro de enxofre tão mais absurdo do que antes. Minhas pernas se abalam, minha garganta torna-se seca e, antes de minha fuga alucinada, um raio atinge algum prédio mais próximo, o estrondo acompanha a chuva densa, abaixo-me assustada e a escuridão retorna por todos os lugares, exceto a luz do computador na sua bateria persistente. Não penso, apenas corro em desespero inenarrável tentando enxergar além das poucas luzes de emergência do corredor. Ouço a porta do quarto de hóspedes se abrir, era absurdo ouvir naquela distância, já no meio do corredor, próxima às escadas. Mas eu ouvi. A coisa estava vindo me encontrar e eu não sei o quão rápido ela seria. Nunca corri tanto em toda a minha vida, e mesmo já fora do prédio eu não parei, eu ouvia e eu sentia o seu cheiro; estava tudo escuro, não havia ninguém por perto, só havia o frio, a chuva e, cada vez mais, aquele ser. Próximo. Respirando. Nutrindo meu tormento.

Cheguei à luz sem fôlego e num quase ataque cardíaco; eu estava em um posto de gasolina, mas não importa o quão iluminado era aquele lugar, a sensação de perseguição predominava e a silhueta vista de soslaio era eternamente repetida de sombra a sombra, canto a canto. Eu queria arrancar meus olhos..., mas do que adiantaria? Era evidente que ele permaneceria próximo, seu cheiro, a sonância de seu silêncio, sua carnificina, tudo era inevitável, tudo estava enraizado... ele já estava dentro de mim.



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