Cruel Delírio
Que ardor… Cri na mendaz ilusão | Teus olhos negros na escuridão | Fisgados por entre…
Imagem criada por Sahra Melihssa
Que ardor… Cri na mendaz ilusão
Teus olhos negros na escuridão
Fisgados por entre meus vitrais
Sutil luzido sob céus astrais
Enquanto o sopro frio em tua feição
Na aragem de aspectos brumais
Aluíra-me o infeliz coração.
Fui dentre os pinheiros te buscar
Nas sombras tua voz grave a chamar
Meus pés descalços, e eu tão marfim,
Que espinhos emergiram sob mim
Num negro roseiral de agoniar
Deixei um rastro em sangue carmesim
Horrores vis verti em lacrimar.
Que pouco a pouco a morte fatal
Viera à minha solidão cabal
Caíra ao meu ruir, ó, tão silenciado
Que fim; que epílogo consumado!
Roguei fraca por tu’alma abissal
Tal como fiz à tua cova, amado…
Tal como fiz no rito à catedral.
Senti tua presença eterna em tez
Fitei o envolto turvo em frigidez
Havia da noite a treva somente.
Tal como tu eras, intransigente,
Ela urgia muda, um mal imanente
Eu sob seu manto em languidez.
N’aurora, pois, voltei à lucidez
Tu foste a ilusão, ó, tristemente,
E eu só queria amar-te a última vez.
Incômodo
Perdura ainda o tal do isolamento? | Ou só mantém-se a regra para mim? | Se saio vejo tantos n'um momento | Sorrindo e rindo em goles de festim; | Alguns até que…
Jozef Israels (1824 – 1911, Dutch) - Sunday Morning
Perdura ainda o tal do isolamento?
Ou só mantém-se a regra para mim?
Se saio vejo tantos n’um momento
Sorrindo e rindo em goles de festim;
Alguns até que vestem certos mantos
No rosto ou n’essa alma decadente
A qual carregam límpidos, sem prantos,
Enquanto vivo em cárcere vigente;
A sorte desse povo só me omina!
Se ouso a pé sair ali na esquina,
Provável qu’eu respire o vírus todo!
Eu devo estar de agrores malferidos,
Pois penso sou querida à ir p’r’o céu
Ou eles é que são os preferidos?
Lancinura
sinto mundos febris, | sinto imenso e agudo | dor no peito, amiúdo: | meus plangores ardis… | sentimento-agonia, | sinto tanta torrente | que se verte, cadente, | a ilusão de euforia…
Francesco Hayez (1791–1882) - Mary Magdalene as a hermit (1833) DETALHE
sinto mundos febris,
sinto imenso e agudo
dor no peito, amiúdo:
meus plangores ardis…
sentimento-agonia,
sinto tanta torrente
que se verte, cadente,
a ilusão de euforia…
sinto muito e pressinto:
decadência e martírio
penumbral sentinela;
aqui dentro, distinto…
se me fosse um delírio
não teria sequela.
5 de janeiro de 2021
“Lancinura” é uma palavra criada por mim para representar a sensação que atravessa os metros d’este Soneto. Significa o mesmo que “Lancinante”, contudo o termo ascende-se às profundezas do âmago pela vogal “U” mais grave que se estende por maior tempo. Além disso, “nura” faz referência ao termo “nullus” que em latim significa “nada” ou “coisa alguma”; isso porque sentir muito é olhar para o abismo do ser — o Nada que nos constitui — e que pulsa continuamente.
Perdura ainda o tal do isolamento? | Ou só mantém-se a regra para mim? | Se saio vejo tantos n'um momento | Sorrindo e rindo em goles de festim; | Alguns até que…