Murmúrio
Debaixo d’esta vil tristura | Habito a imensa estafa | E ébria eu n’esta loucura | O vinho me sobra à garrafa; | Estou em delírio, fissura, | O perfume que sinto exala…
Noturníesis - Ode
Doce noite tão soturna canta | Como o flúmen verte o pranto santo | Mui serena aquece em negra manta | Doce noite... tenra... triste encanto... | Leva sonhos para o lado escuro…
Outono no.1
Eis, por fim, o Outono... | Frígidas manhãs, | noites de abandono | de todos os afãs; | Das estações: | o sentido; | Do ser, emoções, | de imo luzido;…
Ecos Exíguos
Nobres fugas demais humanas | nascentes às estações - impróprias, | o Ser pelos átimos d'aspiração, o ser | pelos vazios tão íntimos, tardios | e iguais…
Cinzas Feminis
Queimada estivera | nos tempos d’outrora | quando o homem da era | salvá-la, ó, Pandora, | jamais, vil, quisera;…
Galardão para minha humanidade
Corpo em vasta poética e flamância | Girassóis escolhidos, mente sã, | Ouço o lago dos sonhos de mia infância… | Ó Verão, dê-me o doce da maçã!…
Memórias da primeira grande guerra
Ao leito que me tem há tantos anos | conto as áridas noites do passado, | jamais trarão sereno sonho alado | meus ares tão perdidos, levianos;…
Suave Lamúria
Lua nívea e cinérea | Tua penumbra m’encanta | Ó, ao Sol, tão etérea! | És puríssima manta; | Teu tenro alumbrar | Feito para o semblante | Não alcança o olhar…
Árduo Ponderar
N'algum lago entre arvoredos | O encontrar da permanência | Das alvas cores da quietude | O orvalhar-se em alvorada;…
Duro cárcere, sombras da minguança…
Vês que o riso prevê dificuldades | Quando os dias desabam friamente | Mesmo em ápice, a glória, descontente | Não desfaz emoções das finidades,…
É destino a aspereza de minh’alma
Negra e rútila seiva de inquietude | vinda deste silente enfraquecer, | mostre o ser que me habita em completude…
Insônia
Ruas frígidas, Paris? | Meu caminho de sonhos | Vil tristura, céu gris | Tudo morto e medonho; | Flores plúmbeas, perfume, | Choro calmo e infeliz | Olho a chuva negrume…
Quanto o tempo resiste na memória?
Ó, dos féis que amarguram o meu cerne | estes ventos pretéritos estão, | pois me guiam n'outrora que concerne | às belezas que nunca voltarão, | mesmo sempre almejando que se eterne,…
Egressão
Comparar-vos jamais, em sentidos, | co'os carvalhos mirrados no ermo | ou co'os vultos, na encosta, doridos | em retorno infindável do enfermo;…
Melancolia de Verão
Delgado violino de Nunquam | Às sombras d'esta oca amargura | Fizera florir aelinos-nūsquam | Rebentos de constante tristura; | "Nas venturas ternuras virão"…
Leleenvenur
Tens a beleza d'esta chuva | Trazes frescor e bom abrigo | De vida, flora, verde-uva, | Tens uno amor para comigo; | Perfume teu é rio de luzidio | Que como véu às terras úmidas…
Neesme
Pequeno como um ínfimo grão | Esplendores de fleuma inefável | Na deslumbrante imensidão | Sonha à nuvem do inestimável; | Entona toda a bela tristura…
Mal Devenir
Aflitos estão, mergulhados n'ausência | dormindo no véu do sonhar nebuloso | guiando o viver na ilusão-reticência, | cativos, em vão, do torpor deleitoso…