Agoníria
N'alcova em solinura eu m'afligia, | Terror de pesadelos: abundante! | Nesta umbra-consciência algo plangia | Em mórbido sonar arrepiante...
N'alcova em solinura eu m'afligia,
Terror de pesadelos: abundante!
Nesta umbra-consciência algo plangia
Em mórbido sonar arrepiante.
O choro era vazio e aterrador
Mas nunca o despertar me bem-dizia;
Cruel me simulava — Ó vil horror! —
No cômodo em bizarra noite fria;
Eterno retornar do lacrimar
A cada um só segundo mais agudo
Refém d'um hediondo ilusionar
N'alcova, condenada sobretudo,
E quando finalmente a me surgir
O sol duma manhã, meu grão-vizir,
Um logro — qu'inda durmo em meu veludo.
Escrito em 20 de agosto de 2024
Agoníria (substantivo poético feminino): Pesadelo sufocante que ilusionar o despertar para enganar a mente e mantê-la aprisionada no plano onírico.
Sínfora d’Envocação
As treze sinfonias tocarão | Ardor da Morte pútrida — evocada | De face em fleuma — sopro de aguilhão | Um canto de langor à dor cessada;...
Marino Lenci
As treze sinfonias tocarão
Ardor da Morte pútrida — evocada
De face em fleuma — sopro de aguilhão
Um canto de langor à dor cessada;
Allegro em tumular sigilo oculto
Das letras, valsa a Lúcifer, o anjo
— Adagio, uma sonura que sepulto
Em rosas escarlates n’um arranjo;
Então, no silencim, às três do alvor
No círculo uma lírica sonante
Minuetto raro emerge em esplendor
Erguendo-se, finale, tão flamante
Em sangue, era o Diabo, estupefato!
Colérico! Esclareço: “Foi o gato!
De negros pêlos, olhos rutilantes!”.
Escrito em 31 de agosto de 2024
Sínfora (substantivo feminino poético): Sinfonia macabra. Composição musical para orquestra, em formato de sonata, com teor obscuro e sombrio.
Enquanto no convés observava | Revolto o mar estranho parecia, | A negra tempestade se agravava, | Um som horripilante s’espargia…