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O que é uma Sonura?

Em algum espectro temporal da poesia em toda a sua existência, houvera uma poética habitante…

Em algum espectro temporal da poesia em toda a sua existência, houvera uma poética habitante do Soneto assim como incontáveis outras poéticas o habitavam — para diferenciá-la, nomeá-la-emos de Poehsia (pronuncia-se po-ê-zia). Poehsia viveu e perdurou por muitos séculos dentro dos quatorze versos, expressando-se em dois quartetos e dois tercetos, todavia, algo lhe soava incompleto. Essa ínfima incompletude que a perturbava, desvelou-se em uma tênue e dolorosa sensação de estranheza — a qual, mesmo que tão pequena, ascendia em Poehsia um amargurado e insuportável sofrimento.

Sempre imersa n’uma profunda e indefinida tristeza que lhe serenava o coração, Poehsia percebeu não pertencer mais ao recôndito do Soneto. Os versos de Poehsia, em perpétua melancolia, não se vinculavam mais com a métrica sonetista — se é que algum dia se vinculou. Não era mais possível para Poehsia prosseguir com esta ausência obscura de sentido, o adeus era necessário.

Por infortúnio ou bonança, Poehsia não teve sucesso em sua busca por um novo lar, vagou por muito tempo em outros formatos fixos e até mesmo se permitiu aventurar-se no voo da forma livre. Nada a completava... Poehsia decidiu, depois de tanta exaustão, criar seu próprio ninho para que nele pudesse descansar. Este ninho tornou-se o lugar em que ela poderia ser a si mesma, completar-se a si mesma e, principalmente, o espaço que comportaria o seu esmorecimento tão próprio. A este lar ela chamou de Sonura.

A Sonura carrega semelhanças e influências do Soneto, no entanto, tem a essência e a forma únicas que pertencem à alma de Poehsia. É uma forma fixa de poesia, no entanto, ainda está em construção, portanto, pode ter modificações no futuro. Até este momento, temos um poema com quinze versos, duas primeiras estrofes são quartetos (quatro versos), logo em seguida temos um terceto (estrofe de três versos) e, para finalizar, mais um quarteto. Eis a forma em sua completude:

Quarteto 1º
Perpé²tuo Lacrimar⁶, a solinu¹⁰ra (A: ura)
É pá²ramo de véus⁶ na cor marfim¹⁰; (B: im)
Ouvin²do estás, meu cân⁶tico-tristu¹⁰ra, (A: ura)
Enquan²to a lira tan⁶ge em silencim¹⁰? (B: im)

Quarteto 2º
Tu qu’i²nda no sonhar⁶ do meu lamen¹⁰to (C: ento)
Perdu²ras tão sombrí⁶fero e arden¹⁰te… (D: ente)
Ó… vas²to e quebradi⁶ço, ao léu do ven¹⁰to, (C: ento)
Orva²lhas-me o conten⁶to remanen¹⁰te… (D: ente)

Terceto único
Est’a²lma é nós —  condoí⁶da imensidão¹⁰! (E: ão)
Pere²ne Lacrimar⁶, és meu amásio¹⁰, (F: ázio)
Condu²zes desalen⁶to em algodão¹⁰, (E: ão)

Quarteto 3º
Vislum²bras por cristais⁶ o teu copázio¹⁰ (F: ázio)
Que tan²to já transbor⁶da do manar¹⁰ (G: ar)
Que é no²sso, vês, a pé⁶rola a brotar¹⁰? (G: ar)
Peque²na, orbicular⁶, gema-calázio¹⁰. (F: ázio)

Esquema rítmico: decassílabo heroico, tônicas obrigatórias: 2ª, 6ª e 10ª. Escrever Sonuras requer uma poética bastante triste, lhana, melancólica. Poesias de angústia, aflição e tormento também coincidem com o formato, assim como os versos de amor lânguido ou de horror/terror consternado. A introspecção é inestimável para escrever Sonuras, pois questionamentos existenciais são precisos para construir a imersão que somente uma Sonura proporciona.

O que não combina com a Sonura: Assuntos políticos, triviais ou cotidianos; temas cheios de alegria, comédia, sátiras, ironias, sarcasmos; versos simples — sim, a Sonura pede lapidação intensa; poucos detalhes expressivos, ausência de tristeza. O que mais combina com a Sonura? A fantasia, a idealização, o romantismo, o amor cortês, a espiritualidade, o sobrenatural, o sombrio, o soturno e o oculto. Por que escrever uma Sonura? As Sonuras nos chamam, apenas isso, é preciso senti-la se aproximando e ouvi-la te chamar. É algo bem íntimo para almas cheias de suavinura.



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A Caminho da Sonura

Há tempos que os Sonetos não satisfazem minh’alma, embora eu ainda mantenha grande apreço e carinho por eles e, inclusive, vontade de escrevê-los; outrora, entretanto…

 

James Francis Day

 

Há tempos que os Sonetos não satisfazem minh’alma, embora eu ainda mantenha grande apreço e carinho por eles e, inclusive, vontade de escrevê-los; outrora, entretanto, este carinho era como uma obsessão em que o Soneto era, para mim, o único formato digno de ser escrito; o único que de fato abraçava minha Poética. Tal fascínio começara a se extinguir n’algum momento, talvez quando a sonoridade dos tercetos tornaram-se incômodas através da sensação de quebra do ritmo dos quartetos precedentes ou, talvez, pela ausência de sentidos e por outras razões inconscientes. Neste momento voltei-me aos quartetos dando vida a “Leleenvenur”, “Melancolia de Verão” e “Absorto”, por exemplo, obras quais considero altamente sonoras e significativas, todavia, como previsto a partir do meu caráter altamente voltado aos sentidos, eu precisava de mais além dos quartetos, eu precisava de um formato fixo poético profundamente meu.

N’um dia quente de solidão, este verão do ano de dois mil e vinte um, eu comecei a trabalhar em um novo formato fixo de poesia e havia uma única clareira, fina e tenra, disposta à minha mente sob o objetivo de iluminar o caminho que eu estava prestes a trilhar: Vinte e três versos. A partir deste luminar, encontrei a primeira disposição de estrofes e ritmos e dei vida a “Quanto o tempo resiste na memória?”. O processo de criação foi excêntrico, selecionei duas poesias prontas e mesclei-as em várias divisões, lendo-as sempre, para que eu pudesse escutar os sons das sílabas e entender em qual sequência elas se harmonizariam. Assim, cheguei à isto: 1 Monóstico, 2 Septilhas e 2 Quartetos.

A escolha rítmica partiu do meu maior conforto com a sequência 1–3–6–10 (Qua/nto o/ tem/po /re/sis/te/ na /me/mó/ria?), certamente por causa do costume de aplicá-la aos Sonetos. A escolha do Monóstico adviera como uma intuição sutil, não vos saberei explicar como, no entanto, ao criá-lo — o Monóstico — após já ter decidido pelas Septilhas a partir do som, senti-me a alma confortada; o Monóstico parecia dar o tom da poesia, como um título, mas muito mais completo, em sonância etérea. Essa impressão se confirmou quando escrevi “Quanto o tempo resiste na memória?” e se afirmou quando dei vida a “É destino a aspereza de minh’alma”. Após a escolha do Monóstico e das Septilhas, eu só poderia finalizar o poema com quartetos, pois são altamente melodiosos; eu não estava enganada, eles realmente prolongaram a beleza ressoante e trouxeram o esplêndido desfecho.

O processo de criação de “Quanto o tempo resiste na memória?” foi, como posso vos dizer? Mágico! Atravessei um oceano mundano e encontrei a ilha do fascínio poético do Ser, tudo através deste formato fixo de poesia que, repleto de sentidos, dançara uma valsa comigo, aliás, só poderia ser uma valsa, o rítmo ternário é o mesmo, em partes. A valsa da minha alma, da alma humana. Em êxtase, ao finalizar, percebi que minha obra estava repleta de memória, completamente imersa em sentimentos de ternura, brandura, agrura e tristura — características quais se desvelaram também no “É destino a aspereza de minh’alma”. Ora, quantas “nuras”! E quantos “sons”! Eis que dei à luz a uma “Sonura”. Sinto-me completa, ou melhor, a caminho da completude; quero compreender mais profundamente a valsa da Sonura, como ela abraça e sorve de minha poética e meu fascínio pelas letras; uma coisa já me tem na certeza: não errei meus primeiros passos, os vinte e três versos, mas, agora, diga-me você, leitor, o que sente ou sentiu ao ler as duas primeiras Sonuras?

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