Aesir
Uma lânguida tristura penetrou-me o âmago e minhas lágrimas nasceram como orvalho da manhã. Eu estava preenchida pelo vazio de modo que toda a extensão…
The Maiden’s Lament - Horace Vernet (1789-1863)
Uma lânguida tristura penetrou-me o âmago e minhas lágrimas nasceram como orvalho da manhã. Eu estava preenchida pelo vazio de modo que toda a extensão abíssica que o comporta fazia completo sentido em minha alma. E aquele ser continuava a olhar-me com seu lúrido semblante tumular. Eu soube, pouco antes, das consequências quais se desvelavam naquele atormentador momento, no entanto custei a acreditar até vivenciá-los, pois que qualquer sã criatura hesitaria assim como eu hesitei e, decerto, na mais pura consciência, qualquer um desconfiaria de sua própria sanidade tal como eu desconfiei no prelúdio de todas as coisas. Mas ali, sendo fitada profundamente por aquelas órbitas solitárias, já não cabia em meu peito quaisquer desconfianças, restava tão somente o vínculo ao desalento.
Devo dizer que ainda não manejo as palavras tal como sei que o farei nas próximas décadas; no entanto há sede e vazio, e as palavras possuem a razão elementar que me permite lembrar o sentido etéreo de minha escolha. A minha escolha; aquela que, por Amor, resistiu a todo o sangue e toda a agonia. Fui guiada por minha intuição desde que Aesir pousara em um dos balaústres, na varanda. Era três horas da manhã. O vi majestoso, de soslaio, imediatamente levantei-me para contemplá-lo de perto. Tratava-se de um pássaro corvino cujas penas possuíam tons violáceos, embora, predominantemente, negros. Seus olhos também eram púrpura e detinham uma reluzente constituição símil às chamas de um tipo de fogo obscuro e cósmico. Fitei-o através da porta, pelo vidro. Tive receio, por segundos, diante a magnitude da ave.
“Olá” — sussurrei ao abrir a porta, um sopro taciturno adentrou a fresta e invadiu-me o corpo como se fosse uma aura — e de fato era, mas eu não sabia. Senti frio e angústia, abracei meus braços em busca de calidez e mirei os detalhes da criatura à minha frente. O pássaro era mais belo do que previsto, suas penas possuíam ornamentos reluzentes em um tipo de cor metálica-violeta e o bico era negro, de ponta afilada, perigosa e, talvez, fatal. Sentei-me à porta após buscar, devagar, a cadeira da escrivaninha. A porta de vidro permaneceu semiaberta, pois diante os detalhes que apreendi, temi um pouco mais, temi que seu acúleo penetrasse meu órgão vital, deste modo não deixei que o espaço fosse suficientemente vasto para que ele pudesse entrar. Era tão belo, tão estranhamente melancólico, não quis deixar de fitá-lo mesmo temerosa.
“De onde é essa ave?” — pensei. “Parece um tipo de criatura dos sonhos, fantástica, irreal”. A ave parecia serena, seus movimentos eram tão venustos quanto sua aparência. “Agora não estou tão só” — proferi à ave. “Aqui, às vezes, é solitário; não é como se a solidão me perturbasse, mas você, como uma ave solitária tal como me parece ser, entende que, às vezes, faz falta…” — eu disse. Não há razões para eu ter começado um diálogo com aquela criatura, tratava-se de um pássaro, um tanto místico, eu sei, mas ainda assim era um pássaro; eu de fato sentia a solidão e a falta, a ausência corria em meus pulmões e, por vezes, devorava minha energia. Eu recebia visitas semanais e mensais de alguns familiares e amigos, nutríamos uma relação amistosa; ainda assim eu apenas não pertencia. Não havia encaixe e conforto ao lado daqueles quais me criaram e me educaram durante tantos anos; muito menos daqueles quais conheci no decorrer de meu amadurecimento. Todos eram estranhos e eu me sentia, a cada anfemeridade, mais alheia e indiferente e todos eles.
Meu adorável pai com seu austero semblante, era fraco; tão fraco. Seus traumas o faziam, tão somente, um homem comum cuja autoestima se imergia na ilusão de unicidade; minha mãe, tão amável, imersa em fantasmas cujos horrores a faziam morrer em si mesma, dia após dia. Ambos viam-me como um espelho, transformavam-me em si mesmos e, cada palavra a meu respeito que eu lhes direcionava, voltava para mim como sendo propriedade deles, acerca deles, nunca de mim. E o que posso falar sobre meus irmãos e tios e tias e avós? Todos são como fiéis carvalhos, enraizados no pântano de seus entraves e quimeras. Não se diferem de meus colegas e amigos, os quais vivem sedentos de compensação da vida adulta medíocre que são obrigados a levar. “Devo escolher um nome para você, não é?” — falei ao pássaro após um mergulho prolongado em meus reclusos pensamentos. “É isso que fazem os humanos, nomeiam os entes do mundo, coisas e criaturas” — expliquei e suspirei pela atmosfera ainda tão consternada. “Aesir…” — revelei. “É um nome com sonoridade interessante, não acha?” — mais um suspiro. “É isso… Aesir… Este será o seu nome agora”. Levantei-me. “Aesir, eu estou triste como nunca estivera, não poderei lhe fazer companhia. Logo amanhecerá.” — Fui à minha cama e me deitei. “Dizem que o amanhecer traz sempre um recomeço”. Antes de adormecer, lembro-me de ter visto Aesir voar.
Não era como avistar uma belíssima Arara azul ou, ainda, Tucanos ou Flamingos; Aesir era um pássaro obscuro, olhá-lo não trazia somente encanto de modo a ser, a primeira reação do observador, fotografá-lo ou, ainda, na pior das hipóteses, prendê-lo numa espécie de gaiola. Aesir trazia o encanto rubro cujas sensações de fascinação, infelicidade e vazio uniam-se através da morte em uma dança íntima e soturna. Fitá-lo era, tão somente, profundo desejo de fitá-lo e nada mais além das sensações deste etéreo contemplar. Apesar da estável veracidade daquele noturno encontro, ao despertar na manhã seguinte deduzi se tratar de um sonho lúcido e que a mística criatura nascera meramente das nódoas mentais de meu inconsciente ressentido.
O Portal
Destranquei a porta e abri-a lentamente, nenhum ruído advinha de dentro daquele apartamento, nem mesmo do computador…
Destranquei a porta e abri-a lentamente, nenhum ruído advinha de dentro daquele apartamento, nem mesmo do computador ligado sobre a mesa da sala. Estava tudo escuro quando entrei e Dante não parecia estar por perto, isso me fez pensar que, decerto, ele estaria dormindo; mas, por que dormir àquela hora se, há meia hora enviara-me uma mensagem tão incomum? Havia uma atmosfera estranha ali que eu não quis aceitar como real, eu definitivamente não sinto medo e não tenho sensações como aquela; não ter medos não significa que sou superior ou evoluída, é o meu cansaço que faz tudo parecer insuficientemente surpreendente ou assustador. No entanto a sensação estava ali e aquela atmosfera não poderia ser tão somente um pormenor irrelevante, ela ascendia significativamente conforme eu me aproximava do computador onde eu teria acesso a visão completa dos dois corredores, à direita e à esquerda, que levava aos demais cômodos. Era como uma presença imersiva. Hesitei. Tudo continuava em um silêncio obscuro. “Dan?” ― proferi, mas nenhuma resposta encontrou-me. “Dan?” ― novamente o nada. À janela à frente denunciava a chuva e na tela do computador havia uma página aberta com algo escrito. Curvei-me ligeiramente e li.
Era uma página de notícias, um trecho selecionado se destacava aos meus olhos. “Os policiais encaminharam Luíza para o centro psiquiátrico de Nortos, porém durante todo o tempo Luíza estivera sã e até quando entrevistada pelo jornalista Caesar Soares do jornal da manhã, manteve-se calma e afirmara várias vezes que jamais poderia ferir sua irmã: “Eu sei bem o que eu vi ali, um tipo de fenômeno completamente anormal e monstruoso, eu apenas não consigo descrever aquilo, porque me assombra, mas eu sei muito bem que estou falando a verdade e eu vou, de algum jeito, provar minha inocência”. O corpo de sua Lígia será enterrado amanhã, sua família preferiu não divulgar o local da cerimônia”. Ao lado, na mesa, uma vela e um livro. Curvei-me mais um pouco para enxergar o título, curvei-me demais e pela visão paralela eu vi a silhueta no corredor. Tremi e imediatamente retrocedi alguns passos. Meu coração se acelerou como há tempos não fazia. “Dan, você está aí? Me responde, droga!” ― disse ainda mais alto. Nenhum som. “Merda...” ― sussurrei e voltei para a porta com o intuito de ir embora o mais rápido possível. Foi nesse instante que tudo ficou claro, a energia elétrica voltara. Olhei para a sala outra vez, antes de sair do apartamento. Eu o vi, então, e um maldito susto levei, seus olhos eram fundos como um cadáver e seu rosto pálido era agonizante. Meu alarde foi tanto que gritei e levei minhas mãos ao meu peito, sentindo o coração mais que frenético.
― Meu deus, Dante, que porra é essa! ― falei com a voz fraca
― Há alguém do outro lado do espelho ― aquela voz não podia ser a de Dante, era tão baixa e grave, tão tenra e apática.
― O quê? Enlouqueceu? ― Minha postura retomava aos poucos enquanto eu tentava entender tudo aquilo.
― Venha, vou te mostrar ― ele se virou de costas, deu alguns passos.
― Não, Dante, você fumou? Não vou com você, esse lugar está bizarro!
― Está bizarro por causa do espelho... ― ele me olhou outra vez ― E se eu fosse você eu falava mais baixo, aquela coisa não parece gostar de barulhos.
― Do que você está falando? ― preceituei.
― Vem, Ana, eu preciso que você venha ver! ― expressou num sussurro. Confesso que me preocupei e caminhei com ele, ainda hesitante. Não havia nada no corredor. No quarto de hóspedes o espelho estava coberto por uma manta escura. ― Eu vou tirar a manta, está claro e nada de ruim vai acontecer, eu acho, porque tem luz aqui.
Eu vi o espelho e nele o reflexo era sinistro, tudo o que havia era o mesmo quarto, mas em completa deformidade, coberto com sangue e entranhas. Cada parede suja era negra e cinza, um tipo de musgo arrastava-se na extensão das rachaduras de cada mobília. Enjoei-me com a cena e o cheiro de enxofre que de repente tão forte e tão impossível, trouxera-me vertigens; virei meu rosto para não ver aquilo, nem eu e nem mesmo Dante eram refletidos. Meu coração pulsou mais forte e, completamente atordoada, fiquei sem reação.
― É um portal, Ana, eu olhei lá dentro, minha cabeça atravessou. Eu vi uma coisa lá. Um tipo de ser... não sei explicar.
Eu senti que iria vomitar, meu corpo tremia e eu não era capaz de controlar meu próprio ser. Não podia ser real. Dante cobriu novamente a entrada infernal. Continuei aturdida.
― Quando está escuro ele sai... caminha devagar e vai até o corredor. Para. Não continua. A luz do computador o impede de passar. Mas ele sabe onde estou, por isso espera... ele está a cada noite mais próximo... ― Lembro-me da silhueta, da sensação persecutória, do silêncio. Começo a suar. Sinto falta de ar e sei que vou colapsar, não consigo dizer nada.
― Ana... me ajude... me ajude, Ana ― Dante se aproxima e começa a me chacoalhar como um insano ― Me ajuda, por favor, me ajuda ― Sussurra como um maníaco. Solto-me de suas mãos agressivas e corro para a saída da casa, ele corre atrás de mim. ― Ana, não! Por favor! Eu preciso de ajuda! ― Abro a porta e tranco-o para dentro do apartamento. Estou ofegante. Ele não bate na porta. Sei que ele tem a chave, mas não a vi no lugar que deveria estar, nem mesmo na porta do lado de dentro quando entrei. ― Ana... por favor... ― ele sussurra, encostado na porta.
― Por que você não vem comigo? Nós podemos apenas ir embora... ― digo, completamente atormentada. Ouço-o respirar.
― Poderíamos..., mas eu o vi... e não posso esquecer... a forma... a carne... os olhos... estão dentro de mim... ele me seguira onde eu for...
― Apenas vamos embora, Dante, você não vai salvar o mundo, aquilo é um portal! ― sussurrei em desespero. Aquilo era um portal?
― Eu sei... eu o abri, Ana... a culpa é minha... ― a voz de Dante se distância.
― Dante? Por que você fez isso? ― indago, mas ele não responde. ― Dante! ― grito. Nada. Abaixo-me para olhar debaixo da porta. A fresta suave de luz se apaga. ― Dante! Não faça isso! Seja o que for que você vá fazer! ― brado outra fez, dando murros na madeira que nos separa. Ouço um som. É o silêncio. Ele está vindo. A atmosfera e a silhueta são vivas na minha mente. Começo a destrancar a porta com uma fugacidade desumana, pois eu sabia, Dante estava pronto para se entregar.
― Dante! Isso não vai resolver os problemas! Me ouve! ― Destranco. Abro-a e está escuro, mas a luz do corredor contagia a escuridão. Era tarde demais. Corro até o quarto de hóspedes e pelo caminho acendo cada uma das luzes. Era tarde demais. A porta do quarto estava fechada, lá dentro estava escuro e eu pude ouvir a sonância de um líquido pingar, e o silêncio espargir, e a carne mastigada, e o cheiro de enxofre tão mais absurdo do que antes. Minhas pernas se abalam, minha garganta torna-se seca e, antes de minha fuga alucinada, um raio atinge algum prédio mais próximo, o estrondo acompanha a chuva densa, abaixo-me assustada e a escuridão retorna por todos os lugares, exceto a luz do computador na sua bateria persistente. Não penso, apenas corro em desespero inenarrável tentando enxergar além das poucas luzes de emergência do corredor. Ouço a porta do quarto de hóspedes se abrir, era absurdo ouvir naquela distância, já no meio do corredor, próxima às escadas. Mas eu ouvi. A coisa estava vindo me encontrar e eu não sei o quão rápido ela seria. Nunca corri tanto em toda a minha vida, e mesmo já fora do prédio eu não parei, eu ouvia e eu sentia o seu cheiro; estava tudo escuro, não havia ninguém por perto, só havia o frio, a chuva e, cada vez mais, aquele ser. Próximo. Respirando. Nutrindo meu tormento.
Cheguei à luz sem fôlego e num quase ataque cardíaco; eu estava em um posto de gasolina, mas não importa o quão iluminado era aquele lugar, a sensação de perseguição predominava e a silhueta vista de soslaio era eternamente repetida de sombra a sombra, canto a canto. Eu queria arrancar meus olhos..., mas do que adiantaria? Era evidente que ele permaneceria próximo, seu cheiro, a sonância de seu silêncio, sua carnificina, tudo era inevitável, tudo estava enraizado... ele já estava dentro de mim.
Esfriara. Minha pele está mais nívea e meu rosto mais magro. Estou esquálida de espírito e, de tanta imersão na mediocridade, estou desabitada;…