Poesias, Sonuras, Morte, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Sonuras, Morte, Existencial Sahra Melihssa

Sonurista da Morte

Nas grotas d’uma lôbrega passagem, | A balça gris e sôfrega, que à vista, | Ornava em medo fúnebre a viagem | Aos versos d’um plangente sonurista;…

Nas grotas d’uma lôbrega passagem,
 A balça gris e sôfrega, que à vista,
 Ornava em medo fúnebre a viagem
 Aos versos d’um plangente sonurista;

Lagura enegrecida e nau minguada,
 Um’áura tão morbígera envolvia
 Minh’alma dolorida e desgraçada,
 Enquanto ele, em poema, me pre’nchia

Seu canto-recitar… Ó! Que tristura!
 A cada rima, de algo eu me esquecia
 Sumindo, n’aflição de mi’a fissura…

“Bem-vindo ao fim” — ouvi e pertencia
 Ao ser de manto negro na paragem,
 Olhei o sonurista, uma miragem?
 Um mármore, tão só, me conduzia.



Leia mais
Poesias, Sonuras, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Sonuras, Existencial Sahra Melihssa

Íntima Tristura

Pressinto as outonais aragens frias | No âmago e às janelas, devagar… | O belo movimento em pradarias | Tão símeis aos meus sonhos — meu lugar;…

Pressinto as outonais aragens frias
No âmago e às janelas, devagar…
O belo movimento em pradarias
Tão símeis aos meus sonhos — meu lugar;

Saudosa alma silente e melancólica,
Efêmeros ocasos: meu langor…
No onírico resido e quão simbólica
A vida é n’esta gênese do alvor…

Quão índigo o pulsar do coração…
Quiçá no sopro frígido eu entenda
Qu’estou fadada a tal introversão…

Protejo-me em exílio e a minha senda
Compr’ende-me a lhaneza tão soturna
E o méleo riso e a tenra fé noturna,
A sós, sob minha lôbrega oferenda…



Leia mais
Poesias, Sonuras, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Sonuras, Existencial Sahra Melihssa

Soledade

Kalimba lacrimosa em noite fria: | Sonido de lamúria em languidez, | Se o toque lhe conduz e acaricia | Silêncios mui se prostram — placidez...

 

Foto de Sara Melissa de Azevedo

 

Kalimba lacrimosa em noite fria: 
Sonido de lamúria em languidez, 
Se o toque lhe conduz e acaricia 
Silêncios mui se prostram — placidez... 

Ouvir-te é calmaria e desalento, 
Miúdo regozijo, colo e leito, 
Conforto de pesar, sopro do vento, 
Sonura que assimila a dor do peito... 

Kalimba, quão sensível me percebo... 
Por vezes m’espaireço refletindo 
Que o mundo, porventura, é só placebo... 

 E às vezes tudo está coexistindo, 
Enquanto em minha mente um universo 
É só, pedaço ímpar, submerso, 
N’um tanto que silente vou sentindo... 

Escrito em 22 de setembro de 2024 



Leia mais
Poesias, Especial de Natal, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Especial de Natal, Existencial Sahra Melihssa

Pequenos Sinos

À noite, tilintam... | Entre a breve garoa; | E os brilhos longínquos, | Iguais se tilintam... | No firmamento sereno. | Tradições e esperanças: | Tesouros de vida,…

À noite, tilintam...
Entre a breve garoa;
E os brilhos longínquos,
Iguais se tilintam...
No firmamento sereno.
Tradições e esperanças:
Tesouros de vida,
Que assim fazem soá-la
Perenifólia,
Enquanto, o tempo,
N’ela, manso, tilinta.



Leia mais
Poesias, Sonuras, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Sonuras, Existencial Sahra Melihssa

Sê Éden

Floresça em direção ao vivo sol… | Que o lume da manhã, o gris frescor, | Conduzem quietude ao teu lençol | De cândido conforto e tenro ardor;...

Floresça em direção ao vivo sol… 
Que o lume da manhã, o gris frescor, 
Conduzem quietude ao teu lençol 
De cândido conforto e tenro ardor; 

Floresça sempre douta do qu’é simples 
Se sob a escuridão vir a ficares 
Acalma e regue as raras e absímiles 
Que fazem tu’essência de mil mares; 

Permita-se fanar quando preciso, 
É cedo crer que não renascerás; 
Adube com cautela o paraíso… 

Jardim d’esta tu’alma, então serás 
A lótus e o alvo lírio e a bela rosa, 
E as águas, teu pomar, poema e prosa… 
Silêncio-entardecer vislumbrarás. 

Escrito em 23 de agosto de 2024



Leia mais
Poesias, Sonuras, Existencial, Morte Sahra Melihssa Poesias, Sonuras, Existencial, Morte Sahra Melihssa

Sonura Aos Mortos

Memórias d’estas mil alcovas lôbregas, | Perlustro os epitáfios, os semblantes, | Há brandos anjos, murchas rosas sôfregas, | À morte: Os meus silêncios lacrimantes…

Memórias d’estas mil alcovas lôbregas, 
Perlustro os epitáfios, os semblantes, 
Há brandos anjos, murchas rosas sôfregas, 
À morte: Os meus silêncios lacrimantes… 

Epígrafes datadas de saudades… 
Soturno violino à sete palmos… 
Pretérito e futuro, ambiguidades… 
Um último versar dos raros salmos… 

Mil sonhos cujo rastro se prostrou… 
O Efêmero é, da vida, a cortesia 
Que dá sabor ao doce que amargou 

Lembrando-nos que houvera poesia, 
E mais um mausoléu longínquo conta: 
No fim aquele alvor sempre desponta”, 
Mas nunca há de brindar-nos c’o ambrosia… 

Escrito em 6 de setembro de 2024 



Leia mais
Poesias, Sonuras, Existencial, Melancólico Sahra Melihssa Poesias, Sonuras, Existencial, Melancólico Sahra Melihssa

Sonura d’Inverno

Cinéreas nuvens, frio —  e a quietude, | A fina chuva, o aroma: há sopa quente | Nos prédios, casas, lares: placitude; | Debaixo, em cobertores — quiescente;

Morning Mist Oil Painting - Eduard Panov

Cinéreas nuvens, frio —  e a quietude,
A fina chuva, o aroma: há sopa quente
Nos prédios, casas, lares: placitude;
Debaixo, em cobertores — quiescente;

A névoa esparge calma — anoitece,
Cidade, outrora célere, amansou,
E a estranha sensação que se alvorece
Da vida, é a nostalgia — que invernou;

É julho… o tempo passa e as horas vão,
E as lágrimas me regam ternamente…
Humanos esplendores, que canção!

O sono pesa as pálpebras e, à mente,
Habita as fantasias das infâncias,
Do sonho ao despertar, equissonância
É o nosso mais hermético presente.



Leia mais
Poesias, Sonuras, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Sonuras, Existencial Sahra Melihssa

Requiem aos Idos

Por vezes em meus sonhos turbulentos | Sentires do passado me retornam, | São como frágeis sombras, tenros ventos | Que espargem às paisagens que me ornam;…

 

Por vezes em meus sonhos turbulentos
Sentires do passado me retornam,
São como frágeis sombras, tenros ventos
Que espargem às paisagens que me ornam;

Aspiram, porventura, um libertar
Dos dédalos tão lúgubres da mente,
Meadas opressões, vir respirar,
Na paz da superfície do presente;

Compr’endo-os à medida em que desperto,
É símil ao fitar d’um outro alguém
Qu’em lágrimas, em prece, vê-se incerto

E enseja estar no sonho d’um outrem
De modo a amanhecer n’algum instante
A ter, então, o alívio fulgurante
Do “apenas pesadelo, nada além”.

 


Leia mais
Poesias, Sonuras, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Sonuras, Existencial Sahra Melihssa

Segredo Feminil

Tu sabes que acostuma ver que o rosto | Mui gera mais encanto que meus versos? | Que o corpo…

Tu sabes que acostuma ver que o rosto
Mui gera mais encanto que meus versos?
Que o corpo qual pertenço, se do gosto,
Por vezes oblação de olhos perversos?

Até cultivaria em mim o rancor,
Mas algo n’alm’essência minha veta,
Pois lídimo sentir tenho em fulgor
Que impede a mim tecer injúria inquieta,

Talvez minhas verdades, meu perdão,
Escondam certa mágoa, ou estranheza,
Que vela esta mi’a vaga solidão,

Que beija esta emoção de mor tristeza
Enquanto nunca sinto pertencer
Ao mundo que corrompe a absorver
Em mórbido silêncio a mi’a pureza.



Leia mais
Poesias, Sonuras, Tristeza, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Sonuras, Tristeza, Existencial Sahra Melihssa

Ao Lacrimar

Perpétuo Lacrimar, a solinura | É páramo de véus na cor marfim; | Ouvindo estás, meu cântico-tristura, | Enquanto a lira tange em silencim?…

Perpétuo Lacrimar, a solinura
É páramo de véus na cor marfim;
Ouvindo estás, meu cântico-tristura,
Enquanto a lira tange em silencim?

Tu qu’inda no sonhar do meu lamento
Perduras tão sombrífero e ardente…
Ó… vasto e quebradiço, ao léu do vento,
Orvalhas-me o contento remanente…

Est’alma é nós — condoída imensidão!
Perene Lacrimar, és meu amásio,
Conduzes desalento em algodão,

Vislumbras por cristais o teu copázio
Que tanto já transborda do manar
Que é nosso, vês, a pérola a brotar?
Pequena, orbicular, gema-calázio.

Conheça o significado de “solinura” ou “silencim” em Dicionário — Sara Melissa de Azevedo



Leia mais
Poesias, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Existencial Sahra Melihssa

O Lírio e o Lago

De modo sensível e vago | Protejo em meu peito, dorido, | Um lírio tão pulcro e um lago | Com águas de morte, contido…

De modo sensível e vago
Protejo em meu peito, dorido,
Um lírio tão pulcro e um lago
Com águas de morte, contido,
Ao lado de incerto amargor
Por onde há o semblante choroso
Que vejo n'um ninho vazio
E escrevo em papel tão poroso
Meu manto de inverno sombrio
Que sobre um cadáver feitio
Eu vejo no lago clivoso.

De modo aturdido este Lírio
Umbroso em lamúria é fissura
D'um cântico vasto em martírio
Por onde minh'alma é lagura
E, sendo, é vertida em ardor
E o líquido anil d'embriez
Deságua a regar meu florir
De lúgubre e grã profundez:
Angústia que faz meu sorrir
Tão lhano que emerge a asserir
Murmúrio em escol languidez.

De modo soturno e imersor
No Lago me habito silente
E o Lírio é meu triste candor
Um Lírio de níveo fulgor
Um Lago de eterna torrente.



Leia mais
Poesias, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Existencial Sahra Melihssa

Deste Século

Perceba que são tempos assombrosos | Àqueles cuja essência é tão sensível | Vivendo em vis…

 

Narciso (cerca de 1600) por Caravaggio (1571–1610)

 

Perceba que são tempos assombrosos
Àqueles cuja essência é tão sensível
Vivendo em vis quebrantos ominosos
Expõem-se, sem desejo, ao desprezível;

Declinam, pois, equevos, sem escolha,
Se amargam pelo vasto deslouvor
Que abriga tanto os modos quanto a folha
Por onde letra alguma tem valor

Daqueles com espelho em seus semblantes
Enquanto se assoberbam delirantes,
Aviltam-se na graça do olvidar

E erigem-se do inóculo do acaso,
Postergam a ascensão p’ra mascarar
Que estão fazendo o mundo ser mais raso
Urgindo alarde agudo sem parar.



Leia mais
Poesias, Sonuras, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Sonuras, Existencial Sahra Melihssa

Há o Silêncio

O silêncio jamais se desfalece | E mesmo o falatório que oprimindo | Recua-o a si mesmo restringindo | Não o faz menor, pois mais o engrandece;…

 

Silence, 1800 - Henry Fuseli (Swiss, 1741–1825)

 

O silêncio jamais se desfalece
E mesmo o falatório que oprimindo
Recua-o a si mesmo restringindo
Não o faz menor, pois mais o engrandece;

Tal aura soberana é permanente
Detrás de todo o som vai se expandindo
É como um universo advertindo:
"Cingindo o tudo eu sou onipresente";

Terrífico mistério, mas bem-vindo
Seria aos deuses, pois, equivalente?
Quiçá maior e então antecedente?

Estariam a verdade omitindo?
Que o tal silêncio é a eternidade
Princípio, meio e fim - totalidade
Razão de ainda estarmos existindo.

Leia mais
Poesias, Existencial, Morte Sahra Melihssa Poesias, Existencial, Morte Sahra Melihssa

Epílogo

Noturno — o silêncio — em sinfonia, | Às notas vagarosas como rios, | Escuto adormecida — a astenia | Do corpo embriagado em mil vazios; | O pêndulo — as horas — sem sentido...

 

Victor Gabriel Gilbert (1847 - 1933) - Resting, c.1890

 

Noturno — o silêncio — em sinfonia,
Às notas vagarosas como rios,
Escuto adormecida — a astenia
Do corpo embriagado em mil vazios;

O pêndulo — as horas — sem sentido...
A morte e a vida — canto de ilusão;
A fé — a lua — o âmago dorido
E a tênue linha desta solidão;

A dúvida — o preço — despertado
Os olhos sobre o teto imaculado,
O vento me assovia — a tempestade...

Terceiro movimento, inquietante...
O Gran Finale então — apaziguante;
Concerto da existência à finidade.

Leia mais
Poesias, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Existencial Sahra Melihssa

Espiral

Saber-me-ei | ao luzir do devir, | nos amanhãs, | turvos outroras…

Saber-me-ei
ao luzir do devir,
nos amanhãs,
turvos outroras
tão meus.

Leia mais
Poesias, Sombrio, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Sombrio, Existencial Sahra Melihssa

O Chamado

Ó fardo este infinito penumbral | Uivando seu silêncio que me amarga | Às vísceras, o medo sepulcral, | Isola-me na prece - minha adarga; | Serena imensidão, revela o peito,…

 

Nicola Samorì, Valle umana (Malafonte), 2018

 

Ó fardo este infinito penumbral
Uivando seu silêncio que me amarga
Às vísceras, o medo sepulcral,
Isola-me na prece — minha adarga;

Serena imensidão, revela o peito, 
Debaixo desta noite, sussurrando
Que os ares tão sombrios são-me o leito
O qual hei de jazer-me suplicando;

Mas como eu poderia imaginar
Que os ventos do obscuro abominar
Buscavam servilismo etéreo e pleno

E n’ávida aflição que estive tanto
Tangível me rendi regada ao pranto
Tomei do algar das sombras o veneno.

Leia mais
Poesias, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Existencial Sahra Melihssa

Pensares Nímios

Buscar-se n’água oculta — negro mar — | que jaz nas curvas desta mente insana, | parece tanto eterno — infindo lar — | dos vastos pensamentos…

 

Nicola Samorí

 

Buscar-se n’água oculta — negro mar —
que jaz nas curvas desta mente insana,
parece tanto eterno — infindo lar —
dos vastos pensamentos — como engana!

Sei lá se cá me entendo os versos pálidos
ou s’esta solidão interna chora,
eu sei somente as noites de ouros cálidos
que são-me só um raro sonho, embora…

O sol luzindo — vês? — em lua nova
é como respirar além da alcova
de ser-se humano assim — fado imortal;

Pretendo, em jura, não deixar que o peito
faleça pelo excesso de afeito
enquanto o vil sentir me faz brumal.

Leia mais
Poesias, Existencial Sahra Melihssa Poesias, Existencial Sahra Melihssa

Âncora Anfêmera

Na âncora anfêmera | Há tempos estática | Fiz-me uma ínsula | Meu céu é translúcido | Longínquo observo | Sangra a chuva em torrente | Se alastra o declínio…

'Alone in the World', Jozef Israëls, 1878

Na âncora anfêmera
Há tempos estática
Fiz-me uma ínsula

Meu céu é translúcido
Longínquo observo
Sangra a chuva em torrente

Se alastra o declínio
Na atmosfera de outrem
Às suas ínsulas sucumbidas

Na âncora anfêmera
Não há tempo
E de tão constante
Exausta está a comoção

Enquanto corpos isolados
Esquecem do calor
Cuja aproximação, e só ela,
Saberia lembrar. 

 
 
Leia mais