A Maldade Humana
Cultivada no seu próprio solo, a maldade humana é uma brincadeira de mau-gosto do acaso; uma construção perversa do sistema; uma condição morbígera…
Cultivada no seu próprio solo, a maldade humana é uma brincadeira de mau-gosto do acaso; uma construção perversa do sistema; uma condição morbígera da vida. Ela é o sopro contrário na natureza que, mesmo criadora da bênção da razão, não se vê livre das suas deficiências excepcionais, entretanto, quando a exceção é mais comum que o anfêmero, os papéis de invertem.
Posso ousar em dizer que a maldade humana está essencialmente alojada na ignorância — os véus do desconhecimento do que é ser; o manto da insipiência causado pelo circunstancial. Entretanto, a escolha individual ainda tem um papel fundamental e, por vezes, ela não excede seu apedeutismo. Isso me leva a crer que a ignorância é fruto híbrido de duas espécimes putrefatas: decisão subjetiva e influência do meio.
O ego é outro culpado; necessitar, pois, pertencer a algo além de si, quando não se basta em seu próprio interior. Ser capaz de quaisquer atrocidades para sentir tal dopamina-do-pertencimento — a qual, por sua vez, é sempre uma mentira bem-contada. Ou, ainda pior, ser capaz de horrores por não estar pertencido; buscar vingança e dar sofrimento a outrem por puro ego ferido. O cúmulo da ignorância.
O conhecimento, a informação e a sabedoria se aliam para dissipar essas tendências doentias, porém, não se resolvem em si mesmos. Do conhecimento, espera-se mentes capazes de assimilá-lo; da informação, espera-se mentes capazes de refutá-la e comprová-la; da sabedoria, espera-se mentes capazes de compreendê-la. Se, para evitar que a maldade floresce em seu cerne, é preciso cultivas tais capacidades — as quais não se igualam a uma tarefa simples tal qual respirar — percebemos que, a cada nova geração, a escassez da maldade parece mais utópica.
Ainda lidamos com a tendência humana em achar que conhecimento é saber da verdade e defendê-la — quando, na verdade, conhecimento é eterna busca por infindáveis verdades e a quando se começa a defender uma única ideia “perfeita”, torna-se idealismo. Ainda lidamos com a comum ideia de que a informação é tudo aquilo que nos vem de encontro no mundo — quando, na verdade, informação é base de averiguação de fatos. Continuamos erroneamente crentes de que a sabedoria é um estado sublime, religioso ou pertencente apenas aos idosos que viveram demais e sabem muito— quando, na verdade, ser sábio é ser capaz de compreender toda a forma de existência sem o filtro da sua própria vida — crianças são boas nisso e, portanto, têm mais sabedoria do que idosos, adolescentes ou adultos.
A maldade humana, portanto, floresce onde as certezas adubam a mente; onde os egos são a verdade líquida que rega a terra psíquica. A maldade humana se ascende diante da maldade humana — alimentando-se ad aeternum. Indiferença, inveja e mágoa são o capim d’este jardim imundo e violento. É mais fácil, enfim, deixar que as coisas sigam os caminhos quais já foram trilhados — quão árduo é ser mestre nas três capacidades essenciais contra a maldade humana! Quem está disposto? Quem estaria disposto? Quem ousaria a tal disposição, mesmo sabendo que passará por injustiças, não terá o ego agraciado, sofrerá mais do que os outros e ainda verá a decadência com os olhos bem abertos? Quem resistiria?
É uma escolha e, como tal, tem o ônus e o bônus. É uma escolha e, como tal, se não for conscientemente tomada, há de ser imposta como uma faísca infernal acesa sem consentimento. Das verdades do mundo humano, eis uma das minhas preferidas: Não duvide da sua capacidade de ser influenciado, muito menos de ser convencido — isso acontece a todo o instante. Não acredite. Sempre pense por si mesmo. Faça suas escolhas e esteja consciente das consequências. E, se me permite, que a prudência e a empatia sejam as únicas certezas da sua vida — as únicas que merecem ser defendidas em uma guerra política.
A Fenomenologia da Imortalidade
Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida…
Morrer é o que nos caracteriza e a morte é significativa para todas as instâncias da vida. Na Fenomenologia estuda-se a essência daquilo que se manifesta nos sujeitos a partir deles próprios, isto é, da expressão mais pura de suas singularidades reais, das vivências, compreensões e sentidos. Por meio da Fenomenologia, aplicada na Psicologia e revelada pelas linhas Existenciais da Filosofia, o ser que somos é foco de estudo a partir de seu existir significativo, tendo o objetivo de desvelar sua estrutura essencial, ou seja, para cada indivíduo a morte é experienciada como um fenômeno a partir de suas próprias manifestações enquanto ser individual, embora esta experiência esteja em dinâmico vínculo com o que o mundo em si, a sociedade, expressa em suas compreensões coletivas — a intersubjetividade também traz a subjetividade à luz de sua existência.
Discorrer sobre a Fenomenologia é sempre um ofício árduo, isso porque o seu método é enxergar com transparência genuína o ser que se revela em construção ser-mundo diariamente. Não há como mensurar e categorizar a experiência humana, nossa consciência é fundamentada em vivências reais imediatas, construídas, significadas, expandidas, inexploradas — somos a límpida revelação de nós mesmos; a Fenomenologia quer extrair a essência imutável dessa revelação. Deste modo, podemos afirmar que a Fenomenologia da morte é o estudo da essência imutável que reside em todas as expressões humanas em suas singularidades relatadas e vividas a respeito do morrer.
Sob as perspectivas atuais, notamos uma brusca mudança social onde a busca pela imortalidade é fulgurante e a morte é, cada vez mais, negligenciada — o fechar de olhos para o fim tendo o amanhecer sempre ao alcance das perspectivas. Naturalmente, com o avanço tecnológico, viver mais é uma realidade um pouco menos distante do que vinte e quatro anos atrás; podemos compreender, no entanto, que a temporalidade, ainda que prolongada, não pode ser extinta, pois, em si mesma, ela é o viver da forma que este se manifesta. Alcancemos a morte do morrer, continuaremos a existir no tempo. O tempo é uma vertente da morte e não há como parar o tempo.
Evidente que, como mencionado, a vivência da morte é única para cada humano e não investigo neste artigo relatos específicos sobre o assunto, mas discorro em reflexão sobre o que vem de encontro à minha consciência nos tempos atuais, busco, assim, a partir do que enxergo, extrair uma essência imutável de compreensão. Eis algumas pertinentes questões: Uma sociedade sedenta pela vida, poderia ser capaz de morrer? O tempo poderia ser a nova morte? Ou a finitude, ressignificada à imortalidade, caracterizar-se-ia pelo medo, o tédio e a angústia? Em resposta, a morte em si, como essência do fenômeno humano, constitui-se por todos os aspectos da finitude do ser, isto é, há morte no tédio, na angústia, no medo e no tempo — ser imortal, se podemos imaginar, não é o que fará desaparecer a morte.
Portanto, a escolha individual de negar ou aceitar o que a morte é em toda a sua significação, não poderá deixar de existir enquanto parte essencial do ser; somos para a morte mais do que somos para vida, sua substância integra todos os momentos e, portanto, nos faz — ontologicamente — para-a-morte. Envoltos à uma possível imortalidade, estaremos prostrados a um tempo eterno para a realização manifesta do que somos através de escolhas, mas não haveria a finitude enquanto impulsionadora desta disposição à escolha — o nos leva a deduzir que o tédio e a angústia tomariam esse papel. Teríamos todo o tempo disponível, e o quão angustiante isso poderia ser? Cabe, neste ponto, reforçar o aspecto indissociável do ser humano em relação à totalidade de sua realidade, desde suas manifestações subjetivas, à sua consciência direcionada e construída no mundo e com os outros — o que novamente revela a impossibilidade da morte deixar de ser a essência do ser, dado que sua ausência ainda seria um gatilho para a autenticidade do ser, isto é, para trazer ao ser uma “luz” de compreensão sobre si mesmo, levando-o à ação que corresponde, especificamente, na ação de existir.
Diante disso, a afirmação que traz o resumo de toda a compreensão discorrida é: mesmo na imortalidade, morreremos. A morte não pode ser encurtada ao morrer em si, pois sua significação está atrelada ao sentido de tudo o que o ser experiencia. A escolha singular de cada indivíduo os levara ou não aos sentidos da morte, mas os sentidos da morte, mesmo na imortalidade humana, sempre estarão presentes como estímulos essenciais para a realização do fenômeno do ser em seu mais puro desvelar-se a si.
Nota Sobre a Caridade
A mais valiosa caridade está na abertura para a compreensão. Compreender seus…
A mais valiosa caridade está na abertura para a compreensão. Compreender seus semelhantes é um ato de caridade, poupar-lhes da amargura de não ser entendido, mostrar-lhes que há ouvidos dispostos e atentos para suas dores e amores; esta caridade ameniza a solidão em seus aspectos aflitivos e revigora o espírito.
A caridade da compreensão é sutil e não pode ser filmada, pois sua essência e eficácia só aflora no íntimo contato com sua abertura. Quando nos permitimos compreender o outro em seu ser mais autêntico, somos incapazes de ascender nosso ego acima disso. É o ego que quer mostrar ao mundo suas boas ações. A caridade da compreensão é a única forma de caridade que nos obriga a calar o ego.
Ser caridoso é uma construção intrínseca, enraizada, que dá origem a diversas folhas e flores, até que se torne uma árvore frutífera.
A Felicidade e a Razão
O pensar racional aplicado à quotidianidade resulta na felicidade em seu estado original…
Oil Painting Replica - Girl Thinking - Patti Mayor
O pensar racional aplicado à quotidianidade resulta na felicidade em seu estado original, pois que, embora seja profundamente invocada pela sociedade, a felicidade não é a euforia contínua, tampouco a graça do prazer eterno, muito menos o sorriso estampado na face; a felicidade é genuinamente um estado-de-ser, onde há equilíbrio emocional e consciência racional, de modo que o prazer é sentido com sobriedade e o desprazer compreendido com facilidade. Não há como ofuscar a obscuridade da existência, ainda que se viva debaixo de crenças acolhedoras; até certo ponto há acolhimento, a posteriori o encarar da natureza é preciso, o enxergar de sua constituição completa é vital — não para deixar-se abater, perdendo o controle das emoções e, consequentemente, minimizando a racionalidade que nos é tão própria; olhar para o abismo é puramente olhar para a nascente de tudo aquilo que há e que é; olhar, sentir e compreender, tudo no equilíbrio racional e na admiração emocional que nisto se cabe.
O des-velar é necessariamente o despreocupar-se com a mundanidade, e isso advém do racionalizar da existência em sua constituição própria. A quotidianidade não é culpada pelo afogamento do nosso ser e, consequentemente, das consequências devastadoras desse afogamento. O quotidiano é o que é, a natureza faz o que faz, as pessoas são o que são e somente o Ser-si-mesmo é capaz de modificar a realidade que o faz — e somente ele e somente a realidade que o faz, dado que a realidade como um todo não é modificada, as plantas continuarão sendo plantas e a vida humana continuará sendo desprovida de sentidos pré-determinados. No des-velar, portanto, reside a felicidade em seu estado original; pois o des-velar só se apresenta à medida em que nos dispomos à racionalidade — no exercício constante dela — em todas as instâncias da vida. Por fim, enquanto mundanidade, entende-se tudo aquilo encobre o exercício constante da Razão, onde o pensar é sufocado pela emoção desequilibrada sob sentidos extravagantes — a inconsciente do Ser-si-mesmo, a ignorância da existência, estas são as pragas que englobam tudo o que ofusca a Razão.
Entendendo que a Felicidade é o estado em que dispomos nosso Ser-si-mesmo a partir do exercício da Razão, compreendemos, portanto, que a Razão nos leva à compreensão plena e constante do mundo em sua mundanidade e, a partir disso, aceitamos nosso caráter de agente da — e apenas da — nossa própria existência individual. Quaisquer mudanças que fazemos no mundo humano — que achamos que fazemos — se trata tão somente do caráter de agende das pessoas que, pela razão, foram capazes de enxergar aquilo que você transmutava em si mesmo e, a partir disso, conseguiu-se abrir mais uma clareira na escuridão da ignorância. O exercício da Razão, pelo pensar, é o único capaz de desafogar o ser da ignorância; por isso não adianta tentar mudar os outros, é completamente antirracional desejar ser o “exemplo” aos demais, deve-se ser a si mesmo a partir do exercício constante da Razão, qualquer um que se afete positivamente por isso deve carregar o mérito de ter-se afetado positivamente pela mudança alheia, pois, se foi afetado, é porque exerceu a Razão. Em suma, não é mérito seu ser um “exemplo” às pessoas, é mérito das pessoas fazer você de “exemplo” — isto é, de serem capazes de, pelo exercício da Razão, entenderem uma nova perspectiva de vida a partir da observação e da compreensão; não é sobre copiar cegamente o modo-de-ser do outro.
Se é aí que a felicidade original faz morada e se é, ela mesma, um estado que nem sempre está vinculada ao prazer, então por que querer a felicidade original? Talvez seja mais interessante a euforia que é, pois, uma emoção de contentamento completamente descontrolada. A resposta desta indagação encontra-se somente no exercício da Razão que o Ser-si-mesmo precisa aprender a realizar, no entanto, o registro desta resposta também tem grande valor e aqui será redigida. Qualquer emoção descontrolada carregará consigo o descontrole das ações do indivíduo — descontrolar-se em seu comportamento trará consequências quais você não tem nenhum controle e absolutamente nenhuma previsão; qualquer emoção exagerada de contentamento terá um fim súbito de modo a gerar o efeito contrário daquilo que se sentia, isto é, um ciclo vicioso para o corpo em sua totalidade; qualquer emoção exagerada não está vinculada com a Razão, por isso não enxerga a realidade tal como ela é e, portanto, não coincide com a vida em si mesma — é antivida.
A Felicidade original é o estado de compreensão plena de cada situação que nos dispõe à certa emoção. Se estamos felizes, aproveitamos conscientemente desta alegria; se somos abraçados pela tristeza, somos capazes de compreender a sua origem e o porquê ela está ali, isso nos permite sentir se for preciso sentir ou deixar de sentir se ela simplesmente não tiver razão para estar ali. Ambos os casos são manifestações da Felicidade Original que só existe no exercício constante da Razão. Um exemplo evidente: Sente-se triste porque chove e não se pode sair de casa de modo confortável, essa tristeza é irracional, a chuva continuará caindo mesmo que você esteja triste e só quem se incomoda e perde tempo é você. A natureza é como é. Se você toma a decisão de ficar em casa, não há mais por que ficar triste, você já tomou a decisão e pronto. Se você ficar remoendo a chuva que cai, você estará consumindo a si mesmo e isso é irracional, pelo exercício da Razão compreendemos que consumir-se a si mesmo é antivida e imoral, não há nenhuma razão para que o ato de se consumir a si mesmo seja plausível. Por outro lado, se pelo exercício da Razão você entende que sua tristeza está enraizada em uma perda, um luto por alguém que lhe era importante e que se foi, tomar a decisão de deixar-se chorar e sentir é o mais racional a fazer, uma vez que quando amamos alguém e a perdemos, isso é de grande dor para nosso ser, devemos encarar esta dor, sentir, chorar e aprender com ela — e isso é a felicidade original. Quando não encaramos uma dor profunda, engolindo nosso choro e abafando nossa tristeza, transformamos a dor em trauma e o trauma nos consome.
O exercício da Razão, repito, deve ser constante; assim, mesmo sentindo profundamente alguma emoção, ainda sim estamos pensando, ainda assim somos capazes de ter consciência de nossas ações e da realidade tal como ela é.
O Ser Atemporal
Você ouve a sua própria voz em sua mente dizendo coisas para te acalmar ou te guiar na sua vida? E essas coisas são estranhamente muito sábias, como se a voz…
Imagem criada por Sahra Melihssa
Você ouve a sua própria voz em sua mente dizendo coisas para te acalmar ou te guiar na sua vida? E essas coisas são estranhamente muito sábias, como se a voz fosse mais emocionalmente estável, mais cuidadosa e mais velha que você? É sobre isso que este texto se trata, porém sob uma ótica bastante abstrata e fascinante.
Espera-se, no entretenimento e nos estudos profundos das ciências quânticas e singulares, que a viagem no tempo seja possível no porvir e tal fenômeno nos proporcione o poder supremo sobre toda a fonte de vida. É um sonho, de fato, tão ambicioso. Mas aqui resguardo a verdade de que, ao passado e ao futuro, viajamos com frequência.
Volto ao passado quando me lembro criança, e lembro das dúvidas da mocidade e o quanto, hoje, respeito aquela que fui. Posso ver-me adolescente, amargurada pelos horrores da transformação íntima vivenciada, mas sei que sorrio quando eu, neste presente, reconheço o valor dessa garota que fui. E há uma comunicação entre nós, difícil de explicar, mas eu chego a cogitar que a voz que ouço na mente desde criança é a voz do meu futuro eu, por exemplo agora, o que mais ouço é “você está indo bem, não tenha pressa, respeite seu tempo”. Na adolescência eu ouvia muito aquilo que hoje penso da minha adolescência quando me volto ao passado, por exemplo, “está tudo bem, fique calma, você pode buscar um abrigo na Escrita e essas coisas que te envergonham não precisam ser carregadas para sempre”.
É fascinante pensar desta maneira, porque sinto disso uma veracidade incontestável. É mesmo a voz de hoje que eu ouvia no passado e decerto o que ouço hoje é a voz do futuro. Estamos nos comunicando. Tenho até mesmo intuições vívidas sobre o que haverá no futuro, certezas que não sei dizer a razão, elas apenas existem e eu sei o quanto são reais, pois o Ser é atemporal, derivado do cosmo, da natureza, e de tudo o que há, numa única linhagem de vida que compartilha uma consciência coletiva que se expande como o universo.
O leitor então pensa: “que loucura abstrata é essa?”, ora que a mente humana não se encaixa no método cartesiano, tampouco no raciocínio plenamente lógico e menos ainda no sobrenatural. Somos seres de natural intuição e de profundas habilidades que, para muitos é delírio, imaginação ou quaisquer manifestações divinas. Uma mente aberta, uma mente que não se satisfaz, ela consegue ver além do que se mostra ao perscrutar curiosa, atiçada pela dúvida eterna, os pormenores mais irrelevantes. Daí emerge as experiências mais puras e, por fim, atemporais. Mas, claro, o ideal é fazer isso com os pés no chão, sem sacrificar a racionalidade, sem sacrificar aquilo que somos.
Se você leu até aqui, devo-lhe uma explicação mais detalhada. A Consciência é atemporal, mas a nossa forma física não o é. Dentro do mundo físico temos a lei do tempo linear, e entenda “mundo físico” como tudo o que há na Terra em que vivemos, isso porque quando ao sairmos da Terra, o tempo já se modifica e as leis são outras. Portanto se o tempo é relativo desta forma, há de se esperar que o passado e o futuro não existam em “tempos específicos”, eles existem no tempo como um todo que, por sua relatividade, nos faz um convite à compreensão de que o tempo é atemporal.
A Atemporalidade une todos os momentos do tempo, enquanto escrevo este texto, estou nascendo em 1994 e estou concluindo meu curso de Psicologia em 2019. Para mim houve uma linearidade, porque no mundo físico, as impressões e percepções são principalmente regidas pelas leis que o governam, no entanto, para a minha consciência ou Ser — como você preferir chamar — tudo se expande e se transforma ao mesmo tempo. Somente minha consciência tem acesso a isso, porque embora ela esteja dentro de um corpo físico, sua constituição é o cosmo, absolvida das regras terráqueas, disponível aos dons da atemporalidade, mas, claro que estes dons são contraídos e bem sutis, afinal de contas, a consciência ainda está no corpo físico que habita um planeta que existe dentro de um tempo linear — aqui posso concluir que só acontece dessa forma porque não temos habilidades o suficiente para vivenciar leis diferentes, ainda temos muitos problemas primitivos para compreender dentro das leis do nosso mundo.
Portanto, quando no presente do meu corpo físico me vêm à memória uma época passada da minha infância onde senti determinada emoção; revivo a emoção, pois que, na verdade, ela está acontecendo naquele momento, naquela época, enquanto me recordo. Então meu corpo no presente físico, para se acalmar da emoção intensa, diz: “Respire, isso já passou, você consegue se livrar desse sentimento, apenas espere um pouco”. Esse “dizer” que pode ser apenas um mentalizar, alcança a consciência atemporal e chega até meu “passado”, por isso tenho tantas lembranças de ouvir esse apaziguamento, na infância e na adolescência, da minha própria voz mais madura dizendo coisas que eu, naquela época não poderia dizer a mim mesma, dada a minha imaturidade.
Eu constantemente ouço esses apaziguamentos, a minha própria voz dizendo coisas em minha mente que precisariam de muita sabedoria para serem formuladas, e eu tenho apenas vinte e sete anos, a minha sabedoria não se compara ao tanto de sabedoria que a minha própria voz em minha mente demonstra. Isso só pode significar o seguinte: O meu eu do “futuro”, mais sábio, mais prudente, vivido por tantas experiências, está me ajudando a existir em todas as fases da minha vida desde que nasci. Estamos, eu passado, eu presente e eu futuro, construindo juntos a nossa história e talvez você pense: “então já está tudo predestinado, o seu futuro existe na atemporalidade por que tudo já deu certo?”, é isso, mas não se trata de uma predestinação sobrenatural ou espiritual, o destino só foi possível porque dentro de minha conexão com a consciência atemporal, a minha vida foi possível.
E, bem, digamos que eu cheguei a tais análises ontem mesmo, então preciso analisar mais para explicar mais coisas. Pode ser que, por necessitar da cognição para se comunicar, a consciência só “venha à tona” após certa idade quando a personalidade já se moldou melhor; ou não, pode ser que ao nascer, no primeiro movimento de consciência, tudo se forme ligeiramente na atemporalidade, como portas e caminhos. Há muitas possibilidades, eu sei, e espero que até a velhice eu tenha desvelado mais desta descoberta fantástica, porque depois de anos sob uma cegueira advinda da religião e depois de anos cega pela ciência, ser capaz de ver além de tudo isso é fascinante demais para mim! E estimula cada célula do meu corpo.
É possível estar pronto para a tecnologia?
Há umas semanas escrevi o artigo “Não estamos prontos para a tecnologia” — considero, inclusive, que ele seja lido antes deste…
Jonelle Summerfield
Há umas semanas escrevi o artigo “Não estamos prontos para a tecnologia” — considero, inclusive, que ele seja lido antes deste. Notei, a posteriori, que algumas pessoas defendem o abandono pleno das redes sociais, mantendo somente as mais importantes que são, no geral, uma de entretenimento amplo e outra de contato com as pessoas via mensagem e ligação. Comprei esta ideia por algum momento até perceber que, à distância, não se pode aprender a lidar com um estímulo negativo.
Em outras palavras, se abandonarmos completamente o uso de todas as redes sociais, não evoluiremos individualmente para sermos capazes de viver nas próximas eras que, pelo que tudo indica, será cada vez mais tecnológica. Precisamos desse contato com as redes sociais para que tenhamos mais consciência de nossas escolhas. Algo que o ser humano desenvolveu tão pouco é a consciência de suas próprias escolhas e a capacidade de assumi-las em todas as suas consequências boas e ruins.
Não é uma convivência fácil, conhecer os próprios limites é importante para isso. Conseguir conviver com o mundo virtual requer uma mudança gradual de compreensão da realidade; você terá que ver a vida humana de outra forma, fazer sua mente aceitar que as redes sociais são desperdício de tempo e, a partir disso, decidir se vale a pena perder esse tempo que poderia facilmente agregar valor se usado para alguma outra coisa mais interessante e/ou importante. Você pode escolher perder meia hora do seu tempo aos domingos, ou aos sábados, ou numa quinta-feira de trabalho exaustivo; mas, como eu disse, é preciso ter consciência da escolha e de suas consequências.
Se você decide conscientemente que pode e deve perder trinta minutos do seu tempo em um aplicativo de vídeos curtos, deve estar pronto para lidar com a montanha-russa de emoções que vai ativar diversos hormônios em seus órgãos internos, você poderá rir e chorar várias vezes nesses trinta minutos, você terá raiva, ódio, medo e também terá sua autoestima e libido afetadas. Ao término dos trinta minutos, você pode sofrer uma resistência mental em fechar o aplicativo — que é feito para te manter nele a todo o custo — e, se conseguir fechá-lo, poderá sentir uma estranha necessidade de voltar a ele ao longo do dia, além de ter dificuldades de dormir a noite por causa da quantidade de estímulo mental em tão pouco tempo.
Escolhas e consequências. Como lidar com isso? Posso dizer como eu lido. Começo a ver os vídeos curtos do aplicativo, se um deles me emociona, eu paro de assistir e fecho o aplicativo; se um deles afeta minha autoestima ou libido, eu faço o mesmo. E abro o aplicativo uma vez por dia e nunca depois de três horas antes de me deitar para dormir. Além disso, o tempo máximo para utilizá-lo é de dez minutos. Vale ressaltar que geralmente assisto de dois a cinco vídeos curtos nesse aplicativo, porque tudo o que vem ali é feito para te emocionar, dificilmente completo os dez minutos. Já no site de vídeos mais longos, uma hora, dia sim e dia não — isso porque neste caso eu posso escolher pontualmente o que irei consumir, então é de minha responsabilidade saber escolher corretamente; não adianta tomar atitudes e depois sabotá-las.
Você não precisa fazer o mesmo que eu faço, no entanto, perceba o quão consciente é preciso estar para perceber cada emoção e sentimento que esses estímulos trazem sorrateiramente; não é nada fácil, principalmente quando se está habituado à altas doses de estimulação. Nesses casos, quando diminuímos a quantidades, tendemos a ficar ainda mais em disforia.
Alguns experimentos comportamentais com ratos mostram que quando um rato deixa de receber comida ao abaixar a alavanca — tal como ele recebia antes, isto é, já estava condicionado, já aprendeu a abaixar a alavanca para se alimentar — ele tende a abaixá-la dezenas de vezes consecutivas. O mesmo funciona para nosso corpo. Quando cessamos o estímulo contínuo que dávamos ao cérebro, tendemos a ficar ansiosos e nervosos porque o cérebro está fazendo de tudo para retomar o nível de estímulo que ele estava tendo. É como se ele estivesse abaixando a alavanca do estímulo continuamente na esperança de “reativar” o estado anterior. Depois de um tempo, se você não ceder, o cérebro se acalma, a mente se aquieta e você para de sentir os sintomas da disforia. Mas pode levar semanas até todo o processo estar completo e, durante esse tempo, você pode ter várias crises — que são resolvidas com facilidade se você se alimentar bem, dormir bem e fazer no mínimo trinta minutos de exercícios físicos todo o dia.
Portanto, sem dúvida é possível estar pronto para a tecnologia, contudo, como se pode notar, é preciso uma intensa autolapidação e, na verdade, essa consciência, essa capacidade de notar seus estados mentais, perceber o que te faz mal e compreender as consequências de suas escolhas é algo de extrema importância para todas as instâncias da existência humana. Não vale a pena se afastar completamente das redes sociais para sempre, podemos tirar um tempo delas, um tempo para que possamos acalmar nosso cérebro e deixar de sentir os sintomas de disforia; mas precisamos aprender a conviver com as redes acima de tudo e, principalmente, precisamos aprender a conviver com nós mesmos respeitando nossos limites e nossos potenciais, até porque o único trabalho que realmente dignifica o ser humano, é o trabalho do autoconhecimento e autoconsciência.
Sejamos gentis
Sejamos gentis. Se possível, na maior parte do nosso tempo, que estejamos conscientes de que as pessoas ao nosso redor possuem vivências, verdades…
Edvard Munch - At the Coffee Table (1883)
Sejamos gentis. Se possível, na maior parte do nosso tempo, que estejamos conscientes de que as pessoas ao nosso redor possuem vivências, verdades, ignorâncias e conhecimentos que nós não possuímos. Isso deve reger nossas falas e comportamentos, isso não significa deixar de lado a espontaneidade particular que tanto nos caracteriza, tampouco sufocar nosso próprio eu para proporcionar algo bom aos outros. Ser espontâneo, cuidadoso e autoprotetor são modos que podem perfeitamente coexistir e, conforme coexistem, costumam se mesclar em uma única coisa que faz bem para nós e para aqueles que são nossos semelhantes.
Sejamos gentis porque boa parte do mundo não é; e quando uma pessoa agressiva ou intolerante se depara com a gentileza, muitas coisas podem acontecer em seu interior, a semente da gentileza pode não brotar de imediato, mas ela permanecerá ali e a cada nova gentileza, ela continuará se fortalecendo lentamente até que possa, por fim, brotar. E se, por mil razões, ela não brotar; mal ela não fez.
Sejamos gentis conosco, porque nem sempre estamos prontos para ser gentis com os outros e isso não deve nos ser um fardo. Errar é humano, ainda que nos dias atuais nos soe como um absurdo imperdoável cometer um erro comum. Esse ódio pelo erro é reflexo de uma geração inteira que passou sua infância com medo de errar e ser considerado estúpido ou incapaz. Essa mesma geração passou por momentos de violência por outra geração que entendia que educar só podia funcionar por opressão. Por isso, hoje, cheios de horrores mentais, nós tendemos a querer destruir à força qualquer manifestação dessa violência. No entanto, precisamos entender que poucos são aqueles que são potencialmente e conscientemente maus, no geral as pessoas apenas não saber agir de forma diferente e são o que são no modo automático de suas vidas partindo sempre de suas próprias histórias e escolhas individuais.
A gentileza nos abraça e abraça as pessoas ao nosso redor, isso não significa aceitar e concordar com as suas e nossas falhas recorrentes; mas sim nos capacita na compreensão da individualidade de cada um, o que nos leva a ter mais controle de como falamos e como incentivamos as pessoas a pensarem sobre seus atos violentos. É o mesmo efeito da semente que citei no segundo parágrafo. Infelizmente devemos aceitar que nós não podemos mudar os outros, ainda que os prendamos, ainda que os cancelemos, cada indivíduo é responsável por sua própria evolução pessoal. As pessoas ao redor são apenas pequenas doses de consciência que cada indivíduo escolhe tomar para si ou não tomar.
Então sejamos gentis, porque todos, inclusive e principalmente eu e você, já escolhemos não tomar consciência de algo importante que estava sendo transmitido a nós e a cada dia fazemos novamente essa escolha com cada novo estímulo. Se você quer ter mais consciência da sua escolha, seja mais gentil, quando você decide ser gentil e tomar mais cuidado consigo e com os outros, você tende a reparar mais no que vem ao seu encontro e, reparando, você compreende; compreendendo, você escolhe tomar ou não aquilo para si. Abandonar a inconsciência de suas escolhas é algo muito poderoso, ser gentil te levará a esse superpoder.
Não estamos prontos para a tecnologia
Nós estamos nos enganando quase sempre em que acessamos a Internet, porque é imensa a ilusão de que somos especiais aqui. Isso faz com que…
Jonelle Summerfield
Nós estamos nos enganando quase sempre em que acessamos a Internet, porque é imensa a ilusão de que somos especiais aqui. Isso faz com que acreditemos que nossa opinião e nossa vida precisam ser postas à mostra de todos. A primitiva necessidade do ser humano de ser ouvido e compreendido tornou-se perigosa, pois, neste cenário, oprimimos e humilhamos aqueles que não concordam conosco ou que não conseguem nos entender ou, ainda, aqueles que não passam por nossa “aprovação”, isto é, por nosso tribunal de falsa moralidade. A busca por um sentido de vida através das telas tecnológicas nos trouxe disforia, porque aqui o tempo voa, tudo acontece em segundos e a montanha-russa de emoções nos leva a um profundo estado de abstinência, ansiedade e medo.
A vida real é lenta. Os relacionamentos precisam de anos de dedicação para que possam dar certo, além de muita dedicação mútua que requer paciência, tolerância e cuidado. As amizades precisam de anos de convivência para que cultivem confiança, precisam de muita verdade mútua compartilhada em momentos de grande valor. Um trabalho requer horas e mais horas para ser feito e mais incontáveis horas para ser aprendido e, por fim, para que seja aprimorado, é preciso anos. Um conhecimento valioso nunca vai caber em cinco minutos de vídeo, muito menos em quinze segundos. Um conhecimento valioso só será retido por seu cérebro se você estiver em contato constante com esse conhecimento, caso contrário ele descansará no leito da memória de curto prazo que se apaga depois de algum tempo. Na vida real você não apaga o que acabou de dizer como se fosse uma mensagem que te trouxe arrependimento, na vida real você tem que aprender a saber o que dizer e como dizer, além de enfrentar a frustração de cometer um erro e não poder facilmente apagá-lo.
A obviedade do que eu escrevo não exclui o fato de que é um assunto que precisa constantemente ser relembrado e mencionado a todos àqueles que existem no mundo humano; isso porque, como você pode perceber, a realidade virtual está destruindo a pouca empatia humana, pois a faz ser seletiva, isto é, ou nos comovemos demais com os outros a ponto de doarmos tempo, dinheiro e holofotes a eles, ou as odiamos a ponto de acabar com a vida dessas pessoas, cancelando-as em tudo o que comporta a existência delas. Mas a empatia, em sua forma original, é um sentimento que um indivíduo cultiva por todas as pessoas, inclusive aquelas que erram feio ou que fazem coisas imperdoáveis. Isso porque a empatia não é o mesmo que dó ou compaixão; ser empático é ser capaz de compreender e respeitar as glórias e as inglórias dos outros. Ser empático é doar tempo para ouvir e é estar aberto para aquilo que há de ser dito quando a oportunidade se faz presente. Essa conturbada falta de empatia acontece justamente pela negligência que temos com nós mesmos.
A tecnologia, contudo, não é a culpada da negligência humana; aceitar que o erro está em nossa inabilidade em lidar com as nossas dificuldades e emoções, além das nossas profundas erronias no que diz respeito ao âmbito social intersubjetivo, é uma atitude adulta e coerente, pois que, sim, nós somos os culpados. Escolhemos o ecrã brilhante nas horas em que deveríamos escolher tão somente um rosto amigo. E ainda que, para nós, seja apenas “uma olhadinha” nas notificações, é nessa “olhadinha” que as coisas se perdem, pois, se você reparar com atenção, ela acontece frequentemente. É assim que depositamos na Internet, através de uma tecnologia cada vez mais singular e perfeita, toda a nossa incapacidade de lidar com nosso próprio Ser, em contra partida transformamos nossa incapacidade, via esta mesma ferramenta, em um monstro incontrolável, cego, julgador e manipulador. Esta realidade se transforma à essa maneira por um motivo assustador: a distância que existe entre nós — tanto do “eu” consigo mesmo, quanto do “eu” com os outros — quando nos conectamos, por meio de uma interface amigável, nesta imensurável rede de códigos.
Há os que defendem o mundo virtual pelo fato de “aproximar” pessoas; eu mesma conheci meu companheiro em uma rede social, estamos juntos desde dois mil e quinze. No entanto aqui descansa a indagação que deve servir como um alerta: Será que a distância não é precisa para que saibamos aproveitar a presença de modo vívido e inesquecível? O equilíbrio entre a distância e a presença não seria, pois, a razão pela qual aprendemos a viver superando a nós mesmos? E este equilíbrio não seria também preciso para a nossa solitude? Nas redes estamos sempre acompanhados por estímulos que se comunicam impedindo o silêncio nadificante que precisamos para nos conectar com a nossa solitude e, por isso, por vezes, somos tomados por uma angustiante soledade que aumenta drasticamente a nossa disforia. Agora, em uma simplória análise, posso afirmar com certeza que não estamos prontos para a tecnologia que estamos desenvolvendo. Deveríamos, antes dela, ter aprendido a compreender a nossa existência humana.
E, não, eu não sou contra a internet, tampouco contra a tecnologia, na verdade eu tenho grande paixão por ambas, mas, com o tempo eu estou percebendo que este lugar é só mais um lugar e que tudo o que reside aqui é apenas um por cento da minha vida e, desta porcentagem tão ínfima, somente um terço dela, senão menos, é real. Porque aqui usamos avatares na maior parte do tempo, trazendo à vista alheia um “eu” completamente deturpado. É preciso cautela, é preciso aprender a usar todo este poder que nós mesmos estamos nos presenteando com. Às vezes é preciso deixar que o sentimento de saudade perdure mais, antes que façamos uma videochamada com a pessoa que nos dá saudade. Deixar-se sentir aquilo que vem aos sentidos, ao coração e à alma e levar à sério este silêncio, esta ausência, este tempo que passa tão devagar.
Dias desses vi um amigo ouvindo uma mensagem de áudio que alguém o enviara, este áudio estava acelerado em 2x. Era quase impossível de compreender para mim, e aquela voz falando rápido me trouxe angústia e ansiedade de modo instantâneo. Fiquei perplexa com aquilo, com o fato de meu amigo ouvir todos os áudios daquela maneira. Fiquei ainda mais chocada com o fato de ter me afetado tanto com aquilo, foi uma sensação de sufoco como se alguém apertasse a minha garganta.
A vida não se passa na velocidade acelerada em duas vezes, e nessa loucura em otimizar o tempo, a nossa disforia só aumenta e usamos, pois, a internet e toda a tecnologia, para compensar cada uma das nossas frustrações descontroladas.
Parágrafos Imanentes 01
O esperar do existir, a espera, curta anfemeridade sob a mortalha do tempo. Você levará o verso ao abismo da morte enquanto lamenta, no viver, o verso que não…
Jozef Israëls (1824–1911) - 'Contemplation' - 1896
O esperar do existir, a espera, curta anfemeridade sob a mortalha do tempo. Você levará o verso ao abismo da morte enquanto lamenta, no viver, o verso que não conta a própria sílaba? Você será sempre a projeção das máscaras quais tecem suas expectativas inalcançáveis, eu sei disso, porque no suor de sua fronte nada se evidencia mais do que a falta, a falta e a espera, ambas sob o prisma de um sonho mesquinho que a natureza não se importa. Você é ínfimo, como eu, pequenas partículas de nada. Ressuscite o deus que te faz importante enquanto você se volta ao pó, respirando cinzas em suas feridas narinas — as cinzas dos outros, queimados por sua profunda ignorância.
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The waiting of existence, the waiting, the short aphemerality under the shroud of time. Will you carry the verse to the abyss of death while still lives for lamenting the verse that does not count its own syllable? You will always be the projection of the masks that weave your unattainable expectations, I know that, because in the sweat of your forehead nothing is more evident than the lack, the lack and the waiting, both under the prism of a petty dream that nature don't cares. You are trifling, like me, little particles of nothing. Resurrect the god who makes you important as you turn to dust, breathing ash into your sore nostrils —the ashes of others, burned by your hollow ignorance.
Encontrar o Silêncio
Escritora angustiada nos tempos livres; para onde carregarei as angústias da existência emergidas no prelúdio tão inocente? Quem verdadeiramente…
Ariadne - Jean-Baptiste Greuze - Séc. XVIII
Escritora angustiada nos tempos livres; para onde carregarei as angústias da existência emergidas no prelúdio tão inocente? Quem verdadeiramente observa os grãos de areia? Na verdade, apenas pisamos sobre eles, sobre as pequenas realidades inimagináveis e, consequentemente, a nossa própria realidade.
Eu preciso de mais do que isso. Estar aqui não tem me levado a lugar algum além do vazio, será que há oxigênio lá fora? Será que há sentidos lá fora? Fora de tudo isso…
Minha alma é inquieta, dizem, volúvel; talvez seja isso e, se não for, o que será? Eu não me adéquo à modernidade, nem ao passado e, o futuro, há de vir? Eu não sei, no entanto, se vier, que seja diferente, que alcance o melhor que eu poderia um dia querer.
Nunca entendi o significado de deixar-se ser o que se é e minhas árduas tentativas de exercer o conheça-te a ti mesmo parecem sempre vãs; estou prisioneira dos martírios de quem foi jogado no mundo na incerteza do antes e no vazio do depois.
Alguns sorriem na estupidez, outros veem mais do que suas expressões faciais imperfeitas diante do espelho da alma. Alguns, não conseguem se amar.
Rarefeita.
Meu gato me faz companhia, dorme o dia inteiro, mas às vezes mia para mim e se eu ando no quintal ele me segue. Ele não gosta de ficar sozinho, ele não é um perfil de uma rede social. Ele está aqui. Mas eu, talvez, nunca tenha de fato estado aqui para ele.
Essa pandemia me destruiu… não, eu não estava inteira antes dela, eu estava destruída também, mas, no tempo que me sobra trancafiada, não posso fugir como antes eu fugia. Eu não quero mais continuar destruída… eu estou exausta de elogios e críticas, de comparações, afetos e ódios.
Eu não preciso e não quero nada disso. Eu nunca precisei e se um dia eu quis, foi por pura e juvenil tolice. Eu não sou nada disso que se mostra e eu estou cansada das sílabas contadas quando, no íntimo do meu coração, tudo o que há é silêncio.
Eu prefiro — e como eu almejo — mergulhar de uma vez nesse silêncio… porque sei que posso me encontrar nele, mesmo que eu me perca do mundo.
A Anestesia da Indiferença enquanto Silêncio e Solidão
É inevitável que o tempo adiante, em cada passo dado na torrente de seu próprio existir, a anestesia da indiferença. Não se trata de apatia ou ignorância, mas de consciência…
Lavery - Maiss Auras (1900)
É inevitável que o tempo adiante, em cada passo dado na torrente de seu próprio existir, a anestesia da indiferença. Não se trata de apatia ou ignorância, mas de consciência e compreensão de que para a vida humana ser bem vivida, é preciso silêncio e solidão. Engana-se aquele que pensar o silêncio como ausência de sons — ou diminuição extrema de tais — e a solidão como isolamento total dos pares partindo do sentimento de lúgubre vazio. Não. Há silêncio também nos sons, seja uma música, um diálogo ou o gotejar de uma chuva amena; há solidão no sentimento de plena completude e até mesmo no estar-em-companhia. Não é sobre ausências ou multidões, a Solidão é um estado de espírito e, o Silêncio, um modo-de-ser.
A anestesia da indiferença é o silêncio e a solidão como estado de espírito e modo-de-ser; neles reside o saber de que nada se pode fazer com os instantes da vida senão aceitá-los ou ressignificá-los ou, ainda, transformá-los — este último sob a ciência de que só se pode mudar a si mesmo e nunca o outro ou o passado. Partindo desta ciência, as emoções mais hostis encontram o equilíbrio preciso para se manifestarem sem alarde — e as emoções eufóricas também, pois engana-se aquele que pensa que, sobremodo as emoções prazerosas, não precisam em si mesmas de dosagem; elas, na verdade, são estritamente responsáveis pelos níveis alarmantes das emoções hostis, pois elevam demais o nosso espírito e declinam com rapidez exacerbada, causam uma queda brusca e trazem, com isso, consequências destrutivas para a psique humana.
Deste modo reitero que, neste texto, a explicação dos termos “anestesia” e “indiferença” está, tão somente, na redução da sensibilidade e na tranquilidade da compreensão. É o silêncio e a solidão como estado de espírito e modo-de-ser que proporcionam a redução da sensibilidade — trazendo o equilíbrio e a noção consciente das coisas, situações ou pessoas que nos afetam; enquanto a tranquilidade da compreensão nos permite enxergar e entender nossos limites e nossos tempos, pois que há tempo para todas as coisas e nossos limites precisam ser cuidados e protegidos — haverá sempre o tempo adequado para ultrapassá-los também. Desconsiderem, para manter a sanidade, a ideia errônea de que devemos, constantemente, sermos pessoas melhores — desconsidere ainda mais o significado generalizado do “ser uma pessoa melhor”; ser-melhor requer, profundamente, cuidado e respeito consigo mesmo e estes dois são encontrados e aflorados no Silêncio e na Solidão.
Sim, é um privilégio vivenciar a anestesia da indiferença enquanto silêncio e solidão; quaisquer mudanças em larga escala sempre se iniciam no individual, pois que o exemplo é inestimável e nele está o verdadeiro aprendizado. Aproveite o seu privilégio de poder ler este texto e pensar a respeito do que se apresenta a você; sua mudança pessoal refletirá na totalidade do mundo.
A necessidade de termos empatia
Falta-nos Empatia. Empatia é enxergar a constituição subjetiva, histórica e social de cada pessoa que existe no mundo, independente de nossa opinião pessoal a respeito…
Falta-nos Empatia. Empatia é enxergar a constituição subjetiva, histórica e social de cada pessoa que existe no mundo, independente de nossa opinião pessoal a respeito desta pessoa ou de seus comportamentos e princípios. Além disso, Empatia é Tolerância e Reflexão e, mais ainda, é o ato de colocar-se como protagonista da realidade humana e não somente da sua realidade individual.
Um exemplo para ilustrar isso é o tipo de justiça que desejamos para aqueles que são criminosos. Tendemos a acreditar que a justiça ideal é a morte ou o sofrimento e, se alguém se dispõe à empatia diante desses sujeitos, logo esta pessoa empática é considerada fraca por ter “compaixão” e “defender” criminosos. Isso é sim um grande equívoco!
Empatia não é Compaixão. Se fosse, não se chamaria Empatia, se chamaria Compaixão. Colocar-se no lugar do outro é permitir-se refletir com vastidão sobre tudo aquilo que compõe a humanidade daquele ser, inclusive o sistema em que este ser está inserido. Ao contrário do que muitos acreditam, ter Empatia não significa aceitar as pessoas como elas são sem questioná-las, tampouco significa sentir piedade desconsiderando o mal que elas causaram às outras pessoas.
Ter Empatia é desenvolver em si mesmo a capacidade de entender a amplitude das situações, tanto pelo lado individual de cada um dos envolvidos, quanto pelo lado coletivo — o que engloba cada um de nós, mesmo que a questão a ser avaliada não esteja relacionada diretamente com a gente.
Voltando ao caso de um criminoso, vamos dar-lhe um contexto, ele é um homicida que acabou com a vida de todas as pessoas inocentes dentro de um restaurante em algum país bem longe daqui. O que eu tenho a ver com isso? É evidente que quem está mais envolvido nessa situação é o povo daquele país, as famílias das vítimas e seus respectivos círculos sociais, mas, nós enquanto seres humanos, precisamos da Empatia para considerarmos os erros que aquela cultura cultiva, pois, ninguém nasce homicida e, se nasce, por que e como encontra espaço para se desenvolver a ponto de chegar a concretizar tamanha barbaridade?
Empatia é questionamento. Empatia é conhecimento. É saber que as pessoas não possuem as mesmas oportunidades, tampouco o mesmo nível de consciência. Vamos falar sobre ter consciência: Ter consciência é ser capaz de reconhecer, em seu comportamento, os pontos falhos e, principalmente, ser capaz de entender o porquê é importante seguir outros caminhos e mudar.
Mais um exemplo: Um ou uma jovem percebe, após o término de seu primeiro namoro, que ele ou ela possuía atitudes desagradáveis que sempre constrangiam seu parceiro ou sua parceira; o trauma do término permitiu a essa pessoa que ela decidisse não cometer os mesmos erros da próxima vez que se relacionasse intimamente com alguém. Dentro dessa situação nós temos muitas capacidades desenvolvidas que são privilégios de poucos: Observação — tanto de si mesmo como do contexto em que se está inserido — , Autopercepção — entender seus sentimentos, erros e acertos — , Autoanálise — questionar seus erros e reconhecer seus acertos — e Empatia — colocar-se no lugar do outro buscando compreender a realidade dele.
Para que uma pessoa consiga fazer este tipo de autoinvestigação, ela precisa ter, no mínimo, uma educação e um apoio psicológico — essa é a regra e, se existe exceção, devemos tratá-las como a exceção que são. Tendemos a generalizar exceções de modo a torná-las como molde para as regras, isso é um grande erro; uma pessoa que não tem apoio psicológico ou educação pode sim ser capaz de desenvolver tudo isso a partir de sua própria busca por educação e apoio psicológico, no entanto, isso é raro e, enquanto raridade, é exceção.
Nós somos seres coletivos, por mais introspectivos ou antissociais, sem os outros não somos capazes de evoluir, de aprender e de conhecer a vida; precisamos do coletivo, precisamos do grupo, precisamos de pessoas ao nosso lado e que principalmente nos dê apoio na caminhada da vida — este apoio acontece — e esta é uma das formas em que ele se apresente — na troca de conhecimento que nos levará a compreender melhor nossas emoções, percepções e sentimentos; além de nos permitir entender que o mundo não gira em torno de nosso umbigo.
Portanto, se você entendeu o papel da Empatia, então você sabe que você é um indivíduo privilegiado, enquanto indivíduo privilegiado, sua voz pode ir mais longe, não a utilize para segregar, para vulgarizar, generalizar ou menosprezar; use-a para promover mudanças valiosas e ponha em prática os princípios da Empatia. Por mais que a informação pareça estar disponível a qualquer um, nem todos estão prontos para digeri-la e nós, todos nós, temos responsabilidade nisso.
Cultivada no seu próprio solo, a maldade humana é uma brincadeira de mau-gosto do acaso; uma construção perversa do sistema; uma condição morbígera…